sábado, 20 de abril de 2024

Estado da nação

 

Não há nada de invulgar nas notícias que desbaratam o plantel do Sporting, incluindo arredores e áreas adjacentes, como barracões velhos vendidos para o Liverpool ou o Arsenal de Londres. A única coisa verdadeiramente excepcional são estas notícias nascerem velhas, isto é, copiadas de outras, igualmente com os pés para a cova. Estamos em condições especiais de informar os sportinguistas sobre o verdadeiro estado da nação:

Antonio Adán: lesionado e quase vendido para uma liga de veteranos.

Franco Israel: possíveis interessados não faltam (isto não quer dizer nada mas ouve-se muito).

Ricardo Esgaio: Na iminência de ser vendido (risos).

Gonçalo Inácio: vendido desde o ano passado - não se sabe quem tem jogado em seu lugar.

Ousmane Diomande: vendido pelo menos desde a última CAN – substituído por um primo muito parecido, sem que se note grande diferença.

Jerry St. Juste: após a leitura de “A Rota da Porcelana”, livro escrito por Edmund de Waal, percebendo semelhanças com o seu própria trajecto, decide produzir e protagonizar uma série baseada no livro e na sua experiência, apenas não se sabendo se alguma lesão o impedirá de cumprir esse ensejo, fazendo justiça à sua fragilidade e beleza intrínsecas.

Eduardo Quaresma: Após aquela comemoração do golo contra ao Braga, Quaresma deveria ser parte da mobília, embora se saiba que até os barracões estão de partida.

Sebastián Coates: só sai quando aprender a falar qualquer coisa em português, como nomeadamente ou geringonça.

Luís Neto: coach de mística futeboleira e psicologia positiva, escreverá livros e verá o seu podcast correr mundo sem sair do banco.

Iván Fresneda: místico, perdão, futebolista espanhol: vende-se!

Nuno Santos: vendido ainda com o penteado antigo, isto é, sem cabelo.

Geny Catamo: vendido sem estar ainda comprado.

Matheus Reis: possíveis interessados não faltarão (assim é mais compreensível).

Morten Hjulmand: vendido.

Hidemasa Morita: 売られた

Daniel Bragança: vendido ao CDS (só pode ser pelo cabelo à foda-se).

Koba Koindredi: procura-se.

Pedro Gonçalves: a caminho da selecção de Trás-os-Montes.

Trincão: como diria o Jardel: um clássico é um clássico e vice-versa: vendido!

Marcus Edwards: como diria o Ronaldo: sem disciplina o talento não serve para nada: vende-se.   

Viktor Gyökeres: Gyökeres: vendido, várias vezes. Quem tem jogado é o Viktor com os resultados que se sabem.

Paulinho jogador: alvo de várias abordagens - fica nem que seja a roupeiro.

Paulinho roupeiro: recusa receber quaisquer emissários Árabes e de países com línguas esquisitas, diz que o seu coração não tem preço, embora vá a caminho de um pacemaker.

Rúben Amorim: desconhecido treinador sem habilitações vai a caminho de três ou quatro clubes de futebol (talvez os mesmos que tem comprado os barracões velhos), de duas agremiações de bairro e de um grupo de seminaristas com provas dadas na formação. Diz-se que são tantas as assinaturas que um imbróglio judicial se avizinha.

Hugo Viana: está em negociações consigo próprio e possivelmente com outros.

Todos os caminhos vão dar a Alvalade!

 

(tenho faltado aos treinos por razões profissionais e pessoais, afinal o plantel o ano passado passou para três elementos – todos em negociações para sair, vamos ver como corre daqui para a frente).

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Sem desculpas

Esgotadas as desculpas [que dava a mim próprio] para não ver os jogos do Sporting, mandei fazer a revisão ao “pacemaker” e fiz-me ao caminho, isto é, preparei-me para ver o jogo [do Sporting] contra o Famalicão. Os primeiros trinta ou trinta e cinco minutos foram entediantes, com o Sporting permanentemente a atacar e o Famalicão a defender como podia e não podia [ou não devia, mas podia]. O Pedro Gonçalves marcou um golo e um defesa não gostou e marcou-lhe os pitões no peito do pé um pouco mais tarde. 

Cada um marca o que pode e como pode e a mais não é obrigado. Os comentadores descreveram e explicaram muito bem explicadinha a calcadela [ou o calcão] no Pedro Gonçalves, não dispensando abundantes referências geográficas e anatómicas, embora esse diagnóstico não tivesse produzido qualquer conclusão prática [a palavra “penalty” não deve fazer parte do livro de estilo]. O árbitro não viu ou viu assim-assim e ficou à espera do que o vídeo-arbitro, o ajudante do vídeo-árbitro e o ajudante do ajudante do vídeo-árbitro pudessem ter visto. Não ficámos a saber se tinham [ou não] visto e o que tinham visto, se viram alguma coisa, mas não deixarão de nos explicar um dia destes, num programa de televisão perto de si. 

A partir dessa primeira meia hora, os jogadores do Famalicão passaram a padecer de uma doença com sintomas um pouco estranhos. Quando se aproximavam de um jogador do Sporting atiravam-se para o chão, rebolando agarrados à cara. Admiti que se tratava de uma doença contagiosa dos jogadores do Sporting e essa seria a razão para os amarelos que o árbitro lhes foi mostrando, sabendo [como sabe e todos sabemos] que o Rúben Amorim os substituiria na primeira oportunidade e eliminaria o risco de propagação da doença.

Na segunda parte, os jogadores do Famalicão vieram mais rijos e espevitados enquanto os do Sporting pareciam mais cansados e expetantes. Podia continuar neste ramerrame, descrevendo a inconsequência do Famalicão e a aflição do Sporting na segunda parte e como o resultado permaneceu. Poder, podia, mas não é fácil falar sobre tudo e sobre nada só para encher chouriços e cumprir esta promessa de continuar, jogo após jogo, a escrever crónica após crónica até ao final do campeonato. Faltam cinco jogos, cinco crónicas.

[Conforme este ou aquele jogador se foi destacando, assim a imprensa lhe foi arranjando destino para a próxima época. Pouco a pouco, deixaram de existir jogadores disponíveis para mais e mais notícias, mais e mais transferências. Sobrava o Rúben Amorim, mas até a ele já lhe arranjaram destino. O futebol, o jogo, pode esperar, enquanto se discute mais esta transferência]  

terça-feira, 16 de abril de 2024

Novo ansiolítico

“Não te esqueças de escrever o post sobre o jogo [do Sporting contra o Gil Vicente] que não viste”, foi a mensagem que recebi hoje, pela manhã. Não ver um jogo, não ler um livro ou não assistir a uma peça de teatro não é razão para não se falar como se se tivesse visto, lido ou assistido, embora não se deva começar por o admitir [como é este o caso]. Jogo a jogo, crónica a crónica, eu e Rúben Amorim começamos a ser um caso de estudo [muito] sério. É possível ganhar sem o Rúben Amorim? É possível ganhar o jogo seguinte sem a minha crónica do anterior? Ninguém quer arriscar, pois há coisas com as quais não se brinca, independentemente de o respeitinho ser muito bonito.

O chouriço vai-se enchendo sem se dizer coisa com coisa. Setecentos e vinte e sete caracteres [já] estão escritos e ainda não falei do jogo [que não vi]. No entanto, a paciência do leitor também tem limites e não se deve abusar. 

Não vi o jogo em direto, mas vi-o depois, em diferido, como se costuma dizer. Vi-o enquanto dormitava [na segunda parte, especialmente] e, portanto, foi como se não o tivesse realmente visto [na mesma]. O Nuno Santos está castigado, logo joga o Esgaio do lado esquerdo, a solução mais simples, mais óbvia. O Hjulmand também está castigado, logo joga o Daniel Bragança como se sempre tivesse sido titular. O Quaresma anda amuado por ter perdido a titularidade? Mete-se o rapaz e guarda-se o St. Juste para o jogo seguinte. O Coates está cansado? Mete-se o Diomandé e guarda-se igualmente o capitão para o jogo seguinte. Tudo muda, tudo permanece [na mesma]. Marcámos quatro na primeira parte e desistimos [ou descansámos, o que vai dar ao mesmo]. A única notícia é a não existência de notícias ou a notícia de que o Gyokeres não marcou [ou marcou, mas foi considerado autogolo do guarda-redes, como se fosse ele a cabecear para a sua própria baliza].

Há quem tenha insónias ou dificuldades em adormecer. Há medicamentos que ajudam a conciliar o sono e permitem um sono retemperador. Os nomes são [re]conhecidos. A partir de sexta-feira, o "Gil Vicente vs Sporting" passou a estar disponível para esse efeito. Há em gotas, em pomada ou em comprimidos. É remédio santo. 

[Este jogo foi um Lexotan, um Xanax ou um Sedoxil, mas desengane-se quem pense que também vai ser assim hoje, mais logo, contra o Famalicão. Difícil ou fácil pouco importa. O que importa, o que verdadeiramente importa é a vitória e, quanto isso, fiz a minha parte]  

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Um final feliz ou um guião que se escreveu sozinho

Vi a primeira parte do jogo [do Sporting] contra o Benfica para o campeonato no passado sábado. Não aguentei ver mais [vi a segunda depois do jogo acabar, em diferido]. Uns tantos árbitros portugueses conseguem transformar qualquer jogo num martírio, num suplício, tantas são as falta e faltinhas e os amarelos e vermelhos que tanto se mostram como se escondem. Nesta arte de arbitrar a toda a sela, o Artur Soares Dias é o “pináculo da perfeição”, como diria o Miguel Araújo, se tivesse que escrever uma canção. 

O jogo deixa de ser jogo e passa a filme de suspense, a “thriller”. Apita uma falta e ficamos a pensar se naquela considerou [mesmo] falta ou se é compensação pela outra que marcou à equipa contrária ou que não marcou à mesma equipa. Uma simulação corresponde a um amarelo, mas na simulação seguinte é falta ao contrário, sem amarelo. Deixa uma pista aqui, outra acolá e os espetadores que se desenrasquem a entender o enredo, embora o enredo não tenha princípio nem fim, sendo construído conforme as filmagens se vão desenrolando. Os factos confundem-se com as interpretações para que a ficção [o filme] possa começar a emergir. 

Os jogadores participam com vontade, mas ninguém lhes explicou que não são os artistas principais. Estão habituados a ser protagonistas, procuram comportar-se como protagonistas [mesmo quando desatam à chapada uns aos outros] e continuam a parecer os protagonistas para os menos avisados. O protagonista é um e um só e não, não partilha o palco com mais ninguém, nem com o vídeo-árbitro. O jogo é uma amálgama de cenas, de “takes” e de “frames” que a cada um compete editar ou montar, o melhor que saiba e possa. O resultado é o do costume porque o futebol português não precisa de emoção, de surpresa. Acabado o jogo vêm as explicações e as culpas e cada um procura a melhor explicação e distribuir as culpas e, assim, se constroem heróis e vilões.

