domingo, 19 de abril de 2026

Um final triste, um final nem por isso

Gosto do Arsenal, como gosto do Atlético de Madrid e do Borussia Dortmund: são o Sporting do campeonato inglês, do campeonato espanhol e do campeonato alemão. Gosto um pouco mais do Arsenal por se tratar do clube do qual Nick Hornby é adepto, um dos primeiros escritores cujos livros partilhei com a minha filha Ana [de tempos a tempos, regressa a nostalgia, a choradeira, a baba e ranho do costume], livros como “Alta Fidelidade”, “Era Uma Vez Um Rapaz”, “Como Ser Bom”, “Um Grande Salto” ou “Rapariga Endiabrada”. Além destes e de outros romances, publicou livros como “Fever Pitch” [“Febre no Estádio, na tradução portuguesa], uma biografia [parcial] em que a cronologia, a linha do tempo é marcada por jogos [mais ou menos] marcantes do Arsenal. Conheço bem esta doença [a minha geração conhece-a bem], praticamente não consigo recordar uma data a não ser que a associe a um jogo ou a um campeonato do Sporting. A última postada constitui uma simples homenagem à sua descrição do dia do último jogo da temporada 1988-89, contra o Liverpool, que deu o título ao Arsenal [de George Graham] 18 anos depois, uma descrição que só nós, os que sempre perdemos, os que sempre nos preparamos para perder, conseguimos compreender. 

“De manhã, fui a Highbury comprar uma nova camisola da equipa, pura e simplesmente por achar que tinha de fazer qualquer coisa, e apesar de reconhecer que usar uma camisola na televisão não deva ser especialmente encorajador para a equipa, sabia que isso me faria sentir melhor. […] E à medida que o jogo se ia desenrolando e se tornou evidente que o Arsenal ia cair debatendo-se, […] até consegui perdoar-lhes por terem chegado tão perto e terem estragado tudo: eram novos e tiveram uma época fantástica, e um apoiante não pode pedir mais do que isso. […] Fiquei entusiasmado quando o Arsenal marcou um golo logo no início da segunda parte, […] mas no final o Liverpool parecia estar cada vez mais forte e a conseguir criar cada vez mais oportunidades, e, por fim, quando o relógio do canto da televisão mostrou que os 90 minutos tinham passado, preparei-me para exibir um sorriso corajoso por uma equipa corajosa. […] De repente, no último minuto do último jogo da época, o Thomas ficou sozinho e com uma boa hipótese de fazer o Arsenal ganhar o campeonato […] e aí eu achei que me estava a controlar, a tirar uma lição dos recentes lapsos de ceticismo enfurecido e a pensar, bem, pelo menos chegámos perto do fim, em vez de pensar, Michael, por favor, Michael, marca o golo, meu Deus, só espero que ele marque o golo. E a seguir ele deu uma cambalhota e eu caí redondo no chão, e toda a gente na sala saltou para cima de mim, dezoito anos, totalmente esquecidos num segundo. […] Não me lembro de mais nada que tenha cobiçado durante duas décadas, nem me lembro de mais nada que tenha desejado tanto em rapaz como em homem. Portanto, espero que sejam tolerantes para com aqueles que descrevem um momento desportivo como o seu melhor momento de sempre. Não é por falta de imaginação, nem por termos vidas tristes e estéreis; é que a vida real é mais pálida, monótona, e contém menos potencial de delírio inesperado”. 

Na quarta-feira, nada disto aconteceu. Empatámos com o Arsenal, que jogou com medo de perder e, não, não se merece ganhar quando não se está disposto a perder [tentando ganhar]. O Arsenal descrito por Nick Hornby, o Arsenal de George Graham, não é o Arsenal do Mikel Arteta ou só o é por simples coincidência. Leio no “Expresso” desta semana que Thomas Gronnemark, especialista em lançamentos de linha lateral, depois de contratado pelo Liverpool [de Klopp] e pelo Bretnford, é, agora, consultor do Arsenal, que tem em Nicolas Jover, treinador de bolas paradas, um dos principais ídolos dos seus adeptos. O Arsenal é a equipa que marca mais golos de bola parada, levando 16 só nos pontapés de canto. Sem risco, sem imaginação, qual é a diferença entre o futebol jogado com onze jogadores de cada lado ou o futebol jogado na “playstation” com um [simples] jogador contra outro? A idolatria do futebol do Barcelona de Pepe Guardiola acabou nisto: dispensa-se o Pelé, o Maradona, o Messi ou o Cristiano Ronaldo, pois, os heróis, os verdadeiros heróis, são os treinadores [do que quer que seja]. A evolução, a modernidade transformou o futebol num aborrecimento, numa chatice. Se assim não é, vou ali e já volto. 

[Michael Thomas jogou pelo Benfica na época 1998-99, nos tempos divertidamente inigualáveis do Vale e Azevedo. Foi descrito como dispondo de “big balls pelo seu treinador Graeme Souness, como forma de justificar ou compensar a sua falta de jeito para jogar à bola. A ironia é ter sido este perneta, extactamente este perna de pau a quebrar um enguiço de 18 anos]

quarta-feira, 15 de abril de 2026

“Whatever it takes”

Em sete dias, numa semana, esta época [do Sporting] vai decidir-se [para o bem ou para o mal]. A última semana deste tipo que me lembro foi a chamada “Semana Peseiro”, em que, numa semana, se perdeu a Final da Taça UEFA e o Campeonato Nacional. O que é que se pode fazer para que história não se repita? O que é que nós, adeptos, podemos fazer? Usar como camisola interior durante sete dias seguidos uma “T-Shirt” do Sporting [estou a usar uma autografada pelo Hugo Rocha, filho de uma colega, comemorativa da conquista da Challenge Cup em andebol]. Recuperar o leão de peluche que oferecemos ao filho ou à filha, ao neto ou à neta, e dormir estes sete dias agarrado a ele, abraçadinhos, aconchegadinhos. Mas se podemos fazer mais, devemos fazê-lo e, sim, se posso escrever uma postada, devo escrevê-la, mesmo não sabendo sobre o quê. Se o fizer, ninguém me pode acusar de nada, a bola passa para o Rui Borges e para os jogadores e não, não há desculpas. Se tivesse juízo, devia acabar por aqui. Estamos a menos de meia hora do jogo [do Sporting] contra o Arsenal se iniciar e continuo a tergiversar

