segunda-feira, 25 de maio de 2026

O uso prolongado da equipa criou muitos ficheiros de lixo


Quando tenho o prazer de observar Georgios Vagiannidis a jogar futebol, lembro-me de uma frase do Bukowski no seu livro “Sobre a escrita”, quando este afirma que se criaram as escolas (de música, pintura, literatura) porque algumas vezes o artista individual era demasiado fraco para falhar sozinho. Por isso mesmo se criaram, igualmente, as equipas, embora o propósito seja disfarçar a mediocridade de alguns dos seus elementos através do “todo”.

Confesso que já tinha saudades de escrever: ontem, quando o Sporting entrou em campo já perdia um a zero. Pior: entrou em campo a perder e com a equipa incompleta: do Trincão apenas terá entrado o bigode (só se via o bigode, perdido), do Catano apenas entrara o sorriso, do Vagiannidis nem a sombra, e mesmo o Gonçalo Inácio marcava os seus adversários apenas com os olhos. O meio campo dormia como um leão ao sol no seu papel de rei da selva. O estádio assistia com deleite. 

Desde que vi aquela cara de alívio no final do jogo em Londres (com o Arsenal), percebi que o Rui Borges descomprimira ao ponto de levantar voo: ele, as suas ideias, a época toda a esvoaçar entre a neblina noturna londrina. Os jogadores (via-se bem a olho nu) descomprimiram e esvoaçaram. Alguns adeptos também: mais seria demais. Não se conseguia aguentar tanta emoção, pressão, gestão, lesão, entre outros, cuja terminação nos levaria para meandros menos abonatórios.

De volta à terra (literalmente), o jet lag adensou tenebrosamente as aspirações da equipa. Dormia-se acordado e acordava-se a dormir. Dois empates fibrosos acabariam com os alvoroços emocionais não fosse o nosso rival de Lisboa insistir em falhar cada vez mais e melhor. Até nisso nos perseguem. Ficou a taça na raça do jogo do Dragão onde as bolas, desta vez, não foram escondidas nem as toalhas amordaçadas.

Pronto, estava feita a época. Uma boa época, nas palavras do treinador, cuja renovação foi palco de um ensombrado jogo de espelhos com o presidente como protagonista, em mais uma das suas fanfarronices, diminuindo o treinador que apresentava e, por acréscimo, toda a estrutura. Já no ano passado o fizera na apresentação do novo Amorim: João Pereira.

Perdida a taça, com o desmantelamento do que resta da equipa, e o definitivo afastamento do que resta do dedo, mão e pé do exportado Amorim (e do braço direito Viana), o caminho fica livre para o presidente substituir, ele próprio, Rui Borges à primeira escorregadela. O Borges certamente dará um bom adjunto, como, aliás, se tem visto…

domingo, 24 de maio de 2026

Frederico is everywhere

Falta menos de uma hora para a Final da Taça de Portugal, para o jogo [do Sporting] contra o Torreense, e ainda há TPC por fazer. Acabou o campeonato, o Porto, clube, fez a festa, o Mourinho quer e não quer ficar no Benfica, o Benfica quer e não quer ficar com o Mourinho, e ainda nada disse sobre os dois últimos jogos, as duas últimas jornadas. Antes de dizer o que tenho para dizer, fica uma sugestão aos portistas [em especial, à minha afilhada]: nos Aliados, a comemoração da derrota do Frederico Varandas foi uma bela festa, a felicidade era imensa, transbordante; penso que se festejarem a vitória no campeonato também pode ser um momento feliz, não tanto, não da mesma forma, mas feliz, ainda assim. Fica a sugestão [de nada, sempre às ordens]. 

Vamos com uma cajadada matar dois coelhos. Como sempre, as receitas são do Frederico Varandas: primeiro, fazemos uma “Cabidela de Coelho” com o Rio Ave; em seguida, serve-se um “Coelho à Caçador” com o Gil Vicente.

