terça-feira, 4 de agosto de 2020

Toxicidade e hipocrisia

De repente, a SIC e a TVI tiveram uma epifania: os programas de comentários com adeptos são tóxicos e tem de se acabar com eles. Mais vale tarde do que nunca, mas fica-se com a impressão de que a decisão releva mais das audiências e da conveniência do que de qualquer sentido de justiça ou de moral. Até parece que esses comentadores foram às estações de televisão de livre e espontânea vontade, ali se sentando à mesa e debatendo entre si os assuntos que lhes passavam pela cabeça, não havendo responsabilidades editoriais. 

Envolto num discurso (falsamente) moralista, os responsáveis destes canais de televisão confundem consequências com causas. Estes programas são a consequência, a consequência de um futebol tóxico, na forma como se organiza e escolhe os seus responsáveis, dos clubes, à Liga e à Federação Portuguesa de Portugal. O entorno mediático decorre desta organização à qual se associa a falta de jornalistas desportivos, enquanto profissionais responsáveis pela mediação isenta e independente. O mercado é curto, a hegemonia de certos clubes é grande e ninguém quer aborrecimentos que coloquem em causa o negócio. A informação jornalística é, com frequência, uma correia de transmissão de interesses, uns mais legítimos, outros mais obscuros e inconfessáveis, e envolve “fake news” atrás de “fake news”.
 
Esta distopia reflete-se no jogo jogado. A Final da Taça de Portugal, entre o Porto e o Benfica, constitui um belíssimo exemplo. O jogo foi uma porcaria do princípio ao fim, uma coisa indescritível de mal jogado. Nunca interessou a bola nem os jogadores. O que interessou foi o árbitro, o quarto árbitro e as suas decisões. Para eles, foi um momento de glória. Um profissional da pastelaria e outro das carnes transformados nas pessoas mais importantes do país, com uns milhões dos seus concidadãos a vê-los e direito a cotovelada do Presidente da República.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Já acabou?


Voltamos à casa da partida. Planeamento, trabalho invisível, inclusive, a existência de planos de acção, tudo se esboroou por entre os dedos como areia fina da praia da Claridade (quanto não está muito vento). Tudo perdido por obra de um inexplicável acaso, de uma perseguição inabalável (sempre inimigos internos, entenda-se), de problemas oftalmológicos graves (que não permitem ver o trabalho invisível), de oscilações do mercado absolutamente imprevisíveis, da falta de palavra do Jesé que terá afirmado ser o mesmo que há uns anos jogava futebol no Madrid. Em suma, do Covid -19. O que rima funestamente com a nossa ausência de títulos-19 (campeonatos, leia-se).

Ora, vamos a factos para que se possam esgrimir argumentos e alimentar polémicas desnecessárias:

Logo a despropósito, o Sporting fica fora do pódio, pela primeira vez, desde aquela magnifica época, igualmente dotada de um planeamento genial de Godinho Lopes: estávamos então em 2012 e ficamos num razoável sétimo lugar, fora das competições europeias. Mas sem Covid, dirão alguns, sempre atentos, amigos do embaraço.

Derrotas em todos os clássicos (não, meus amigos, com o Belenenses já não conta), uma, duas, três, quatro derrotas (sem contar com a supertaça, já lá vamos). Coisa nada vulgar, ora investiguem lá, por favor, para ver quantas vezes aconteceu.

Dezassete derrotas numa época é obra. É recorde. Dos nossos. Cerca de 52% de vitórias, é obra. Está à vista. Ali pertinho do meio-meio, dos cinquenta por cento, pertinho de equipas como o Fama e o Rio-Ave, elas também parte do carrocel do Mendes.

(JÁ AGORA, QUANTOS TREINADORES COM O PERFIL DESEJADO FIZERAM PARTE DO PROJECTO?)

Eliminados da taça pelo poderoso Alverca (equipa do terceiro escalão), fizemos jus ao lema: aconteceu taça. Olhe que não, olhe que não. Não é assim tão vulgar uma equipa candidata ao título (a sério?), ser eliminada da taça por uma equipa do terceiro escalão. Ora, pesquisem lá, por favor. 

Acrescentando os cinco que levamos no corpo na final da supertaça contra o segundo classificado da liga (resultado volumoso, mas seguindo uma tradição recente de bombos da festa), o restante foi globalmente positivo. Não acham?

Adiantar o IVA ao Braga

A crónica de um jogo é sempre uma narrativa. Não deixa de ser uma reconstrução que tem como objetivo legitimar o resultado final, que encerra os factos, todos os factos. As coisas não são como são. Obedecem sempre a uma lógica que as determina e lhes dá sentido. A sorte ou o azar têm detalhe técnico [nem que seja o da famosa eficácia], não são sorte ou azar, ponto. A crónica só precisa assim do resultado final e de plausibilidade. 

Perdemos por dois a um contra o Benfica e ficámos em quarto lugar no campeonato. Estes são os resultados e, por isso, os factos, todos os factos. Como se sabe, o Sporting ferrou o cão ao Braga. Mas há ferrar o cão e ferrar o cão. Há formas de ferrar o cão que são contra os Direitos Humanos. O pagamento do IVA ou do Imposto sobre o Valor Acrescentado ao Estado é da responsabilidade do vendedor, a partir do momento que se dá o movimento económica mas não, necessariamente, o financeiro, isto é, a partir da faturação. Como se verifica, o resultado de ontem serviu para adiantar o IVA ao Braga. 

Dantes, estes assuntos eram tratados por departamentos especializados dos clubes ou por empresas de contabilidade. Como se costuma dizer, hoje o futebol é uma indústria e estes movimentos passaram a ser intermediados por profissionais muito qualificados que trabalham em empresas de gestão de carreiras. Os movimentos são sobretudo em espécie: hoje um resultado, amanhã a transferência de uma jovem promessa, depois um encontro de contas. 

Tinha visto vários jogos na Benfica TV, mas nunca tinha ouvido, os narradores e os comentadores. Imagino que as transmissões da Pyongyang TV sejam do mesmo género. Ouvir referência ao Jorge Jesus durante a transmissão constituiu o momento "Big Brother is watching you". O Benfica, enquanto clube, e os benfiquistas, enquanto adeptos, estão transformados no benfiquismo, um fanatismo, uma ideologia com bigodes. 

Em condições normais, acabada a época, seria necessário pensar o futuro. Nos tempos que correm, lê-se a "Visão Estratégica" de António Costa Silva. Parafraseando, o objetivo é transformar o Sporting numa potência média de “soft power”, ligando a diplomacia na Liga e na FPF, as missões de solidariedade com o Tondela, o Setúbal ou o Aves, a tecnologia do vídeo-árbitro e a necessidade de combater o antijogo, para abrir caminho à criação de plataformas colaborativas no âmbito da UEFA e da FIFA. No passado, pensaríamos que a contratação de um defesa central para emparelhar com o Coates, de um defesa direito parecido com um defesa direito e de um avançado que marcasse golos resolveria o nosso problema. Eram outros tempos, tempos de amadores.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Será que Jesus já regressou?

Ontem de manhã, enquanto tomava café, assisti a uma reportagem da CMTV a partir Aeroporto de Lisboa, da Portela ou Humberto Delgado, conforme os gostos e feitos. Uma repórter [é assim que se diz, não é?] informava-nos que Jesus estava de regresso, havendo dúvida se se encontrava ainda sobre o Oceano Atlântico ou se, entretanto, tinha atingido a costa do continente africano. 

“Será que Jesus já regressou?”; esta dúvida assolou-me de quando em vez o pensamento durante o resto do dia. 

O Sporting jogava contra o Setúbal. Vi entrar em campo os nossos jogadores acompanhados de onze separadores de autoestrada, em betão. Iniciado o jogo, ou a bola ou os nossos jogadores iam embatendo nos referidos separadores. Nem a bola nem os jogadores os ultrapassavam, embora tombassem sempre que a bola neles embatia ou os jogadores neles tropeçavam. Cada vez que tombavam, entrava a assistência rodoviária da Brisa para os voltar a pôr de pé. Ao intervalo, a equipa do Sporting dispunha de mais de 70% de tempo de posse de bola, concluindo-se, assim, que sempre que a bola saía do campo o tempo de (não) jogo contava para os separadores. 

“Será que Jesus já regressou?”; voltava-me ao pensamento enquanto esperava pela segunda parte. 

Os separadores de autoestrada voltaram e permanceram muito arrumadinhos a cumprir a sua função de separar. E assim se continuou o resto do tempo: de um lado, a baliza, do outro, a bola e os jogadores do Sporting. A bola continuou a embater nos separadores e os jogadores também. Os separadores continuaram a tombar, continuando a entrar também a assistência rodoviária da Brisa para os pôr de pé. Um ou outro separador foi ficando lascado de tanto tombo, sendo necessário substituí-lo, chegando a entrar um separador muito forte [na área da resistência dos materiais também se pode utilizar a expressão "gordo"?], um superseparador ou um separador em betão pré-esforçado, em linguagem técnica. No final, a equipa do Sporting dispôs de mais de 70% de posse de bola, contando como tempo de (não) jogo dos separadores as saídas de bola do campo. O jogo concluiu-se empatado, demonstrando-se a superior qualidade de construção dos separadores, apesar dos problemas de dimensionamento, com um centro de gravidade demasiado distante do chão, gerando problemas permanentes de estabilidade estática.  

Será que Jesus já regressou?

domingo, 19 de julho de 2020

Play it again Sam (II)


Sobre o trabalho invisível, já agora: 

Compras à patrão: Ilori (não para de nos esbofetear), Eduardo Henrique, Borja, V. Rosier e Doumbia (O Neto veio capitanear à borla);

Empréstimos bem enjorcados: Jesé, Bolasie e Fernando (risos);

Em banho-maria a ver se pega (até quando?): Phellype, Vietto (por um fio não se encontra nas compras à patrão), Camacho, Sporar (apesar de tudo) e Plata merecem a nossa paciência.