Depois da última [postada], jogámos contra o Arsenal [e perdemos por um a zero] e o Estrela da Amadora [e ganhámos por um a zero]. Vamos começar pelo Arsenal. Nestas duas últimas semanas li três livros sobre a Europa e a União Europeia [“História Concisa da União Europeia”, de Kiran Klaus Patel; “O Mundo de Amanhã. Uma Europa Soberana e Democrática e seus Inimigos”, de Robert Menasse; e o “Futuro da União Europeia”, de Eugénia Conceição]. Qual a relação entre estes três livros e o jogo da primeira eliminatória, perguntam-me vocês? [fazer perguntas como esta resulta de ouvir vozes dentro da minha cabeça enquanto escrevo]. Só faz esta pergunta quem desconheça o conceito de “encher chouriços” ou o Tratado de Nice e aquela batota na distribuição de votos pelos Estados-Membros. Esta batota é a mesma que nos obriga a jogar na Liga dos Campeões contra o segundo classificado da Liga Inglesa da época passada. Campeões são campeões ou é assim tão difícil de compreender? O Arsenal devia estar a jogar contra o Benfica, ponto final. Nós, campeões, devíamos estar a jogar contra outros campeões, como o campeão Liverpool, neste caso. O Liverpool está eliminado, percebo agora, mas não interessa, se não podem jogar, vamos diretamente para as meias-finais jogar contra o campeão da Alemanha ou da França. 

Está feita esta [postada] do Arsenal. Passemos, então, para a [postada] do Estrela da Amadora. Ganhámos por um a zero a jogar poucochinho. Nem sempre mais é melhor, nem sempre as preferências são monotónicas. Preferimos assim e preferimo-las [as preferências] convexas, isto é, quanto maior a diversidade, melhor. De que serve ganhar por três ou quatro para depois faltarem golos para ganhar ao Casa Pia [como o Benfica] e ter o treinador lavado em lágrimas, deprimido, e a dizer que dali não sai, que dali ninguém o tira? Ganhamos por poucos, mas ganhamos; ganhamos por poucos e não humilhamos; ganhamos, não humilhamos e esperamos que o Porto vá jogar ao Estrela da Amadora sem esconder as bolas ou as toalhas. Bem, falta um minuto, um minutinho para começar o jogo da segunda mão contra o Arsenal. Cumpri a minha obrigação, assunto arrumado. Não se esqueçam das camisolas interiores e dos leões de peluche, façam qualquer coisa, façam o que for preciso.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Festejar nos Aliados

Atualmente, não é simples apreciar um jogo de futebol, as jogadas, as fintas, os passes, os remates ou as defesas. Ou se admite que o futebol é arte e pode-se apreciar sem se compreender [o belo não deixa de ser uma sensação, mas, quanto a sensações, os jogos do Sporting só me provocam calafrios e taquicardias] ou, não sendo, se não se compreende, não se aprecia. Por outras palavras, só se aprecia o que se consegue compreender e explicar [sim, não esquecer que conhecimento e linguagem são uma e a mesma coisa]. Para se compreender [e explicar] um jogo é necessário reconstruir as cadeias de relação de causa e efeito no próprio jogo e desse jogo relativamente a outros, recorrendo ao “efeito borboleta” e à teoria do caos. Estes prolegómenos são uma forma de encher chouriços como outra qualquer, sim senhor, mas também são indispensáveis à completa compreensão [e explicação] do jogo [do Sporting] contra o Santa Clara.

O Mangas caiu espalhafatosamente, tropeçando em si mesmo, e o árbitro marcou falta do adversário que o perseguia, não o deixando prosseguir com a bola. Defesas a cair por efeito do bafo de um avançado e a marcação da correspondente falta constituem características do futebol português que o diferenciam dos demais, transformando-o em recurso endógeno como a Carne Barrosã, a Alheira de Mirandela ou o Queijo Terrincho. Existe uma representação carregada de dramatismo quando um calmeirão como o Otamdendi ou o Bednarek se estatela por força do bater de asas de uma borboleta em Tóquio. Pelo contrário, a queda do Mangas carrega em si mesma a integralidade do seu autor e a sua integridade [moral], constituindo a marcação da falta um simples gesto de reconhecimento [mas carregado de significado]. Depois deste tropeção, desta queda, há um jogador um só jogador à face da Terra que se queira aproveitar desta desventura? 

O [Souleymane] Faye enfia uma biqueirada num adversário à entrada da área do Sporting, o adversário paga-lhe na mesma moeda e corta-o ao meio, o árbitro não marca nem uma nem a outra falta, em jeito de compensação, de uma mão lava a outra, metodologia de arbitragem que muito contribuiu para a singularidade do futebol português também. Nada de especial até aqui, não se fora dar o caso de a jogada prosseguir e o Santa Clara acabar a marcar um golo. Marcado o golo, o videoárbitro, este elemento de modernidade, sem respeito pelas tradições e usos e costumes nacionais, revê o lance e marca a falta do jogador do Santa Clara, a falta com que se inicia o lance de ataque, não respeitando o princípio de uma mão lava a outra, cumprindo as regras, mas cometendo uma injustiça. Não, não se considerou o princípio [ancestral] de uma mão lava a outra e, sim, o Santa Clara foi prejudicado em mais, muito mais do que na [simples] marcação de um livre direto a seu favor. Mantendo-se tudo o resto constante, a célebre condição “ceteris paribus” a que os economistas sempre recorrem, o golo seguinte do Santa Clara não seria o segundo, mas o terceiro. É verdade que o Sporting marcou o quarto e, portanto, sempre teria vencido, mas se [e só se] se admitisse que também se lhe aplica a condição “ceteris paribus”, o que não é justo, nem coerente com a análise [até aqui] desenvolvida.

