sábado, 16 de março de 2019

Enquanto os outros não jogam, folgam as costas


Menos de vinte e cinco mil pessoas em Alvalade (começa a ser normal). Mais algumas a assistir em casa ou no café. Treinar mais, com mais tempo, pelos vistos não é melhor. Mas deve dar para ver que Doumbia é um bocadinho melhor que o Gudelj. A semana tinha sido interessante em termos de faca e alguidar e alguns ressabiados trouxeram do carnaval a fantasia de messias; fantasia essa que volta e meia paira junto à estátua do leão. A nossa fantasia deveria ser apenas o Cristiano Ronaldo (ou, talvez, a Georgina). É o mais próximo que um dos nossos estará do Olimpo.

Isto tudo para não falar do jogo. O adversário demorou mais de meia hora para passar do meio campo. Deve ser a isso que os treinadores chamam de exibição conseguida. O Sporting quando não tem um adversário arranja sempre um. Nem que seja dentro de portas. Fizemos de tudo para não chatear demasiado o nosso oponente, ao mesmo tempo que tentávamos lançar no mercado uma nova gama de soporíferos. Quando chegou o intervalo foi um alívio para todos.

A segunda parte abriu praticamente com uma perdida do Raphinha. Logo a seguir uma bola, sabe-se lá bem como, chegou aos pés de um nosso adversário em frente à baliza, o qual, atónito, ainda olhou para o treinador a perguntar se era para marcar, a resposta foi qualquer coisa como acerta num dos gajos, um golo da nossa parte não faz parte da estratégia. E assim foi, o tipo chutou contra o Ristovski que era quem estava mais à mão. Da nossa parte, a estratégia não englobava qualquer golo de bola parada, principalmente de canto (e foram uns quinze). Mas não dizia nada na folha de serviço sobre marcar a partir de um lançamento lateral.

O Acuña que jogou muita bola lá no bairro sabe bem a importância de um bom lançamento para um companheiro que esteja à mama. Neste caso apenas desmarcou o Fernandes que já fez este ano duas voltas ao mundo em quilómetros corridos, enquanto a equipa adversária tinha adormecido com aquele medicamento que tínhamos distribuído na primeira parte. Contra o Bruno Fernandes não há estratégia que valha, o passe foi meio golo para o Raphinha brilhar.

A partir daí o treinador adversário fingiu que estava desiludido com o resultado. O Keiser que já sofre da síndrome portuguesa de que mais vale um pássaro na mão do que dois a voar, fingia que ia mexer para tentar matar o jogo. No meio disto tudo não admira que a bola não entre nas balizas. A não ser por um acaso, ou num lance trabalhado, como um lançamento de linha lateral com a equipa adversária a dormir.

quarta-feira, 13 de março de 2019

A Lenda e a Maria Albertina

[A Lenda] 
Não vale a pena dizer muito mais sobre o que fez o Cristiano Ronaldo ontem no jogo da Juventus contra o Atlético de Madrid. Tudo está dito e só vale a pena acrescentar que é dos poucos jogadores que se transformou numa lenda ainda durante a sua carreira. Daqui a muitos anos, muitos pelo mundo fora dirão aos netos “eu vi jogar o Cristiano Ronaldo” e contarão os seus feitos e, especialmente, os seus golos. Muitos, mas menos, dirão que o viram jogar com a camisola do seu clube. Poucos, muito poucos dirão que o viram jogar pela primeira vez e marcar o seu primeiro golo com a camisola do seu clube no seu estádio. Não aprecio especialmente as homenagens e muito menos em vida. Mas, quando o Cristiano Ronaldo deixar de jogar, devemos mandar fazer uma estátua à frente do Estádio de Alvalade para que se transforme num lugar de culto para todos aqueles que amam o futebol. 

[Maria Albertina] 
Jesus, o Jorge, ressuscita de vez em quando, não para a redenção do Homem e a sua salvação, mas para declarar ao Mundo as suas descobertas que vão desde o remédio para a queda do cabelo à tabela periódica. Há sempre um pé de microfone que aparece nos locais mais improváveis, nos aeroportos, num restaurante, “wherever”, para lhe permitir transmitir ao Mundo as suas revelações e descobertas. Há dias revelou que o Sporting estava definitivamente arredado da disputa do campeonato, contrariamente ao que aconteceu nas três épocas em que foi treinador da nossa equipa. Depois de um colapso organizativo, com três direções em meia dúzia de meses e três treinadores durante o mesmo período, estamos com mais um ponto do que na época de 2016/2017 por esta altura e a menos quatro e três pontos, respetivamente do Benfica e do Porto, não dispondo de descobertas suas como o Elias, o Marković, o André, o Campbell, o Castaignos ou o Alan Ruiz. No Sporting só ganhou mais uma coisa do que todos os outros: dinheiro.

segunda-feira, 11 de março de 2019

The Benny Hill Show

Os jogos do Sporting não podem ser apreciados pelo futebol praticado mas como espetáculos do mais puro e simples entretenimento. A equipa do Sporting faz a sua parte mas sem a prestimosa colaboração da equipa adversária, dos árbitros e dos comentadores durante e após o jogo (?) o espetáculo não funcionaria. Este jogo contra o Boavista tinha todos os condimentos para se transformar num episódio do “Benny Hill”: uma equipa baseada num dos ancestrais princípios do futebol português do “abaixo do pescoço é canela” com um treinador patusco que entra em campo para placar jogadores adversários e na “flash interview” ou na conferência de imprensa que se sucedem aos jogos diz coisas surpreendentes e engraçadas. Quem viu o jogo não deu o tempo por mal-empregado. 

Os do Sporting iniciaram a partida com imensa vontade de nos divertir e fizeram-no logo aos três minutos. Livre a favor do Boavista, corte de cabeça do Luiz Phellype para o interior da grande área, escorregão do Coates, Ristovski a disputar o lance em ajuda ao colega, bola a bater no cocuruto da cabeça de um jogador adversário e a ressaltar na canela de outro, enganando o Renan Ribeiro e colocando-nos a perder por um a zero. Não há culpados, há excelentes atores que interpretaram uma cena impossível deste guião. Os minutos seguintes trouxeram-nos as cenas do guião a que estamos habituados. O Boavista nem sequer pressionava a saída da bola da nossa defesa e concentrava os seus jogadores nos últimos trinta metros, que iam batendo em tudo o que mexia. Na linguagem da dramaturgia futebolística, o árbitro aplicava um critério largo, representando o seu papel de forma convincente, chegando à tradicional cena de ir conversar com um jogador do Boavista que tinha varrido o Acuña para o informar e para nos informar com gestos enérgicos e decididos que as coisas assim não podiam continuar. As coisas continuaram e acabou por mostrar um amarelo a um dos jogadores do Boavista, tendo mostrado logo a seguir outro ao Gudelj sem qualquer diálogo prévio, admitindo, e bem, que tinha ouvido a conversa anterior. O empate acabou por aparecer porque os jogadores do Boavista não quiseram representar pior do que os do Sporting e, por eles, os ressaltos não escolhem baliza. 

O comentador da SporTv procurava encontrar uma lógica e um propósito para o que íamos vendo, explicando-nos todo e qualquer lance como algo de previsível. Não tenho dúvidas que se entrasse um javali em campo acossado por uma matilha de cães e tiros de caçadeira nos transmitiria que “já se previa”. Atento aos pormenores do jogo, que tanto podiam ser um franzir de sobrancelhas ou um ajeitar de melena, viu a meio da primeira parte um avançar de linhas do Boavista e uma pressão sobre a bola mais à frente. Não são coisas que vejam a olho nu. É necessário aparelhagem sofisticada de nanometrologia para as ver ou a um ácaro num dos borbotos do “pullover” do Vidigal. Dá a ideia que esta parte do guião é sempre a mesma, é uma cartilha, ou uma cassete como a que recorrem os partidos políticos, que à custa de se repetirem umas tantas afirmações se confunde (falta de) coerência com razão. 

A segunda parte trouxe-nos persistências e novidades. Os do Boavista passaram a atirar-se para o chão mais amiúde, embora continuando a acertar forte e feio nas canelas dos do Sporting. As caneladas e os mergulhos davam origem a faltas sem distinção técnica e disciplinar, equiparando o árbitro assim aquilo que no futebolês contemporâneo se designa por “intensidade” de uns e outros lances. Com o aproximar do fim do jogo, passaram também a adoecer, enquanto na SporTv se efetuava o diagnóstico clínico e se concluía pela fadiga e desgaste físico como se, por oposição, os do Sporting tivessem jogado sentados. As oportunidades de golo do Sporting sucediam-se enquanto na SporTv nos alertavam para os perigos do contra-ataque do Boavista que ninguém viu e muito menos as suas consequências, bastando perguntar ao Renan Ribeiro se se lembra de ter efetuado uma defesa sequer. 

Estava-se nesta “Crónica de uma Morte Anunciada”, quando, dentro da área, um defesa do Boavista pregou uma estalada no Raphinha. O árbitro marcou “penalty” e assistiu-se à habitual manifestação do direito à indignação, com a música de fundo da SporTv sobre a “intensidade”. Na dramaturgia como na vida, os estragos dos estalos não se medem pela vermelhidão da bochecha do atingindo mas pela ferida no mais intimo e profundo de cada um, na alma, no orgulho. Numa peça como esta o árbitro tinha de marcar “penalty” para resgatar o orgulho ferido do Raphinha. Esta não era a peça que os do Boavista pretendiam representar, como ficámos a saber pelo jornal “A Bola” do dia seguinte ao informar-nos que Jorge Loureiro, filho de Valentim Loureiro, desferiu murros na nuca de Miguel Nogueira Leite, membro do Conselho Diretivo do Sporting, sem que tivesse sido marcado qualquer “penalty”, evidenciando-se a dualidade de critérios. O Bruno Fernandes marcou o golo da ordem e se não fosse a intervenção final do treinador Vidigal mais não havia a contar sobre este jogo. Iniciou a “flash interview” como a habitual teoria da conspiração para eliminar o último sobrevivente de Auschwitz até que, entusiasmado, se referiu à injustiça do resultado perante as oportunidades criadas pelo Boavista, tendo-lhe dado uma branca quando as pretendeu enumerar. 

Estas peças do Sporting têm a vantagem de se prolongarem muito para além dos noventa minutos de jogo, tal o interesse que despertam. N’ ”A Bola” do dia seguinte, um comentador (de teatro) explica-nos que houve um “penalty” perdoado ao Sporting, por falta de Acuña sobre o Perdigão, embora, a propósito da interpretação da UEFA destes lances, nos informe ao mesmo tempo que “a infração não foi óbvia, clara e evidente”. Explica-nos também que o Sporting foi beneficiado com um “penalty”, apesar de o Raphinha ter sido “tocado, no pescoço, pelo braço esquerdo de Edu Machado [… e] o contacto ter sido evidente”. Se bem o percebemos, o que é “evidente” não é e o que não é “evidente” é, nas suas próprias palavras, parafraseando às avessas o conhecido “nem tudo o que parece é”. Os comentadores vêem coisas nos jogos que não se vêem a olho nu. Ou recorrem a aparelhagem sofisticada de nanometrologia, como referi atrás, ou, então, fumam um produto que os deixa muito bem-dispostos. Se for a segunda, avisem, pois gostava de experimentar para ver os jogos mais divertido. 

domingo, 10 de março de 2019

PH é uma escala numérica utilizada para especificar a acidez ou basicidade de uma solução aquosa.


O Marcel Keizer disse quase tudo na conferência de imprensa antes do jogo: não era decisivo (o jogo), o Boavista era uma equipa com vista histórica para o panteão europeu dos que lá vão fazer de figurantes (mais ou menos como o Sporting), e o resto (o que se passa no Sporting) não era (nem podia ser) da competência da equipa de futebol profissional. Ficamos descansados.

Ainda estávamos descansados quando sofremos o golo da praxe. Impõe-se uma intervenção pública contra estas praxes que nos governam os primeiros minutos de jogo. Feita a interpelação ao tribunal europeu dos direitos dos clubes contra as praxes, lá marcamos um golo às três tabelas. O jogo corria de feição, ao ponto de aperfeiçoarmos os nossos falhanços. Falhanço ainda se escrevia com ph, quando o Luiz Phellype decidiu aprimorar o seu gosto de sniper pelos postes das balizas. Não basta falhar é preciso falhar com precisão.