Potenciais reforços:

Antonio Adán: Quem? Deixa lá ver… um suplente profissional? Deve ser engano. Ou saldo.

Feddal: apesar do bom trabalho de alguns (recém criados) organismos de propaganda afectos à direcção (e da elogiosa opinião de Naybet que a estende a Taarabt – e ficamos conversados), na projecção da sua imagem como defesa central com um pé esquerdo único (esperemos que não seja literal), acreditamos que o seu potencial de Paulinho Santos da zaga se encaixaria melhor numa equipa em que sejam proibidas as expulsões, jogando, por exemplo, ao lado do Rúben Dias, ou como o novo cantinflas do Dragão. São mais as vezes que Feddal está lesionado ou de fora por castigo que as que joga.

Porro: se chega por empréstimo sem opção de compra é uma barriga de aluguer sem qualquer risco (bem pensado?): se jogar não fica e se não jogar não fica. Para um clube que quer ser campeão não está mal. O melhor é fumar outras coisas.

Parece que estão mais dois ou três reforços na panela de pressão das vendas e do mercado. Vamos andar na corda invisível até que rebente. É pena os putos…e o Sporting, já agora. 


sábado, 18 de julho de 2020

Play it again Sam


Catastroficamente, o ano não tem sido nada mau. Não fosse o covide tínhamos o 4º lugar garantido. Assim andamos na recta da meta a lutar pelo 3º lugar às costas dos putos. Um enfado. O planeamento foi quase perfeito, as contratações cirúrgicas, tão cirúrgicas que nunca as vimos. Dezasseis derrotas, quatro (ou cinco?) treinadores, não é nada de preocupante comparado com o trabalho desenvolvido de forma invisível, cujos resultados, de uma visibilidade inexistente, são frutos colhidos apenas ao olho nu do pensamento. O sonho mantém-se inabalável: a nova época já está em curso nesta recta final da pré-época, em verdade o seu planeamento virá da época anterior, fazendo parte de uma estratégia mais vasta pata ludibriar os nossos adversários ao mesmo tempo que se ludibria a si mesma. Ao alcance apenas de alguns eleitos. Temos fé, mas menos sócios.

Jesus vem a caminho da luz. Vieira viu a dita. Finalmente tudo faz sentido.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

O que é que é isto?!

Ontem, estive no Porto. Parecia Braga. Temperaturas elevadas, muito acima dos trinta graus. Regresso a casa por volta das 19.00h e ainda estavam trinta e quatro graus. À noite, vejo o jogo contra o Porto numa esplanada, continuando a temperatura acima dos trinta graus. O estádio estava sem público, despido, e uns tantos miúdos e outros tantos graúdos jogavam à bola. O esforço não era muito, sempre que envolvia a bola. Mas havia coreografia, muita coreografia, destacando-se Luis Díaz, jogador colombiano do Porto. O árbitro avaliava com nota artística elevada uma e outra das suas interpretações. Esperava que também fizesse o truque de magia habitual de serrar ao meio uma mulher metida num caixão, mantendo-se as perninhas a dar a dar. 

Esperava-se também que, ao intervalo, se negociasse o zero e zero e não voltasse nenhuma das equipas ou só voltasse o árbitro e o Seiva Trupe. Estranhamente, regressaram todos. O jogo continuava sem grande vontade. De repente, o Porto marcou um golo. Não compreendi. Na minha cabeça formava-se uma interrogação, uma perplexidade: “O que é que pretende o Porto assim a marcar golos?”. O Sporting estava a meter miúdos para os treinar e corriam o risco de num qualquer bambúrrio ainda levarem um golo de um ganapo da idade do meu sobrinho. E o Porto marcou outro golo. Na minha cabeça as interrogações adensavam-se: “Qual é o interesse disto, de andar a marcar golos? O que é que o Porto pretende com isto?”. 

Acabado o jogo, os jogadores do Porto desataram a festejar como se não houvesse amanhã. Não, não se compreendia. Marcam-se peladas e treinos para isto? Se fosse comigo, não jogávamos mais com eles. Depois começo a ver imagens de pessoas e pessoas nos Aliados e ao pé do estádio, na zona de Campanhã. Havia uma festa e ninguém nos disse nada? Pensando na pandemia e na necessidade de distanciamento social, finalmente compreendi: estava prevista uma manifestação pró-Bolsonaro, para contestar o Senado, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Será que não se pode fazer um “impeachment” e acabar com isto?

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Paulo Bento e Rúben Amorim e a geometria de Tex Winter e Phil Jackson

Jogávamos contra o Santa Clara que tinha enfiado quatro batatas ao Benfica de Bruno Lage, essa equipa enorme, tão grande quanto as maiores e, seguramente, demasiado grande para o futebol português, segundo Rui Santos. Uma equipa destas, com um ataque que passara como cão por vinha vindimada por galácticos como um Almeida, um Dias, um Ferro, um Grimaldo ou um Weigl, deixaria a ver navios pobres coitados como um Ristovski, um Quaresma, um Coates, um Acuña ou um Mendes. Respondemos a este desafio com uns violentos sessenta e sete por cento de posse de bola que nos valeram uns não menos violentos sessenta e sete por cento de cartões amarelos [o primeiro desses amarelos devia ter sido vermelho tal a violência do pisão na bola do Doumbia, mas ainda bem que o árbitro não interpretou assim porque não viu a bola queixar-se]. 

Nos jogos contra o Tondela e o Moreirense ficámos a conhecer a regra que permite agarrar o Coates sempre que ele pretende cabecear. Neste, ficámos a conhecer a regra que não permite que ele não se deixe agarrar. Temos assim os cantos e outras bolas paradas do ataque do Sporting transformadas no jogo da apanhada do Coates sem que o Coates possa fugir. Não compreendo o interesse de assim se jogar à apanhada se aquele que se pretende apanhar tem de ser sempre apanhado dê por onde der. Também não foi marcado mais um “penalty” a nosso favor, por falta sobre o Plata. No último jogo, contra o Moreirense, ficámos a conhecer a regra que permite dar dois “penalties” de avanço ao nosso adversário e, por isso, mais legítimo se torna só dar um, como foi o caso deste último jogo. 

Os árbitros têm-nos disponibilizado uma paleta (de combinações) de decisões que nos permite refletir sobre a perspetiva ontológica do sportinguismo. Preferimos ser roubados em dois “penalties” ou num “penalty” e num golo mal anulado? Preferimos ser roubados pelo árbitro e pelo vídeo-árbitro em conjunto ou por um só deles? A resposta a estas questões definir-nos-á sobre o ser do Sporting de todos e de cada um. Estas arbitragens têm-nos interpelado a uma reflexão sobre o nosso sentido coletivo mais profundo que, de outra forma, não se realizaria, perdida na espuma dos dias. 

O jogo, aquela coisa que envolve a bola e os jogadores, foi um aborrecimento de todo o tamanho. Salvou-se o espetacular golo do Jovane Cabral, depois de excelente movimento e melhor centro largo do Wendell ao segundo poste, e a entrada do Diogo Salomão para a equipa do Santa Clara na segunda parte. Por momentos, pensei que estava a ver a RTP Memória e vieram-me à cabeça nomes que constituem o nosso “Hall of Fame” dos anos oitenta e noventa, como Uchoa, Bukovac, Kikas, Hamilton, Bela Katzirz, Jason, Roger Wilde, Kaloga, Diallo, Fernando Cruz, Saucedo, Duílio, Forbes, McDonald, Peter Houtman, Rodolfo Rodriguez, Eskilsson, Ali Hassan, Miguel, Carlton Banze, Maside, Portela, Valtinho, Edel, Bozinowski, Guentchev, Tó-Zé, Barny, Carlos Jorge, Lemajic, Costinha, Luís Vasco, Afonso Martins, Mauro Soares, Ouattara, Skuhravy, Gil Baiano, Balajic, César Ramirez, Missé-Missé, Nenê, Didier Lang, Renato, Leão, Giménez, Ivo Damas, Kmet ou Krpan. Será que algum destes tinha lugar na nossa atual equipa? Talvez haja razões para a esperança. 

Palavra puxa palavra e uma ideia arrasta outra. “The Last Dance”, recente série da Netflix sobre carreira de Michael Jordan e dos Chicago Bulls nos anos noventa, deu-nos a conhecer Tex Winter, treinador-assistente de Phil Jackson, e o seu triângulo ofensivo. Entre 1989 e 2010, esta tática permitiu vencer onze títulos da NBA, seis pelos Chigaco Bulls e cinco pelos Los Angeles Lakers. Fascinam-me estas táticas que apelam a figuras geométricas, como, no futebol, o 4x4x2 losango do Paulo Bento ou, mais recentemente, o 5x2x3 pentágono do Rúben Amorim. O losango e o pentágono podem ser descompostos em múltiplos triângulos. 

O Paulo Bento fez milagres, dispondo da nossa formação, de um Caneira aqui e ali e de um ou outro estropiado de guerra, como o Romagnoli ou o Derley. Dispunha também do nosso Michael Jordan ou Kobe Bryant: Liedson, o insustentável levezinho. O Sporting era uma equipa chata, muito chata para qualquer adversário. Era difícil derrotá-la e vencia de goleada por um a zero, jogo após jogo. Em pleno Apito Dourado, o Paulo Bento manteve-nos a esperança durante quatro épocas. O Rúben Amorim parece pretender o mesmo: uma equipa que muito raramente se encontra descomepensada a defender e difícil de derrotar. Falta o insustentável levezinho. Por agora temos o Jovane Cabral. Repetindo: talvez haja razões para a esperança, mas será que chega?

