quarta-feira, 2 de junho de 2021

Desconstruir a desmontagem

(Desmontagem 1)

(Desmontagem 2)


Este foi o campeonato em que as equipas técnicas (é assim que se diz agora, não é?) adversárias desmontaram sucessivamente a equipa do Sporting sem, no entanto, a conseguirem contrariar. A forma assumida pela desmontagem no processo levar-nos-ia para devaneios mais longos e muito menos interessantes que, por exemplo, a suspensão imposta agora a Sérgio Conceição no término das sucessivas desmontagens (embora contrariadas), e cumprida nas férias. Como toda a gente sabe, ir de férias é um castigo que consta na declaração universal dos direitos do treinador, desde que este tenha as qualificações necessárias.

As sucessivas desmontagens (embora contrariadas - este ponto parece-nos importante) da equipa profissional do Sporting, impostas por equipas técnicas do mais fino quilate, e devidamente credenciadas, foram sancionadas pela sapiência e largueza de horizontes futebolísticos de vários quadrantes, incluindo comentadores com formação completa em desmontagens e curso de treinadores por correspondência, ainda assim bem mais qualificados que Rúben Amorim, como ficou demonstrado. Joaquim Rita mostrou (mais uma vez) olho de lince para a coisa, e Ribeiro Cristóvão revelou muitas vezes a sua sagacidade. Mesmo Rui Pedro Braz que, segundo consta, está perto de entrar na estrutura benfiquista (como se alguma vez tivesse estado longe) revelou-nos a sua experiência em desmontagens, desde que não sejam para os lados da luz.

O próprio presidente da APAF, o credenciado José Pereira, foi-se revelando um amante das desmontagens, ao ponto de querer o candidato a treinador Amorim fora da área técnica, e se possível do planeta terra.

Terminado o campeonato, a desmontagem da equipa do Sporting continua, desta vez às peças. Segundo órgãos (bem informados) da comunicação social e das redes, todos os dias uma peça vai à vida: primeiro era o Nuno Mendes, depois o Pote (o Pote foi várias coisas na última semana), depois ia o Feddal, o Plata, o Jovane, o Palha, hoje vai à sua vida o Matteus Nunes, em troca de um maço de tabaco e um vídeo da bolha dos adeptos ingleses no Porto. Por este caminho não teremos jogadores para o ano e assim já não será necessário desmontar nada, porque não haverá nada para desmontar. E assim será mais difícil, por sua vez, contrariar a desmontagem. 

De resto, para além da desmontagem em curso, dá pena ver o castigo ao Conceição, exilado compulsivamente na Madeira, sendo ainda de salientar um milagre chamado Rafa na seleção Nacional, apenas possível pela grande devoção de Fernando Santos. Vai ser espectacular este defeso…

 


domingo, 30 de maio de 2021

Homenagem aos golos que não o foram

A época do Sporting foi de tal forma próxima da perfeição que não é fácil fazer um balanço, escolher os melhores momentos ou os mais decisivos. Imaginar em Agosto de 2020 que uma equipa com reforços desconhecidos ou duvidosos, uma direção em guerra com as claques, um clube com feridas abertas do passado, liderado por um treinador sem formação para tal e com vários jogadores inexperientes pudesse catapultar o Sporting para uma época brilhante.

Talvez por isso mesmo vou tentar uma abordagem diferente. Em vez de recordar os muitos golos importantes da época - onde haveria lugar, por exemplo, para um do esquecido Vietto, vários inesperados de Coates e um par deles de um insuspeito Matheus Nunes - proponho refletir sobre os golos que não o foram.

Na minha opinião houve três momentos que foram particularmente marcantes, todos eles muito diferentes. Como não consigo ordená-los por importância, vou abordá-los por ordem cronológica.

O primeiro golo que não o foi teve por protagonistas o Coates e o Luís Godinho, árbitro que tinha tido um brilhante desempenho no Sporting - Porto cerca de um mês antes. O lance ocorre ao minuto 90 e nasce de um pontapé de saída, o Sporting havia acabado de sofrer o empate, mas não se 'ficou': bola para um lado, para o outro lado, cruzamento de Porro e golo de Coates. Godinho decidido valida o golo (tal como no Sporting - Porto assinalou falta, grande penalidade e vermelho), VAR chama Godinho por causa de um pequeno toque (que existiu, tal como no Sporting - Porto) e Godinho ao ver as imagens decide exatamente ao contrário que havia decidido no Sporting - Porto (afinal o pequeno toque desta vez contou). E assim se perdiam 2 pontos, mas ganhava um slogan, uma ideia, uma ambição. A partir daqui para onde foi um foram todos, numa viagem que só acabou no Marquês (e em tantas outras praças e ruas deste país e de muitos outros!).

O segundo lance nada tem a ver com este, até porque a bola nem chegou a entrar na baliza. Ocorreu já passado quase meio campeonato no Estádio do Dragão, num jogo em que o Porto precisava desesperadamente de ganhar. Depois de uma primeira parte morna, o Porto entrou com tudo na segunda parte e parecia estar a 'encostar o Sporting às cordas'. Até que aos 73 minutos o Matheus Nunes desata a correr de baliza a baliza e falha por centímetros um golo que seria penalização excessiva para um Porto perdulário. Não sabemos se foi pelo susto de uns ou pela confiança de outros, mas a verdade é que a partir daí houve mais uma clara oportunidade para o Porto (logo no minuto seguinte) e o jogo voltou à temperatura da primeira parte. Depois deste empate já só o Amorim conseguia pensar jogo a jogo!

Mas as coisas não haveriam de ser assim tão fáceis (o Amorim tinha razão em pensar jogo a jogo). Depois de vários jogos ganhos no limite, lá veio um em que o limite se virou ao contrário e acabámos empatados no último minuto. Como seria previsível a equipa tremeu e chegou a Faro a um mês do fim do campeonato a jogar contra uma equipa que desesperava por pontos. Quem achou que o Sporting sofreu para sair a ganhar ao intervalo mal podia imaginar o que seria a segunda parte, com o Farense a entrar muito forte. Aos 53 minutos Pedro Henrique isola-se e, num bom movimento técnico, tem um penalty em movimento a que Adán responde com uma defesa tão fabulosa como decisiva. Ainda houve mais oportunidades de parte a parte, mas este lance sem dúvida que deu muita alma ao Sporting, que assentou defensivamente e arrancou a ferros o muito necessário regresso às vitórias.

Haverão certamente muitos outros momentos importantes mas espero que recordar estes ajude a reforçar ainda mais o sorriso que persiste na cara dos Campeões de verde e branco!

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Não havia necessidade

Tinha afirmado que não perderíamos o campeonato antes do seu final, não imaginando, no entanto, que o pudéssemos ganhar. Ora, a expetativa não era a de burocraticamente ver mais dois jogos, com o Rúben Amorim a fazer deles a pré-época que ainda não começou. Um deles era contra o Benfica e existe sempre a expetativa sobre quem vence a taça da segunda circular [quantas e quantas épocas não nos limitámos a disputar com denodo esse magnífico troféu à falta de melhor!]. Entre os sportinguistas havia uma grande discussão entre os que preferem ganhar campeonatos sem qualquer derrota e outros que tantos se lhes dá desde que sejam campeões. Entre os benfiquistas a expetativa era grande dada a possibilidade de virem a fazer a melhor segunda volta de todas as equipas do campeonato, troféu também muito cobiçado, logo a seguir ao da segunda circular. 

O jogo não defraudou as expetativas [há anos que não recorria ao verbo defraudar e sinto que a semântica de algumas destas crónicas ficou empobrecida]. Assistiu-se a um belíssimo solteiros contra casados ou vice-versa com um resultado escasso, muito escasso. Como verificámos este fim-de-semana, marcar golos no hóquei em patins constitui tarefa bem mais árdua, sendo a baliza das pequenitas com um guarda-redes metido lá dentro de cócoras. Dois ataques e três corridas depois de se iniciar e o jogo estava partido. Ninguém marcava ninguém e o Cebolinha parecia o Chalana e o Pizzi o Bruno Fernandes. Meia-hora de jogo e estávamos a perder por três a zero. Nada que angustiasse o Pedro Gonçalves que antes de acabar a primeira parte ainda teve oportunidade de fazer mais um passe para a baliza e marcar mais um golo, só para chatear o Seferovic, que estava com a mania de que era avançado e marcava mais golos do que os outros.

Na segunda parte, o Rúben Amorim tentou levar o jogo um pouco mais a sério, tirando o João Pereira e o Daniel Bragança, metendo o Palhinha e o João Mário e colocando o Matheus Nunes a lateral direito. Para que não houvesse dúvidas que não estávamos a levar o jogo completamente a sério, oferecemos o quarto golo, com o Matheus Nunes a enganchar uma perna numa perna do Grimaldo, a fazer “penalty” e o Seferovic a marcar com toda a fossanga. Quem não gostou nada desta situação foi o Pedro Gonçalves que desatou a jogar como se não houvesse amanhã. Primeiro atirou ao poste, depois fez o passe ao segundo poste para o Paulinho meter dentro e o Nuno Santos marcar e acabou por marcar o terceiro golo de “penalty”, como o Seferovic, com a vantagem de ter sido sobre ele a falta. Nos últimos minutos o Rúben Amorim ainda fez de conta que queríamos dar mesmo a volta ao jogo, colocando o Coates na frente, a ponta-de-lança [quando todos sabemos que o Paulinho chega e sobra para as encomendas]. No fundo, no fundo, o que ele queria, o que todos queríamos era ir ver o hóquei em patins, onde havia um título, um título a sério para ganhar. 

O meu amigo Júlio Pereira tem uma visão mais conspirativa deste jogo. Depois de estar a ganhar por quatro a um, se empatássemos, o Jorge Jesus não se aguentava para a próxima época e todos sabemos que o Benfica precisa muito de gastar mais uns cem milhões de euros para preparar convenientemente a pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Não me interessa tanto a razão deste jogo mas a sua oportunidade. O título estava ganho, havia o hóquei, qual era a necessidade? 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Entre o acontecer e o não acontecer

Na terça-feira, jogava-se o jogo pelo qual esperava há dezanove anos. Em bom rigor, só no final sabia [e soube] que era o que esperava. Durante estes anos, outros jogos houve que podiam ser como este, o jogo por que tanto esperava. Não eram ou acabaram por não ser porque acontecia Sporting. Sporting também é nome próprio de qualquer acontecimento natural ou sobrenatural desde que disponha de duas características relacionáveis: elevada improbabilidade e impacto profundamente negativo no Sporting como equipa ou clube de futebol. Há vários exemplos: o falhanço a um par de metros da linha de baliza do Bryan Ruiz na época de 2015/16, a falta do Luisão sobre o Ricardo na época de 2004/05 ou o golo marcado com a mão pelo Ronny – jogador do Paços de Ferreira – na época de 2006/07. 

Um sportinguista experimentado pressente quando pode acontecer Sporting e na terça-feira os sinais não deixavam margem para grandes dúvidas. Os sinais começaram cedo, logo na primeira parte. Pressão alta, Feddal a antecipar e a ganhar a bola, Nuno Santos a partir à desfilada com ela até a chutar, de longe, contra o poste. Canto do lado esquerdo, centro do Nuno Mendes e cabeceamento ao lado do Paulinho. Pedro Porro a respeitar a desmarcação do Pedro Gonçalves e a meter-lhe a bola para ele pressionado rematar fraco, fraquinho, acabando a passar ao guarda-redes. Jogada do lado esquerdo do Pedro Porro que vai metendo para dentro, à procura do melhor momento para rematar, até o conseguir e a bola embater num defesa e deixar o João Mário completamente isolado que remata ao lado. Nuno Santos e Nuno Mendes engendram um ataque pelo lado esquerdo com o segundo a rematar à barra. Outro canto do lado esquerdo, novo centro do Nuno Mendes e Gonçalo Inácio a entrar ao primeiro poste e a cabecear ao lado. 

