quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Atitude, alucinação e coerência

A equipa começa a apresentar sinais físicos de desagaste com tantos jogos seguidos e eu também. A equipa chegou atrasada ao jogo contra o Tondela e eu, ontem, também. Como de costume, entrei com o pé direito no Flávio e foi logo golo do Bas Dost, fazendo um duplo pé direito, mas afinal não tinha valido. O árbitro marcou falta, bem, falta de (deixa cá ver…) atitude. Sou favorável ao controlo anti-doping da arbitragem. É verdade, fumei coisas maradas quando era mais miúdo. Fumei mas não inalei, eu e outras pessoas especialmente recomendáveis como o Bill Clinton. Não é por isso que deixo de conhecer bem os sintomas. Uma vez, uma amiga minha, muito bonita por sinal, chegou-me a dizer que era um homem belo ao mesmo tempo que gritava para fugirmos que vinha a correr atrás de nós uma aranha gigante com a cabeça do Álvaro Cunhal adornada com o bigode do Chalana. Na ausência de VAR, percebe-se a intenção da Federação Portuguesa de Futebol de escolher um árbitro cujo nome comece por vê. É o mais parecido que se consegue arranjar. No entanto, esta boa ideia pode ser debalde se o árbitro estiver sempre a ver espécies da família dos aracnídeos com cabeça de políticos, de quem o país está mesmo a precisar para se acabar com a rebaldaria, disfarçada com excrescências capilares faciais de jogadores de futebol dos anos setenta e oitenta. Não foi somente neste lance que o árbitro marcou falta de atitude, sobretudo aos jogadores do Feirense. Para o árbitro, os jogadores, embora enfiando as suas caneladas, estiveram muito aquém do desejável, não merecendo qualquer cartão amarelo e gerando, desta forma, elevados custos reputacionais para um Aly Ghazal, por exemplo. 

Na segunda parte, o cerco apertou-se e os jogadores do Feirense foram-se amontoando em trinta metros do seu meio-campo, saindo em transições diretas para fora, para os defesas do Sporting e, com mais profundidade ainda, para o próprio Salin. O cerco tardava a dar resultados devido a um campo eletromagnético que se situava próximo da baliza, fazendo suspeitar que o Fernando Santos tivesse andado por ali com as suas mezinhas. Foi ele o responsável por desviar remates do Bas Dost, quando tudo levaria a crer que até o Castaignos marcaria golo, do Nani ou do Bruno Fernandes. Os golos do Sporting só se conseguem explicar por algum curto-circuito. O Wendell recebeu a bola do lado direito do ataque próximo da grande área, simulou que rodava para fora, rodou para dentro, enquadrou-se e meteu a bola na gaveta. Logo a seguir, depois de um canto, a bola sobrou para a entrada da grande área onde apareceu o Bruno Fernandes a fazer um remate furioso que o guarda-redes procurou defender depois de a bola ter saído da baliza. Em qualquer dos casos, houve falta de atitude não assinalada pelo árbitro, dado que o Bas Dost se encontrava às cavalitas dos defesas a abanar os braços como se estivesse num concerto dos Guns N' Roses ou dos AC/DC. 

Depois do dois a zero e estando há cerca de meia hora a aboborar na sua área, o Salin pediu ao Marcel Keizer e à sua defesa maior sentido de compromisso com a equipa (adversária, claro está). O treinador fez as substituições que se impunham para esse efeito e os defesas passaram a colaborar ativamente nas jogadas de ataque do Feirense. Com a saída do Mathieu e a entrada do André Pinto, o Coates sentiu-se em muito melhor companhia e foi o mais esclarecido, fazendo de imediato o que tinha de ser feito. Para não se perder tempo, passou a bola a um adversário à entrada da área, o adversário fez-se rogado e tirou-lha para a entregar a outro, o outro não se mostrou afoito também e tirou-lha para a entregar a outro, o segundo outro fez cerimónia e tirou-lha para dar ainda a um terceiro outro, que, para o evitar, finalmente rematou para defesa do Salin. Até acabar o jogo, o Salin fez mais um par de boas defesas correspondendo assim a excelentes iniciativas atacantes dos jogadores do Feirense e da sua defesa em conjunto. 

Acabado o jogo, regressei a casa ainda a tempo de ouvir os comentários da RTP3. Estava um senhor de meia-idade, a atirar para o forte, com barba grisalha aparada e cabelo castanho-avermelhado, mais ou menos da mesma cor de uma tinta de zircão que utilizei para dar uma primeira demão num portão da casa de Bucos, em Cabeceiras de Basto, a criticar o Marcel Keizer pelo jogo contra o Porto. Não estranhei. À sua maneira, o que estava era a elogiar o jogo contra o Feirense. Foi bom ouvir esse elogio ao nosso treinador no mesmo dia em que o seu desempenho foi equiparado ao do grande e inigualável José Peseiro. Está na altura de se comparar o seu desempenho com o do Del Neri no Porto, despedido quando se encontrava com os mesmos pontos do primeiro. Na época de 2004/2005, projetando-se os resultados até então obtidos, se não o tivessem despedido, o Porto teria sido campeão. Seria campeão “ex aequo” com as restantes equipas, mas, mesmo assim, campeão. Os erros pagam-se caro e o Benfica acabou por ser campeão nessa época. Corremos sérios riscos ao despedir o José Peseiro. Ainda bem que contratámos outro treinador que é tão bom como ele. 

Com estes elogios todos, os comentadores não encontraram razões neste jogo para criticar o Marcel Keizer. Não estiveram bem. Não se pode aceitar que um treinador diga que prefere ganhar três a dois a um a zero e, depois, ganhe dois a zero sem sequer uma palavrinha para nos explicar porque é que preferiu este resultado ao seis a quatro que impõe a sua própria filosofia de jogo. Exige-se coerência aos treinadores entre o discurso e a sua prática.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Expetativas, realidades e perceções

Há o jogo, o pré-jogo e o pós-jogo. A forma como vemos o jogo é determinado pelas expetativas que se constroem antes de acontecer em debates e noutras discussões. A forma como avaliamos o resultado do jogo é determinado pela narrativa durante o jogo e pelos seus comentários finais, em conferências de imprensa e nas mais diversas análises. Quase nunca nos damos conta da forma como somos condicionados e é condicionada a opinião pública em geral. O jogo contra o Porto foi um destes casos de condicionamento. 

[Oops, afinal éramos candidatos ao título e não nos tinham avisado] 
Se fosse pelo pré-jogo nem era necessário o jogo. O Porto vinha de dezoito vitórias consecutivas. O Porto é o campeão em título e o principal candidato esta época. O Porto vai à frente destacado e nada nem nenhuma outra equipa se lhe pode chegar. O Porto tem muito melhores jogadores. Não existe ninguém que igualhe o Sérgio Conceição no campeonato nacional, podendo optar por diferentes estratégias todas elas vencedoras, jogando mais na expetativa e explorando as costas da defesa, pressionando mais à frente ou massacrando em ataque continuado. Acabado o jogo verificamos que o Sporting é que perdeu dois pontos, apesar de continuar aos mesmos pontos de distância do Porto. Afinal, o Sporting era candidato ao título antes do jogo e deixou de o ser depois. O Porto nem sequer viu o Benfica aproximar-se na pontuação, nem desaproveitou a oportunidade para deixar o Sporting a onze e o Braga a oito pontos. 

[Oops, afinal o “Treinador Português” é estrangeiro] 
O Marcel Keizer é um menino perante o “Treinador Português” que sabe como ninguém condicionar os jogos dos adversários e em particular dos estrangeiros. O Sérgio Conceição tinha uma estratégia de condicionamento do jogo de Marcel Keizer. Antecipando, o Marcel Keizer fez de “Treinador Português” e o Sérgio Conceição andou aos papéis durante a primeira parte, dado que vive do condicionamento do jogo do adversário à procura dos seus erros e não da imposição do seu jogo ofensivo em ataque continuado. Afinal, sempre é verdade que o que é verdade hoje é mentira amanhã e vice-versa, tendo-se concluído o óbvio que quem procura condicionar o jogo do adversário acaba por condicionar o seu jogo ao mesmo tempo. [Aqui para nós, ao Marcel Keizer só lhe faltou o arrojo de voltar a ser o Marcel Keizer na segunda parte, metendo dois extremos (Raphinha e Jovane), quando o Sérgio Conceição adiantou os laterais, voltando a deixá-lo aos papéis] 

[Oops, afinal não contam os golos o que conta é a atitude] 
O Sporting jogou para não perder e o Porto para ganhar. O Marcel Keizer pensou em si próprio e não no interesse da equipa. O Sporting criou seis oportunidades de perigo e o Porto duas. Verdadeiramente, só houve uma oportunidade de golo quando o Bas Dost completamente isolado e enquadrado com a baliza cabeceou ao lado. O Sporting rematou mais vezes à baliza. O Sporting fez mais remates enquadrados, como agora se diz (durante noventa minutos o Porto só fez um e com a rótula do Soares). O Sporting teve mais cantos. As equipas equilibraram a posse de bola e o número de passes. Mas o que conta, o que conta mesmo é a atitude, vá-se lá saber o que isso é. Isso e estar quase a definir bem, como afirmou o Sérgio Conceição, enquanto nós nos íamos lembrando do Diaby ao mesmo tempo que desejávamos que fosse para o Porto onde, pelos vistos, as suas qualidades são muito apreciadas. 