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Acerca da pré-época do Sporting

Por via das limitações a viagens impostas pela pandemia de COVID-19, temos observado uma pré-época atípica. Ainda assim, não sei se por mérito do treinador, da gestão do futebol ou se por pura sorte, parece-me ser a mais bem planeada pré-época dos últimos anos.

Ao invés de viajar milhares de quilómetros até uma Suíça qualquer para jogar com uns nabos da 3a divisão local e receber banhos de multidão, optámos por uma versão mais barata, em que continuamos a jogar com (sobretudo) nabos, mas a pouca distância de casa e em estádios com muitas cadeiras vazias. Ao jogarmos com equipas treinadas por Pepas, Petits e afins, podemos afinar a nossa estratégia para lidar com a realidade do campeonato Português, ou seja, muita paulada, anti-jogo com fartura e autocarros de jogadores nos 30 metros em frente à sua baliza.

Sinto que esta abordagem vem permitir aos jovens estar mais preparados para o que aí vem, e perceber quais os mais velhos com os quais não vale a pena contar. Também se nota trabalho nas bolas paradas, que devem decidir uns 95% dos jogos aqui no campeonato cá do burgo.

Qual cereja no topo do bolo ainda se vai testando a resposta da equipa aos "contratempos" com as arbitragens. Quase parece a sério. Não fosse um espectador mais atento notar as 5 substituições por jogo e poderia pensar que as arbitragens eram de jogos mesmo a contar para o campeonato.

Até ao momento as coisas têm corrido bem. Depois de um empate em Guimarães, que acaba por ter a desculpa de ter sido no primeiro jogo da pré-época, foi sempre a ganhar, tendo apenas cedido um empate contra o Tiago Martins. Pelo caminho tem dado para ver muitos jogadores jovens, restando apenas saber qual deles vai ser o primeiro a ignorar as juras de amor que agora vai fazendo para trocar o Sporting por um clube qualquer do campeonato Grego ou que jogue para o meio da tabela de Espanha, França ou Inglaterra. Também se vai percebendo que existem uns quantos jogadores do Sporting que nem lugar no Belenenses de Lisboa tinham (quanto mais na SAD de Oeiras) .

Posto mais de um mês disto, estamos prontos. Vamos fechar em beleza fazendo uma festa de campeonato a um qualquer clube do Norte, e a festa de despedida do treinador de um clube de um bairro de Lisboa (ou a festa de boas vindas do treinador que não teve a devida festa de despedida - ou melhor teve uma despedida em tribunal). Faz sentido. Tanto se fala de pacificar o futebol Português, nada como alinhar nas festas dos rivais, desde que mantendo o distanciamento, claro está. E sempre com máscara, não vá alguém pensar que o Carnaval do nosso futebol é a sério.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Quim Barreiros e terceira república

Preparo-me para ver jogar o Sporting contra o Moreirense. Em Braga, às nove e um quarto da noite, estão mais de trinta graus. Procuro saber a temperatura em Moreira de Cónegos, aqui ao lado. Estão também mais de trinta graus [e não, nesta altura do dia ou da noite, não há sombra que valha aos jogadores!]. Não sei quem marca estes jogos para estas horas de segunda-feira e não para o horário tradicional de domingo ao princípio da tarde, pela fresquinha. Não deve ser ninguém que tenha lido “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”, de Orlando Ribeiro. Se é para continuar a jogar futebol durante este mês e no próximo, então os jogos deveriam ser todos marcados para a Apúlia, Ofir, Moledo, Vila Praia de Âncora ou Mindelo, aproveitando a influência atlântica e a não menos famosa nortada, desde que cada jogador esteja protegido pelo seu tapa-vento. 

Entretanto vi o jogo. 

A rapaziada estava há muito confinada e por isso [ou por outra razão qualquer, não interessa, nunca interessa] acabaria por desconfinar e iniciar-se-ia a ramboia do costume. No domingo, na habitual conferência de imprensa, o Amorim afirmou o seguinte: “Um dia perderemos, mas esse dia ainda não é na próxima semana”. Se repetida, semana após semana, esta afirmação encerra um paradoxo. Mas para se tratar de um paradoxo implica considerar desconhecido o futuro. Se assim não for, o que o Amorim nos afirmou é que simplesmente conhece os resultados antes dos jogos se realizarem [e sabia que hoje não perderíamos, mas que também não ganharíamos ou, de outra forma, está nesta altura a cortar os pulsos]. 

Mesmo na pré-época, os jogos do Sporting são verdadeiramente picarescos [ver a claque do Moreirense apinhada num género de varanda de um prédio que sobreleva o estádio foi um desses momentos picarescos]. Desde o treinador aos jogadores adversários, aos bandeirinhas, ao árbitro, ao vídeo-árbitro e aos comentadores da televisão, participam em exclusivo personagens patuscas, burlescas. Fossem realizados durante o salazarismo e o António Ferro tinha-se borrifado no Galo de Barcelos e nos ranchos folclóricos e transformado o Sporting e os seus jogos em símbolos da identidade nacional [do antigo regime, pensaria ele].

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Tática do pentágono

“Espero que o Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, Cardeal Ângelo Becciu, e o Papa Francisco estejam atento ao jogo de hoje porque o irmão Amorim se prepara para fazer mais um milagre!”. Esta mensagem de um amigo despertou a minha curiosidade. Mas um sportinguista que se preze sabe que o jogo, qualquer jogo, vai correr mal e preocupa-se mais com os suplentes (que terão de entrar, dê por onde der) do que com os titulares. Procuro saber da lista dos suplentes e descubro que, para o ataque, temos o Joelson Fernandes e o Tiago Tomás. Espanta-me não tanto os jogadores mas o facto de ainda estarem acordados aquela hora (fiquei o jogo todo à espera de ver uma das mães entrar pelo campo a mandá-lo para cama, levando-o por uma orelha para casa). 

Há tantas táticas quantas as cabeças. Há as lineares, as que apelam a figuras geométricas e as que as combinam. A que mais me fascinou sempre foi o 4x4x2 losango do Paulo Bento (o losango constituía referência para o posicionamento dos quatro jogadores do meio-campo), por ter o precedente histórico de Aljubarrota e de D. Nuno Álvares Pereira, Santo Condestável. O Amorim é radicalmente inovador e opta pelo 5x2x3 pentágono, constituindo a figura geométrica referência para o posicionamento dos três centrais e dos dois médios. Atente-se que um losango pode ser um quadrado, bastando que os quatros ângulos sejam retos, enquanto um pentágono nunca o pode ser. Um quadrado é um polígono, um losango é um polígono e um pentágono é um polígono e, como se demonstrou, nem todos os polígonos são iguais e uns são mais iguais do que outros. 

Esta aposta pentagonal inédita dispõe de uma grande virtude: deixa o Coates no vértice mais recuado e mais próximo do guarda-redes com um enorme raio de ação e sem sobreposição com o raio de ação do Eduardo Quaresma e do Borja. Este círculo transforma-se assim num buraco negro onde os adversários vão sendo sugados e desparecendo conforme dele se aproximam. No passado, com o Mathieu, havia respeito e compreensão mútua. O Coates cortava umas bolas, abafava uns adversários mas sentia-se obrigado a deixar fugir uma ou outra peça de caça para o seu companheiro do lado. Agora, não tem dúvidas, é tudo dele até onde a vista alcança. Por isso ou porque a equipa reage bem à perda de bola e pressiona de imediato o adversário, mesmo que tenha de recorrer à falta nos locais do campo onde devem ser efetuadas, a verdade é que existe mais consistência na defesa. 

A defesa está melhor e recomenda-se (mais um boa exibição do Max que começa a comparar com vantagem com o Rui Patrício para o mesmo estrato etário), mas o ataque é o que sobra, o que resta, não constituindo uma função autónoma. O primeiro golo é o resultado de se ter recuperado a bola e tão-só, tendo a bola se encarregado de fazer o resto. A bola procurou fugir o mais que pôde mas acabou sem sorte nenhuma. Fugiu ao Ristovski, fugiu da biqueira das botas do Plata, fugiu das canelas de um defesa do Gil Vicente, voltou a fugir do Plata, fugiu de outro defesa do Gil Vicente até ser apanhada em cheio pelo pontapé do Wendell. Esta falta de autonomização do ataque é que explica o atraso de calcanhar do Plata quando se encontrava completamente isolado, autolimitando-se em função do jogo (defensivo) de equipa. 

Na segunda parte, tudo parecia diferente. O Wendell isolou-se, procurou dominar a bola com todo o cuidado e encaminhar-se para o guarda-redes sem que restassem dúvidas sobre as suas intenções: atirar-lhe a bola à ventas com quantas forças tivesse. O guarda-redes ainda se tentou desviar, mas não teve tempo e não conseguiu. Logo a seguir, o defesa direito do Gil Vicente desmarcou o Plata para este dominar a bola e a encostar para o segundo golo (tentem imaginar que em vez do Plata era o Jesé). Foi uma prenda de anos, uma prenda dos 114 anos do Sporting. Fiquei à espera que, no final do jogo, os jogadores adversários fizessem uma rodinha e nos cantassem os parabéns também. A partir daquele momento, o único motivo de interesse era ver jogar o Tiago Tomás e o Joelson Fernandes. No entanto, 0 Doumbia ainda tentou estragar tudo, demonstrando cabeça de iniciado, mas era tarde de mais. 

