O futebol é o assunto mais sério de todos os assunto não sérios. Não sei quem disse isto ou se alguma vez alguém o disse. Se disse, concordo, se não disse, fica dito. Este “blogue” é, assim, escrito para tratar de forma não séria o assunto mais sério de todos os não sérios. Para tratar de forma séria os assuntos sérios, basta-nos a nossa vida pessoal e profissional.
Neste "blogue", raramente se falou do presidente, deste ou de outros. O futebol vive do momento, do presente, enquanto a direção de uma instituição vive do futuro, que quando se tornar presente será avaliada pelo passado. Se este Presidente for bom ou mau, o futuro, quando passar a passado e presente, o dirá. Hoje, consideramos que foi um ato de justiça atribuir o nome de João Rocha ao novo pavilhão. É o reconhecimento pelos sportinguistas pelo trabalho desse presidente pelo que fez em benefício do clube e dos seus associados. É a avaliação no futuro daquilo que foi presente e se transformou em passado.
Este presidente não começou mal. Manteve nervos de aço em todo o processo de reestruturação financeira e nos casos Bruma e Ilori. Estava toda a gente à espera que borregasse e se espalhasse ao comprido nesses primeiros tempos. Gerou uma onda de entusiamo nos adeptos e criou uma agenda mediática centrada na bandalheira em que se transformou o futebol português. O foco da comunicação encontrava-se fora da equipa e dos jogadores, procurando criar condições para que pudessem jogar de igual para igual com os seus adversários dentro de campo. Bastava ler uma célebre entrevista do Rui Jorge para se perceber como os jogadores do Sporting se sentiam por não os deixarem bater-se com as mesmas armas dos adversários.
Nunca apreciei muito o estilo. Há excessos de linguagem que são desnecessários e que não qualificam quem os profere, mas compreendi-os. Os terramotos são medidos na Escala de Richter, que vai até à magnitude 10. Depois dessa magnitude, não se sabe como avaliar. No futebol português, essa magnitude tinha sido ultrapassada há muito, muito antes de chegar este presidente. Sendo assim, nunca percebi como é que os comentadores e a opinião pública ordenavam a magnitude do Pinto da Costa, do Luís Filipe Vieira e do Bruno de Carvalho. Estavam todos para além da Escala de Richter do futebol. Se era preciso uma magnitude igual ou superior à dos outros clubes para se jogar de igual para igual, então que viesse o correspondente terramoto.
Começaram, entretanto, a surgir sinais de alguma patologia no comportamento deste presidente. Nunca os valorizei muito, dado que se trata de assuntos a que não ligo importância e aos quais estou muito pouco atento. Aparentemente, havia sinais de alarme, como a última Assembleia Geral. Na última quinta-feira, depois do jogo contra o Atlético de Madrid, deu-se um passo em frente do qual não é possível voltar atrás. Não há inocentes, neste tipo de embrulhadas, nunca os há. Mas as responsabilidades não são comparáveis.
Quando se chega ao ponto a que se chegou, não se pode falar de forma não séria do assunto mais sério dos não sérios. É preciso falar de forma séria de um assunto sério, que está para além do futebol. As pessoas definem-se de muita formas mas a mais relevantes, neste tipo de sociedade em que se vive, é pelo que fazem como profissionais. Temos nomes, mas somos sobretudo agricultores, informáticos, professores, engenheiros ou jogadores de futebol. Não há maior desqualificação de uma pessoa quando se a desqualifica pelo que faz como profissional, como trabalhador. O Coates, o Mathieu, o Coentrão, o Gelson Martins e o Bas Dost são grandes jogadores de futebol. Chegaram longe nas suas equipas e seleções pelo seu mérito e pelo seu trabalho.
Uma organização onde, de forma gratuita, se desqualificam os seus trabalhadores pelo que fazem enquanto profissionais, não tem futuro. O presidente de uma organização que o faça ou a organização não tem futuro, se se aceitar que o possa fazer, ou então não tem futuro na organização. Por mim, a porta é a serventia da casa: rua!
Aborrecem-me ainda duas coisas.
Que o Jorge Jesus acabe por passar incólume entre os pingos da chuva. Como se viu, sem colinho, dos árbitros e do seu conselho de arbitragem, dos jornalistas ou dos cometdaores, é igual aos outros se não pior. Este enredo permite-lhe arranjar as desculpas mais adequadas para ressuscitar noutro clube qualquer, como se a culpa fosse toda do Bruno de Carvalho e ele continuasse a ser o génio da tática.
Que, com este imbróglio, ninguém mais se recorde das vigarices do futebol português, dos emails, aos “vouchers”, convites e toupeiras. Se houvesse vergonha neste país, este campeonato nem se teria iniciado, como o disse
aqui e
aqui. O Bruno de Carvalho prestou um mau serviço ao Sporting e ao futebol português, ou, pelo menos, a quem pensa que o futebol deve ser jogado dentro das quatro linhas dependendo exclusivamente os resultados dos jogadores, individual e coletivamente.
(*) Designação de um antigo e memorável "sketch" humorístico do Herman José.