[Oops, afinal a fruta é nossa] 
Na arbitragem, há erros de facto (foras-de-jogo, bolas que passam as linhas de jogo ou de baliza) e erros de interpretação (genericamente, as faltas). Em Portugal, analisam-se os segundos como se fossem os primeiros. Os segundos têm sempre uma forte componente de subjetividade por definição (uma interpretação é uma interpretação), a maior ou menor intensidade, o jogou a bola ou não, o cortou lance de perigo, a negligência ou a imprevidência e por aí fora. Se dispõem dessas características, deve, então, ser analisada a coerência do árbitro na sua análise durante o jogo, e não caso a caso, para se concluir sobre parcialidade. O Bruno Fernandes cortou um ataque do Herrera e devia ter levado amarelo. Devia ter sido expulso? Não. Aos dez minutos o Herrera levou amarelo depois da sua quarta falta, três delas sem bola. Se fosse aplicada ao Herrera a mesma interpretação que foi aplicada ao Jéfferson na sua primeira falta, então não estaria em campo quando o Bruno Fernandes fez a falta e, portanto, não a faria ou, pelo menos, não a faria sobre o Herrera. Vamos mesmo assim admitir a segunda hipótese. Se, no primeiro amarelo, aplicasse ao Bruno Fernandes a mesma interpretação que aplicou ao Soares num lance semelhante, então não veria depois o segundo amarelo mas o primeiro. Há um pormenor: o Herrera não foi expulso na segunda parte, depois de uma chapada ao Bruno Fernandes, aparentemente por compensação. De acordo com o que veio nos jornais, fomos gamados mas ainda devemos estar agradecidos, é isso, não é?!

domingo, 13 de janeiro de 2019

E agora algo completamente diferente (será?)


O campeonato português (não confundir com futebol português) é uma criação artificial para os três grandes poderem competir.  Cada década – digamos assim –  lá vai tendo um quarto grande, mas o restante é para encher. Como geógrafo (de formação) poderia avançar várias razões que sustentam essa centralização primordial, mas não é esse o ponto principal deste texto. Deixo, no entanto, dois exemplos que credenciam a competição do campeonato português: recentemente o Aves recebeu o Feirense com cerca de 800 adeptos nas bancadas; o Belenenses SAD (é assim que se chama?) costuma jogar no Jamor acompanhado de alguns observadores de pássaros e dois ou três reformados da segurança social. A primeira liga é isso.

Isso, e a luta pelo poder. Nos anos oitenta do século XX, com a democracia ainda a braços com a instrução primária, o FCP foi o primeiro a ver mais longe as possibilidades de um profissionalismo a reboque da cacicagem que por todo o lado proliferava, de mão estendida e sem rei nem roque. Um tipo lê o Eça e o Camilo e consegue perceber bem o ninho disto tudo. Ainda hoje os Super Dragões fazem algumas visitas sociais a estabelecimentos comerciais de árbitros (e não só) para recordar esses velhos tempos. Foi nessa altura que a dieta mediterrânea se projetou definitivamente através do consumo generalizado de fruta.

O Sporting foi o primeiro a pagar as favas do consumo exagerado de frutas (e algumas leguminosas), indo a banhos, sujeitando-se a alguns internamentos para tratamento do fígado e da coluna vertebral, maleitas que ainda hoje lhe causam náuseas e dores de cabeça. O Benfica chegou mais tarde ao buffet, apercebendo-se que não era apenas desafiado como também derrotado. Perigosamente derrotado. Depois foi ainda mais longe no conhecimento do “pensamento” português, criando uma rede de esgotos que desagua (depois de tudo) apenas no leito de Paulo Gonçalves. O homem tem costados largos.

No meio disto tudo, o Sporting, além das maleitas e internamentos, divertia-se em querelas internas, entre viscondes, salvadores, visionários, e seus seguidores. Tudo gente de bem. Ou Quase. Com as toupeiras e emails, o vento mudou de feição, mais uma vez não nos calhando em sorte. O resto são cantigas.

Basta atentar no jogo de ontem. Para além do nosso treinador ter mudado o chip, o que até confundiu o herdeiro de Aécio, perdão, o herdeiro do mestre JJ da táctica, Sérgio Conceição, percebendo-se que o nível de exigência esbarra sempre numa desculpa qualquer, o que também saltou à vista desarmada foi a dualidade de critérios que condicionou imediatamente o jogo, perpetrada por um tipo do apito absolutamente medíocre, como se impõe. As sarrafadas são sempre vistas em perspetiva dinâmica consoante as cores que os jogadores vestem. A quantidade de vezes que o jogo é interrompido ao ritmo das faltas assinaladas deverá constituir motivo de estudo e reflexão, principalmente nas casas de pasto de referência.   

Parafraseando (com algum exagero) um amigo meu que ontem citei nos comentários: o Porto é um Tondela mais técnico e com melhor mercearia. Sérgio Conceição é uma mistura entre Pepa e o Jaime Pacheco, mas com outra pinta. É exagero, mas a escola do Paulinho Santos e arredores ainda dá cartas, através da intensidade criteriosa, entre outros eufemismos, imposta pelo seu (herdeiro do mestre da tácita) treinador. Ele que vá treinar o Sporting para perceber o que é intensidade. Aposto que era logo campeão. E sem contratações, como o ano passado fez no fêcêpê.

sábado, 12 de janeiro de 2019

O futebol sem riscos é uma chatice e sem ética uma vergonha

Vi o jogo contra o Porto, ouvi as conferências de imprensa do Marcel Keizer e do Sérgio Conceição e, sem estar à espera, ouvi o discurso do Rui Rio em resposta ao desafio à liderança do PSD de Luís Montenegro. É bastante mais divertido disputar um jogo contra um adversário do que qualquer disputa interna. Como concluiu Rui Rio, citando o inevitável Sá Carneiro, “a política sem risco é uma chatice e sem ética uma vergonha”. Substituindo o sujeito, o futebol deste jogo também deve ser analisado pelo lado do risco e pelo lado da ética. 

O Marcel Keizer colocou a equipa a jogar à Jorge Jesus. Um pouco mais recuada, a jogar longo na frente para a cabeça do Bas Dost, e com o meio-campo a subir nesses momentos para procurar ganhar a segunda bola, ou no Diaby, condicionando o jogo pelo lado esquerdo do Porto, onde o Alex Telles não se viu na primeira parte. Esta forma de jogar não deu resultados ofensivos por duas razões: foi quase sempre marcada falta nas bolas divididas ganhas pelos jogadores do Sporting e o Diaby nos lances de perigo que construiu definiu sempre mal, como agora se diz. Defensivamente, a primeira parte foi um passeio. O Porto não fez um remate à baliza. O Porto é uma equipa que joga em pressão permanente sobre os adversários, procurando tirar proveito dos erros que tal atitude possa originar. O jogo mais direto do Sporting impediu essa pressão e com a bola disponível para construir jogadas de ataque revelou todas as suas deficiências, não criando um lance de perigo nem estando sequer perto disso. 

Na segunda parte, o Sérgio Conceição tentou meter o Alex Telles no jogo. Colocou o Brahimi mais por dentro e esticou o Alex Telles no lado esquerdo, apostando e colocando mais em jogo os dois jogadores que constituem os principais pontos fortes da equipa. Criou assim dois efeitos- surpresa, ganhando profundidade na esquerda e um apoio central aos avançados. O Sporting ficou perdido durante quinze a vinte minutos, tendo muita dificuldade em perceber o que lhe estava a acontecer. Terminado o efeito surpresa o jogo equilibrou-se por si sem que o Marcel Keizer tenha procurado mexer na equipa como se esperava, sobretudo com a entrada do Raphinha para acabar de vez com as brincadeiras no lado direito da equipa, dado que o Diaby andava perdido em campo. Com as duas equipas de rastos, os últimos minutos foram de doidos: perdas de bola de um lado e do outro, seguidas de contra-ataques de um lado e outro também. Com o apito final o árbitro impediu que alguns deles ainda acabassem por explodir em campo tal era a dificuldade que tinham em respirar depois das correrias. 

Na primeira parte, o Sporting construiu duas jogadas de perigo, a primeira com o Nani a rematar quase na pequena área e a bola a embater nas pernas de um defesa por mero acaso, a segunda com o Bas Dost a fazer um passe ao Casillas quando estava isolado à entrada da área, e o Porto nenhuma. Na segunda parte, o Porto tem duas jogadas de perigo, a primeira com o Soares a procurar rematar com o pé direito, batendo-lhe a bola no joelho da perna esquerda para boa defesa do Renan Ribeiro, e a segunda com o Marega a rematar dentro da área do lado direito para as nuvens, e o Sporting quatro, a primeira com um centro do Nani que o Militão cortou com o joelho sem saber bem como quando o Bas Dost se preparava para empurrar a bola, a segunda com um bom remate do Bruno Fernandes que o Casillas defendeu, a terceira com outro bom remate do Gudlej que o Cassilas voltou a defender, e a quarta com o Bas Dost completamente isolado a cabecear ao lado. 

No futebol não se ganha ou se perde com estatísticas, táticas ou intenções. Ganha-se com golos que constituem o objetivo do jogo. Quem marca mais golos merece sempre ganhar porque ganhar e merecer ganhar são uma e a mesma coisa. Os treinadores desenharam estratégias potenciando pontos fortes das suas equipas e aproveitando os pontos fracos do adversário. Os jogadores fizeram por cumprir o que lhes foi pedido e deram o que tinham para dar e um pouco mais. Quem viu o jogo não deu o tempo por mal empregue e, por isso, não houve chatice porque houve risco, calculado, mas houve. 

Aos dez minutos o Herrera viu amarelo depois da quarta falta, três delas sem sequer disputar a bola. Pelo critério que o árbitro adotou relativamente ao Jéfferson por muito menos um pouco mais tarde, o Herrera devia estar com três amarelos mal o jogo se tinha iniciado. As duas primeiras faltas dos jogadores do Sporting resultam de duas disputas de bola em que nenhum dos jogadores dispõe do seu controlo e ganha aquele que é mais forte (veja-se, por comparação, o inicio da jogada que dá origem à mais relevante jogada de perigo do Porto que originou a defesa do Renan Ribeiro). A primeira parte tem diversas situações destas. O Sporting, que apostava no jogo em profundidade e na disputa da segunda bola, viu assim impedida a sua estratégia. A equipa do Porto, muitas vezes mal posicionada, pôde cortar lances sem disputar a bola, nada acontecendo em termos disciplinares aos seus jogadores e não os condicionando na disputa de lances futuros. A cereja em cima do bolo nem sequer foi o referido amarelo do Jéfferson. Numa disputa do lado direito, o Bruno Gaspar chega primeiro e o Soares acaba por entrar a destempo, acertando-lhe, sendo marcada a falta sem qualquer sanção disciplinar. No outro lado do campo, o Corona chega primeiro à bola, o Bruno Fernandes entra a destempo também e acerta-lhe (?), sendo marcada a falta e punido o jogador do Sporting com amarelo. Ao fim da primeira parte, os jogadores das duas equipas tinham o mesmo número de amarelos e a estratégia do Sporting tinha sido condicionada pelas faltas nas disputas das segundas bolas e pelas faltas sem bola dos jogadores do Porto. 