Desde o desconfinamento futebolístico, registámos mais três pontos do que o Porto, mais oito do que o Benfica e mais nove do que o Braga. O Vítor Oliveira diz que não chega, é pouco. O Vítor Oliveira ganhou o estatuto de senador dos pobres, dos sobe-e-desce. Subiu de divisão uma série de clubes ao longo de várias épocas e tem o seu mérito. Contrariamente ao que se diz, no início da sua carreira teve as suas oportunidades. Andou pelo Braga e pelo Guimarães, de onde saiu pichado de alcatrão e penas. Percebe-se o ressentimento: podia ter sido um Peseiro, um Rui Vitória ou um Lage em mais barato. Não havia necessidade, sinceramente!

terça-feira, 30 de junho de 2020

Déca(lage)...


Depois de Mourinho (O Verdadeiro) começaram a despontar com regularidade novos Mourinhos (normalmente falsos). O próprio Mourinho (O Verdadeiro) após algumas derrapagens surge, a espaços, como o novo Mourinho, emergindo das trevas. O mais recente entre os tais novos Mourinhos era (o tempo verbal é mesmo esse) Bruno Lage. No final da época passada o jornal A Bola considerou fazer uma edição no seu formato anterior (standard ou broadsheet), aquele formato grande que aparecia na série Duarte e Companhia, para melhor destacar o advento do novo Mourinho.

Quem conhece o mundo das Repúblicas de Coimbra sabe que cada ano vale por cem. Cada comemoração de aniversário é apelidada de centenário. No futebol português, a passagem do tempo obedece a uma calendarização muito própria, condicionada por matizes nem sempre observáveis a olho nu. Assim, no espaço de pouco meses, novos Mourinhos desgastam-se tão rapidamente que se confundem com a poeira da ausência de memória. Ao desgaste da memória, junta-se um processo de mumificação de alguns jogadores, processo esse que nos faz duvidar que estes alguma vez tenham sido profissionais de futebol.

A escala do tempo geológico, caracterizada por diferentes tipos de unidades e períodos de tempo indefinidos, divididos em muitas eras, é assim subvertida por uma rapidez de processos que permite a fossilização rápida de alguns organismos recentemente reconhecidos pela sua genialidade. É daqui que vem a tal frase do futebolês : o que é hoje verdade amanhã é mentira.

Parte significativa (a que realmente importa) do nosso futebol é decidida fora das quatro linhas. E esse futebol merece os seus estádios vazios. Entretanto, um novo Mourinho estará na forja…

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Jovane Witt Nureyev Cabral

É insólito ver jogar o Sporting num campo que mais parecia o campo de treinos do Estádio do Fontelo, em Viseu, da minha infância e adolescência. Mais insólito ainda é começar por sofrer um golo do Belenenses SAD que tinha anunciado estar em “layoff”; e o golo foi marcado nem mais nem menos do que pelo Licá, jogador que se encontra reformado há um par de anos. Não se pode pedir aos jogadores do Sporting para também estarem atentos a uma situação que se encontra na esfera de competências da Autoridade para as Condições de Trabalho. Mas a equipa recompôs-se rapidamente porque era dia de homenagear o Mathieu e o primeiro golo foi uma lembrança, uma simpatia do Coates, seu colega de sempre. 

Não se pode descrever o segundo golo no mesmo parágrafo do primeiro. Não se mistura o género humano com Manuel Germano ou a beira da estrada com a Estrada da Beira. O Jovane Cabral marca depois de um movimento que ainda hoje não foi possível levar à prática nem na patinagem artística, nem no ballet, apesar das tentativas, quer de Katarina Witt, quer de Rudolf Nureyev, no século passado. O terceiro do Jovane Cabral na marcação de uma grande penalidade acaba por ter uma história curiosa [fico na dúvida se não devia mudar de parágrafo também]. Na primeira tentativa, ainda antes do remate, o guarda-redes sai da baliza, simulando para a sua direita mas acabando por se lançar para a esquerda, e defende com a ponta dos dedos a bola entretanto rematada. Como o guarda-redes se adiantou antes do remate, o árbitro manda repetir e, à segunda, o Jovane Cabral não perdoa. A curiosidade, a surpresa não é suscitada nem pelo “penalty”, nem pelo remate, nem pelo golo: cinquenta anos de sportinguismo depois, vejo um árbitro mandar repetir um “penalty” a favor do Sporting depois de uma primeira tentativa falhada. 

Não sei se estou preparado para viver com a aplicação das regras nos nossos jogos. Deixa de ser bingo e passa a ser futebol e abre-se um admirável mundo novo, em que não somos a equipa do campeonato com mais amarelos ou o Coates deixa de saltar sem dois ou três jogadores adversários às cavalitas. Muita coisa me passou pela cabeça: jogar contra dez ou nove jogo atrás de jogo; dispor de uma dezena de minutos de desconto sempre que conveniente; ver o Acuña a vociferar e a aviar adversários sem levar cartões; ouvir os comentadores da arbitragem explicar o inexplicável; ler n “A Bola” hossanas e hossanas à visão, engenho e capacidade de gestão de qualquer presidente com bigode. 

Ao intervalo, parecia que queríamos tornar este jogo ainda mais épico ao trocar o Jovane Cabral pelo Francisco Geraldes. Como adepto sportinguista, desconfi(n)ado por natureza, imaginei a transformação do milagre em tragédia, com títulos do El Pais e relatórios da Organização Mundial de Saúde a falar de “disaster recovery”. Mas, ao passarem minutos atrás de minutos sem ver ninguém a estrebuchar, moribundo, com uma das chuteiras de um jogador treinado pelo Petit atravessada na carótida, compreendi melhor o que se passou (passou-se?): negociámos um armistício que permitiu concluir o jogo-treino com o Borja, o Doumbia, o Battaglia, e o Ilori ao mesmo tempo em campo, como contrapartida a deixar o Jovane Cabral no banco. 

Temos a melhor equipa desconfinada da Europa e o melhor jogador desconfinado do Mundo. Os progressos são incríveis e vêem-se à vista desarmada em momentos de jogo tão simples como no olhar penetrante do Borja na sua habitual marcação com os olhos ou na troca de bola de pé para pé durante dois minutos dos referidos Borja, Doumbia, Battaglia e Ilori. O Amorim demonstrou que as aulas presenciais e o ensino formal mais não servem do que para destruir as competências das pessoas. Queremos continuar desconfinados mas sem início de ano letivo!

terça-feira, 23 de junho de 2020

Ato falhado

Um dos acontecimentos mais surpreendentes do futebol português registou-se no jogo do Sporting contra o Paços de Ferreira. O árbitro marca “penalty” contra o Sporting, que não existe, e mostra amarelo ao Coates, que se encontrava a uns largos metros do local onde a suposta falta se realizou, confundindo-o com o Borja. A confusão entre os dois jogadores é uma impossibilidade có(s)mica. Para além da distância, um é muito, muito alto relativamente ao demais e ao outro também; um é branco e o outro é negro; um é calvo e o outro guedelhudo; um tem barba e o outro tem a cara impecavelmente escanhoada. É quase impossível confundir dois jogadores tão distintos, um uruguaio e um colombiano, cujo único elemento em comum é a camisola. 

O acaso não explica este acontecimento, este fenómeno. Está-se em presença de um ato falhado. Havia uma intenção inconsciente, subliminar. Pode-se pensar que essa intenção seria a de mostrar o amarelo ao Coates ou a de marcar um “penalty” quaisquer que fossem as circunstâncias. Não tenho a certeza que assim seja ou que assim tenha sido. O ato falhado é outro. O árbitro marcou “penalty” sem certeza, sem completa consciência de a sua decisão estar correta, tendo tratado de encontrar um subterfúgio que a permitisse reverter, tal a evidência da troca de jogadores. Conscientemente marcou “penalty” mas inconscientemente tratou de arranjar forma de o anular.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Prontos para apresentação aos sócios!

Estamos em pré-época e a minha disponibilidade para compreender as experiências do Ferro e do seu novo treinador-adjunto é naturalmente generosa. Mais dois jogos destes e a equipa está em condições de ser apresentada aos sócios. Está na altura de nos apresentarem um francês entradote que tem um pé esquerdo que passa a bola sempre redondinha para os seus colegas; um uruguaio alto e espadaúdo que limpa de cabeça todas as bolas por alto; um puto que joga a central com alma até Almeida e um cabedal que impõe respeito e permite ganhar uma e outra vez o corpo a corpo com os adversários; um puto brasileiro no meio-campo que tem um pulmão que não acaba, está em todo o lado ao mesmo tempo e ganha bolas atrás de bolas, embora ainda um pouco faltoso; um outro puto que se parece com o que saiu para o Manchester United (Jovane Fernandes Cabral, será?). Há mais uns putos interessantes, como o lateral esquerdo e o guarda-redes, que, como os restantes, são desconhecidos de todos nós. 

Neste jogo contra o Tondela, registaram-se evoluções relativamente aos dois anteriores, contra o Guimarães e Paços de Ferreira, embora ainda continuem presentes as dificuldades mas também as virtudes do modelo de jogo adotado. A evolução esteve na pressão mais alta sobre a saída de bola do adversário e numa maior facilidade em a ganhar em terrenos mais adiantados se não à primeira pelo menos à segunda. Num ou noutro contra-ataque, a equipa também se reorganizou para defender. Na segunda parte, a defender, a equipa esteve sólida, compacta e sem dar abébias ao adversário. No ataque, ao se jogar com três centrais, privilegia-se em demasia o jogo exterior, sem movimentos interiores com a frequência desejada dos extremos e apoio dos médios, existindo uma só referência na área e inferioridade numérica no meio. O ataque parece viver da irrequietude dos putos e, em especial, da insolência do referido Jovane Fernandes Cabral (será?). As oportunidades foram poucas mas aproveitadas com enorme avidez, permitindo a vitória por dois a zero. 