Que o árbitro e o videoárbitro beneficiaram o Sporting, está demonstrado ou nem sequer necessita de demonstração, diga-se. Se o Sporting ganha é porque o Sporting é beneficiado pela arbitragem, não há, não pode haver outra explicação. Existe um pormenor, um simples pormenor que, sem ele, esta explicação não é explicável: o Frederico Varandas não pode ser o choninhas que aparenta, mas, isso sim, uma criatura da pior espécie, que influencia, corrompe, vicia. O Rui Costa e o André Villas-Boas sabem do que falam e nós, sportinguistas, também sabemos do que eles falam e é por isso [mas não só por isso] que também não suportamos o Frederico Varandas. O ódio dos benfiquistas e dos portistas ao Frederico Varandas é um desperdício de energia. Não, ninguém o odeia mais [e melhor] do que nós, estejam descansados, camaradas. Nós e só nós é que estamos em condições de fazer justiça e a justiça se fará, mais tarde ou mais cedo, não tenham dúvidas. Estava-me a esquecer: vão para os Aliados festejar tranquilamente e não nos aborreçam mais, se faz favor! 

terça-feira, 24 de março de 2026

O Sporting assim, o Sporting assado, o Porto cozido, o Benfica (mal) passado

A ideia [simples] que o futebol é um [simples] jogo não se encontra alinhada com os Ares dos tempos, destes tempos [até a simples ideia de que o futebol pode ser a guerra por outros meios parece anacrónica pois nada se parece com a guerra quando se pretende a guerra e só a guerra]. Primeiro foi a cisma de que o Sporting não quer jogar contra o Tondela: o Sporting assim, o Sporting assado, o Porto cozido. Se o Sporting não quer jogar contra o Tondela, qual é o problema? Se o Porto considera que o cosmopolitismo europeu é compatível com a coesão territorial, a solidariedade com este clube do interior, que jogue contra o Tondela, quem o impede? A Liga de Clubes foi [sábia e] salomónica na decisão, decretando: se o Sporting joga se quiser e quando quiser, então o Sporting é eliminado da Liga dos Campeões, para ver se gosta de não ter ninguém contra quem jogar ou de jogar quando o adversário lhe apetecer também. Fiquei com uma dúvida, uma dúvida sem grande importância, convenhamos: sempre jogamos contra o Arsenal ou não? Não, não é importante, é só para saber. 

Depois, o José Mourinho resolveu dizer que não desejava que o Sporting e o Rui Borges vencessem a Liga dos Campeões, transformando este seu desejo [ou falta dele] na notícia da semana [esta e aquela dos Estados Unidos e de Israel não se entenderem com o Irão ou coisa assim, com as claques de uns e dos outros a jogar à batalha naval]. Eu também não desejo que o Benfica e o José Mourinho vençam a Liga dos Campeões, pois não desejo voltar atrás no tempo, não desejo voltar a ver o Sporting jogar contra o Bayern de Munique ou o Paris Saint-Germain: ficámos em sétimo na primeira fase, passámos a eliminatória contra o FK Bodø/Glimt e não se fala mais nisso. Se o Benfica quer voltar atrás no tempo, se tem contas para ajustar com o Real Madrid, que faça o que deve fazer, mas não nos atrapalhe, não nos aproxime sequer desse buraco negro, dessa confusa relação espaço-tempo. 

Assim, a vitória [do Sporting] contra o Alverca por quatro a um não tem, não pode ter, de facto, grande interesse ou só tem interesse na exata medida em que permite outras notícias e outras afirmações que alimentem o corrupio mediático nacional. Espreme-se, espreme-se e, deste jogo, desta vitória, consegue-se arrancar a custo, a muito custo uma alegoria moral a partir da relação entre o João Pinheiro e o Luis Suárez. A parábola conta-se em poucas palavras [não são assim tão poucas, mas diz-se por dizer-se, sem levar a sério o que se diz, por hábito]. 

Era uma vez um árbitro, um árbitro muito, mas muito desconfiado chamado João Pinheiro. Não via, desconfiava e apitava sempre que desconfiava. A coisa em si mesma, o real, era substituída pela sua interpretação, a sua subjetividade, a sua forma de ver o mundo, a sua desconfiança, enfim. No Domingo, quando o Luís Suarez se estatelou na grande área do Alverca, o João Pinheiro, desconfiou que havia falta do guarda-redes e, se assim pensou [ou desconfiou], mais depressa marcou “penalty”. O Luís Suarez disse-lhe que não, que não havia falta nenhuma, que não devia marcar “penalty”. O João Pinheiro não desarmou [à primeira], mas o videoárbitro perscrutou e mandou-o ver com olhos de ver. Viu, reviu e desconfiou, se não era falta, se não era “penalty”, se a culpa dele também não era, sobravam as [boas] intenções do Luís Suarez, mostrando-lhe, assim, o cartão amarelo por comportamento antidesportivo. O jogo continuou e, logo a seguir, o Luís Suarez marcou o dois a zero, numa jogada individual, escrevendo Deus direito por linhas travessas. Moral da história, quem porfia, desconfia e, quanto mais desconfia, mais e mais alcança.

quinta-feira, 19 de março de 2026

O mundo configura-se a nível mundial, já diziam o Alves do Santos e o Gabriel Alves

Como é que se escreve sobre o jogo de terça-feira [do Sporting] contra o FK Bodø/Glimt sem se ser piroso, lamechas? O que fazer com o [meu] habitual cinismo? Anteontem, numa reunião em que participei, alguém dizia que “o mundo se configura a nível mundial”, algo que nunca me tinha ocorrido, que não consigo explicar, um pleonasmo que não resulta da repetição de uma ideia, mas da repetição da falta dela, da repetição de uma não-ideia. Quando não se tem ideia do que aconteceu e de como aconteceu, é necessário encontrar essa não-ideia e repeti-la também ou abraçar a primeira pessoa que se encontre na rua. Como li algures, nunca se deve atirar a toalha ao chão, porque sempre aparece um apanha-bolas do Porto, clube, para a levar e não mais a devolver.