Às vezes o guião foge ao guionista. Há três anos, um piscar de olhos maroto de dois miúdos [Matheus Nunes e Pedro Porro] mudou o enredo e o resultado. No sábado, um miúdo moçambicano encheu-se de fé e, como todo um estádio gritava, rematou com o pé trocado e trocou as voltas ao destino. De tempos a tempos, há quem acredite, jogo a jogo, que pode determinar o final e fazê-lo feliz.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Caminhando pela noite dentro

Não vi o jogo da segunda mão da Taça de Portugal [do Sporting] contra o Benfica ou não o vi em direto, melhor dizendo. Não estava com os melhores dos pressentimentos e resolvi dar uma volta a pé pela cidade, cumprindo o ritual dos dez mil passos diários a que me obriguei. Foi um dia frio e chuvoso e, à noite, embora deixando de chover, o tempo manteve-se frio e a ameaçar mais uma bátega a qualquer momento. Praticamente não se via vivalma ou um simples automóvel a passar e o silêncio revelava uma cidade suspensa no tempo enquanto o jogo decorria.

Com o telemóvel sem som, sem som de notificações, procurava interpretar o silêncio ou este ou aquele ruído, por mais reduzido que fosse. A meio do passeio noturno consultei a aplicação que mede os passos e a [extensão da] deslocação. Vi que tinha umas mensagens de uns amigos. Embora uma ou outra fosse mais enigmática, parecia haver uma crescente euforia. Não resisti e consultei o resultado: as equipas estavam empatadas, dois a dois. Conclui o resto do passeio com os sentidos ainda mais alerta. Não havia barulho e sem barulho o Benfica não podia estar à frente da eliminatória, mas podia tê-la empatado. 

Conforme me aproximava de casa, começou a aparecer um ou outro automóvel e uma ou outra pessoa a fazer o habitual passeio noturno com o cão pela trela. O jogo parecia ter-se concluído e continuava a não haver barulho numa terra de benfiquistas. Dois mais dois costumam ser igual a quatro, mas no futebol e no futebol português pode ser o que um homem quiser, se o homem tiver um apito na boca. Só quando cheguei a casa é que voltei a olhar para o telemóvel. Tinha mais uma série de mensagens de amigos e numa delas viam-se a festejar. 

Sentei-me e vi o jogo do início. A primeira parte foi do Benfica e a segunda mais repartida, com o Sporting a criar as melhores oportunidades de golo [dois golos e dois remates com o Gyökeres e o Paulinho isolados] e o Benfica a dispor da bola [mais tempo] e a atacar mais. Vi [e ouvi] a conferência de imprensa do Rúben Amorim. Interpretou bem o jogo a meu ver. O Benfica pressionou e pressionou bem e o Sporting teve dificuldades em circular a bola até se libertar para o ataque. O Benfica teve mérito, mas, sem o Pedro Gonçalves [e o Paulinho no seu lugar] e o Trincão em modo complicativo, a jogar para o seu umbigo, era certo e sabido que [mais cedo do que tarde] o Benfica recuperava a bola e intensificava a pressão. 

Com as substituições ao intervalo, o Sporting conseguiu libertar-se [mais] para o ataque, pelo Geny Catamo, baralhando as marcações da defesa e do meio-campo e deixando [mais] soltos o Gyökeres e o Paulinho. O Benfica insistia uma e outra vez nas jogadas pelo lado direito do ataque, onde o lateral direito [Bah] combinava bem com o Di Maria, neutralizando o Matheus Reis, nem sempre bem ajudado pelo Bragança ou pelo Morita por dentro, aparecendo o Neres a arrastar ainda a marcação do Inácio e abrindo a defesa para exploração de uma qualquer penetração do Rafa ou de um centro para o segundo poste. Conforme o tempo ia passando, o Benfica queria, mas não podia [nem conseguia, muito menos], o Sporting não queria ou queria, tão-só, que o jogo acabasse. 

[Tratou-se de uma boa partida de futebol porque o árbitro deixou jogar, apesar das permanentes simulações do Di Maria ou do Rafa. É estranho, muito estranho mesmo. Sportinguista escaldado de água fria tem medo e, portanto, atenção, muita atenção à arbitragem do próximo jogo no sábado] 

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Assim e em forma de assim

Depois de alguns jogos, voltei ao Flávio para ver o Sporting contra o Estrela da Amadora. Costuma dizer-se que não se deve regressar onde se foi feliz. No Flávio já fui feliz, infeliz e nem feliz nem infeliz e, assim, posso sempre regressar. A média aritmética desta [in]felicidade é uma coisa em forma de assim, como diria o Alexandre O'Neill. No Flávio, o meu estado [de espírito] médio é este e o estado médio do futebol português não é melhor. Não havia razão para este jogo ser melhor do que a média, isto é, para que este jogo não fosse uma coisa em forma de assim também.

O início foi auspicioso: canto a favor do Estrela da Amadora, centro [tenso] ao primeiro poste, ninguém ataca a bola com determinação, ela passa e o Franco Israel sai da baliza para evitar o pior e consegue fazer pior do que o pior que pairava na sua cabeça quando decidiu o que decidiu. Se se sofre um golo deve-se sofrê-lo da forma mais inexplicável possível para que não se corra o risco de ser classificado como frango. O soco na bola foi efetuado de tal forma que gerou um efeito que, em vez de a projetar para a frente, levou-a a embater no poste da própria balizar e a permitir um cabeceamento, na recarga, para o primeiro golo [do Estrela da Amadora]. O Franco Israel propocionou-nos uma autêntica aula de física aplicada, uma aula de engenharia.

A resposta foi imediata. Havia um jogador de risco ao meio muito parecido com o João Félix. Tinha jogado do Barcelona, aliás. Um pastelão com fintas e fintinhas até perder a bola e nos fazer perder a paciência. Embora seja muito parecido, com o mesmo risco ao meio e tudo, há um jogador novo [Trincão, de seu nome] que não está para brincadeiras e joga como se não houvesse amanhã. Pegou no jogo e só descansou depois de lhe dar a volta, depois de o virar do avesso. Centro para a entrada da pequena área e cabeçada do Paulinho para o primeiro golo. Corrida em ziguezague pelo meio-campo fora, remate colocado à entrada da área, guarda-redes a defender como podia e Nuno Santos a empurrar a bola para a baliza. Em pouco tempo, em pouco mais de um quarto de hora, estávamos a ganhar por dois a um e a aguardar que o Gyökeres [também] molhasse a sopa, como habitualmente.

Na segunda parte, mais minuto, menos minuto, esperava-se pelo golo fatal, o golo da confirmação. Estranhamente, o Trincão, o tal rapaz novo, foi substituído pelo João Félix ou por outro do mesmo género [de risco ao meio]. Por isto ou por aquilo, por falta de jeito, por jeito a mais, o golo não apareceu e foi-se instalando a ansiedade que sempre antecede o “acontecer Sporting”. Sem direito a dois ou três “penalties”, Rúben Amorim teve que fazer as substituições que se impunham e o assunto do jogo passou a ser a possibilidade de uns tantos levarem cartão amarelo e ficarem indisponíveis para o jogo que se segue, contra o Benfica. A preponderância deste tema na análise antes, durante e após o jogo é bem reveladora do tal futebol luso em forma de assim. E foi assim e em forma de assim que o Sporting geriu o jogo até ao final sem um susto, um tremelique ou um remate do Estrela da Amadora.  

[Mais vale tarde do que nunca. Continuamos jogo a jogo, crónica a crónica, mais “penalty”, menos “penalty” do Benfica, mais confusão, menos confusão do Porto, mais árbitro, menos árbitro. É sempre assim, é sempre em forma de assim, é sempre esta estranha forma de vida] 

terça-feira, 19 de março de 2024

Narrativas

Cada jogo é um jogo e um jogo é um jogo, envolve aleatoriedade, sorte ou azar. No entanto, não se escrevem sucessivas crónicas sobre os jogos [do Sporting] sem uma narrativa que os integre, que lhes dê um sentido [de conjunto]. Essa narrativa está presente quando se vê um jogo e esse jogo não é compressível por si, sem uma interpretação dos jogos que o precederam e um exercício de prospetiva sobre aqueles que lhe irão suceder. Escreve-se a crónica de um jogo a pensar nos anteriores e nos que se seguirão. O objetivo é ter sempre razão, [re]interpretando o passado ou antecipando futuros  desejáveis [sempre que possíveis].   

Nesta altura, perguntar-se-ão sobre a razão de ser destes prolegómenos. Uma das principais razões é a necessidade de encher chouriços. Uma crónica de um jogo também é um chouriço. Nem sempre os jogos proporcionam as melhores partes do porco, mas tem que se encher o chouriço seja como for [e se não for possível encher um chouriço, enche-se uma alheira ou uma morcela]. Há jogos que não dão para mais do que um [metafórico] chouriço, é um facto. Outra razão [pueril também] é que pode fazer sentido dizer o que se vai dizer a partir do que disse ou a pensar no que [hipoteticamente] se vai dizer a propósito dos próximos jogos. Esta crónica não deixa de ser um chouriço, mas também não é plenamente compreensível sem a leitura das crónicas anteriores, especialmente das duas ou três últimas.

Essas crónicas deixaram [boas] pistas para o que ia acontecer neste jogo [do Sporting] contra o Boavista. A intervenção [um pouco] despropositada do Franco Israel no primeiro golo, o golo do Boavista, consolida a narrativa que se tinha construído. Essa narrativa é consolidada também no nervoso miudinhos dos jogadores e do Rúben Amorim após o golo, na embirração do árbitro, na asfixia do adversário até ao mata-leão, que permitiu o empate ainda antes do intervalo, na disponibilidade física da equipa e, especialmente, do Gyökeres para ir terraplanando o adversário até à sua capitulação. 

Quando se ganha por seis a um, não há muito [mais] para contar. O resultado autoexplica-se. O que talvez não seja simples de explicar é a substituição do Hjulmand [ao intervalo]. Quem tem um amarelo corre o risco de levar o segundo e deixar a sua equipa a jogar com menos um, foi assim que o Rúben Amorim explicou. Este texto dispõe de um subtexto, para nós, quem tem um amarelo num lance que não comete falta, que sofre falta, que é agredido sem que o adversário seja expulso, não pode disputar mais nenhum lance ou não acaba o jogo. Nós [adeptos do Sporting] achamos normal, a imprensa também. Mas como é que se explica esta normalidade ao Hjulmand? Em português de Portugal compreende-se bem, mas em dinamarquês da Dinamarca também? 

sábado, 16 de março de 2024

Desistir

Hoje, durante o princípio da tarde, acabei de ler “Desistir”, de Annie Duke, ex-investigadora na Universidade da Pensilvânia, ex-jogadora profissional de póquer [ganhou o “World Series of Poker”, seja isso o que for] e consultora de empresas. É de desconfiar de um livro que nos ensina a desistir e do qual não se desiste [de ler]. Esquecendo esta [legítima] desconfiança, é verdade que temos propensão para valorizar quem persiste, quem não desiste, quem é determinado, quando a coragem está na desistência, com [muita] frequência. Não nos damos conta de custos irrecuperáveis de tempo, de dinheiro ou de esperança [os economistas costumam designá-los por custos afundados] que não devem ser considerados na decisão de persistir ou de desistir. 