Subitamente um sinal contraditório: Feddal a lançar comprido para o João Mário que avança, flete para o meio, dá de caras com dois adversários, rodopia para o lado contrário e mete a bola no Nuno Santos que, isolado do lado esquerdo, a centra para o meio onde estava o Paulinho a encostá-la com a canela para a baliza. Um pouco mais tarde, novo sinal: jogada do Boavista pelo lado esquerdo do ataque, centro rasteiro para a entrada da pequena área, remate de primeira de um avançado para o lado direito do Adán quando este se deslocava para o seu lado esquerdo e defesa instintiva com a mão. Talvez não fosse acontecer Sporting, talvez!

No início da segunda parte, os sinais de que ia acontecer Sporting voltaram com maior intensidade ainda. Excelente tabelinha entre o Nuno Mendes e o Paulinho com este a acertar com a bola no guarda-redes na marcação de uma “penalty” em corrida. Bola metida pelo Pedro Gonçalves para magnífica desmarcação do Paulinho que demora tanto, mas tanto a tentar dominar a bola com o pé direito para a passar para o pé esquerdo que acaba por a rematar contra as pernas de um defesa. Nova jogada do Pedro Gonçalves pelo lado esquerdo, centro para a pequena área e o Paulinho a meio metro da baliza a acertar de raspão com a cabeça na bola e a fazê-la passar ao lado. Desmarcação do Pedro Gonçalves para as costas da defesa, passe perfeito do João Mário e remate ao poste. Nova desmarcação e novo “penalty” em corrida marcado pelo Paulinho, agora por cima da baliza. Paulinho, sempre o Paulinho a procurar que acontecesse Sporting. Tão pouco tempo no clube e já uma elevada compreensão do destino, do seu destino. 

A equipa estava a jogar bem e o Rúben Amorim hesitava e não fazia substituições, quando havia jogadores que não podiam com uma gata pelo rabo. Faltava que os jogadores do Boavista fizessem o que era suposto fazer para que acontecesse Sporting. Os minutos foram passando e nada, não havia maneira de acontecer Sporting. Pela minha cabeça ia passando o pior: o golo do Boavista, a derrota contra o Benfica e um último jogo contra o Marítimo a fazer reviver velhos fantasmas. O jogo acabou e não aconteceu Sporting. Será que não aconteceu Sporting ou não aconteceu de todo? Somos campeões? 

quarta-feira, 12 de maio de 2021

domingo, 9 de maio de 2021

Súbita urgência

 

Estranho: são cerca de dezanove horas e trinta e tal minutos do dia nove de Maio de dois e vinte e um. É domingo. O Sporting joga na próxima terça-feira por volta do jantar. Antes de terça-feira, bem o sabemos, é segunda-feira, e joga o Porto com o Farense. Consta por aí que cheira a festa. Nunca se sabe. É jogo a jogo. Estranho, digo eu, ainda não saiu mais nenhum castigo para o Rúben Amorim: nem uma multa por estacionamento proibido junto ao banco de suplentes durante um treino? Nada sobre um potencial casaco mal abotoado? Um olhar percorrendo um beco sem saída? Vou ver as notícias, de certeza que há por aí qualquer coisa.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Acabar com este martírio

Não estou preparado para isto, isto de ganhar campeonatos [escrevo “ganhar” e penso se não seria mais adequado recorrer a expressão mais neutra, como “disputar”]. As últimas semanas tornaram-se num martírio. Sofri a bom a sofrer nos três empates quase seguidos, com o Moreirense, o Famalicão e a B-SAD, e desisti, não vendo o jogo contra o Braga. Ganhei coragem e regressei contra o Nacional. Aguentei a primeira parte e desisti também. Contra o Rio Ave nem tentei, nem um “zapping” para amostra. Acabado jogo e conhecido o resultado, ouço o Joaquim Rita afirmar: “O Sporting teve uma entrada leonina!”

Quando se ouve uma afirmação como esta fica-se com enorme curiosidade. Ontem, fui à procura da gravação do jogo e vi-o. Não, não é a mesma coisa que ver em direto. É um género de massa com frango do dia anterior aquecida no micro-ondas. Não estamos a jogar também, estamos a ver sabendo como tudo acaba [e acaba bem]. Não vale a pena mudar de canto do sofá ou trocar uma camisola puída do campeonato 1999/2000 por uma outra não menos puída do campeonato 2001/2002. É ver e burocraticamente tomar umas notas mentais para não menos burocraticamente escrever este “post” como mais uma página de um diário de bordo. 

Se as entradas do Sporting são leoninas por definição, desta vez também o foram por ação. Até ao primeiro golo, foi um massacre. As oportunidades sucediam-se aos pares, cada remate originava uma recarga, e no meio desta avalanche, de defesas improváveis e de bolas nos postes, o Rio Ave ia-se safando como podia. A equipa pareceu mais solta e mais dinâmica no ataque [até cansa de ver jogar o Pedro Gonçalves], pressionando bem na frente e deixando o adversário com poucas alternativas que não fosse a de se ver livre da bola para onde estava virado. Um a zero ao intervalo foi pouco, muito pouco. 

Na segunda parte, o Rio Ave resolveu fazer pela vida, colocando o nosso Mané [salvo seja] na frente e o nosso Coentrão [salvo seja também] mais atrás, do lado esquerdo, a fazer os lançamentos. Nós entrámos desconfiados, hesitantes e mais recuados, dando a iniciativa de jogo. Do lado direito da defesa, com o João Pereira sob pressão, temia-se o pior. O Rúben Amorim acordou para a vida, tirou o Nuno Santos [que saiu com cara de pouco amigos] e meteu o Matheus Nunes a fechar o lado direito do meio campo. Passado uns minutos, na sequência de um livre no nosso meio campo e de mais uma tentativa de desmarcação do Pedro Gonçalves nas costas da defesa, a bola é aliviada para a entrada da área, o Paulinho domina-a no peito, coloca-a no chão, enfia-lhe uma pantufada com o peito do pé, não dando quaisquer hipóteses de defesa ao guarda-redes [um golo à Ronaldo ainda antes de chegar o Ronaldo]. O resto do jogo foi o cumprimento da necessária formalidade de se jogar noventa minutos. O Rio Ave nem próximo esteve de criar uma oportunidade e nós, por isto ou por aquilo, acabámos por não concluir devidamente uns tantos contragolpes. 

Entretanto, o Benfica empatou-se e, ao empatar-se, empatou o Porto também. Estamos a dois pontos da vitória no campeonato, quando faltam três jornadas. Como é que foi possível chegar até aqui? Como é que isto se tornou sério e a sério? É importante acabar com isto [isto é aquilo que referi inicialmente] e quanto mais depressa melhor, para cada um voltar à sua vida, sem ansiedades, voltando a ver jogos sem a pressão de ter de os ganhar e a dizer mal dos jogadores e dos treinadores. 

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Vai ser um trinta-e-um?

 

Já foi. Ontem o Sporting cumpriu trinta e um jogos seguidos no campeonato sem perder. Noutros espaços clubísticos seria um acontecimento estratosférico digno apenas de deuses do Olimpo; mas como se trata de um grupo de jogadores jovens (até o João Pereira rejuvenesceu) dirigidos por um treinador pouco graduado (mas muito perseguido e que quando sair para outras latitudes será genial), tudo não passará de um momento (longuíssimo, diríamos), de estrelinha (uma constelação!), de um paio do lombo em constante gestação.

A questão da desmontagem da equipa do Sporting continua o seu curso. Miguel Cardoso mostrou mais uma vez como é fácil desmontar a equipa do Sporting sem a (conseguir) contrariar. A teoria do puzzle (que acabamos agora mesmo de inventar) demonstra como é simples desmontar um puzzle de 2000 peças (por exemplo), e depois arrancar os cabelos e algumas das unhas dos pés no desespero de não o conseguir montar, mesmo contrariado.

A desmontagem de uma equipa não é nunca acompanhada de uma folha de instruções adaptável a cada situação, e sendo o futebol um jogo em que as peças se movem sozinhas, ao contrário das damas, ou mesmo do dominó, podemos sempre ser surpreendidos pela forma como a equipa previamente desmontada joga. Foi isso que ontem aconteceu em catadupa durante a primeira parte de um jogo que, aos quinze minutos, poderia ser de confortável vantagem para a equipa constantemente desmontada.

Desconfiados, os jogadores da equipa da casa (uma equipa que normalmente tenta jogar futebol), não percebiam porque raio o campo estava tão pequeno, já que os jogadores da equipa previamente desmontada apareciam sempre em cima do acontecimento. Estariam a jogar em vantagem numérica? Seria aquilo a tal intensidade? Resultaria apenas de uma vontade indómita? Treinar-se-á o acreditar? Vários jogadores da equipa de casa (que gostam de jogar futebol) já se escreveram em cursos de coaching e psicologia positiva, esperando-se um verão de estudo intenso. Ao intervalo o resultado era lisonjeiro para os estudiosos perplexos da equipa da casa.

No segundo tempo, Cardoso, após desmontar a equipa adversária, desmonta também a sua, e volta a montá-la com uma peça fora do puzzle: Mané. Amorim, sem dúvida inspirado pela visionária acção do oponente, rapidamente montou algumas das peças desmontadas, valendo-se de um novo carburador: Matheus Nunes. Foi com a naturalidade dos audazes que o Sporting chegou ao dois-a-zero pelo Paulinho. Um grande golo que ele já merecia, sendo a par de Palhinha (voltou a encher o tal campo aparentemente pequeno) e de Coates, os grandes protagonistas da noite, sem exclusão de nenhum dos outros. O Sporting não tem estrelinhas, mas lá que parece uma constelação, parece.

terça-feira, 4 de maio de 2021

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Maus do pior e filmes a preto e branco

Nos tempos gloriosos da televisão a preto e branco, vi filmes atrás de filmes com o James Cagney a fazer papel do pior dos maus [tenho memórias mais presentes do que do Humphrey Bogart, por exemplo]. Depois do jogo do Porto contra o Moreirense, vieram-me à memória esses filmes e esse ator. Não, nada disso que estão a pensar, não existem semelhanças, nas histórias ou nas representações. Vieram-me à memória os tempos dos filmes a preto e branco, tão-só. 

Se assim vieram, assim se foram as memórias e acabei por me mobilizar para ver o jogo contra o Nacional. Ao intervalo, os jogadores do Nacional já tinham cerca de vinte faltas para um só amarelo, dois deles deviam ter sido expulsos [um por agressão ao Daniel Bragança e outro por entrada a pé juntos sobre o Nuno Santos] e deviam ter sido marcados dois “penalties”. Não, não estava nada à espera de voltar a recordar-me de James Cagney e de filmes de mauzões.

Procurando manter a sanidade mental, deixei de ver o jogo ao intervalo. No final, vi o resumo e as conferências de imprensa do Rúben Amorim e do Manuel Machado. Os jogadores do Nacional ainda conseguiram fazer mais uma dezena de faltas e terá ficado mais um “penalty” por marcar, após agarrarem o Coates como é prática corrente, jogo após jogo. Mesmo assim ganhámos, valendo-nos o Jovane Cabral desta vez e o habitual onde vai um vão todos a partir dos oitenta minutos. 

Voltei a lembrar-me dos filmes a preto e branco quando ouvi o Manuel Machado: sim, segundo ele, os do Nacional são filhos de um Deus menor. Gosto de maus mesmo maus, como o James Cagney, maus que não se queixam, que não se desculpam com os outros, que não são sonsos, que fazem maldades e se orgulham das maldades que fazem, simplesmente. Contra o Rio Ave vão continuar os filmes a preto e branco e os maus, mas uns maus tão maus a ser maus que resta saber se a culpa ainda não vai ser nossa, para não variar.   

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Normal anormalidade ou anormal normalidade?

Não vi o jogo contra o Braga. Não vi porque não quis ver. Não ando bem-disposto e o futebol ainda mais mal disposto me deixa. Artur Soares Dias, o homem que impediu a vitória contra o Famalicão após ter vislumbrado pela televisão um ligeiro roçagar do braço do Coates num borboto da camisola do guarda-redes, era uma garantia de que mais bem-disposto não ficaria. Estava enganado, o homem trocou-nos as voltas e ao trocá-las trocou-as ainda mais aos do Braga, foi assim que entendi a conferência de imprensa de Carlos Carvalhal.  