Não se consegue compreender nada do que se passou no jogo de anteontem e na eliminatória no seu conjunto sem compreensão da psicossociologia nacional, das representações sociais que nos definem culturalmente, se é que me faço entender. O “Labirinto da Saudade”, do Eduardo Lourenço, ou o “Portugal, Hoje. O Medo de Existir” ajudam, mas quem nunca ouviu os relatos do Alves dos Santos ou dos Gabriel Alves não compreende a nossa identidade [futebolística] nacional. 

Numa eliminatória, com a segunda mão jogada em casa, qualquer equipa portuguesa joga a primeira mão a pensar em empatar ou em perder por poucos, jogando, então, o primeiro jogo a pensar no segundo. A tática não é carne nem peixe, ataca-se com um olho na defesa, defende-se com um olho no ataque; e deixa-se andar, deixa-se correr o marfim à espera de que o jogo se conclua com os menores estragos possíveis. Se se é bem-sucedido, na segunda mão, em casa, começa-se por uns bons trinta minutos de “estudo mútuo”, como descreviam esses dois grandes relatadores. Depois desses trinta minutos, o jogo acelerava um bocadinho, mas logo vinha o intervalo e, a seguir, voltava-se à moleza inicial. Em desespero, depois de se sofrer um golo ou dois, entra-se em modo de desespero e mete-se a carne toda no assador [“put all the meats on the barbecue”, como disse o Carlos Carvalhal quando treinava o Swansea]. Esta é incrível e triste história das sucessivas vitórias morais das equipas portuguesas.

Esta eliminatória [do Sporting] contra o FK Bodø/Glimt foi taticamente assim congeminada. Esqueceram-se foi de avisar os noruegueses ou os noruegueses esqueceram-se de estudar o comportamento do Sporting e de outras equipas portuguesas nas competições europeias, e, quando demos por ela, estávamos a perder por três a zero, não havendo nada a fazer na primeira mão. A perder por três a zero, a tática da segunda mão não podia ser a de engonhar, a de encanar a perna à rã, pois a vitória moral [já] não estava ao nosso alcance. Restava-nos a alternativa de ganhar, ganhar mesmo; era precisa uma vitória autêntica, com golos e assim. Entrámos com a faca nos dentes e o resultado do jogo fez-me lembrar as consequências imprevistas de uma rendição que se confunde com heroísmo de um batalhão de antigos prisioneiros espanhóis, alistados à força nas tropas napoleónicas durante a Campanha da Rússia, descritas por Arturo Pérez-Reverte, em “A Sombra da Águia”.

Mas a motivação para escrever esta postada não foi a de falar deste jogo [épico]. A motivação foi a de me retratar publicamente de tudo o que disse ou pensei sobre alguns dos jogadores do Sporting e do seu treinador. Concentro no Fresneda esta necessidade de me corrigir, de me negar. Quantas e quantas vezes pensava para mim mesmo, com os meus botões [em particular com os botões em couro de um casaco de “tweed” cinzento com cotoveleiras castanhas em couro também]: “O Fresneda seria um excelente jogador se aprendesse a jogar à bola, a fazer uma finta de vez em quando, um centro que não bata no primeiro meco que se encontra à sua frente”. Pensava, mas já não penso [e muito menos o digo ou só o digo para o desdizer]. Na terça-feira aprendi que se exagera muito a necessidade de se saber jogar como se jogava tradicionalmente para se ser jogador. Se não se consegue jogar, atrapalha-se, o atrapalhador é o jogador desta nossa pós-modernidade futebolística. O Fresneda não centra mal, qualquer um dos seus centros acaba em canto ou em “penalty”, fazendo dele a contratação perfeita do Arsenal [treinado pelo Mikel Arteta], equipa que tranformou a marcação de "bolas paradas" em arte contemporânea.

segunda-feira, 9 de março de 2026

A desqualificar é que a gente se desentende

A incapacidade de compreender e de (des)qualificar adequadamente o treinador adversário é meio-caminho andando para se ver o título do campeonato por um canudo [não, nada disto envolve o Bom Jesus ou qualquer alegoria que envolva Braga]. O Mourinho considera uma parolice o guarda-redes do Porto queixar-se convenientemente de um dói-dói e pedir assistência médica sempre que o Fariolli quer dar instruções aos restantes jogadores [fazer um “time out” como ele próprio diria em italiano]. Não há parolice, há chico-espertice, coisa completamente diferente, isto é, o Fariolli é chico-esperto ao assim proceder, mas não parolo. Desqualificar o adversário é uma forma de lhe retirar uma ou mais qualidades, implicando prévio conhecimento dessa ou dessas qualidades. Não se é competente para desqualificar se não se dispõe de competências para qualificar também. No entanto, desqualificar não é insultar, nem o Mourinho seria capaz de uma coisa destas, cruzes-canhoto, abrenúncia. 

Seja como for, pensando-o parolo, o Mourinho entrou em campo com uma equipa constituída por jogadores como o Barrenechea, o Prestianni ou o Rafa. Demorou três quinze dias a compreender este logro, a compreender que não estava em presença de um parolo, mas de um chico-esperto, mas ainda a tempo de substituir estes três [tristes tigres] pelo Lukebakio, o Ivanović e o Barreiro e de empatar o jogo [dois a dois]. O Fariolli é chico-esperto e, como chico-esperto que é, considera-se mais esperto do que os outros, metendo o Moura, o Moffi e o Gomes, quando estava a ganhar por dois a zero, só para demonstrar que é mais esperto do que o Mourinho [como se tal fosse possível]. Este jogo, este clássico demonstrou a importância de um bom “scouting” e a falsa equivalência entre chico-esperto e esperto [na melhor das hipóteses, o chico-esperto é o esperto dado à indolência, à melancolia].   

