domingo, 19 de abril de 2026

Um final triste, um final nem por isso

Gosto do Arsenal, como gosto do Atlético de Madrid e do Borussia Dortmund: são o Sporting do campeonato inglês, do campeonato espanhol e do campeonato alemão. Gosto um pouco mais do Arsenal por se tratar do clube do qual Nick Hornby é adepto, um dos primeiros escritores cujos livros partilhei com a minha filha Ana [de tempos a tempos, regressa a nostalgia, a choradeira, a baba e ranho do costume], livros como “Alta Fidelidade”, “Era Uma Vez Um Rapaz”, “Como Ser Bom”, “Um Grande Salto” ou “Rapariga Endiabrada”. Além destes e de outros romances, publicou livros como “Fever Pitch” [“Febre no Estádio, na tradução portuguesa], uma biografia [parcial] em que a cronologia, a linha do tempo é marcada por jogos [mais ou menos] marcantes do Arsenal. Conheço bem esta doença [a minha geração conhece-a bem], praticamente não consigo recordar uma data a não ser que a associe a um jogo ou a um campeonato do Sporting. A última postada constitui uma simples homenagem à sua descrição do dia do último jogo da temporada 1988-89, contra o Liverpool, que deu o título ao Arsenal [de George Graham] 18 anos depois, uma descrição que só nós, os que sempre perdemos, os que sempre nos preparamos para perder, conseguimos compreender. 

“De manhã, fui a Highbury comprar uma nova camisola da equipa, pura e simplesmente por achar que tinha de fazer qualquer coisa, e apesar de reconhecer que usar uma camisola na televisão não deva ser especialmente encorajador para a equipa, sabia que isso me faria sentir melhor. […] E à medida que o jogo se ia desenrolando e se tornou evidente que o Arsenal ia cair debatendo-se, […] até consegui perdoar-lhes por terem chegado tão perto e terem estragado tudo: eram novos e tiveram uma época fantástica, e um apoiante não pode pedir mais do que isso. […] Fiquei entusiasmado quando o Arsenal marcou um golo logo no início da segunda parte, […] mas no final o Liverpool parecia estar cada vez mais forte e a conseguir criar cada vez mais oportunidades, e, por fim, quando o relógio do canto da televisão mostrou que os 90 minutos tinham passado, preparei-me para exibir um sorriso corajoso por uma equipa corajosa. […] De repente, no último minuto do último jogo da época, o Thomas ficou sozinho e com uma boa hipótese de fazer o Arsenal ganhar o campeonato […] e aí eu achei que me estava a controlar, a tirar uma lição dos recentes lapsos de ceticismo enfurecido e a pensar, bem, pelo menos chegámos perto do fim, em vez de pensar, Michael, por favor, Michael, marca o golo, meu Deus, só espero que ele marque o golo. E a seguir ele deu uma cambalhota e eu caí redondo no chão, e toda a gente na sala saltou para cima de mim, dezoito anos, totalmente esquecidos num segundo. […] Não me lembro de mais nada que tenha cobiçado durante duas décadas, nem me lembro de mais nada que tenha desejado tanto em rapaz como em homem. Portanto, espero que sejam tolerantes para com aqueles que descrevem um momento desportivo como o seu melhor momento de sempre. Não é por falta de imaginação, nem por termos vidas tristes e estéreis; é que a vida real é mais pálida, monótona, e contém menos potencial de delírio inesperado”. 

Na quarta-feira, nada disto aconteceu. Empatámos com o Arsenal, que jogou com medo de perder e, não, não se merece ganhar quando não se está disposto a perder [tentando ganhar]. O Arsenal descrito por Nick Hornby, o Arsenal de George Graham, não é o Arsenal do Mikel Arteta ou só o é por simples coincidência. Leio no “Expresso” desta semana que Thomas Gronnemark, especialista em lançamentos de linha lateral, depois de contratado pelo Liverpool [de Klopp] e pelo Brentford, é, agora, consultor do Arsenal, que tem em Nicolas Jover, treinador de bolas paradas, um dos principais ídolos dos seus adeptos. O Arsenal é a equipa que marca mais golos de bola parada, levando 16 só nos pontapés de canto. Sem risco, sem imaginação, qual é a diferença entre o futebol jogado com onze jogadores de cada lado ou o futebol jogado na “playstation” com um [simples] jogador contra outro? A idolatria do futebol do Barcelona de Pepe Guardiola acabou nisto: dispensa-se o Pelé, o Maradona, o Messi ou o Cristiano Ronaldo, pois, os heróis, os verdadeiros heróis, são os treinadores [do que quer que seja]. A evolução, a modernidade transformou o futebol num aborrecimento, numa chatice. Se assim não é, vou ali e já volto. 