O Braga estava a jogar belissimamente nos primeiros vinte minutos, quando estavam onze contra onze, com oportunidades atrás de oportunidades. Vem Artur Soares Dias e zás, expulsa o Gonçalo Inácio, e quebra a hegemonia até então do Braga. Viam-se os jogadores do Braga a gesticular e a apontar para outro jogador como responsável pela falta, incrédulos, sem nenhuma vontade de ver expulso o Gonçalo Inácio e de jogar contra dez quase oitenta minutos. Como nos explicou o treinador do Braga, jogar contra o 5x4 ou o 5x4x0 do Sporting não é para qualquer um: é preciso andar com a bola de trás para a frente e de frente para trás, rodear a defesa, jogar entrelinhas e mais outras coisas igualmente difíceis.

Foi difícil, muito difícil para o Braga, que só conseguiu criar dez oportunidades de golo, segundo Carlos Carvalhal, muito aquém do potencial da equipa quando joga contra onze e não contra dez, deduz-se. Era também a isto que se referia Pinto da Costa a propósito da normalidade e da sua relação com a previsível vitória do Porto no campeonato. Em condições normais, onze contra onze, o Braga teria ganhado ou não fosse a equipa que melhor joga em Portugal. Em condições anormais, a vantagem é desvantagem, onze parecem dez e dez parecem onze, e tudo se inverte, tudo fica de pernas para o ar, como é característica da anormalidade. 

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Até ao fim

O Sporting corre o risco de não ganhar o campeonato, foi o que mais ouvi e li ontem e hoje, depois do empate contra a B-SAD [uma equipa de futebol sem adeptos com nome de laranjada]. Nos últimos jogos, a equipa apresenta um jogo empastelado, com muita troca de bola atrás e no meio e pouca capacidade de gerar desequilíbrios ofensivos, diz-se também. Onde é que está a novidade? A novidade é que corremos o risco de perder o campeonato em maio na pior das hipóteses. Essa é a novidade, pois o que estamos habituados é a correr o risco de o perder e a perdê-lo muito antes, muitas vezes antes de se iniciar. Quanto ao estilo de jogo, o que mudou é que nos últimos quatro jogos sofremos quatro golos, uma média de um por jogo, abaixo do desempenho até então. No passado goleávamos por um a zero e agora um golo [ou dois, como ontem], não chega para ganhar.    

Ontem não começámos mal, bem pelo contrário, mas, primeiro tiro, primeiro melro, para a B-SAD. Biqueirada para a frente [para tirar a bola da zona de pressão, como dizem os atuais entendidos do futebolês nacional], bola ganha na lateral, Gonçalo Inácio não pressiona como deve, Palhinha distrai-se e não acompanha a desmarcação nas suas costas, Coates vem à dobra e a bola passa-lhe pelo meio das pernas [tendo as pernas praticamente fechadas], Matheus Reis chega tarde e não se consegue antecipar e um avançado limita-se a encostá-la para a baliza. Continuámos como se nada fosse e criámos um par de oportunidade [o Tiago Tomás tem de aprender a acertar na baliza mesmo quando remata de olhos fechados], com o João Mário a falhar um “penalty”, para colocar a cereja em cima do bolo da primeira parte.

Ao intervalo, sai o Tiago Tomás e entra o Nuno Santos, iniciando-se a segunda parte com mais velocidade e intensidade e mais um par de oportunidades falhadas, com o Palhinha voltar a ganhar de cabeça nas bolas paradas e a não marcar. Mas um azar nunca vem só e novo tiro, novo melro, para a B-SAD, agora com elevada nota artística do Adán, que foi assolado por quatro ideias ao mesmo tempo para se desfazer da bola e, depois de um curto-circuito nas sinapses, acabou por a deixar direitinha para um avançado a voltar a encostar para a baliza. Dois remates à nossa baliza e estávamos a perder por dois a zero. Há quem chame a isto eficácia, tendo a chamar-lhe galo, conceito que tem vindo a ser desenvolvido nas universidades mais prestigiadas do mundo. 

Perdido por cem, perdido por mil, entrámos no modo onde vai um, vão todos, com o Coates a ponta-de-lança, o Tabata e o Nuno Santos abertos nas alas, o Jovane um pouco mais atrás, o meio-campo entregue ao Bragança e ao Pedro Gonçalves e o Nuno Mendes e o Matheus Nunes transformados em centrais para melhor se transportar a bola para a frente. Atacando a toda a largura, o B-SAD teve de se ajustar e o congestionamento no centro foi-se desfazendo. Com mais linhas de passe, o transporte de bola passou a ser mais simples, o cerco apertou-se e a vontade, a crença fez o resto. De um péssimo resultado chegou-se a um mais ou menos, mantendo-se a invencibilidade, o melhor registo de sempre de um clube centenário. 

Este final de jogo abre uma esperança. No pior dos contextos, a perder por dois a zero, os jogadores não desistiram e evitaram males maiores. Não, não é para todos. Mas é preciso refletir e retirar ilações deste resultado e desta série de três empates em quatro jogos. É necessário perceber bem o papel desempenhado pelo Paulinho: ou é um avançado que recua em apoio e é necessário que alguém entre em profundidade ou, então, acaba por ser mais um jogador de meio-campo sem conseguir chegar à área em tempo oportuno [a solução talvez seja a de o colocar mais na frente, menos móvel e mais posicional]. As alas não podem ficar exclusivamente para os laterais pois, caso sejam bloqueados [o Pedro Porro não se consegue libertar sozinho das marcações, contrariamente ao Nuno Mendes], estamos condenados a congestionar a zona central e a não dispor de espaço. O Nuno Santos e o Tabata demonstraram que se pode contar com eles para dar mais largura ao ataque. O meio campo está muito estático: se se compreende o posicionamento do Palhinha, compreende-se menos que o segundo médio não se liberte mais para o ataque ou, de outra forma, está-se sempre em desvantagem a atacar. A defesa está a vacilar [o Matheus Reis não deixa de ser um lateral adaptado] e é necessária mais concentração. Estes são os palpites de um treinador de bancada. O Rúben Amorim é que sabe e tem demonstrado que sabe. Vai ser até ao fim, jogo a jogo, sendo certo que não venceremos nem perderemos o campeonato antes de ele acabar. 

domingo, 18 de abril de 2021

E se for falso negativo?

O distanciamento social é fundamental para quebrar cadeias de transmissão mas nem sempre é possível evitar o contacto e o risco de contágio no que respeita à seleção nacional. O Fernando Santos faz a convocatória, promove a requisição civil e não há remédio, os jogadores têm de ir e não há volta a dar. No regresso vêm com um vírus altamente transmissível: o empate. É um vírus especialmente peganhento e não há remédio nem vacina, é esperar e ver se passa, fazendo quarentena e testando, testando sempre. Os jogadores estão assintomáticos, parecem como sempre até serem testados, jogo atrás de jogo. Há duas semanas que davam positivo até que, na sexta-feira, contra o Farense, o teste deu negativo.  

O vírus pega-se mais depressa aos treinadores do que aos jogadores. Quando se começa a ver muitos jogadores no meio-campo, muita troca de bola para os lados e tentativas de meter este ou aquele jogador mesmo que não seja na sua posição natural, é o sinal, o sinal de que o treinador contraiu o vírus do empate. Se o Bragança está a jogar bem e o João Mário não está a jogar mal, então a solução é colocar os dois a jogar, mesmo que o segundo tenha de deixar a sua posição natural, no centro, um pouco à frente do Palhinha. Perde-se velocidade, verticalidade, acutilância para se ganhar posse de bola e maior proteção da defesa, o clássico modelo de jogo do Fernando Santos. Há quem diga que se passou do 3x4x3 para o 3x5x2, com o Pedro Gonçalves a jogar mais no meio. Nos jogos, vejo o João Mário mais numa ala, na ala esquerda, só que uma coisa é o João Mário outra, bem diferente, é o Nuno Santos. Os laterais encontram-se entregues à sua sorte (ou azar) e a capacidade de pressionar alto e de surpreender o adversário reduz-se.

Este jogo não foi um bom teste para confirmar este diagnóstico. O Farense enfiava biqueiradas atrás de biqueiradas para a frente e pressionava, procurando ganhar a primeira ou a segunda bola como se não houvesse amanhã. Num campo onde se espera ver jogar um Merlin ou um Cavinato, esta tática (?) faz andar a bola aos trambolhões, aos trancos e barrancos. O ressalto, a confusão e a trapalhice constituem o novo normal e os lances de perigo resultam de acasos, de bola paradas, de um ou outro contra-ataque. Esta tática e a dimensão do campo dificultam a análise e ninguém consegue dizer quem jogou melhor, quem mereceu ganhar, admitindo que o resultado não bastasse.  

O jogo decide-se sempre pelos golos que se marcam e não se sofrem e, assim, o Sporting mereceu ganhar porque, bem, porque ganhou. Relativamente aos dois últimos jogos, que empatámos, concedemos mais oportunidades de golo ao adversário e valeu-nos o Adán, que fez uma ótima exibição. Mas tivemos mais oportunidades de golo e o Beto, guarda-redes do Farense, fez melhor. Há duas defesas completamente impossíveis, após cabeceamento do Coates e de remate enquadrado do Paulinho com a baliza completamente aberta à sua frente. Destas, das que parecem golos cantados, o Adán fez uma só [fez mais umas tantas mas os jogadores do Farense estavam em fora-de-jogo, não contando para as estatísticas]. Se o melhor em campo é o jogador que mais influenciou o resultado, então prémio devia ter sido atribuído ao Beto e não o Adán [embora continue a merecer uma estátua].

“E se for falso negativo?”, é a pergunta que fazemos. É que o Rúben Amorim está de quarentena, na bancada, a ver os jogos enquanto combina as compras da semana e trata de outras miudezas do seu dia-a-dia. Segundo o Conselho de Disciplina, os sintomas, os verdadeiros sintomas não são os empates mas os palavrões. Num clube de aristocratas, de croquetes, como se costuma dizer, que não ganha o campeonato há um ror de tempo, o empate não é, nunca pode ser sintoma de doença, nem da doença dos empates. Melhorámos com um treinador sem estes sintomas no banco, embora preferisse o Emanuel Ferro, um nome mais sólido, num momento em que todos tremem.  

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Frase do dia

 Cheira-me que o Amorim ainda vai dentro antes do Sócrates.

(Anónimo - algures numa esplanada de Braga)

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Falsas mudanças que escondem o que nunca muda

Acabado o jogo do último domingo, a neura era muita e nada melhor do que ver um filme de pancadaria e sangue, muito sangue. Vi John Wick. A neura era tanta que vi o segundo e terceiro capítulo desta saga [não vi o primeiro mas foi como se tivesse visto]. Há uma organização internacional do crime organizado, chamada Conselho Superior, que dispõe de uma rede de hotéis, os Hotéis Continental. Podem-se fazer maldades em tudo o que é canto e esquina, menos nesses hotéis, onde todos se têm de portar como senhores. O Keanu Reeves é o protagonista e, por boas e más razões, vinganças e traições a que seguem novas vinganças a traições, mata que se farta, mata mais do que um Arnold Schwarzenegger ou um Sylvester Stallone. Há sempre uma moral, a moral da história, por muito maus que sejam os maus e por muito organizados que estejam há sempre um bom que deixa os maus em mau estado, a pensar duas vezes antes de voltarem a ser maus. É uma excelente reprodução da realidade do futebol português se se admitir que o Rúben Amorim é o bom, a encarnação do Keanu Reeves. Admito-o e assim me reconcilio com a equipa e o treinador e me redimo das dúvidas que me assolaram. 