Este é um blogue de sportinguistas e é do Sporting que se deve falar [“mais mal do que bem”, mas falar, sempre]. Comecemos pelo contexto: não é possível compreender o jogo [do Sporting] contra o Braga sem se compreender o seu entorno mediático e institucional. O Porto, clube, pretendia e pretende cortar relações institucionais com o Sporting. Com relações institucionais cortadas passa a ser moralmente adequado esconder bolas ou procurar que os adversários se constipem. Lá em casa, há uns tempos, a caldeira começou a revelar problemas. Contratámos um picheleiro e nada. Só quando contratámos alguém da Escola de Frankfurt é que compreendemos a verdadeira dimensão do problema, o emaranhado institucional em que nos encontrávamos. Nunca mais olhámos a caldeira, qualquer caldeira, da mesma maneira [vamos substituí-la por uma bomba de calor ou por um ar condicionado, equipamentos menos dados a melindres].

Perante uma ameaça desta natureza, um clube, uma equipa que não se sente não é filha de boa gente [e gente não é certamente e a chuva não bate assim]. Encontrando-nos a ganhar, recuámos e defendemos como se não houvesse amanhã [a expressão é um tanto exagerada quando se defende com o Fresneda ou o Inácio, convenhamos]. Foram instruções do Rui Borges? Foi cansaço, falta de pernas dos jogadores? Foram as lesões de jogadores como o Ioannidis ou o Debast? Não, nada disso, só quem esteve de relações cortadas, de candeias às avessas é que sabe o que se sofre e como se é incompreendido nesse sofrimento.  Podíamos ter ficado a ver por um canudo [o título]? Podíamos, mas não era a mesma coisa, embora continuemos a respirar por uma palhinha [não confundir uma palhinha com o Palhinha, um artigo indefinido com um artigo definido, um substantivo comum com um substantivo próprio]. 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Destruição: dos anos 80 do Conjunto Típico Torreense ao Porto de Farioli

O meu amigo Pedro Azevedo disse tudo. Depois de o ler, se não estivesse profundamente entediado, tinha dado o jogo de ontem [do Sporting] contra o Porto como definitivamente encerrado. Assim como assim, aqui fica, então, mais uma postada, o meu modesto contributo para a bi-dobradinha deste Sporting do Frederico Varandas, esse terrível homem dos sete mares [nunca de antes navegados], esse Fernão Mendes Pinto dos túneis, dos quinhentinhos, do Canal Caveira ou das casas de alterne. 

Trabalho e vivo há mais de trinta anos no Norte de Portugal e é deprimente, muito deprimente ver um clube assente nos princípios e valores daquela região que constitui o berço da nacionalidade a desmoronar-se jogo a jogo, época atrás de época. Quer-se intimidar o árbitro, condicioná-lo, fazê-lo pensar duas vezes antes de apitar seja o que for? Muito bem, pede-se a Don Vito Corleone [Marlon Brando] que lhe coloque uma cabeça de cavalo [ensanguentada] na cama ou a Jules Winnfield [Samuel L. Jackson] que lhe recite Ezequiel 25:17. Não lembra a ninguém é colocar um italiano a dizer num inglês com sotaque da Amareleja que o árbitro é mau, muito má pessoa por ter gamado o Sporting com toda a gente a ver e não se ter revoltado quando toda a gente que viu lhe disse o que viu, que tinha gamado o Sporting. 

Quer-se destruir o adversário, derrotá-lo em toda a linha, subjugá-lo até à sua rendição incondicional? Muito bem, pede-se ao Nuno Rogeiro, ao José Milhazes, ao José Tomaz Castello Branco ou ao Miguel Baumgartner que expliquem o atual contexto geopolítico e geoestratégico e a importância de dispor de armamento nuclear tático [não confundir, nunca confundir com armamento nuclear estratégico, porque matar todos devagarinho, um a um, é muito diferente do que matar todos de uma só vez, de uma penada]. Não, não lembra a ninguém as queixinhas do tal fulano italiano porque a equipa adversária regressou do intervalo com cinco minutos de atraso [só faltou queixar-se do ladrar irritante do Yorkshire Terrier da mãe do Luís Suarez que não deixa ninguém dormir a noite toda].

Ninguém leva nada disto a sério. Ouve-se e apetece-nos [logo] comer uma canja, como o Rui Borges. Talvez valha a pena respirar fundo e voltar ao princípio. O Porto perdeu contra o Sporting por um a zero na primeira mão da meia-final da Taça de Portugal. Hoje, a Terra continuou o seu habitual movimento de rotação a cerca de 1.670 km/h [no Equador] e o seu não menos habitual movimento de translação a mais de 107.000 km/h. Daqui a um mês ou dois joga-se a segunda mão. Até lá, espera-se que continue o bom tempo.

terça-feira, 3 de março de 2026

Não se deve ter um campeonato quando se pode ter tantos quantos as equipas

Não se consegue acompanhar o ritmo alucinante, estonteante dos acontecimentos no futebol português. Explicando melhor, o ritmo dos jogos do futebol português aguenta-se muito bem ou não tivessem atingido patamares de excelência jogadores velozes e intensos como o Pedo Barbosa ou o Fábio Rochemback; o que não se acompanha é o ritmo das notícias, um autêntico corrupio de ninharias embrulhadas em papel cuchê que constitui um festim para qualquer comentador ou analista mais ou menos encartado. Para dar um só exemplo, o José Mourinho constitui o Pedro Passos Coelho com mais [muito mais] cabelo, não há dia em que não se procure compreender o que possa estar a pensar por franzir o sobrolho ou por dizer seja o que for [que ele diga].  

Quando um canto erradamente assinalado contra o Santa Clara no estertor do jogo permitiu a vitória do Sporting, clamou-se pela necessidade de a arbitragem perscrutar melhor, muito melhor, esmiuçando até ao tutano cada jogada, cada lance, não fosse o diabo tecê-las. No jogo [do Sporting] contra o Famalicão, o videoárbitro perscrutou e perscrutou muito bem [assinalando uma falta e, assim, anulando um golo], clamou-se, então, que não senhora, rever é uma coisa, perscrutar é outra [completamente diferente]. Ver, ver com olhos de ver, é apenas para os árbitros e, no jogo do Porto contra o Arouca, assim foi: o árbitro viu o que ninguém viu e o videoárbitro reviu e, revendo, não viu, confirmando um “penalty” no estertor deste jogo também.