[Michael Thomas jogou pelo Benfica na época 1998-99, nos tempos divertidamente inigualáveis do Vale e Azevedo. Foi descrito como dispondo de “big balls pelo seu treinador Graeme Souness, como forma de justificar ou compensar a sua falta de jeito para jogar à bola. A ironia é ter sido este perneta, extactamente este perna de pau a quebrar um enguiço de 18 anos]

quarta-feira, 15 de abril de 2026

“Whatever it takes”

Em sete dias, numa semana, esta época [do Sporting] vai decidir-se [para o bem ou para o mal]. A última semana deste tipo que me lembro foi a chamada “Semana Peseiro”, em que, numa semana, se perdeu a Final da Taça UEFA e o Campeonato Nacional. O que é que se pode fazer para que história não se repita? O que é que nós, adeptos, podemos fazer? Usar como camisola interior durante sete dias seguidos uma “T-Shirt” do Sporting [estou a usar uma autografada pelo Hugo Rocha, filho de uma colega, comemorativa da conquista da Challenge Cup em andebol]. Recuperar o leão de peluche que oferecemos ao filho ou à filha, ao neto ou à neta, e dormir estes sete dias agarrado a ele, abraçadinhos, aconchegadinhos. Mas se podemos fazer mais, devemos fazê-lo e, sim, se posso escrever uma postada, devo escrevê-la, mesmo não sabendo sobre o quê. Se o fizer, ninguém me pode acusar de nada, a bola passa para o Rui Borges e para os jogadores e não, não há desculpas. Se tivesse juízo, devia acabar por aqui. Estamos a menos de meia hora do jogo [do Sporting] contra o Arsenal se iniciar e continuo a tergiversar

Depois da última [postada], jogámos contra o Arsenal [e perdemos por um a zero] e o Estrela da Amadora [e ganhámos por um a zero]. Vamos começar pelo Arsenal. Nestas duas últimas semanas li três livros sobre a Europa e a União Europeia [“História Concisa da União Europeia”, de Kiran Klaus Patel; “O Mundo de Amanhã. Uma Europa Soberana e Democrática e seus Inimigos”, de Robert Menasse; e o “Futuro da União Europeia”, de Eugénia Conceição]. Qual a relação entre estes três livros e o jogo da primeira eliminatória, perguntam-me vocês? [fazer perguntas como esta resulta de ouvir vozes dentro da minha cabeça enquanto escrevo]. Só faz esta pergunta quem desconheça o conceito de “encher chouriços” ou o Tratado de Nice e aquela batota na distribuição de votos pelos Estados-Membros. Esta batota é a mesma que nos obriga a jogar na Liga dos Campeões contra o segundo classificado da Liga Inglesa da época passada. Campeões são campeões ou é assim tão difícil de compreender? O Arsenal devia estar a jogar contra o Benfica, ponto final. Nós, campeões, devíamos estar a jogar contra outros campeões, como o campeão Liverpool, neste caso. O Liverpool está eliminado, percebo agora, mas não interessa, se não podem jogar, vamos diretamente para as meias-finais jogar contra o campeão da Alemanha ou da França. 

Está feita esta [postada] do Arsenal. Passemos, então, para a [postada] do Estrela da Amadora. Ganhámos por um a zero a jogar poucochinho. Nem sempre mais é melhor, nem sempre as preferências são monotónicas. Preferimos assim e preferimo-las [as preferências] convexas, isto é, quanto maior a diversidade, melhor. De que serve ganhar por três ou quatro para depois faltarem golos para ganhar ao Casa Pia [como o Benfica] e ter o treinador lavado em lágrimas, deprimido, e a dizer que dali não sai, que dali ninguém o tira? Ganhamos por poucos, mas ganhamos; ganhamos por poucos e não humilhamos; ganhamos, não humilhamos e esperamos que o Porto vá jogar ao Estrela da Amadora sem esconder as bolas ou as toalhas. Bem, falta um minuto, um minutinho para começar o jogo da segunda mão contra o Arsenal. Cumpri a minha obrigação, assunto arrumado. Não se esqueçam das camisolas interiores e dos leões de peluche, façam qualquer coisa, façam o que for preciso.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Festejar nos Aliados