O jogo [do Sporting] contra o Rio Ave começou em estilo solteiros contra casados, nada contra. O Rio Ave marcou primeiro, o Sporting marcou a seguir de “penalty”, “penalty” maquinado, urdido, não sei bem, pelo Frederico Varandas. À terceira foi de vez: na primeira, a entrada do defesa foi imprudente, mas não negligente [não sei se esta é a ordem mais correta ou se é a contrária, isto é, a entrada do defesa foi negligente, mas não imprudente]; na segunda, o Luíz Suarez levou amarelo para aprender, para não andar na área para trás e para a frente a provocar entradas imprudentes, mas não negligentes, ou negligentes, mas não imprudentes. Como disse, à terceira foi de vez e a entrada foi considerada imprudente e negligente, embora existam as mais sérias a dúvidas se não deveria ser considerada improcedente como as outras duas. 

O recurso a este tipo de qualificativos, de adjetivos, pelos árbitros, por aqueles que explicam as decisões dos árbitros e por aqueles que explicam a explicação daqueles que explicam as decisões dos árbitros, constitui um grande avanço para a compreensão do futebol e do desporto em geral. Há dias, apareceu um tesourinho deprimente numas trocas de mensagens com uns amigos através da WhatsApp: uma fotografia de uma festa de garagem do início dos anos oitenta, onde estava acompanhado dos meus grandes amigos de Viseu. Reencaminhei a fotografia para a minha mãe, que logo respondeu: “eras e és o mais lindo!”. O recurso ao superlativo absoluto analítico habilita a minha mãe a ensinar a adjetivar como deve ser no próximo curso de arbitragem promovido pela APAF. 

Voltando à vaca fria [não à vaca sagrada, que isso é coisa para o Hjulmand, segundo o Mourinho], o Frederico Varandas tratou de arranjar um autogolo e uma expulsão de um defesa nada negligente nem imprudente. O resto do jogo foi um passeio na praia [sem nortada e tudo]. Ao mesmo tempo, o Frederico Varandas estava a tramar o Benfica [no jogo contra o Braga]. Não se sabe bem se era o Benfica, o Rui Costa, o Mourinho ou o Real Madrid, mas que estava a tramar, estava. Enfim, final da jornada e regresso [do Sporting] ao segundo lugar do campeonato. 

Faltava o jogo [do Sporting] contra o Gil Vicente para sermos os primeiros dos últimos, posição que muito nos honra pois nem todos os últimos são iguais e uns são mais iguais do que os outros [que o diga o Benfica]. O Frederico Varandas entrou em ação e não houve galo nenhum [mais um trocadilho destes e acabo a tratar das rimas emparelhadas das canções do Pedro Abrunhosa também]. Ganhámos por três a zero e festejámos com uma lágrima ao canto do olho, com a despedida do Morita e do Hjulmand [muito provavelmente]. Com a despedida deles uma pergunta fica no ar [sim, há questões que ficam em situações bizarras, nos locais mais improváveis, onde menos se espera]: quem tem agora os apontamentos do Rúben Amorim?

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Modo IA


Acabou o campeonato nacional, já não sei bem como se chama: Liga Portugal Betclic (ok, tive de ir ver), para mim é o campeonato nacional da primeira divisão. Este ano foi um ano atípico: o Sporting não foi campeão (há anos que desejava escrever isto), embora o seu acossamento pelos rivais demonstre que o mundo mudou (sem contar com o Trump, embora este já tenha feito contactos para utilizar o estádio de Alvalade 2.0  Every_Day Be Better em caso de operação especial ao futebol europeu).

Após apurada análise ao momento do nosso rival de Lisboa, estamos em condições de informar que este apenas depende de si próprio para ser campeão no próximo ano. Embora este panorama possa ser desconsiderado pelo génio de Mourinho, o milagre será sempre possível tendo em consideração a raridade destes fenómenos. Fabrizio Romano ainda não se manifestou acerca deste assunto. Aguardamos.

O nosso rival do Porto (sr, Presidente do Sporting, por favor, não meter todo o Norte ao barulho que nós não apreciamos o desconhecimento da geografia) é uma espécie de startup no mundo do futebol através do desenvolvimento de várias inovações futebológicas:

- os esconde bolas

-  os limpa toalhas

- decoração criativa de balneários onde a presença de aromas intensifica experiências inovadoras, remetendo, ao mesmo tempo, para a criação de momentos marcantes e imersivos.