O jogo foi uma constante de tiro ao meco. Ora os boavisteiros a acertar nas pernas dos jogadores do Sporting, ora o Sporting a rematar contra qualquer coisa que intercedesse com a possibilidade de um golo. Somos bons nisso, até a atmosfera nos repele algumas iniciativas.

Continuamos a respirar o ar do empate, sempre com o Bruno Fernandes a fazer de bomba da asma, a medir o ph do Raphinha, sempre em níveis consideráveis, continuamos com o Acuña decidido a não ser expulso, em qualquer das posições loucas em que joga, com o Coates a sair com a bola de peito feito a fazer de William, para depois ir tentar marcar de cabeça. O Mathieu também manteve o seu ph do costume, mas com t, e sem lesões. Depois fomos ao BAR. Foi limpinho. Alguma acidez, nada básica.

quinta-feira, 7 de março de 2019

A Batalha de Azincourt do andebol

O desporto é a guerra por outros meios, pacíficos, claro está. Quem assistiu ao jogo de ontem contra o Porto em andebol tão cedo não o esquecerá, seja portista ou sportinguista. Nestas circunstâncias vem-nos sempre à cabeça a Batalha de Azincourt e a peça de teatro Henrique V de William Shakespeare. 

Como os franceses, os do Porto eram superiores em número e armamento. A equipa é constituída por jogadores de notável envergadura física que poucos do Sporting podem igualar. Dispõe de dois guarda-redes brilhantes, especialmente o Alfredo Quintana, que durante épocas e épocas foi a nossa besta negra. A equipa é excelentemente treinada e dispõe de um modelo de ataque com sete jogadores que se tem revelado uma dor de cabeça para todos os adversários, nacionais e internacionais, aproveitando a referida envergadura física de dois dos três pivôs cubanos e do enorme acerto das pontas, nomeadamente do António Areia. 

Os do Sporting ganham em experiência, em particular com a experiência do Ruesga, mas a equipa no seu conjunto apresenta diversas fragilidades, sendo a mais evidente a ausência de um lateral direito de raiz. Não dispõe de alternativas sólidas em certas posições, como é o caso do central e do ponta direita (o Arnaud Bingo foi contratado recentemente mas pouco ou nada tem sido utilizado). Sobretudo, o plantel é curto em qualidade e quantidade para a exigências das diferentes competições em que o Sporting está envolvido, bastando a lesão de um jogador para que essas fragilidades sejam ainda mais evidentes.

A equipa do Porto entrou melhor e rapidamente ficou por cima do marcador e do jogo. O ataque do Sporting emperrava, com pouca circulação de bola e dificuldade de fazer chegar a bola ao pivô, restando a meia distância, com eficácia intermitente. Na defesa, havia muita dificuldade de parar o jogo das pontas do Porto. Para dificultar ainda mais a tarefa, um dos árbitros resolveu intrometer-se no jogo, fazendo um número que costumamos ver todos os fins-de-semana no campeonato de futebol e transformando-se no principal artista. A exclusão por quatro minutos do Tiago Rocha constitui um manual de tudo o que um árbitro não pode, nem deve, fazer naquelas circunstâncias. Os livres de sete metros convertidos pelo Ghionea permitiram-nos ir para o intervalo a perder só por três (12-15). 

Na segunda parte tudo mudou. Estes jogos, os jogos de e para campeões, ganham-se na defesa, ganham-se em equipa. É necessária muita entreajuda. É preciso que quando um jogador largue o pivô outro seja avisado e faça a necessária cobertura. É preciso que quando um jogador é passado na zona central, logo outro apareça na ajuda e pare o jogo. É preciso assegurar adequada deslocação dos jogadores ao longo da linha dos seis metros para que o adversário não ganhe vantagem no local onde circule a bola, permitindo libertar os pontas. Essa deslocação é dificultada pelos pivôs que têm essa como missão principal, sobretudo no caso do Porto, quando joga com dois. É preciso uma grande articulação entre o guarda-redes e os restantes jogadores porque, sozinho, não enche a baliza toda. 

O Sporting fez praticamente tudo bem a defender. É quase impossível permitir que uma equipa como a do Porto marque somente oito golos em trinta minutos. Mas não basta ter um plano para defender, é necessário acreditar e acreditar que o colega de equipa ao nosso lado nos ajuda como nós o ajudamos. Cada defesa faz acreditar mais nessa solidariedade e nesse sentimento de partilha. E o público é fundamental para essa crença. Os sportinguistas que estiveram no João Rocha acreditaram e fizeram os jogadores acreditar cada vez mais, enquanto procuravam desanimar os do Porto e desacreditar o árbitro que se tinha revelado artista na primeira parte. E apareceu Skok, pelos seus méritos e pelos méritos dos seus colegas a defender. 

No ataque, com o Ruesga a comandar, sabemos que não há precipitações e as jogadas decorrem como o planeado. O Francis Carol apareceu quando era preciso e o Frade foi uma completa surpresa para mim. Foi imparável. É a partir de uma exclusão do Miguel Martins arrancada por ele que o Sporting passa para a frente do jogo e amplia uma e outra vez o resultado, com dois golos dele também, depois de ganhar o seu espaço junto de calmeirões do Porto com mais de cem quilos e bater um guarda-redes como o Alfredo Quintana que sai rapidamente em leque como nenhum outro. 

O jogo acaba como a Batalha de Azincourt, com os franceses batidos, mas com o “fair play” que se exige aos vencedores e aos vencidos (o Canela agradeceu ao público e aos seus jogadores e destacou a qualidade da equipa do Porto e o Magnus Anderson, embora perdendo, não destoou). O que uns e outros nos proporcionaram foi um excecional espetáculo com emoção a rodos. Há quem diga que acabámos. Há quem diga que estamos insolventes. Há quem diga que estamos divididos entre croquetes e brunetes. Perguntem a cada um que esteve no Pavilhão João Rocha e aos que viram o jogo na televisão o que sentiu e o que pensou, isto é, o que viveu. Saltámos com o Frankis, lutámos com o Frade, atirámo-nos para o chão com o Skok, dissemos com o Ruesga aos colegas qual era a jogada que iríamos desenvolver, festejámos com eles como se tivéssemos sido nós a marcar os golos e a defender os remates dos adversários. Durante aquele tempo memorável só houve Sporting e fomos todos Sporting!

segunda-feira, 4 de março de 2019

Do cozido à portuguesa à massa com frango

Ontem, fui a Bucos, Cabeceiras de Basto, ao almoço de aniversário de um primo da minha mulher em plena XXIII Festa da Orelheira e do Fumeiro. Nestas localidades e circunstâncias não se brinca. Almoço de cozido à portuguesa porque quem não serve para comer também não serve para trabalhar e o trabalho define todos e cada um: todos trabalham e ninguém se dá com quem não trabalha. As conversas, embora fluídas, não envolveram diálogos sobre o clássico do dia anterior, porque o dia não era para chatices entre portistas e benfiquistas. Em terreno neutro, aceitaram a minha arbitragem. Ser do Sporting serve pelo menos para estas coisas da arbitragem: qualquer árbitro que se preze ou é do Sporting ou do Oriental. O almoço foi-se arrastando e passou a merenda, sem ninguém dar por isso, concluindo-se este périplo pelo interior profundo com uma visita aos “stands” dos enchidos e dos presuntos. 

Por volta das 19.00h, regresso a casa e adormeço durante a viagem. Chego a Braga em ótimas condições físicas e anímicas para ver o jogo contra o Portimonense. O primeiro quarto de hora parecia a continuação do almoço. Serviram-nos paio do lombo cozido. O Raphinha isola-se e remata, a bola às três tabelas parece que vai entrar até chegar o guarda-redes “in extremis” a defendê-la para canto. Canto, Bas Dost a saltar e a não chegar à bola, permitindo que o Diaby de olhos fechados lhe enfiasse uma marrada que a faz ressaltar no relvado, desviando-se os defesas para permitirem que entrasse depois de tabelar no poste. Não tendo sido à primeira, foi à segunda: passe em profundidade do Bruno Fernandes com a bola a passar entre o lateral e o central para a desmarcação do Raphinha que não foi de modas e enfiou-a dentro da baliza sem hipóteses para o guarda-redes. 

Nos últimos jogos, o Marcel Keizer tem optado por jogar com três centrais. Neste, resolveu jogar só com um, o Mathieu. Esta ciclotimia podia-nos ter custado caro. O Portimonense atinou e criou cerca de duzentas e cinquenta e oito oportunidades de golo. Umas vezes safou o Mathieu e outras o Renan Ribeiro. Os jogadores adversários inconseguiam e o Gudelj resolveu dar uma ajuda. Perdeu a bola na zona central, próximo da grande área, procurou recuperá-la com o olhar e uns ligeiros espasmos corporais, permitiu o passe para o lado e não acompanhou o seu adversário, garantido assim que a tabelinha se concretizasse e o jogador a quem tinha entregado a bola inicialmente se isolasse e fizesse o dois a um. O Raphinha ainda se isolou do lado direito, passou para o meio da área, o Bas Dost simulou ir à bola e deixou-a passar para o Diaby que, vendo aproximar-se um ouriço-caixeiro, procurou tocar-lhe com todo o cuidado para não se picar até encontrar forma de lhe enfiar um biqueiro e ver-se livre do bicho. 

Se a primeira parte parecia um jogo de andebol, a segunda decorreu como um normal jogo do campeonato nacional. Os do Portimonense deixaram-se de coisas e os do Sporting deixaram as coisas como estavam. O jogo passou a valer pelos apitos limpinhos, tão limpinhos que se chegou a comemorar como se de um golo se tratasse o primeiro amarelo mostrado a um jogador do Portimonense cerca dos oitenta minutos. Para não acabarmos com o coração nas mãos, depois de uma biqueirada para a frente, um jogador do Portimonense resolveu fazer uma placagem ao Bruno Fernandes para um “penalty” limpinho. Os comentadores da SporTv não esconderam a sua consternação: “não havia necessidade!”, desabava um. O Bruno Fernandes fez a paradinha que todos sabem que vai fazer, inclusivamente o guarda-redes, e fez o golo que todos também sabem que vai fazer, inclusivamente o guarda-redes. Bateu assim um recorde qualquer que não interessa nada e que nada interessa quando se vê jogar o João “Deixem-me Mergulhar” Félix. 

É muito difícil vir-se diretamente de um cozido à portuguesa para um prato de massa com frango, a fazer lembrar os meus velhos tempos da cantina do Instituto Superior de Agronomia. De uma explosão de texturas e sabores vai-se para um coisa que não sabe a nada e fica grudada no céu boca como se fosse um bocado de miolo de pão recesso, precisando de ser empurrada pelo esófago a baixo com uns golos de água. O Renan Ribeiro defendeu tudo que tinha defesa. O Ristovski esteve esforçado mas inconsequente. O Ilori fez-nos suspirar de saudades do André Pinto. O Mathieu jogou contra os adversários e contra o Ilori e o Gudelj. O Acuña esteve sempre bem, mas mal acompanhado. O Gudelj jogou contra si e o resto da equipa, tal o número de trapalhadas em que se mete e nos mete. O Wendell procurou sair com a bola e estar em todo o lado, tendo inconseguido os seus propósitos também. O Diaby atrapalhou-se e atrapalhou, mais os seus colegas do que os adversários, mas participou que é o que interessa. O Bas Dost revelou uma depressão em elevado estado de desenvolvimento que nem com uns tantos comprimidos de “Prozac” se resolve. O Raphinha jogou durante o quarto de hora inicial até deixar de entender o que se passava em campo. O Bruno Fernandes jogou contra o adversário, contra os seus colegas de equipa, contra o árbitro, contra os comentadores da SporTv, contra os seus próprios limites e ganhou.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A herança não se explica, meu caro


Recentemente, a páginas tantas, uma nova colega de trabalho que vive em Guimarães falava do seu Vitória. Quando a conversa rumou (em sociedade é assim que termina) para a família, partilhou que o seu filho, a ovelha (segundo ela) maluca da família, era, afinal, do … Sporting. Nado e criado em Guimarães, com 17 anos, o rapaz era adeptos fervoroso (pasme-se) do Sporting, clube que nunca tinha visto campeão. Em futebol, bem entendido, que o rapaz acompanha as outras modalidades, sabe-se lá porquê. A admiração roçou-nos por pouco tempo. Afinal estávamos ali alguns malucos com mais histórias. E pouco titulados. Em futebol sénior, bem entendido.