Esta arbitragem não foi como a do Tondela. Foi mais insidiosa. Condicionou o jogo e o seu resultado sem o determinar diretamente. Aparentemente, são aplicadas as regras do basquetebol na disputa dos lances à equipa do Sporting e às outras equipas as regras do “rugby”. No futebol português, nem ética nem vergonha. Por isso não vale a pena esperar nada desse lado. Agora, do nosso lado, convém termos noção dessa falta de ética e de vergonha. É que quando as regras são diferentes não faz sentido andarmos sempre a falar da atitude ou da falta dela, como se só o Sporting é que tivesse azar na escolha dos jogadores. A propaganda vive da semântica. Expressões como combativo, raçudo ou violento rimam melhor com certas camisolas do que com outras. Como referi inicialmente, é preferível sempre qualquer disputa com os adversários a qualquer disputa interna.

Correu bem


Ainda bem que não precisávamos de ganhar...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Self-fulfilling prophecy

Vá-se saber porquê (é um simples exercício de retórica porque todos sabemos) instituiu-se que o Marcel Keizer estava sob escrutínio em todos os jogos tendo como referência o “Treinador Português”, essa figura mítica só equiparável à do Adamastor. Esse escrutínio funciona só para um dos lados. Quando ganha e o adversário leva para casa um cabaz conclui-se que não se pode concluir porque o teste não era para levar a sério. Quando perde, nesse caso sim, existem todas as condições para se afirmar que o “Treinador Português” é dado a elucubrações táticas que não estão ao alcance de um holandês na crise da meia-idade, como se nota pela sua evidente insuficiência capilar (daqui até se afirmar que o “Treinador Português” é produto da melhor escola tática do Mundo vai um passo que se dá logo em seguida). Como nenhum treinador ganha sempre, constrói-se com toda a facilidade uma profecia autorrealizável (o conceito de “self-fulfilling prophecy” que origina o título deste “post”). 

O Marcel Keizer foi ganhando jogos atrás de jogos e enfiando cabazadas atrás de cabazadas. Se não era do dito cujo era das calças e, portanto, nada se podia concluir, havendo sempre um sinal de alerta, que tanto podia ser um golo sofrido como o excesso de golos marcados, que nos devia deixar de sobreaviso para a próxima. No jogo de Guimarães começou-se a cumprir a profecia, mas como o Luís Castro tem ar de quem toma banho todos os dias e as suas equipas jogam futebol não constitui propriamente o protótipo do “Treinador Português”. O jogo contra o Tondela foi o teste do algodão: um treinador patusco e uma equipa que defende com se estivesse em causa a sua própria vida e não houvesse amanhã e a jogar no Portugal profundo inventado pelo António Ferro, que constitui o repositório das virtudes nacionais, profusamente divulgadas nos meus livros da escola primária. 

Vai-se assistindo ao jogo enquanto se escutam os sábios comentários da SporTv. Tudo o que se vê tem um propósito e obedece a uma lógica que não está ao alcance dos espetadores que não percebem porque não estudaram o suficiente obras fundamentais como “A Bola”, “Record” e “O Jogo”. Uma biqueirada para a frente sem nexo rapidamente se transforma num modelo de jogo que privilegia a profundidade e o espaço concedido nas costas da defesa. Uma série de sarrafadas e de faltas é-nos explicada como elevada intensidade de jogo. A colocação de um pino na frente resulta de uma aposta na fixação dos centrais e na criação de dificuldades na transição ofensiva do adversário. São-nos enumeradas qualidades de jogadores de quem nunca se ouviu falar, embora por vezes se troquem os nomes e as posições porque a cábula não estava bem feita. Esta narrativa só precisa do resultado para se legitimar. Se os pernetas ganham, está encontrada a explicação para a vitória que nos foi sendo contada durante o jogo (não é por acaso que se regista uma enorme consternação nos comentadores quando acontece qualquer reviravolta no resultado). 

As estatísticas do jogo do Sporting contra o Tondela são absolutamente extraordinárias e mais ainda no que respeita à equipa visitada: 179 passes, com 56,0% de eficácia, 24 faltas (e outras tantas por marcar) e 28,0% de tempo de posse de bola. Os dados são esclarecedores: a cada dois passes o Tondela perde a bola, o número de passes é cerca de metade de qualquer outra das piores equipas nesta jornada, há jogadores que acertaram mais vezes no adversário do que na bola (relativamente ao jogador que foi expulso, o segundo amarelo resultou da sua sexta falta em pouco mais de vinte minutos de futebol corrido.). Aparentemente é a isto que se chama uma tática à “Treinador Português”. Não houve tática nenhuma nem sequer futebol. O que se assistiu foi a uma batalha campal com a complacência do árbitro em que a bola só serviu para sinalizar o adversário a quem se iria arrear em seguida. 

Nada disto retira responsabilidades à equipa do Sporting e aos seus jogadores e treinador. Tinham obrigação de saber o que os esperava. Era um daqueles jogos em que não se pode entrar mal e, pior ainda, permitir de forma desleixada o primeiro golo do adversário, dando ânimo e agravando as condições difíceis de partida. É preciso saber reagir em conformidade e não desistir. É duro, percebo bem. Levar, voltar a levar e levantar-se uma e outra vez, não valendo a pena protestar porque a quem se podem dirigir os protestos não está para os ouvir. Imagino que seja quase cruel para um Coates assistir a tudo isto e a saber que não pode responder na mesma moeda. As alterações táticas do Marcel Keizer mais não revelaram do que lucidez ao verificar o que se passava à sua frente: quando não se joga futebol, não se pode querer ganhar a jogar futebol porque o jogo não é esse. Também não vale a pena fazer o contrafactual na constituição da equipa e nas substituições, sob o risco de se elogiarem qualidades de jogadores que não vimos jogar e se discutir se é preferível jogar com um coxo ou um cego. 

O que me está a preocupar no Marcel Keizer não são os resultados. O que me está a preocupar é que há indícios de se estar a aculturar e de se querer transformar no “Treinador Português”. Espero que o Marcel Keizer não passe a ter medo de ser o Marcel Keizer. A bola parece sair cada vez mais pelas laterais, pelos defesas ou em passes destes para os extremos diretamente, quando nos primeiros jogos a lateralização servia simplesmente para abrir o jogo e fazer voltar a bola ao meio por onde deve andar. Os extremos estão mais abertos, jogando menos por dentro e estando mais longe quando se perde a bola, reduzindo a sua capacidade de recuperação em pouco tempo. Também por isso, a pressão à saída da bola do adversário começa a ser insuficiente e a defesa, na dúvida, joga mais atrás, deixando mais espaço ainda que o meio-campo e, especialmente, o Gudelj preenchem mal. Ninguém no seu perfeito juízo pede mais ao Marcel Keizer do que bom futebol e o crescimento de alguns jogadores que possam constituir uma boa equipa para os anos que vêm. Não há que ter medo, ainda para mais no Sporting onde nem sequer há medo de se ser feliz porque, no fim, quase sempre se é infeliz, como provaram (na própria pele) vários treinadores como o Mirko Jozić, vítima de árbitros plenos de azia e do tal “Treinador Português”.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

A derrota contra as hordas lideradas pelo Shaka Zulu das Beiras

Este fim-de-semana vi uma pequena reportagem sobre o Estrela da Amadora x Belenenses para os campeonatos distritais: estádio cheio e alegria de quem vai para uma festa com os seus, os que vestem a mesma camisola e constituem por isso a sua comunidade. Lembrei-me dos meus fins-de-semanas há uns anos em Cabeceiras de Basto quando ia ver os jogos do São Nicolau, onde jogavam os meus sobrinhos. As pessoas aglomeravam-se à volta do campo, não havendo bancada. Cada fiscal de linha ficava a um sopro dos espetadores. O jogo iniciava-se e iniciava-se um ritual que envolvia muita biqueirada para o ar, caneladas sempre que possível e insultos, muitos insultos ao árbitro e aos fiscais de linha, enquanto dois GNR passeavam a sua autoridade. Ao intervalo o café, cujo dono era o presidente do clube, enchia-se para as cervejolas da ordem, ficando muitos espetadores a ver a segunda parte das janelas ou da varanda.  

A equipa era patrocinada por um primo, empresário bem-sucedido, que vivia em Braga e se deslocava também aos fins-de-semana para ver estas partidas. Ao fim dos jogos, era frequente os árbitros irem para uma das casas da família comer umas chouriças assadas e beber umas malgas de vinho verde tinto ou de vinho maduro, para os mais finos. Era um momento extraordinário. Contavam-se as histórias mais mirabolantes dos jogos e das arbitragens. Ao princípio, a minha cabeça cosmopolita não percebia o interesse desse primo em patrocinar a equipa e os jogos. A pouco e pouco fui percebendo que o interesse era o ritual: o regresso à terra onde se nasceu, o convívio com os amigos, as conversas infindáveis sobre jogos dos sobrinhos e deles quando tinham a mesma idade. Os campeonatos distritais servem para a preservação de identidades e a construção de comunidades de destino, permitindo que o encontro com o outro e a festividade sejam um fim em si mesmo. 