Vamos ao jogo. Mal se inicia e logo árbitro faz questão de demonstrar ao que vinha [este árbitro foi o que viu um penalty contra nós no jogo com o Belenenses que ninguém viu e, mesmo não vendo, o VAR também fez que viu]. Uma falta sobre o Paulinho, não assinalada, acaba numa falta do Palhinha, como tantas outras que ocorreram durante o jogo, e no primeiro amarelo. Uma entrada de leão, não fôssemos nós os leões [uma entrada a pé juntos talvez seja mais apropriada para a qualificar]. Estávamos a fazer o jogo do engonha do costume quando, numa pressão alta, o Pedro Gonçalves recupera a bola, desmarca o Paulinho, que a devolve para este a empurrar com a baliza aberta. Parecia que o mais difícil estava feito, mas não estava: na jogada seguinte, numa bica para a frente, o Pedro Porro salta mal, deixa passar a bola para um ciclista do Famalicão, que se desmarca pelo lado esquerdo do ataque [o Pedro Porro recupera em parte mas não faz a falta que se impunha], centra para o meio onde aparece outro jogador a fazer-se ao “penalty”, hesitando o Coates e o Feddal, perante tal aparato, e permitindo o remate para o empate de outro avançado. A nossa primeira parte acabou naquele momento. 

Ao intervalo, o Rúben Amorim tira o Palhinha e o Feddal e mete o Bragança e o Matheus Reis. Compreendem-se bem as substituições. Depois do amarelo, o Palhinha ficou sem saber bem o que fazer à vida, com um olho na bola e nos adversários e outro no árbitro, e o Feddal, aos tremeliques, não dava grande segurança, especialmente nas subidas do Nuno Mendes. O Sporting passou a jogar mais e as oportunidades foram aparecendo, sendo a mais escandalosa a do Tiago Tomás que, cara-a-cara com o guarda-redes, demorou tanto, mas tanto a ajeitar a bola que rematou contra as canelas de um central que apareceu em modo de desespero. Não satisfeito, o Rúben Amorim tira o João Mario e mete o Jovane Cabral. Percebe-se a intenção mas num primeiro momento, o Sporting perde o controlo de jogo e a posse da bola. Não satisfeito ainda, com o Neto a ameaçar barracada mais minuto menos minuto, tira-o e mete o Eduardo Quarema. Os últimos minutos foram um verdadeiro massacre mas a falta de jeito no momento certo e um “penalty” por marcar deixaram tudo na mesma. 

A melhor explicação para o jogo veio a seguir. Na Sporttv, um individuo, a fazer de juiz da relação ou do supremo, volta a analisar os lances críticos de arbitragem. Foi falta sobre o Paulinho mas também foi bem mostrado o amarelo ao Palhinha. No golo, o jogador do Famalicão não simula a falta, não se faz ao penalty, tropeça em si próprio. Esse mesmo jogador não se volta a fazer ao penalty e o volta-se a dizer que não senhora, que não foi penalty do Coates, sem desta vez se esclarecer se tinha voltado a tropeçar em si próprio. No falhanço do Tiago Tomás o defesa não o derruba a seguir, é o próprio Tiago Tomás que embate contra ele. O Jovane Cabral caiu mas não tropeçou em si próprio, foi na disputa da bola entre dois jogadores, sem que o defesa não se tenha limitado a meter o braço e a empurrá-lo. O Jovane Cabral escorregou e ele e o defesa caíram um sobre o outro, como se fosse essa a sequência, e não tivesse caído primeiro um e ao levantar-se tenha levado com o outro e voltado a cair. 

Como é possível descrever o que as imagens não evidenciam, inventando? Não, não estou a criticar a análise, estou simplesmente a dizer que se faz a análise não através das imagens mas de simples exercício de imaginação. É assim que também funciona o VAR? Vamos dizer as coisas como elas são, como se passaram. O amarelo ao Palhinha é mal mostrado. O golo do Famalicão devia ter sido anulado e o jogador levado amarelo. Mais tarde, esse mesmo jogador devia ter levado segundo amarelo. Ficou por marcar um “penalty” a favor do Sporting.

Há quem diga que a tática mudou nos últimos jogos, que passámos de um 3x4x3 para um 3x5x2, mas não me parece que assim seja. Mudaram-se os posicionamentos relativos dos jogadores e o que mudou, o que verdadeiramente mudou, foi que empatámos esses dois jogos. Houve árbitro e isso, sim, é que nunca muda. É a isto que os sportinguistas que sofrem do Síndrome de Estocolmo chamam pôr-se a jeito?

terça-feira, 13 de abril de 2021

Onde vai um vão todos e logo se vê

 

O jogo foi apenas no domingo, mas já tudo me parece longínquo. O fluxo interminável do pós-match, ou seja, do efémero, cheio de narrativas, “análise”, vídeos, conversas (agora apenas) de esplanada, notícias falsas, é tão intenso e de desgaste fácil (embora contínuo) que após alguns dias deixa simplesmente de existir, sendo substituído por um sucedâneo do jogo (de quem ninguém realmente se recorda). Acontece o mesmo com a política e com quase tudo que nos rodeia: é uma enganadora vista área, distorcida e sem qualquer síntese.

Na verdade, no dia do jogo e no dia seguinte não conseguia escrever nada. Nada de jeito, com a elevação e o sentido de humor necessários ao seguidor intrépido do Sporting. Sentia-me desiludido, sobretudo, desiludido comigo, por estar desiludido. Ora estar desiludido quando estamos rodeados de uma vista aérea enganadora pode revelar-se fatal. Para o jornal O Jogo tinha ocorrido um despiste, e já era o segundo, do Sporting, o primeiro havia sido contra o Moreirense. Um despiste quer dizer, um desgoverno, uma desorientação, isto tudo com um empate. O jornal A Bola sentia o leão a tremer, tendo-se esquecido de qualquer analogia brincalhona com varas verdes. Os exemplos são vários e todos tentam alimentar a narrativa da queda. A queda aqui é apenas um desejo projectado, mas que poderá  ter repercussões no clube e nos adeptos. Senão vejamos:

A última teoria conspirativa diz-nos que o despiste, aqui lido como derrapagem, terá começado com a vinda do Paulinho para o Sporting. Esta teoria segue vários caminhos: o do dinheiro que o jogador ganha e que terá consternado os outros; ou a da mudança da forma de jogar, ao que não será alheia a mutação do 3x4x3 em 3x5x2, e a perda de importância de alguns jogadores, por exemplo o Nuno Santos. Esta teoria é exterior ao Sporting mas acolhe seguidores entre os seus adeptos. Aponta baterias ao balneário e à união da equipa. E pode vingar.

A minha teoria é mais prosaica. Mais ou menos contemporânea à vinda de Paulinho está o grito do ipiranga de Pinto da Costa, o famoso: basta! Tudo isto é também mais ou menos coincidente com as movimentações para o lado da luz, movimentações que culminariam com uma série de entrevistas de Viera, ainda sem luz ao fundo do túnel. E esta união de esforços não se chama Paulinho, mas dinheirinho da champions (o Braguinha que o diga) e a ocupação natural do espaço do poleiro (as contas estão feitas para dois).

Quando, no passado domingo, o Palhinha leva cartão, não se tratava apenas de um amarelo como condicionante para o jogo, tratava-se de uma condicionante para o pós- jogo, porque ninguém sabe como irá acabar esta história dos cartões. Entretanto, o Sporting, supostamente, a tremer, despistava-se com um empate. A nova linguagem do jogo estendia-se assim como mensagem aos Sportinguistas: já estais a derrapar. É inexorável. A sério? Quem olha para cima? Os outros, os que olham para cima têm margem para falhar? É claro que nada disto se colocaria se tivéssemos marcado no final do jogo pelo Jovane. Aí a narrativa mudaria para estrelinha.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Esmiuçar

Parece que estou a ver alguém no VAR a ter um pressentimento: sinto que há ali qualquer coisa. Esse sentimento vago ou instintivo, que precede a comunicação do VAR, é algo absolutamente novo e, como uma defesa por instinto em que antes da bola partir o guarda redes se projeta, aqui a projecção imagética antecede o próprio lance. Depois, a régua e a esquadro digitais, traçando linhas e fantasiando esquadrias, recorrendo a sinais de satélite, consegue descortinar algo oculto ao olho humano (e indisponível nas imagens da TV), cerca de dois centímetros de perna pé desalinhados do movimento do mundo da bola. A isto chama-se esmiuçar (já tinha falado nisso aqui) e esmiuçar é: esfarelar, esmigalhar, esquadrinhar, deslindar com minúcia. Desta demanda decorreram os largos minutos de pausa que nos foram presenteados.

Mas a minúcia, e o seu deslindar, dariam pano para outras mangas. No caso do Nuno Mendes, ninguém conseguiu antecipar a ceifada que quase lhe arrancava um pé. Nem sequer no decorrer do lance ou após o mesmo (vá lá, sempre foi falta), não se conseguiu descortinar nada de grave. E o jogador acabou por sair de campo por gostar de ver parte do jogo da bancada acoplado a um saco de gelo, mas sem whisky por perto.

Não se pode dizer a um cérebro como o meu para deixar estas coisas todas de lado. Não (me) basta termos dominado o jogo e termos suficientes oportunidades para marcar e ir ver umas séries espanholas sobre putedo e violência; não me interessa se gerimos bem ou mal o jogo, conforme dá na telha do comentador de serviço; interessa-me o condicionamento e o escrutínio que é feito ao Sporting, antes, durante, e depois do(s) jogo(s). Tudo é esmiuçado para ver se sangra e se entra água por uma qualquer brecha invisível, ou se nos espetamos contra uma parede de betão armado. Talvez seja sinal de que estamos vivos e que, afinal, até somos temidos. Mas lá que cansa, cansa.


terça-feira, 6 de abril de 2021

Por dois centímetros ou como um sportinguista é uma lealdade à espera de uma causa

O jogo caminhava para o seu final e a minha cabeça era um vazio. Jogo controlado do primeiro ao último minuto. Oportunidades de golo o quanto baste para ganhar por mais do que um. Oportunidades para o adversário poucas ou nenhumas. Aparentemente mais um jogo sem história, sem entusiasmos, mas também sem depressões. E chega o minuto noventa: cruzamento mal-amanhado de um jogador do Moreirense, corte ainda mais mal-amanhado do Feddal, bola a respigar para um avançado do lado direito do ataque, que, fora da área, remata colocado ao segundo poste e faz o empate. Há minha frente abre-se um admirável mundo novo, novo pela novidade desta época, mas tão antigo como o sportinguismo. 

O Rúben Amorim deixou de ser o Rúben Amorim e passou a mais um fantasma, como o Paulo Bento, o Leonardo Jardim, o Mirko Jozic ou o Bobby Robson. Há diferenças: se fosse com o Paulo Bento, o golo do empate também surgiria no último minuto mas seria autogolo do Polga, do saudoso Anderson Polga, ou marcado com a mão. O enredo, a trama não foi diferente, um árbitro a apitar de costas e a acertar e a errar como se estivesse a decidir por moeda ao ar. Ninguém estranhou que houvesse tantos cartões amarelos para os jogadores do Sporting quantos para os do Moreirense: com as regras do Moreirense os dois cartões amarelos foram bem mostrados e com as regras do Sporting os dois cartões foram bem mostrados também. Na falta violenta sobre Nuno Mendes, que o mandou para o estaleiro, os comentadores da Sporttv recorreram a semântica apropriada: “entrada vistosa sobre Nuno Mendes”, “entrada delicada sobre Nuno Mendes”. A síntese das duas afirmações é perfeita, descreve o lance com precisão: entrada delicada e vistosa. Sublinha a delicadeza, a cordialidade do jogador do Moreirense sem prejuízo da espetacularidade da sua ação. Delicadeza e espetáculo não rimam com cartão e assim se justifica a (não) decisão do árbitro. 