As competições europeias dispõem desses custos irrecuperáveis e as equipas, os treinadores e os adeptos não se dão conta. O Sporting passou a fase de grupos da Liga Europa, eliminou o Young Boys nos dezasseis-avos de final e encontrava-se no jogo da segunda mão dos oitavos de final, depois de empatar na primeira. Este esforço, este sucesso não produz qualquer efeito nas eliminatórias seguintes e numa [eventual] vitória final, quando ainda estão nesta competição o Liverpool, o Leverkusen ou o Milão. Desistir não constitui uma decisão absoluta, é [só] a melhor forma de escolher as coisas certas em que vale a pena insistir. Mas como atirar para trás das costas este passado e tomar a decisão certa? O Rúben Amorim sempre foi dizendo que a prioridade era o campeonato, que era preciso gerir a equipa e o esforço dos jogadores, blá-blá-blá. Para bom entendedor!...

Os jogadores seguiram à risca estas prioridades. Começaram devagar, devagarinho, como quem espera o fim da contagem dos votos dos círculos da emigração, as conversas do Presidente da República com os partidos políticos, a indigitação de novo primeiro-ministro, a formação de novo governo, a aprovação do orçamento retificativo, o aumento dos polícias para, por fim, se jogar contra o Famalicão. A equipa do Atalanta falhou duas oportunidades seguidas e os custos irrecuperáveis voltaram à memória dos jogadores. Zás-pás-traz e estávamos a ganhar por um a zero, com golo de Pedro Gonçalves, depois de assistência do Zicky Té, desculpem, do Gyökeres. Um golo com festejos menos animados do que alguns rituais fúnebres, quando se percebeu que o Pedro Gonçalves se tinha lesionado. A melhor maneira de desistir é estabelecer critérios de aniquilação, isto é, definir os objetivos que permitem medir o sucesso a curto, médio e longo prazo “a menos que”. Ficou evidente [para quem não tinha compreendido], que estávamos dispostos a ganhar o jogo e a eliminatória “a menos que” ficássemos com metade da equipa para o resto da época.

O intervalo serviu para refrescar a memória dos jogadores quanto às prioridades e aos critérios de aniquilação. Não se estranha, portanto, que aos quarenta segundos da segunda parte o St. Juste falhe o alívio e o Esgaio deixe o avançado do Atalanta passar-lhe por entre as pernas, ficando à sua frente e marcando o empate. Poucos minutos depois, o Inácio oferece a bola a um adversário, o Diomande fica petrificado e o St. Juste resolve colocar em jogo um avançado [marcantemente] tatuado para que pudesse fazer o dois a um. Uma parte da desistência estava consumada, mas ainda faltava muito tempo para o jogo acabar. Há quem ache que o Edwards e o Paulinho falharam umas três ou quatro oportunidade de golo. Não acho. Acho, sim, que estavam focados no campeonato e é difícil estar focado no campeonato e marcar golos a uma equipa com camisola azul às riscas pretas. À conta desta brincadeira, ainda íamos matando de ataque cardíaco a rapaziada de Bérgamo.

Os melhores jogadores de póquer são aqueles que mais mãos largam, que mais desistem. Na batalha [psicológica] entre segurar ou largar, os amadores seguram, enquanto os profissionais largam. O Rúben Amorim largou esta mão. Só os amadores é que seguram [sempre] para não perderem a oportunidade de confirmar se a deviam ter segurado ou largado, mesmo que as probabilidades estejam todas contra eles, chamando-se Liverpool, Leverkusen ou Milão. 

terça-feira, 12 de março de 2024

Nouvelle vague

Ontem, fui ao Theatro Circo ver “O Desprezo”, realizado por Jean-Luc Godard, com a inesquecível Brigitte Bardot. Anteontem, no domingo, vi o jogo [do Sporting] contra o Arouca. Em dois dias seguidos, vi duas obras de autor. Sim, sem dúvida, o Ruben Amorim [também] pertence à “nouvelle vague”, não a dos anos sessenta do século passado, mas a que inclui o Jürgen Klopp ou o Pep Guardiola. O jogo foi pensado como se de um guião de um filme se tratasse e os atores representaram os papeis que deles se esperava, tanto os do Sporting, como os do Arouca. Impressiona a capacidade de determinar o [próprio] jogo da sua equipa e, ao determiná-lo, determinar o jogo da equipa adversária. Enquanto uns [os do Sporting] representaram voluntaria e conscientemente, outros [os do Arouca] fizeram-no de forma involuntária e inconsciente ou como de simples figurantes se tratassem. O guião não podia deixar de considerar ainda o cenário, aquele campo [de futebol] elegível às ajudas agroambientais da Política Agrícola Comum.

A equipa do Sporting entrou a pressionar e a procurar marcar um golo enquanto o campo permitisse um futebol [razoavelmente] funcional. Marcou [pelo inevitável Gyökeres] e entregou a bola ao Arouca, para evitar contra-ataques e outros males [maiores]. Sem as habituais transições ofensivas, o Arouca tentou, porfiou, mas inconseguiu. Em todo o jogo, a equipa do Sporting cometeu uma falha, concedeu uma única abébia, que permitiu uma grande defesa ao Franco Israel. Essa capacidade de condicionar o jogo ofensivo do adversário e, assim, do expor aos sucessivos contra-ataques constituiu o essencial do guião. O resultado [só] ficou definido nos descontos, mas muito golo se desperdiçou e muita falta e fora-de-jogo preventivo se assinalou. E não, não esquecer o estado do campo: com um John Deere ou um Massey Ferguson na frente não precisávamos de esperar até ao último minuto para, enfim, descansar. 

[Depois do jogo, qualquer sondagem daria o Sporting como campeão. Como ficámos a saber no domingo também, as sondagens têm margens de erro e, portanto, prognósticos só final, parafraseando o João Pinto. No final, alguém ganhará ou talvez não. Portanto, é preciso continuar jogo após jogo, crónica após crónica, mesmo quando a inspiração falta ou a vontade é pouca ou nenhuma] 

sexta-feira, 8 de março de 2024

Ocupação de tempos livres

Havia [e não sei se continua a haver] os campeonatos do Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres, ou INATEL, que substituiu a Fundação Nacional para Alegria no Trabalho, ou FNAT, do Estado Novo. Um jogo entre bancários, entre os do Banco Nacional Ultramarino e os do Banco Borges & Irmão, por exemplo, constituía uma oportunidade para levar os netos à bola e cavaquear com os amigos e antigos colegas de trabalho. As pessoas enquanto comunidades [auto] organizavam-se para a ocupação dos tempos livres e se relacionarem entre si. 

A transformação de tudo e mais um par de botas em entretenimento [este conceito onde tudo cabe, até a política ou a literatura] trouxe o mercado ou a economia para a relação entre as pessoas, entre pais e filhos, avós e netos, amigos ou colegas. No futebol, a UEFA e a FIFA dispõem do monopólio da organização da ocupação de tempos livres e da relação entre as pessoas [que deixam de ser pessoas para ser adeptos], às escalas europeia e mundial, respetivamente. A Liga Europa é um dos produtos desenvolvidos pela UEFA para esse efeito. Os [hipotéticos] vencedores encontram-se circunscritos e os jogos a meio da semana servem para diminuir o tédio ou a melancolia.   

O jogo [do Sporting] contra o Atalanta a meio da tarde de quarta-feira dispõe deste enquadramento. Vê-se um jogo destes quando se está na reforma e se acaba de ir buscar os netos à escola. Combina-se com os amigos da velha guarda umas bejecas e sandes de courato ou entremeada. No fim, bem, no fim ganha-se sempre, independentemente do resultado, ganha-se companhia, ganha-se alegria. 

Não estou reformado e, portanto, não vi o jogo [ou só vi os últimos dez minutos]. No final do dia, vi um resumo alargado [na televisão]. Dois ou três apontamentos ficaram na minha cabeça. A suprema humilhação de fazer engolir um golo do Paulinho ao lanche sem uma sandes a empurrar nem nada. A convicção de que, com a lesão do Adán, temos guarda-redes, isto é, temos um jogador com camisola diferente dos demais e a jogar a bola com as mãos à vontade. As hesitações são mais do que muitas; não sai à bola sempre que ela é metida por alto [num canto ou num qualquer outro centro]; a jogar com os pés constitui o principal avançado adversário. Para ser justo, também se precisa de dizer que tem reflexos e elasticidade excecionais. 

Com o empate, a eliminatória fica em aberto. Se a Liga Europa não interessa nem ao Menino Jesus, talvez mais valesse tê-la fechado, na quarta-feira ou na eliminatória anterior. Na perspetiva da ocupação de tempos livres, talvez sirva para uma excursão a Bérgamo. Há muito para ver, para visitar, assim os netos estejam para aí virados.

[Continuo a cumprir a minha missão, jogo a jogo, crónica a crónica. Não há cansaço, não há lesões, não há desculpas]   

segunda-feira, 4 de março de 2024

Ganhámos o jogo contra o Farense, ufa!

O Ruben Amorim voltou a mexer na equipa neste jogo [do Sporting] contra o Farense. Mexeu e tinha de mexer ou acabava com os juniores no próximo jogo contra a Atalanta para a Liga Europa, na quarta-feira. Se estou que não posso e se estou como estou só de assistir e escrever umas baboseiras, imaginem o que seria jogar dia após dia como se não houvesse mais nada na vida que valesse a pena. O problema não está em mexer perante a necessidade de mexer; o problema é que os que saem parece que não estão com grande saúde e os que entram sofrem de gota.   

O Ruben Amorim começou pelo Eduardo Quaresma com sucesso. Passou para o Trincão com sucesso também. Agora não para de tentar ressuscitar todo e qualquer Lázaro que lhe apareça pela frente, seja um St. Juste, um Paulinho ou um Edwards, tanto faz. É possível ressuscitar um. É possível ressuscitar dois, desde que seja um de cada vez. A partir de dois, só com milagres e essa ainda não é matéria que conste dos cursos de treinadores. 

