segunda-feira, 1 de março de 2021

A desmontagem contrariada

 

Aqui há tempos tinha escrito uma posta de pescada que começava assim: Não é como jogamos, isso toda a gente sabe, mas como pensamos, que faz a diferença. Ora releiam, por favor.

Ontem estava a tentar ver o jogo e a refletir (tinha o telemóvel, o computador, o relato, um cigarro e uma cerveja numa das mãos - a outra estava guardada para qualquer eventualidade) se as equipas se encaixavam (agora é assim que se diz quando a coisa fica enconada no tempo e no espaço) contrariadas, ou se se contrariavam encaixadas. Não é a mesma coisa. A questão da facilidade da desmontagem (revelada por Conceição) contraria um mito enraizado, muito característico dos países latinos, associado à facilidade da montagem, algo que o eminente cientista Zezé Camarinha anda a desvendar ao mundo em vários colóquios nacionais e internacionais, disponível em várias publicações da especialidade. Isto dá que pensar.

Não sabemos se uma desmontagem poderá ser contrariada de forma encaixada, ou se uma desmontagem poderá, eventualmente, ser encaixada de forma contrariada. Mas inclinamo-nos mais para esta última, tendo em conta as várias demonstrações (mais uma vez) de desportivismo dos senhores do Porto, tanto nas comunicações à imprensa, como na forma agradável de (não) cumprimentar o adversário no final do jogo. Um exemplo com seguidores imberbes.

Jogo a jogo, continua o nosso caminho para o pacemaker, perdão, para (tentar) chegar ao título.

Nota: ajudaria ter mais um avançado disponível (uma referência no ataque, como se diz por aí), para o caso do Paulinho continuar lesionado. Uma referência poderá sempre ser desmontada e, ao mesmo tempo, difícil de contrariar.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

“Fácil de desmontar, difícil de contrariar”

“Fácil de desmontar, difícil de contrariar”, era assim que o Sérgio Conceição analisava o Sporting antes do jogo e deveria ter sido assim a sua análise depois do jogo. Como outros antes, o Sérgio Conceição queria medir-se com o Rúben Amorim e dar-lhe uma lição tática. Não se queria afirmar o jogo próprio, mas negar o jogo do adversário. Esta forma de abordar os jogos tem levado sempre ao mesmo resultado: condicionar o adversário condiciona o jogo da própria equipa [aquela coisa da Juventus oferecer um golo no início jogo não acontece todos os dias]. 

O Porto compreendeu a forma de jogar do Sporting, condicionou-a, mas não a contrariou. É verdade que o Sporting teve muitas dificuldades para sair a jogar, jogando comprido mas sem dispor de um ponta-de-lança que sirva de referência, ganhando a primeira bola, segurando-a e assim permitindo o avanço do resto da equipa.  Mas também é verdade que pressionar alto, evitar a troca de passes entre os centrais, não deixar avançar pelo meio, não permite ao adversário outra alternativa que não seja a de responder na mesma moeda: bola na frente, pressão sobre os centrais e dificuldades de construção pelo meio também. 

E assim se condicionou o jogo de um lado e do outro. Condicionou-se o ataque, mas nunca se contrariaram as defesas. Se de um lado se enfiavam bicas e mais bicas na bola para a frente, do outro fazia-se o mesmo. O jogo foi pouco mais do que isto, em particular a primeira parte: uma partida de “flippers” ou de “pinball”. Os defesas ou os guarda-redes de cada equipa davam na bola com quantas forças tinham e esperavam marcar pontos acertando nos pinos, fossem os seus colegas ou adversários. Espremendo, espremendo bem este festival de biqueiros, resultam dois acasos: o remate de pé direito do Taremi contra o seu pé esquerdo, ricocheteando a bola para o pé direito outra vez e saindo pela linha de fundo, e o “anda Matheus, anda!”, gritado pelo Rúben Amorim, com o Matheus Nunes a arrancar a meio do seu meio campo, a ganhar metros a um Octávio à beira de uma apoplexia, a correr pelo meio campo do Porto fora até se isolar e rematar por cima da baliza. 

As conferências de imprensa dos dois treinadores foram reveladoras. De um lado, a compreensão das insuficiências, da incapacidade de chegar ao ataque. Do outro, a frustração mal disfarçada, a arrogância. Não, não houve falta de mérito próprio ou mérito do adversário. Houve azar. Houve árbitro, que marcava faltas, muitas faltas aos jogadores do Sporting, faltas não desejadas pelo Porto, quebrando o ritmo de jogo. O banco do Porto levantou-se muito mais vezes a protestar para que o árbitro não marcasse faltas aos jogadores do Sporting do que o banco do Sporting aos jogadores do Porto: doze a quatro nesse jogo de “fair play”. Noutro gesto de grande desportivismo, o novo Stéphane Demol do Porto desejou-nos boa sorte para a Liga dos Campeões da próxima época.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Superioridade numérica fora das quatro linhas

 

Fora das quatro linhas os jogos jogam-se à margem do jogo. Dentro das quatro linhas também. É neste (aparente) paradoxo que resiste o futebol português. O jogo, quando tem lugar, é o resultado de todas as forças que se jogam exteriormente a esse jogo. E não nos referimos apenas ao treino. O jogo, afinal de contas, é apenas um eco longínquo. Sempre que o Sporting vai na frente, esse eco torna-se incompreensível. Tocam os sinos a rebate, debatem-se as nuances, procuram-se culpados. Quando o jogo fora das quatro linhas perde para o jogo dentro das quatro linhas, o jogo fica viciado ao contrário. Toda a estrutura que mantém o sistema debate-se numa ala de psiquiatria. Os gritos escutam-se ao longe, mesmo sem ligarmos a CMTV. 

 

Ser, conhecimento e consciência

Ser pressupõe conhecimento e consciência. Não se é o que não se sabe ou não se tem consciência. Percebo perfeitamente que o Rúben Amorim não afirme que o Sporting é candidato ao título. Não sei o que é o Sporting ser candidato ao título. Esqueci-me do que é ou de que possa ser, sequer. O envelhecimento tem destas coisas: as memórias esvaem-se no tempo e o passado é uma nebulosa. Podia aprender mas não sei como. Conheço benfiquistas e portistas que sabem, mas o que eles sabem não me aproveita, pois sou sportinguista.

No sábado vamos jogar contra o Porto, candidato ao título. Joga um candidato ao título contra outro clube que não sabe o que é ser candidato ao título e, por isso, não pode ser o que não sabe o que é. Os candidatos ao título devem ganhar ou, então, não são candidatos ao título. Os outros jogam, jogo a jogo, e este é só mais um jogo. O Porto joga o título e nós jogamos um jogo, tão-só. Se o Porto perder, perde o título; se nós perdermos, perdemos um jogo. E se ganharmos? Ganhamos um jogo pois, lá está, não se pode ser o que não se conhece, o que não se tem consciência de ser. 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Narrativas, urdiduras e conspirações

Mais do que uma tática ou um estilo de jogo, o Rúben Amorim tem imposto uma narrativa: o jogo a jogo, o fazendo e aprendendo, o indo e vendo. Não se trata de uma contranarrativa relativamente à narrativa dominante, das expetativas que alguém se encarrega de realizar, tornando-as inevitáveis e, por fim, autorrealizáveis com o passar do tempo e por volta do Natal. Para se impor, esta narrativa tem de ser plausível na explicação dos factos, sendo os factos reais ou presumidos como tal. Os factos, as vitórias e a ausência de derrotas, são interpretados e reinterpretados como novos factos, onde os golos marcados e a segurança defensiva se transformam em acaso. O acaso não contraria a narrativa dominante e, assim, ninguém se sente desconfortável com esta nova narrativa que não parece distinta, especialmente os adversários.

Muitos treinadores têm sido derrotados, mas sem insatisfação, sem acrimónia. O Carlos Carvalhal talvez tenha sido o mais eloquente na expressão da vitória moral. O Pepa esteve bem por três vezes, destacando sempre a capacidade da equipa em se manter firme na defesa da sua ideia e princípios de jogo. No sábado, o Paulo Sérgio foi um pouco mais original, atribuindo à palermice dos seus jogadores os dois golos sofridos e a derrota. Quem ouviu, até pensa que as bolas entraram na baliza por livre arbítrio, por vontade própria, por obra a graça do Divino Espírito Santos [seria pior se atribuísse os golos à palermice da carecada na bola do Coates para a entrada de supetão do Feddal e à palermice do remate seco ao primeiro poste do Nuno Santos]. O jogo contra o Portimonense talvez tenha sido uma palermice, mas, a sê-lo, foi a palermice do costume: controlo do jogo e do adversário com e sem bola o tempo todo e pouco ou nada a dizer sobre a vitória.  

O meu amigo Júlio Pereira associa a imposição, a dominância desta narrativa, assente nas profecias do passado e que agrada a todos, ao simples facto de termos exportado sete treinadores para outras tantas equipas do campeonato: Jorge Jesus, Carlos Carvalhal, Paulo Sérgio, Jesualdo Ferreira, Silas, João Henriques e Miguel Cardoso [o Júlio conhece toda a gente que passou pelo Sporting seja em que função ou categoria profissional for e, se ele diz, está dito e não vale a pena questionar]. Ninguém melhor do que eles a conhece e, não, não andaríamos a contratar e despedir treinadores como se não houvesse amanhã se não existisse um plano [até começo a suspeitar que a contratação do Jesé e do Bolasie obedeceu também a um plano que, mais cedo do que tarde, iremos compreender]. 

O plano ultrapassa o simples ganha e perde campeonatos e envolve geoestratégia internacional. Alguém acredita que se exporta um Peseiro para a Venezuela se não for para derrubar o regime de Maduro? Como treinador da Coreia do Sul, o Paulo Bento não traz outra tranquilidade às relações sempre tensas no Pacífico e com o regime de Kim Jong-un? Talvez só tenha falhado o envio de Carlos Queiroz para o Irão [é malta rija que não se deixa levar nem com sanções económicas e ameaças militares]. O Varandas é um Putin com menos fanfarronice e operações plásticas [mas com a irritante mania de andar de gabardine]. À atenção dos gabinetes de comunicação do Benfica e do Porto: depois do apito dourado e do polvo encarnado, está em ação a centopeia verde [consultei a Wikipédia e fiquei a saber que as mais vulgares são amarelo-acastanhadas].

