Como é que se escreve sobre o jogo de terça-feira [do Sporting] contra o FK Bodø/Glimt sem se ser piroso, lamechas? O que fazer com o [meu] habitual cinismo? Anteontem, numa reunião em que participei, alguém dizia que “o mundo se configura a nível mundial”, algo que nunca me tinha ocorrido, que não consigo explicar, um pleonasmo que não resulta da repetição de uma ideia, mas da repetição da falta dela, da repetição de uma não-ideia. Quando não se tem ideia do que aconteceu e de como aconteceu, é necessário encontrar essa não-ideia e repeti-la também ou abraçar a primeira pessoa que se encontre na rua. Como li algures, nunca se deve atirar a toalha ao chão, porque sempre aparece um apanha-bolas do Porto, clube, para a levar e não mais a devolver.
Não se consegue compreender nada do que se passou no jogo de anteontem e na eliminatória no seu conjunto sem compreensão da psicossociologia nacional, das representações sociais que nos definem culturalmente, se é que me faço entender. O “Labirinto da Saudade”, do Eduardo Lourenço, ou o “Portugal, Hoje. O Medo de Existir” ajudam, mas quem nunca ouviu os relatos do Alves dos Santos ou dos Gabriel Alves não compreende a nossa identidade [futebolística] nacional.
Numa eliminatória, com a segunda mão jogada em casa, qualquer equipa portuguesa joga a primeira mão a pensar em empatar ou em perder por poucos, jogando, então, a primeira a pensar na segunda. A tática não é carne nem é peixe, ataca-se com um olho na defesa, defende-se com um olho no ataque; e deixa-se andar, deixa-se correr o marfim à espera de que o jogo se conclua com os menores estragos possíveis. Se se é bem-sucedido, na segunda mão, em casa, começa-se por uns bons trinta minutos de “estudo mútuo”, como descreviam esses dois grandes relatadores. Depois desses trinta minutos, o jogo acelerava um bocadinho, mas logo vinha o intervalo e, a seguir, voltava-se à moleza inicial. Em desespero, depois de se sofrer um golo ou dois, entra-se em modo de desespero e mete-se a carne toda no assador [“put all the meats on the barbecue”, como disse o Carlos Carvalhal quando treinava o Swansea]. Esta é incrível e triste história das sucessivas vitórias morais das equipas portuguesas.
Esta eliminatória [do Sporting] contra o FK Bodø/Glimt foi taticamente assim congeminada. Esqueceram-se foi de avisar os noruegueses ou os noruegueses esqueceram-se de estudar o comportamento do Sporting e de outras equipas portuguesas nas competições europeias, e, quando demos por ela, estávamos a perder por três a zero, não havendo nada a fazer na primeira mão. A perder por três a zero, a tática da segunda mão não podia ser a de engonhar, a de encanar a perna à rã, pois a vitória moral [já] não estava ao nosso alcance. Restava-nos a alternativa de ganhar, ganhar mesmo; era precisa uma vitória autêntica, com golos e assim. Entrámos com a faca nos dentes e o resultado do jogo fez-me lembrar as consequências imprevistas de uma rendição que se confunde com heroísmo de um batalhão de antigos prisioneiros espanhóis, alistados à força nas tropas napoleónicas durante a Campanha da Rússia, descritas por Arturo Pérez-Reverte, em “A Sombra da Águia”.
Mas a motivação para escrever esta postada não foi a de falar do jogo [épico]. A motivação foi a de me retratar publicamente de tudo o que disse ou pensei sobre alguns dos jogadores do Sporting e do seu treinador. Concentro no Fresneda esta necessidade de me corrigir, de me negar. Quantas e quantas vezes pensava para mim mesmo, com os meus botões [em particular com os botões em couro de um casaco de “tweed” cinzento com cotoveleiras castanhas em couro também]: “O Fresneda seria um excelente jogador se aprendesse a jogar à bola, a fazer uma finta de vez em quando, um centro que não bata no primeiro meco que se encontra à sua frente”. Pensava, mas já não penso [e muito menos o digo ou só o digo para o desdizer]. Na terça-feira aprendi que se exagera muito a necessidade de se saber jogar como se jogava tradicionalmente para se ser jogador. Se não se consegue jogar, atrapalha-se, o atrapalhador é o jogador desta nossa pós-modernidade futebolística. O Fresneda não centra mal, qualquer um dos seus centros acaba em canto ou em “penalty”, fazendo dele a contratação ideal do Arsenal [treinado pelo Mikel Arteta].
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