O trabalho de casa, vulgo TPC (embora eu sempre o pense como TdC) é fundamental para uma boa classificação final. Faz parte do treino, entre outras coisas. Ir às aulas é fundamental. Mas é preciso estar atento. Tirar apontamentos. Ler os livros. Enfim, até copiar. Mas copiar bem. Aprender é um prazer, mesmo com um fardo às costas.

Uma herança, ainda que lamentável, não se explica. Quer dizer, fala-se disso em casa. Em família. De tanto vermos o mesmo filme, começámos a acreditar que tudo aquilo faz parte do cenário de um Western (Spaguetti) rodado na Andaluzia. E por isso verdadeiro, como qualquer outro cenário bem construído. E facilmente o identificámos pela banda sonora: Spooooorting.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

This shit is a joke

Há imagens que valem por mil palavras. Há imagens com (poucas) palavras que se tornam num compêndio, um género de compêndio de economia do Samuelson para o futebol português, como o fez o Estaleiro de Obras. O vídeo é absolutamente esclarecedor sobre a forma como decorre um jogo do Sporting, a sua arbitragem e os comentários na televisão. 

O Sporting enquanto clube e as suas direções cometem erros. Mas erros todos cometem, uns mais e outro menos, e por muito que custe a alguns, não foram esses erros que determinaram anos e anos sem ganhar campeonatos, antes do Inácio e depois do Bölöni, porque nunca estivemos em circunstâncias de os disputar sequer. Ontem o Figo, o Balakov, o Cristiano Ronaldo, hoje o Bruno Fernandes, todos eles aprendem rapidamente uma coisa: nunca ganharão o que quer que seja no Sporting. Estes jogadores jogam enquanto acreditarem em moinhos de vento. Dons Quixotes como nós podem-se dar ao luxo de acreditar, porque a nossa vida não depende disso. Para um jogador profissional, para o Sancho Pança, moinhos de vento são só moinhos de vento.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Crónica de um guarda-redes hipocondríaco

Minuto noventa, lançamento lateral a favor do Marítimo e a bola não há meio de aparecer, até aparecer no sítio errado, dentro do campo junto à linha de fundo. O guarda-redes do Marítimo desloca-se paquidermicamente para a ir recolher ao mesmo tempo que o Coates, que o empurra para que o jogo se desenrole sem mais delongas. O guarda-redes, empurrado, atira-se para o chão a espernear como se lhe tivessem arrancado o baço numa intervenção cirúrgica sem anestesia. O Coates leva o segundo amarelo e é expulso, a primeira vez ao longo de muitos anos a jogar na Europa e a segunda vez em toda a carreira. Entra a equipa médica para prestar assistência ao guarda-redes. Procura-se perceber pelas imagens exatamente de que se queixa o paciente e, de repente, percebe-se quando lhe aplicam um “spray” analgésico no cotovelo, é exatamente nesse local que tem um dói-dói. Se fossem todos como ele, não havia enfermeiros que quisessem trabalhar no SNS ou hospitais privados que pretendessem prestar cuidados de saúde convencionados com a ADSE. 

Os jogadores do Marítimo preparam-se para marcar o livre. O árbitro explica-lhes que não é livre mas lançamento lateral. A duras penas, o lançamento lateral é efetuado e gera-se mais uma confusão a seguir. Os jogadores pegam-se e monta-se o sururu do costume. De repente, percebe-se pelas imagens que o Marcel Keizer é expulso, pela primeira vez na sua carreira, o equivalente à expulsão do Schumpeter por discutir com Marx o fim histórico do capitalismo e a inevitabilidade do ou de um socialismo. Há dias tivemos um macedónio expulso por impropérios, desta vez a fava coube a um holandês que, estranhamente, não se exprime grande coisa em inglês. Vem-me à memória o Isidoro Rodrigues, um árbitro bigodudo dos tempos gloriosos do Apito Dourado, a expulsar Mirko Jozic por ter traduzido para a segunda e não para terceira pessoa do singular do presente indicativo uma exclamação em espanhol. 

Na minha cabeça tudo começa a fazer sentido: está-se em presença de uma competição organizada pela “World Wrestling Entertainment (WWE)”. Parece luta livre mas não é. Parece que os atletas arreiam uns nos outros mas não: quem bate, finge que bate, e quem leva, finge que leva. Os árbitros participam na encenação que pode envolver os mais diversos participantes, vindos do público ou dos balneários, enquanto os holofotes acompanham a sua marcha decidida para o ringue. Só é pena que, em Portugal, não entrem mulheres e os atletas não se apresentem vestidos de forma apropriada (e espalhafatosa), com fatos de banho em licra, embora o público aplauda na mesma e os comentadores também façam de conta que é tudo a sério. 

Quando se encena um jogo é muito difícil falar dele como se fosse a sério. A maior parte do tempo foi dedicado à prestação de cuidados de saúde ao guarda-redes e a assistir às suas reposições de bola em jogo. O homem faz uma defesa e lesiona-se. O homem vê uma mancha de gordura na camisola e confunde-a com um cancro de pele. Dói-lhe a cabeça e pensa que está engripado. Compreendo-o. Sou assim, como todos os homens, aliás. Somos hipocondríacos, é uma verdade. Como todos os homens, também dispõe de uma parte do cérebro que não pensa em nada. Somos dados a aparentes contemplações quando nada se está a passar na nossa cabeça. À inevitável pergunta: “o que é que estás a pensar?”, segue-se a mais inevitável das respostas, “em nada”, e as mulheres nunca acreditam. Era exatamente nesse estado que o guarda-redes se encontrava sempre que marcava um pontapé de baliza ou fazia qualquer outra reposição da bola em jogo com as mãos ou os pés. Nada se estava a passar na sua cabeça e a mulher não andava por perto para lhe fazer a pergunta da ordem, acordá-lo do torpor e mandá-lo pôr a mesa. 

O jogo foi uma encenação e a equipa do Sporting representou a propósito. Deu os habituais quarenta e cinco minutos de avanço. Entrou na segunda parte determinada. Criou oportunidades para ganhar quatro jogos. Mas uma peça é uma peça e não se pode fugir às deixas. Todos representaram bem o papel que lhes estava atribuído. O Marcel Keizer insistiu no Gudelj. O Acuña manteve o ar furioso. O Bruno Fernandes esteve em todo o lado ao mesmo tempo, rematou cruzou e assistiu. O Bas Dost andou pela área e esteve quase, quase a marcar. O Doumbia carregou a equipa com o Wendell. O Diaby recebeu mal as bolas, tropeçou nelas e virou-se sempre para o lado errado. O Raphinha serpenteou os defesas como se fossem mecos. O Coates subiu à área para as “moches” do costume. O Ristovski foi voluntarioso nas subidas e levou uma porrada, desta vez num pé e não na testa. O que é que se pode pedir mais? Se querem ver um jogo de futebol, não vão ao estádio, vão à ópera, como diz o Sérgio Conceição.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Fa(c)tos, a(c)tos a a(c)tas

Ontem, não vi, não li e não ouvi praticamente nada sobre o jogo contra o Villarreal. Liberto dos factos, qualquer pessoa se sente mais livre para falar do que quer que seja. Colegas mais jovens de trabalho, costumam-me pedir para os ajudar a escrever atas de reuniões dos mais diversos órgãos e instâncias. Chegam-me com horas e horas de gravações transcritas em páginas e páginas. Em Portugal, é comum existirem ordens de trabalho vagas sem documentação distribuída para deliberação, acrescentando-se o facto de ninguém procurar conduzir as reuniões e evitar intervenções excessivas e sem propósito. Reconheço que, com o avançar da idade, fui ficando mais e mais paternalista e, com frequência, ajudo-os. É um exercício muito divertido procurar dar sentido às intervenções de pessoas que não sabem o que dizem e dizem-no sem concordâncias verbais e nominais. Depois das atas prontas, invariavelmente as pessoas se reveem no que (não) disseram e sentem-se mesmo orgulhosas do que (não) disseram. Este é o exercício que me proponho fazer. 

Onze contra onze, ganha o Bruno Fernandes, é uma das morais deste jogo. É extraordinária a sua sagacidade, percebendo que o defesa ia dominar mal a bola ainda antes de ela lhe ser passada, seguida de uma demonstração de convicção e autoconfiança, correndo meio-campo com a bola e rematando sem qualquer hipótese de defesa ainda antes de entrar na área isolado. Na segunda parte, os jogadores do Sporting revelaram um enorme sentido das conveniências. Pressentido que era possível passar a eliminatória e que na seguinte se podia suceder uma catástrofe, suicidaram-se coletivamente. Não o podendo fazer coletivamente ao mesmo tempo, essa missão foi iniciada por aquele que quando joga é como se não jogasse.

Se onze contra onze ganha o Bruno Fernandes, dez contra onze ganham o árbitro e o Gudelj, porque os do Villarrreal não atinavam, é outra das morais deste jogo. É absolutamente extraordinário o comportamento defensivo no golo adversário, com o Ristovski a parar o avanço de um jogador do Villarreal enquanto espera ajuda pelo lado de dentro que nunca aparece, porque o Gudelj vem a passo a recuar e sem saber o que fazer muito bem. Para que se consumasse o suicídio coletivo, no último minuto, o Bas Dost falhou o segundo golo à boca da baliza. Este falhanço tem atenuantes. A desmarcação acontece no momento do passe do Bruno Fernandes, antecipando a trajetória da bola que depois lhe aparece à frente de repente, não lhe dando tempo para preparar o remate (que, porventura, devia ter sido de cabeça e não com o pé esquerdo, o seu pior pé). 

A minha opinião sobre as competições europeias é conhecida de há muito e não mudou. Serve para o “graveto” e pouco mais. Também serve para os treinadores dizerem que ainda se encontram em todas as frentes antes de deixarem de estar, como desculpa para o cansaço dos jogadores. Os grandes clubes europeus e os seus adeptos se querem circo romano devem procurar cristãos noutros locais. Dito isto e continuando com os mesmos objetivos de início da época nas competições internas (coisa que os nossos adversário não o podem dizer), sou capaz de fazer a ata do discurso final do Marcel Keizer no balneário depois da eliminação. Várias vezes estive tentado a colocar nas atas que referi discursos recheados de citações, mas até o abandalhamento administrativo tem limites. No futebol não tem e, por isso, segue a ata do discurso final. 

Marcel Keizer entra no balneário e olha nos olhos cada um dos seus jogadores, fulminando-os. Os jogadores ficam sem se conseguirem mexer, petrificados. O silêncio é de chumbo e não de ouro. Marcel Keizer desloca-se para o meio do balneário e começa a falar: 

“You ask, what is our policy? I say it is to wage war by land, sea, and air. War with all our might and with all the strength God has given us, and to wage war against a monstrous tyranny never surpassed in the dark and lamentable catalogue of human crime. That is our policy. You ask, what is our aim? I can answer in one word. It is victory. Victory at all costs - Victory in spite of all terrors - Victory, however long and hard the road may be, for without victory there is no survival”. 

O discurso foi em crescendo. Ao constrangimento inicial dos jogadores, seguiu-se o correspondente nó na garganta. Sentiam sem saber o que sentiam. As palavras, uma a seguir à outra, feriam a consciência de si próprios e o coração, que ganhava vida própria e acelerava, provocando pressão insuportável sobre as têmporas. O discurso acabou mas as últimas palavras continuavam vivas no meio do balneário, “ Vitória – vitória a todo o custo, vitória a despeito de todo o terror, vitória por mais longo e difícil que possa ser o caminho que a ela nos conduz; porque sem a vitória não sobreviveremos”. De repente, um juntou-se a outro ao qual se juntou mais outro até ficarem todos menos um: o Jéfferson. O que se passou a seguir e o destino final do Jéfferson não devem ser contados.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O(s) pícaro(s) sem filtro

Li o “Sem filtro”, do Bruno de Carvalho (deve ser a este tipo de leituras que se chama responsabilidade social de um “blogger” do Sporting). O livro não passa de umas tantas transcrições mal-amanhadas de outras tantas gravações. A parte que interessa, interessa pouco. É um disco riscado. Ninguém é o que pensa. É as escolhas que faz: a vida não deixa de ser uma somatório de escolhas. Bruno de Carvalho fez escolhas, de pessoas, de amigos, de inimigos e de táticas. Acabou por se derrotar pelas escolhas que fez. A moral da história, verdadeira ou falsa, de nada interessa se não se aprende o que se é a partir das escolhas feitas em consciência. Não vale a pena dizer que as escolhas foram erradas se não se tiver consciência desses erros e de que esses erros têm consequências. Na vida, ou se aprende com os erros ou está-se sempre a recomeçar, uma e outra vez, cumprindo o Mito de Sísifo. 