O Sporting transformou-se num centro de reabilitação, é um facto. Uns estão lesionados; outros estão para se lesionar; outros estão a recuperar de lesão. Ninguém está com boa cara. O Ruben Amorim não faz o que faz por que quer ou por que o deseje; faz o que faz por que não há outra coisa que possa fazer e o que tem de ser tem muita força, mas ainda não está ao seu alcance ressuscitar todos e, muito menos, de uma só vez.

Vamos ao que interessa: ganhámos o jogo contra o Farense, ufa! 

[O Benfica levou cinco no Dragão. Estamos em primeiros com um jogo em atraso ainda. Estou com mais esperança no Benfica ou no Porto do que em nós. Por mim, adiava-se o próximo jogo e depois se pensava se se adiava o seguinte também para ver se conseguíamos chegar ao fim em primeiros sem voltar a jogar. Era o regresso ao jogo a jogo, que tão bons resultados nos proprocinou, mas, agora, do Benfica ou do Porto] 

sábado, 2 de março de 2024

Onze contra dez e onze contra onze

Não vi o jogo em direto [do Sporting] contra o Benfica para as meias-finais da Taça de Portugal [tinha um jantar marcado]. Vi o jogo em diferido. Ver um jogo nestas circunstâncias não é a mesma coisa. Vai-se a emoção e fica a razão, que me perdoe o António Damásio por admitir que possa existir uma sem a outra e vice-versa. Sabendo-se o resultado, é como fazer uma autópsia ou dissecar o cadáver de um girino, como quando andava no ciclo preparatório. 

Nestas circunstâncias, não vale a pena chover no molhado e descrever as jogadas, os lances mais ou menos promissores, os golos. Dissecar pressupõe ciência, método científico, colocar hipótese de trabalho e procurar confirmá-las ou infirmá-las, enquanto se mantém a mente desperta para novas ideias, novas hipóteses e novas demandas. Fui vendo o jogo e arrumando estas análises muito bem arrumadinhas na minha cabeça.

O jogo inicia-se com uma nova ideia, que foi desenvolvida por diferentes analistas e comentadores, durante e após o jogo. Tudo começa na [suposta] falta do João Neves sobre o Pedro Gonçalves, que devia originar a marcação de “penalty”. Quem está habituado ao andebol ou ao basquetebol, conhece a regra que determina a marcação de falta ofensiva. Um defesa desloca-se para onde pensa que os avançados vão efetuar o ataque, estaciona lá e espera pacientemente que esbarrem nele. 

Neste caso, temos o inverso da falta ofensiva ao quadrado. Não é falta ofensiva, porque é o defesa [João Neves] que esbarra no avançado [Pedro Gonçalves] e não o contrário. Não é falta, à semelhança da falta ofensiva, porque os avançados não devem estar onde se possa esbarrar neles. Parafraseando João Catatau, é como as regras de trânsito: o atropelamento só constitui infração se for numa passadeira [fora das passadeiras, a responsabilidade é do peão, que não seguiu o conhecido conselho do “pare, escute e olhe” antes de atravessar a estrada].

Havia ainda as duas seguintes hipóteses de trabalho relacionadas entre si. Encontrando-se o Benfica a perder, o adversário passa automaticamente a jogar com menos um? Se assim não fosse, então, encontrando-se o Benfica a perder e continuando a jogar contra onze, também acaba sempre por não perder?

O Sporting marcou o primeiro e nenhum dos seus jogadores deixou o campo. Marcou o segundo e tudo continuou na mesma, nenhum dos seus jogadores abandonou o jogo também. Folheando o livro das regras, verifico que para se jogar contra dez, contra menos um, é necessário que o árbitro proceda à respetiva expulsão. Foi uma epifania. Interroguei-me: “Será que os árbitros andam a expulsar os adversários do Benfica? Será que os adversários andam a atropelar jogadores do Benfica nas passadeiras?”

Quanto à segunda pergunta, tive que esperar um bom bocado mais, tal foi o desperdício da rapaziada do Sporting. No final, onze contra onze, o Benfica perdeu. Talvez assim se perceba melhor a chinfrineira no final do jogo. Há [ou havia, melhor dizendo] uma lei do universo que determina que ou o árbitro expulsa um jogador da equipa adversária ou valida um golo irregular ao Benfica, como na época passada. O Benfica é que não pode perder, sejam onze contra dez ou onze contra onze. Ora, afinal parece que não existe [mais] tal lei do universo, que o Roger Schmidt sempre pode perder contra o Ruben Amorim. O que se seguirá? As alterações climáticas? O fim do Mundo?

[Continuo a minha saga do jogo a jogo, crónica a crónica até à vitória final. Se não houver vitória final, não me podem culpar de nada. Culpem as regras do João Catatau, mas a mim é que não]

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Mais, sempre mais

A continuar assim, não tarda a pedir uma licença sem vencimento para continuar a ver jogos atrás de jogos e a escrever crónicas atrás de crónicas ou a juntar-me aos polícias, militares, funcionários de repartição, médicos ou professores que lutam por melhores condições de trabalho. A FIFA e a Liga simplesmente não respeitam os tempos de descanso necessários para que os bloguistas ou blogueiros [ou “bloggers”, não sei bem] se possam recuperar para o jogo seguinte e a crónica seguinte. Não há novas formas de ver os jogos ou novas ideias jogo sim, jogo também, quando se está permanenentemente à beira do esgotamento, do colapso. Com dificuldades, com muitas dificuldades, confesso, vou tentar dizer qualquer coisa sobre o jogo [do Sporting] contra o Rio Ave sem chorar [e sem me rir também].  

Este [tipo de] jogo constitui um clássico época atrás de época. O Sporting e o Benfica estavam empatados. Na próxima jornada, o Benfica vai ao Dragão. Se o Sporting ganhasse hoje, a próxima jornada poderia ser [quase] definitiva para o encaminhamento do campeonato. Era preciso evitar males maiores [ou definitivos, melhor dizendo], salvaguardando os superiores interesses do futebol português e arredores. O jogo foi organizado para defesa desses superiores interesses e esses superiores interesses foram salvaguardados como se esperava e se planeara, mais "penalty", menos "penalty", mais cartão amarelo, menos cartão amarelo, mas sempre com muitas faltas e faltinhas. Um jogo difícil tornou-se, assim, impossível [e não, não vou falar do árbitro]. 

Na primeira parte, contra o vento, fizemos um jogo razoável. Foi possível fazer o jogo habitual, construindo a partir dos centrais e empurrando o Rio Ave para a defesa. Apesar disso, muitas transições ofensivas se permitiram e, logo na primeira, um chouriço transformou-se num golo [e não, não vou falar do árbitro]. O Sporting reagiu bem, empatou, passou para a frente e, bem, quando se ia para o intervalo, o árbitro marcou “penalty” a favor do Rio Ave [e não, não vou falar do árbitro]. O jogador queixou-se da cara, mas deve ter sido das nossas caras de parvos [e não da dele], quando vimos um defesa rachar a perna ao meio do Trincão sem que nada fosse assinalado [e não, não vou falar do árbitro].

Na segunda parte, demorámos quase meia-hora a perceber o que se estava a passar [e não, não vou falar do árbitro]. Com o Rio Ave a pressionar alto e o Sporting a insistir no mesmo modelo de jogo, nem a avó morria, nem a malta almoçava. Era preciso sentido de urgência e nada melhor do que ficar a perder [o Adán foi altruísta ao arranjar um “penalty” absolutamente estúpido só para acordar a equipa]. Em desespero, percebemos que a melhor forma de jogar era em desespero de causa. Com o vento a favor, era preciso jogar comprido e procurar ganhar na frente, a primeira ou a segunda bola [e não, não vou falar do árbitro], ultrapassando a pressão do Rio Ave. Com o Coates na frente, essa tática do tudo ao molho e fé em Deus tinha condições para resultar. Resultou uma vez e poderia ter resultado mais uma ou outra, mas não, não esperem que fale do árbitro, pois não vou falar do árbitro. Percebido?

Foram-se os anéis, mas sempre ficaram os dedos [até ver]. Com um jogo em atraso, continuamos a depender de nós [e do Porto também] para chegar ao fim do campeonato em primeiro. Quinta-feira há mais. Depois de quinta-feira, há mais ainda, no domingo. Depois de domingo, há ainda mais na quarta-feira seguinte. Há mais, sempre mais um jogo, mais uma crónica, até o médico deixar ou a família me internar.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Um clube de croquetes ou a arte de ganhar com educação, com respeito

Não é simples jogar contra equipas de países neutrais. Países desses, como a Suíça, não se metem em guerras, nem em escaramuças fronteiriças sequer. As respetivas equipas de futebol metem-se em disputas, mas não deixam de ser de um país neutral por essa [simples] razão, não deixam de ser o que é da sua natureza ser, se me faço entender. Parece existir uma contradição, um oxímoro, mas trata-se de conciliar opostos, tarefa que só está ao alcance de países mais desenvolvidas, países que praticam arco e flecha em maçãs colocadas no cocuruto da cabeça. 

No jogo em Berna, ainda não tínhamos concluído se o equipamento do Young Boys nos fazia ou não lembrar a Abelha Maia e já eles tinham tratado de um autogolo e de um “penalty”. A equipa do Sporting reagiu mal, muito mal e, sem qualquer consideração pela natureza do adversário e do respetivo país, tratou de somar dois golos a seu favor imediatamente. Ainda deixámos marcar um golo, mas vínhamos da fossanguice do nosso campeonato e não tardámos a marcar o três a um e acabar com o jogo e a eliminatória. Não, não foi bonito. Não, não temos razão para nos orgulhar. Esperava-se que, na segunda mão, nos soubéssemos comportar, que soubéssemos respeitar e dar-nos ao respeito.    

Ontem foi completamente diferente para melhor. Ainda começamos com a mesma fossanguice e marcámos um golo. Bem, depois fomos exemplares. Não marcámos mais nenhum golo, mas não foi isso ou só por isso: falhámos bem, consistentemente bem; o que não está ao alcance de qualquer equipa. O Edwards a meio metro da baliza enfia um biqueiro na bola com toda a força e ela praticamente não se mexe. O Daniel Bragança a meio metro da baliza também acerta com a bola nas pernas do guarda-redes. O Gyökeres, o infalível Gyökeres falha um “penalty” [até quem não estava a ver o jogo sabia para que lado ele o ia bater]. Por fim, a cereja no topo do bolo: o “penalty” que o Edwards tratou de arranjar num gesto de reciprocidade que lhe fica bem. Um empate, um empate nestes termos honra-nos, honra-nos muito. 