Quem julga que o Porto voltou à velha guarda está enganado: embora os métodos se assemelhem aos de antigamente, revestem-se de uma componente inovadora e socialmente assertiva, pelo menos na região onde esta se desenrola (volto a dizer, sr. Presidente do Sporting: é o Porto não é... Norte).

De resto, o Braga que fica em Braga, ficou em quarto lugar e o Famalicão que fica em Famalicão ficou em quinto lugar. O Gil Vicente que fica em Barcelos (não em Gil Vicente) ficou em sexto. Por uma incrível coincidência sr. Presidente do Sporting, ficam todos no Norte do país. A partir daqui o ar fica rarefeito e encontramos equipas rulote como o Casa Pia, equipas como o Rio ave que pertence àquele  senhor que parece o Demis Roussos, e equipas com um desconhecimento total da geografia onde jogam, como o AFS de Vila das Aves ou será de Vila Franca de Xira?. Ninguém sabe…

sábado, 16 de maio de 2026

Não se cansem que não é preciso!

Regressado a casa depois de uma caminhada no Trilho de Nossa Senhora do Vau, em Amarante, e de saber que o [meu] Académico de Viseu voltou a subir, agora, à Liga Portugal, 37 anos depois, verifico que continuam TPC por fazer. Vamos com uma cajadada matar dois ou [mesmo] três coelhos.

Comecemos pelo princípio, comecemos pelo AVS. Empate merecidíssimo. Não é que o vídeo-árbitro pretendia à viva força que nos fosse marcado um “penalty” a nosso favor? Ainda bem que o árbitro viu e reviu as imagens, “frame” a “frame”, e não teve dúvidas: o calcanhar que usava o Rafael Nel não lhe pertence; o que lhe pertence anda à solta por aqui e por ali sem ninguém saber bem onde. Como é que se pode marcar “penalty” por lhe terem pontapeado o calcanhar se o calcanhar não é [sequer] dele, se é emprestado? Se fosse no calcanhar dele, ainda era como o outro, mas o calcanhar dele ninguém sabe onde para [sequer].  

Análise feita, análise que segue, análise do jogo contra o Tondela. Empate absolutamente justificado, empate por razões de força maior, empate em nome do superior interesse do clube e do futebol português. O Frederico Varandas não deixou margem para dúvidas: jogar na Liga dos Campeões deixa os jogadores cansados e ninguém quer que os jogadores se cansem, se macem com competições menores, com jogos de lana-caprina. Quando [e se] a Assembleia da República aprovar o novo Código do Trabalho e, assim, o banco de horas individual, sempre se poderá voltar a pensar melhor, a pensar numa melhor gestão do tempo de jogo de cada jogador [não tanto do banco de horas mas do banco de minutos ou dos minutos no banco].  

Depois do segundo, segue-se para o terceiro coelho com a mesma cajadada. Vitória contra o Vitória [de Guimarães]. O trocadilho é infantil, o trocadilho é de quem não tem nada para dizer ou para dizer o que diz mais valia estar calado. Salvou-se o Debast com um autogolo autoritário, um autogolo como quem avisa o Benfica: se continuam com a brincadeira, se continuam a fazer-se desentendidos, se também não se querem cansar, nós não estamos para brincadeiras! O Frederico Varandas compreende que o José Mourinho não se queira cansar, compreensão que não nasceu hoje. Sempre o pretendeu contratar ou ninguém percebe a influência dele no campeonato turco, quando ele treinava o Fenerbahçe, no campeonato italiano, quando ele treinava o Roma, no campeonato inglês, quando ele treinava o Manchester United ou o Tottenham?