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

A história de um jogo sem história ou o esforço de engonhar uma crónica a toda a sela

Em Portugal, um jogo não é um jogo, é o corolário de uma novela que se inicia no jogo passado e na semana passada e o interlúdio para a novela que se seguirá na próxima semana e se concluirá no próximo jogo. É uma pausa entre dois períodos, determinando o antes e o depois, que neste período de confinamento duram e duram, como se o tempo estivesse suspenso. O antes teve de tudo um pouco. Depois de uma perna e de um nariz partido, o Porto resolveu dizer basta, mandar um murro na mesa e decretar o Varandas como o dono disto tudo. Sou muito favorável a manifestações revolucionárias, a quaisquer revoluções, em particular das que se desenvolvem como no faroeste, em memória dos meus heróis de infância: Kit Carson, Daniel Boone, Buffalo Bill e Davy Crockett. O Benfica foi mais civilizado mas não menos eficaz e apresentou queixa ao Conselho de Disciplina por utilização indevida do Palhinha no “derby”.

Durante esta semana o Paços de Ferreira deixou de existir e o Benfica e o Porto teimaram em jogar contra o Sporting, quisesse ou não quisesse o Sporting. O Rúben Amorim foi avisando que jogávamos contra o Paços de Ferreira, mas, que não, que basta, que não é assim, que ninguém deixa de jogar contra o Benfica ou o Porto só porque sim, só porque o calendário não o prevê. O Benfica e o Porto jogam contra quem querem e lhes apetece e se não lhes apetece jogar contra o Boavista ou contra o Moreirense nada os pode obrigar. O Sporting manteve a sua, a de jogar contra o Paços de Ferreira, e o Porto e o Benfica mantiveram a deles, a de não jogar contra o Boavista e o Moreirense, e amigos como dantes ou inimigos, como se quiser e der mais jeito. 

Foi neste estado de nervos que se chegou ao jogo de ontem. Os jogos do Sporting ou constituem uma história de faca e alguidar, de baba e ranho ou não têm história, como se fosse um dia como qualquer outro, mais um dia no escritório. Com ou sem história, a tática é a mesma de sempre: a defesa é o melhor ataque e depois, bem, depois é deixá-los cair de maduros. Se caírem, não há história; se não caírem, a história é outra e sempre há história. Ontem era dia de não haver história e por isso [e só por isso] se continua com este parlapié enrolado, engonhando a bom engonhar, por que não sei bem o que se pode dizer sobre o jogo. 

O Paços de Ferreira joga à bola e jogando à bola está mais próximo de cair de maduro. Não foi à primeira, com um toque de calcanhar do Paulinho [o Rúben Amorim continua a dizer que ele é o melhor ponta-de-lança de Portugal e arredores e, se ele o diz, eu acredito como acreditaria se dissesse o mesmo de um bidão, de um “jerrican”], foi à segunda, de “penalty”, marcado pelo João Mário. O João Mário não só foi decisivo pelo golo como também pela forma como conseguiu adormecer o adversário e nos adormeceu. Os dribles permanentemente para trás, para ganhar espaço e tempo para passar ainda mais para trás, deixam os adversários sem saber bem onde fica a sua baliza e, por oposição, a baliza do Sporting. Inicia-se a segunda parte e, na sequência de um canto, desvio no meio pelo Feddal e o Palhinha ao segundo poste a enfiar a bola no ângulo depois de um vólei fenomenal: "game, set and match". 

Aconteceram mais coisas, seguramente, mas não me vem nenhuma à memória assim de imediato, de primeira. Pensando melhor, sim, houve substituições, entrando uns tantos e saindo outros tantos, de um lado e do outro, e, sim, também houve faltas, muitas faltas. Quando se concluiu o jogo, recebo uma das habituais mensagens de “WhatsApp”: “Este árbitro apita como respira!”. Pela primeira vez não estou de acordo com este meu amigo. Não, o árbitro não apita como respira, o árbitro respira com o apito metido na boca ou enfiou-o pela faringe abaixo e ficou a atravancar a laringe. Tudo acabou em bem e a bem e se a Câmara de Lisboa tivesse sentido das suas responsabilidades, amanhã o seu presidente estaria a receber a equipa do Sporting para a homenagear: o Benfica não foi ultrapassado pelo Paços de Ferreira e, assim, a Capital, a nossa Capital, não se viu ultrapassada pela Capital do Móvel [depois de um jogo como este que ninguém me peça para arranjar um trocadilho melhor]. 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Stress pós-traumático

Não é fácil de reconhecer, de admitir, mas confesso, como sportinguista que sou: sofro de “stress” pós-traumático. Quem não souber bem do que falo pode sempre recordar o Apocalypse Now e o Martin Sheen a revolver-se na cama de um quarto de hotel, angustiado, enquanto uma ventoinha no teto vai rodopiando lentamente, ouvindo-se em fundo a voz de Jim Morrison, cantando: “This is the end, beautiful friend/This is the end, my only friend/The end of our elaborate plans/The end of ev'rything that stands/The end”. 

Para mim, o jogo de ontem começou no domingo à noite. Ligo a televisão e vejo que o Porto está a ganhar por um a zero ao Braga. Um pouco mais tarde, volto a ligar e vejo que o Porto está a ganhar por dois a zero, faltando cinco minutos para o fim do jogo. Desligo e dou o assunto por encerrado. De repente, ouço uma barulheira vinda do andar de cima e temo o pior e o pior fica à frente do nariz quando volto a ligar a televisão: o Braga conseguiu empatar. Se o Porto ganhasse, não estaria sob pressão. Se perdêssemos, reduzia-se a vantagem, nada especial, nada a que não esteja habituado. Não ganhando, havia a hipótese de se alargar a vantagem e isso, sim, não é habitual, é uma pressão insuportável. Os sintomas apareceram sem avisar: palpitações, perda de apetite e insónias. 

Ontem, sabia que ia reviver mais um acontecimento traumático, como tantos outros [não, não vou falar pela enésima vez do Peseiro e da final da Taça UEFA no Estádio de Alvalade perdida para o CSKA de Moscovo]. Inicia-se o jogo e começo a suspeitar do regresso do Silas. Os três tristes centrais a trocar a bola entre si até que a ansiedade de um deles o leva a enfiar-lhe uma biqueirada para a frente. Em certas circunstâncias, uma bica na bola para a frente pode ser uma tentativa de jogar em profundidade, mesmo que involuntária, como costuma ser qualquer bica na bola, por definição. Mas se a defesa está em cima da sua área, a bica na bola para a frente corresponde a desistir, a dar a bola ao adversário. A minha esperança é que o Gil Vicente nada quisesse fazer com ela, que a tornasse a devolver, para que tudo tristemente se reiniciasse, com os três tristes. Nada disso, para azar ou sorte, vá-se lá saber, sempre que recuperava a bola, o Gil Vicente atacava, com rapidez e olhos na baliza. Não foi à primeira ou à segunda, foi à terceira, bola nas costas da defesa, aparece um japonês e golo do Gil Vicente. 

Aproveito o intervalo para fazer um telefonema, para ganhar tempo. A conversa flui porque nem sequer quero voltar a ver o jogo, não tenho coragem. Acabo por respirar fundo e anuncio: “tenho de voltar a concentrar-me no jogo, o Sporting precisa de mim!” [como qualquer adepto, acredito que se mudar de canto do sofá ou se desligar e voltar a ligar a televisão sou capaz de ajudar a dar a volta ao jogo]. E volto e tudo tinha mudado. Não reconhecia a equipa nem os jogadores. De repente, os três tristes tinham-se transformado numa arma de destruição maciça. O Ruben Amorim aprende e aprende depressa e bem, não tendo dificuldades em mudar o que pensou mal, o que está errado: saindo o  Neto e o Feddal para entrar o Gonçalo Inácio e o Matheus Reis. A bola andava com outra velocidade, o jogo ganhava emoção, o cerco apertava-se, e havia Coates, o terceiro central que faltava nesta história de centrais, Coates uma vez, Coates outra vez, capitão, grande capitão! 22.49h e benfiquistas e portistas desatam a cortar os pulsos.

A respiração volta ao normal. A arritmia foi-se. Os sintomas podem voltar, pois o “stress” pós-traumático esconde-se mas não foge, não nos abandona. O Benfica e o Porto não podem fazer o favor de voltar a ganhar? Custa-lhes assim tanto? Não conseguem compreender o sofrimento alheio? Não sentem empatia? Aguentei esta, mas não sei se aguento outra. Mas valeu a pena, cada minuto, como se fosse o último, uma vida. Pensando melhor, talvez aguente, outra e mais outra e outra ainda. Vamos tentar?

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Fricções

 

Circula por aí no confinamento (agora apenas se circula nas redes ou adjacentes digitais) uma narrativa da conspiração para imbecis, e uma Nova Teoria da Admiração, resultante de uma parceria entre o politécnico de Cama Porca, em Alhandra, e o politécnico de Catraia do Buraco, Belmonte. Interessa-nos mais esta última, já que a narrativa da conspiração, radicando num conluio hipoteticamente liderado pelo Sporting, esquece que o Paços de Ferreira tem os mesmos pontos do Benfica, estando a uns meros dois pontos do Braga e a seis do Porto. Ora, não circulando (por enquanto) nenhuma teoria conspirativa sobre o domínio do Paços no futebol português, nomeadamente, nos seus bastidores e arrabaldes, estaremos então perante uma nova normalidade (muito em voga) hegemónica, que não poderá excluir o Paços, sobe pena de imbecilidade ostensiva. Sérgio Conceição, quando em recente conferência de Imprensa, refere que o futebol também se joga fora das quatro linhas (sem se rir), estaria obviamente (também) a pensar no Paços de Ferreira. Aguardamos uma capa do jornal A Bola sobre o assunto, mas com entrevistas a jogadores do Benfica.

