terça-feira, 21 de julho de 2026

Ronaldo e a economia da atenção

O futebol e todo o seu entorno integram aquilo que à falta de melhor definição se vem chamando de economia da atenção. Com o advento dos “smartphones” e das redes sociais, especialmente, as pessoas encontram-se permanentemente expostas a estímulos e mais estímulos, a informação e mais informação, sem capacidade de processar e criar um entendimento sobre esta informação e o que as rodeia e sem sentido crítico para avaliar o que [verdadeiramente] interessa e o que não interessa [nada]. Muito pelo contrário, aquilo que menos interessa é exatamente aquilo que mais interessa nesta era do vazio, do entediamento, do passar o tempo, enfim, do “scroll up”.

A atenção é recurso escasso e, assim, o que gera mais atenção, por muito pouca que seja, tem maior, muito maior valor económico. Há mais de seiscentos milhões de pessoas em todo o Mundo que seguem o Cristiano Ronaldo no Instagram, acompanhando dia a dia, hora a hora, as trivialidades que ele [ou alguém por ele] divulga, um número absurdo, estratosférico. Tudo, mas mesmo tudo, o que envolve o Cristiano Ronaldo desperta atenção, tem valor económico, desde uma simples ida à praia a um abraço ou a um beijo a um dos seus filhos [e filhas]. Não espanta ninguém que o clube [Al-Nassr] ou a seleção [portuguesa] onde joga despertem muito mais atenção e tenham muito maior valor económico também. 

Nesta contemporaneidade [que nos foi dada viver], onde tudo tem um preço, um beijo, um abraço que seja, o preço constitui a medida do valor de todas as coisas e quanto maior for o preço mais valiosas são essas coisas. Só de salário, o Cristiano Ronaldo ganha dez vezes mais do que o jogador que se segue na seleção portuguesa [Bruno Fernandes], que foi considerado o melhor da Premier League, o campeonato mais competitivo do Mundo. Sem o Cristiano Ronaldo, além de nós, portugueses, quem estaria interessado em ver um jogo da nossa seleção? A quem interessariam os nossos resultados, as nossas vitórias, os nossos títulos? Seríamos como a Bélgica, a Suíça, o Uruguai ou outras seleções que ninguém quer saber. 

Não se pode separar a atenção que tem merecido a nossa seleção da atenção que é dispensada ao Cristiano Ronaldo. O Gonçalo Ramos teria mais atenção e maior valor económico sendo titular de uma seleção portuguesa que, sem Cristiano Ronaldo, interessa a muito poucos ou sendo suplente do Cristiano Ronaldo na atual seleção portuguesa que interessa a meio Mundo? Se o Gonçalo Ramos fizesse um jogo tão mau como o do Cristiano Ronaldo contra o Congo, o “The Independent” dedicar-lhe-ia o mesmo título [“Dez homens e uma estátua”], faria uma crónica à qual daria um título sequer? É possível ser um jogador ou um treinador de futebol português no estrangeiro sem ninguém o associar ao Cristiano Ronaldo? Queremos [ou não] o Cristiano Ronaldo, queremos [ou não] contar para o Totobola [como dantes se dizia]? Se não queremos contar para o Totobola, a resposta é simples, demasiado simples, simplória, até. 

[Neste tempo da hiperpolítica, como refere Anton Jäger, tudo é politizável, tudo se politiza e, assim, o futebol também. A equipa mais aborrecida de sempre, a atual seleção de Espanha, ganhou o Campeonato do Mundo. Na final, a Argentina jogou pior, muito pior do que qualquer outro dos adversários da Espanha (Arábia Saudita, Uruguai, Cabo Verde, Áustria, Portugal, Bélgica e França), mas ninguém vai dizer que jogou com dez homens e uma estátua, apesar de não terem feito um (único) remate à baliza (para amostra) durante noventa minutos. Talvez tenha jogado pior porque demonstrou ser pior, bem pior do que o Egipto, por exemplo.]

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