A equipa aprende, umas vezes mais depressa, outras mais devagar, mas aprende. Comporta-se como se deve comportar em circunstâncias como estas, quando joga contra equipas de países neutrais, de países mais desenvolvidos, não comendo de boca aberta nem enquanto fala e não lançando, assim, perdigotos em todas as direções e sentidos. Mas o próximo jogo é contra o Rio Ave. É preciso desaprender e reaprender o que estava apreendido. Não se espera da rapaziada das Caxinas estes salamaleques, este marque vossa excelência, marque vossa excelência primeiro, se faz favor. Ninguém nos vai pedir desculpas por nos marcar um golo. Ninguém nos vai oferecer nenhum golo para ser educado. A não ser que um desprendido benemérito na bancada tenha contratado esses salamaleques só porque sim, só porque é do Sporting e quer que o Sporting [sempre] vença.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

É dia de jogo ou de ir ao cinema, tanto faz!

Há Sun Tzu. Há von Clausewitz. Há estratégia, enfim. É absolutamente genial a ideia de criar um equipamento próprio para o jogo de ontem e, logo, de um equipamento igual ao da Académica [de Coimbra], do clube do nem sim, nem sopas, do assim-assim, do não me comprometas. Não, ninguém prejudica um velho clube de velhos aristocratas que não têm clube [ou têm, mas não querem dizer]. 

O árbitro só começou a vislumbrar este embuste quando o Gyökeres reclamou dos permanentes empurrões de um defesa do Moreirense. O árbitro olhou para ele e esse olhar encerrava o dilema espaço-tempo. Será que uma pessoa pode ser duas, pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, pode voltar ao passado, matar o avô e regressar ao presente? Sim, o ligeiro franzir do sobrolho era o espelho do que lhe ia na alma: “Se marco falta, se assinalo “penalty”, estou a admitir que o Gyökeres joga na Académica. Terá deixado o Sporting? Joga no Sporting e na Académica? Será possível? Não, não marco nada, não vou passar por tolo. Finjo que nem o estou a ver”.    

A baralhação, o caos inicial também nos ofereceu o primeiro golo. Vendo a sua equipa de verde e branco vestida e o adversário de equipamento negro, o jogador do Moreirense não teve dúvidas de que lado se encontrava: foi à bola com a mão, com o tronco, com a canela e não descansou enquanto não meteu a bola na baliza. Era golo do Sporting e ele era o Gyökeres ou assim pensava [ser]. Os comentadores da SporTv viram-se e desejaram-se para decidir se era golo ou autogolo tal era a baralhação, o caos. 

O segundo foi um excelente golo da Académica, desculpem, do Sporting. O Trincão [sim, o Trincão, estão a ler bem], domina de peito, passa para o Catamo, desmarca-se nas costas, recebe mais à frente, passa para a entrada do Pote que passa para a baliza e faz golo, sem que a sua melena tremesse, se desmanchasse um poucochinho que fosse. Ou ele ou Edwards? Desde os tempos do Restaurador Olex que não se assistia a um duelo assim, entre um cabelo liso e uma carapinha. A carapinha já conheceu melhores dias, já esteve [mais] na moda. O cabelo liso com risco ao meio começa a ser o preferido dos betos [e dos verdadeiros croquetes, é preciso que se diga].

Com o resultado feito, os jogadores do Sporting dedicaram-se a um jogo popular. Os centrais vão passando a bola de pé para pé, devagar, devagarinho. Os jogadores adversários e, em particular, os seus avançados ficam [inicialmente] expetantes. Continuando este rola que enrola, os adversários acabam por se passar da cabeça e partir à desfilada para roubar a bola. Fartos de saber que isso vai acontecer, mais tarde ou mais cedo, os centrais atrasam a bola ao guarda-redes e voltam a fazer o mesmo um pouco mais atrás. Outras vezes, passam para a frente, abrem num flanco, variam para o outro, centram, criam uma hipotética oportunidade de golo, mas preferem recuperar a bola e atrasá-la para que tudo possa voltar ao início.

Uma vez tem piada. Duas também. A partir da terceira, tudo é preferível a continuar a ver aquele jogo da apanhada, da macaca ou da cabra-cega, pouco importa. Ao intervalo, desisti e fui ao Theatro Circo, ver “Pobres Criaturas”, de Yorgos Lanthimos. 


[Ao ver Willem Dafoe a representar o papel do Dr. Godwin Baxter, médico e investigador vítima das mais incríveis e sádicas experiências científicas do seu pai, que os desfiguraram, reconheço que se é um pouco excessivo nas considerações estéticas a propósito de um Paulinho ou de um Slimani. O personagem principal tem uma cabeça que não pertence ao corpo que a suporta (e vice-versa) e essa relação entre corpo e cabeça que não combinam, para além de enxaquecas, origina incompreensões emocionais com aqueles que combinam corpo e cabeça (e vice-versa, também). Talvez seja por essa razão que embirro com este ou aquele jogador, cujo nome omito, pois uma alegoria é uma alegoria, tão-só]

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Jogo a jogo, crónica a crónica, até a polícia deixar

Anteontem, voltei a assistir a [mais] uma transmissão do jogo do Sporting [contra o Young Boys] comentada em polaco. Ao princípio estranha-se, mas depois entranha-se, tal o esmiuçamento da análise. Quando o árbitro não mostrou amarelo a um jogador do Young Boys, preferindo conversar e avisá-lo, logo nos explicaram que amanhã acordaria com uma cabeça de cavalo na cama e o árbitro à cabeceira [da dita] a fazer festas a um gato siamês aninhado no seu colo. Como os comentadores falavam muito depressa, não fiquei com a certeza se não acordaria também com o fantasma do Frank Sinatra a cantar o “My Way”. 

Em polaco, ficou explicado, muito bem explicadinho que a [simples] razão para o árbitro mostrar tantos amarelos [e um vermelho] aos jogadores do Young Boys [e o Sporting dispor de tantos livres] era as faltas que faziam [como se não houvesse amanhã]. Sem o habitual recurso aos especialistas nacionais e às suas complexas expressões e conceitos, como “intensidade” ou “imprudência”, fiquei a saber que dois mais dois é igual a quatro [começo a desconfiar que não só é como sempre foi].

A equipa do Sporting jogou a pensar no jogo seguinte contra o Moreirense. Colocou pouca intensidade no seu jogo, os jogadores evitaram disputar bolas divididas, enquanto esperava que a defesa do Young Boys se distraísse e deixasse o Gyökeres solto em situações de um contra um; mas a defesa não estava para brincadeiras e, sempre que podia, acertava-lhe o passo sem dó nem piedade. Seja como for, o Gyökeres mantinha a defesa recuada e segurava a bola na frente para que a equipa pudesse subir e respirar um pouco melhor. 

Em breves momentos, em dois fogachos, o Sporting fez dois golos: um autogolo e um golo resultante de uma “penalty”. Estamos naquela fase em que um simples pontapé meio na bola meio no chão acaba em golo e na descoberta de uma jazida de petróleo. Acontecer Sporting começa a não significar o que sempre significou, não fosse o Esgaio fazer o favor de nos recordar que, encontrando-se de boa saúde, manterá bem viva a [boa] tradição de um Polga, de um Nuno André Coelho ou de um Naby Sarr [o Adán ajudou um bocadinho, mas não vale a pena dizer seja o que for porque o uruguaio também não parece ser nada de especial].

Noutros tempos, nos bons velhos tempos [de um Peseiro, de um Sá Pinto, de um Paulo Sérgio, de um Couceiro ou de um Silas] a equipa do Sporting entraria com o coração nas mãos na segunda parte. Não entrou e bastou um par de minutos para o Gyökeres levar novo cacete e, na transformação do livre, o Inácio enfiar uma testada na bola que só parou dentro da baliza. O jogo estava concluído, embora ainda houvesse umas dezenas [largas] de minutos para jogar. Pouco a pouco, o Rúben Amorim foi desmontando a tenda, deixando o Gyökeres aborrecido pelo facto de só ter jogado cerca de sessenta minutos e necessitar, assim, de um pouco de “jogging” antes de ir dormir para compensar. Se se continuar como até agora, jogo a jogo, crónica a crónica, dificilmente os polícias da esquadra de Famalicão voltarão ao trabalho tão cedo.


[Não, ainda não foi desta que conseguimos jogar à Benfica. Jogámos contra dez, é um facto, mas não jogámos contra dez quando é mais útil, mais conveniente: quando se está a perder ou não se está a ganhar, pelo menos. Jogar à Benfica quando se está a ganhar não é jogar à Benfica, se é que me faço entender] 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Venham mais cinco

Por improvisos e trapalhices de vária ordem, vi o jogo [do Sporting] contra o Braga acompanhado de comentários em polaco. Em polaco, compreende-se muito bem a razão para o árbitro não mostrar qualquer amarelo aos jogadores do Braga na primeira parte. Aparentemente, se se assobiar permanentemente um jogador, mostrar-lhe um amarelo quando acaba de fazer uma falta merecedora disso corresponde a uma dupla penalização. Esta interpretação aplica-se a assobios e a outros mal-estares, como a má vontade da sogra ou um cozido à portuguesa que não tenha caído bem. 

Há males que vêm por bem e a condescendência foi de tal forma que deixou de haver margem de manobra para mostrar amarelo a quem quer que fosse, passando por uma arbitragem à inglesa [se não nos lembrássemos da expulsão do Diomande no jogo contra o Arouca]. Estou a acabar de traduzir tudo muito bem traduzido para enviar ao Conselho de Arbitragem ou à APAF de forma que apliquemos a melhores práticas internacionais [tem que se acrescentar mais um árbitro que faça de médico, mas, mais um menos um, ninguém nota].

O Artur Jorge, treinador do Braga, aplicou a receita que tão bom resultado obteve no jogo das meias-finais da Taça da Liga. Embora condicionando um pouco mais a saída de bola do Sporting, com o Abel Ruiz na frente, o objetivo continuava a ser o mesmo: não deixar o Gyökeres jogar, tocar na bola sequer, apostando as fichas todas na nabice finalizadora do Trincão, Pote e Companhia. Também o Cristóvão Colombo descobriu à América quando procurava encontrar um novo caminho marítimo para a Índia. Há resultados surpreendentes, mas é preciso compreendê-los, interpretá-los, para não se atribuir ciência ao puro acaso, à sorte, ou começamos a pensar que estamos na América quando chegamos à Trafaria.

Por [mais] paradoxal que possa parecer, não deixou de ter alguma razão, pois bastou uma hesitação, uma desmarcação, um passe e zás, lá estava o Gyökeres a molhar a sopa outra vez. Imaginem o menino à solta o tempo todo. Como diz o Pedro Azevedo, restava-lhe decidir se queria perder com mais ou menos golos do Gyökeres e a nós, sportinguistas, tanto se nos dá. Decidiu como decidiu e decidiu bem, pois o nosso selecionador nacional está com uma vontade enorme, uma vontade danada de convocar o Nuno Santos e o Pote [ou até o Trincão], dado ainda não ser possível convocar nenhum jogador do nosso campeonato para as seleções adversárias que possa ser expulso uma e outra vez. Enfim, o país ficou a ganhar, o país agradece.

