Aconteceu o que temia. Na primeira parte, o Rio Ave ganhou as bolas que podia e não podia. Há duas explicações: uma é a do desgaste físico da Liga dos Campeões; a outra é mais preocupante, mais estrutural, pois, para se jogar com a defesa tão avançada, é necessária maior pressão à frente na saída de bola do adversário ou, de outra forma, o meio-campo encontra-se sempre em desvantagem [numérica] e a defesa apanha com uns ciclistas embalados pela frente a toda a hora. O William Carvalho e o Adrien não podem disfarçar tudo o tempo todo.
Na frente ninguém tem condições para fazer de Slimani. O André parece bom rapaz, mas depois de se isolar e rematar com os olhos fechados para onde estava virado, fiquei mais ou menos esclarecido [não via nada assim desde os tempos do saudoso Postiga]. O Alan Ruiz só joga com a bola nos pés e, mesmo assim, devagar e devagarinho. O Campbell é mais rápido, mas inconsequente, não percebendo também que quando não tem a bola precisa de pressionar a defesa e apoiar o seu lateral. A melhor solução para o ataque ainda parece ser o Bruno César, só que o rapaz não pode jogar na frente e a lateral esquerdo ao mesmo tempo.
O primeiro golo é ridículo e paradigmático dos atuais problemas da equipa. Uma anedota como Roderick domina a bola de peito e vem por ali fora sem ninguém lhe sair ao caminho, acabando tudo num golo marcado em câmara lenta. Com o Slimani, não se atreveria e o Adrien, sem Liga dos Campeões, também teria matado a jogada. Levar um golo do Rio Ave não nos deixa bem-dispostos; levar um golo deles depois de uma jogada do Roderick, apetece-nos voltar para casa e estufar o gato. Em vez de reagirmos e cairmos em cima deles, continuámos no mesmo ritmo: o que falta em força sobra em displicência [os nossos jogadores ainda deviam estar a pensar que estavam a jogar com o Real Madrid]. Levámos mais dois golos em que disponibilizámos todo o espaço necessário para os jogadores do Rio Ave jogarem. Não, não me parece que atirar as culpas para a defesa seja o melhor diagnóstico.
Na segunda parte melhorámos, pois também não era possível piorar. O Bas Dost não é o Slimani, mas sabe ocupar os espaços onde os devem andar os pontas-de-lança. O Bryan Ruiz, ao pé do Alan Ruiz, parece o Usain Bolt e o Markovic deu um arzinho da sua graça [pode ser que esteja ali uma parte da solução para os nossos problemas, quem sabe?]. Quem continuou [e continua] a fazer a diferença foi o Gelson Martins, com mais uma assistência.
Ou alguns dos cromos que contratámos se revelam ou, então, é preciso mudar de tácita e não deixar a defesa tão exposta, porventura não jogando com ela tão avançada. Pelo sim, pelo não, acabava com a brincadeira da Liga dos Campeões, aproveitando-a para rodar os Elias, os Ruízes e os Campbelles desta vida, reunia os jogadores da época passada e procurava fazer com eles e com uma ou outra das aquisições uma equipa. Pois, ou muito me engano, ou estamos como no ano passado: não existem grandes alternativas aos titulares e a equipa rapidamente vai ficar espremida.
Jesus é Deus? É, embora nunca tenha compreendido bem o mistério da Santíssima Trindade. O Jorge Jesus é Deus? Era se a equipa tivesse ressuscitado ao terceiro golo. Não ressuscitou e por isso não é, não pode ser, restando-lhe descer à terra e encontrar soluções. Se se mantivesse calado durante uns tempos, também agradecíamos.