A arbitragem não precisa de apresentação ou reapresentação. Houve trezentos e vinte e oito “penalties” a favor do Sporting. Em todas as situações, vimos marcar por muito menos. Um empurrão não se basta e é preciso recorrer à cinemática e à mecânica para se saber se é falta ou não, fazendo-me recordar os conceitos de torsor e de momento (o momento é a força vezes o braço ou a distância). Bola na mão ou mão na bola também depende de análises profundíssimas sobre a relação entre volumetria e movimento dos braços. Com mais ou menos ciência, não parece adequado é não penalizar a placagem do “arrière” da equipa de rugby do País de Gales ao alto e espadaúdo uruguaio. Como todos sabemos, no rugby, uma placagem sem bola origina uma penalidade e a possibilidade de, na sua conversão, se somar (mais) três pontos.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Ao longe


Ouvi dizer que o Silas Amorim vale bem um estádio Eu Sou. São portas fechadas, segredos por revelar, são coisas do mundo, só se podem ver… ao longe (como diriam os Heróis do Mar). Os jogos são patuscos, rodeados de sombras e imagens projectadas pelos nossos sonhos; das bancadas exala um odor a compadrio misturado com publicidade enganosa. O Belenenses SAD está nas suas sete quintas, habituado a rumores de catástrofes anunciadas, há muito que treina e joga à porta fechada. Os comentadores fazem gáudio da sua importância sociológica e televisiva, ruminando impressões, discutindo vitupérios, anunciando novos mundos com amanhãs cantantes. Os jogos - vamos lá ver isso - são panaceias violentas que escondem o verdadeiro jogo, onde os peões se escondem do rei e do papa, conforme a religião. Treinadores afirmam-se surpreendidos, adeptos procuram, nem sempre em vão, o melhor viaduto para arremessar as suas tristezas, outros sobem a árvores e a prédios para justificar a sua função humanitária. Os jornais voltaram à normalidade possível, dentro da impossibilidade de outra. Fazem-se capas marcantes. Outras distantes. Os festejos são efusivos. Com ou sem máscara. Tudo a céu aberto. A liga dos calmeirões aterrará em Lisboa. Estamos preparados. A aposta na formação acompanha as dívidas e as dúvidas dos mais inconformados. São coisas do mundo, só se podem ver… ao longe.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

#viettolivesmatter

O Rúben Amorim dispõe de toda a minha tolerância e boa vontade. A expetativa de voltar a ver jogar o Mattheus Oliveira é de tal forma que estou disponível para continuar a assistir ao desespero do guarda-redes, de três centrais e de dois médios para levarem uma e outra vez a bola para o ataque. A tática é a do Silas mas parece mais bem estudada e treinada, atendendo ao posicionamento mais avançado dos dois alas. 

Esta tática deixa a equipa sempre em desequilíbrio numérico atrás, ao meio e na frente, conforme a dinâmica de jogo. Hipotecam-se três defesas em vez de dois quando a equipa está a atacar. Quando não se tem a bola, deixam-se dois médios a ocupar o meio-campo e a lutar contra três ou quatro adversários. Os três da frente ou estão condenados a comportar-se como um grupo de paraquedistas ou de outra tropa especial qualquer junto à linha do inimigo ou se recuam, para receber a bola entrelinhas, correm o risco de trazer adversários com eles e assim congestionarem ainda mais o espaço da saída de bola para o ataque. Mas, tratando-se de jogos de pré-época, precisamos de tempo para se tirar conclusões definitivas antes de se arranjar mais um treinador-adjunto para o Ferro. 

A primeira parte foi um desespero. Desesperava pela substituição do Vietto quando este, só para me chatear, desmarcou primorosamente o Sporar que foi indo como se nada fosse até nada ter sido. Para me deixar na dúvida, o Vietto lesionou-se logo a seguir. O Vietto é aquele jogador tão falho de intensidade que desejamos sempre ver outro no seu lugar; desejamos até o vermos e, quando o vemos, nos lembrarmos que o Vietto tem sempre a possibilidade de tirar um coelho da cartola; quando o voltamos a ver num qualquer jogo a seguir voltamos ao mesmo e assim sucessivamente até ao fim dos tempos. A primeira parte foi isto e mais umas tantas traulitadas dos jogadores do Paços de Ferreira liderados pelo grande Pêpa, essa gente indómita sempre disposta a talhar madeira alheia. 

A segunda parte foi um desespero, mas um desespero diferente do da primeira, um desespero de outra maneira e por outros meios. Parecia que podia ser diferente quando o Jovane Cabral enfiou um balázio ao ângulo na conversão de um livre direto, fazendo o primeiro golo. Depois, o Matheus Nunes levou um amarelo ridículo e vimos entrar o Eduardo para o seu lugar (sim o Eduardo!), quando tínhamos o Mattheus Oliveira no banco. O Paços de Ferreira encheu-se de brios e tentou fazer pela vida, aproveitando os seus jogadores toda e qualquer oportunidade ou oportunidade nenhuma para se atirar para o chão. Mas o Eduardo Quaresma estava seguro, o Coates limpava tudo o que havia para limpar nas bolas aéreas e o Max tratava do resto; o Camacho transformava a bola numa rã sempre que lhe tocava; o Plata aquecia, coisa que nunca deixou de fazer desde que substituiu o Vietto; o Sporar desaparecia em combate e foi abatido ao efetivo; o Borja continuava a ser o Borja; o Acuña estava melhor, embora os cinco quilos a mais prejudiquem o seu futebol; o Francisco Geraldes prometia ler o Memorial do Convento e, se lhe pedissem muito, também o Manual de Pintura e Caligrafia ou o Levantado do Chão. Sobrava o Jovane Cabral, que continuou a demonstrar estar em melhor forma do que todos os outros juntos. 

O jogo não foi um desespero, apesar de quer a primeira, quer a segunda parte, o terem sido. Pelas duas equipas teria sido, mas um árbitro serve para isso mesmo: para transformar o desespero em farsa e a farsa em normalidade. Não viu um agarrão ao Jovane Cabral, que existiu, e viu um empurrão do Coates a um jogador do Paços de Ferreira, que não existiu. Vídeo-árbitro para a frente, vídeo-árbitro para trás, e tudo voltou ao (a)normal: fomos gamados, como se não tivéssemos sido; o Paços de Ferreira foi beneficiado, como se não tivesse sido. Tudo normal, tudo farsa, tudo desespero e vice-versa.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Silas 10.0 num jogo escanifobético (*)

Meses à espera de Godot e sai-nos uma versão do Silas. Nada contra, barretes há muitos, mas também os há em barato ou em caro. O Silas 2.0 seria só mais um. O Silas 10.0 não é mais um, é único. Amorim tem os mesmos “powerpoints”. Tem uma ideia de jogo, um sistema tático também. Apesar de tudo, mudou alguma coisa. Entrou o Eduardo Quaresma e o Matheus Nunes e colocou o Camacho a jogar na ala direita e um lutador de sumo na ala esquerda (mais tarde vim a saber que era o Acuña; penso que entretanto lhe explicarão que só abaixo dos cem quilos se conseguem fazer certas jogadas no futebol). 

Nos primeiros minutos, pensei que o júnior fosse um rapaz alto e loiro que jogava do lado esquerdo da defesa, um tal de Mathieu, pois parecia o mais novo. Nesses minutos iniciais, a cada dois passes perdia-se a bola. Os três centrais pareciam três tristes tigres: bola para um, bola para outro, bola para o guarda-redes, com o guarda-redes a ter a responsabilidade de virar o sentido do jogo, fosse com o pé direito fosse com o esquerdo (o seu pior). Pouco a pouco, a defesa do Guimarães foi-se demostrando um buraco a jogar adiantada. Cada bola nas costas era um ai Jesus, Nossa Senhora de Fátima nos acudam! Numa dessas circunstâncias, o guarda-redes teve de sair da área para enfiar uma peitada na bola, permitindo ao Sporar tirar-lha, agradecendo a delicadeza enquanto esperava que ela se aquietasse para a empurrar para a baliza. 

Sem saber ler nem escrever, estávamos a ganhar. No entanto, continuámos como se nada fosse a trocar a bola atrás entre os centrais, os médios e o guarda-redes, porque o a ideia de jogo e o sistema tático são para cumprir. Aumentada a pressão dos jogadores adversários, os do Sporting começaram a atrasar ainda mais bolas para o Max e cada vez mais à queima e para cima da linha de baliza, enquanto este continuava a manter a responsabilidade de a fazer rodar para o lado contrário com o melhor ou o pior pé. Tantas vezes o cântaro vai à fonte até que amor com amor se paga e o Max com a delicadeza do Sporar devolveu a delicadeza do guarda-redes do Guimarães. Assim se permitiu o empate sem se abdicar da ideia de jogo e do sistema tático. Até ao final da primeira parte, o Jovane Cabral teve oportunidade de dinamitar a defesa do Guimarães e o Vietto de demonstrar que é um Postiga com sotaque. 

Na segunda parte entrámos a jogar melhor. O Camacho começou a perceber melhor o seu posicionamento e o Eduardo Quaresma desinibiu-se, apesar do Battaglia continuar a tropeçar em si mesmo e nos adversários sempre que pretendia levar a bola para o ataque. O Jovane Cabral continuava indomável (pareceu o único a não se limitar a comer “fast food” durante o confinamento) e, partindo a defesa adversária, isolou o Sporar para este com toda a sua comprovada delicadeza deitar o guarda-redes e empurrar a bola para a baliza. O bandeirinha ainda marcou falta de distanciamento social (faltava esta!), sem se dar conta que o Sporar estava com um daqueles chapéus em forma de helicóptero que as crianças de Arcos de Valdevez usam. A perder novamente, os jogadores do Guimarães foram porfiando e, como se sabe, quem porfia sempre alcança, para descanso de todas as partes envolvidas, como se viu em seguida. O Jovane Cabral descansou-nos e descansou o treinador quando, voltando a fazer das suas, expulsou um jogador adversário, permitindo que a equipa assumisse definitivamente a sua ideia de jogo e o seu sistema tático sem mais excitações ou eventuais riscos de marcar mais um golo que fosse. 