Os golos anulados ao Sporting têm história, têm sempre, não se estranha. As imagens aparecem sob um ângulo que nada esclarece. Depois, bem, depois aparecem linhas, linhas precisas, rigorosas. Passou a ser impossível um avançado encontrar-se em linha com o último defesa: com precisão ao centímetro, a probabilidade de tal acontecer é igual a zero. Dois centímetros num campo com cerca de cem metros de comprimento representam 0,02%. Talvez se perceba melhor a razão para a demorada análise do VAR: envolveu investigação do Laboratório Internacional de Nanotecnologia, sedeado em Braga. A imagem não tem cem metros de comprimento e, assim, os dois centímetros não correspondem a dois centímetros de imagem. A diferença aproxima-se de um nanómetro, qualquer coisa como dez levantado a menos sete de um centímetro, a diferença entre dois grãos de açúcar completamente iguais à vista desarmada. 

Recentemente, li “Cães maus não dançam”, de Arturo Pérez-Reverte. É uma alegoria, em que cães de luta representam uma rebelião como a de Spartacus contra a República Romana. Às páginas tantas, o narrador, um cruzado de mastim espanhol e cão-de-fila brasileiro, confessa que “um cão não é mais do que uma lealdade à espera de uma causa”. Um sportinguista não é coisa diferente. Deem uma ideia, um objetivo na vida, e irá aferrar-se com os caninos apertados. Tenaz até ao sacrifício e à morte. Com tomates. Aferra-se ao que vem remoendo. É claro que sabe que é possível que corra mal. Mas aquele é o plano e não há outro [versão adaptada]. 

domingo, 28 de março de 2021

Não basta parecer

Segundo consta, Diego Costa aguarda um parecer fiscal. Não se sabe se terá telefonado ao Cavani. Para a sua (hipotética) viagem de volta ao reino de Madrid, Cristiano Ronaldo aguarda um parecer fiscal, algo que não permita o esvoaçar de milhões, tendo em conta o sistema de tributação mais vantajoso em Itália. Não tarda nada, será necessário o quatro nível em economia para os jogadores assinarem um contrato e nós percebermos que o futebol se desenrola em paraísos cuja artificialidade não dominámos.

Entretanto, a seleção nacional ganhou ao Azerbaijão e empatou com a Sérvia, embora tenha marcado mais um golo. Aguardamos um parecer fiscal que permita a Fernando Santos treinar as ilhas Cayman e a Cristiano Ronaldo ganhar o prémio Sérgio Conceição (antes de rumar a Madrid). O calor do jogo assim o justifica.

segunda-feira, 22 de março de 2021

What a Wonderful World

Ontem, quando me sentei para escrever qualquer coisa sobre o Sporting x Guimarães, deu-me uma branca, nada me ocorreu. A felicidade não propicia estados de alma criativos. Lembrei-me de começar pelo Palhinha, considerado culpado por não pretender ser condenado sem antes lhe ter sido atribuída a culpa, após trânsito em julgado [a utilização da expressão do trânsito em julgado é bem reveladora desta falta de imaginação]. Lembrei-me da vontade do Paulo Sérgio em chegar a roupa ao pelo ao Sérgio Conceição, que esbracejava, vociferava, mas sempre com adequado distanciamento social, não fosse dar para o torto. Lembrei-me do árbitro desse Portimonense x Porto a deslocar-se ao túnel para pedir, pedir encarecidamente aos jogadores para voltar, pois ainda havia jogo para jogar. Não, nada do que me passou pela cabeça parecia ter grande interesse, depois de ter visto o que vi. 

Pensei em falar do jogo, diretamente, sem mais delongas. O jogo teve interesse. Nos últimos jogos, o Sporting parecia esgotado, sem ideias. A entrada do Daniel Bragança deixou o Tiago Tomás e o Pedro Gonçalves mais na frente e reforçou o meio-campo. Houve bola, muito mais bola no meio-campo adversário. Atrás, com o Gonçalo Inácio a fazer de Coates, a defesa não tremeu e iam-se alternando momentos de circulação da bola com passes mais diretos, verticais, em profundidade. As duas primeiras oportunidades desperdiçadas pelo Pedro Gonçalves resultaram de dois passes fenomenais do Gonçalo Inácio. Aconteceu o primeiro golo, resultado de uma jogada coletiva, que começa do lado direito, com o Porro, vem ao centro, para o Palhinha, vai à esquerda, ao Nuno Mendes, e concluiu-se com um passe perfeito do Pedro Gonçalves para a não menos perfeita desmarcação do Tiago Tomás. Bola fora, afirma o videoárbitro, perentório. Quando o Porro inicia a jogada, parece que a bola saiu pela lateral, parece. Também parece que a bola veio atrás, ao Palhinha, interrompendo-se o ataque, que só depois é retomado pelo lado contrário. Estou convencido que noutras paragens se haveria de encontrar uma narrativa, uma subalínea, uma interpretação de um documento em inglês da FIFA ou da UEFA que permitisse concluir se não o contrário pelo menos o conveniente: na dúvida o videoárbitro deixa seguir. 

Escrevo estas linhas e apetece-me apagar tudo, mas é necessário chegar ao fim. Continuo, continuo a escrever sobre o jogo. Não foi à primeira, foi à segunda. Livre, bola bombeada pelo João Mário para a área, desvio de cabeça do Tiago Tomás, novo desvio de cabeça do Palhinha e Gonçalo Inácio a encostar de cabeça também para a baliza. Fora-de-jogo, assinala o fiscal de linha e confirma o árbitro. Começam as repetições e verifica-se que não há fora-de-jogo nenhum, embora os comentadores procurem agora encontrar uma falta. O árbitro confirma o golo e os jogadores festejam três dias depois. Vai-se para o intervalo. No regresso, tudo parece ter mudado. O Daniel Bragança não parece o mesmo e o Tiago Tomás e o Pedro Gonçalves estão mais sozinhos na frente. O Sporting recua e mete trancas à porta, que é uma outra forma de dizer que o Palhinha entra em modo “take no prisoners”. O jogo chega ao fim sem que o Guimarães crie mais uma oportunidade de golo para amostra.. 

Era preciso escrever até ao fim, custasse o que custasse, para que pudesse escrever o que verdadeiramente tinha de ser escrito. O jogo acaba e vê-se Dário Essugo, um menino de dezasseis anos, a chorar, rapidamente confortado pelos seus colegas. Enviam-me por WhatsApp fotografia do Dário Essugo ainda mais menino abraçado ao João Mário, o mesmo João Mário que tinha substituído neste jogo. Veio-me uma lágrima ao canto do olho, por ele, pelo menino, mas pelo seu pai também. O Dia do Pai, o meu ou do pai do Dário Essugo, pode ser antes ou depois, quando um homem quiser, desde que se aprenda a chorar, a envelhecer envolvido numa doce melancolia. E o Rúben Amorim remata: “treinou bem, foi convocado, era o único médio que tínhamos no banco e era de um médio que precisávamos para substituir o João Mário”. Ouvia-o e era como se ouvisse Louis Armstrong: “I hear babies crying, I watch them grow/They'll learn much more, than I'll never know/And I think to myself, what a wonderful world/Yes, I think to myself, what a wonderful world”.

[Acabei de ler “Porque é que Marx Tinha Razão”, de Terry Eagleton. O autor procura desmontar uma a uma as principais críticas a Karl Marx. Desmonta o argumento do marxismo enquanto utopia, explicando, com humor, que não se espera do socialismo o fim dos acidentes de trânsito ou do mau gosto. Tenho algumas dúvidas mas uma coisa eu sei: se fosse o Rúben Amorim a escrever O Capital tenho a certeza que ou se evitaria a moda masculina das calças à boca de sino e dos sapatos altos atamancados dos anos sessenta e setenta ou, se não se evitasse, não a consideraríamos pirosa como a consideramos] 

domingo, 14 de março de 2021

Enrolando

Acontecem mais coisas durante a semana do que durante o jogo e, assim, o jogo constitui um tempo de reflexão sobre o que se passou durante a semana. Não dispondo de melhor alternativa, foi o que fiz e não dei o tempo por mal-empregado. “O Emanuel Ferro é uma fraude!”, disse-se durante a semana, mais coisa, menos coisa. É muito injusto. O Sporting contratou o Emanuel Ferro para treinador principal, dispondo de todas as habilitações e mais algumas. Tem contratados adjuntos com adequadas qualificações também. Umas vezes resulta, outras nem por isso. O Jorge Silas não foi grande coisa, o Rúben Amorim saiu melhor. O que parece desagradável é a usurpação do lugar do Ferro pelo Amorim quando estávamos em primeiro lugar [sobre esta alteração não se disse nada, zero, como se não merecesse um comunicado como mereceu o José Peseiro]. Fez-me lembrar aquela substituição do Bobby Robson pelo Carlos Queiroz, que conheceu os seus dias de glória como treinador adjunto do Alex Ferguson [segundo a imprensa indígena, sem o Queiroz, o Manchester United não teria ganhado nada, dado que o Ferguson não era dado a usar fato de treino e chuteiras e a colocar pinos durante os treinos].  

O Domingos Paciência desenvolveu um pensamento disruptivo, completamente fora da caixa, dizendo: “O Sporting não é um líder com nota dez”. O futebol necessita de novos olhares, novas perspetivas sobre a modalidade, que nos façam refletir e encontrar outros caminhos, caminhos que nos levem a outros lugares ou a lugar nenhum, não interessa, interessando a reflexão, tão-só. É necessário parar para pensar, para nos interrogarmos: é preferível ser primeiro com nota sete ou segundo com nota nove? Seguindo esta dialética, da quantificação qualificada ou da qualificação quantificada, todos os questionamentos são possíveis. No limite, o último é o último ou só o é se for o último com nota zero? O último é o que fica atrás dos demais ou é o último enquanto absoluto, quando abaixo se encontra o vazio, o nada? Este tipo de reflexão, denso e metafísico ou metafisicamente denso, foi ainda aprofundado pelo Jorge Jesus, quando afirmou que a liberdade de expressão por si só, sem liberdade intelectual, espiritual, não determina a liberdade, a liberdade enquanto absoluto também, admite-se. Percebe-se que Jorge Jesus anda a fumar Kierkegaard [mas sem inalar, que não sou de levantar falsos testemunhos], embora seja mais controversa a marca do Domingos Paciência [Hegel, Goethe ou Schelling de enrolar?]. 

Quem teve a santa paciência de ler esta crónica até aqui pode-se questionar, com razão, sobre a relação entre estes prolegómenos e o jogo contra o Tondela. Será um leitor menos atento, menos reflexivo, mas não menos merecedor de explicação. Os jogos do Sporting também se iniciam com prolegómenos de duração variável. O espetador ou o adepto pode aproveitar esse tempo variável para refletir e é a essa reflexão que nos interpela o futebol do Sporting. Não é um tempo desligado do jogo e do seu tempo, acontecendo aqui e ali um sobressalto, um cabeceamento com os olhos fechados do Tiago Tomás ou um remate que miraculosamente ressalta na perna de um defesa. Os menos preparados, mais ansiosos e precipitados, esperam alterações ao intervalo. Nada de mais errado. É preciso continuar a cansar o adversário, desalentando-o, tornando infrutífera qualquer arremetida, destruindo a imaginação de melhores futuros possíveis. 

Por volta dos sessenta minutos, o primeiro sinal: entra Daniel Bragança, saindo Nuno Santos. O miúdo Bragança é dado a atrevimentos, a rodar a bola a toda a brida, gerando perplexidades diversas no adversário depois de quase uma hora de engonha do João Mário, de deslocação permanente da bola de leste para o oeste, sem se compreender o norte ou o sul, enfim, para que lado joga o Sporting, o sentido geográfico do seu jogo. Antecipando uma revoada de outras, esta substituição pretende ser um aquecimento para o que se irá passar. Entram jogadores prováveis para lugares improváveis ou jogadores improváveis para lugares prováveis, não importa, não estranhando os mais reflexivos quando veem um Tabata a jogar a lateral direito, quando não é lateral, nem joga com o pé direito. O sistema de jogo é sempre o mesmo, mas a dinâmica muda e a mudança é tão imprevisível quanto a imprevisibilidade das substituições, sendo certo que entram sempre os mesmos, porque não há outros, e a imprevisibilidade é determinada pela improbabilidade, dos lugares ou dos jogadores. Os que ficam também ficam imprevisíveis e também não se estanha ver um Nuno Mendes transformado num lateral esquerdo que vale 70 milhões de euros mais o Cristiano Ronaldo para a troca. Entre os 73 minutos, quando entraram Tabata, Matheus Reis e Jovane Cabral, saindo João Mário, Feddal e Pedro Porro, e os 81 minutos, quando aconteceu o golo, o Mundo mudou, mudou muito, mudou muito depressa, demasiado para o Tondela.