Sou de Viseu e conheço bem Tondela. Faz parte de uma rede de pequenos centros urbanos que rodeiam a capital de distrito, como São Pedro do Sul, Nelas, Mangualde, Castro Daire, Sátão ou Penalva do Castelo. O clube local constitui uma das muitas improbabilidades de que o campeonato está repleto. Hoje o Tondela, o Aves, o Moreirense ou o Feirense. Ontem o Leça, o Trofense, o Arouca, o Vizela ou o Fafe. São clubes que tanto podem estar nos distritais, e até desaparecer, como a jogar com os grandes de Portugal. Num país sem descentralização política e de tradição municipalista, assiste-se à descentralização desportiva e ao municipalismo futebolístico. O que caracteriza estes clubes é o mesmo que caracterizava do São Nicolau de tempos passados: o espírito dos distritais. 

Ontem, o Sporting foi jogar a Tondela com a mesma arrogância dos meus primeiros jogos do São Nicolau. A nossa equipa tinha uma tática e um modelo de jogo. A convocatória foi a afirmação dessa matriz tecnocrática do Marcel Keizer e, procurando pensar pela cabeça de um holandês, fazia todo o sentido. Ia-se jogar um jogo e quem jogasse melhor ganharia. Mas o Sporting não ia jogar um jogo. Ia, isso sim, desafiar o sentido de pertença e de comunidade materializado numa equipa de futebol, à qual lhe é indiferente jogar os distritais ou o campeonato nacional. Nunca percebi o interesse dos treinadores portugueses em congeminar táticas para bloquearem a forma de jogar do Sporting de Marcel Keizer. Bastava continuarem a ser como são. A tática é a do “abaixo do pescoço é canela” combinada com a da “bola para o mato que o jogo é de campeonato”. Os jogadores do Tondela fizeram por merecer todas as faltas que fizeram, marcadas ou não, e todos os amarelos que lhes foram mostrados (ou não). Liderados pelo atual Shaka Zulu das Beiras, o inigualável Ricardo Costa, e armados com paus, pedras, arcos e flexas e mocas, devastaram a defesa e o meio-campo adversário. Os meninos do Sporting e o Marcel Keizer só tarde e a más horas perceberam que não estavam a jogar um jogo mas a enfrentar uma guerra de guerrilha em cada centímetro do campo. Nestes jogos há árbitros e GNR mas é como se não houvesse. 

Também é verdade que tudo o que podia correr bem para o Tondela e tudo o que podia correr mal para o Sporting, correu. É injusto afirmar-se que, no primeiro golo, era preferível um pino ao Bruno Gaspar. Um pino ocupa pouco espaço e cai ao primeiro toque. A comparação adequada é com um bidão. Se em vez de estar o Bruno Gaspar estivesse um bidão na lateral direita, o jogador do Tondela teria chocado com ele e perdido a bola. No segundo golo e apesar da reincidência, se o jogador do Tondela soubesse fazer o que fez talvez estivesse num clube começado por tê, mas não seria o Tondela, seria Tottenham. E também é verdade que o modelo Keizer está a emperrar na disponibilidade física dos avançados. Para a defesa jogar mais adiantada, é necessário que os avançados e os jogadores de meio-campo reajam mais depressa à perda da bola e a recuperam mais depressa e o mais próximo possível da área adversária, que não está a acontecer desde o jogo de Guimarães. A recuperação relâmpago do Wendell tinha o objetivo de suprir esta deficiência. Mas é preciso mais do que isso. É preciso um seis que não se pareça com o Bruno Caires, como li ontem algures. 

O Marcel Keizer às páginas tantas percebeu o que estava a acontecer à frente do seu nariz, o que revela inteligência. A tentativa de colocar os centrais dentro da área é o reconhecimento de que não bastava a tática. Era preciso coração e o tal espírito de distrital. Só não se compreendeu bem a substituição do Nani que, naquela altura, parecia o mais lúcido e o mais experiente para ajudar a virar um jogo como aquele (porventura, terá sido mais uma questão física do que qualquer outra a determiná-la). Este reconhecimento do Marcel Keizer é sinal de inteligência. Mas mais inteligente seria mandá-lo dar umas voltas por este Portugal profundo para perceber os tondelas que lhe vão sair em sorte. 

Fiquei com uma única dúvida depois do jogo se concluir e do amarelo mostrado ao Acuña (num jogo em valeu tudo e mais um par de botas). Depois de acabar o jogo, onde é que os árbitros terão ido comer a chouriça assada e beber uns copos de Dão? O número de cartões amarelos e vermelhos mostrados ao Maxi Pereira constitui um indicador avançado das inclinações arbitrais. No Benfica, conseguia ter menos amarelos do que o nosso Rui Patrício. No Porto, começou por levar amarelos e vermelhos em barda, mas, atualmente, encontra-se com o registo idêntico ao de outros tempos. A outra explicação é o Benfica ter desistido definitivamente de lutar pelo título, concentrando as suas atenções no apuramento para a Liga dos Campeões.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Alexandra Solnado a falar em Código Morse

Ontem, contra o Belenenses, era o jogo de todos os perigos. Regularmente, jogamos sem defesa esquerdo. Já jogámos também sem o Nani, o Wendell ou o Bas Dost. Íamos, agora, experimentar jogar sem o Bruno Fernandes. Encontrávamo-nos na situação do puto que mostra ao pai como se anda de bicicleta, primeiro, sem pés, depois, sem mãos, e, por fim, sem nariz. A expetativa de nos estamparmos e ficarmos sem nariz era tudo menos negligenciável. Não sei se por essa razão ou pela referência do Silas, treinador da equipa adversária, ao trabalho (?) do José Peseiro, mas o pé do dito assombrou-nos o jogo todo. 

O início dos jogos em Alvalade começa a constituir um clássico. O treinador (português) da equipa adversária congemina uma tática que ou nos surpreende ou surpreende a sua própria equipa, transformando os primeiros quinze minutos numa autêntica montanha russa. Ninguém se admirou, assim, que as três primeiras jogadas de perigo fossem do Belenenses. Até que o Nani ganha uma bola mal atrasada de um defesa de cabeça, vai à linha de fundo e passa-a ao Acuña que remata com o pé que tinha mais á mão (o direito) para defesa impossível do guarda-redes. Um pouco mais tarde, depois de um lançamento longo, o Diaby tropeça na bola, tropeça em si próprio e nos seus pensamentos, tropeça num defesa, até tropeçar no guarda-redes quando se encontrava isolado. Quando o Sporting tinha começado a controlar o jogo e a empurrar o adversário para trás, esperando-se o primeiro golo, o Acuña teve uma súbita paragem cerebral e num passe suicida para o meio isola um avançado do Belenenses que vai numa correria louca com o Coates no encalce até se desintegrar e chutar contra o poste, depois do Renan Ribeiro simular a saída, hesitar, escorregar, levantar-se e voltar a atirar-se para o chão a fingir que se fazia à bola para não fazer má figura. Para demonstrarmos que não precisávamos de ajuda de ninguém para o mesmo efeito, respondemos de imediato com uma triangulação notável entre o Diaby, o Nani e o Wendell, concluída com remate do segundo ao poste.

O 3x5x2 do Belenenses que se tinha vindo a transformar num autocarro, estacionou de vez na segunda parte, não se registando nenhuma saída para o ataque ou contra-ataque em condições. O Sporting tentava pressionar alto, mas os jogadores do Belenenses conseguiram sempre, com maior ou menor dificuldade, não perder nenhuma bola próximo da sua área. A insistência era inversamente proporcional à imaginação pelo meio e aos desequilíbrios nas laterais e, assim, o Bas Dost nem a bola cheirava, entalado como estava entre três centrais. Mas, há sempre um mas, por uma vez o Gudelj decide fazer um passe para a frente, o Nani recebe a bola e passa-a de primeira para o Diaby que, à entrada da área, a segura enquanto vai chamando pelo Bruno Gaspar. Chamou uma, chamou duas, até que à terceira lhe enviou uma mensagem por WhatsApp: “Bruno, não te importas de te desmarcar pelo lado direito para te passar a bola. Era um favor que me fazias. Atenciosamente, Diaby”. Por educação, o Bruno Gaspar correspondeu ao pedido e concluiu a jogada, seguindo as orientações que lhe tinham sido transmitidas na primeira parte pelo treinador quando o chamou ao banco de suplentes para lhe dizer: “se não sabes fazer um centro ou um remate, então faz um centro-remate” (o André Almeida tem vindo a desenvolver esta técnica com resultados assinaláveis, valendo-lhe candidatura para Prémio Puskas). Como se viu em “slow motion”, a forma hábil como pontapeou a bola por baixo e do seu lado direito permitiu que ganhasse um tal efeito que tanto se podia considerar um passe para a barriga do Miguel Luís ou a cabeça do Bas Dost, que estavam mais à frente, como um remate dirigido à cabeça do defesa para nela a bola tabelar e entrar junto ao poste mais longe. 

Depois do um a zero e das obrigatórias substituições do Nani e do Wendell, que se encontravam por um fio, o Marcel Keizer resolveu aproveitar o trabalho do José Peseiro, como tinha vaticinado o Silas. A equipa ficou como um tolo no meio da ponte: não sabia se devia atacar e fechar o resultado ou defender o um a zero. O público de Alvalade, experiente, sabendo que o perigo estava ao virar da esquina, insistia para que se continuasse a atacar. Tanto insistiu que, depois de receber a bola à entrada da área e da cerimónia da defesa do Belenenses, o Miguel Luís enfiou-lhe uma pantufada que só parou dentro da baliza, deixando o seu avô lavado em lágrimas, como se soube mais tarde. O dois a zero é um resultado perigoso e mais perigoso é quando se trata do Sporting. O Gudlej continuava a perder bolas e a marcar os adversários com o olhar (ao menos que faça como o Jonas e lhes atire os atacadores das chuteiras às fuças, como relatou a SporTv no jogo do Benfica contra o Portimonense). Sem pressão, os defesas e os médios do Belenenses tinham todo o tempo e espaço do mundo para meter a bola nas costas da defesa para as diagonais dos avançado e, num desses lançamentos, o Licá ficou isolado do lado esquerdo. O Coates ainda correu para a defesa mas, vendo que se tratava deste internacional português e que o Mathieu se encontrava por perto, desistiu e quando acordou para a vida era tarde. O Licá, depois de se atrapalhar, acabou por passar a bola para dois ciclistas que vinham a toda a brida, o primeiro rematou para defesa do Renan Ribeiro, acabando o segundo por fazer a recarga para o dois a um, cumprindo a máxima do nosso treinador: o jogo não é jogo se não sofrermos pelo menos um golo.