Não se conseguindo um entendimento que durasse mais do que uma jornada, o Benfica apresentou uma proposta disruptiva, um verdadeiro corte epistémico. Cada clube analisa a arbitragem dos seus jogos e dos seus rivais e vai fazendo a respetiva contabilização dos benefícios e prejuízos. A partir dessa informação e com recursos ao Método dos Mínimos Quadrados Ordinários, estima a pontuação e, assim a classificação de cada clube. Mais canto, menos canto, mais “penalty”, menos “penalty”, são estas as contas do Benfica: Porto em primeiro, com 63 pontos; Benfica em segundo, com 61 pontos, mas um jogo a menos; Sporting em terceiro, com 55 pontos. 

Com a vitória de ontem contra o Gil Vicente, o Benfica passaria para primeiro, com 64 pontos, não fosse o Porto considerar um canto, um livre ou um fora-de-jogo mal marcado, pouco importa, voltando tudo ao mesmo. Não se obtém uma classificação final, mas, antes, tantas quantas os clubes que recorram a estes modelos econométricos, isto é, ninguém ganha, ninguém perde, antes pelo contrário. No limite, todos os clubes poderiam acabar o campeonato com zero pontos, dependendo da arbitragem, embora ainda não se tenha encontrado solução para a distribuição do total dos pontos, que pode variar entre os 306 [todos os jogos acabam empatados] e os 918 [todos os jogos acabam com um vencedor e um vencido].

Estes prolegómenos tinham um e um só objetivo: ganhar balanço, imaginação para escrever qualquer coisa sobre o jogo [do Sporting] contra o Estoril. Ganhámos por três a zero, é o que me ocorre dizer, depois de pensar, pensar bem na arbitragem e nos cantos, livres ou pontapés de baliza que assinalou. O Luiz Suárez marcou os dois golos iniciais, o primeiro com a sola da chuteira, o segundo meio com a canela, meio com o peito do pé, depois de receber a bola com a ponta da chuteira. Num último fôlego, o Daniel Bragança marcou o terceiro, depois de uma bela desmarcação e de uma melhor assistência do Nuno Santos, dois dos nossos habituais 358 enfermiços. Como veem, o futebol, o futebol propriamente dito, com bola e tudo, tem muito pouco interesse, muito pouco que se lhe diga, um aborrecimento, enfim.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Quanto melhor, pior ou quanto pior, melhor?

A última semana futebolística não é simples de analisar. Não é simples de dizer de que cor eram as camisolas de uma equipa ou da outra como também não é nada simples indicar em que sentido é que cada uma das equipas devia correr e, assim, de que lado ficava a baliza de uma e da outra equipa. Há gente que acha coisa diversas: que quanto pior, pior; quanto melhor, melhor; quanto pior, melhor; ou quanto melhor, pior. No fundo, no fundo, não é simples dizer quem ganhou ou não ganhou pois não existe um entendimento comum sobre o que é ou não é uma vitória ou se uma vitória pode ser uma derrota e vice-versa. 

Há quem ache que chamar “maricones” a um jogador adversário é melhor do que lhe chamar “mono”, que são os mesmos que acham que é pior chamar “mono” a um jogador adversário do que lhe chamar “maricones”. Para estes, se se chamar “maricones”, ganha-se, se se chamar “mono”, perde-se e vice-versa. Há quem ache exatamente o contrário e para estes, se se chamar “mono”, ganha-se, se se chamar “maricones”, perde-se. Mas cada um atribui o sentido que entender à expressão “melhor” ou à expressão “pior”: para alguns, quanto pior, melhor; para outros, quanto melhor, pior. É melhor ser racista ou homofóbico? É pior ser racista ou homofóbico? Não sei, ninguém sabe.

Acho [não me recordo de recorrer ao verbo achar, mas está-me a saber bem, muito bem mesmo] que se devia promover um dois em um. Há dias fui a uma loja de marca e obtive um grande desconto na compra da segunda camisola. Saí da loja muito satisfeito com este negócio [embora mais tarde tenha ficado a pensar se a segunda camisola, a mais barata, teria grande utilidade]. Quem é racista também deve ser homofóbico para facilitar a constituição das equipas, escolher as camisolas e decidir o lado da baliza do adversário. De um lado, jogam os racistas e homofóbicos, do outro, os que não são racistas nem homofóbicos. Assim, sim, é possível chegar a um resultado, embora os segundos tenham [sempre] tendência para perder, pois têm menos “likes”, são mais sensaborões, aborrecidos.   

Mas quem ache [outra vez o verbo achar] que os problemas identificados se encontram resolvidos, está muito enganado. É que há quem ache que quem esconde as bolas quando está a ganhar e gama as toalhas do guarda-redes adversário é moralmente superior a quem chama “maricones” ou “mono” ao adversário, embora os que chamem nomes também digam que têm amigos negros e homossexuais. Com esta é que ninguém estava a pensar, com esta não há solução possível. De um lado, jogam os racistas e homofóbicos e, do outro, os que escondem as bolas e roubam as toalhas? E os que não são nem uma coisa nem outra, jogam contra quem? Jogam contra todos? É possível jogar contra todos? Ao mesmo tempo? Temos de confiar na FIFA e na UEFA para resolver problemas como este, pois um comum mortal, como eu e outros, não consegue por muito que pense, por muito que dê voltas à cabeça. 