O adepto menos preparado pode-se interrogar por que não se joga assim desde o início, a razão para tão prolongados prolegómenos. O Rúben Amorim explicou, explicou que é preciso cansar o adversário enquanto se lhe dá esperança e o faz acreditar que a tática pensada toda a semana vai resultar. A solução não é começar como se acaba, é começar a ver o jogo do fim para o princípio. Vê-se o importante e cada um vai à sua vida: quem quer continua a ver, vê; quem não quer, vai jantar [confesso, estou um pouco farto de jantar às dez e meia e de deixar uma garrafa de tinto a arejar duas horas]. Nesta última semana, a Associação Nacional de Treinadores de Futebol e alguns dos seus sócios, como Domingos Paciência e Jorge Jesus, ajudaram-nos a refletir, a questionar o adquirido. São possíveis futuros do avesso, em que a ordem, a suposta ordem natural do tempo se inverte? Este é o questionamento que vos deixo para o próximo jogo, esperando que durante a semana, um outro treinador, qualquer treinador com todas as habilitações, possa começar a enunciar a resposta.  

sexta-feira, 12 de março de 2021

Festa da espuma

 

Agora temos o caso do túnel de Famalicão. Aquilo não será bem um túnel, é mais um simulador de túnel, de tão apertado que parece. Não admira que as comadres se rocem. Em breve saber-se-á da existência de jogadores nascidos por inseminação artificial e de alienígenas no plantel profissional do Sporting, ambas as situações sujeitas a sanções consideráveis e a passagens estreitas em túneis.   

terça-feira, 9 de março de 2021

O contador de histórias

A partir da superioridade numérica fora das quatro linhas, tudo é possível. 

Com a caso Palhinha a arrastar-se para ver no que dá e o que poderá eventualmente sair dali; com o Benfica a jogar (finalmente) o triplo (capa do jornal A Bola de hoje); com o Porto a vencer sem necessitar de penaltis e felicitando a postura de derrotado do último oponente; com o Braga sem escrever qualquer comunicado sobre os seus perseguidores mais próximos, precisávamos de qualquer coisa extra, até porque o Sporting (que chatice) continua a ganhar os seus jogos. O que não estava previsto.

A coisa extra chegou-nos de supetão burocrático. A partir de uma queixa (há quem diga que foi uma participação) da Associação Nacional de Treinadores (datada de Março do ano passado - atenda-se neste pormenor), a Comissão de Instrutores da Liga (quem?) decidiu (deduziu?) avançar com uma acusação por fraude e falsas declarações ao treinador Rúben Amorim (que se calhar, afinal, não é treinador, nem na altura seria uma adjunto, não se sabe bem).

Passado todo este tempo (cerca de um ano!), alguém, a mando de alguém, decidiu esmiuçar o esmiuçável. Não seria de esmiuçar se o Sporting estivesse em terceiro a 15 pontos, nem ninguém se terá lembrado de esmiuçar, por exemplo, o Silas, ou qualquer outro passível de ser esmiuçado. Esta história andou encavalitada na estante das histórias dormentes e narrativas passíveis de utilização caso a coisa corra mal. Não será de admirar, por isso, o aparecimento de outras histórias ou narrativas, ou o achamento de extraterrestres em Alvalade, mais depressa que em Marte. O contador de histórias está lá para isso.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Dezanove segundos

[92 min e 40 s] Adán recolhe a bola e lança-a com toda a força para Jovane, que roda, flete para o meio, encara um adversário, roda para a esquerda e mete-a mais à frente no Nuno Santos, enquanto Coates, o defesa mais recuado, começa a correr e, no momento do passe do Jovane, já o tinha ultrapassado; [92 min e 49 s] Nuno Santos recebe a bola e avança a passo e Matheus Reis desata a correr como se não houvesse amanhã para dar uma linha de passe entre o lateral e o central, fazendo hesitar o primeiro e fixando o segundo; [92 min e 53 s] com essa manobra, de diversão, Nuno Santos chega próximo da esquina da grande área, Coates à entrada da pequena área e João Mário um pouco mais à direita, ao segundo poste; [92 min e 54 s] Nuno Santos centra largo para João Mário receber a bola e a dominar; [92 min e 57 s] João Mário centra tenso para a entrada da pequena área; [92 min e 59 s] Coates enfia uma cabeçada na bola e assim a enfia na baliza do Santa Clara. 

Voltando atrás, ao início do jogo. O Sporting começa mal e é o Santa Clara que chega à frente primeiro e procura condicionar a nossa saída de bola ou, quando não o consegue, recua em bloco e defende com todos. Nós, bem, nós começámos sem grande intensidade, no modo habitual de deixar cansar o adversário, de lhe oferecer o primeiro milho. Até que, após pressão alta, Palhinha recupera a bola e passa-a ao João Mário, que a mete em Tabata, que descobre um espaço impossível por onde ela passa entre os defesas, encontrando o Pedro Gonçalves em condições de a rematar de primeira, cruzado, para o primeiro golo. Esperava-se um jogo como o do Portimonense: mais uns minutos de pressão sobre a defesa e o segundo golo para se fechar o jogo. Nada, nada de nada, nem mais um remate durante a primeira parte. 

Inicia-se a segunda parte e, em alternativa, espera-se um jogo como contra o Paços de Ferreira: a abrir, um pouco mais de intensidade e o segundo golo ainda antes dos sessenta minutos. Nada, nada outra vez. O Santa Clara toma conta do jogo e o Sporting vai controlando mas sem bola. O Tiago Tomás está perdido, algures, e o Tabata e o Pedro Gonçalves tentam, mas cada tiro, cada melro. Os laterais não sobem ou se sobem não têm apoio. O Rúben Amorim tenta mudar: entra o Matheus Reis primeiro, saindo o Nuno Mendes, e depois, entram o Nuno Santos e o Bragança, saindo o Tabata e o Tiago Tomás. Percebe-se a intenção, ter a bola, trocá-la, deixar o adversário sem ela, tranquilizar a equipa, acalmar ainda mais o jogo. Mas o Santa Clara está com estrelinha e, após um ressalto nas pernas do Feddal, marca o golo do empate, no primeiro remate que se visse, quando faltam cinco minutos para o jogo acabar.

Voltando ao início, ao outro início, aos dezanove segundos, que vão da bola na mão do Adán à cabeçada do Coates. Após um contra-ataque do Santa Clara, o Sporting tem poucos, muito poucos jogadores na frente, encontrando-se a maioria atrás da linha da bola e longe da baliza. O adversário está confortável, à espera, tendo ficado sete jogadores na defesa. Não houve uma precipitação e, sim, houve circunstâncias para precipitações ao virar da esquina: Jovane podia ter insistido até perder a bola ou ter de a atrasar, Nuno Santos podia ter metido na frente, na área, quando não havia ninguém para disputar a bola. No tudo ou nada, quando o jogo se encaminhava para o fim, os jogadores suspenderam o tempo, esperaram o momento e quando o momento aconteceu não foi por acaso que havia tantos jogadores na área ou próximo dela quantos os adversários e o Coates estava no sítio certo, após correr cerca de setenta metros. 

Estrelinha? Sim. O Sporting jogou pouco, marcou e confiou na defesa, na sua capacidade de não conceder oportunidades. Talvez seja desgaste, descompressão, baixa de forma de alguns jogadores, falta de alternativas, sem o Paulinho e o Porro. Houve estrelinha, de facto, há sempre estrelinha quando se ganha no último fôlego, mas nada aconteceu por acaso no segundo golo. “Enquanto o árbitro não apita, o jogo não acaba”, disse o Coates, simples assim. Se [digo e repito se] ganharmos este campeonato temos histórias para mais vinte anos de insucessos. Nas nossas memórias ficarão para sempre estas vitórias nos últimos instantes e o Coates, um herói improvável, um género de Capitão Flint às avessas, que partilha o saque com os seus colegas, que o partilha connosco também.

[Inadvertidamente ou para corrigir a bravata do “levam cinco ou seis” da primeira mão da Taça de Portugal, o Sérgio Conceição prestou um enorme serviço ao benfiquismo desesperado. O Sporting de Braga é a equipa que melhor joga ou, traduzindo, é o melhor Benfica que se arranjou esta época. Parecendo deslegitimar a narrativa do Rúben Amorim, esta qualificação mais não faz do que a confirmar: só com o Paulo Futre é que seríamos candidatos ao título]  

sábado, 6 de março de 2021

Para acabar de vez com as vertigens

 

Há jogos assim. E este não terá sido o único. São os jogos (menos conseguidos - como agora se diz) que se podem perder, ou pelo menos não ganhar. Acontece a todos os que lutam por objetivos. A diferença está nas equipas que nesses jogos (menos conseguidos) que se podem perder ou não ganhar, não perdem, nem empatam: ganham! É claro que os jornaleiros a soldo estremecem e contam as estrelinhas no quintal. Como se o Coates não estivesse na grande área, como se o João Mário não estivesse em campo, como se aquela bola cabeceada pelo Coates fosse um produto do divino. Não foi. Nem sequer foi a mão do Maradona. A diferença está em estar lá e… não falhar. Lembram-se daquele falhanço do Bryan Ruiz? Eu sei que se lembram. Ele até estava lá mas...terá sido falta de estrelinha?

Rúben Amorim no final disse tudo: foi a pior exibição do Sporting este ano. Ou melhor, foi um jogo menos conseguido em modo tiki taka para entretidos confinados. A partir do golo, foi jogado sem balizas, pouco intenso, monótono, com alguns meiinhos de treino. Uma das equipas (a que jogava em casa) sem grandes ideias, a não ser a coesão e a união do costume, a outra equipa (a que jogava fora), esforçando-se por mostrar que vinha disputar o jogo, desconfiada (mas confiante) do desaparecimento das balizas.

As balizas reapareceram (misteriosamente) nos últimos dez a quinze minutos de jogo. Mas isso já nós sabemos: o golo do Sporting foi estrelinha e o do Santa Clara uma jogada do outro mundo, tão intencional e vistosa que o Feddal decidiu participar, de tão maravilhado que estava.

Rematando: bem que nos falta um abre-latas de vez em quando (o Rúben até falou do Futre, mas sem este alegar problemas psicológicos), e mais opões para o ataque. Com o Paulinho de molho ficamos a penar. O resto é jogo a jogo, debruçados no parapeito, a olhar as estrelas...

segunda-feira, 1 de março de 2021

A desmontagem contrariada

 

Aqui há tempos tinha escrito uma posta de pescada que começava assim: Não é como jogamos, isso toda a gente sabe, mas como pensamos, que faz a diferença. Ora releiam, por favor.

Ontem estava a tentar ver o jogo e a refletir (tinha o telemóvel, o computador, o relato, um cigarro e uma cerveja numa das mãos - a outra estava guardada para qualquer eventualidade) se as equipas se encaixavam (agora é assim que se diz quando a coisa fica enconada no tempo e no espaço) contrariadas, ou se se contrariavam encaixadas. Não é a mesma coisa. A questão da facilidade da desmontagem (revelada por Conceição) contraria um mito enraizado, muito característico dos países latinos, associado à facilidade da montagem, algo que o eminente cientista Zezé Camarinha anda a desvendar ao mundo em vários colóquios nacionais e internacionais, disponível em várias publicações da especialidade. Isto dá que pensar.

Não sabemos se uma desmontagem poderá ser contrariada de forma encaixada, ou se uma desmontagem poderá, eventualmente, ser encaixada de forma contrariada. Mas inclinamo-nos mais para esta última, tendo em conta as várias demonstrações (mais uma vez) de desportivismo dos senhores do Porto, tanto nas comunicações à imprensa, como na forma agradável de (não) cumprimentar o adversário no final do jogo. Um exemplo com seguidores imberbes.