Tudo está bem quando acaba bem, seria este o final deste jogo e desta crónica. Mas eles andam por todo o lado. Infiltram-se onde menos se espera. Saindo debaixo da terra, como de costume, um deles perguntou ao Marcel Keizer na conferência de imprensa se o despedimento do Rui Vitória podia produzir o mesmo efeito do despedimento do José Peseiro. O homem, em vez de responder com o correspondente: “O que é que tenho a ver com essa m****?!”; disse umas coisas que nem ele próprio percebeu, enquanto se esquivava de uma insistência por palavras ínvias. 

O Benfica, sempre o Benfica. Na televisão, o despedimento do Rui Vitória foi analisado como se tratasse da votação no parlamento inglês do acordo do Reino Unido com a União Europeia para o Brexit. Depois de uma noite de insónia, o Luís Filipe Vieira viu uma luz e prometeu ao Rui Vitória que não o despediria. Foi a fé que o iluminou. As religiões foram construídas a partir deste tipo de enigmas (ou de milagres, na linguagem mais canónica). Os textos sagrados estão repletos de relatos como este (quem não se lembra da epopeia de Melchior, Baltasar e Gaspar sem ajuda do Google Maps). A fé não se explica. Ou se tem ou não se tem, ou se é racional ou se tem fé (ainda se pode admitir que depois de atos racionais sem sucesso se possa ter que confiar na fé, mas nunca o contrário). Não se pode vir um dia metaforicamente afirmar que se falou com Deus para dias depois se corrigir, fazendo de conta que tudo não passou de um simples engano e a luz se tratava da Alexandra Solnado com uma lanterna a tentar comunicar em Código Morse. Espera-se adequado comunicado da Santa Sé ou, pelo menos, do Patriarcado de Lisboa. Da Associação Nacional de Treinadores espera-se tanto ou mais. Depois de uma promessa destas, não se compreende que se despeça um treinador à falsa fé.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Averell e Joe Dalton

O jogo de ontem, contra o Feirense, começou muito depressa. O Bruno Fernandes mete a bola no lado direito para o Raphinha que avança com ela até fazer uma revienga à entrada da área a dois adversários e rematar em arco para o poste mais longe, fazendo o um a zero. Passado mais um quarto de hora, um passe em profundidade do Coates (noutros tempos a este passe chamava-se um alívio do Polga) o Bruno Fernandes a deixar bater a bola à sua frente e a enfiar-lhe um vólei por cima da cabeça do guarda-redes para fazer o dois a zero. As crónicas dos jogos do Sporting tornam-se assim muito mais difíceis de escrever. Não há tempo para perceber a tática das equipas, o modelo de jogo, as intenções e outras questões que levam tanta gente a ver jogos em Portugal e tantos e tantos a querer analisá-los, antes, durante e depois de se realizarem. 

Mal tinha passado um minuto depois do segundo golo, o Coates domina mal uma bola que fica a pinchar à entrada da área, o Petrovic salta com um adversário e o árbitro marca “penalty”. Finalmente os treinadores portugueses tinham percebido a melhor forma de ultrapassar o Keizer, recorrendo à mesma fórmula dos tempos do Jozić: meter um deles a arbitrar os jogos. Ao princípio pensei que fosse o José Mota, mas uma análise mais atenta permitiu-me perceber que se tratava do Averell, o mais alto dos irmãos Dalton. Na SportTv um comentador explicou-nos que a intensidade que não tinha levado o Averell a marcar “penalty” numa falta sobre o Raphinha era diferente da intensidade que o tinha levado a marcar este. Fiquei esclarecido e percebi imediatamente por onde andava o Joe, o mais baixo dos irmãos Dalton. Tinha desconfiado quando no único lance de perigo até então dos da casa, ninguém tivesse reparado que nasce de uma falta que não existe e de um jogador que se faz à bola e atrapalha o Salin que se encontrava meio metro fora-de-jogo. Em alternativa, explicaram-nos que o Feirense era uma equipa muito forte nas bolas paradas. Ao longo do jogo percebi quão verdade era esta asserção: com a bola parada era para os seus jogadores muito mais fácil de lhe acertar do que quando se encontrava a rolar, acertando com mais frequências nas canelas ou em qualquer outro elemento anatómico dos adversários que estivesse à mão de semear. 

O Sporting continuou como se nada fosse e passado cinco minutos o Bruno Fernandes cabeceia para uma defesa impossível do guarda-redes. No entanto, o jogo começou a ficar mais partido. O Sporting procurava pressionar alto e recuperar a bola o mais próximo possível da área do adversário, mas os do Feirense não estavam para brincadeiras e desataram às biqueiradas para onde estavam virados, explicando-nos benevolentemente o comentador da SporTv que pretendiam explorar a profundidade e as costas da defesa. O jogo foi prosseguindo com canelada aqui, canelada ali, canelada acolá e faltas marcadas para uma e outra equipa de acordo com uma distribuição binomial com uma probabilidade de ocorrência diferenciada em função da cor das camisolas. Embora se tenha começado a salientar um tal de Philipe Sampaio, acabou por ser um outro, Diogo Almeida, a constituir-se como o praticante de artes marciais mais destacado ao tentar arrancar a rótula do Acuña (a falta foi grave, mas tão, tão grave que levou um amarelo para aprender a comportar-se). 

A segunda parte iniciou-se como se tinha concluído a primeira (onde é que já ouvi isto!). O Philipe Sampaio acabou por levar um amarelo pelo facto de ter efetuado três faltas, de acordo com a sinalética do árbitro com os dedos da mão (sempre tive a maior desconfiança na matemática de pessoas que contam pelos dedos). Seguramente aborrecido por esta falta de reconhecimento, o Philipe Sampaio aplicou um “ippon” ao Bas Dost dentro da área, vendo recompensado o seu esforço com um “penalty” (o Sporting tem uma excelente equipa de judo e é campeão europeu, mas um atleta como este não aparece todos os dias, deixando-se esta referência à melhor atenção do “scouting”). Alguém deve ter explicado, e bem, ao guarda-redes que a melhor maneira de defender um “penalty” do Bas Dost é manter-se de pé o mais tempo possível, embora se tenha esquecido de lhe dizer que se assim o fizesse provavelmente também não chegaria a tempo à bola, mesmo que ela fosse simplesmente passada para a baliza. O quatro a um veio logo a seguir, depois uma tabelinha entre o Miguel Luís e o Diaby, com o guarda-redes a defender a bola para a frente e um defesa do Feirense a metê-la na própria baliza só para evitar que fosse o Bas Dost a fazê-lo. 

O Tiago Silva, o Platini de Santa Maria da Feira, nas conhecedoras palavras do comentador da SporTv, envolveu-se num curioso diálogo filosófico com o árbitro sobre a existência de Deus na lógica cartesiana. Procurou-lhe explicar que a consciência do perfeito pelos homens, imperfeitos por definição, pressupõe a sua existência. O árbitro, percebendo incorretamente a referência à imperfeição, pensando que dizia respeito à sua arte do apito, expulsou-o injustamente. A partir do quatro a um e desta expulsão, o jogo praticamente acabou. Os jogadores do Sporting foram trocando a bola entre si para evitarem os “kamikazes” fogaceiros, embora o Jovane Cabral, menos industriado na tática do engonha, ainda tenha rematado ao poste, seguido de uma recarga do Diaby por cima da baliza quando a tinha completamente aberta à frente do nariz. O Keizer aproveitou para rodar a equipa sem ter, porém, resistido à tentação de arriscar tudo por tudo ao meter o Jéfferson ainda antes do tempo de descontos. Quem viu o jogo na televisão não deu, mesmo assim, o tempo por perdido. Desalentado, o comendador da SporTv foi-nos explicando que este resultado e a passagem à “final four” da Taça da Liga eram contra o interesse próprio do treinador e dos jogadores do Sporting. Elaborou um raciocínio longo e complexo que envolvia a necessidade de continuar a jogar futebol e de desgastar jogadores numa equipa desfalcada e os jogos decisivos que se aproximavam em janeiro. Como disse, o raciocínio é complexo e o facto de o não ter percebido não revela nenhuma falácia mas a minha pura e simples imperfeição como humano que sou. 

Este jogo merece duas notas finais. Assistimos ontem a algo que só tem paralelo no acontecimento de 13 de maio de 1917, na Cova da Iria, apesar da existência de alguns céticos, pelo simples facto de não haver televisão nessa altura e muito menos a CMTV. A transformação do Petrovic num jogador de futebol (para mim, o Gudelj já era) foi vista em direto e, por isso, ninguém pode ter dúvidas sobre este milagre. O Keizer ficou perplexo com a marcação do “penalty” a favor do Feirense, chegando quase a perder a fleuma quando falou com o quarto árbitro. Espero que continue sem perceber onde se meteu e o que o espera ainda. De outra forma, se se deixa condicionar e ao seu jogo pelas arbitragens, está entregue. A melhor forma de lidar com as arbitragens é procurar jogar futebol e marcar tantos golos quantos os possíveis para evitar danos. Com o Rei da Tática, o jogo de ontem estava suficientemente armadilhado para se transformar na sua fase final num “Nossa Senhora nos acuda”. Esperamos dele milagres como o do Petrovic. Não esperamos outros milagres, que não estão ao seu alcance, como transformar o futebol português num jogo em que ganha quem marcar mais golos e jogar melhor.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

E-estúpido

Não há democracia sem estado de direito. O estado de direito consiste num conjunto de regras que voluntariamente consentimos para que a vida em comunidade seja possível. Na boa tradição da “comon law” anglo-saxónica, serve para defesa da liberdade dos cidadãos do arbítrio, nomeadamente do estado. Estatutos e princípios como o “habeas corpus”, a presunção da inocência ou o “in dubio pro reo” servem para defesa da liberdade contra esse arbítrio e a tirania do estado. Sem querer parecer conservador, constituem as escolhas coletivas que vamos fazendo ao longo do tempo para construirmos uma sociedade decente de homens livres. É por isso que, por exemplo, preferimos sempre um culpado em liberdade a um inocente condenado. 