A parte que menos interessa, interessa mais. Não por ter algo que não saibamos, mas por reproduzir por quem esteve por dentro o que qualquer um de nós só vislumbra de fora. Há o jogo, o que interessa, e há tudo o que o envolve, recheado de personagens pícaras, ao jeito da Crónica dos Bons Malandros, do Mário Zambujal. As fragilidades do Jorge Jesus, prisioneiro da sua visão de si mesmo e da sua egomania; o Octávio Machado, sem funções atribuídas, que sobrevive porque se espera que saiba o que diz que nós sabemos que ele sabe; o consultor motivacional que foi à sua vida e era o “Lexotan” do treinador e da equipa; o Teo que, independentemente do valor do contrato, queria que lhe pagassem umas contas, nem que fossem da água e da luz; os jogadores, os seus pais e agentes, e seus representantes (?), constituindo umas Matrioscas que vão saído dentro umas das outras, procurando cada uma delas ganhar o seu; a mulher que não casou com o homem mas com o presidente e o homem foi o último a saber quando deixou de ser presidente; a banca, os bancários e os banqueiros, as empresas e as suas administrações e os políticos, todos, envolvidos em negócios em nome do interesse público e do altruísmo, que cada um reivindica para si em quantidades maiores do que os outros. Aparentemente, tudo gira em torno de Bruno de Carvalho, como se a Terra precisasse do seu umbigo para o movimento de rotação e a noite se suceder ao dia e o dia à noite, que se define menos pelo que diz de si próprio mas pelo que não diz ou diz dos outros.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Ajustar as velas em função do vento

“É preciso ajustar as velas em função do vento”, disse o Abel Silva, treinador do Braga, no final do jogo de ontem. As alegorias nem sempre se percebem. Nem sempre são alegorias sequer, recordando o “Bem-vindo Mister Chance” e a interpretação de Peter Sellers. O sentido metafórico apela mais ao recetor do que ao emissor. Poderá querer dizer que os treinadores, os bons, precisam do vento para navegar. O problema é que nem sempre se sabe de que lado sopra o vento antes de se começar a jogar e o vento muda de direção e sentido durante o jogo. O bom treinador talvez seja aquele que saiba jogar contra o vento, que seja capaz de navegar à bolina. O bom treinador não é, nem pode ser um cata-vento. É esta necessidade de antecipar de que lado sopra o vento que me vem preocupando no Marcel Keizer. A equipa vai sendo ajustada tacitamente de jogo para jogo, em função do adversário e daquilo que dele se espera. 

Ontem, contra o Braga, aconteceu mais uma vez. Em posse de bola, a equipa jogava com três jogadores recuados: Coates, Ilori e Borja, com os dois últimos a jogar pelo lado de fora, em cobertura às laterais. Não se pode dizer que a equipa jogou com três centrais, porque se é verdade que o Ristovski recuava quando se defendia para a sua posição de lateral, não acontecia exatamente o mesmo com o Acuña. Na primeira parte, a linha defensiva era formada por quatro jogadores, passando por vezes para cinco, na segunda parte, por força da colocação do Wilson Eduardo e da necessidade de o Acuña fechar mais o lado esquerdo da defesa. Esta tática permitiu à defesa jogar mais confortável contra os dois avançados do Braga e não sinalizar à partida o jogador pelo qual passaria predominantemente a construção de jogo. O Gudelj não precisou de jogar tão recuado como de costume, competindo a esses três jogadores a saída da bola, ou pelas laterais ou pela zona central. Com o Ristovski mais projetado na lateral, o Diaby podia partir do lado direito para o meio, encostando ao Bas Dost e apoiando-o, de forma alternada com o Bruno Fernandes. 

O Braga nunca atinou com esta forma de jogar. A imprevisibilidade da saída de bola deixou o Wendell sistematicamente liberto do lado esquerdo para conduzir o jogo ofensivo, onde o Esgaio não sabia se devia encostar ao Borja, marcar o Acuña ou jogar mais por dentro para impedir que o Wendell recebesse a bola e ganhasse superioridade numérica. Do outro lado, o defesa esquerdo nem sempre percebia se devia acompanhar as movimentações do Diaby ou tapar as investidas do Ristovki. As táticas ajudam os jogadores a ganhar jogos mas são sempre os jogadores que os ganham. Livre à entrada da área bastante descaído para o lado direito do ataque e circunstância ideal para se assistir a um momento Balakov às avessas, também designado momento Bruno Fernandes. O guarda-redes pressentiu o que iria acontecer e meteu cinco jogadores na barreira, ao qual se juntou um sexto quando o Ristovski lhe tentou tapar a visão do lado de dentro, com pelo menos um deles a tapar um metro para além do poste, convidando assim o Acuña a rematar. O Bruno Fernandes é que não estava para brincadeiras e meteu a bola por onde não parecia possível que ela entrasse, fazendo-a descrever uma parábola, passando por cima da barreira e caindo em seguida praticamente junto ao ângulo inferior direito da baliza. 

O Abel Silva percebeu o problema que tinha do lado direito da defesa e fez a substituição que se impunha no início da segunda parte. No entanto, só tarde de mais é que percebeu que tinha problema idêntico do outro lado da defesa também. O Diaby recebeu uma bola do lado direito, tropeçou nela e num adversário, tropeçou nela outra vez e noutro adversário e, quando se isolava, dois adversários tropeçaram nele esquecendo-se de tropeçar na bola ao mesmo tempo. “Penalty” e Bas Dost a avançar para a bola enquanto olhava para o guarda-redes, rematando para o lado contrário onde este se lançou. Lançamento de linha lateral do lado direito, Bruno Fernandes a receber a bola e a demonstrar ao Diaby que existem formas esteticamente mais consentâneas com o estatuto de jogador de futebol de nela tropeçar e nos adversários, dando-lhe um ligeiro toque de calcanhar (?) para a frente, tirando o defesa do caminho e metendo de primeira para o Bas Dost encostar, perante a incredulidade dos defesas quanto à forma como tudo aconteceu. 

A perder por três a zero, os jogadores do Braga resolveram dar um festival de mau perder, perante um árbitro que achava que a cor dos cartões só combinava com as das camisolas do Sporting, nada que não se esperasse, sobretudo depois da forma como acabou a primeira parte connosco a atacar e vários jogadores dentro da área à espera de um passe. A marcação das faltas também seguiu um padrão hilariante, especialmente quando o defesa esquerdo se decidia espraiar-se no relvado sempre que sentia nas costas o bafo do Acuña. Com o jogo a concluir-se, o árbitro deu-o como perdido e a contragosto foi mostrando um ou outro amarelo aos do Braga que, assim, conseguiram concluí-lo com onze jogadores. 

Várias dúvidas e perplexidades nos deixa este jogo. Esta tática é para continuar? Serviu contra o Braga e serve contra outros adversários, em particular quando são mais modestos? Hipotecam-se tantos jogadores na construção do ataque quando os adversários jogarem com um só avançado, equilibrarem o meio-campo e recuarem mais? A equipa do Sporting dispõe de um portfólio de táticas que treina e ao qual pode recorrer nos jogos ou estas táticas são coladas com cuspe nos treinos que lhes antecedem? Uma certeza existe: o Marcel Keizer não é um Peseiro qualquer e sabe o que faz. O que não sabemos é se é o medo de perder que o move ou a vontade de ganhar. Talvez valha a pena mostrar-lhe a ele e aos jogadores o último “time out” do Nuno Dias no jogo de futsal contra o Benfica, perguntando aos seus jogadores se queriam virar o resultado da primeira volta. Quando se esperava que a equipa procurasse neutralizar melhor o 5x4 do adversário, foi ela própria que lhe impôs esse 5x4, enfiando-lhe mais dois golos num minuto e forçando o seu destino.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Manual de desistência

Há uns pares de anos que a minha filha saiu de casa para estudar. Conforme vai avançando vai ficando cada vez mais longe. Liga-me, pouco, mas liga, como seria de esperar. Liga-me antes de qualquer momento de maior tensão. As circunstâncias mudam e as palavras também. O diálogo conclui-se sempre da mesma maneira: não morremos de véspera e não nos arrependemos de falhar por tentarmos, o que nos arrependemos é de falhar por nem sequer termos tentado (sobretudo por medo de falhar). O jogo de ontem, contra o Villarreal, constitui um manual de desistência. 

Começou-se por perder de véspera. A conferência de imprensa que antecedeu o jogo é a de um treinador que se derrota a si próprio e à sua equipa. O jogo não contava. Não tínhamos obrigação de o ganhar. A vida são dois dias. Cristo morreu, Marx também e a própria equipa conheceu melhores dias. A equipa não é Bruno Fernandes e mais dez. A equipa é o Gudelj. Só há Bruno Fernandes porque há Gudelj e o resto é paisagem. E o Gudelj diz que sim, esquecendo-se de nos explicar a razão para estar sequer sentado naquele local àquela hora para dizer o que disse. Quem é que o escolheu para estar ali? É com discursos destes e jogadores destes que se mobilizam os adeptos para irem ao jogo? 

A equipa entrou na expetativa, na expetativa do que o adversário ia fazer para que a expetativa se cumprisse e se transformasse em fatalidade. Biqueirada do guarda-redes para aliviar a bola, Petrovic a fazer-se mal ao lance e a enfiar-lhe uma carecada e isolar um avançado furioso que avançou até à área para se desfazer dela de qualquer maneira, transformando uma combinação cósmica numa combinação cómica de defesas atrapalhados que, à beira de um ataque de nervos, permitem a um jogador adversário marcar um “penalty” em corrida. A expetativa cumpria-se como fatalidade perante um adversário também ele na expetativa e que pretendia simplesmente esperar. Pretendia esperar e continuou à espera, agora da reação do Sporting, não mais se atrevendo a procurar criar qualquer lance de perigo. Mas nós continuámos à espera também e assistiu-se a um jogo de duas equipas à espera uma da outra, sem ninguém avisar os da casa que se encontravam a perder e o tempo estava a contar. Sem tempo, quem espera desespera, instalando-se a desesperança, dentro e fora do campo. 

Os do Villarreal limitavam-se a jogar à rabia com os do Sporting que, feitos tontos e sem avanço da linha defensiva, se limitavam a correrias sem nexo e desesperantes elas próprias. A cada correria sem propósito perdia-se convicção para a próxima, numa espiral descendente. Os extremos completamente abertos e sem apoio, estavam condenados a receber a bola em dificuldades e a jogar contra o resto do mundo entregues a si próprios. A meio da primeira parte sofre-se mais um golpe de incompetência: o Bruno Gaspar sai com uma lesão muscular, que, por não se tratar da primeira vez, nos deixa perplexos sobre a utilidade do gabinete de alta “performance”, a principal bandeira de campanha do Varandas. Nos últimos minutos, os extremos trocam de posição, passando a jogar com o pé dominante pelo lado de dentro e ficando assim mais próximos do Bas Dost e do Bruno Fernandes e deixando a linha para os laterais. As melhorias fizeram-se notar (é quase criminoso deixar um jogador como o Raphinha com golo na ponta das chuteiras a centrar bolas do lado esquerdo do ataque). 