Jogo a jogo, continua o nosso caminho para o pacemaker, perdão, para (tentar) chegar ao título.

Nota: ajudaria ter mais um avançado disponível (uma referência no ataque, como se diz por aí), para o caso do Paulinho continuar lesionado. Uma referência poderá sempre ser desmontada e, ao mesmo tempo, difícil de contrariar.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

“Fácil de desmontar, difícil de contrariar”

“Fácil de desmontar, difícil de contrariar”, era assim que o Sérgio Conceição analisava o Sporting antes do jogo e deveria ter sido assim a sua análise depois do jogo. Como outros antes, o Sérgio Conceição queria medir-se com o Rúben Amorim e dar-lhe uma lição tática. Não se queria afirmar o jogo próprio, mas negar o jogo do adversário. Esta forma de abordar os jogos tem levado sempre ao mesmo resultado: condicionar o adversário condiciona o jogo da própria equipa [aquela coisa da Juventus oferecer um golo no início jogo não acontece todos os dias]. 

O Porto compreendeu a forma de jogar do Sporting, condicionou-a, mas não a contrariou. É verdade que o Sporting teve muitas dificuldades para sair a jogar, jogando comprido mas sem dispor de um ponta-de-lança que sirva de referência, ganhando a primeira bola, segurando-a e assim permitindo o avanço do resto da equipa. Mas também é verdade que pressionar alto, evitar a troca de passes entre os centrais, não deixar avançar pelo meio, não permite ao adversário outra alternativa que não seja a de responder na mesma moeda: bola na frente, pressão sobre os centrais e dificuldades de construção pelo meio também. 

E assim se condicionou o jogo de um lado e do outro. Condicionou-se o ataque, mas nunca se contrariaram as defesas. Se de um lado se enfiavam bicas e mais bicas na bola para a frente, do outro fazia-se o mesmo. O jogo foi pouco mais do que isto, em particular a primeira parte: uma partida de “flippers” ou de “pinball”. Os defesas ou os guarda-redes de cada equipa davam na bola com quantas forças tinham e esperavam marcar pontos acertando nos pinos, fossem os seus colegas ou adversários. Espremendo, espremendo bem este festival de biqueiros, resultam dois acasos: o remate de pé direito do Taremi contra o seu pé esquerdo, ricocheteando a bola para o pé direito outra vez e saindo pela linha de fundo, e o “anda Matheus, anda!”, gritado pelo Rúben Amorim, com o Matheus Nunes a arrancar a meio do seu meio campo, a ganhar metros a um Octávio à beira de uma apoplexia, a correr pelo meio campo do Porto fora até se isolar e rematar por cima da baliza. 

As conferências de imprensa dos dois treinadores foram reveladoras. De um lado, a compreensão das insuficiências, da incapacidade de chegar ao ataque. Do outro, a frustração mal disfarçada, a arrogância. Não, não houve falta de mérito próprio ou mérito do adversário. Houve azar. Houve árbitro, que marcava faltas, muitas faltas aos jogadores do Sporting, faltas não desejadas pelo Porto, quebrando o ritmo de jogo. O banco do Porto levantou-se muito mais vezes a protestar para que o árbitro não marcasse faltas aos jogadores do Sporting do que o banco do Sporting aos jogadores do Porto: doze a quatro nesse jogo de “fair play”. Noutro gesto de grande desportivismo, o novo Stéphane Demol do Porto desejou-nos boa sorte para a Liga dos Campeões da próxima época.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Superioridade numérica fora das quatro linhas

 

Fora das quatro linhas os jogos jogam-se à margem do jogo. Dentro das quatro linhas também. É neste (aparente) paradoxo que resiste o futebol português. O jogo, quando tem lugar, é o resultado de todas as forças que se jogam exteriormente a esse jogo. E não nos referimos apenas ao treino. O jogo, afinal de contas, é apenas um eco longínquo. Sempre que o Sporting vai na frente, esse eco torna-se incompreensível. Tocam os sinos a rebate, debatem-se as nuances, procuram-se culpados. Quando o jogo fora das quatro linhas perde para o jogo dentro das quatro linhas, o jogo fica viciado ao contrário. Toda a estrutura que mantém o sistema debate-se numa ala de psiquiatria. Os gritos escutam-se ao longe, mesmo sem ligarmos a CMTV. 

 

Ser, conhecimento e consciência

Ser pressupõe conhecimento e consciência. Não se é o que não se sabe ou não se tem consciência. Percebo perfeitamente que o Rúben Amorim não afirme que o Sporting é candidato ao título. Não sei o que é o Sporting ser candidato ao título. Esqueci-me do que é ou de que possa ser, sequer. O envelhecimento tem destas coisas: as memórias esvaem-se no tempo e o passado é uma nebulosa. Podia aprender mas não sei como. Conheço benfiquistas e portistas que sabem, mas o que eles sabem não me aproveita, pois sou sportinguista.

No sábado vamos jogar contra o Porto, candidato ao título. Joga um candidato ao título contra outro clube que não sabe o que é ser candidato ao título e, por isso, não pode ser o que não sabe o que é. Os candidatos ao título devem ganhar ou, então, não são candidatos ao título. Os outros jogam, jogo a jogo, e este é só mais um jogo. O Porto joga o título e nós jogamos um jogo, tão-só. Se o Porto perder, perde o título; se nós perdermos, perdemos um jogo. E se ganharmos? Ganhamos um jogo pois, lá está, não se pode ser o que não se conhece, o que não se tem consciência de ser. 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Narrativas, urdiduras e conspirações

Mais do que uma tática ou um estilo de jogo, o Rúben Amorim tem imposto uma narrativa: o jogo a jogo, o fazendo e aprendendo, o indo e vendo. Não se trata de uma contranarrativa relativamente à narrativa dominante, das expetativas que alguém se encarrega de realizar, tornando-as inevitáveis e, por fim, autorrealizáveis com o passar do tempo e por volta do Natal. Para se impor, esta narrativa tem de ser plausível na explicação dos factos, sendo os factos reais ou presumidos como tal. Os factos, as vitórias e a ausência de derrotas, são interpretados e reinterpretados como novos factos, onde os golos marcados e a segurança defensiva se transformam em acaso. O acaso não contraria a narrativa dominante e, assim, ninguém se sente desconfortável com esta nova narrativa que não parece distinta, especialmente os adversários.

Muitos treinadores têm sido derrotados, mas sem insatisfação, sem acrimónia. O Carlos Carvalhal talvez tenha sido o mais eloquente na expressão da vitória moral. O Pepa esteve bem por três vezes, destacando sempre a capacidade da equipa em se manter firme na defesa da sua ideia e princípios de jogo. No sábado, o Paulo Sérgio foi um pouco mais original, atribuindo à palermice dos seus jogadores os dois golos sofridos e a derrota. Quem ouviu, até pensa que as bolas entraram na baliza por livre arbítrio, por vontade própria, por obra a graça do Divino Espírito Santos [seria pior se atribuísse os golos à palermice da carecada na bola do Coates para a entrada de supetão do Feddal e à palermice do remate seco ao primeiro poste do Nuno Santos]. O jogo contra o Portimonense talvez tenha sido uma palermice, mas, a sê-lo, foi a palermice do costume: controlo do jogo e do adversário com e sem bola o tempo todo e pouco ou nada a dizer sobre a vitória.  

O meu amigo Júlio Pereira associa a imposição, a dominância desta narrativa, assente nas profecias do passado e que agrada a todos, ao simples facto de termos exportado sete treinadores para outras tantas equipas do campeonato: Jorge Jesus, Carlos Carvalhal, Paulo Sérgio, Jesualdo Ferreira, Silas, João Henriques e Miguel Cardoso [o Júlio conhece toda a gente que passou pelo Sporting seja em que função ou categoria profissional for e, se ele diz, está dito e não vale a pena questionar]. Ninguém melhor do que eles a conhece e, não, não andaríamos a contratar e despedir treinadores como se não houvesse amanhã se não existisse um plano [até começo a suspeitar que a contratação do Jesé e do Bolasie obedeceu também a um plano que, mais cedo do que tarde, iremos compreender]. 

O plano ultrapassa o simples ganha e perde campeonatos e envolve geoestratégia internacional. Alguém acredita que se exporta um Peseiro para a Venezuela se não for para derrubar o regime de Maduro? Como treinador da Coreia do Sul, o Paulo Bento não traz outra tranquilidade às relações sempre tensas no Pacífico e com o regime de Kim Jong-un? Talvez só tenha falhado o envio de Carlos Queiroz para o Irão [é malta rija que não se deixa levar nem com sanções económicas e ameaças militares]. O Varandas é um Putin com menos fanfarronice e operações plásticas [mas com a irritante mania de andar de gabardine]. À atenção dos gabinetes de comunicação do Benfica e do Porto: depois do apito dourado e do polvo encarnado, está em ação a centopeia verde [consultei a Wikipédia e fiquei a saber que as mais vulgares são amarelo-acastanhadas].

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

A história de um jogo sem história ou o esforço de engonhar uma crónica a toda a sela

Em Portugal, um jogo não é um jogo, é o corolário de uma novela que se inicia no jogo passado e na semana passada e o interlúdio para a novela que se seguirá na próxima semana e se concluirá no próximo jogo. É uma pausa entre dois períodos, determinando o antes e o depois, que neste período de confinamento duram e duram, como se o tempo estivesse suspenso. O antes teve de tudo um pouco. Depois de uma perna e de um nariz partido, o Porto resolveu dizer basta, mandar um murro na mesa e decretar o Varandas como o dono disto tudo. Sou muito favorável a manifestações revolucionárias, a quaisquer revoluções, em particular das que se desenvolvem como no faroeste, em memória dos meus heróis de infância: Kit Carson, Daniel Boone, Buffalo Bill e Davy Crockett. O Benfica foi mais civilizado mas não menos eficaz e apresentou queixa ao Conselho de Disciplina por utilização indevida do Palhinha no “derby”.

Durante esta semana o Paços de Ferreira deixou de existir e o Benfica e o Porto teimaram em jogar contra o Sporting, quisesse ou não quisesse o Sporting. O Rúben Amorim foi avisando que jogávamos contra o Paços de Ferreira, mas, que não, que basta, que não é assim, que ninguém deixa de jogar contra o Benfica ou o Porto só porque sim, só porque o calendário não o prevê. O Benfica e o Porto jogam contra quem querem e lhes apetece e se não lhes apetece jogar contra o Boavista ou contra o Moreirense nada os pode obrigar. O Sporting manteve a sua, a de jogar contra o Paços de Ferreira, e o Porto e o Benfica mantiveram a deles, a de não jogar contra o Boavista e o Moreirense, e amigos como dantes ou inimigos, como se quiser e der mais jeito. 

Foi neste estado de nervos que se chegou ao jogo de ontem. Os jogos do Sporting ou constituem uma história de faca e alguidar, de baba e ranho ou não têm história, como se fosse um dia como qualquer outro, mais um dia no escritório. Com ou sem história, a tática é a mesma de sempre: a defesa é o melhor ataque e depois, bem, depois é deixá-los cair de maduros. Se caírem, não há história; se não caírem, a história é outra e sempre há história. Ontem era dia de não haver história e por isso [e só por isso] se continua com este parlapié enrolado, engonhando a bom engonhar, por que não sei bem o que se pode dizer sobre o jogo. 

O Paços de Ferreira joga à bola e jogando à bola está mais próximo de cair de maduro. Não foi à primeira, com um toque de calcanhar do Paulinho [o Rúben Amorim continua a dizer que ele é o melhor ponta-de-lança de Portugal e arredores e, se ele o diz, eu acredito como acreditaria se dissesse o mesmo de um bidão, de um “jerrican”], foi à segunda, de “penalty”, marcado pelo João Mário. O João Mário não só foi decisivo pelo golo como também pela forma como conseguiu adormecer o adversário e nos adormeceu. Os dribles permanentemente para trás, para ganhar espaço e tempo para passar ainda mais para trás, deixam os adversários sem saber bem onde fica a sua baliza e, por oposição, a baliza do Sporting. Inicia-se a segunda parte e, na sequência de um canto, desvio no meio pelo Feddal e o Palhinha ao segundo poste a enfiar a bola no ângulo depois de um vólei fenomenal: "game, set and match". 