Por hoje basta, que já não falta tudo para o jogo contra o Gil Vicente. Fiz a minha parte, às três pancadas [ou cajadadas], mas fiz. O Rui Borges e os jogadores que façam o resto; e por amor de Deus, não se cansem que não é preciso!

terça-feira, 12 de maio de 2026

Manual de instruções para competições banais

 

Ontem tive uma ideia cintilante, daquelas capazes de iluminar um beco sem saída, uma ideia que me permitiria dissertar coerentemente sobre a coexistência do futebol, nomeadamente o futebol português, com a minha existência, deixem passar o pleonasmo, mas infelizmente não me recordo dessa ideia. Fui dormir sobre a vitória do Sporting e o empate do Benfica, a pensar que, talvez, nada estará garantido e que o segundo lugar só serve para purificar o ar dos cofres. Digo o ar, porque lá dentro nunca se viu uma moeda que seja - agora o dinheiro é digital, cripto qualquer coisa, mas antigamente também não se via nada dentro dos cofres. Os cofres só existem nos clubes para dizer que existem cofres e, que, à falta destes, poderão eventualmente ser substituídos por sacos, azuis, ou de outra cor qualquer, não importa.

Por isso se criaram as competições tipo Liga dos Campeões onde a maior parte dos clubes não são campeões a não ser dentro da sua cabeça e dos cofres cheios de ar que circulam a rodos. São competições que fazem o dinheiro esférico que é preciso circular como uma bola de futebol, e  nós vamos atrás delas, das competições e das bolas, como o meu pai que seguia a sua trajetória com o seu corpo todo a dizer: Sporting. E, às vezes, lá ia uma mesa, ou um relógio à sua vida. 

O Sporting ganhou mais uma competição europeia no futsal, no andebol andou ali perto de atravessar fora da passadeira, no hóquei não se pode ganhar sempre e, no futebol, estamos vivos. O que, segundo uma pessoa famosa, é o contrário de estarmos mortos. 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Roubados e mal pagos

Ontem, acordei com um estado de espírito assim-assim, do tipo bandeira amarela: pode-se ir a banhos, mas não se pode nadar em águas profundas, só ao longo da costa. Depois de me levantar, tudo, mas mesmo tudo, constituiu exercícios de aquecimento para o jogo do Sporting da Final da UEFA Champions League em futsal: senti-me melhor, muito melhor com um iogurte recheado de aveia, de noz e de mirtilos ao pequeno-almoço; senti-me ainda melhor com um robalo grelhado ao almoço; continuei a ler com prazer “O Cerco de S. Bento em 1975. O Princípio do Fim da Revolução”, de Kathleen Gomes, durante o princípio da tarde [comprei o livro depois de assistir à conferência da autora com o José Pacheco Pereira no dia anterior, no MUZEU – Pensamento e Arte Contemporânea].   

Quando começou o jogo, estava bem-disposto, do tipo bandeira verde: pode-se ir a banhos sem restrições, nadando, nadando até que a voz nos doa. Foi um grande jogo, um jogo extraordinário do Sporting: rigor tático, controlo emocional, qualidade técnica e vontade, muita vontade de ganhar. É impressionante esta vontade, esta motivação do Nuno Dias e da sua equipa técnica e de muitos jogadores que [já] ganharam tudo [e um par de botas] e várias vezes, como o João Matos, o Alex Merlin, o Tomás Paçó, o Pauleta ou o Zicky Té. Depois de ver o João Matos levantar o caneco, o estado de espírito era de tal maneira [verde ou bandeira verde], que fui apanhado à traição, à má fila para uma ida às compras [da semana] ao Continente. 

Bem, mas esta postada não servia para isto, mas para recuperar os TPC [atrasados]. Não sei como é que vou recuperar todo o atraso, mas enquanto penso na melhor maneira, avio o TPC do jogo [do Sporting] contra o Porto, clube, das meias-finais da Taça de Portugal. 

Não vou falar do jogo [propriamente dito], pois foi há tanto tempo que nem me lembro bem do que se [não] passou ou passou ao lado. No entanto, se há coisas que não se esquecem, que nunca se esquecem são as reações [institucionais?] do Porto, clube, especialmente do seu médico, que está no banco sempre pronto para o que der e vier [na assistência aos pacientes, nos diagnósticos e terapêuticas mais inovadoras, para que não existam dúvidas ou mal-entendidos]. O Porto, clube, considera [e muito bem] que foi roubado, que o árbitro devia ter expulsado o Inácio aos cinco minutos. Trata-se de uma resposta [institucionalmente] correta ao Sporting e, em particular, ao Frederico Varandas após afirmarem que também foram roubados, que lhes roubaram as toalhas do guarda-redes. 