A jogar desta forma, continuo a pensar que devíamos cobrar cachê à equipa adversária. Não parece fazer sentido os jogadores do Braga ou o seu treinador principal e os adjuntos verem jogar de borla. O único argumento a favor da atual situação é o lugar que lhes arranjaram: de pé praticamente o jogo todo [a precisarem de uma ou outra corridinha para desentorpecer as pernas]. Fica combinado que o próximo jogo é no Theatro Circo para que possam assistir a mais uma "performance" cultural como a de ontem, mas sentados, naturalmente. 

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Cobrar cachê

Vi o jogo [do Sporting] contra o União de Leiria a meio da semana [para os quartos-de-final da Taça de Portugal]. Costuma-se dizer que seja o que Deus quiser e a polícia deixar. A polícia deixou e Deus também deve ter querido, admitindo que se interesse pelo futebol português e por jogos realizados às tantas da noite no Centro de Portugal em particular. Como houve jogo e uma vitória é preciso escrever uma crónica para que suceda novo jogo e nova vitória [até ao fim dos tempos]. O tempo não tem sido muito e a disponibilidade ainda menos. Mas o que é prometido é devido [convém relembrar em época de campanha eleitoral] e, assim, o que tem de ser tem muita força.

Comecei a ver o jogo quando o árbitro estava a ver na televisão uma coisa qualquer que o vídeo-árbitro o tinha mandado ver, depois de assinalar um “penalty”. Ou as decisões implicam interpretação e são mais demoradas ou não implicam e é só necessário ver as imagens para logo se tomar uma decisão. O tempo que se demora é revelador que nada é tão óbvio como nos querem fazer crer e, portanto, admito que os árbitros [em número infindável] estivessem a discutir os níveis de colesterol, de triglicerídeos e de ácido úrico do Gyökeres. Jogo após jogo, continuamos a assistir a estas encenações, a estas macacadas [sem desprimor para os respetivos primatas]. 

Para terem mais certezas sobre a sua situação de saúde, decidiram medir-lhe o pulso, anulando a decisão anterior e marcando canto. Resultado [final], o Gyökeres está com uma tensão arterial de categoria e ficámos a ganhar por um a zero depois de um voo sobre os centrais, como o Rui Veloso cantava [quando não imaginava que quem voava sobre os centrais um dia iria voar sobre os centrais do Porto também]. Lançado pelo Nuno Santos, o Gyökeres resolveu confirmar a tensão arterial com uma corrida e um passe para o Pote passar para a baliza e fazer o dois a zero. Diagnóstico: a mínima está alta e a máxima ainda mais alta está. A terapêutica recomendada é correr, correr sempre, correr muito e muito depressa.

O jogo podia a devia ter acabado naquele exato momento. Evitava-se o desperdício de mais umas trezentas e quarenta e oito oportunidades de golo a somar às seiscentas e noventa e quatro do último jogo contra o Sporting de Braga. Apesar disso, tomando-lhe o gosto, o Gyökeres parece gostar de molhar a sopa de cabeça também. Ainda assim, o jogo não lhe parece ter corrido bem, tal o desalento com o [pouco] tempo de desconto concedido pelo árbitro. Pode não se tratar exatamente disso, mas da necessidade de demonstrar ao Rúben Amorim que pode contar com ele, que é uma alternativa fiável sempre que o Paulinho estiver lesionado, castigado ou [simplesmente] amofinado.


[Falando um pouco mais a sério, admitindo que se pode falar a sério do que não é sério, do que dá vontade de rir, o Sporting continua a jogar o melhor futebol de há muitos, muitos anos. Penso que se deve começar a cobrar cachê aos adversários para verem o que nunca viram. Pelo contrário, a nós, sportinguistas, ainda nos estão a dever algum pelo futebol do Peseiro, do Silas ou do Vercauteren.]  

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

#ondevaiumvãotodos# ou uma greve [em forma de] assim-assim

Há pouco mais de três anos, Artur Soares Dias [vídeo-árbitro] vislumbrou um leve roçagar da melena do Coates no borboto do punho da camisola do guarda-redes e vá de chamar o Luís Godinho [árbitro] para anular o golo no finzinho do jogo [do Sporting] contra o Famalicão. O Luís Godinho jurou que viu a melena, que viu o roçagar, que viu o borboto, que viu tudo o que Artur Soares Dias lhe disse que viu e o Sporting, bem, o Sporting empatou. Há males que vêm por bem e, assim, o “onde vai um, vão todos” da conferência de imprensa do Rúben Amorim acompanhou-nos até ao título.

Há anos, apanhámos uma greve de árbitros. No sábado, uma de polícias [não foi bem uma greve, uma propriamente dita, foi mais uma em forma de assim-assim]. Nunca mais apanhamos uma de trapezistas, de malabaristas, de palhaços ou de bicharada amestrada. Treinadores adeptos do “meia bola e força” ou do “bola para o mato que o jogo é de campeonato” costumam afirmar que, quem deseja assistir a um espetáculo, deve ir à ópera. Ora, por estas ordens de razão, quem quer circo, deve ir ao circo, a não ser que haja greve [dos artistas] ou o urso esteja constipado. 


[Os impactos da falta de polícia não são neutros no que aos resultados e classificações diz respeito. Nós, sportinguistas, sabemo-lo bem. No sábado, houve uma generalizada epifania. É estranho, não é?!]

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Ver futebol no café como quem vai ao cinema

Ontem era dia de ir ao Theatro Circo, ao cinema, ver “Folhas Caídas”, realizado por Aki Kaurismäki, finlandês que passa metade do ano em Viana do Castelo. O ritual de ir ao cinema não é, não pode ser o mesmo de ir ver a bola no Flávio [se tivesse pescoço para isso, nunca deixaria de ir ao cinema sem uma camisola de gola alta preta]. Chego à bilheteira e o filme está esgotado. Tento mostrar-me consternado, não me é permitida outra atitude [sim, ou melhor, não, não procuro parecer o tipo de pessoa que vai para os cafés ver a bola e escreve umas patacoadas sobre o que vê ou não vê, tanto faz]. Para que não restem dúvidas sobre a minha consternação, compro bilhetes para o filme da próxima segunda-feira [“Os Delinquentes”, de Rodrigo Moreno].

A atitude de quem se prepara para ir ao cinema não é a mesma de quem se prepara para ir ver a bola. Entro no Flávio ainda a tempo de ver o Trincão marcar mais um golo, depois do Edwards se embrulhar com a bola e dois adversários. Ainda com a atitude de quem vai ao cinema, procuro encontrar uma interpretação, uma explicação razoável para o que acabo de assistir. Não é simples compreender esta súbita vontade do Trincão de fazer o gosto ao pé jogo após jogo e mais do que uma vez por jogo, como ontem. Talvez Trincão tenha deixado de ter medo de existir, de encontrar a sua razão de ser, o sentido último de cada pontapé na bola, que carecia sempre de sentido, quanto mais de direção.

Com cinco a zero ao intervalo, não era de esperar uma segunda parte empolgante. Admitia até a possibilidade de julgamento no Tribunal Penal Internacional se ultrapassássemos o nosso melhor resultados dos últimos cinquenta anos. Esperava-me [esperava-nos] quarenta e cinco minutos de tédio. Recebo uma primeira mensagem “WathsApp” com notícias dos agricultores em França. Recebo outra com uma pequena chalaça: “É preciso acabar com a corrupção mesmo que se tenha de pagar algum por fora!”. Recebo a seguinte com um “link” para um guia metodológico para avaliação de políticas públicas. A meio de um jogo, uma mensagem destas de um sportinguista constituiu um pedido de socorro, na esperança de que alguém possa falar com o Gyökeres. Ou porque falaram ou porque não avisaram o Geny Catamo que o jogo tinha acabado, os rapazes do Casa Pia levaram ainda mais três [golos] de castigo.


[O meu amigo Pedro Almeida faz hoje anos, sessenta anos. Éramos amigos em Viseu e fomos, com um ano de diferença, estudar para Lisboa: eu agronomia, no Instituto Superior de Agronomia; ele economia, na Universidade Nova de Lisboa. Há muito que não nos (re)vemos. É, sempre foi, uma das mentes mais irrequietas que conheci e conheci muitas assim. Queria ser tudo, quase tudo na vida. Adorava escrever. Fazíamos noitadas a escrever à desgarrada. A partir de uma palavra ao acaso no dicionário, escrevíamos uma frase e depois outra e outra ainda até construirmos um texto. É a ele e a essa paixão inconsequente pela escrita que dedico esta postada, com um grande abraço pelo seu aniversário!]      

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Coisas importantes que os jogos da Taça da Liga ajudam a explicar ou a resolver

A análise do jogo de ontem [do Sporting] contra o Braga não é tão simples quanto parece ou, aliás, quanto parece a análise de qualquer jogo [de futebol como é bom de ver]. De um lado, estava uma equipa que tinha medo de perder; do outro, estava uma equipa que não tinha vontade de ganhar. Talvez não se possa dizer de forma absoluta, tão definitiva, mas as proporções entre medo de perder e vontade de ganhar correspondem grosso modo à atitude das duas equipas no início do jogo. O Sporting entrou ao ataque, mas, desconfiado, com cada jogador a avançar enquanto olhava pelo espelho retrovisor, isto é, com medo de perder. O Braga queria levar o zero a zero tão longe quanto possível [se fosse até aos “penalties” tanto melhor], esperando que caísse dos céus aos trambolhões um erro ou um alívio mal feito do adversário, uma bola vadia, isto é, sem vontade de ganhar. 

No final, quem tinha medo de perder, perdeu; quem não tinha vontade de ganhar, ganhou. Diz-se que Deus escreve direito por linhas travessas. Talvez assim seja e, se assim for, temos um Deus brincalhão que gosta de jogar à rabia com os treinadores e as equipas. Prefiro esta intervenção divina do que aquela que decorre da máxima, da seguinte lei que regula o universo: “quem não marca, sofre”. Trata-se de uma versão castigadora de Deus, que castiga os ricos [de oportunidades] e beneficia os pobres [de oportunidades], pois é deles o reino dos céus. Esta foi a primeira análise que me veio à cabeça embora não tenha a certeza que Deus não esteja a acompanhar com mais atenção a Taça Asiática: quem está disposto a perder o Tajiquistão contra o Quirguistão para ver a meia-final da Taça da Liga?