Interessa-nos, modestamente, a Nova Teoria da Admiração, resultante de uma parceria entre o politécnico de Cama Porca, em Alhandra, e o politécnico de Catraia do Buraco, Belmonte; uma teoria onde os investigadores propõem uma nova forma de conseguir medir os níveis de admiração no futebol português, seguindo o insólito percurso do Sporting no primeiro lugar do campeonato, através do recurso a novas tecnologias de som e ultra-sons que permitem escutar, medir e analisar, estratificando em vários escalões e categorias, facilmente utilizáveis no futuro. Brevemente esta teoria será melhor explicada no programa da Antena 3, denominado Fricção Científica. Podemos apenas, em jeito de aperitivo, avançar que o estudo demonstra que os sons de admiração foram-se transformando ao longo do tempo, passando de ligeiros e pouco audíveis (muitas vezes mitigados de cinismo e graçolas) durante o mês de Novembro e Dezembro, para cada vez mais audíveis e agudos, tornando-se, aos poucos, graves e guturais entrecortados por ruídos estranhos e cada vez menos audíveis. Isto durante o mês de Janeiro e início de Fevereiro. Aguardemos. 

Jogo a jogo, até ao fim

 Dizem que em tempos de pandemia o tempo anda mais devagar, uma semana parece um ano. Não sei se é assim, mas não posso deixar de comparar a ânsia dos comentadores desportivos da nação a esfregarem as mãos e a dizer, semana após semana que para a próxima é que é, o Sporting vai perder e a partir daí voltará a normalidade duopolista do futebol nacional, com aquilo que se dizia dos Sportinguistas, época após época no seu 'para o ano é que é'. 

Ocorreu-me este tema após ver o vídeo partilhado noutro blog leonino, a Tasca do Cherba, e que ilustra em pleno o que se diz e se tem dito a nosso respeito (e pode ser lido aqui)

Os Sportinguistas resistiram muitos anos a prever épocas brilhantes, até que recentemente a maioria desistiu e passou a só pensar jogo a jogo. Só espero que com os comentadores o mesmo aconteça, que a esperança não ceda e passem muitas e muitas semanas a prever a nossa desgraça.

Pelo caminho, para os mais otimistas, relembro apenas que no campeonato anterior uma equipa fez 48 pontos na primeira volta, apenas uma derrota em 17 jogos, 7 pontos de vantagem sobre o perseguidor... o resto, o resto é história!

sábado, 6 de fevereiro de 2021

(Ir)realidades

Dia passado em videoconferências e em telefonemas crescentemente aborrecidos, irritantes. Começa o jogo e encontro-me num desses telefonemas. Vou conversando e olhando para o ecrã. As imagens parecem-me distantes, irreais, incluindo o golo do Pedro Gonçalves. Acaba a conversa e tento-me concentrar no jogo. Percebo que estamos em modo “até ao pescoço é canela”. Reconheço um dos matulões que nos bateu o tempo todo no jogo da Taça de Portugal, que mais tarde voltou a sair do campo pelo seu próprio pé, não sendo expulso outra vez. 

Troca habitual de mensagens por “WhatsApp” e preparação para uma segunda parte concentradíssimo, como diria o Paulo Futre. O Paulinho tenta marcar de calcanhar e começo a ficar preocupado. Para sportinguista escaldado, qualquer sinal é sinal que não tarda o habitual balde de água fria. Nada disso, troca de bola do lado direito, com passes curtos e crescente congestionamento de adversários, saída para o centro e imediata solicitação do lateral esquerdo, o Antunes ["mas este Antunes não é o Antunes que não joga nada?"], centro para o meio e Pedro Gonçalves a encostar para o segundo golo: parecia futebol de salão.

Ligam-me outra vez. Outro assunto aborrecido, muito aborrecido. Volto a acompanhar as imagens à distância, volta a irrealidade. Sem atenção não há envolvimento e o jogo é simples sequência de imagens, com bola e jogadores. Acaba o jogo e o telefonema. Vejo o resumo e delicio-me com a beleza do primeiro golo. Aproximação do Pedro Gonçalves ao portador da bola como manobra de atração do defesa e imediata desmarcação nas suas costas, passe de trinta metros de Gonçalo Inácio para o encontro perfeito entre o Pedro Gonçalves e a bola no sítio certo, no momento certo, túnel no guarda-redes e passe para a baliza. Estética como função num só lance, fazendo-me lembrar o Poema das Coisas Belas, de António Gedeão. 

Continuo a ver televisão e a ouvir comentários. A irrealidade continua, mas não, não é da minha responsabilidade. Há um mundo irreal que rodeia o futebol. Aparentemente, por cada jogo que passa, o Sporting perde onze pontos por jogar com o Palhinha [ou oito, sei lá!]. Há uma cabala internacional da arbitragem contra o Porto. Não dizem, mas imagina-se uma coisa engendrada pelo Varandas com o apoio de serviços de inteligência, como a CIA ou o KGB. O Benfica está com os mesmos pontos do Paços de Ferreira e ninguém acredita na realidade, nesta realidade. E nós? Nós continuamos a viver este real irreal, desconfiados, resistindo à tentação do desta é que é, enquanto o Amorim explica: jogo a jogo, hoje o Paulinho, amanhã o Tiago Tomás, o Antunes, o nosso Vitorino, o herói improvável. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Filosofia na alcova

 

Não sei se sabem, mas aquele (hipotético) falhanço do Neto (grande jogo) serviu para aliciar os jogadores do Benfica, que assim ficavam cada vez mais perto do empate. Tudo planeado. O cérebro dos jogadores do Benfica quando entraram num Alvalade cheio (não tenham dúvidas disso), estava projetado para enconar, encaixando no sistema adversário (é assim que se diz, não é?). O Jesus, coadjuvado por Deus (assim não é fácil), lá de sua casa, tinha projectado a sua ideia para campos onde o logaritmo não entra sem bater. A sua ideia (claro que continua a ser a sua!) seria envolver a (sua) ideia do costume, na ideia (deixem passar) do Sporting, quer dizer, do Amorim, sem que isso se notasse nas imagens da transmissão televisiva e do VAR.

Não sei se sabem, mas o Sporting estava em campo. Estava em campo no exato minuto em que o Jardel acompanhou o Santos na ventura da velocidade. Estava em campo, quando o Benfica começou a perder os diálogos consigo próprio (deixem passar) e apenas comunicava com o exterior por um tubinho. Mas a coisa encaixava, diziam os comentadores, embora o embaraço dos jogadores no desconhecimento daquele jogo, fosse percetível sem o recurso a microscópio, apesar disso, encaixava. A voz, ouvia-se algures, dizia que encaixava. O contraditório, nestes momentos, não se compadece com quaisquer outros pensamentos. Continuamos a existir, mas sem se notar muito.

O jogo, supostamente encaixado, prosseguia (isto durou muito tempo). A ideia de Jesus sufragava a ideia de Amorim. Amorim existiria nessa dimensão íntima, embora não fizesse a mínima ideia disso. Amorim, certificado leitor de Platão, sabia que este concebia a realidade de maneira dualista, por um lado as ideias e, por outro lado, o mundo sensível, um mundo que todos reconhecemos, mesmo sem Covid. A questão era: como passar uma imagem de acordo com o mundo sensível, sem esquecer as ideias(?). Amorim sabia-o, mas talvez não quisesse ferir em demasia um Jesus confinado. Não sabemos se terá conseguido. O que sabemos é que no mundo sensível joga-se até ao fim. E isso requer muito trabalho!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Entre planos e aforismos

Há quem acuse o Rúben Amorim de estar obcecado com o seu plano, o Plano A, à falta de melhor definição. Desconfio de pessoas que não têm plano nenhum ou têm tantos, mas tantos que não passam da sua cabeça, que é uma forma ilusória de não ter nenhum [se nos recordarmos do Silas, percebe-se bem]. Talvez ontem tenha ficado claro que essa obsessão é mais dos adversários do que dele. 

Para contrariar o nosso Plano A, o Benfica adotou o seu Plano B [a letra é arbitrária, querendo dizer que adotou um plano diferente do habitual], que não era bem um Plano B, mas um plano para contrariar o nosso Plano A, isto é, dispunha de um plano que funcionaria na exata medida que contrariasse o nosso. O Plano B é parecido com o nosso Plano A, mas como qualquer “pastiche” não é a mesma coisa, não se troca o original pela contrafação. Os três centrais não serviam para projetar os laterais no ataque e os laterais serviam para fechar as laterais e os laterais do Sporting. Do lado esquerdo, a obsessão foi ao ponto de terem jogado com dois laterais, Grimaldo e Cervi, tal era o receio do temível Pedro Porro. 

O Benfica não queria perder, desse por onde desse. Nós queríamos ganhar e queríamos ganhar com o Matheus Nunes em campo. O Sporting ataca com poucos e vive de recuperações de bola, de acelerações de jogo quando um jogador de meio campo fica de frente para a baliza, de passes em profundidade para as costas da defesa e das diagonais dos avançados, obrigando os centrais a correrias e deslocações permanentes para as laterais. Na primeira correria, o Jardel lesiona-se ao perseguir o endiabrado Nuno Santos e o Benfica repõe os três centrais, recuando o Weigl e metendo o Gabriel no seu lugar, tal era a preocupação em manter o Plano B ou o anti-Plano A do adversário. Mas sem mais lesões, o desgaste dos centrais continuou muito por culpa do Tiago Tomás que não parava quieto e não se intimidava [a dado momento, a forma como enfrentou o Otamendi e o olhou parecia retirada da cena do “You talkin’ to me?” ao espelho do Robert de Niro, no Taxi Driver]. 

Na primeira parte, o Benfica viveu em permanente sobressalto, mas o Sporting chegava com poucos jogadores ao ataque, amarrados como estavam os laterais. Mesmo assim, ainda deu para o Neto falhar um golo cantado [mais para a frente, para compensar, tem que se arranjar forma dele marcar um golo, pois parecia desrespeitoso para com o nosso eternos rival marcá-lo ontem] e o Otamendi cortou sem saber bem como um remate com selo de golo do Pedro Porro. Na segunda parte, o jogo ficou mais equilibrado e mais amarrado ainda. O Tiago Tomás conseguiu aparecer desmarcado do lado direito, mas em vez de insistir e de se isolar, quando o Otamendi se encontrava em modo de desespero, resolveu passar para o lado, para o Pedro Gonçalves acertar com a bola no Weigl. Enquanto isso, assistia-se a uma arbitragem cheia de providências cautelares: o Pizzi continuou inimputável quase até ao fim do jogo; o Gilberto tentou ser expulso três vezes [na última, é hilariante a forma como o árbitro ainda acaba por assinalar falta do Pedro Gonçalves]; não se esquecia do habitual amarelo ao Neto para se esquecer logo depois do amarelo ao Gabriel. 