Por mim, matadas as saudades, parava-se o campeonato mais três meses e voltávamos todos aos emocionantes “briefings” diários da Graça Freitas. Não sei quem é que convenceu o António Costa desta ideia de se retomar o campeonato, embora tivesse o bom senso de perceber que isto não é coisa que se possa ver ao vivo. Mas, sem público, o futebol desnuda-se, deixa de ser competição e passa a ser jogo exclusivamente e, no jogo, nada mudou em Portugal: houve o vinte e cinco de abril de setenta e quatro, a adesão à Comunidade Económica Europeia, o fim da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, a criação da moeda única, o Euro, a ascensão da China na economia mundial, o onze de setembro e o atentado às Torres Gémeas, a crise financeira internacional e das dívidas soberanas na Europa e, finalmente, a pandemia do Covid-19 e nada se criou, nada se perdeu, nada se transformou. Cinquenta anos de acelerado tempo histórico que para o futebol português foram um único momento. Dantes dizíamos que não se conseguiam ver os jogos do campeonato nacional, agora dizemos que também não se conseguem ouvir. 

(*) Resgatei este adjetivo da recente releitura dos “Casos do Beco das Sardinheiras”, de Mário de Carvalho.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

É pelas virtudes que se é melhor castigado*


A história é conhecida. O veredicto fora dado antes de qualquer julgamento. A praça pública, outrora um espaço de liberdade da cidade, é hoje um largo com esplanadas em forma de tenazes onde se depreda, à vista de todos, a vida de alguns cidadãos.

Um ex. Presidente do Sporting Clube de Portugal foi ilibado (e não foi o único) de todas as acusações que sobre si recaíam em tribunal. Por outras palavras: declarado inocente. É claro que ainda não transitou em julgado, mas atendendo à tristeza de alguns semblantes, o luto será longo e difícil de ultrapassar. Não esperava grande coisa de alguns comentadores e jornaleiros a soldo, nem dos rivais de sempre que não apreciam qualquer prova de força da nossa parte, mas acreditava que a Instituição Sporting, ou alguém em seu nome, se regozijasse com esta decisão sobre um seu ex. Presidente. Ponto. Já agora, este (o site do Sporting estava indisponível) comunicado oficial é, no mínimo, embaraçoso. E é isso que traz água no bico.

A análise da imprensa de hoje, mesmo para um observador desatento, remete-nos para a incredulidade dos ingénuos. Ou tomam-nos por imbecis. É como se não se tivesse passado nada. A matilha de pasquins do costume, sempre pronta para alinhavar um bom membro decepado expondo-o num plinto ao sol, para ser devidamente servido aos abutres, passa pelos acontecimentos como cão por vinha vindimada. O CM, sempre tão solícito em servir bons repastos, faz uma minúscula chamada de capa, anunciando, sem se rir muito, o “agressor de Bas Dost com pena suspensa”, o melhor que conseguiram para aconchegar o terror que os trespassou. O Record e A Bola dão um destaque mínimo na capa ao veredicto do tribunal, depois de terem feito, juntamente com o CM, mais de trezentas mil capas antecipando o veredicto e aspergindo a fogueira com combustível.  A imprensa dita séria, enredada num jornalismo de tarefeiros e sem qualquer capacidade para fazer investigação e reportagem, fica-se pela notícia e os lugares comuns do costume.

Como diz o Vítor Oliveira, que já não precisa disto para nada, o que vai começar agora é o futebol negócio. Eu diria recomeçar. Há muito que o jogo não interessa para nada se não vier devidamente embalado em comissões, altos patrocínios e respectivas alvíssaras.


(*Nietzsche)

A sorte só protege o acaso

O sorteio e o futebol português têm uma longa história em comum. Houve bolas quentes e bolas frias no sorteio dos árbitros. Houve sorteio dos árbitros tão, mas tão condicionado que o resultado nem precisava de ser anunciado. O único sorteio que tem resistido ao tempo é o do simples cara ou coroa no início de cada jogo para escolha de bola ou campo. 

No sábado, li no Expresso que se realizou sorteio para distribuição de testes positivos e negativos à COVID-19 pelos jogadores das diferentes equipas do campeonato nacional. Os onze testes positivos calharam todos a duas das dezoito equipas, sendo nove falsos positivos. Por outras palavras, o sorteio estava condicionado ou metia bolas quentes e bolas frias. Fica-se sem saber se a empresa responsável por este sorteio também foi escolhida por sorteio e, a ter sido, por que tipo de sorteio. É caso para desejar que o sorteio dos testes e o sorteio da empresa que sorteia os testes sejam feitos por estrangeiros, parafraseando o Presidente do Benfica.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Adepto desconfi(n)ado de água fria tem medo (*)

Cada dia que passa, estou a confinar e a desconfinar pior. Confinei bem quando só se podia confinar. Admito que também deconfinaria bem se se desconfinasse de vez. Dantes, estava em casa e saía quando me apetecia. Agora, estou em casa confinado e, se saio, desconfino-me para, no regresso, me voltar a confinar. Estar em casa é estar preso. Sair é gozar a precária do dia. 

Ontem, desconfinei-me para ir à livraria. À entrada, besuntei as mãos com álcool-gel. A sensação foi a de as meter num alguidar de azeite. Nestas condições, ninguém se arrisca a pegar num livro, não vá deixar-lhe uma nódoa de gordura ou escorregar-se-lhe entre as mãos. O ritual de pegar nos livros, ler-lhes a badana e folheá-los ficou seriamente comprometido. Procurei concluir as compras rapidamente antes que a máscara me deixasse com os óculos completamente embaciados. Comprei “Um Cemitério para Lunáticos”, de Ray Bradbury, autor de um dos livros de referência da minha filha, a distopia “Fahrenheit 451”, e “O Doente de Molière”, do recém-falecido Rubem Fonseca, como homenagem a um dos meus autores de culto.

Estava para me vir embora, quando dei com “Um tempo sem idades”, de Maria João Valente Rosa. Trata-se de um ensaio sobre o envelhecimento populacional. Nem o tema nem a autora são do meu especial interesse, mas a estética das edições da Tinta da China é irresistível e qualquer razão é uma boa razão para se comprar mais um livro. [Se o leitor conseguiu chegar até este parágrafo sem desistir, deve-se estar a perguntar porque razão continuou a ler até aqui. Talvez ainda tenha a expetativa de uma revelação. Nada de mais errado. Eu próprio cheguei até aqui sem saber bem como e ainda menos o que vou escrever daqui para a frente.

O livro da Maria João Valente Rosa começa com três citações quase de enfiada, uma de Cícero, outra de Darwin e outra ainda de Einstein. Esta última é a bem conhecida: “Não podemos resolver os nossos problemas com o mesmo modo de pensar que usámos quando os criámos”. [Neste momento, faço uma pausa para pensar como é que vou meter o futebol nesta balbúrdia de palavras e na sequência deste aforismo. “Força, vamos, tu consegues!”

Não precisamos de Einstein para saber que quando vimos uma tartaruga empoleirada num plátano é sinal de que alguém que a lá pôs. [Sim, é verdade, as tartarugas não trepam.] Quando vimos Pedro Proença, Luís Duque, Mário Figueiredo ou Fernando Gomes a Presidente da Liga também percebemos que alguém os lá pôs. Para abreviar, quem os pôs foram os mesmos de sempre que pretendem que tudo continue como sempre. Pelos vistos, há problemas na Liga e esses mesmos querem arrear o Pedro Proença, faltando saber a tartaruga que se segue ou se deitam a árvore abaixo. Nesta altura percebe-se melhor o aforismo de Einstein e a razão subliminar que me levou a comprar o livro. [Foi difícil mas acabou, para meu alívio e do leitor que teve a paciência de chegar até ao fim.]

(*) Estes títulos acontecem-nos quando não temos nada para dizer e nos dói a cabeça. O Blogger devia ter uma funcionalidade que impedisse os trocadilhos ou só os autorizasse em situações excecionais, como nas prolixas reflexões de Fernando Gomes.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Nada se parece tanto com a sabedoria como a imprecisão*


Ontem, numa das televisões que nos fazem acreditar que a loucura é um meio de comunicação em voga, um jornalista (?) comentador exultava com a volta do futebol (a sério?) e dos (sobretudo estes) programas sobre o dito. Na verdade, como nunca se fala de futebol nesses programas, o enchimento de chouriços até tem sido possível, através de algumas ligações via Skype ou zoom. Foi precisamente através de uma dessas plataformas de comunicação que o debate sobre o sexo dos anjos (ontem) decorreu, com a participação de um ex-jogador de futebol, que dissertava enquanto se debatia com uma praga de mosquitos, e uma jornalista mediadora a tentar incendiar a coisa, sem grandes resultados. Estaria mais gente mas não consegui aguentar a pressão.

O futebol volta (se voltar) porque nesta etapa de desconfinamento ( é assim que se diz?) precisamos de um pouco de circo e de entretenimento para as massas, sem esquecer a tal “indústria” que carece de uma mãozinha para conseguir pagar as contas. Os três clubes grandes juntos a uma mesma mesa quer dizer muita coisa. E futebol sem público é algo a que muitos estão habituados.