Há um outro ângulo de análise deste jogo que convém não menorizar. Vivem-se dias de chumbo em Braga. Ao fim de anos, o Braga está com os mesmos pontos do Guimarães no campeonato. Está em causa o equilíbrio do sistema urbano minhoto, a hierarquia funcional entre dois dos seus principais centros urbanos e a mobilidade interurbana. Está prevista a construção de um Metrobus entre Braga e Guimarães, com ligação à ferrovia [à Alta Velocidade ou Velocidade Elevada, não sei bem]. Estavam previstos bilhetes de ida e volta com partida de Guimarães e só de ida quando a partida fosse de Braga. O racional é simples: quem sai de Guimarães tem de regressar [ninguém o quer em Braga]; quem sai de Braga e vai para Guimarães não mais pode regressar [ninguém o quer de volta em Braga]. Se a hierarquia entre os dois clubes continuasse assim, esta bilhética [integrada] teria de mudar? Os bilhetes de Braga também seriam de ida e volta? Os bilhetes de Guimarães também seriam só de ida? Como compatibilizar a anterior com a atual bilhética? Enfim, Guimarães é tão [mas tão] importante como Braga?

Está-se a viver um contexto idêntico no Centro de Portugal desde que a Académica de Coimbra desceu à Liga 3, mantendo-se o Académico de Viseu na Segunda Liga. Num contexto como este faz sentido manter a Universidade de Coimbra em Coimbra? Não deveria ser transferida para Viseu [admitindo que os de Viseu quisessem aqueles constitucionalistas todos]? Ainda se deveria chamar de Coimbra? O que fazer do Politécnico de Viseu? Ficava ou ia para Coimbra? Se fosse, Coimbra ficava com dois politécnicos? Se ficasse, Viseu passaria a dispor de uma universidade e de um politécnico como Coimbra? Quem é mais importante? Coimbra? Viseu? Para mim é Viseu, não tenho dúvidas nenhumas. Nem sequer se comparam cidades que dispõem de clubes que jogam em divisões diferentes. 

A vitória de ontem veio (re)colocar as coisas [as cidades ou centros urbanos] nos seus devidos lugares [ou de acordo com as necessárias hierarquias funcionais] ou, pelo menos, não se volta a falar nisto tão cedo outra vez [convém também não acreditar tanto na sorte quando jogarem contra o Benfica]. 


[Esta postada é um pouco estúpida pois tem destinatários especiais. Eles sabem quem são. Eles sabem que eu sei e sabem que eu sei que eles sabem, como diria o Otávio Machado.]

domingo, 21 de janeiro de 2024

Ver sem ver

Continuamos jogo a jogo, crónica a crónica. Não interessa a maior ou menor proximidade à data do último jogo. Existe uma e uma só regra: a crónica de um jogo tem de preceder a realização do jogo seguinte. O jogo [do Sporting] contra o Vizela foi na quinta-feira. De lá para cá, muita água correu debaixo das pontes, mas passado é passado, ninguém o pode alterar, mas uma simples crónica ajuda a ter esperança no dia de amanhã [ou no dia de terça-feira, melhor dizendo, quando disputarmos a meia-final da Taça da Liga]. 

Na quinta-feira, jantei com uns colegas no Solar Moinho de Vento, no Porto, não havendo televisão por perto. Não vi o jogo, portanto. Há quem pense que ver o jogo é condição necessária [e suficiente] para se saber o que lá se passa [ou se vai passando]. Nada de mais errado, como nos explicam o Jorge Coroado, o José Leirós e o Fortunato Azevedo no jornal “O Jogo”. Segundo eles, o árbitro errou ao mostrar cartão amarelo ao Hjulmand do Sporting [15 minutos], ao não mostrar cartões amarelos ao Anderson e ao Escoval do Vizela [51 e 70 minutos]; ao não marcar dois “penalties” a favor do Sporting [68 e 88 minutos]. O árbitro estava a ver o jogo [há testemunhas]. Quanto ao vídeo-árbitro, nada se pode afirmar, nada se pode concluir definitivamente [no Solar do Moinho de Vento não estava, isso posso confirmar]. 

Ver o jogo não é condição necessária e suficiente para se ver o que nele vai acontecendo, como se demonstrou. Nem sempre se vê também porque uma imagem ou uma sequência delas pode resultar de efeitos especiais: o primeiro golo do Vizela fez-me lembrar a bicicleta a voar no E.T. [O Extraterrestre], mítico filme dos anos oitenta realizado por Steven Spielberg. Se nem sempre se vê o que se está vendo, o que está à frente dos olhos, então não se deve falar do que se não viu ou [de outra forma], ainda se acaba dentro do campo com o apito na boca a ver sem ver. Está visto, resta-nos continuar assim, a procurar o milagre de ganhar jogo atrás de jogo [com crónica atrás de crónica] e a esperar os jogos decisivos contra o Benfica e o Porto. Pode ser que nesses jogos se consigam duas goleadas que nos permitam ganhar por um ou dois a zero. A ver vamos [ou vamos ver, não sei bem].

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Crónica para cumprir calendário

Há coisas com as quais não se brinca. Não, não é aquela coisa do respeitinho ser muito bonito. É mais simples e mais complicado, pois sabemos que não devemos brincar com essas coisas, embora brincar com elas [racionalmente] também não tenha consequências [ou não aparente tê-las]. Desde o meu recente regresso à blogosfera, o Sporting só tem registado vitórias. A cada crónica sucede-se uma vitória, à qual se sucede uma nova crónica. Ainda não escrevi a crónica do jogo [do Sporting] contra o Chaves e o jogo [do Sporting] contra o Vizela é já amanhã. Como não se brinca com a sorte [ou o azar], vou escrever a malfadada crónica para não me sentir responsabilizado se alguma coisa vier a correr mal [cruzes canhoto]. 

Depois deste tempo todo, mal me lembro desse jogo e vou ter que consultar as mensagens que fui trocando. “Desde o Palombella Rossa, do Nanni Moretti, que não me interessava assim por um jogo de polo aquático!”, diz-me um amigo. Ora aqui está um bom ponto de partida para se escrever qualquer coisa sobre o Sporting e este jogo contra o Chaves. Nanni Moretti [ator para além de realizador] representa o papel de um dirigente do Partido Comunista Italiano no contexto da implosão do sistema partidário do pós-guerra [e das vésperas ascensão de Silvio Berlusconi a primeiro-ministro de Itália]. Uma e outra vez, vai-nos aparecendo o ator num momento decisivo, o momento da marcação de um “penalty” [num jogo de polo aquático]. 

A alegoria presta-se a diferentes interpretações e não vou ser eu a limitar a imaginação de ninguém. Há quem possa pegar pelo jogo; há quem possa pegar pela agonia do Partido Comunista Italiano; há quem possa pegar pelo Silvio Berlusconi e o seu Milan daquela época [com jogadores como Baresi, Maldini, Donadoni, Ancelotti, Rijkaard, Gullit ou van Basten]. O meu ângulo de análise, a minha interpretação é radicalmente diferente [disruptiva, seria a melhor forma de a qualificar]. O que este meu amigo me transmitia era que o relvado se assemelhava a uma piscina. Não se está em presença de uma metonímia, de uma sinédoque ou algo do género, mas de uma hipérbole. Eu diria de outra forma: alguém resolveu instalar um estádio e um relvado em plena Rede Ecológica Nacional e Rede Natura 2000. Ouvia-se o coaxar das rãs e andavam num vaivém espécies exóticas como um Esgaio, um Trincão ou um Paulinho. 

Quanto ao jogo, sim, quanto ao jogo [que eu estou cá para falar dele e só dele], começámos por falhar, continuámos a falhar e preparávamo-nos para concluir falhando. O acaso resolveu o problema e, depois de um pontapé de canto, de um cabeceamento falhado, de um passe com o braço de um jogador do Chaves, o Paulinho ficou como o Nani Moretti no momento do “penalty”. O Paulinho é muito menos sofisticado do que o Nani Moretti e, por isso, não refletiu politicamente sobre a situação tal e qual como lhe era ou foi apresentada e limitou-se a empurrar a bola para a baliza [os simples são assim, fazem as coisas sem pensar no que estão a fazer e nas consequências do que fazem ou se preparam para fazer]. O vídeo-árbitro demorou uma eternidade para validar o golo, admitindo-se também que estivesse a ver o Palombella Rossa e a refletir sobre as democracias liberais contemporâneas. Começando a segunda parte, o Nuno Santos faz um centro atrasado para a entrada da área e o Trincão colou a bola no ângulo da baliza. A probabilidade de se voltar a ver uma coisa desta do Trincão é a mesma de se ver duas vezes o Cometa Halley: quem viu, viu; quem não viu, bem pode ficar à espera sentado [ou à espera do Cometa Halley]. O Pote resolveu dar a festa por concluída com um dos seus habituais passes para a baliza, demonstrando que o falhanço na primeira parte [quando, isolado, enfiou uma bolada no guarda-redes], se tratava de uma situação que não o dignificava e, marcando golo, o colocaria ao nível de qualquer um, de um simples aproveitador de azares alheios. 

Não há muito mais a dizer sobre este jogo. Fiz a minha parte. Escrevi o que me lembrava. Escrevi o que havia para escrever. Podia ter escrito mais e melhor? Poder, podia, mas o jogo também podia ter sido um pouco melhorzinho. Que venha o Vizela que estou [definitivamente] preparado [espero que o Rúben Amorim e a equipa também].

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Embirrar

A política serve múltiplos propósitos. Ao embirrar-se com os políticos [ou com alguns deles, pelo menos], evitamos embirrar [ou embirrar muito] com a família, os amigos ou os vizinhos nas reuniões de condomínio, por exemplo. A política tem vindo a perder importância, preponderância nas nossas vidas e, assim, cada vez temos mais dificuldade em recorrer aos políticos para preenchermos a quantidade de embirração a que todos temos direito [o famoso direito à embirração no qual assentam as democracias liberais]. O futebol tem vindo a substituir a política em várias dimensões [o futebol é a política por outros meios e vice-versa, como diria Clausewitz se se tivesse lembrado] e também nesta da embirração. Não se embirra com as equipas adversárias ou os seus jogadores, quando muito detestamo-los [mas esse é um sentimento sem grande nobreza, convenhamos]. Embirrar é uma coisa que dedicamos aos nossos, isto é, cada adepto embirra com os jogadores do seu clube, não fazendo qualquer sentido um adepto do Sporting embirrar com um jogador do Benfica ou um adepto do Benfica embirrar com um jogador do Sporting. Só se embirra [com] de quem se gosta ou se é obrigado a gostar [nem que seja à força por força da falta de alternativas].   

Se não se lerem estes prolegómenos com a devida atenção, pode-se pensar que não fazem sentido quando se pretende escrevinhar uma crónica sobre o jogo de ontem [do Sporting] contra o Tondela para os oitavos de final da Taça de Portugal. Apelo, como sempre apelo, à inteligência dos leitores, dos leitores deste blogue. Num jogo como este, as possibilidades de recurso a segundas e terceiras escolhas aumentam e, aumentando, aumentam também as possibilidades de embirração. Para [só] falar dos mais [re]conhecidos, ontem tínhamos o Neto, o Esgaio, o Trincão e o Paulinho para embirrar. É aquilo que se designa nesta área do conhecimento como um festim, uma orgia [de embirração, não fazer confusões].