Nestas alturas agarramo-nos sempre a qualquer coisa para termos esperança. A troca dos extremos, como coisa que é, era a qualquer coisa a que nos iríamos agarrar como tábua de salvação para vermos a segunda parte. Mas até essa tábua de salvação a que nos queríamos agarrar nos tiraram. Os extremos voltaram às posições iniciais e o Jovane Cabral ficou condenado a fazer o que todos esperam, inclusivamente os defesas. O jogo da rabia dos do Villarreal aprimorou-se, enquanto esperavam, continuando os do Sporting completamente incapazes de jogar no meio campo contrário de forma continuada. A meio da segunda parte, o Petrovic começou a avançar um pouco mais, procurando dar apoio a quem tinha a bola na zona de ataque. A equipa melhorou um poucochinho pequenino. Com os espetadores exasperados, o Marcel Keizer fez uma dupla substituição, metendo o Luiz Phellype e o Wendell, saindo o Petrovic e o Jovane Cabral. Com o Miguel Luís mais atrás, a equipa ganhou mais critério na troca de bola e ficou mais compacta. Parecia que ainda era possível, mas o Acuña resolveu suicidar-se, enfiando um soco no estômago de uma equipa que, a partir desse momento, parecia um conjunto de mortos-vivos à procura da razão de ser do limbo onde se encontrava.

A fleuma do Marcel Keizer foi chão que deu uvas. A expressão corporal trai-o, durante os jogos e nas conferências de imprensa, que começam a ser cada vez mais penosas. Há ansiedade, inquietação e nervosismo de toda a ordem. Ele sabe, como a minha filha sabe. A minha filha liga-me sabendo, espera é que seja eu a dizer-lho. Quem é que diz ao Marcel Keizer o que ele sabe mas precisa de alguém para lho dizer?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Sem filtro?


A páginas tantas dei por mim a temperar a pescada em filetes. Pensei que dava para tudo: fazer o jantar e ver o Sporting namorando como se fosse um dia qualquer. Qualquer dia é bom para namorar, não sendo necessário um evento para nos recordar. Quando dei por mim já estávamos a estagiar em cascos de carvalho com um golo a tiracolo. Talvez demasiado cedo? Pensei que não. Nem sempre a virtude vem do cedo erguer, e os pardais fazem parte da história por isso mesmo. Garfei o que pude, acompanhado de um tinto do Douro que não ficará para a memória. Fui ver do jogo, com a convicção dos maduros disto tudo que não vacilam perante qualquer evidência.

Tenho na memória uma primeira parte inexistente. Lembrei-me do filme Balbúrdia no Oeste, do Mel Brooks e, um outro, que me recordava umas exéquias. O toque a finados era manifestamente exagerado. Na segunda parte, passamos a jogar num misto zona homem a homem, mas sempre com os nossos em vista. O Gabriel Alves ainda tentou aparecer para nos recordar os velhos tempos, mas era demasiado tarde. O Keiser já tinha vestido um impermeável de rendas que não lhe permitia ver qualquer forma de vida inteligente no horizonte. Farto de novelas, Marcos Acuña decidiu comprar um bilhete para São Petersburgo. E nós? Nós fomos fumar um cigarro. Sem filtro?  

Se perguntarem, fui ao bar


Joana latino, comentadora de fait-divers da SIC, hoje em reportagem no exterior no estádio de Alvalade, poucas horas antes do jogo. Pergunta a expert:

Isto às vezes discute-se muito a arbitragem, acha que isso vai ser um fator? – o português é arcaico mas ainda assim percetível.
Não, o VAR agora resolve tudo - responde um dos tipos.
O VAR é o Varandas? – sugere a jornalista, preparadíssima para estas andanças.
Não… o vídeo-árbitro
Ai o vídeo-árbitro, desculpe lá, estava aqui completamente  - diz a entrevistadora, sem grande convicção relativamente ao planeta onde se encontra. 
– A senhora tem que se modernizar, tem que ir à formação… tem que ir à formação.

O entrevistado dizia tem que ir à formação, com cara de dizer tem que ir ao castigo. Todos sorrimos com esta rábula que encaixa perfeitamente na rábula do futebol entretenimento, mas sem bola. Que é todo o futebol português.  


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Não?!...

Lê-se e não se acredita: o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol interditou o Estádio da Luz por quatro jogos, após uma queixa apresentada pelo Sporting, que acusou o Benfica de apoiar claques não legalizadas em vários jogos da época 2016/17. O que não se acredita é que depois de tanto tempo o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol admita que existam claques não legalizadas, quando se sabe que existem, isso sim, grupos organizados de adeptos que levam tarjas e bandeiras para o Estádio da Luz do tamanho do tolde do Circo Cardinali no bolso de trás das calças. Só falta dizer que esse grupo tem o nome “No Name”!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Um razoável Bruno Fernandes na escala de Bruno Fernandes a fazer de Bruno Fernandes

Estou farto de ver jogar o Sporting. Mas estou ainda mais farto de ver jogar (ver jogar é uma forma de dizer) os nossos adversários. Em cerca de um mês, com o jogo de ontem, foi a terceira vez que vi jogar o Feirense, uma equipa cujo melhor jogador (de futebol) não só tem pinta como constitui também o seu melhor praticante das “Mixed Martial Arts”. A tática do Feirense assenta muito neste jogador e nessa mistura, não de artes marcais, mas de modalidades, de futebol com artes marciais e vice-versa. Na primeira parte, o futebol jogado como artes marciais e as artes marciais praticadas com bola constituíram os modelos de jogo que levaram a melhor. 

Nem começámos muito mal. No entanto, a mistura de que falava impôs-se rapidamente e o(a)s menino(a)s do Sporting começaram a chamar pelo pai. O pai não lhes acudiu, ficando-se por um ou outro cartão amarelo. Compreendo-o. O que não compreendo é que seja, ao mesmo tempo, defensor de que o “futebol não é para menino(a)s” e permita um ritual de acasalamento desse melhor jogador do Feirense ao Bas Dost durante a marcação de um canto, tendo marcado falta ao Bas Dost por não ter correspondido ao assédio. Se calhar até o compreendo, não o compreendendo. Há uns anos atrás, quando era miúdo, andei atrás de uma rapariga da mesma forma, embora tenha demorado menos tempo e a rapariga tenha fugido num espaço mais curto até aparecer o pai dela e marcar falta, não a ela mas a mim. Ontem, senti-me resgatado, redimido, fosse o pai dela este pai e o meu futuro teria sido outro. 

Esta mistura de modalidades e de artes marciais deu origem a uma mistura de equipas. Os jogadores do Sporting participavam nas jogadas dos do Feirense e os do Feirense participavam nas dos do Sporting. Praticou-se assim um género de Caldo Verde à moda do Minho: uns trouxeram as couves e a panela, os outros o chouriço e a broa. Umas das melhores malgas desse caldo verde acabou com a bola dentro da nossa baliza. O Ristovski passa a bola a um jogador do Feirense, que a passa ao Ilori, que a passa a outro jogador do Feirense, que a passa ao Coates, que chuta contra ele e o Renan Ribeiro cede canto quando a bola ia para fora. Canto marcado, bola ao primeiro poste, cabeceamento de um jogador do Feirense e o Renan Ribeiro embrulhar-se com um adversário e a meter-se dentro da baliza com a bola, protagonizando um “momento Vítor Baía”, mais recentemente reclassificado de “momento Svilar”. Não é propriamente um “momento Svilar” pelo facto de o árbitro não ter cortado o mal ou o bem, dependendo das perspetivas, pela raiz, recorrendo ao VAR, concluindo-se, assim, que até a roubar os nossos adversários somos roubados. A acabar a primeira parte, os jogadores do Feirense resolveram participar num jogada dos do Sporting, revelando elevados níveis de reciprocidade. O Wendell passa ao Bruno Fernandes, o Bruno Fernandes passa ao Acuña, o Acuña segura a bola um pouco até o Borja se desmarcar pelo lado esquerdo para um centro ao primeiro poste e uma carecada no Wendell, com um jogador do Feirense a meter a mão à bola e a metê-la na sua baliza, corrigindo uma má finalização do jogador do Sporting e demonstrando que amor com amor se paga. 

A segunda parte não tem história ou tem a história dos golos, porque nem sequer me apetece escrever mais sobre este jogo. O Ristovski desatou numa correria pelo lado direito sem que ninguém lhe aparecesse ao caminho, chegado à entrada da área passou a bola ao Diaby e desmarcou-se para a receber mais à frente, o Diaby não lhe fez a vontade e virou para dentro e centrou para a cabeça do Bas Dost que não lhe chegou, permitindo uma cabeceamento em salto de peixe do Bruno Fernandes. Livre à entrada da área do adversário, grande sarrabulho (ou caldo verde, como se quiser) entre os jogadores do Sporting e os do Feirense para ver quem é que metia mais gente na barreira para tapar a visão do guarda-redes, remate do Bruno Fernandes e a bola a entrar sem que ele se mexesse, evitando fazer a triste figura do Svilar. À saída da área do Feirense, biqueirada até à entrada da área do Sporting, onde o Borja e o Ilori em vez de meterem água resolveram aprimorar e fazer um número de natação sincronizada para isolar um avançado búlgaro que marca. Pior do que sofrer um golo do Feirense é sofrer um golo de um avançado búlgaro do Feirense. Estranhamente, os jogadores do Feirense em vez de enfiarem mais uns tantos biqueiros na bola para dentro da nossa área, meteram um jogador bom de bola, que acabaram de contratar ao Leixões, passando a dispor de uma ideia de jogo e deixando sem sobressaltos a nossa defesa. 

Na sexta-feira, fui ver o “Correio da Droga” do Clint Eastwood. É um filme razoável na escala Clint Eastwood, com o Clint Eastwood a fazer de Clint Eastwood, como de costume, e a representar a América de Clint Eastwood. No final, redimem-se todos: o Clint Eastwood, os bons não são tão bons assim e reconhecem o mau que há neles, os maus não são tão maus assim também e reconhecem o seu lado bom, sobrando a honra e o prazer das coisas simples, a família, as flores e as sandes de carne assada. Neste jogo, tivemos o Bruno Fernandes a fazer de Bruno Fernandes, atingindo um nível razoável na escala de Bruno Fernandes, correspondendo a um estratosférico na escala de qualquer outro jogador. No final, redimem-se todos também: o Bruno Fernandes consigo próprio, o Marcel Keizer das suas hesitações e contradições e, até, o Gudlej da sua pose Roger Moore que, após qualquer zaragata a meio do campo, sai sempre de “smoking” sem uma ruga ou uma ponta de pó em direção ao casino mais próximo onde engatará a miúda mais enigmática e gira que trabalha para os maus e se converte à salvação da humanidade.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Pre-matcht

Não sei se já repararam, se o meu sangue não me engana, se tivéssemos ganho ao Tondela e ao Setúbal,  mesmo encaixando a cabazada contra o Benfica e o empate contra o Porto, em caso de vitória hoje ficaríamos a quatro pontos do Porto e a três do Benfica (em caso de vitória deste). E depois ainda recebíamos o Braga. Certo? Eis o se...porting. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Seja Félix


O Gedson Fernandes (apenas na primeira metade da época) foi vendido vinte vezes. Mais uma pérola da formação benfiquista –  podia-se ler nos escaparates das papelarias, nos muros e mesmo em publicidade nas avionetas. Os pretendentes entupiam as nossas fronteiras (inclusive as marítimas). Agora é o piscinas Félix, capa de jornal, revista, fanzine, disputado por meio mundo, ainda mais disputado pelo outro meio, a fronteira mais uma vez absolutamente assoberbada de pretendentes, televisões de todo mundo fazem a cobertura dos seus jogos, milhões se batem por pagar a sua cláusula, mais uma pérola acoplada às avionetas que sobrevoam as nossas praias. Pais mudam o nome dos seus filhos para Félix, novos cortes de cabelo à Félix povoam os crânios dos portugueses (e nem todos são de rapazes). Mas nem toda a gente pensa assim. Um ou dois seres humanos acham que o Bruno Fernandes foi o melhor jogador dos dois dérbis. Talvez o melhor jogador do campeonato. Não queremos ser chatos mas, já agora: quando vale o Fernandes?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A tropa não é para menino(a)s

“Não, não vais rematar daí?! É estúpido, nem o Ronaldo ou o João Félix, não sei bem como é que se chama. Se marcasses, valias o total das imparidades da Caixa Geral de Depósitos!” 