Uma mãozinha e parte de um pernil é o que o jornal Record vai dando a esta direção do Sporting. Hoje ficamos a conhecer o plano (mais um) Varandas. É uma bola altura para conhecermos (mais) um plano. Ficamos a saber que se a pandemia fosse o ano passado teria sido o colapso. Foi o tal ano preparado ao pormenor e cujos frutos estávamos a colher, absolutamente maravilhados. Ficamos a saber de mais um relatório interno que arrasa a herança das anteriores direcções (que originalidade!). E ficamos a saber que, não sabendo dos inúmeros imponderáveis, que podem ou não acontecer, não necessariamente por esta ordem, o plano poderá, eventualmente, ter de sofrer alterações, ou mesmo ser totalmente reformulado. Ninguém faz a mais pequena ideia do mundo que vamos encontrar amanhã. Ou depois. Mas é bom saber que temos (mais) um plano.

(*algures num texto de De Santis, "O Enigma de Paris")

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Sergio Moro a Presidente da Federação Portuguesa de Futebol!

Ouvi há dias, na Globo News, uma entrevista de Ciro Gomes, eterno candidato a Presidente da República do Brasil, sobre a recente demissão do Ministro da Justiça, Sergio Moro, do governo presidido por Bolsonaro. Trata-se de um ministro com imensa popularidade resultante do seu papel como juiz no megaprocesso Lava Jato que levou à prisão, inclusivamente do ex-Presidente Lula. Na sua demissão, Moro fez uma série de acusações a Bolsonaro de interferência na Polícia Federal e em processos judiciais em curso que o envolvem e aos seus filhos. 

A este propósito, Ciro Gomes construiu uma alegoria muito divertida. Disse qualquer coisa como isto: “Moro vivia numa penumbra entrecortada pela luz diáfana de uns candeeiros vermelhos e lilases, onde passeavam à sua volta senhoras com pouca roupa e de taças de champanhe barato na mão, e demorou dezassete meses a perceber que se travava de um prostíbulo”. Na segunda-feira, quando comecei a ler o Público e dei com um artigo de opinião de duas páginas de Fernando Gomes, Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, veio-me à cabeça essa alegoria. 

Fernando Gomes é Presidente da Federação Portuguesa de Futebol desde 2012. Foi Presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional de 2010 a 2012. Antes disso e desde 1994, exerceu vários cargos de direção no Futebol Clube do Porto e na sua Sociedade Anónima Desportiva. Fernando Gomes demorou vinte e seis anos a perceber que: “não se pode permitir que se vendam ilusões aos jovens”, “os orçamentos dos grandes clubes não podem estar dependentes das participações nas competições europeias”, “[se deseja] um jogo com mais qualidade técnica, menos faltas, mais respeito pelas arbitragens e mais respeito entre pares”, “os clubes têm de aceitar que as regras precisam de ser duras, apertadas e para cumprir”, “[é preciso] terminar este ciclo de violência física e verbal que nada tem a ver com o futebol”. 

Fernando Gomes é dado a epifanias. Já em 22 de setembro de 2017, numa outras crónica no Público tinha descoberto que: “é necessário que os clubes saibam encontrar pontes de diálogo naquilo que os une e deixem de permitir que os seus símbolos, a sua história e a sua força sejam capturados para a apologia do ódio”, “o clima que se vive no futebol profissional português é inimigo do crescimento e da afirmação da indústria e também um péssimo exemplo para os mais jovens”, “as críticas [às arbitragens], que muitas vezes são inspiradas em dirigentes com as mais altas responsabilidades, potenciam o ódio e a violência”, “o clima de ódio tem tido reflexo também entre os adeptos”, “existem sinais de alarme no futebol português”. 

Aparentemente, o puro e simples proselitismo rende e tem boa imprensa. Ninguém pede e muito menos exige responsabilidades. Hipocrisia por hipocrisia sempre prefiro a de Sergio Moro: as suas revelações necessitam de menos tempo e sempre é consequente com elas.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Logo agora que éramos os nórdicos do sul da Europa!...

O título e o subtítulo da recente reportagem do New York Times não podiam ser mais inquietantes. O Benfica é comparado a um estado soberano e os jornalistas interrogam-se sobre a (im)parcialidade dos seus adeptos quando se constituem simultaneamente como procuradores ou juízes dos processos judiciais que o envolvem. Este artigo diz mais do que somos como estado de direito democrático do que do Benfica como clube ou equipa de futebol. Parece de propósito, logo agora que nos consideravam os nórdicos do sul da Europa ou a sétima democracia mais avançada do Mundo. 

Este confinamento permitiu-me retomar a leitura de alguns livros que por uma ou outra razão tinha deixado a meio. Um deles foi “Porque Falham as Nações”, de Daron Acemoglu e James A. Robinson. É um ensaio histórico que procura explicar a relação entre a natureza das instituições – inclusivas ou extrativas – e a sustentabilidade do desenvolvimento económico e da prosperidade dos países. Aparecem figuras (figurões, melhor dizendo) como Mugabe, no Zimbabué, Kabila e Mobutu, no Zaire, Siaka Stevens e Joseph Momoh, na Serra Leoa, Karimov, no Usbequistão, ou Mubarak, no Egipto.

De acordo com os autores, o progressivo afastamento dos países mais e menos desenvolvidos não se deve a diferenças na qualidade e quantidade dos fatores de produção, no acesso à tecnologia, mas à evolução das suas instituições como resultado da sua interação com conjunturas críticas, desde a Peste Negra, à (des)colonização ou ao desmantelamento da União Soviética. Pequenas diferenças institucionais à partida determinam evoluções diferenciadas após essas conjunturas em instituições como o direito de propriedade, a representação popular ou a independência da justiça. Depois da Revolução Gloriosa, na Inglaterra, ou da Revolução Francesa, na França e Europa ocidental, assistiu-se à transformação das suas instituições, tornando-se mais (e mais) inclusivas. Em contrapartida, por exemplo, as instituições extrativas do colonialismo espanhol, português, britânico, francês ou holandês foram simplesmente apropriadas pelas novas elites políticas e económicas para seu benefício após a descolonização. 

À falta de algo melhor em que pensar, entretive-me a analisar a evolução do futebol português a partir de idêntica perspetiva institucional da sua história recente e, em particular, das suas conjunturas críticas. Talvez a primeira conjuntura crítica dos tempos mais recentes tenha sido a constituição da Liga Portuguesa de Futebol Profissional como organismo autónomo da Federação Portuguesa de Futebol responsável pela organização das competições profissionais, associada à criação das Sociedades Anónimas Desportivas. Pareciam existir condições para um tempo novo, com os clubes transformados em empresas cotadas em bolsa e o futebol em indústria regulada que permitisse a atração de investimento e investidores. Rapidamente o “establishment” se recompôs e tivemos Valentim Loureiro como Presidente da Liga praticamente de 1992 a 2005, com o interregno de 1994-95, com Manuel Damásio e Pinto da Costa.

A segunda conjuntura crítica surge exatamente no fim desse ciclo, com o Apito Dourado, mas as mesmas instituições extrativas e os seus representantes continuaram a resistir sem grandes mazelas, com os dirigentes a manter-se e os árbitros também. No entanto, envolvidos nesse escândalo, Valentim Loureiro desaparece e Pinto da Costa perde influência, emergindo o Benfica e Luís Filipe Vieira. A sua afirmação de que são mais importantes lugares na Liga do que contratações de bons jogadores, em resposta à contratação de Jankauskas (ex-jogador do Benfica) pelo Porto, era o prenúncio da necessidade de tudo mudar para que tudo ficasse na mesma, parafraseando Lampedusa. Da colonização passou-se à descolonização e nada mudou, com exceção da hegemonia. 

A terceira conjuntura crítica foi a sucessão de casos com nomes extravagantes (“mala ciao”, “e-toupeira”, “vouchers”, “emails”, etc.) envolvendo o Benfica, mas não houve pressão da opinião pública para que se mudassem as instituições. Ficou a denúncia, mas não foi aproveitada para a mobilização da opinião pública para essa mudança necessária. Nessa conjuntura crítica, Bruno de Carvalho e Pinto da Costa tiveram a oportunidade de obrigar o poder político a intervir, recusando-se pura e simplesmente a continuar a participar no campeonato. Cada um à sua maneira, mais Pinto da Costa do que Bruno de Carvalho, procuraram tirar benefícios de curto prazo mas sem a apresentação de plano radical de alteração das instituições assente na mobilização dos seus milhões de adeptos. Como sempre, no Sporting, não se consegue compreender a grandeza histórica e a dimensão do clube e muito menos transformá-las em poder de influência efetivo. 

E chegámos ao ponto de os mesmos dirigentes do futebol que nos envergonham como povo se sentarem à mesa com os nossos representantes eleitos democraticamente para negociarem um estado de exceção no contexto da pandemia do Covid-19, sem qualquer condição ou contrapartida de reforma institucional. Num mar de dificuldades onde se encontram os portugueses, cancelam-se competições, concluem-se as temporadas das restantes modalidades, deixando em dificuldades financeiras atletas de enormes méritos, e permite-se que no futebol profissional tudo possa continuar para que continue a roda dos milhões sem origem nem destino conhecidos. Voltam os velhos tempos, calando-se os profissionais qualificados de quem a nossa vida e a vida dos nossos concidadãos dependeu e depende para se ouvirem os cartilheiros do costume. Tenham vergonha e não nos envergonhem!

terça-feira, 28 de abril de 2020

Onde está o Wally?