Afazeres profissionais impediram de ver o jogo desde o início. Quando comecei a ver, estávamos a ganhar por dois a zero. Reduziam-se a pó [ou a pouco mais] as possibilidades de embirrar nos termos previamente estabelecidos [ou pensados] e, por isso, comecei a embirrar sem sujeito, a embirrar por embirrar. Revejo o primeiro golo e volto a ver o Gyokeres a associar-se com os seus colegas como se fosse amigo do Paulinho desde a escola primária: depois do Edwards, agora também com o Nuno Santos e o Pote. Não é possível não embirrar [nem que seja um bocadinho] com um jogador que parece ser amigo de outros com que nós [sempre] embirrámos. Começo a pensar que se ele se continua a associar ainda desaprende e deixa de marcar golos. Estava a começar a embirrar solenemente com esta perspetiva quando ele resolve marcar o terceiro golo [com uma simplicidade desarmante, limitando-se a desviar de cabeça a bola do guarda-redes, quando era dado como incapaz de cabeçadas]. No início da segunda parte, irritado [não confundir sentimentos], volta a marcar mais um golo, aproveitando-se de um mau atraso de bola ao guarda-redes provocado pela pressão do Paulinho [ao que isto chegou, sim, depois da pressão do Paulinho sobre um adversário, leram bem!].

Cerca dos cinquenta minutos, com quatro a zero, o Ruben Amorim manda desmontar a tenda, substituindo o Inácio e o Gyokeres. Fiquei cerca de quarenta minutos a olhar para a televisão sem qualquer propósito enquanto bebericava o chá verde que tinha pedido [no Café Flávio, como de costume]. Para me ocupar ou ocupar o tempo, procurei embirrar, embirrar com todas as minhas forças e em várias direções e sentidos. Comecei pelo Neto e não consegui. Passei para o Esgaio e inconsegui também. Virei-me para o Trincão e os resultados não foram muito melhores [fiquei irritado quando falhou isolado, mas não cheguei a embirrar propriamente]. Desesperado, apostei tudo no Paulinho. O Paulinho não deixa ficar mal seja quem for, seja em que circunstância for. Isolado, espirra-lhe o taco e a bola acaba no guarda-redes. Isolado, espera, espera tanto, mas tanto pela desmarcação do Afonso Moreira que a partir de certa altura a possibilidade de lhe passar a bola era nula e, entretanto, também já não tinha ângulo para tentar o remate direto à baliza, acabando a bola às três tabelas a embater no poste. Enfim, estavam reunidas as condições para embirrar [com]. Debalde, não consegui, fiquei irritado, chateado, mas não embirrado. Voltei para casa e rebobinei [esta expressão é para os da minha geração] o Congresso do Partido Socialista e a apresentação da Aliança Democrática. Senti-me profundamente aliviado.

domingo, 7 de janeiro de 2024

Prefiro não o fazer

Passei uma parte da tarde de ontem a ler “Bartleby, o Escrivão”, de Herman Melville, que comprei numa simpática livraria aqui de Braga [a 100ª Página]. O escrivão Bartleby leva a passividade ao extremo, não se recusando propriamente fazer o que quer que seja, mas preferindo não fazer o que quer que lhe fosse solicitado. A [permanente] resposta “Prefiro não o fazer” deixa qualquer um desarmado e muito mais o seu patrão, um advogado de Nova Iorque. Estive várias vezes para escrever a crónica do jogo [do Sporting] contra o Estoril, mas o “Prefiro não o fazer” foi mais forte do que eu e do que o meu sportinguismo. Mas o livro tem um fim trágico e a última coisa que me ocorre é transformar a passividade em desistência. 

Dizer que o jogo era decisivo é pouco, muito pouco. O jogo era de importância transcendental para estatística futebolística como ciência ao alcance de poucos [mas do Paulo Sérgio seguramente]. Existe uma relação de causa e efeito entre pontapés de baliza ou cantos e golos ou uma simples correlação [embora com um erre quadrado elevado]? Essa era a pergunta a que este jogo procurava dar resposta, a hipótese que precisava de ser testada. O resultado também interessava, mas encontrava-se numa segunda ordem de importância. Assim, de forma disfarçada, uma vez fingindo que dominava mal a bola, outra parecendo que a atrasava ao guarda-redes, o Nuno Santos ofereceu dois cantos ao adversário. Os cantos foram marcados e, bem, acontecer, aconteceu alguma coisa, mas não foi qualquer golo. 

Ficava por saber se essa relação ou essa correlação resultava do engano do árbitro e não do canto ou do pontapé de baliza propriamente ditos. O árbitro fez por se enganar e tanto se enganou que transformou um canto a nosso favor num pontapé de baliza para o Estoril, sem que nada de especial acontecesse, muito menos um golo [quanto mais um golo de calcanhar do Paulinho]. Mais tarde, no dealbar do jogo, um canto contra nós acabou no golo de consolação do Estoril, depois de um desvio marado do Paulinho para o meio da grande área. Com estas evidências, não sei o que se pode concluir. Conclusão pode não haver, mas permanece uma hipótese de trabalho: com o Paulinho em campo parecem acontecer coisas surpreendentes, do arco da velha, embora nem todas muito agradáveis [pelo menos para nós, sportinguistas].

Do jogo não sei se se retira muito mais ou retira-se o costume. Na quinta-feira à noite, enquanto procurava perfazer os habituais dez mil passos diários debaixo de uma chuva insistente, deparei-me na ombreira da porta de um prédio com um homem de pijama e chinelos rodeado por três cães falando francês ao telemóvel. “O que faz um homem de pijama e chinelos rodeado por três cães falando francês ao telemóvel em Braga numa noite chuvosa de quinta-feira?”, foi a pergunta que me veio à cabeça. Parece que esta situação, esta pergunta não tem relação com o jogo. Nada de mais errado. É que é mais fácil encontrar um homem de pijama e chinelos rodeado por três cães falando francês ao telemóvel em Braga numa noite chuvosa de quinta-feira do que um avançado como o Gyokeres. Que o digam os jogadores do Estoril que, no final, estavam em muito pior estado do que o General Custer e o 7º Regimento de Cavalaria após as investidas dos “sioux” e “cheyenne” liderados pelo Sitting Bull. 


[Os mais distraídos podem ser levados a pensar que escrevi a crónica prometida do jogo do Sporting contra o Estoril. Os mais atentos terão reparado que não escrevi crónica nenhuma. Simplesmente, prefiro não o fazer]   

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Réveillon

Muitas pessoas se deslocam ao Algarve para o “réveillon”. Há programas para todos os gostos e feitios [e carteiras]. Não me pareceu estranho, portanto, que os jogadores [do Sporting e do Portimonense] se estivessem a preparar para uma passagem de ano num local mal iluminado e congestionado como a grande área do Portimonense. Na Sportv não se queria nada com a passagem de ano e insistia-se que se tratava de uma tática. Percebe-se, é uma tática, mas uma tática comercial: se se vende uma partida de futebol como uma partida de futebol não pode parecer que se está a vender outra coisa mesmo sob a ameaça dos jogadores fazerem o comboinho a qualquer momento. Quando assim é, quando assim acontece, sempre se pode falar de autocarros, mas este canal de televisão é demasiado sofisticado para recorrer a linguagem futebolisticamente vulgar [ia dizer foleira ou de tasca].

Como os jogadores do Sporting insistiam em movimentar-se a passo de caracol e a trocar a bola mais devgar ainda, não havia oportunidades de golo e um amontoado de jogadores podia passar por uma tática e, sim, quem não tem Pinheiro caça com Paulinho [tão cedo não tento outro trocadilho destes]. O árbitro via-se e desejava-se para que a tática não se desmanchasse e passasse efetivamente por tática: falta ali que não é, falta acolá que não é mas passa a ser, falta que é mas não é, conversa paternal com os jogadores do Portimonense. A primeira parte foi isto, conversa da treta na Sportv, árbitro e mais árbitro e bola, bola a sério, bem, nem vê-la. O zero a zero ao intervalo fazia-nos suspirar por um “réveillon” a ver o Big Brother com a sogra e os sanguessugas dos cunhados [e cunhadas].

A segunda parte foi completamente diferente, não porque fosse diferente mas porque o Pote resolveu testar se o artelho do pé direito ainda estava atarraxado, depois de uma amável calcadela de um lateral direito que insistia em não levar a sério os [sábios] conselhos do árbitro. Sempre a farejar o golo, o Gyokeres lançou-se desabrido atrás da bola e quando a encontrou limitou-se fazê-la encontrar a baliza. É estranho, muito estranho que este avançado loiro de olhos azuis não se interrogue sobre o sentido da vida quando se encontra isolado, limitando-se a empurrar a bola com o pé que tem mais à mão. Não há uma dúvida, uma perplexidade, um questionar-se sobre a sua razão de ser: quem sou? para onde vou? preciso de levar uma muda de roupa interior? Não há diálogo possível entre dois avançados, quando um [o Paulinho] se questiona permanentemente, fazendo da bola e do jogo o contexto para esse questionamento, enquanto o outro marca golos só porque sim, porque está dentro de campo e gosta de fazer macacadas depois de os marcar. 

No Sporting detesta-se esta simplicidade, esta falta de consciência do dramático e permitiu-se imediatamente que um grandalhão marcasse o golo do empate com o ombro, embora rodando a cabeça como se de um Jardel se tratasse. Estavam criadas as condições para o desespero, para a desesperança, para que acontecesse Sporting como sempre tende a acontecer. Mas o árbitro não foi na cantiga e roubou descaradamente o Portimonense. Não, não, o Sporting não precisava de um “penalty” ou de uma expulsão do adversário, mas, tão-só, de um pontapé-de-baliza mal marcado. Um pontapé de canto transformado num pontapé-de-baliza e bola no calcanhar do Paulinho que se faz tarde. Golo e escândalo. Como é possível? Não se estava mesmo a ver? Ninguém conhece o calcanhar de ouro? O homem que se questiona e ao questionar-se imprime à bola e aos adversários movimentos que se cruzam e entrecruzam e que têm tanto de anárquico como de eficazes? Passada a angústia, o Paulinho voltou a demonstrar-nos que é preciso ter sangue-frio para se ser como só ele é, para nunca se deixar tentar pela facilidade, pelo golo fácil e tranquilizador [se fosse o Rúben Amorim, tinha regressado a Lisboa a pé para se continuar a questionar durante a viagem].


[Esta postada serve para desejar um excelente ano de 2024 a todos e todas as sportinguistas. Prometo voltar se os sportinguistas tiverem a mesma paciência comigo que têm com o Paulinho, o Esgaio ou o Trincão e se a articulação entre o tarso e metatarso do anelar da minha mão direita estiver em melhor estado do que o esqueleto do St. Juste]