Aconteceram mais coisas, seguramente, mas não me vem nenhuma à memória assim de imediato, de primeira. Pensando melhor, sim, houve substituições, entrando uns tantos e saindo outros tantos, de um lado e do outro, e, sim, também houve faltas, muitas faltas. Quando se concluiu o jogo, recebo uma das habituais mensagens de “WhatsApp”: “Este árbitro apita como respira!”. Pela primeira vez não estou de acordo com este meu amigo. Não, o árbitro não apita como respira, o árbitro respira com o apito metido na boca ou enfiou-o pela faringe abaixo e ficou a atravancar a laringe. Tudo acabou em bem e a bem e se a Câmara de Lisboa tivesse sentido das suas responsabilidades, amanhã o seu presidente estaria a receber a equipa do Sporting para a homenagear: o Benfica não foi ultrapassado pelo Paços de Ferreira e, assim, a Capital, a nossa Capital, não se viu ultrapassada pela Capital do Móvel [depois de um jogo como este que ninguém me peça para arranjar um trocadilho melhor]. 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Stress pós-traumático

Não é fácil de reconhecer, de admitir, mas confesso, como sportinguista que sou: sofro de “stress” pós-traumático. Quem não souber bem do que falo pode sempre recordar o Apocalypse Now e o Martin Sheen a revolver-se na cama de um quarto de hotel, angustiado, enquanto uma ventoinha no teto vai rodopiando lentamente, ouvindo-se em fundo a voz de Jim Morrison, cantando: “This is the end, beautiful friend/This is the end, my only friend/The end of our elaborate plans/The end of ev'rything that stands/The end”. 

Para mim, o jogo de ontem começou no domingo à noite. Ligo a televisão e vejo que o Porto está a ganhar por um a zero ao Braga. Um pouco mais tarde, volto a ligar e vejo que o Porto está a ganhar por dois a zero, faltando cinco minutos para o fim do jogo. Desligo e dou o assunto por encerrado. De repente, ouço uma barulheira vinda do andar de cima e temo o pior e o pior fica à frente do nariz quando volto a ligar a televisão: o Braga conseguiu empatar. Se o Porto ganhasse, não estaria sob pressão. Se perdêssemos, reduzia-se a vantagem, nada especial, nada a que não esteja habituado. Não ganhando, havia a hipótese de se alargar a vantagem e isso, sim, não é habitual, é uma pressão insuportável. Os sintomas apareceram sem avisar: palpitações, perda de apetite e insónias. 

Ontem, sabia que ia reviver mais um acontecimento traumático, como tantos outros [não, não vou falar pela enésima vez do Peseiro e da final da Taça UEFA no Estádio de Alvalade perdida para o CSKA de Moscovo]. Inicia-se o jogo e começo a suspeitar do regresso do Silas. Os três tristes centrais a trocar a bola entre si até que a ansiedade de um deles o leva a enfiar-lhe uma biqueirada para a frente. Em certas circunstâncias, uma bica na bola para a frente pode ser uma tentativa de jogar em profundidade, mesmo que involuntária, como costuma ser qualquer bica na bola, por definição. Mas se a defesa está em cima da sua área, a bica na bola para a frente corresponde a desistir, a dar a bola ao adversário. A minha esperança é que o Gil Vicente nada quisesse fazer com ela, que a tornasse a devolver, para que tudo tristemente se reiniciasse, com os três tristes. Nada disso, para azar ou sorte, vá-se lá saber, sempre que recuperava a bola, o Gil Vicente atacava, com rapidez e olhos na baliza. Não foi à primeira ou à segunda, foi à terceira, bola nas costas da defesa, aparece um japonês e golo do Gil Vicente. 

Aproveito o intervalo para fazer um telefonema, para ganhar tempo. A conversa flui porque nem sequer quero voltar a ver o jogo, não tenho coragem. Acabo por respirar fundo e anuncio: “tenho de voltar a concentrar-me no jogo, o Sporting precisa de mim!” [como qualquer adepto, acredito que se mudar de canto do sofá ou se desligar e voltar a ligar a televisão sou capaz de ajudar a dar a volta ao jogo]. E volto e tudo tinha mudado. Não reconhecia a equipa nem os jogadores. De repente, os três tristes tinham-se transformado numa arma de destruição maciça. O Ruben Amorim aprende e aprende depressa e bem, não tendo dificuldades em mudar o que pensou mal, o que está errado: saindo o  Neto e o Feddal para entrar o Gonçalo Inácio e o Matheus Reis. A bola andava com outra velocidade, o jogo ganhava emoção, o cerco apertava-se, e havia Coates, o terceiro central que faltava nesta história de centrais, Coates uma vez, Coates outra vez, capitão, grande capitão! 22.49h e benfiquistas e portistas desatam a cortar os pulsos.

A respiração volta ao normal. A arritmia foi-se. Os sintomas podem voltar, pois o “stress” pós-traumático esconde-se mas não foge, não nos abandona. O Benfica e o Porto não podem fazer o favor de voltar a ganhar? Custa-lhes assim tanto? Não conseguem compreender o sofrimento alheio? Não sentem empatia? Aguentei esta, mas não sei se aguento outra. Mas valeu a pena, cada minuto, como se fosse o último, uma vida. Pensando melhor, talvez aguente, outra e mais outra e outra ainda. Vamos tentar?

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Fricções

 

Circula por aí no confinamento (agora apenas se circula nas redes ou adjacentes digitais) uma narrativa da conspiração para imbecis, e uma Nova Teoria da Admiração, resultante de uma parceria entre o politécnico de Cama Porca, em Alhandra, e o politécnico de Catraia do Buraco, Belmonte. Interessa-nos mais esta última, já que a narrativa da conspiração, radicando num conluio hipoteticamente liderado pelo Sporting, esquece que o Paços de Ferreira tem os mesmos pontos do Benfica, estando a uns meros dois pontos do Braga e a seis do Porto. Ora, não circulando (por enquanto) nenhuma teoria conspirativa sobre o domínio do Paços no futebol português, nomeadamente, nos seus bastidores e arrabaldes, estaremos então perante uma nova normalidade (muito em voga) hegemónica, que não poderá excluir o Paços, sobe pena de imbecilidade ostensiva. Sérgio Conceição, quando em recente conferência de Imprensa, refere que o futebol também se joga fora das quatro linhas (sem se rir), estaria obviamente (também) a pensar no Paços de Ferreira. Aguardamos uma capa do jornal A Bola sobre o assunto, mas com entrevistas a jogadores do Benfica.

Interessa-nos, modestamente, a Nova Teoria da Admiração, resultante de uma parceria entre o politécnico de Cama Porca, em Alhandra, e o politécnico de Catraia do Buraco, Belmonte; uma teoria onde os investigadores propõem uma nova forma de conseguir medir os níveis de admiração no futebol português, seguindo o insólito percurso do Sporting no primeiro lugar do campeonato, através do recurso a novas tecnologias de som e ultra-sons que permitem escutar, medir e analisar, estratificando em vários escalões e categorias, facilmente utilizáveis no futuro. Brevemente esta teoria será melhor explicada no programa da Antena 3, denominado Fricção Científica. Podemos apenas, em jeito de aperitivo, avançar que o estudo demonstra que os sons de admiração foram-se transformando ao longo do tempo, passando de ligeiros e pouco audíveis (muitas vezes mitigados de cinismo e graçolas) durante o mês de Novembro e Dezembro, para cada vez mais audíveis e agudos, tornando-se, aos poucos, graves e guturais entrecortados por ruídos estranhos e cada vez menos audíveis. Isto durante o mês de Janeiro e início de Fevereiro. Aguardemos. 

Jogo a jogo, até ao fim

 Dizem que em tempos de pandemia o tempo anda mais devagar, uma semana parece um ano. Não sei se é assim, mas não posso deixar de comparar a ânsia dos comentadores desportivos da nação a esfregarem as mãos e a dizer, semana após semana que para a próxima é que é, o Sporting vai perder e a partir daí voltará a normalidade duopolista do futebol nacional, com aquilo que se dizia dos Sportinguistas, época após época no seu 'para o ano é que é'. 

Ocorreu-me este tema após ver o vídeo partilhado noutro blog leonino, a Tasca do Cherba, e que ilustra em pleno o que se diz e se tem dito a nosso respeito (e pode ser lido aqui)

Os Sportinguistas resistiram muitos anos a prever épocas brilhantes, até que recentemente a maioria desistiu e passou a só pensar jogo a jogo. Só espero que com os comentadores o mesmo aconteça, que a esperança não ceda e passem muitas e muitas semanas a prever a nossa desgraça.

Pelo caminho, para os mais otimistas, relembro apenas que no campeonato anterior uma equipa fez 48 pontos na primeira volta, apenas uma derrota em 17 jogos, 7 pontos de vantagem sobre o perseguidor... o resto, o resto é história!

sábado, 6 de fevereiro de 2021

(Ir)realidades

Dia passado em videoconferências e em telefonemas crescentemente aborrecidos, irritantes. Começa o jogo e encontro-me num desses telefonemas. Vou conversando e olhando para o ecrã. As imagens parecem-me distantes, irreais, incluindo o golo do Pedro Gonçalves. Acaba a conversa e tento-me concentrar no jogo. Percebo que estamos em modo “até ao pescoço é canela”. Reconheço um dos matulões que nos bateu o tempo todo no jogo da Taça de Portugal, que mais tarde voltou a sair do campo pelo seu próprio pé, não sendo expulso outra vez. 

Troca habitual de mensagens por “WhatsApp” e preparação para uma segunda parte concentradíssimo, como diria o Paulo Futre. O Paulinho tenta marcar de calcanhar e começo a ficar preocupado. Para sportinguista escaldado, qualquer sinal é sinal que não tarda o habitual balde de água fria. Nada disso, troca de bola do lado direito, com passes curtos e crescente congestionamento de adversários, saída para o centro e imediata solicitação do lateral esquerdo, o Antunes ["mas este Antunes não é o Antunes que não joga nada?"], centro para o meio e Pedro Gonçalves a encostar para o segundo golo: parecia futebol de salão.

Ligam-me outra vez. Outro assunto aborrecido, muito aborrecido. Volto a acompanhar as imagens à distância, volta a irrealidade. Sem atenção não há envolvimento e o jogo é simples sequência de imagens, com bola e jogadores. Acaba o jogo e o telefonema. Vejo o resumo e delicio-me com a beleza do primeiro golo. Aproximação do Pedro Gonçalves ao portador da bola como manobra de atração do defesa e imediata desmarcação nas suas costas, passe de trinta metros de Gonçalo Inácio para o encontro perfeito entre o Pedro Gonçalves e a bola no sítio certo, no momento certo, túnel no guarda-redes e passe para a baliza. Estética como função num só lance, fazendo-me lembrar o Poema das Coisas Belas, de António Gedeão. 

Continuo a ver televisão e a ouvir comentários. A irrealidade continua, mas não, não é da minha responsabilidade. Há um mundo irreal que rodeia o futebol. Aparentemente, por cada jogo que passa, o Sporting perde onze pontos por jogar com o Palhinha [ou oito, sei lá!]. Há uma cabala internacional da arbitragem contra o Porto. Não dizem, mas imagina-se uma coisa engendrada pelo Varandas com o apoio de serviços de inteligência, como a CIA ou o KGB. O Benfica está com os mesmos pontos do Paços de Ferreira e ninguém acredita na realidade, nesta realidade. E nós? Nós continuamos a viver este real irreal, desconfiados, resistindo à tentação do desta é que é, enquanto o Amorim explica: jogo a jogo, hoje o Paulinho, amanhã o Tiago Tomás, o Antunes, o nosso Vitorino, o herói improvável.