terça-feira, 30 de junho de 2026

O jogo terminou no aquecimento

É tudo grande e moderno neste mundial: O jogo termina quando o relógio do estádio decide contar os números por ordem decrescente de melancolia. A hora tardia e a ingestão de consideráveis quantidades de bebidas alcoólicas não permitiam uma análise cuidada ao jogo. As 22 horas restantes do dia possibilitariam dissecar o cadáver convenientemente em duzentos programas de análise técnica/futebolística, tentando perceber o que tinha acontecido a Portugal no jogo com a Colômbia. Na segunda parte, ordenei aos jogadores que corressem apenas com a imaginação – disse o selecionador, maravilhado. 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Por uma unha negra

A sorte dá muito trabalho, como se costuma dizer, mas a falta dela talvez dê mais ainda, que o digam os jogadores colombianos depois do [último] jogo contra a seleção portuguesa. Em nenhuma circunstância se justificou tanto a expressão “por uma unha negra” como, aos noventa e um minutos, no golo anulado à seleção colombiana por fora-de-jogo de Davinson Sanchez no momento de cabecear a bola para a baliza; talvez nem sequer tenha sido por uma [simples] unha, mas pela mania de calçar chuteiras um número acima do necessário para sentir os pés mais desafogados, menos apertados.

Empatámos e passámos aos dezasseis avos de final deste Mundial. Que ninguém se engane, se equivoque por um minuto que seja [especialmente os nossos adversários], vai ser de empate em empate até ao empate final. Hoje como ontem [e como sempre], ganhamos, empatando, e, assim, unidos, empataremos [até que a voz nos doa]!

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Três em cada quatro pessoas fazem parte de setenta e cinco por cento da população

“Um jornal acabou de publicar os resultados de um inquérito: aparentemente, três em cada quatro pessoas fazem parte de setenta e cinco por cento da população”; esta é uma piada de David Letterman, famoso apresentador do “Late Night” e do “Late Show”, contada no “Riso, Humor e […] Matemática”, de Cláudia Custódio. O óbvio é [obviamente] autoexplicativo [e ainda pode ter piada]. 

Gary Lineker afirmou [mais coisa, menos coisa] que: “no futebol, são onze de cada lado e, no fim, ganha a Alemanha” [no contexto desta afirmação, fazia sentido a referência à Alemanha, mas essa seleção não é para aqui chamada]. Disse o óbvio e o óbvio [obviamente] devia ser óbvio para todos, mas não é [ou não foi] quando se analisa o jogo de Portugal contra a República Democrática do Congo.

O ponta-de-lança serve para marcar golos e como o Cristiano Ronaldo é ponta-de-lança, logo, se não marca, não joga bem e, se não joga bem, a culpa do resultado só pode ser dele. Diz-se que está velho, pois os velhos não têm qualquer préstimo nas sociedades contemporâneas. Está-se a esquecer que, de um lado, do lado português, estão onze, onze jogadores, não um, por mais decisivo que possa ser. 

Os jogadores da nossa seleção esqueceram-se da baliza e só passaram a bola para trás e para os lados [e a passar a bola para trás e para os lados ninguém ganha jogo nenhum, conclui-se]. Não passaram para a frente porque quiseram, porque não lhes apeteceu, porque não foi o que tinham combinado, depreende-se. Está-se a esquecer que, do outro lado, também estavam onze jogadores, uma equipa, que não permitiu que  a outra jogasse de forma diferente.