(clicar na imagem para aumentar)

A pergunta é pertinente: existe alguém nos tribunais sem ligações ao Benfica? Existe: quem se senta no banco dos réus. É a história da juíza-adjunta cliente do tal advogado, o juiz benfiquista e a sua avó desalmada, são os casos (de quem ninguém faz caso) dos vouchers, emails, Lex e e-toupeira, já para não falar da propaganda benfiquista nas televisões e jornais. Recentemente até o The New York Times publicou uma reportagem sobre o clube da luz referindo-se-lhe como um estado dentro do estado: ou o próprio estado (das coisas) soberano. Por falar em propaganda, hoje no jornal A Bola, Fernando Guerra, na sua rubrica Vamos Conversar, publica um verdadeiro panegírico à direcção do Benfica e à sua gestão, deliciosamente intitulado: só o Benfica resiste. Nem uma palavra, uma alusão, um roçar de pensamento, sobre quaisquer dos casos acima referidos, ou sobre a (honrosa) reportagem do New York Times. Deixo outra pergunta para finalizar: e se invés dos juízes (árbitros) de futebol estrangeiros arranjássemos juízes de outros países para os nossos tribunais? Estava a brincar, deixem o Wally em paz... 

quinta-feira, 23 de abril de 2020

A incrível e triste história do juiz benfiquista (e da sua avó desalmada)

Pode um juiz benfiquista julgar um caso que envolva o Benfica? É uma pergunta simples que remete para uma resposta também simples não sem que antes nos vejamos em palpos de aranha para a encontrar. 

Um juiz é titular de um dos três órgão se soberania numa democracia plena: o poder judicial. Contrariamente aos outros dois – poder legislativo e poder executivo – estes titulares não são eleitos pelo povo, não se encontram submetidos ao escrutínio popular. Poder, muito poder, e escrutínio exclusivamente pelos pares. O poder (e a sua legitimidade) anda a par da responsabilidade e quanto maior o poder, maior a responsabilidade. 

A nossa identidade é plural ou, melhor dizendo, dispomos de múltiplas identidades. Somos homens ou mulheres, casados ou solteiros, portugueses ou naturais de outro país, do norte ou do sul, do este ou do oeste, da cidade ou do campo, de um clube ou de outro. Somos tudo isto e somos o que fazemos. As identidades complementam-se. Têm um tempo e um espaço e, por isso, no seu tempo e no seu espaço uma não sobreleva outra. Quando uma se sobrepõe a todas as outras estamos mais próximos da barbárie, como nos explica Amartya Sen em “Identidade e Violência”. 

O benfiquista Registo dispõe de uma página de Facebook. O benfiquista Registo expõe publicamente o seu benfiquismo e, como benfiquista fanático, escreve e partilha umas alarvidades sobre futebol, julgando adversários, árbitros e Rui Pinto. Calhando-lhe em sorteio julgar o processo "Football Leaks", o juiz Registo apagou das redes sociais o benfiquista Registo, como se dessa forma deixasse de ser também o benfiquista Registo. O juiz Registo pediu escusa do processo ao Tribunal da Relação de Lisboa. O juiz Registo entende que deve ser um tribunal superior a decidir se tem ou não condições para julgar o caso de Rui Pinto, “tendo em conta o que saiu na comunicação social”. O juiz Registo não desmentiu nada do que “saiu na comunicação social”. 

Em teoria, nada impede que o juiz Registo julgue este caso. O juiz Registo é uma das suas identidades e o benfiquista Registo outra. Quem considera que está impedido de o julgar é o juiz Registo. Se considerasse que o benfiquista Registo é independente do juiz Registo, o juiz Registo não teria apagado o benfiquista Registo das redes sociais. Não, não precisa de ser um tribunal superior a decidir quando ele já decidiu. Não, não precisa de se justificar com o que “saiu na comunicação social”, quando justificou a si próprio a sua renúncia ao renunciar ao benfiquista Registo. 

Pode um juiz benfiquista julgar um caso que envolva o Benfica? Pode, como pode um juiz sportinguista ou portista julgar casos que envolvam o Sporting ou o Porto. Ser de um clube é uma parte do que se é e essa parte não necessita de interferir com o resto do que se é também. O caso particular do juiz Registo é diferente. É o próprio juiz Registo que considera que o benfiquista Registo interfere com a sua função de fazer justiça. Mas o problema não é o juiz Registo; o problema são os assintomáticos.

terça-feira, 21 de abril de 2020

A normalidade (im)possível


Dito de cor, não precisamos de olhar lá para fora para percebermos que a cidade está vazia (já esteve mais). A “normalidade” é agora uma noção anómala sujeita a variadíssimas oscilações. Como era? Como vai ser? A normalidade nunca é igual para todos, em dado momento. O futebol não é um mundo à parte mas comporta-se como tal. Vivendo muito acima das suas reais possibilidades (não apenas em Portugal, mas em todo o lado), assemelha-se a um balão inchado, extremamente dependente de quem lhe sopra as golfadas necessárias à sobrevivência (publicidade, televisão, mecenas bem e mal intencionados, maquinaria de lavagem de dinheiro, apostas), devidamente municiado pelas instâncias internacionais a seguir os bons exemplos: UEFA e FIFA. Alguém acredita nisso?

Também o futebol vai precisar de ventiladores e de passar algum tempo nos cuidados intensivos. Também o futebol será alvo de incontáveis metáforas. A sua indústria, como alguns gostam de lhe chamar, é um artifício meramente especulativo. Onde se encaixam os adeptos, os associados, nestas andanças? Perguntem aos ansiosos comentadores dos intermináveis programas da normalidade passada, uma lateralidade história (e histérica) que gravita, hoje em dia, algures, entre o FIFA 20 e o canal história. O programa mais transferências, apenas terá mudado de nome para menos (ou nenhumas) transferências. A vida não pára. 

A competição vai voltar, anuncia o jornal A Bola. Não se sabe (apenas) em que moldes. O Record mostra os jogadores do Sporting trajados de vida caseira, separados por não sei quantos metros ou campos, o bastante para umas fotografias. A normalidade (im)possível. Quando era puto havia o jogo da bola invisível, nunca pensei ser possível o jogo com jogadores invisíveis e adeptos inexistentes. Fica só a bola. Dá para matar o bicho, para quem tem fé.

Nota: A aragem financeira para os lados de Alvalade não corre de feição. Até aí, a normalidade não descamba. Todavia, o lay-off imposto à generalidade dos funcionários mostra, à evidência, que as notícias da negociação recente de um treinador por valores que rondavam os dez milhões de euros, só poderiam ser manifestamente exageradas. Caso contrário, lá teríamos que ferrar o cão.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Ferrar o cão

Há notícias de que não pagámos os 10 milhões de euros pelo Rúben Amorim ao Braga. Estranhamente, muitos dos que criticaram por pagarmos 10 milhões de euros pelo Rúben Amorim ao Braga são os mesmos que agora criticam por não pagarmos 10 milhões de euros pelo Rúben Amorim ao Braga. A única coisa que se sabe de ciência certa é que não há evidência empírica de que pagámos 10 milhões de euros pelo Rúben Amorim ao Braga. Concluindo, as notícias de que pagámos 10 milhões de euros pelo Rúben Amorim ao Braga eram manifestamente exageradas.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Futebol faz de conta

O futebol como organização constitui um imenso faz de conta. Faz de conta que tem leis e justiça própria. Faz de conta que as regras se cumprem e não há concorrência desleal. Faz de conta que se trata de um Estado dentro de cada Estado. Este faz de conta é de tal forma convincente que os seus protagonistas acreditam que assim é e fazem acreditar os outros também. A convicção é de tal forma que nem a pandemia do Covid-19 os demove de continuarem essa representação. 

Sem espanto, assiste-se a uma discussão entre a FIFA, a UEFA, as federações e as ligas sobre a conclusão dos campeonatos, como se essa decisão lhes coubesse. Aparentemente, não lhes passa pela cabeça que só haverá jogos à porta aberta ou fechada quando os governos dos diferentes países assim o decidirem (e ponto final) e que essa decisão não se encontra propriamente no topo das suas prioridades. 

Em Portugal, a Federação, a Liga e o Sindicato vão se entretendo a discutir redução de salários e eventual “layoff”. A discussão anda entre os trinta e os cinquenta por cento de redução dos salários e os clubes acordaram não efetuar qualquer contratação de um jogador que rescinda o seu contrato com justa causa. Pelo caminho, jogadores do Aves vão rescindindo, alegando o não pagamento (de todo) dos salários. Será que eles são completamente estúpidos para não perceberem que é preferível receber setenta ou cinquenta por cento de nada do que nada mesmo?

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Inconsolavelmente fiel


Estive a rever (uma grande parte) o AZ Alkmaar– Sporting no canal 11. O isolamento social dá para tudo, inclusive para isso. Durante o prolongamento (isto é verdade), o de hoje claro, não revivi os momentos em que vi na altura o jogo, perto de uma taquicardia arrítmica (não sei se isso existe, mas lá que parecia, parecia), segundo consta, mas vivi-o estranhamente, como se fosse a primeira vez, e eu fosse uma espécie de vidente, ou tivesse consultado um oráculo e soubesse que ia correr tudo bem. Deve ser por ver isso escrito hoje em dia nas janelas e elevadores: vai correr tudo bem ou vamos todos ficar bem, eu sabia, eu sabia. E depois no final do final de tudo o Tello marca o canto, uf, estava a ver que não, o Garcia marca golo e toda a equipa marca golo, toda a equipa festeja, cada um a correr desvairadamente para o seu lado (como quando se corta a cabeça a uma galinha e esta desata a correr), até que alguns jogadores se encontram, incrédulos, como nós nos encontramos até hoje. Foi a última vez que o Peseiro teve uns gramas de sorte. A última. A partir daí não reza a história. Obrigado na mesma.