Dia comprido e feliz. Reunião em Leiria, com almoço no Carloto, metros à frente do Regimento de Artilharia de Leiria, onde cumpri grande parte do Serviço Militar Obrigatório (SMO). À mesa, descubro, do meu lado direito, um camarada de armas, que cumpriu o SMO um ano antes e fez a recruta em Vendas Novas como eu. Contamos histórias desses tempos, ele mais bem informado e documentado, descobrindo que ambos fazíamos parte da Brigada de Aquisição de Objetivos, constituída pelos mais corajosos, aqueles que, durante a Guerra do Vietname, tinha uma esperança de vida que não chegava a dez minutos depois de iniciado o fogo de artilharia (porque o inimigo sabe que estes homens são os olhos da artilharia e constituem os primeiro alvos ou porque são vítimas de fogo amigo quando a mira está mal apontada ou os da balística não fazem os cálculos como deve ser). Descubro que o meu comandante de Vendas Novas era o atual General Rovisco Duarte, ex-Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Percebi melhor como é que foi temperada a coragem e o sentido de liderança de que sou feito. 

Regresso a casa embalado por um relato onde se fazia coro com os benfiquistas que estavam no Estádio da Luz: “[qualquer coisa] João Félix”, “João Félix para a esquerda”, João Félix para a direita”, “João Félix a ler o último romance de Rodrigo Guedes de Carvalho”, “João Félix a jogar PlayStation”, “João Félix beija a namorada enquanto sub-repticiamente faz deslizar a mão direita por baixo da sua camisola”. Nem quando da criação do Universo, Deus esteve em tanto lugar ao mesmo tempo a fazer tantas e tantas coisas. 

“Espera lá: a trinta metros da baliza e o guarda-redes está a construir a barreira com seis jogadores! Chatice, saiu um. Espera, espera, o guarda-redes está encostado ao outro lado da barreira para tentar ver a bola. Já lá mora!”. Continuo a ver o jogo a partir deste exato momento de regresso a casa. Está a acabar. “Golo! Golo! Bem me parecia, foi um momento Vítor Baia”, lembrando-me dos tempos dourados do Canal Caveira, do Calor da Noite, da fruta e do apito, quando se considerava que o seu ponto forte era o espaço aéreo, como hoje se diz, até ir para Barcelona e vermos os catalães a cantar em sua memória: “foi um toiro que o matou, num dia de infelicidade”. Os comentadores apressaram-se a explicar-nos que não se tratou de um golo anulado porque o árbitro apitou antes de a bola entrar, detalhe absolutamente decisivo para se compreender o que se tinha passado e o que não se poderia passar a seguir, atendendo à entrada de carrinho do árbitro sobre o VAR, cortando o lance pela raiz. A esta explicação acrescentaram outra logo a seguir, sobre a necessidade do VAR verificar se o Coates tinha agarrado uma camisola fora ou dentro da área, ou fora da área mas continuando dentro da área ou na Zara do Colombo, saindo sem pagar. Acabado o jogo, rebobino a cassete melhor do que um Sargento de Dia em Tancos. 

Relativamente ao jogo anterior, passámos a jogar com mais um e o Benfica com menos um (o Sálvio), apesar de se manter a desvantagem numérica, dado continuarem o Gudelj e o Bruno Gaspar. O Marecl Keizer alterou o posicionamento da defesa na saída da bola, abrindo mais os centrais e não permitindo que um só jogador do Benfica pressionasse dois ou três de uma vez só. No entanto, o Gudelj teve de recuar mais e o Bruno Fernandes também para preencherem melhor a zona central que, com o afastamento dos centrais, se podia transformar no Deserto de Atacama. Obrigado a jogar mais recuado o meio-campo por esta razão, o Wendell ficou entregue à sua sorte, enquanto tentava pressionar sozinho ou mal acompanhado cerca de meia equipa do Benfica quando tinha a bola. 

Sem tantas perdas de bola na zona central, o Benfica deixou de ter plano de jogo. Não tinha plano de jogo mas tinha o Gudelj do outro lado, que é uma outra forma de o ter não o tendo. O Gudelj abordou com a convicção do costume uma bola pinchona, tirando da jogada o Ilori que se preparava para a afastar e isolando o Salvio (não estou a brincar, estamos a falar do Salvio que todos conhecemos). O Salvio meteu a cabeça no chão e correu até aonde a vista alcançava e, ao esbarrar em alguém, passou a bola a um colega que estava à entrada da área para se atrapalhar com ela e o Bruno Gaspar, o inevitável Bruno Gaspar, e a passar para o lado onde apareceu um outro colega que se tinha começado a desmarcar pelo meio mas ainda a tempo de voltar para trás na rotunda da circular externa da defesa do Sporting, fazendo uma manobra perigosa, não originando por milagre uma colisão com o Jovane Cabral que vinha a travar prevendo o perigo. Passado o perigo de colisão, fechou os olhos aliviado e desfez-se da bola com força, numa atitude pouco correta que por pouco não ia acertando no Renan Ribeiro com consequências graves para a sua saúde. A primeira parte foi o desenlace deste súbito (des)congestionamento de trânsito e o João Félix. O João Félix invariavelmente recebia a bola, alçava ligeiramente o rabo, até o adversário lhe tocar, e efetuava um salto encarpado para a frente resultante do impulso da sua libido descontrolada, culminando, assim, com a sensualidade necessária o lance. O público assobiava os jogadores do Sporting, só apetecendo dizer: “vai lá tu fazer melhor!” (Imagino a sequência destas imagens que o Porto Canal irá fazer um dia destes até o rapaz, infelizmente, se transformar no Neymar de Carnide). 

Na segunda parte, entrámos um bocadinho (pequenino) melhor e quando estávamos na nossa melhor fase levámos um (auto)golo às três tabelas. Depois de se verificar que o golo não tinha sido do João Félix, mas autogolo do Ilori, o comentador não deixou de explicar que mesmo assim resultava do alcance estratégico da jogada. Ninguém se riu e o jogo continuou. Entraram uns do Sporting e outros do Benfica, saindo outros tantos do Sporting e do Benfica, e o resto todos sabem. No final, o Benfica marcou dois golos e teve mais duas oportunidades (cabeceamento do Rúben Dias e remate ao lado do Grimaldo) e o Sporting marcou dois golos e teve mais duas oportunidades (dois remates do Wendell ao lado) ou marcou um golo e teve mais três oportunidades, no entendimento do árbitro e dos comentadores. Em Alvalade há mais um dia destes.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A banalidade da derrota


A propósito da leitura de “A Ordem do dia” de Éric Vuillard, ocorreu-me aquela expressão criada por Hannah Arendt, depois transposta para livro com o mesmo nome: A banalidade do mal. Por portas travessas de um cérebro cujo humor se acantonou há muito tempo, dei um passo ao lado para associar uma outra expressão: a banalidade da derrota: eis o Sporting actual.

Há muito tempo que afirmo a inexistência de uma cultura de exigência. Não confundamos com uma cultura de vitória, para isso são necessárias vitórias e um caminho: a tal cultura de exigência. Vertida do topo até se entranhar em todos elementos da estrutura. Gestão, planeamento, comunicação, definição de objetivos claros para toda a gente.

As conferências de imprensa de lançamento do jogo de domingo são paradigmáticas. O treinador do nosso rival afirmou que o jogo se tratava de uma final. Para ambos. O treinador do Sporting disse que o jogo não era decisivo. Pois não, para o quarto lugar não era. Imagino-o a sair da conferência de imprensa, com as mãos nos bolsos, calmamente, chegar ao dia de jogo ainda com as mãos nos bolsos, começar o jogo com as mãos nos bolsos, e, de repente, não perceber o que lhe estava a acontecer. Não percebeu na hora porque não tinha percebido antes.

Primeiro pensei: é uma conspiração de equívocos. Não, não era uma conspiração, os equívocos fluíam dentro de campo com a personalidade de um dogma. O Rui na posta de análise ao jogo segue bem essa trajectória em que o cozido à portuguesa invade o “Stamppot”, cujo culminar foi o jogo de domingo. O cozido à portuguesa é pesado. Toda agente sabe disso. 

Não se trata apenas de uma questão de identidade. Cada jogo, cada oponente, cada situação implicam uma estratégia, uma visão, às vezes, até, uma ideia, nem que seja pequenina, que germine um caminho. Essa adaptação é contínua e versátil. Mas nada disto importa sem a tal cultura de exigência. Ao escutarmos alguns jogadores, o treinador, os dirigentes, parece que nada disso estará no topo do bolo. Devia. Sem isso, a banalidade da derrota será uma realidade. E isso nota-se. Não haverá, no fim, nem bolo, nem gente para cantar os parabéns.

Nota: não ouvi as conferências de imprensa de hoje (ontem).

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Futebol, populismo e democracia

A minha experiência a escrever neste blogue tem sido muito enriquecedora, para o melhor e para o pior. As boas experiências guardamo-las para nós, encontrando-se entre elas o reconhecimento, a solidariedade e, o que parecia inimaginável, a amizade, cibernética e contextualizada por essa tecnologia, mas uma forma de amizade que preanuncia as relações virtuais do futuro (que nalguns casos são presente também pela solidão de muitas pessoas). Mas, “as famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira” (célebre citação do Tolstoi no ainda mais célebre “Anna Karenina”), e por isso as más experiências são mais enriquecedoras na sua diversidade do que as boas. 

O futebol, e o futebol português em particular, constitui o reino da intolerância. Onde devia haver respeito entre iguais apesar da diferença, há ódio entre diferentes e ainda entre os que aparentemente são iguais, pertencendo ao mesmo clube. Essa intolerância e esse radicalismo é congénito, sendo determinado em primeiro lugar pelos dirigentes, passando pelos treinadores e adeptos, e alimentado por uma envolvente mediática doentia e não menos fanática. Apesar da sua crescente importância à escala global, não conheço outro país da mesma dimensão de Portugal onde existam tantos jornais desportivos, espaços desportivos nos jornais generalistas e tempo televisivo dedicado ao futebol. 

Está-se em presença de um mal social que contamina todo o espaço público e o degrada. Os efeitos colaterais em toda a vida pública são evidentes, no debate político, por exemplo. A discussão futebolística atrai todos, especialmente as moscas. Gera notoriedade, produzindo protagonistas que podem ser exportados para outros domínios da vida política, económica e cultural. Felizmente, na política, os partidos do sistema têm conseguido cooptar alguns desses protagonistas, institucionalizando-os (dificilmente se compreende a candidatura de certos comentadores às câmaras municipais sem essa notoriedade). O problema é saber até quando estes protagonistas e as suas réplicas podem ser contidos no espaço futebolístico ou a partir da sua institucionalização no “mainstream” partidário. 

Por portas travessas, o futebol tem prestado inestimáveis serviços à democracia portuguesa, onde não têm emergido partidos populistas e extremistas à esquerda e à direita. Para mim, não têm emergido porque não é preciso, o futebol e os clubes encarregam-se de representar esses potenciais eleitores, porque eles existem, ninguém tem dúvidas (a frustração e o ressentimento estão em todo o lado). A asfixia futebolística (parafraseando umas pessoas conhecidas) não deixa espaço nem tempo para manifestações do mesmo fenómeno no espectro político. Enquanto assim for, talvez valha a pena ver futebol e escrever sobre ele. Quando assim não for, então deve-se acabar com o futebol e os clubes em nome do bem-comum. É que não vale a pena pensar que o atual estado das coisas alguma vez possa mudar.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

“Stamppot” à portuguesa

Há quem esteja mais depressa disponível para errar pela cabeça dos outros do que pela sua. Pior ainda, há quem esteja disponível para errar pela cabeça dos outros do que para acertar pela sua. Ao longo da minha vida profissional, deparei-me vezes sem conta com a segunda situação. É uma mistura de medo, resignação e não fazer de desmancha-prazeres. Na psicologia designa-se comportamento de manada e é frequente quando da exuberância irracional nos mercados de capitais, os “animal spirits” referidos por Keynes ("Maria vai com as outras", na tradução portuguesa). 

O Marcel Keizer chegou ao Sporting com um modelo de jogo aliciante. Futebol ofensivo, com defesa adiantada, laterais projetados no terreno em simultâneo e extremos colocados por dentro, jogo predominante pela zona central e preocupação com rápida recuperação da bola (os tais cinco segundos da pressão alta). A preponderância da zona central, das movimentações interiores dos jogadores para dar linhas de passe e do jogo ao primeiro toque em tabelinhas e progressão permanente era a sua marca de água. Como qualquer outro, este modelo apresenta fragilidades: os laterais têm de andar acima e abaixo e não são bem protegidos pelos extremos e o trinco ou seis tem de ser pau para toda a colher e equilibrar a equipa sempre que se perde a bola e não se recupera de imediato. 