Com a entrada do Palhinha, o Sporting trancou a defesa e o meio campo e deu mais liberdade ao Matheus Nunes, que não se parece cansar e está em todo o lado ao mesmo tempo. O Tabata entrou bem, intenso, participativo, a defender e a atacar, enquanto o Jovane entrou acabrunhado, participando pouco no ataque e tendo pouco cuidado a fechar o seu lado e a apoiar o Nuno Mendes. Faltava alguém que refrescasse verdadeiramente o ataque, que continuasse o trabalho de Tiago Tomás. O Sporting manteve a intensidade de jogo e o Benfica aguentou como pôde, decidindo substituir os dois defesas esquerdos por um só, mais espigadote, pensando que o Pedro Porro estava arrumado, erro absolutamente decisivo, como se viu pouco depois. 

Coates enfia uma bica para onde está virado, o Weigl hesita e vê-se cercado por uma praga de gafanhotos liderado pelo tal de Tabata, um brasileiro brinca-na-areia que o Rúben Amorim transformou numa arma de destruição maciça, a bola sobra para o Jovane que com uma revienga senta dois defesas e depois, bem, depois seguiu-se uma cena tantas vezes repetida esta época: bola para o segundo poste, onde acaba de chegar o Pedro Porro, domínio perfeito, simulação, transformação do rapaz espigadote em homem-estátua, bola metida para a entrada do Jovane, saída do guarda-redes em desespero a sacudir a bola para a frente e Matheus Nunes, o homem de todos os sítios e sítio nenhum, a aparecer para encostar de cabeça e ganhar o jogo. Só uma equipa como a do Sporting acredita naquela bola vadia como se não houvesse amanhã e chega com cinco jogadores à área do adversário ao fim de noventa minutos de jogo.   

Melhor do que o jogo foram os comentários na televisão logo a seguir. “Não se jogou nada, raspas”. “O jogo foi uma porcaria”. “Foi sorte, muita sorte, com golo depois dos noventa minutos”. “O Benfica tem de jogar mais”. “O Sporting, sim, e o Sporting?”. “Peço desculpa, o Sporting o quê?”. “Como é que o Sporting jogou?”. “O Sporting jogou?”. Tudo se concluiu, a bem, com um aforismo de um velho treinador: “É muito difícil prever, principalmente o futuro”. É, pois é, talvez seja preciso um plano.  

domingo, 31 de janeiro de 2021

Filmes

 

O Paulinho fez anos, mas é de outro que se fala.

Amanhã o derby joga-se às 21h30m. Agora temos sessões da meia-noite no futebol.

O Palhinha vai ver o jogo sentado na poltrona. Será falta para amarelo?

O Benfica não fez a habitual conferência de imprensa que antecede os jogos. As câmaras registaram o momento.

O Abel ganhou a Libertadores. Uma sequela de JJ - disseram.

O Ferreyra rescindiu o contrato. A grande contratação já não faz parte do elenco.

O Ferro foi emprestado. Os gigantes não se vendem. 

Cada jogo é um jogo... depende da perspectiva. 


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Fingidores

O Sporting deixou de jogar em campos de futebol, em relvados, e passou a fazê-lo em contextos territoriais de maior biodiversidade e de respeito pela natureza. Começámos na Tapada de Mafra, contra o Nacional, passámos pelo Parque do Montesinho, contra o Marítimo, viajámos para o Parque Nacional da Peneda-Gerês, onde jogámos a Taça da Liga, e concluímos este breve périplo pelas nossas áreas de paisagem protegida em plena Serra da Arrábida, contra o Boavista. Os nossos jogadores estão plenamente adaptados a jogar em ecossistemas naturais de elevado valor paisagístico e ambiental e a bola rola, rola sempre, de pé para pé, sem atender a buracos ou poças de água recheadas de nenúfares e de rãs saltitantes. 

Ontem, a coisa foi de tal monta, que os do Boavista nem a cheiraram, a bola, entenda-se. Não a cheirando não havia forma de os jogadores do Sporting fazerem falta e sem faltas não há amarelos e sem amarelos não se somam cinco quando se dispõe de quatro e não se poupam energias no jogo seguinte para jogar o que se segue ao seguinte, o mais exigente, o mais difícil de todos, aquele em que defrontamos a única equipa que nos venceu, o Marítimo. Não facilitámos e continuaremos a não facilitar contra essa equipa do indomável qualquer coisa que queríamos para avançado mas que acabou contratado pela equipa seguinte, a equipa com a qual pretendemos jogar com os menos utilizados, para poupar os do costume, os dos amarelos, Coates, Neto, Nuno Santos e Palhinha. Como disse, não facilitámos e metemos logo de início os dos amarelos, menos um, para que não perdessem por um minuto que fosse um motivo, bom ou mau, não importa, para levar o quinto amarelo. 

E a bola rola e rebola e as faltas não vêm e não vêm os amarelos e nunca mais se compreende a razão, a única razão para se disputar este jogo, os amarelos, o merecido descanso, a preparação do Marítimo. E o Nuno Mendes centra e o Nuno Santos entra à bola e desvia-a para a baliza e marca o primeiro golo. E safa-se a bola na linha de baliza do Boavista. E o João Mário falha de baliza aberta, displicente. E o Sporar falha, falha tão completamente que chega a falhar o falhanço que deveras falha. E vem o intervalo e vão todos para os balneários para logo regressarem para a segunda parte. E volta tudo ao mesmo, a bola que rola e rebola, de pé para pé, sem ninguém do Boavista a cheirar. E substitui-se, substitui-se e tudo muda e tudo fica na mesma. E o Porro enche o pé e marca um golão, o segundo. 

E o que faltava entrou. E podia voltar a valer a pena. E podia voltar a haver uma razão de ser, uma razão para se jogar aquele jogo. E o árbitro atrás de uma moita, à espera, à espreita. E o vento tudo levou e levou um jogador do Boavista e falta e amarelo, finalmente amarelo, e a razão para se jogar aquele jogo. E o jogador chora agradecido, da dádiva, da consideração. E aproximam-se mais jogadores a pedir, a pedir amarelo, invejosos. E o árbitro mostra e não mostra a quem deve, ao Coates, ao Neto e ao Nuno Santos também, porque não havia falta, falta deles, só falta do vento que tudo levou e levou o jogador do Boavista. E não vão descansar, descansar para o jogo a seguir ao seguinte, contra o Marítimo. 

[Volta-se a parafrasear Pessoa. O sportinguista é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. A dor é própria ou vergonha alheia. Até os das cartilhas, os cartilheiros, estavam desolados. Há uma dignidade na profissão. A zaragata explicativa exige cartilha, narrativa, explicações, plausíveis ou implausíveis, mas explicações. Nada pode ser o que é, em carne viva. Esta dor torna-se insuportável a cada jogo que passa. Resta o Rúben Amorim não perder a coragem e voltar a virar do avesso a cabeça dos jogadores, porque vale a pena, por eles, por nós, pelo Palhinha!] 

sábado, 23 de janeiro de 2021

Campeão de Inverno de futebol, campeão de futebol de Inverno, campeão de “curling” e campeão do Festival Internacional de Monte-Carlo

Num país meridional é muito mais difícil determinar um campeão de Inverno de futebol do que um campeão de futebol de Inverno, do Inverno do nosso habitual descontentamento, situação agravada pelo contexto de alterações climáticas. Atribuí-lo no polo aquático com as regras do futebol, parece uma ideia, se não boa, pelo menos uma ideia como qualquer outra, como atribuir o título de Campeão de Inverno. Em período de confinamento tanto se vê um jogo assim como uma disputa à vassourada entre as seleções da Dinamarca e da Alemanha em “curling”, desde que as regras sejam as do futebol 

Mas, lá está, à chuva ou ao sol, os artistas são sempre os mesmos. Falta sobre o Jovane, seguida de recuperação de bola pelo Jovane, seguida de calcadela e de nova falta sobre Jovane e amarelo para o Jovane. Bem, depois, depois foi extraordinário. Nem se fala da necessidade do Sequeira arrancar pela raiz o Tiago Tomás duas vezes para ver um amarelo ou do Fransérgio abrir o sobrolho ao Tiago Tomás e se marcar falta de Tiago Tomás. As coisas ainda não estavam a correr suficientemente bem e vai um vermelho para o Carvalhal e outro para o Rúben Amorim. Do polo aquático passou-se ao circo em menos de um fósforo porque, lá está, o que conta são os artistas e se os artistas são de circo então é circo que se tem de ver, embora prefira “curling” ou polo aquático ou, sei lá, futebol de Inverno.

Estava-se nestas habilidades, com trapézio, arame, leões ou cavalos amestrados, quando o Ali Elmusrati tentou um homicídio em direto. O Palhinha saiu vivo, o árbitro desejou-lhe um futuro mais feliz e marcou falta, falta de sangue, admite-se. Com ou sem sangue à mistura, o Gonçalo Inácio bateu longo o livre, a defesa do Braga ficou à espera que a bola ficasse presa na água, o Porro, um jogador anfíbio contratado esta época, isolou-se e rematou cruzado para o primeiro e único golo.

Sabendo de ciência certa que não acabava com onze jogadores em campo, o Rúben Amorim substituiu Jovane por Nuno Santos ao intervalo para adiar o inevitável. Jogar em inferioridade numérica com onze jogadores estamos habituados, jogar em inferioridade com menos jogadores também acontece mas é menos frequente e a equipa está menos rotinada. Aguentou-se até ao último minuto, que afinal não era o último, nem o último do último, nem o último do último do último e houve Coates e houve onde vai um, vão todos. Nem sempre se sabe bem para onde se vai, mas sempre se sabe que se vai com menos um ou dois jogadores para o próximo jogo, por doença com doença, por doença sem doença ou por que sim, por que tem de ser, por que enquanto o urso não se constipar o circo tem hora marcada.  

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Falso futebol ainda não tem vacina

O nosso futebol é tão fraquinho que os estádios estão sempre vazios. Esta velha expressão ganhou contornos de humor negro em situação de pandemia. O que não tem piada é usar a Covid como arma de arremesso contra o adversário, seja em circunstâncias for, como temos assistido durante esta semana, através de insinuações, mensagens cifradas, advertências e comunicados tontos (entre os quais, um de pura vassalagem).