O Porto, clube, foi roubado, está dito e redito, ponto final. Onde é que para a polícia? Sim, onde é que para, quando mais dela precisamos? Sem polícia, resta a Justiça de Fafe. Munidos dos respetivos varapaus, os jogadores resolveram fazer justiça pelas próprias mãos [ou pés, melhor dizendo]. Para eles, os culpados não foram os árbitros, mas os jogadores do Sporting e assim procuraram fazer [e fizeram] a Justiça de Fafe, no Hjulmand, no Maxi Araújo, no Catamo [especialmente] ou no Luís Suaréz. Fizeram a justiça que puderam, nas canelas, nos artelhos, nos calcanhares, nos joelhos ou na carótida dos adversários, mas não fizeram a justiça toda, porque se esqueceram de que tinham perdido na primeira mão das meias-finais, em Alvalade. Foi uma pena este lapso, este pequeno detalhe, ainda para mais num país onde não se fala noutra coisa do que na reforma da justiça, na necessidade de Salazares, muito Salazares, ou de um Robin dos Bosques, pelo menos. 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O “Gato de Schrödinger” [TPC atrasados]

Estou atrasado nos Trabalhos Para Casa [ou TPC], fiquei-me pelo jogo [do Sporting] contra o Arsenal, estando em falta os jogos contra o Benfica, o Porto, o AVS e o Tondela. Ainda não vai ser hoje que vou pôr a escrita em dia. Trato do Benfica, salvo seja, e fica o Porto, o Aves e o Tondela para a próxima, para uma melhor oportunidade. 

Perdemos dois a um contra o Benfica. Do jogo propriamente dito, tudo foi dito e redito e mais um par de botas. Falta a análise da análise ou a metanálise. A necessidade [ou não] de repetição do “penalty” falhado pelo Sporting [através do Luís Suarez] necessita de uma conclusão. Há uma lei, uma regra, uma coisa qualquer que proíbe os jogadores de entrarem na grande área enquanto não for batido o “penalty”. Parece simples, parece que enquanto o “penalty” não for batido pelo marcador, os restantes jogadores ficam atrás da linha que delimita a grande área, não sei se me estão a acompanhar [neste raciocínio].  

Parece tão, mas tão simples esta lei, esta regra, esta coisa que a Liga, a FPF, a UEFA e a FIFA resolveram interpretá-la não fossem os árbitros não a compreenderem na sua simplicidade e complicarem-na ou complicarem a sua aplicação. Os árbitros têm de impedir a entrada na grande área dos jogadores antes do “penalty” ser batido pelo marcador, ficando todos, mas todos, sem exceção, a pelo menos 9,15m de distância da bola. Se os jogadores entrarem na grande área antes da marcação, o árbitro não deve fazer nada. Os jogadores têm de cumprir esta regra? Têm. Se não a cumprirem, o que acontece? Nada, rigorosamente nada. Esta possibilidade de a interpretação de uma regra constituir a sua negação, tem múltiplas aplicações, andando os advogados, os juízes e os procuradores aos saltinhos tal a excitação com esta novidade.

A possibilidade de simultaneamente cumprir e não cumprir uma regra remete-nos para o “Gato de Schrödinger”, para essa experiência mental. Em certas condições, demonstra-se que um gato dentro de um caixa pode estar vivo e morto ao mesmo tempo. O dono gato, o Schrödinger, queria com esta experiência reduzir ao absurdo a aplicação da física quântica a realidades não quânticas, pois, ao abrir-se a caixa, o gato ou está vivo ou está morto. É como se a realidade só existisse na exacta medida em que se observa ou, mais ainda, a observação é que determina a realidade e, sem ela, a realidade não existe ou é como se não existisse, não sei se me faço entender também [neste raciocínio]. Pois, como demonstram a Liga, a FPF, a UEFA e a FIFA e o senhor de tufo de cabelo no cocuruto da cabeça, o gato sempre pode estar vivo e morto mesmo depois de se abrir a caixa.