Dito isto, não deixa de ser controversa a decisão da juíza de instrução no caso e-toupeira. A acusação deste tipo de crimes vive sobretudo de prova indiciária. A acusação do José Sócrates está aí para o demonstrar. O Ministério Público presume que o dinheiro na conta do seu amigo lhe pertence. Presume que as transferências de dinheiro para essas contas foram para pagar benefícios indevidos. Presume que as pessoas que as efetuaram foram beneficiadas e que os benefícios foram ilegitimamente concedidos pelo ex-primeiro-ministro. Procura sustentar estas presunções em provas. No entanto, ainda não conhecemos nenhuma prova de que às tantas horas de um determinado dia o ex-primeiro-ministro combinou com o senhor x ou y este ou aquele benefício e que às tantas horas de outro dia tenha dado ordens ao ministro A, ao diretor-geral B ou ao funcionário público C para que executasse a decisão previamente combinada.  

No caso e-toupeira, não deixa de ser controversa a decisão da juíza de considerar como suficientemente provados os crimes e os seus autores diretos e, ao mesmo tempo, não pronunciar o Benfica também, a entidade que, putativamente, deles beneficiaria. É controversa mas não me custa a aceitar. Admito que as regras que constituem o nosso estado direito foram bem aplicadas. De acordo com essas regras, para a juíza, os presumíveis crimes e os seus presumíveis autores devem ser julgados, mas o Ministério Público não provou suficientemente que o Benfica neles estivesse envolvido e deles tivesse beneficiado, não devendo ser, assim, acusado.

Como disse, não me custa aceitar esta decisão. O que me custa é que se finja que não aconteceu rigorosamente nada e nos tomem a todos por parvos. Respeito a decisão da juíza de não pronunciar o Benfica, mas também respeito a sua decisão de pronunciar um funcionário judicial e o Paulo Gonçalves. Não se pode respeitar uma sem respeitar a outra e a segunda, por si só, é suficientemente grave. A justiça não é futebol, tenho muita pena. Vivemos bem, ou menos mal, sem futebol, mas não vivemos sem estado de direito. 

O Sporting, que se constituiu como assistente neste processo por se tratar de parte interessada, considera a decisão da juíza aparentemente incompreensível e admite recorrer. Um jornalista veio de imediato considerar que se tratava de uma declaração de guerra, nem mais nem menos, confundindo também futebol e golos com estado de direito e respeito pela justiça e suas instituições. O conjunto de regras que permite ao Benfica não ser pronunciado é exatamente o mesmo que permite ao Sporting e à sua Direção não concordar com essa decisão e admitir o respetivo recurso. Apreciei especialmente os termos do comunicado do Sporting. Em vez de vir para as televisões e para o “facebook” com as bravatas do costume fazer chicana, a Direção do Sporting irá recorrer às instituições, respeitando-as dessa forma. Não há guerra nenhuma. Há é uma grande diferença que só não vê quem não quer ver e desta vez não tem o Bruno de Carvalho como desculpa.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Bom Natal para si e para os seus

Em Braga, um sportinguista é um sportinguista, enquanto um adepto do Sporting de Braga é um benfiquista com complexo de culpa: no momento da verdade, num Benfica-Braga, o lampião bracarense trai o cidadão bracarense. No café onde vi o jogo, estavam os quatro sportinguistas da praxe e uma multidão de benfiquistas. Os benfiquistas ainda arriscaram uns comentários, mas depois de umas vagas referências às equipas B, ao “je suis Guimarães” e ao “cluster” local da construção civil e obras públicas, viram o jogo calados e vagamente constrangidos. Nunca tantos pareceram tão poucos. A nossa tristeza pela derrota do Braga e o desejo de derrota do Guimarães eram genuínos. Moralmente, ganhámos ainda antes de começar o jogo. 

O Marcel Keizer organizou a equipa com todas as cautelas e caldos de galinha como qualquer José Mota com ou sem barrete enfiado, não sendo preciso assim que o Luís Castro demonstrasse a sageza do treinador português. As equipas começaram a jogar na expetativa, cada um delas à espera do erro do adversário. O Guimarães não pressionava tão à frente como o Aves, o Nacional ou o Rio Ave, o Sporting jogava com a defesa mais recuada e sem grande vontade de sair em tabelinhas pelo meio ou de pressionar alto. No jogo do engonha do futebol português, um treinador holandês ou de outra qualquer nacionalidade perde sempre para o autóctone. 

Notou-se que a equipa do Sporting não estava confortável com o modelo de jogo, por opção mas também por mérito do adversário. Os jogadores do Sporting pareciam ficar sempre a meio do caminho: nem avançavam como deviam, nem se fechavam em alternativa. A cada perda de bola, sucediam-se as investidas da cavalaria adversária que devastava o nosso meio-campo, obrigava a recuar os avançados e os laterais à desfilada e deixava os centrais em estado de pânico permanente. Se houvesse um golo, adivinhava-se que fosse do Guimarães e assim foi. Bola metida na molhada, mau alívio do André Pinto para a entrada da área, Joavne Cabral a acordar tarde para a vida e um baixote entroncado a enfiar uma bica com o pé esquerdo que fez tabelar a bola nos mecos à sua frente até entrar na baliza numa excelente jogada de “flippers”. No resto da primeira parte piorámos, se ainda era possível. O Sporting queria reagir e perdia mais bolas e os contra-ataques do Guimarães sucediam-se. 

Na segunda parte, com a entrada do Raphinha, o Sporting equilibrou o jogo e ameaçou ficar por cima. Parecia que nada ficaria como antes e se assistiria a mais um jogo frenético. Não foi assim que aconteceu. Por volta dos sessenta minutos, a equipa do Sporting deu literalmente o berro. Bastava o Guimarães jogar comprido para aparecer um avançado a antecipar-se à defesa, a ganhar a primeira bola de cabeça ou a ganhar a segunda. Os jogadores do Sporting não ganhavam uma bola, perdendo todos os duelos individuais (nestas circunstâncias sente-se mais a falta de jogadores como o Coates ou o Battaglia). Era preciso mexer na equipa. Com aqueles não íamos lá. Começamos a pensar que com a entrada do Petrovic para o lugar do Gudelj ou a colocação do Acuña no meio para entrada do Jéfferson em substituição do Gudelj é possível virar o jogo. Mais tarde, quando caímos em nós, é que percebemos que a esperança em Marcel Keizer é tanta que enlouquecemos de vez e passámos a acreditar em milagres. Entrou o Mané para o lugar do Miguel Luís e a equipa ainda se afundou mais, deixando de existir qualquer ligação entre a defesa, o meio-campo e o ataque. O Gudelj era sempre um jogador a menos quando tocava a defender e um jogador a mais quando se pretendia atacar, obrigando o Bruno Fernandes a recuar mais do que o desejado. A entrada do Petrovic para o seu lugar pareceu tardia, mas quando se colocam tantas fichas nele é porque estamos perdidos. Valeu-nos o Renan Ribeiro para salvar a honra do convento. 

Passei a escrever estas crónicas no dia seguinte aos jogos. Escrevo-as enquanto espero por um colega para o almoço. Esqueci-me que hoje não só não era dia de trabalho como era véspera de Natal. Natal é para dedicarmos tempo à família e ao que verdadeiramente importa. Percebemos que as coisas verdadeiramente importantes são a necessidade imperiosa de se comprar as gasosas para os miúdos ou ajudar a fazer rabanadas ou arroz doce, esperando que se tenha acertado no tamanho da saia, da blusa ou das sapatilhas da mãe, da irmã e do sobrinho. Andamos numa fona de um lado para o outro sem tempo para nada e perante olhares de quem nos vai fazer uma entrada de carrinho se voltamos a entornar o molho do pudim ou se provarmos o bolo-rei antes do tempo. Recebe-se mensagens que tanto podem ser sobre o Sporting ou de Boas-Festas, às quais respondo invariavelmente sem ler: “Bom Natal para si e para os seus”. 

Arranjei uns minutos para escrever esta crónica. Não foi bem para a escrever. Foi mais para desejar a todos e a cada leitor “Bom Natal para si e para os seus”, enquanto tenho tempo e ninguém se lembra que preciso de comprar canela, frutos secos, ananás ou qualquer outra destas coisas das quais a nossa vida hoje depende como se não houvesse amanhã. Esse desejo vai acompanhado de um excelente “cartoon” do A. Trindade, amigo e colega insustentável.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Uma grande pedrada

Não aprecio os jogos durante a semana. Baralham-me a logística. Em condições normais, não teria visto o jogo contra o Rio Ave. Tratando-se do sétimo teste à inteligência dos treinadores portugueses e à sua superioridade em relação ao Marcel Keizer, senti-me, no entanto, na obrigação de o ver. Ainda não percebi esse exame permanente. É que o exame é para os dois lados e, até agora, os treinadores portugueses não se têm saído nada bem. Como a inteligência e a competência não escolhem nacionalidade, considero estas comparações ridículas e de mau-gosto. Como gato escaldado até de água fria tem medo, só cheguei ao Flávio cerca da meia hora de jogo, mas a equipa do Sporting trocou-me as voltas, estando a ganhar por dois a zero. 