Os primeiros jogos constituíram excelentes exibições e concluíram-se com goleadas. Mas havia um mas: sofriam-se sempre uns tantos golos. Os pontos fracos assinalados eram aqueles onde dispúnhamos de jogadores mais fracos também, especialmente Bruno Gaspar, Jéfferson e Gudlej. A pouco e pouco o Marcel Keizer foi adaptando este modelo para expor menos esses pontos fracos. Os extremos passaram a ser mais extremos outra vez e a bola passou a sair mais pelas laterais, ficando o jogo interior entregue às permanentes correrias do Bruno Fernandes e do Wendell e o ataque aos cruzamentos para a cabeça do Bas Dost, mesmo quando não joga. Este modelo não é brilhante mas não funciona mal quando a equipa joga na expetativa, atrás da linha do meio-campo e a explorar o contra-ataque ou as transições ofensivas. Este modelo começou a ser anunciado na tibieza como foi encarado o jogo contra o Guimarães e nos jogos seguintes. Contra equipas que estão disponíveis para assumir o jogo, como o Porto, este modelo pode dar bons resultados. Contra equipas pequenas não dá resultado nenhum porque os jogadores adversários não saem do sítio, bastando estacionar o autocarro e marcar o Bas Dost. 

Ontem, contra o Benfica, o Marcel Keizer resolveu fazer uma mistura explosiva. Quis assumir o jogo, mas colocou os jogadores no mesmo modelo que vinha adotando. Queria a equipa a sair pelo meio, ao mesmo tempo que continuava com a defesa recuada e os extremos abertos e muito avançados. Em inferioridade no meio-campo, há formas mais inteligentes de suicídio, a não ser que o Gudlej fosse o Maradona com a bola nos pés e o Baresi sem ela. Os jogadores do Sporting não ligaram uma única jogada em condições e a equipa estava permanentemente exposta sempre que perdia a bola, sucedendo-se os sobressaltos e deixando o Nani e o Raphinha sem bola na primeira parte. Às asneiras coletivas somaram-se as individuais. O Gudelj comportou-se como a anedota que é, não recuperando uma bola, não a disputando em permanência e perdendo-a com frequência, e o Bruno Gaspar foi a cereja em cima do bolo, oferendo os dois primeiros golos, o primeiro deixando sair um cruzamento que nem a um júnior se admite e o segundo esquecendo-se de alinhar com os centrais e colocando em jogo o avançado do Benfica. Quando tudo parecia perdido ainda na primeira parte, o Samaris tentou fazer o que não sabe, o Wendell pressionou-o e recuperou a bola, o Nani fez um passe magnífico para o Bruno Fernandes fuzilar de primeira à entrada da área e desviado para o lado direito. 

Parecia que tudo ainda era possível. Parecia mas não era. Não se percebeu a substituição do Nani, manifestamente aquele tipo de jogador para quem se olha nestes jogos e se espera que faça o que fez no primeiro golo, para entrar o trapalhão do Diaby. O que ainda se percebeu menos foi o terceiro golo logo a abrir, num lance que não se admite também a uma equipa de juniores. Livre do lado direito do ataque a meio do meio-campo, biqueirada para dentro da área e o Rúben Dias a saltar sozinho como se estivesse numa peladinha com os amigos. A partir do terceiro golo foi o destrambelhamento total. As perdas de bola sucediam-se, umas mais infantis do que as outras, e as oportunidades concedidas também, perante a permanente atrapalhação do guarda-redes, dos defesas e do Gudlej. O desgaste físico dos jogadores do Sporting era por demais evidente e o Marcel Keizer ia hesitando nas substituições (se era para deixar sem dono o meio-campo, mais valia ter partido o jogo e metido mais cedo o Luiz Phellype). O Benfica ainda marcou mais um e o Sporting outro, ambos de “penalty”. 

O Marcel Keizer procurou fazer uma mistura de “Stamppot” e de Cozido à Portuguesa. Quando se espera salchicha e puré de batata apanha-se com chouriço de sangue, pé e porco e batatas cozidas e vice-versa. Não sei se se deixa influenciar pela conversa técnico-tática nacional ou se é influenciado pelos elementos nacionais da sua equipa técnica versados nessa conversa. Não sei se o jogadores não se sentem confortáveis com o modelo de jogo inicial e o vêm adulterando. Mas há coisas que são incompreensíveis. Costumo dar o benefício da dúvida aos treinadores na escolha dos jogadores. Estou disposto a admitir que: o Lumor sofre de uma maleita qualquer que o impede de jogar futebol e melhor seria empandeirá-lo; o Francisco Geraldes vem de uma lesão e não se sabe se está em condições de ter o melhor rendimento; o Luiz Phellype ainda não conhecia bem a equipa no jogo contra o Tondela; o Doumbia não compreende ainda bem o que se lhe pede; o Jovane Cabral não está preparado para jogar certos jogos mais difíceis e mais exigentes taticamente. O que manifestamente não consigo compreender é o afastamento do Miguel Luís, quando jogou de forma regular e bem em diversos jogos consecutivos, a maior parte deles a titular, deixando o Bruno Fernandes e o Wendell esgotarem-se jogo após jogo. Não sei o que se passa na cabeça do Marcel Keizer, admitindo que passa por lá alguma coisa. Ninguém lhe pediu para ganhar nada. Pediu-se-lhe para colocar a equipa a jogar bom futebol, lançar novos jogadores e, assim, preparar a próxima época. Se era para jogar à Peseiro tínhamos o original e não andavam ao engano os jogadores e os adeptos. 

Artur Soares Dias, sempre ele e ao melhor nível. O melhor árbitro português. O melhor exemplo do que ao que tudo isto chegou. Na primeira parte, não consegue ver a uma metro de distância faltas continuadas do João Félix sobre o Wendell, precisando de consultar o VAR quando tudo acabou num golo do Benfica. Aceito a decisão do “penalty” a favor do Benfica. É verdade que o João Félix vai em queda ainda antes de tocar no Renan Ribeiro, é verdade que deixa o pé para nele embater, mas também é verdade que nestas circunstâncias o guarda-redes está sempre no local errado à hora errada. O que não aceito é que seja necessário recorrer ao VAR para marcar o “penalty” sobre o Bas Dost ainda mais evidente. O que não aceito de todo é que entre a falta e o golo tenham decorrido oito minutos (por única e exclusiva responsabilidade do árbitro) e se concedam sete minutos de desconto de tempo. O Benfica não precisava, como não precisou, dos favores do árbitro. O Benfica não merecia que os seus méritos, e foram muitos, fossem embaralhados com esses favores, como se verificará na discussão desta semana num qualquer canal perto de si como habitualmente.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Vinho e futebol, bom e mau

Não há como não gostar do Sérgio Conceição. Existe vontade e determinação a que se associa o sentido de compromisso e de solidariedade com os seus jogadores e a sua equipa. Não fala futebolês e, melhor ainda, não é sonso nem se faz de sonso. Mas ninguém é perfeito (eu próprio tenho os meus dias). Perdeu a final da Taça da Liga e teve “mau perder”. Se no calor do momento ainda se pode compreender, não pode haver compreensão nenhuma passado um dia. 

Reafirmou que tinha “mau perder” como se fosse uma virtude. Para ele, o “mau perder” opõe-se ao “bom perder”, quem tem “mau perder” não gosta de perder, admitindo-se que quem o não tem também não gosta de ganhar. Há pessoas que têm “mau vinho”. Depois de beberem ficam irascíveis, implicativas e conflituosas. A essas não se opõem as que têm “bom vinho”, isto é, depois de beberem, entaramela-se-lhes a língua, caminham aos esses e adormecem em qualquer canto e esquina. Aos que têm “mau vinho” opõem-se os que sabem beber, bebendo com conta peso e medida, de forma a apreciar o que bebem e a usufruírem do convívio com os outros. Da mesma forma, aos que têm “mau perder” opõem-se os que sabem perder, sendo essa a virtude.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Pior do que fumar

Acabámos de ganhar a Taça da Liga. No próximo fim-de-semana jogamos contra o Benfica. Ficávamos com uma semana para nos prepararmos para o “derby” enquanto enfiávamos uma outra alfinetada aos portistas e benfiquistas. Era mesmo necessário este jogo contra o Setúbal? Esta não era a semana perfeita para ficarmos refastelados em casa a ver o Barão Negro sem mais esta maçada? São questões que deixo para discussão, embora tenha a minha opinião formada, parecendo-me que os jogadores do Sporting têm a mesma. 

Sofremos um golo na primeira parte o que pode parecer um hábito mas não é: nos jogos fora de casa, há vinte e uma jornadas que sofremos pelo menos um golo e, portanto, não é um hábito, é um vício, como fumar. Faz mal mas não conseguimos parar, é compulsivo, é mais forte do que os jogadores e o Marcel Keizer (como antes o Jorge Jesus e o Peseiro). Este vício não afeta todos da mesma maneira. Para nós, adeptos, é pior sofrer um golo em todos os jogos fora do que fumar. Para os jogadores não é bem assim, sendo preferível para a sua saúde que não fumem mesmo que sofram uns golos aqui e acolá. 

Comecei a ver o jogo na segunda parte. O Doumbia ganhou uma bola ao Rúben Michael e leva uma trancada sem bola. O Raphinha ganha nas costas de cabeça de um defesa, a bola bate-lhe na mão (involuntariamente) e, na dúvida, o árbitro marca falta contra o Sporting e mostra uma amarelo ao Rúben Michael, pela falta anterior sobre o Doumbia imagina-se, e outro ao Bruno Fernandes, porque sim, porque tem poucos. Logo a seguir um jogador do Setúbal enfia uma cotovelada na cabeça do Ristovski, que lhe fez crescer um galo pica no chão de imediato, e o árbitro expulsa o jogador do Sporting (por palavras, em macedónio, presume-se, presumindo-se ainda que lhe tenha pedido para chamar o Varandas e como o Varandas não queria vir e não queria também ser assistido fora do campo, o árbitro o tenha expulsado por razões humanitárias). Era sobre isto que falaram o Luís Filipe Vieira, o Abel e o Salvador? Se houver também algum avençado envolvido neste jogo não se esqueçam de nos avisar para o despedirmos. 

O Marcel Keizer meteu o Nani e o Bruno Gaspar e tirou o Raphinha e o Doumbia. Mais tarde, meteu o Luiz Phellype e tirou o Petrovic. O jogo, bem, o jogo continuou, isto é, de um lado dez, do outro lado onze, servindo a bola de pretexto para o apito. Um tal de Mikel fez falta para segundo amarelo sobre o Nani e os comentadores sublinharam que ele arrisca muito, quando não arrisca nada, porque bate mas não fala em macedónio com a camisola errada e um alto na cabeça. Os jogadores do Sporting ainda levaram mais uns amarelos para aprenderem (o do Luiz Phellype só pode ser para rir). O árbitro fez tudo e mais um par de botas, chegando a suspender no tempo dois lances de perigo, um por fora de jogo que ninguém viu quando o trapalhão do guarda-redes saiu da baliza aos papéis e o Diaby ficou com a baliza aberta e outro por jogo perigoso (para o Setúbal, admite-se) do Luiz Phellype, quando a bola sobrou para a entrada da área onde estava isolado um jogador do Sporting pronto a rematar. Pelo caminho, o Bas Dost marcou um golo. 

Este jogo serviu exatamente para quê? Para vermos futebol? Para os jogadores disputarem um jogo? Serve de pretexto para o árbitro ter um emprego? A SportTv consegue que alguém lhe pague para ver isto ou as transmissões servem para criar conteúdos para o canal do Inácio? Sei as respostas todas. As perguntas são um simples exercício de retórica. Não nos venham é falar da falta de atitude dos jogadores do Sporting e da técnico-tática do holandês como se tudo fosse normal. Ver o Sporting é um vício. Faz mal mas nós, adeptos, não conseguimos parar. Um dia, aplicaremos uns adesivos, e vai-nos passar. Será um momento de libertação para nós e para o futebol português.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Há VAR e BAR, há ir e voltar


A chegada de Keiser despertou as luminárias da bola, todas elas versadas em futebol holandês e croissants amanteigados. Com as primeiras vitórias o desassossego instalou-se (Bernardo Soares escreveu sobre isso), e tiveram que se arranjar duas ou três explicações para o fenómeno enquanto se entrevistava Jorge Jesus algures no médio oriente. Após as primeiras derrotas, um dos analistas avançou com um ou dois pensamentos que fizeram escola no liceu de Carrazeda de Ansiães: nas vitórias os oponentes eram fracos, nas derrotas os oponentes eram consideravelmente superiores. Por exemplo, o Tondela. Do lado dos fracos ficava o Rio-Ave, a mesma equipa que o analista havia elogiado pouco tempo atrás como grande candidata ao quinto lugar. Em Carrazeda, duas teses de finalistas explicam em dezoito páginas esta linha avançada de pensamento.