Portugal empatou, logo não jogou bem, pois jogar bem por jogar bem só se os jogos se decidissem pela classificação atribuída por um júri, como na patinagem artística. É como se um facto [um empate], um simples facto encerrasse [em si mesmo] a sua explicação, fosse autoexplicativo. Recorrendo a Gary Lineker, a conclusão é óbvia [ou devia ser óbvia]: o treinador e a equipa da República Democrática do Congo prepararam melhor o jogo, sabiam melhor o que fazer [e fizeram-no]. 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

“O mínimo que se pode pedir a uma equipa é que ela não se mexa" - II

 

Foi o meu primeiro jogo completo (bem, quase completo, não aguentei tanta emoção) do mundial 2026. Gostei muito. Principalmente das inovações. É genial a paragem para a publicidade, perdão, para hidratar. É bom para hidratar, parar o jogo, quebrar o ritmo e também deve ser excelente para o treinador dar instruções e para os jogadores e respectivos músculos se distraírem daquilo que andam a fazer. Com tantas queixas em Portugal de antijogo e jogo negativo, eis aqui uma excelente iniciativa, sem dúvida. Aposto que o Porto vai propor a medida para os jogos no Dragão, a juntar aos esconde bolas e palma toalhas. É sabido que a hidratação, nos jogos do Dragão, principalmente no inverno é uma medida mais do que necessária: justa. Espero que a hidratação se alargue ao resto do estádio para os espectadores poderem beber umas cervejolas e assim suportarem melhor alguns jogos de futebol. Como o de ontem. Obrigado.

sábado, 13 de junho de 2026

Do campo ao mercado


Quarenta e oito seleções. Não sei quantos milhares de quilómetros de chouriços para encher. Doze grupos. Não sei quantos quilómetros de chouriços televisivos para encher. Fora o pré e o after match. Fora os directos, onde se consegue perceber um avião a levantar voo com direito a relato, a metáfora perfeita para atingir o sucesso, presume-se. Atenção aos fenómenos climáticos extremos e a outros fenómenos, uma poderosa vitrine de exclusão, vigilância e forte tensão internacional (podia ler-se no Público) e, possivelmente, uma vitrine para alguns jogadores e para o futebol. Nunca se sabe.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Fazer história

Fizemos história, essa é que é essa! Em Torres Vedras, o Carnaval ao domingo nos finais de maio é [infinitamente] preferível ao Carnaval, Carnaval, ao Carnaval à terça-feira em fevereiro. No Carnaval de 17 de fevereiro, “o céu esteve predominantemente muito nublado, registando-se períodos de chuva e temperatura máxima de 15°C”, enquanto, no Carnaval de 24 de maio, “o céu esteve limpo ou muito pouco nublado, registando-se temperatura máxima de 28°C”. O Natal é quando um homem [ou mulher] quiser e o Carnaval também, desde que haja cabeçudos [e gigantones], claro.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O "leão" da Malásia

 

No final da conversa ao telefone, o meu amigo ainda perguntou:

- E o mundial?

- A guerra mundial?

- Não, o mundial de futebol…já compraste a caderneta de cromos?

- Não, vou fazer mais uma do Sandokan…

Pouco me importa o mundial. Este e os mais recentes. Há muito tempo que o mundial deveria ter-se desvinculado da palavra futebol. Mas não param de introduzir inovações, como aquela grande ideia do intervalo de meia hora, ou dos cantos serem marcados com o árbitro de olhos vendados. Ou aquela dos apanha-bolas serem todos formados no Futebol Clube do Porto. Era bom para o clube a para a cidade.  Os jogos, para que a inovação fosse realmente interessante, deveriam ter apenas meia hora e o resto deveria ser puro entretenimento, relatado em directo pelos comentadores da CMTV.

O Sporting 2.0 já entrou neste mundo onde as bolas são feita de música e os adeptos experienciam o jogo a partir de um mundo lounge e de um espaço Emerald Lounge, zona de lugares exclusivos e, claramente, acessíveis a todos (risos). Já não se trata de ver um jogo de futebol mas de uma experiência inédita em Portugal: O Lion’s corner. Experiência essa que já tinha começado com a venda dos bilhetes para a final do Jamor, cuja prioridade era o dinheiro e a disponibilidade para estar aberto a experiências. Depois temos lotações esgotadas com taxas de ocupação de 80%.

Acho que prefiro o "leão" da Malásia. E continuar as ler as “Notas de um velho nojento” do Bukowski.