Estava a esquecer-me: o Sporting ganhou ao Moreirense por três a zero. A teoria da fezada sofre um grande abalo. Fezada e três a zero não rima. Fezada e três a zero a jogar bem rima muito menos, mesmo que a afilhada do Rui Borges esteja a ver o jogo. Na época passada, achei que o Rui Borges foi muito sensato ao seguir as orientações técnico-táticas que o Morten Hjulmand lhe ia transmitindo [aparentemente, terá ficado com o Moleskine do Ruben Amorim]. Será que o Rui Borges nos enganou? Será que a afilhada não está relacionada com a fezada do último jogo? Será que ela é que tem o curso de treinador(a)? No Sporting, não seria a primeira, nem a segunda vez.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Fezadas e temas conexos

Os treinadores portugueses ou o treinador português, melhor dizendo, devia constituir-se como uma Denominação de Origem Protegida (DOP), uma Indicação Geográfica Protegida (IGP) ou uma Especialidade Tradicional Garantida (ETG). A afirmação "I think I'm a special one" do José Mourinho não passa de uma forma hiperbólica de reclamar este estatuto no contexto europeu. Há uma característica inimitável do treinador português que não é devidamente reconhecida, a fezada e a sua transformação em princípios tecno-táticos fundamentais do futebol moderno. O conceito é simples, mas de difícil aplicação bem-sucedida, ter uma fezada é ter confiança em algo sem que exista evidência [analítica ou empírica] que a sustente. 

O Rui Borges tem elevado a fezada [enquanto tecno-tática futebolística] à quinta potência. De memória, lembro-me dos jogos contra o Marselha, o Paris Saint-Germain ou o Atlético de Bilbau, por exemplo: cada um destes jogos não atava nem desatava e no seu finzinho o Rui Borges mete o Allison Santos, um rapaz do Leiria, e foi tiro e queda. Foi uma, foi duas, foi três vezes e a situação deixou de ser sustentável. Se a fezada resulta com [esta] frequência deixa de o ser, isto é, passa a existir evidência [empírica] e a fezada deixa de ser o que é, uma fezada. Deixando de ser útil para o Sporting enquanto fezada, a transferência para o Nápoles era inevitável e não, não se transferiu o Allison Santos, um rapaz do Leiria, o que se transferiu, aquilo que verdadeiramente vale o que o Nápoles pagou, foi esta fezada, uma fezada de créditos firmados na Liga dos Campeões. 

Sem esta fezada, os jogos continuaram a decidir-se nos últimos minutos, agora, pelo Luís Suárez. É difícil transformar o Luís Suárez numa fezada, atendendo a que não corre como se não houvesse amanhã, não mete os olhos no chão e [até] passa a bolas aos seus colegas. A controvérsia instalou-se, mas por pouco tempo, pois, no Domingo, no jogo contra o Famalicão, o Luís Suárez não podia jogar. Os jogadores estavam com a sua habitual modorra e o jogo foi-se arrastando, arrastando até se chegar aos últimos minutos e, como habitualmente também, lá se marcou o golo do costume. O marcador foi o Bragança, de cabeça, a saltar ao primeiro poste, a dar de raspão na bola e a enfiá-la no outro lado da baliza. 

Como ele próprio confessou, nunca tinha marcado um golo de cabeça e, assim sendo, concluo eu, também não sabia bem o que estava a fazer ao primeiro poste e, muito menos, porque carga de água resolveu saltar e cabecear a bola como a cabeceou. Para os mais apressados, estava encontrada a nova fezada, tanto mais que o Bragança começou como suplente e só entrou em campo na parte final do jogo. É nestes momentos que o Rui Borges nos surpreende, nos expõe os seus pensamentos mais disruptivos. O golo, o resultado, não se devia ao Bragança ou ao Bragança como fezada, mas à fezada de trazer a afilhada para ver o jogo. Se têm dúvidas, vejam o que aconteceu ao Benfica anteontem contra o Real Madrid porque [e só porque] a afilhada do Rui Borges e a afilhada do Trubin já estavam a dormir.

O Porto, o Porto clube, protestou, protestou muito. Não havia direito, o Sporting faz o que lhe apetece e ainda lhe sobra tempo, não respeita nada nem ninguém, não cumpre as regras da UEFA e da FIFA, não retira as bolas, os pinos e os apanha-bolas quando se vê a ganhar, nem sequer arranja um larápio de toalhas de guarda-redes. O Frederico Varandas reagiu com veemência, com alguma brutalidade até: não está em causa o roubo das toalhas durante o jogo, mas a sua não devolução depois de ele acabar e, assim, enquanto não lhe devolverem as toalhas, o Sporting também não as vai roubar a ninguém. Sobre as bolas, os pinos e os apanha-bolas foi mais evasivo, mas não podia ser de outra forma, dada a delicadeza do assunto. O Sporting não consegue rivalizar com o Porto e ninguém se surpreende quando não arregimenta miúdos de educação esmerada, miúdos do Colégio Valsassina, do Colégio de São João de Brito ou assim.

O Famalicão também protestou e muito. Esmiuçaram o que havia para esmiuçar no golo que lhes foi anulado e as suas razões ficaram muito, mas muito bem explicadinhas. Sabem que depois de um golo, o videoárbitro deve verificar se houve alguma irregularidade que não foi devidamente sancionada pelo árbitro e, se assim for, então, deve ser anulado. Mas o que o treinador e um outro senhor que manda no Famalicão também sabem é que a FIFA e a UEFA sim senhora, mas rever não é ver, é ver de esguelha na melhor das hipóteses, é ver com recurso ao Braille [à ponta dos dedos], é ver enquanto se come uma sandes de courato e se bebe uma mini. Quanto a isto não se tem muito a dizer e compreendo o silêncio comprometido do Frederico Varandas. Sempre que me falam da UEFA e da FIFA, destas duas ONG, até me vêm lágrimas aos olhos ao lembrar-me do Michel Platini e do Joseph Blatter apanhados quando carregavam comida e mais comida às costas para um campo de refugiados no Botswana.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Coisas e mais coisas

Nesta segunda-feira, no clássico Porto – Sporting, passaram-se, como é que hei de dizer, coisas, sim, coisas, é a melhor definição para estas coisas em si mesmas, não sei se me faço entender. Quando o jogo se aproximava do final, uns miúdos arrumaram as bolas e não havia bolas para ninguém. Muitos e muitos sportinguistas rasgaram as vestes, porque sim, porque não há direito, porque o Villas-Boas até se escreve com dois éles e um hífen como o beto da Foz que é e sempre foi, porque é anacrónico [não estamos no tempo da fruta, do apito ou do guarda Abel nem os jogadores têm bigode], porque o Farioli até fala estrangeiro e tudo, etc., etc., etc.