Por obra (obviamente) do acaso, aconteceram dois jogos atravessando isto tudo. Ambos tiveram resultados (dizem-nos) imprevistos e nada recomendáveis. Alguma imprensa terá mesmo mudado a primeira página à custa disso. 

A forma como os treinadores derrotados adornaram a derrota, pintando-a em suaves matizes, desresponsabilizando-se (claro), tentando sombrear a vitória de dúvidas, é todo um manual de como sacudir a água do capote com toda a gente a assistir. Uma vitória (supostamente) caída do céu, observada por Conceição, numa perspectiva privilegiada a partir do banco de suplentes. Outra, uma vitória que poderia não o ter sido porque, segundo JJ, este terá perdido um jogo que poderia ter ganho. Estamos esclarecidos? Claro que sim.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Imaginem o que diriam o Jorge Jesus e os comentadores habituais de uma vitória destas?

Este jogo contra o Porto tem vários ângulos de análise, pontos de vista. O primeiro é da situação absolutamente excecional de ver responsáveis de comunicação de clubes a trocar fanfarronadas a propósito da Covid-19 e da existência de testes “falsos positivos”. Se dúvidas existissem sobre a forma como o futebol e a sua organização se sentem impunes, sem sentido de responsabilidade, ficaram esclarecidas. Se mandasse, o futebol esta época tinha acabado ontem, ainda antes do jogo. Há coisas com as quais não se brinca.

O outro ponto de vista é o das declarações do Sérgio Conceição. O mau perder acaba por ser a parte hilariante. A desqualificação do adversário é mais desagradável, mas constitui uma simples forma de justificação, como se tudo tivesse dependido da sorte ou do azar. Defendeu a teoria sempre repetida no paleio futebolístico que um golo só se justifica se anteriormente se tiver perdido umas tantas outras oportunidades. Um golo no primeiro minuto não tem mérito. Ora, não é assim, cada golo justifica-se por si, não precisa de um entendimento temporalmente mais amplo. Este argumento desculpabiliza quem os sofre, tão-só. 

O jogo foi muito disputado na base do pontapé e da bofetada. O Porto jogou como sempre joga: Pepe na defesa, pontapé para a frente, aproveitando as diagonais do Marega ou o seu primeiro domínio, quando o consegue, para a equipa avançar, e pode ser que o Corona consiga ficar com a bola numa zona próxima da área, onde costuma desequilibrar. O Porto esteve por cima do jogo na grande maioria do tempo, mas sem grandes oportunidades. As oportunidades do Porto resultaram sempre de investidas recheadas de ressaltos que acertam nas canelas do Marega e tanto vão para a baliza como para trás, para os lados ou para fora.

A meio da segunda parte, com a entrada do Matheus Nunes, o Sporting passa a dominar e percebe-se que o Porto estava a começar a dar o berro. Mas o canela dourada é terrível e num ziguezaguear desenfreado, seguido de uns ressaltos, de uma rosca na bola e de um bocado de relva arrancado marcou o primeiro golo. Na cabeça dos jogadores do Porto, do seu treinador e dos comentadores, o jogo estava acabado. Não, não havia adversário, o Sporting era como se não existisse e, assim, não tivesse qualquer capacidade de resposta.

O Sporting já tinha começado a empurrar o Porto para a defesa e, com o golo sofrido e as substituições, ainda mais dominador ficou. O Porto recuou e, como sempre, revelou as habituais dificuldades em controlar o jogo quando tem de defender E na sequência de um livre [após a quarta ou quinta falta de um tal Grujić para segundo amarelo], acontece o golo do empate e não, não foi com a canela ou após uma série de ressaltos e de tropeções. O Porto recebe mal o golpe e expõe-se ainda mais a levar o segundo, tal como aconteceu na meia-final da Taça da Liga há duas épocas atrás, só que desta vez a bola não foi para o Ristovski, mas para o Jovane, dispensando os “penalties”.

A partir daqui podem-se exprimir todos os lugares-comuns: os jogos não encerram nenhuma moral; ganha quem merece ganhar; ganha quem marca mais golos; o jogo só acaba após noventa minutos e é preciso jogá-los todos e cada um. O Rúben Amorim está sempre a afirmar que o Sporting pode ganhar a qualquer equipa, jogo a jogo, mas ninguém acredita, especialmente os próprios sportinguistas. É preciso reconhecer mérito a quem o tem. É preciso reconhecer os erros e as insuficiências quando as há. Mas a verdade é que as coisas não acontecem por acaso, por pura sorte ou azar. 

Chega-se ao último ponto de vista. Dispensam-se comentadores com a cabeça cheia de preconceitos, não comentando o que veem mas o que esperam ver mesmo não vendo, nem se vendo. Ainda o jogo estava longe de estar no fim e já o Sporting tinha perdido e essa derrota significava que o rei sempre ia nu, como sempre disseram, e se estava perante uma sequência de três resultados negativos. Imaginem se fosse o Jorge Jesus a ganhar este jogo? O que diriam ele e os habituais comentadores?

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Mimados, protegidos, beneficiados e sei lá o quê

Fomos beneficiados pela Covid-19 e por não existir público nos estádios. Fomos beneficiados por perder contra o Lask Linz e deixar de jogar a Liga Europa. Fomos beneficiados por perder contra o Marítimo e deixar de jogar a Taça de Portugal. Fomos beneficiados por não jogar em plena Filomena contra o Nacional e jogar um dia depois num mar de lama. Fomos beneficiados pelos testes “falsos positivos” do Sporar e do Nuno Mendes e não contarmos com eles no jogo contra o Rio Ave. Fomos beneficiados pelos testes “negativos” do Sporar e do Nuno Mendes e contarmos com eles para o jogo da Taça da Liga. Fomos beneficiados por contratar o Sporar e jogarmos com ele em vez do Rodrigo Tiuí. Nem o Marcelo Rebelo de Sousa é tão beneficiado, irra! 

domingo, 17 de janeiro de 2021

O engodo das couves

 

Não é como jogamos, isso toda a gente sabe, mas como pensamos, que faz a diferença. Os adversários estudam os vários planos (se forem realmente estudiosos), as combinações (se se derem a esse trabalho), a dinâmica, mas não conhecem e não podem dominar o nosso pensamento (por vezes, nem sequer pressentem a existência do dito). Pensar não é o mesmo que ter uma ideia, ou até várias. O pensamento é uma entidade raríssima que, em doses bem medidas, juntando-se a algum talento, à disciplina, ao treino, sendo mesmo um dos interlocutores privilegiados daquilo a que hoje futebolisticamente se denomina (com uma certa pompa), de intensidade, poderá formar uma espécie de Isomax, desafiando assim os limites da rigidez elástica.

Tinha começado assim esta posta, para tentar compreender o jogo do Sporting com o Rio-Ave, mas depois percebi que, com Rúben Amorim, o pensamento penetra mais fundo, em áreas remotas, onde apenas os mais devotos conhecem os segredos do universo da bola. Mesmo sem carta de condução para naves espaciais, Rúben percebe como poucos o lema do Sporting: falhar, falhar sempre, falhar cada vez melhor, adaptando-o com uma nuance: falhar apenas um pouco, falhar um pouco melhor, para poder (quem sabe?) ganhar. Trata-se de um engodo arriscado, mas genial. E estou a falar muito a sério!

Com sete minutos de jogo já Gonçalo Prata vestia um cartão amarelo, incompreensível até para o cartilheiro comentador. Já agora, todos: os comentadores a soldo, a arbitragem, a pressão dos adversários, os pasquins detratores, os sportinguistas (muitos, sem dúvida alguma), gravitam em torno desse misticismo da iminente derrota, do falhanço cósmico, como numa espécie de maldição inevitável.

No final da primeira parte (e com o Borja em jogo) o Sporting ganhava um a zero e podia ter dilatado a vantagem. O engodo seguiu o seu curso, materializando-se num golo do adversário desenhado por uma espécie de equipa B do Sporting (estranho jogar contra a nossa equipa B – dizia uma mensagem de um amigo), aproximando-nos assim do abismo cósmico previsto. Não aconteceu? Aconteceu, mas apenas pela metade. O Sporting não perdeu, empatou um jogo que poderia ter ganho e que, segundo alguns, era indispensável ganhar, porque a seguir havia um clássico. E depois jogava o Braga. Isto é: o calendário pendurado na parede.

A falhar um pouco, empatados, esperamos pelo clássico onde (sem se rir) JJ disse mais tarde que não sabia o resultado (a paródia do costume) do Sporting (esperaria outra coisa, certamente). Do empate no clássico apenas saíram vencedores: o Benfica que ganhou (mais uma vez JJ) empatando, o Porto que empatou ganhando, ou perdendo, nas palavras de Conceição, várias oportunidades (nenhuma de estar calado). O jogo, pelo resumo, foi a confusão do costume, não se sabendo nada (ainda) de túneis. Os melhores são assim: rotineiros.

O Braga terá ficado no conforto cósmico da confinação dos empatas, sem saber do engodo de Rúben. Em Paços de Ferreira também havia jogo, mas apenas por acaso. A genialidade de Carvalhal, agora com aquele remate técnico na calvície, cavalgou a ilusão fantástica do futebol inglês, mas com pronúncia acentuada do Minho, sita em Braga. Uma mensagem de um amigo meu do Boavista esclareceu: têm de vender os Hortas, sempre que é para passar o Benfas mandam a bola para as couves.

Para as couves: um bom título para o nosso futebol.

Entretanto, continuámos em primeiro. Com a distância possível (segundo se diz por aí).

sábado, 16 de janeiro de 2021

A saúde está primeiro e nós também

Há coisas que não se fazem, simplesmente não se fazem. O Ferro estava a fazer um mau trabalho, é isso? Perdemos para a Taça de Portugal e isso e só por isso é razão para se trocar o treinador principal pelo adjunto? O senhor Pereira do Automóvel Clube de Portugal ou da Direção Geral de Viação, não sei bem, disse o que tem de ser dito: não é por se andar a tirar a carta que se está em condições de conduzir. Quem tem filhos sabe isso muito bem. Facilitamos, damos-lhes as chaves do carro e no mínimo fica com um arranhão na porta ou com o para-choques amolgado, mesmo que seja para o tirar e voltar a colocar na garagem. 