Entretanto, uma convenção de treinadores portugueses reunia-se para discutir o calendário do cozido à portuguesa nos estágios e a importância das chicotadas psicológicas num curriculum vitae que se preze. José Mota foi um dos oradores mais aplaudidos. Lito Vidigal e Jorge Simão terão sido vistos a trocar papelinhos suspeitos. Conceição dissertou sobre bipolaridade: uma coisa é quando se ganha, outra quando se perde. Aplausos. Este debate foi seguido com muita atenção por todo o país.

Mais ou menos por essa altura, talvez um pouco antes, um conhecido dirigente terá visto a luz. Primeiro ainda se pensou que este iria a caminho do estádio com o mesmo nome, mas não, estávamos apenas a entrar num território bem conhecido do futebol português: o espiritismo. Quem diz espiritismo diz mezinhas, bruxaria, capelinhas, ou apenas feelings. Talvez seja por isso que o treinador contratado de seguida pelo dirigente que viu a luz, seja um expert em feelings. Tudo coisas que um treinador holandês, não possui, nem nunca possuirá, obviamente. A associação de treinadores portugueses que vão para os jogos de motorizada, aplaudiu com agrado.

Se possível fazer golos. Foi mais ou menos assim que Abel Ferreira lançou o jogo da meia-final da taça da liga contra o Sporting. Ainda não se descobriu outra forma de ganhar jogos, mas Abel, ainda assim acrescentou: e se possível não sofrer. Diz isto em todos os jogos, e apostamos que nas convenções de treinadores portugueses também, mas é sempre bom escutar estes pensamentos. Como já se sabia que o Braga ia à final, embora tivesse que marcar mais golos que o adversário, ficava apenas em suspenso quem seria o oponente. Salvador, lá no íntimo (como muitos bracarenses) preferia o Benfica, mas a conduta do dirigente que tinha visto a luz ao ir buscar dois jogadores ao Leixões com quem o Braga tinha (supostamente) acordo, deixou Salvador triste. Embora traído reagiu com elevação, à imagem do ano passado quando a altercação era com BdC e o Sporting.

Depois aconteceu aquilo: o VAR foi ao BAR, ou ao contrário, existem várias versões. Registe-se a conduta digna, urbana e elevada dos dirigentes mesmo na derrota. Um dos árbitros decidiu até auto suspender-se por se achar indigno de acompanhar tão ilustres personagens. Entregou-se a taça ao Porto, com o jogo da final a servir apenas de consagração. Sérgio Conceição apelou (sem se rir) ao desportivismo e contenção relativamente aos árbitros. As favas contadas chegaram a uns colegas meus de trabalho. Antes do jogo já estava três a zero. Chegou o dia e foi o que se viu e se poderá ler na excelente posta anterior do Rui. No final, destaque-se, mais uma vez,  a conduta digna e elevada, tanto de treinadores como de dirigentes do Porto. A nova modalidade de lançamento de medalhas avançará inexoravelmente rumo às olimpíadas. Está tudo na nova dissertação de Conceição aos peixinhos, perdão, aos treinadores portugueses. O mestre Madureira, da claque, também estará presente. Por via das dúvidas.  

domingo, 27 de janeiro de 2019

Keizerismo-Leninismo

Contra o Braga foi assim e contra o Porto ainda havia mais razões para assim ser: o jogo era uma formalidade. Os primeiros cinco minutos pareciam confirmar essa profecia. O Porto pressionou, pressionou, ganhou bolas atrás de bolas e parecia que não havia maneira de algum jogador do Sporting por cobro aquele vendaval e deixar a equipa respirar melhor. Mas foi o primeiro milho. Os pardais aproveitaram o que puderam, e puderam pouco, e depois, bem, depois foi mais pardais ao ninho. 

O Marcel Keizer voltou a surpreender o Sérgio Conceição. Quando pensava que se ia repetir mesma tática do jogo de Alvalade e, assim, nos podia cair em cima sem nos dar tempo de respirar, apanhou com uma defesa mais subida e uma pressão mais intensa sobre os defesas à saída do seu meio-campo. Com a defesa pressionada, o Oliver e o Herrera bem vigiados pelos jogadores do meio-campo do Sporting e o Rapnhinha e o Ristovsky a tirarem do jogo o Brahimi e o Alex Telles, restava aos do Porto jogar na profundidade, que corresponde “ao bola na frente e fé no Marega”. O posicionamento da defesa do Sporting concedia espaço nas suas costas mas não o suficiente, pois o Marega precisa sempre de mais dez metros do que qualquer outro avançado para se isolar, que é o espaço necessário para ter tempo de dominar a bola, enquanto vai tropeçando nela uma e outra vez. 

Os defesas do Sporting aguentaram bem o Marega, enquanto eu me via em palpos de aranha para aguentar o Manuel Queiroz a comentar na TVI. Os comentários sobre o excesso de faltas marcadas só aconteciam quando eram marcadas contra o Porto, não havendo nenhuma referência à dualidade de critérios na amostragem de amarelos, tudo culminado em modo vídeo-árbitro instantâneo, gritando: “O Raphinha não se dirigia para a baliza! O Raphinha não se dirigia para a baliza!”, quando o jogador do Sporting foi abalroado pelo Feilpe. Vivo em Braga e conheço bem o local onde se situa o estádio, encontrando-me em boas condições para confirmar a análise do Manuel Queiroz. O Raphinha, com efeito, não se dirigia para a baliza mas para uma loja da Decathlon, que fica perto. Não tenho nenhum problema que o jogo seja comentado por um adepto do Porto. Convém, no entanto, reforçar-lhe o superego, para que as pulsões subterrâneas do id não se manifestem de forma histriónica, pelo menos. É perguntar-lhe se é adepto do Porto umas tantas vezes antes do jogo e verificar se a agulha do polígrafo se mexe quando o procurar negar outras tantas. 

A primeira parte acabou por ser um passeio. O Porto construiu uma jogada de perigo e o Sporting cinco. Na segunda parte, o jogo mudou de figura. Condicionando por um amarelo, o Acuña foi substituído pelo Jéfferson. Compreendo os cuidados do Marcel Keizer, mas tenho as mais sérias dúvidas sobre os efeitos, dado que o Jéfferson costuma contar para o lado do adversário. A equipa fica na mesma a jogar com dez e vê o adversário superiorizar-se em número não numa mas em duas unidades. Como disse o Sérgio Conceição na conferência de imprensa, os jogadores do Sporting quebraram o ritmo de jogo. Esqueceu-se foi de explicar que quebraram o ritmo do jogo ao mesmo ritmo que os jogadores do Porto lhes iam quebrando a cana do nariz, transformando os primeiros vinte minutos numa episódio da Anatomia de Grey. Esta parte do jogo foi a mais apreciada pelo Frederico Varandas, como se notou pela forma empolgada como nos descreveu detalhadamente as alterações anatómicas das fossas nasais do André Pinto e do Petrovic, no final do jogo. 

Passados esses vinte minutos, então, sim, o Porto pegou no jogo ou, dizendo de outra forma, adiantou mais o Alex Telles e passou sempre a entregar a bola ao Brahimi para lhe fazer o que entendesse, porque ele entende como nenhum outro jogador dentro de campo o que se deve fazer com ela. Nessa altura, valeram-nos mais os jogadores do Porto do que os do Sporting. Percebeu-se que estava à espera que os segundos o atrapalhassem, mas ficou surpreendido por o atrapalharem os primeiros também. Num desses momentos de atrapalhação atacante, depois de um remate do Herrera, a bola ressaltou num tufo de relva, ressaltou no peito do Renan Ribeiro, ressaltou no pé do Marega, ressaltou na perna do Renan Ribeiro, ressaltou no pé do Fernando Andrade e entrou na baliza. O golo e os minutos que se lhe seguiram pareciam confirmar que o jogo estava decidido, apesar de duas substituições de sentido contrário: entrou o Diaby e saiu o Gudlej, no Sporting, e entrou o Danilo e saiu o Corona, no Porto. Os jogadores do Porto retinham a bola no meio-campo do Sporting e continuaram a insistir no ataque. 

De repente, tudo mudou: o Bruno Fernandes recebe a bola e de imediato faz um passe de trinta metros a rasgar a defesa do Porto e a desmarcar o Nani, que parte uma e outra vez os rins aos Militão, por quem nunca tinha passado no resto do jogo, e centra para um cabeceamento do Bas Dost em basculação ao lado. Os do Sporting acreditaram e os do Porto recearam e recuaram. O Jéfferson desmarca-se do lado esquerdo e centra (mal), safando o guarda-redes em cima da linha de baliza para canto. O canto sai mal mas a bola continua viva. O Jéfferson centra outra vez (mal) a bola bate num defesa e o Militão vai à linha de fundo evitar novo canto e alivia de cabeça para a entrada da área onde o Herrera ganha a bola para o Óliver que, à beira de um ataque de ansiedade, tenta-se ver livre dela de qualquer maneira e enfia uma biqueirada no Diaby. O árbitro, que estava a receber o troco das compras na loja da Decathlon, onde tinha ido com o Raphinha ainda na primeira parte, não vê, esquecendo-se, no entanto, que o “Big Brother was watching him”. “Penalty”, Bas Dost a olhar para o chão, remate para o meio da baliza com o guarda-redes a atirar-se para a esquerda e golo do empate. Logo a seguir o Bruno Fernandes faz um passe extraordinário sobre a defesa do Porto, desmarcando o Raphinha que, na cara do guarda-redes, não lhe consegue desviar a bola, batendo-lhe no tronco e saindo pela linha de fundo (para canto que o árbitro, livre do “Big Brother”, não assinalou). 

Nos “penalties”, o Porto teve a sua oportunidade de passar para a frente, mas o Militão optou por um golo de Super Bock. O Bruno Fernandes marcou a seguir como só ele sabe, entregando ao Renan Ribeiro e à sua dança o destino do Porto. O Renan Ribeiro defendeu o remate do Hernâni e, quando o Nani marcou a seguir, o Felipe foi para a marca de “penalty” com mais medo de falhar do que vontade de marcar. Tentou colocar a bola ao ângulo superior direito com tal precisão que, como acontece nestas circunstâncias, acabou por acertar na barra. 

Afinal o jogo não tinha sido uma formalidade e era necessário encontrar desculpas. Vieram em catadupa dos comentadores e do Sérgio Conceição: a sorte, o azar, o domínio, a atitude, explicando que o “penalty” nos caiu do Céu e, por oposição, o golo do Porto de um lance estudado e recheado de pormenores de elevada craveira técnica (que deve ter caído do Inferno!). O Sérgio Conceição está habituado a impor o seu jogo, porque as equipas contra as quais se bate são quase sempre muito fracas. Quando o adversário se equivale mais em termos físicos, técnicos e táticos é preciso conhecê-lo melhor, porque, quando não se conhece como se conhece a sua equipa, ganha-se mas também se perde. Contrariamente às minhas expetativas, o treinador do Sporting parece ter lido a “Arte da Guerra”, de Sun Tzu. A sua equipa pareceu sempre conhecer-se tão bem a si própria como ao adversário, nas suas fraquezas e nas suas forças, estando assim mais próxima de ganhar sempre. 

“É verdade que com frequência, em política, se aprende com o inimigo” (Lenine). Esta tem sido a orientação de Marcel Keizer no Sporting, que se poderá designar por Keizerismo-Leninismo. A continuar assim transformar-se-á no melhor “Treinador Português”, apesar de os comentadores serem defensores, e bem, que esta Denominação de Origem Protegida (DOP) só possa ser atribuída à produção nacional. A contrariedade foi tanta, deles e dos nossos adversários, que, uma competição sempre desvalorizada, parece transformada na Liga dos Campeões.