Pedi ao meu sobrinho João, portista envelhecido em casca de carvalho, uma explicação, uma análise. A explicação é simples para quem sabe do que fala, para quem conhece o Porto como a palma das suas mãos, o Porto clube e o Porto cidade e a sua burguesia refinada no contato com os ingleses do Vinho do Porto. O jogo foi tarde, muito tarde. Não lembra a ninguém começar um jogo às 20.45h num dia da semana com aulas no dia seguinte. Um a um, cada miúdo foi trazido para casa por uma orelha não sem antes deixar tudo arrumado, muito bem arrumadinho, como deve ser, como mandam as mães. É a educação esmerada destes miúdos que lhes permite depois serem pais de miúdos com educação mais esmerada ainda, ontem no Colégio das Caldinhas, hoje no Colégio do Rosário. 

Também houve problemas com o aquecimento dos balneários. Quem nunca teve problemas com aquecimentos  em casa, aquecimentos com telhados de vidro, que atire a primeira pedra. Os jogadores do Sporting, queixinhas, vieram dizer que estava muito quente. Deviam viver em minha casa, onde para se poupar na conta do gás nunca se liga o aquecimento central. Deviam acordar com o pingo no nariz e deitar-se ainda com o pingo no nariz, dia após dia. O Porto explicou muito bem, são contra o centralismo, o centralismo de Lisboa, mas não veem qualquer problema no centralismo do aquecimento: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Ou se centraliza o aquecimento ou se descentraliza o aquecimento e não se sabe onde se para, cada jogador sua escalfeta, é isso que querem?

Houve mais coisas, coisas como o roubo de umas toalhas ao guarda-redes do Sporting que ele usava para limpar as luvas ou lá o que é. Mas quem é que se importa com toalhas? Vai-se à Feira de Espinho ou à Feira da Vandoma e traz-se uma dúzia delas, daquelas de turco, fofinhas, em tons de azul, por tuta e meia. Não duram muito, desbotam lavagem após lavagem, mas servem muito bem para limpar as luvas ou lá o que é. Por tuta e meia querem o quê? Toalhas de marca? Toalhas Buddemeyer em algodão egípcio ou Toalhas Trussardi Maggiore? Tenham juízo e não se armem em finos: limpem as luvas ou lá o que é nos calções, na camisola ou no que tiveram mais à mão. 

Na segunda-feira fui ao Theatro Circo ver o filme “Pai, Mãe, Irmã, Irmão”, realizado por Jim Jarmusch, com atores como o Tom Waits, a Charlotte Rampling ou a Cate Blanchett. Não vi o jogo, portanto. Valem-me os diferentes canais de televisão sempre a informarem coisas e mais coisas, coisas importantes, sem dúvida. Quanto é que ficou o jogo, alguém me sabe dizer? Agradecia. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

“O mínimo que se pode pedir a uma equipa é que ela não se mexa."*

 

Talvez conste da decoração do balneário quando o Sporting lá for outra vez: o primeiro penálti em muitos anos (acontecera alguma vez no dragon fruit?). É uma questão pertinente.

Salvaguardando o esforço e a dedicação, este jogo ficará para os anais do esquecimento, encadernado em carneira italiana, com a dedicatória: controlar o adversário para assim se controlar a si próprio (deixem passar). Passou-me pela cabeça: agarrem-me que eu ganho o jogo. O tempo, aborrecido, lá foi passando, com o Porto muito distante das cavalgadas da primeira volta, receoso que houvesse jogo a sério. 

Aquilo pareceu-me falta, já vi unicórnios bem piores, assinalados reverentemente. Algumas carambolas fizeram o resto, expondo que, para marcar golos, basta existirem alguns dispositivos corporais ainda vivos dentro de campo. A partir daí o Sporting deixou o agarrem-me e foi-se a eles, mostrando que o objetivo principal poderia ser alcançado: e foi. Por milagre do senhor dos penaltis extraviados no dragão, mas foi. O jogo acabou finalmente. Os jogos à segunda-feira já são um desconsolo emocional, com início às 20h45m tornam-se uma espécie de after, um roteiro para dançar madrugada dentro.

As contas são fáceis quando os dedos bastam: quatro para frente e três a olhar para trás. Aos cinco primeiros o Sporting não ganhou um jogo: empates com o Gil, Benfica e Porto fora. Derrota com o Porto e empate com o Braga em casa. A procissão já não vai no adro, e tem um novo elemento a aproximar-se do andor. Assim seja.



(* frase sacada a Salvador dali, substitua-se equipa por escultura)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Uma experiência subjetiva ou uma visão bizarra?

 

Do ponto de vista estritamente sociológico, o golo do Porto com o Santa Clara é um objecto interessante de estudo: um ser humano com várias opções escolhe a mais arriscada (ou a menos inteligente) e falha, entregando o ouro ao bandido. Se fosse com o Sporting tinha de ir ao VAR para análise. E, se calhar, teríamos direito a mais um comunicado e uma participação por ausência de um ecrã disponível com imagens em loop no balneário do árbitro.

Uma das coisas interessantes no nosso futebol, para além da sua extravagante e inalterável forma de vida, bem acima das suas (in)capacidades, é a possibilidade de nos mostrar em cada momento que é capaz de aperfeiçoar a sua habilidade para afastar ainda mais gente do jogo jogado ao vivo: isso mesmo fica provado no preço dos bilhetes para adeptos do Sporting no jogo de Barcelos. Um jogo que poderia ter ficado decidido com o dois a zero que esteve nos pés do Suaréz, o que, do ponto de vista sociológico, encerra uma temática ainda mais arriscada, ou mesmo humanamente possível, como qualquer erro…