O Rúben Amorim está a tirar a carta e deram-lhe o carro para as mãos, como qualquer pai faz com o coração nas mãos sabendo que o não deve fazer. Não andou bem, o carro naturalmente. Vi os últimos quinze minutos da primeira parte e os primeiros quinze da segunda, onde praticamente tudo de relevante aconteceu. Quando comecei a ver estávamos em pleno Plano A. Muita troca de bola para trás e para a frente, idas às linha para se voltar para trás e começar de novo, virando de flanco para fazer o mesmo do outro lado. De repente sai uma jogada de manual: os jogadores do Sporting e do Rio Ave concentram-se em três metros quadrados do lado direito, a bola sai da molhada para o Pedro Porro que faz uma passe a rasgar para o Plata, do lado contrário, que mete a bola de primeira para o Pedro Gonçalves a encostar de primeira também ao seu estilo, para o lado oposto ao do movimento da bola e natural movimento do guarda-redes. Foi um golo de manual, um golo digno de ser ensinado na escola de condução onde anda o Rúben Amorim.  

Até ao final da primeira parte podíamos ter arrumado o jogo. O Tiago Tomás rematou à entrada da área e o guarda-redes fez uma excelente estirada e safou a bola para canto. O Pedro Porro antecipa-se a um adversário e recupera a bola, mete-a no Pedro Gonçalves que a centra para o João Mário a deixar passar para o Nuno Santos, que enche o pé e a chuta para as nuvens. Na segunda parte entrámos em modo não sei se continuamos a pressionar alto e a atacar ou se recuamos um pouco para deixar o adversário adiantar-se e, com mais espaço, jogar em ataques rápidos ou contra-ataques. Contrariamente a muitos sportinguistas, considero que temos tantos planos como as letras do alfabeto. Não podemos é entrar com uma combinação de planos, com um pouco do A e o restante do B. A equipa ficou expetante, perdeu o controlo de jogo e expôs-se ao ataque do Rio Ave. 

Na primeira, o Mané faz um passe ao Ádan. Não avisados, na segunda tivemos a defesa sem saber bem se não recuava e fazia a linha de fora-de-jogo ou se recuava e ficava com um olho no burro e outro no burro. Optaram pela segunda possibilidade, que é o que fazem as equipas que não sabem o que fazer nestas circunstâncias. O Borja recuou a olhar a bola sem compreender bem onde se encontrava por referência ao Geraldes, portador da bola, e ao Mané que se desmarcava. Acabou tudo em golo do Rio Ave, após triangulação entre o Geraldes, o Mané e o Dala. Os rapazes foram fantásticos, pedindo imediatamente desculpa pois pensavam estar a marcar um golo pelo Sporting. Estão perdoados para que se saiba. Tarde ou cedo acabaremos por trocar alguns dos que temos por outros e esses por outros ainda até tudo acabar ao fim de trocas e baldrocas no regresso desses três outra vez e descobrirmos que também não os devíamos ter contratado de volta. 

Não vi mais. Fiquei a saber que empatámos. Admiti que estávamos a testar os nossos principais rivais, o Porto e o Benfica, a ver do que valiam, do que eram feitos e capazes. Queríamos que pelo menos um deles nos desse alguma luta, mas, se dúvidas houvesse, ficámos a saber um pouco mais tarde que isto está resolvido. Não há assim razão para não se acabar com isto, com o campeonato, entenda-se. A saúde está primeiro e nós também.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Caviar é uma ova

O sportinguista é bicho estranho, esquisito, muito esquisito. É um iconoclasta ao contrário, não desvaloriza os méritos alheios mas os seus. É aristocrata, falido mas aristocrata. Pode estar a morrer de fome mas não come uma sardinha de conserva na lata de conserva da sardinha, exigindo uma lata de conserva de esturjão, de caviar. Nem tudo lhe serve, é pobre e mal-agradecido. Esta ladainha vem a propósito do último jogo contra o Marítimo e a eliminação da Taça de Portugal. 

Habituado a comer sardinha em latas de esturjão, os sportinguistas rasgaram as vestes e concluíram que o plantel não tem profundidade, alternativas para estar em muitas frentes. Por defeito e feitio, tenho sempre alguma dificuldade em fazer reflexões emocionais, não envolvendo a componente analítica. Para estes sportinguistas, a profundidade é autorreferente e normativa; está escrito na pedra que o Sporting deve ter uma equipa com tantos jogadores, distribuídos por estas e aquelas posições em quantidade e qualidade bem definidas. Quando assim penso, vem-me à cabeça o Jorge Jesus e o conjunto de sérvios, albaneses, croatas, macedónios, brasileiros, argentinos, congoleses que era preciso contratar sob risco de uma maldição. Os que estavam, os da formação nunca serviam. Quem quiser voltar a esse passado sabe o que lhe espera e espero que tenha bom proveito.

Como considero que a profundidade não é autorreferente, analiso-a relativamente aos nossos principais adversários. Ora, está bom de ver que por lá pululam alternativas e mais alternativas que, sendo tantas, nem sequer precisam de contratar mais e, jogue quem jogar, será sempre uma jogatana. O Benfica e o Porto têm jogado pouco ou nada e, nesta eliminatória, ficámos a conhecer a profundidade, as alternativas da equipa do Porto. Não sei se podemos contratar um rapaz como o que apresentaram no jogo contra o Nacional, muito habilidoso, com bom toque de bola, capaz de neutralizar os jogadores adversários e ao mesmo tempo de marcar o golo redentor, o golo no último minuto que o Sporar não foi capaz de marcar. 

O que espero do Sporting, do Rúben Amorim e dos nossos rapazes é que continuem como até aqui, que não pensem se esta jornada vão ficar mais à frente ou mais atrás dos adversários; que não tenham medo de perder e medo de perder a vantagem que dispõem no campeonato. Espero que continuem a jogar com a mesma alegria, com a mesma vontade de ganhar, jogo a jogo como até aqui, sem nenhuma outra responsabilidade que não seja a de jogar um jogo de cada vez. Eu não lhes peço mais nada. 

Talvez pedisse jornalismo desportivo mas isso é o mesmo que pedir a paz, a felicidade, a convivência entre os povos. O jornalismo acabou e em sua substituição ficou o entretenimento, seja isso o que for, com diretos, muitos diretos, e debates, muito debates. Há dias ouvi uma entrevista de Juca Kfouri, grande jornalista brasileiro. Afirmava que os operadores televisivos e os clubes e a federação brasileira tendem a associar-se e isso explicava a razão para a inexistência de jornalismo desportivo e de visão crítica quanto ao futebol praticado, especialmente na televisão. Como contraponto, colocava o exemplo clássico da compra de um carro em segunda mão. Quando alguém compra um carro, o carro passa a ser dele e dele pode dizer o que entender e de quem lho vendeu. Se o carro é mau, dirá que é mau e que o vendedor o aldrabou. 

Não estou de acordo com Juca Kfouri. O exemplo do carro em segunda mão também se aplica exatamente aos operadores que compram os direitos de transmissão. Os operadores não compram os direitos para ficar com eles, mas para os revender de imediato aos telespetadores e assinantes. Compram um carro em segunda mão para o revender de imediato a outros que necessitam de um carro em terceira mão. Para o revender de imediato, não podem dizer mal dele. Ninguém espere que os canais e os jornais desportivos que vendem este entretenimento venham dizer-nos que se joga tão mal em Portugal que até dói e que as arbitragens são de ir às lágrimas. Talvez se esperasse mais dos canais públicos e dos jornais generalistas, mas não tem sido possível. Os primeiros, porque estão entretidos nas guerras de audiência e a imitar os outros, os segundos porque já estão quase em extinção e a fazer jornalismo sem jornalistas. 

[O título deste “post” é uma simples homenagem ao Gregório Duvivier, ator, humorista, guionista e escritor brasileiro. O Porta dos Fundos e o Greg News ajudaram-me a manter a sanidade mental no confinamento de março. Não sei se encontrarei substituto à altura para o confinamento que hoje se inicia] 

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Vende-se “smart" TV

No Natal, contra tudo e contra todos, especialmente de ideias passadistas quando ao adequado enquadramento de interiores da sala de jantar, mas contando com o informado e imprescindível apoio da minha filha Ana, regressada de Zurique para um curto período de férias, comprei uma “smart" TV, uma coisa bem supimpa, que faz a felicidade de qualquer homem na crise da meia-idade. Um calhamaço de 50 polegadas, com ligações “hi-fi”, “bluetooth”, “streaming” e o raio a quatro, tudo a operar em sistema Android. Com a tal de “smart" TV e o “smartphone”, fica-se com a sensação que se pode fazer um frango de churrasco ou uma entremeada na brasa. 

Regressado do trabalho, sentei-me à frente da dita, da tal de “smart" TV para ver o jogo do Sporting contra o Marítimo para a Taça de Portugal. Apesar do aparato tecnológico e das minhas tentativas de controlo remoto, ouvia insistentemente a voz do Manuel Cajuda a comentar o jogo. Comecei a imaginar que, depois do jogo e do Manuel Cajuda, veria o “Bonanza”, a “Casa na Pradaria” ou a “Vaca Cornélia”. Ora, este era o tipo de programas e séries que via numa Grundig a preto e branco que o meu pai tinha comprado aí pelos finais dos anos sessenta, princípios dos anos setenta. Imaginam o desconsolo, o sonho de uma vida, uma “smart" TV e depois isto: uma série dos anos sessenta ou setenta a preto e branco. 

Quando percebi que o Borja tinha regressado, senti um ligeiro arrepio, mas está frio, muito frio, e pensei que era do frio, não sendo necessário desempacotar o desfibrilador. O Manuel Cajuda e um outro comentador tentaram reconfortar-me, afirmando que tínhamos um banco de luxo, enumerando os jogadores e entre eles o Sporar. É o mesmo que nos falarem de Ricardo Salgado e de banco bom na mesma frase. Mais coisa menos coisa, falhanço aqui, falta ali, perdas de tempo acolá, o jogo ia (não) correndo: uma bagatela de 26 faltas só na primeira parte. O melhor momento foi mesmo quando o árbitro foi saber como se encontrava um jogador do Marítimo que estava a ser assistido fora do campo. Apreciei a diligência e a atenção. Não me voltam a apanhar no SNS24. Quando me sentir mal, ligo ao Manuel Oliveira. 