Cheguei tarde mas ainda a tempo de ver o Gelson Dala falhar isolado um golo que parecia fácil, depois de uma marcação cerrada com o olhar do Mathieu como quem diz: “se te atreves a marcar, enfiamos-vos uma mão cheia!” Pela ameaça ou por desfastio, acabámos mesmo por marcar o três a zero, em mais uma daquelas excelentes jogadas a que vamos ficando (mal) habituados. Parece tudo muito fácil. Tabela entre o Jovane Cabral e o Acuña, com este a desmarcar-se do lado esquerdo até entrar na área e, em vez de meter no meio para o Bas Dost, fazer um passe tenso para a entrada da área do lado contrário onde apareceu o Bruno Fernandes a dominar a bola com um toque, a deixá-la saltitar à sua frente para enfiar um balázio para o lado contrário sem quaisquer hipóteses de defesa. Em condições normais, o jogo teria acabado naquele instante. Nós passaríamos a engonhar e o Rio Ave a fazer de conta que fazia e acabava-se o jogo com a dignidade salvaguarda das duas equipas. A equipa do Rio Ave não quis assim e marcou-nos um golo às três tabelas ainda antes de acabar a primeira parte. 

Entrámos na segunda parte dispostos a não fazer nada para alterar o estado das coisas. Havíamos ganhado três a um em Vila do Conde e a repetição do resultado constituía um “win-win”. Até que um avançado do Rio Ave tropeçou no Mathieu, tropeçou no Coates, tropeçou no Renan Ribeiro e se preparava para marcar, valendo-nos ao Bruno Gaspar. “Ai é assim! Querem brincadeira! Então vão ver com quantos paus se faz uma canoa!”, foi o que ficou a remoer nas entranhas dos jogadores do Sporting. Falhámos logo três oportunidades seguidas só para os avisar. Não contentes, os jogadores do Rio Ave resolveram pressionar o Bruno Gaspar junto à linha de fundo quando a bola em vez de sair emperrou na bandeirola de canto. A resposta a esta falta de respeito foi um turbilhão de passes e desmarcações concluído com uma tapinha de cabeça do Bas Dost. A partir do quatro a um foi o dilúvio de ambas as partes. Passou-se a jogar à bola no recreio. As oportunidades sucediam-se com os do Sporting cheios de cerimónia: “Marca tu, Bas Dost”, “Obrigado Bruno Fernandes, mas faça o favor V. Ex.ª”. O Sporting marcou mais um pelo Diaby e o árbitro inventou um “penalty” para amenizar o resultado e arranjar mais um amarelo. 

Este ano, estive em Amesterdão com a minha filha, a minha mulher e um familiar um pouco mais velho: uma “soixante-huitard” da crise académica de sessenta e nove, um casal dos anos oitenta com rodagem no Jamaica e no Tóquio e uma “millennial” defensora dos direitos das mulheres e em transição para vegetariana (para não incomodar os animais). Três gerações alternativas e ninguém sabia enrolar. Acabámos por comprar uns chupa-chupas com “cannabis”. Sabia ao mesmo que um “Chupamix” (admitindo que sei qual é o seu sabor). Fisiologicamente, não se notou nada a não ser a língua esverdeada, mas fiquei muito bem-disposto. Este Sporting do Marcel Keizer faz-me lembrar esse chupa-chupa (nada de confundir com outras iguarias do “red light district”). Não sabemos o que contém, mas sabe bem. Também ficamos esverdeados e com sensação de euforia. Dá, sem dúvida, uma grande pedrada. Espera-se que a ressaca não seja má, porque origina efeitos aditivos.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O palavrão de um puto com ar de beto

No campeonato nacional, está instituído que os primeiros vinte cinco a trinta minutos do jogo são para estudo mútuo das equipas. Nos dez a quinze minutos seguintes pode-se tentar marcar golo, mas, passado esse tempo, os últimos cinco minutos da primeira parte são jogados em clima de armistício para que ao intervalo os treinadores dêem novas indicações. Ontem, o Nacional violou grosseiramente esta regra. Não tenho a certeza que tenha sido de propósito. O jogo começou e o Nacional foi trocando a bola a passo até se aproximar da nossa área. Ao chegar ao lado direito do ataque, a passo, o Jéfferson foi ultrapassado por um adversário que ficou solto e rematou para a primeira defesa do Renan Ribeiro. Aos vinte e dois segundos de jogo, o Nacional ia marcando quando ainda estava a estudar a equipa do Sporting. Quando se aprende tão depressa, fica-se com a ilusão que se sabe tudo. Trinta minutos depois, ainda estávamos a estudar a equipa do Nacional e o Nacional já nos tinha marcado por duas vezes e ameaçado marcar outras tantas. 

Para nós, Sporting, essa primeira meia hora não serviu para testar a defesa do Nacional mas a realização da SporTv. Tabelinha a desmarcar o Diaby do lado direito, centro atrasado e Bas Dost a marcar. O árbitro anulou o golo por suposto fora-de-jogo do Diaby, sem que a SporTv nos mostrasse outro ângulo do lance que não fosse o da câmara que está fora do estádio para acompanhar a chegada dos adeptos. Mais tarde, a SporTv informou-nos que houve uma avaria, fazendo-nos lembrar os gloriosos tempos da RTP quando a imagem da transmissão desaparecia, ficando somente símbolo da mira com a frase “o programa segue dentro de momentos”. A acabar a primeira parte, o Coates avança com a bola e vai sucessivamente tropeçando nela, nos colegas e nos adversário até ganhar a linha de fundo e fazer um centro que é desviado ao primeiro poste para aparecer o Bas Dost ao segundo ensarilhado num adversário. “Penalty”, Bas Dost simula com o olhar, guarda-redes de pernas para o ar e bola no meio da baliza. Renascia a esperança. O Bruno Fernandes isola-se do lado direito depois de um ressalto e, em vez de passar ao Bas Dost, remata ao lado, deixando-o completamente furioso a enfiar uns biqueiros na baliza e a gritar uns impropérios ao seu colega (pela primeira vez vi o Bas Dost zangado). 

No final do jogo, o Marcel Keizer informou-nos que ao intervalo não se passou nada. Os jogadores terão conversado entre eles e comunicado que iriam jogar melhor. Acredita quem quiser, mas fica-lhe bem. O que vimos foi uma coisa diferente. Saiu o Bruno César, entrou o Miguel Luís, que passou a jogar mais recuado, avançando o Bruno Fernandes. Com o Miguel Luís a ocupar melhor os espaços, sempre em apoio aos colegas da frente, quer oferecendo linhas de passe seguras, quer pressionando imediatamente o adversário depois da perda da bola, o Sporting definitivamente empurrou o Nacional para trás que não mais criou um lance de perigo. O jogo começou a ficar frenético mas por uma ou outra razão a bola não entrava, até que o Marcel Keizer tirou o Nani (ficou-lhe bem fazer de conta que lhe estava a doer uma virilha para manter a compostura) e meteu o Jovane Cabral, que, definitivamente, virou o jogo. 

Recuperou uma bola, meteu de primeira para o Bas Dost que, de tropeção em tropeção, se isolou e passou para o Bruno Fernandes a empurrar para o empate. Vão imediatamente os dois buscar a bola dentro da baliza e correm para o seu meio-campo para que o jogo pudesse recomeçar imediatamente. Alvalade ficou ao rubro e, a partir daquele momento, percebia-se que nada ficaria como dantes. O Gudelj tabela com um colega, atrapalha-se com a bola, ganha o ressalto com a cabeça e, quando se preparava para ficar isolado do lado direito, um central ao procurar sacudir-lhe a caspa do cabelo enfia-lhe uma biqueirada no toutiço com o calcanhar (coisa que diria impossível se não tivesse visto). Livre e Mathieu a enfiar um míssil ao ângulo, concluindo a remontada. A loucura apoderou-se dos jogadores e dos espetadores. Mas o Nacional e o Costinha não vieram a Alvalade para nos alegrar a festa. Entraram dois avançados, cada um maior do que o outro, e foram um par de minutos de ai Jesus na nossa área com o Bruno Gaspar a tirar uma ao segundo poste e o Renan Ribeiro a defender outra. O Bruno Fernandes ainda correu sessenta metros isolado mas, agarrado e sem força, permitiu a defesa do guarda-redes adversário. Começava a rezar pela entrada do André Pinto nem que fosse para se perder algum tempo na substituição. 

O Marcel Keizer manteve-se impassível e não me fez a vontade, com razão, como se viu. O Bruno Fernandes ficou encurralado do lado direito entre a linha lateral e a linha de fundo e, quando se esperava que perdesse a bola ou, na melhor das hipóteses, ganhasse um lançamento ou um canto, enfiou a bola pelo meio das pernas do defesa que estava à sua frente, desmarcando o Bruno Gaspar para centrar ao segundo poste onde aparecia o Bas Dost que em vez de empurrar a bola para dentro da baliza como de costume foi ele próprio empurrado para dentro da baliza. “Penalty”, remate do Bas Dost, guarda-redes a voar e a tocar a bola com a ponta dos dedos e a desviá-la para o poste onde tabelou antes de entrar. O árbitro disse que foi mal marcado, o Bas Dost pediu educadamente desculpa e voltou a marcar, agora como deve ser, deixando o guarda-redes de cócoras. O quinto golo foi uma delícia. O Diaby a correr em diagonal da direita para o centro, o Bruno Fernandes a deixar passar a bola por entre as pernas, a solicitação do Jovane Cabral do lado esquerdo para o centro ao segundo poste onde aparece o Miguel Luís a atrasar a bola para uma primeira cabeçada do Bruno Fernandes, que o guarda-redes defendeu por instinto, seguida de uma recarga com o pé esquerdo a fuzilar.