Atualmente, não é simples apreciar um jogo de futebol, as jogadas, as fintas, os passes, os remates ou as defesas. Ou se admite que o futebol é arte e pode-se apreciar sem se compreender [o belo não deixa de ser uma sensação, mas, quanto a sensações, os jogos do Sporting só me provocam calafrios e taquicardias] ou, não sendo, se não se compreende, não se aprecia. Por outras palavras, só se aprecia o que se consegue compreender e explicar [sim, não esquecer que conhecimento e linguagem são uma e a mesma coisa]. Para se compreender [e explicar] um jogo é necessário reconstruir as cadeias de relação de causa e efeito no próprio jogo e desse jogo relativamente a outros, recorrendo ao “efeito borboleta” e à teoria do caos. Estes prolegómenos são uma forma de encher chouriços como outra qualquer, sim senhor, mas também são indispensáveis à completa compreensão [e explicação] do jogo [do Sporting] contra o Santa Clara.

O Mangas caiu espalhafatosamente, tropeçando em si mesmo, e o árbitro marcou falta do adversário que o perseguia, não o deixando prosseguir com a bola. Defesas a cair por efeito do bafo de um avançado e a marcação da correspondente falta constituem características do futebol português que o diferenciam dos demais, transformando-o em recurso endógeno como a Carne Barrosã, a Alheira de Mirandela ou o Queijo Terrincho. Existe uma representação carregada de dramatismo quando um calmeirão como o Otamdendi ou o Bednarek se estatela por força do bater de asas de uma borboleta em Tóquio. Pelo contrário, a queda do Mangas carrega em si mesma a integralidade do seu autor e a sua integridade [moral], constituindo a marcação da falta um simples gesto de reconhecimento [mas carregado de significado]. Depois deste tropeção, desta queda, há um jogador um só jogador à face da Terra que se queira aproveitar desta desventura? 

O [Souleymane] Faye enfia uma biqueirada num adversário à entrada da área do Sporting, o adversário paga-lhe na mesma moeda e corta-o ao meio, o árbitro não marca nem uma nem a outra falta, em jeito de compensação, de uma mão lava a outra, metodologia de arbitragem que muito contribuiu para a singularidade do futebol português também. Nada de especial até aqui, não se fora dar o caso de a jogada prosseguir e o Santa Clara acabar a marcar um golo. Marcado o golo, o videoárbitro, este elemento de modernidade, sem respeito pelas tradições e usos e costumes nacionais, revê o lance e marca a falta do jogador do Santa Clara, a falta com que se inicia o lance de ataque, não respeitando o princípio de uma mão lava a outra, cumprindo as regras, mas cometendo uma injustiça. Não, não se considerou o princípio [ancestral] de uma mão lava a outra e, sim, o Santa Clara foi prejudicado em mais, muito mais do que na [simples] marcação de um livre direto a seu favor. Mantendo-se tudo o resto constante, a célebre condição “ceteris paribus” a que os economistas sempre recorrem, o golo seguinte do Santa Clara não seria o segundo, mas o terceiro. É verdade que o Sporting marcou o quarto e, portanto, sempre teria vencido, mas se [e só se] se admitisse que também se lhe aplica a condição “ceteris paribus”, o que não é justo, nem coerente com a análise [até aqui] desenvolvida.

Que o árbitro e o videoárbitro beneficiaram o Sporting, está demonstrado ou nem sequer necessita de demonstração, diga-se. Se o Sporting ganha é porque o Sporting é beneficiado pela arbitragem, não há, não pode haver outra explicação. Existe um pormenor, um simples pormenor que, sem ele, esta explicação não é explicável: o Frederico Varandas não pode ser o choninhas que aparenta, mas, isso sim, uma criatura da pior espécie, que influencia, corrompe, vicia. O Rui Costa e o André Villas-Boas sabem do que falam e nós, sportinguistas, também sabemos do que eles falam e é por isso [mas não só por isso] que também não suportamos o Frederico Varandas. O ódio dos benfiquistas e dos portistas ao Frederico Varandas é um desperdício de energia. Não, ninguém o odeia mais [e melhor] do que nós, estejam descansados, camaradas. Nós e só nós é que estamos em condições de fazer justiça e a justiça se fará, mais tarde ou mais cedo, não tenham dúvidas. Estava-me a esquecer: vão para os Aliados festejar tranquilamente e não nos aborreçam mais, se faz favor!