A segunda parte foi mais do mesmo. Muitas faltas. Amarelos nem vê-los. Perdas de tempo com jogadores do Marítimo estropiados e desmaiados pelo chão. Estava-se nisto quando o Neto fez o que tinha de ser feito e, se alguém o tinha de fazer, ele e só ele o poderia fazer. Passou para as costas do Palhinha, um jogador recupera a bola, tropeça no Feddal, tropeça na bola, passa-a para o lado direito e golo do Marítimo. Passado mais um bocado, canto para o Marítimo, desvio ao primeiro poste, aparece um jogador ao segundo poste a empurrar a bola e segundo golo. Foi um prémio muito merecido para esse jogador. Fez quatro faltas para amarelo e só viu um. Alguns dirão: o prémio foi não ter sido expulso. Não, nada disso, era pouco, muito pouco, o árbitro não queria e não o ia expulsar, fizesse o que fizesse. Não o expulsar não era prémio. Prémio, reconhecimento é deixá-lo marcar um golo para assim o homenagear.  

A coisa está feita e não se fala mais nisso: perdemos e fomos eliminados da Taça de Portugal. Esta história é repetida. Foi assim que fizemos contra o Lask Linz e temos sido beneficiados por não jogar a Liga Europa, como muitos afirmam. Agora, sempre poderão afirmar também que iremos ser beneficiados por não jogar a Taça de Portugal.  

domingo, 10 de janeiro de 2021

We Shall Fight on the Beaches

“[…] we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing trength in the air, we shall defend our island, whatever the cost may be. We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender”.

Até ontem, atribuía estas palavras, este discurso a Winston Churchill, no parlamento inglês, em 4 de julho de 1940. Ontem, descobri que estava enganado, que as palavras eram da Doutora Helena da Liga Portuguesa de Futebol, dirigindo-se à equipa técnica e aos jogadores do Sporting. Enfrentámos a tempestade Filomena no ar. Não conseguimos aterrar, no Funchal, recorrendo à alternativa do Porto Santo. Voltámos a levantar voo e a enfrentar a Filomena no ar até a derrotarmos e aterrarmos no Funchal. Em terra, também foi preciso tentar derrotá-la, mesmo com risco de um resfriado, de uma gripe. Não foi possível na quinta-feira. Na sexta, defrontámo-la em terra e no mar, num mar de lama. As coisas estiveram mal paradas no ar, em terra e no mar, mas nunca nos rendemos.

O trabalho prejudica muito o futebol. Só vi os últimos trinta minutos. Percebi o contexto. O Nacional estava a jogar contra o vento e tinha muitas dificuldades em sair com bola longa para o ataque. E nós pressionávamos a saída bola de trás como se não existisse amanhã; e o Pedro Gonçalves isola-se do lado direito e remata cruzado para um mergulho do guarda-redes; e o Palhinha recupera uma bola, domina-a no peito, coloca-a no chão, percebe que o guarda-redes está mal colocado e remata de longe, com ela a sair rente ao poste; e entre o Nuno Mendes, o Nuno Santos e o Palhinha recuperam uma bola e metem-na no Pedro Gonçalves que a estica para o outro lado onde aparece o Pedro Porro que simula, faz uma pausa, espera até a meter novamente no Pedro Gonçalves à entrada da área, que simula o remate, passa pela defesa e a remata por cima da baliza, depois de ter ficado presa na lama; e o Nuno Santos corre como se fosse a última vez e, isolado à entrada da área, remata cruzado, ao lado, com a bola a ficar presa numa poça de água; e o Pedro Gonçalves ganha uma bola à entrada da área, passa-a do pé direito para o esquerdo e enfia uma bojarda ao poste; e o Tiago Tomás isola-se do lado esquerdo e remata ao primeiro poste para mais uma boa defesa do guarda-redes; e entra o Matheus Nunes; e entra o Jovane Cabral; e o Pedro Gonçalves desmarca o Matheus Nunes do lado direito, que centra para o corte de um defesa, sobrando a bola para o Tiago Tomás, que arranca para a linha e a centra atrasado para o Jovane Cabral a encostar para a baliza de primeira.

Durante trinta minutos passou sempre o mesmo pela minha cabeça: a nossa maldição, uma maldição pior do que a do Béla Guttmann. Vieram-me à cabeça jogos atrás de jogos e olhares, olhares desolados, do Polga, do Rui Patrício, do Liedson ou de milhares de adeptos na final da Taça UEFA em pleno Estádio de Alvalade. Tudo ia acabar como sempre acaba, não há como lhe fugir. Trinta minutos que duraram uma vida, imagens atrás de imagens de meio século de sportinguismo, desta fatalidade. E a bola entrou e entrou na baliza certa! Os homens não choram, é uma chatice, mas podem-se rebolar na lama como miúdos sabendo que não escapam ao ralhete da mãe.

E as palavras finais do Rúben Amorim dizem tudo: “Não tenho palavras para a atitude destes jogadores, como eles encaram os desafios, as dificuldades, tenho um orgulho enorme em ser treinador deste grupo”. Para o bem ou para o mal, as palavras contam, as palavras têm consequências.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Estranha forma de vida

 

Diz um amigo meu Sportinguista que já não aguenta. Era no natal, no ano novo, nos reis, não tarda, diz ele, passará o seu aniversário em primeiro, quem sabe o carnaval e, mesmo a páscoa, não fica assim tão fora de mão. A pressão tem sido enorme, de todos os quadrantes surgem os avisos à navegação, o primeiro lugar do Sporting é efémero (gritam), outra coisa seria inexplicável. Os comentadores comentam (suspirando), os gazetistas desinformam, Jorge Jesus agita-se e pedincha reforços, Sérgio Conceição confia na fruta de época, os adeptos adversários engolem em seco as piadinhas, e os Sportinguistas encolhem os ombros desculpando-se por esta estranha forma de vida.

Um jogo tinha sido adiado certamente para empatar no dia seguinte (um filme recente de um rival). Ou talvez porque os meninos tinham medo ao vento. Um avião terá andado horas em passeio, sobrevoando a Madeira para ver se conseguia ter uma vista privilegiada da ilha. Ou então para criar suspense e voltar a casa. De tudo, o meu amigo ouviu. Chegado o momento, a equipa do Sporting calçou as galochas e, de peito feito, dedicou-se à agricultura num batatal bem regado. Os rostos felizes dos vencedores coincidiram, no final, com a devida vénia dos vencidos.

Estranha forma de vida? Isso já nós sabemos há muito tempo. E com orgulho!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Não foi por culpa do árbitro

O Sporting não ganhou ao Nacional e não, não foi por culpa do árbitro. Apesar de um pouco lento na análise dos lances, com sucessivas consultas ao VAR, demorando muito tempo na decisão e quebrando o ritmo de jogo, Manuel Mota decidiu sempre bem. Controlou disciplinarmente muito bem o jogo também, sem mostrar um amarelo para amostra. 

Os lances não são isentos de controvérsia. Não sei se um Fábio Veríssimo ou um Luís Godinho não teriam decidido de outro modo. Por exemplo, dificilmente teriam permitido a entrada no mínimo imprudente do Coates de calções. As leis não são de simples interpretação neste caso. Está um senhor na televisão a explicar tudo. Quando chove a cântaros e está um briol do camandro, o jogador não pode colocar em causa a sua integridade física e a dos restantes jogadores. Era evidente que o Coates já estava com o pingo no nariz e nem a uma coberta ou a um xaile recorreu.    

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Uma teoria da relatividade sobre o jogo Sporting x Braga

O jogo contra o Braga necessita de umas notas, de umas explicações adicionais, para ver se se compreende o que se passou e as razões para tanto mau perder. De repente, ficámos a saber que existem milhões e milhões de adeptos do Braga e que a comunicação social é quase unânime em considerar a sua equipa como a melhor do campeonato e arredores. No futebol, tarde ou cedo, as profecias autorrealizam-se: nem sempre se perde, nem sempre se ganha. Afirmar que o Sporting vai perder não é sequer uma profecia, é um facto. A comunicação social fez esta profecia como sempre a faz, época após época,  mas a profecia tarda a cumprir-se. É todo um parlapié sobre futebol, um modo de vida que está em causa. 

Desta vez é que era. O Sporting não ganhava e o Benfica, ao ganhar [estava-se mesmo a ver], passava para a liderança. Num só fim-de-semana, a conversa e mais conversa sobre esta profecia legitimava-se e assim se continuava como dantes, como de costume. Mandaram-se os habituais foguetes antes da festa e depois foi um sarilho para andar a apanhar as canas, aparecendo melões, muito melões, e explicações atabalhoadas, como a dos remates enquadrados e não enquadrados de um rapaz da Sporttv. O mau perder do Carvalhal, que aprecio [afirmo para não haver dúvidas] e que aprecio ainda mais quando, ao falar inglês, traduz literalmente frases idiomáticas, cumprindo o princípio do grande Eça de se falar patrioticamente mal qualquer outra língua que não seja a língua portuguesa, foi a cereja em cima do bolo. 

Vamos analisar um pouco melhor jogo para ver se nos entendemos. As equipas encaixaram-se bem e as oportunidades de golo foram muito poucas. O entusiamo do relato e dos comentários fizeram-nos crer noutra coisa, mas a verdade não é essa. 

Na segunda parte, o Braga não tem nenhuma oportunidade de remate enquadrado, como agora se diz. No lance do golo anulado, nem o Feddal, nem o Coates procuram recuperar posição e limitam-se a manter a linha de fora-de-jogo e assim a anular o lance à nascença. Há quem diga que 14 centímetros é pouco, mas a verdade é que foram os jogadores do Sporting que intencionalmente o deixaram 14 centímetros em fora-de-jogo. O outro suposto lance nasce de outro bom posicionamento da linha defensiva que deixa o Esgaio vários metros em fora-de-jogo, que o fiscal-de-linha vesgo não viu ou fez que não viu [e então não é vesgo mas outra coisa]. Em síntese, durante 45 minutos o Braga não tem uma oportunidade para amostra e nos últimos 30 minutos, a perder, não o consegue apesar de ter a equipa toda no ataque.  