Ninguém consegue explicar muito bem o que se está a passar no Sporting. Se o Marcel Keizer é um génio ou um doido varrido. Não me parece que interesse muito. No futebol português perde-se mais tempo a explicar a tática e coisa e tal do que propriamente a ver e apreciar os jogos. O que interessa mesmo é o momento, como há dias alguém referia no comentário a outro “post”. É desfrutar cada momento e manter as expetativas que mantemos todas as épocas: poucas ou nenhumas. Este jogo deixou-me, assim, exausto e sem grande vontades de análise. Retirei uma única imagem dele: quando marcámos o três a dois, as câmaras da SporTv apanharam um puto com um ar de beto a dizer um palavrão de punho erguido e aos saltos com um amigo com ar de beto também. É um puto a aprender a ser homem, isto é, um homem como eu que que se comporta como um puto sempre que joga o Sporting.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Até tu, Petrovic?!

Vorskla Poltava não me fazia lembrar nada (até rima), até que um colega meu, homem culto, me falou da Batalha de Poltava e da sua importância no desfecho da Grande Guerra do Norte, no século XVIII, com os russos a barrarem os suecos. Íamos enfrentar gente rija, e não daquela que à primeira ameaça se mete nas caravelas e vai para o Brasil, como se viu durante o jogo. O Marcel Keizer não se intimidou e fez o que tinha a fazer com o desassombro do costume: mandou grande parte dos titulares para a bancada e fez uma mistura de titulares, suplentes e miúdos da equipa de sub-23. É o equivalente a uma invasão marítima em que se queimam os barcos à chegada. Era com aqueles que se tinha de chegar ao fim do jogo, não havendo volta atrás. 

Começou o jogo e começou o massacre. Praticamente, durante toda a primeira parte, os do Vorskla Poltava mal cheiraram a bola. Quando a recuperavam, eram cercados por uma praga de gafanhotos até a perderem ou se desfazerem dela a toda a sela. O Miguel Luís isola-se e acerta nas pernas do guarda-redes. O Jovane Cabral trabalha bem a bola do lado esquerdo, entorta dois adversários, mete-a no meio para o Montero a tentar dominar com o pé direito e a deixar sair pela linha de fundo, em vez de rematar de primeira. O Bruno Fernandes descai para o lado esquerdo, mete a bola de calcanhar para o Acuña, que a centra para o Mané a dominar mal, permitindo um corte com o joelho de um adversário que a leva direitinha para a cabeça do Montero a desviar para dentro da baliza. O Montero recua para receber uma bola que vinha aos trambolhões, domina-a e passa-a para o Coates avançar com ela até desmarcar o Mané do lado direito que a passa de primeira ao Bruno Fernandes, respeitando a sua desmarcação, que também de primeira a mete no meio para o Miguel Luís a empurrar para o segundo golo. O Ristovski sofre uma falta do lado esquerdo, marca-a rapidamente com um passe para o Bruno Fernandes, tabela com o Mané, receção da bola mais à frente e passe para a entrada do Montero, que, a meias com um central, faz o terceiro golo. “Game, set and match” ainda na primeira parte. 

A segunda parte foi um passeio. Os do Vorskla Poltava continuaram a jogar forte e feio até lesionarem o Montero, levando à sua substituição pelo miúdo Pedro Marques. O Sporting começou a gerir o jogo. O Marcel Keizer tirou o Ristovski e o Bruno Fernandes para meter os miúdos Thierry Correia e Bruno Paz. Os miúdos entraram com vontade de mostrar serviço, mas o resto da equipa já estava em modo deixa andar, apesar de uma ou outra exceção, como o Acuña, que mostrava vontade de brincar com os miúdos. O Thierry Correia isola-se depois de uma boa jogada do Bruno Paz, mas à frente do guarda-redes enfia uma trivela com efeito ao contrário e a bola sai ao lado. O Jovane Cabral, depois de um bom passe do Mané, acerta no guarda-redes. O árbitro faz vista grossa a um “penalty” sobre o Pedro Marques, quando se isolava pelo lado esquerdo. 

Quinta vitória consecutiva e vinte golos marcados depois, o Marcel Keizer continua sob escrutínio. O Lusitano de Vildemoinhos era da terceira divisão e contra o Qarabag é que se ia ver. O Qarabag não joga nada e contra o Rio Ave é que seria o grande teste. O Rio Ave joga o jogo pelo jogo e contra o autocarro de Aves é que seria o bom e o bonito. O Aves ganhou na tática de nada valendo os quatro que enfardou. O Wendel lesionou-se e ai Jesus, Nossa Senhora que agora é que vão ser elas. Entrou o Miguel Luís e não foram. Mas o que impressionou foi ver o Petrovic a jogar à bola. Sem a emulação do William Carvalho, não precisa de inventar, jogando ao primeiro e ao segundo toques, com passes curtos, e movimentando-se sistematicamente no apoio a quem tem a bola. Fez bem as coberturas, recuperando bolas e não deixando os centrais sozinhos contra o resto do Mundo. De repente, os espectadores renderam-se, com aplausos após um corte rapidíssimo (nada que se imaginasse ainda há bem pouco tempo). 

O Sporting não se preparou devidamente para lutar por qualquer título. Não tem plantel para isso. O que Marcel Keizer está a fazer é um milagre, mas é um milagre que nos está a fazer muito bem, não só a nós como ao futebol português também. O futebol é um desporto simples e não precisa de uns palavrosos para ser explicado. Como todas as atividades, o que verdadeiramente conta são as pessoas, neste caso os jogadores. Quando estão bem, quando estão confiantes, a tática aparece sem necessidade de berrarias de treinadores de risco ao meio com egos que não cabem num Antonov. Nem sempre se vai ganhar, nem sempre se vai jogar bem. É assim, é sempre assim. Não há mal que sempre dure, nem bem que se não acabe, como diz o provérbio, que corresponde estatisticamente à convergência para a média (embora o jogo do Sporting não tenha nada de aleatório). Vamos ver como é que a equipa reage quando as coisas correrem mal. Sobretudo vamos ver como os adeptos reagem quando assim acontecer. Os do costume estão preparados e a afiar a faca: “bem dizia, eu sabia!”

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Bem-vindo ao sul, parte 2

O jogo contra o Aves narrado e comentado pela SporTv foi hilariante, mas a conferência de imprensa que se lhe seguiu não o foi menos. O contexto cultural conta muito e se nos distanciarmos para observar o que foi perguntado e respondido e a interação entre treinadores e jornalistas temos motivos de sobra para juntarmos a gravação ao “Monty Python's Flying Circus”.

O José Mota iniciou as hostilidades e teve o seu momento Zézé Camarinha. Com ele e outros como ele, a “estranja” é anulada. Por ele, não teria havido Invasões Francesas, sendo recambiados Junot e as suas tropas por não terem os cartões de vacinas em ordem. Estava de parabéns e os seus jogadores. A infelicidade do resultado deveu-se à eficácia (onde é que já ouvi isto) e ao árbitro. Ninguém lhe fez nenhuma pergunta incómoda. Aparentemente, se se for superior ao adversário durante os primeiros trinta minutos é-se por definição superior durante a hora e meia de jogo, não contando o resultado para nada. Ninguém lhe perguntou como é que se deixou não só anular como superar jogando com mais um jogador, tendo levado mais um golo e estado a centímetros de levar mais dois (basta lembrar-nos do fora de jogo milimétrico ao Bruno Fernandes que ia ficar isolado com o Bas Dost ou do passe do Bruno Gaspar para as costas do Bas Dost quanto estavam os dois isolados). Ninguém se lembrou também de lhe perguntar como é que se pode anular o treinador contrário e, ao mesmo tempo, não se anular, por exemplo, o Bas Dost e o Bruno Fernandes, que fizeram gato-sapato da defesa, como se uma coisa fosse diferente da outra. Uma primeira parte da conferência de imprensa em modo de convívio da Confraria dos Jornalistas e Treinadores do Futebol Português.

A primeira parte foi boa mas a segunda não lhe ficou atrás. As primeiras perguntas começaram da mesma forma: “Mr José Mota said”, seguindo-se uma algaraviada em linguagem de engate das “camones” saída diretamente do Google Translator. O Marcel Keizer manteve-se impassível, respondendo ao lado sem se desmanchar por um momento que fosse. Apresenta enormes parecenças com o Leonardo Jardim (o seu inglês chega a ser parecido com o francês dele). Admito que na cabeça de alguém como ele, acabado de aterrar em Portugal, lhe passem pensamentos como: “será este José Mota autor da sebenta do curso de treinadores da FIFA ou do Memorial do Convento?”. A parte mais cómica foi mesmo quando lhe perguntaram pelo contributo do Peseiro para o desempenho da equipa do Sporting. Em Portugal, os treinadores conhecem-se todos e são todos amigos. Sai um para entrar outro hoje, sucedendo-se o contrário amanhã. Não sabendo o dia de amanhã, nenhum pode correr o risco de não ser elogioso para com o seu antecessor, de acordo com as orientações da Associação Nacional de Treinadores de Futebol. O Marcel Keizer misturou esta pergunta com outra e respondeu como se lhe tivessem continuado a falar do José Mota. Não adivinho que se passou na sua cabeça, mas sei o que se passou na minha. O contributo do Peseiro para o desempenho de qualquer equipa (que o digam o Sporting, o Porto, o Braga ou o Guimarães) pode ser dado pela seguinte função C(p):


A expressão é um pouco estapafúrdia mas dispõe de um potencial enorme para dela se retirarem conclusões gerais, isto é, teoremas e leis. Os versados em trigonometria identificam no denominador a sua fórmula fundamental. O numerador constitui, assim, também uma fórmula fundamental: o contributo de Peseiro para o desempenho de qualquer equipa é independente da quantidade (p), medida em tempo ou dinheiro, sendo essa constante igual a zero, dado que uma volta de 360⁰ (ou 2π) corresponde à repetição da asneira. Chama-se Fórmula Fundamental de Peseiro ou Pé Zero, para os mais entendidos em futebol.