Na primeira parte, o Braga tem uma excelente oportunidade de golo, quando o Horta se isola e tenta o chapéu ao Ádan. Os dois outros remates perigosos nascem de simples confusões e carambolas. No primeiro, a bola anda em bolandas até que o Horta sem ver bem onde estava nem onde estava a baliza lhe enfia uma biqueirada para onde estava virado. No segundo, tudo se inicia num corte do Coates, seguido de uma escorregadela do Paulinho que impede a disputa da bola e lhe permite, no chão, aliviá-la mais ou menos para onde estava virado, proporcionando um remate de fora da área de olhos fechados que leva a bola ao poste. 

Não pretendo desenvolver nenhuma teoria sobre oportunidades de golo ou remates enquadrados, seja isso o que for, e assim estabilizar conceitos. O que estamos mais ou menos de acordo é que a equipa do Sporting e a sua defesa só permitiram uma oportunidade golo a partir de uma jogada do Braga com pés e cabeça [em sentido figurativo, porque em sentido literal a cabeça não é para aqui chamada]. Esta análise permite um conclusão, que vem sendo repetida jogo após jogo: o Sporting não é uma equipa fácil de bater! Este é o grande mérito do Rúben Amorim e, como tenho referido, na cabeça dele, na sua tática defender bem é condição necessária. Sem defender bem, não é possível ganhar.

Em muitas circunstâncias, defender bem é condição necessária e  suficiente. Há sempre uma bola vadia, uma carambola, um canto ou um livre que fazem o que falta para se ganhar o jogo [no futebol português, ganham-se mais jogos assim do que de outra forma qualquer]. Quando se tem de atacar é que a porca torce o rabo. O Sporting não dispõe de um ponta-de-lança de referência que permita, com base nele, construir o ataque e chegar a zonas de finalização. A equipa precisa sempre que os laterais consigam desbloquear os seus flancos e desequilibrar no ataque, com movimentações dos extremos para o interior; para isso, precisa de espaço e foi esse espaço que o Braga concedeu no primeiro golo. A diferença esteve na finalização do Pedro Gonçalves por oposição ao Horta. 

Não conseguindo construir no ataque posicional [à falta de melhor definição], a equipa vive da pressão alta e de bolas em profundidade, colocando muita, muita intensidade nesta forma de jogar. A diferença relativamente às outras equipas também tem sido esta: mais intensidade e maior resistência física. O segundo golo [mais um remate enquadrado] e os últimos vinte minutos de controlo do jogo devem-se às substituições e a essa maior capacidade física [no início do jogo, o Sporar não teria passado pelo Esgaio e pelo Rolando como cão por vinha vindimada]. 

Dito isto, o resultado poderia ter sido outro. No futebol, é sempre possível. Ganhar e merecer ganhar são uma e a mesma coisa. O objetivo é marcar mais golos do que adversário e, marcando, atinge-se o objetivo e "mutatis mutandis" impede-se o adversário de o atingir. O Braga não jogou mal, muito pelo contrário. Foi o facto de ter jogado bem que tornou esta vitória ainda mais relevante. O que se dispensa são os foguetes antes da festa, o futebolês permanente, o mau jornalismo e a arbitragem portuguesa, como se viu mais uma vez. Não são precisos estes acessórios para que os jogadores façam dentro de campo o que têm de fazer e que os treinadores determinaram. No fim, no fim logo se vê e assim é que é bonito.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Venha o próximo

 

Não fui ao estádio. Estava para ir receber a equipa e beber um copo no Boina Verde, ver a malta dos coiratos a arrebitar cachimbo, ficar na bicha a ruminar impropérios antes de entrar no estádio, escutar os petardos (será a passagem do ano?), olhar a casinha e recordar sem vergonha o cachecol da caveira e a faixa do puto que já foi capa de um disco memorável. De Braga são apenas 3 horas e picos, mais uns trocos (valentes) de portagem, mais uns trocos (valentes) de gasóleo, mas desta vez não era possível, nem com a máscara do Dali da Casa de Papel. Tentei as autoridades, as oficiais e as oficiosas, não, não era possível partir o mealheiro e esmiuçar os envelopes das prendas de Natal para ver o Sporting. Já lá fui tantas vezes, reza uma história de contar os tostões, apenas para ver o Sporting, entrar no estádio, andar lado a lado com as gentes das nossas cores. Todo o mundo sabe que…

A internet não sabe. Às vezes o jogo chega com delay, às vezes não chega. Depois de uma manhã de trabalho e uma tarde de confinamento, entrei no estádio. Às pinguinhas, os acontecimentos aconteciam (deixem passar) com o beneplácito dos comentadores, passando as imagens rente ao desleixo dos árbitros. E a nossa equipa jogava, planava, ao som dos festejos de um corte do Porro (lembram-se?), de uma defesa do Adán, de um ou outro tricot do Pantufas. Ao intervalo o Braga ganhava zero a zero (gritavam alguns, em desespero). Fumei um cigarro e depois outro. Acho que bebi uma cerveja. 

Começou a segunda parte, o delay atrasava-me os pensamentos e fui algumas vezes apanhado em fora de jogo, uma delas por catorze centímetros. O jogo, repentinamente, foi colhido de surpresa pela entrada em campo de uma equipa que não tinha autorização para tal, ainda por cima depois de o Braga se apanhar a ganhar zero a zero. O VAR não se pronunciou (incrivelmente) e essa equipa que surpreendentemente (para alguns) estava em campo acabou por ganhar dois a zero. A imunidade de grupo, ainda assim, não estava, nem está, garantida.

Fui-me a um coelho (daqueles criados em casa - o PAN que me desculpe) estufado, acompanhado de um tinto robusto. Satisfeito, lembro-me de pensar: venha o próximo!

domingo, 3 de janeiro de 2021

Não perceber e sem o inglês a atrapalhar

Não se pode pedir ao Braga que num só jogo equilibre o campeonato. Quinze amarelos a menos do que o Sporting não se recuperam do pé para a mão [pé e mão são a mesma coisa, como se viu neste jogo]. O Braga fez o que lhe competia? Claro que fez. Não se mete um caceteiro como um Raúl Silva ou um Ali Elmusrati por acaso, por dá cá aquela palha, sem intenção alguma. Fizeram tudo o que estava ao seu alcance: quatro “penalties” e os árbitros nada, nem “penalty”, nem amarelo, nem nada. Uma entrada do Matheus à rótula do Sporar e amarelo logo compensado por um amarelo ao Matheus Nunes por, depois de agarrado por um adversário, lhe ter tocado na face. Sim, quando é que esperam que o Braga recupere o atraso? Por esta andar, jamais, “never ever”, como diria o Carvalhal. 

O Braga fez três remates perigosos na primeira parte e o Sporting também. No primeiro, o Ádan fez uma boa defesa, no segundo, a bola vai ao lado, no terceiro, a bola vai ao poste. Não sei o que aconteceu ao Sporting. Sou como o Rúben Amorim, não consigo ver a marcação de “penalties”. Sempre que havia um, ausentava-me para fumar um cigarro e, quando regressava, nada, tudo na mesma. Depois do jogo, ouvi um ex-árbitro na SIC afirmar que tinham sido “penalties”. Havia uma dúvida num, que um jogador pode fazer uma manchete porque futebol e o voleibol são a mesma modalidade, mas houve dois toques, é transporte, não é possível no voleibol também. Os jogadores do Sporting não foram marcar, recusaram-se a marcar, remataram de propósito para fora, não queriam ganhar de “penalty”, foi isso? Uma explicação, é o que se pede. 

O Sporting tremeu depois de primeira oportunidade de golo do Braga. Até ao final da primeira parte, foi um ai Jesus, Nossa Senhora. A segunda parte inicia-se com um golo anulado ao Braga por fora-de-jogo. O Carvalhal se já estava inchado mais inchado foi ficando, e com ele, a equipa do Braga, não percebendo que se estava a expor cada vez mais na defesa, numa defesa que depois das correrias que o Sporting lhe proporcionara na primeira parte não podia com uma gata pelo rabo. De longe, de muito longe, o Sporting é a equipa do campeonato mais perigosa no ataque rápido, no contra-ataque, no contragolpe. Dar-lhe espaço é mortal. O primeiro golo é um clássico desta época: viragem de flanco de jogo para o lateral que avança no terreno, Nuno Mendes, centro para as costas do lateral do lado contrário, passe para o meio e Pedro Gonçalves a encostar, de forma simples, sem tentativa de chapéu ou outra figura geométrica, sem força a mais ou a menos, com precisão.

E o Braga enche-se de brios e reage. E o Rúben Amorim não cede, metendo o Sporar e o Tabata para continuarem a pressão sobre a defesa. E mete o Matheus Nunes na meia direita e mata o jogo. Com a defesa completamente à deriva até o Sporar parecia o Messi. Foi mais um, mas se tivéssemos um avançado com outra capacidade, teria sido ainda mais um ou outro. O Rúben Amorim disse-o sem o dizer explicitamente: na segunda parte, os avançados estiveram inúmeras vezes em situações de um contra um. E o Braga entrou no perdido por cem, perdido por mil. Mas quando se quer ganhar com a alma é preciso jogadores com mais alma do que Porro, Coates ou Feddal e o Braga não os tem.

O Braga podia ter marcado primeiro? Claro que sim. Se tivesse marcado, o jogo poderia ter sido diferente? Claro que sim. Não marcando, o Sporting acabaria por ganhar o jogo e foi isso que o Carvalhal e a equipa do Braga nunca perceberam. Com espaço, com a defesa à beira de uma apoplexia e com a equipa do Sporting mais, muito mais fresca, o golo seria uma questão de tempo. O Braga tentou reagir, ainda faltava mais de meia hora, mas desconseguiu e a única oportunidade de golo nasce de um fora-de-jogo do Esgaio que permitiu uma defesa ao Ádan, que nem a devia ter tentado, como disse o Rúben Amorim, com a fina ironia que o caracteriza nas conferências de imprensa. A grande diferença entre o Sporting e o Braga esteve nos treinadores, no conhecimento das forças e fraquezas das suas equipas, mas, sobretudo, no conhecimento das forças e fraquezas da equipa adversária. No final do jogo, o Carvalhal demonstrou que não percebeu nada e, não, o inglês não atrapalhava.