terça-feira, 17 de maio de 2022

Para o ano há mais

 

O ano acabou bem com o Rui Monteiro a ter de ir ao VAR por suposta entrada a pés juntos ao Covid. Ou vice-versa. As imagens não eram conclusivas. Felizmente a Covid estava em fora de jogo por alguns centímetros. A grande penalidade não foi assinalada para espanto de alguns, mais incautos.

O ano acabou bem para o Braga, conformado. Um quarto lugar apenas faz sentido se o Benfica for o terceiro. Caso tivesse o Sporting ficado em terceiro havia lugar para o VAR e alguns comunicados.

O ano acabou bem com o jornal A Bola e outros órgãos oficiosos a fazerem a apologia do Seixal e da formação benfiquista, inventar para quê, com tantos pontos de distância a ferida obrigava a uma pequena sutura, parecendo estarmos perante o Sporting Lisboa e Benfica. A mudança de paradigma na luz, que decerto surpreenderia Thomas S. Kuhn, é muito conforme as luzes que vão aparecendo nos sonhos ou em algumas visões noturnas, isto se ninguém ligar o quadro elétrico ou o sistema de irrigação.

O ano acabou bem para o Porto, sagrando-se campeão de futebol, embora atravessado pelo pseudo tabu do agora anjinho Conceição, e após uma ultrajante perseguição de que terá sido alvo este clube reconhecido pelo seu fair play desportivo e alimentar, onde a fruta se revela um elemento preponderante para o seu sistema digestivo.

O ano apenas acabou mal para o Sporting. Assim parece. Amorim foi o único a dizer que foi um ano negativo, pese embora a ocorrência de um pequeno milagre (sem componente religiosa) mais uma vez realizado. O Sporting fez o mesmo número de pontos do ano anterior e isto com grande parte do ano a jogar com o Paulinho como grande recuperador de jogo e o Pote com a cabeça no final do arco-íris. E com dois títulos a tiracolo. Finalmente, o segundo lugar parece-nos o primeiro dos últimos. E com alguns milhões a compor o ramalhete. Talvez para o ano o Vinagre se transforme em vinho do bom. Entre outros. Para o ano há mais.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Zaragatoas e ideias comichosas

Há poucas coisas que me mexem com as ideias. A zaragatoa é uma delas. Intromete-se nas narinas, avança, insistente, inconveniente, até fazer cócegas no hipotálamo e se instalar uma comichão de tal magnitude que nos veem as lágrimas aos olhos, de riso ou de choro, conforme as ideias importunadas. Assim se mudam as ideias (em sentido literal). A conclusão do teste, positivo ou negativo, é a simples confirmação da maior ou menor volubilidade das ideias. Sim, nem sempre somos de ideias feitas, também mudamos de ideias.

Nos últimos dias mudei de ideias. Circunstâncias da vida, obrigaram-me a fazer o teste da Covid-19. Até vi estrelas, tal foi o número de ideias (feitas) sobressaltadas. Tinha a ideia do Pepe a enfiar um pero no Coates no jogo Sporting x Porto da primeira volta, em Alvalade, sem “penalty”, nem expulsão. Tinha a ideia da expulsão do Coates após falta do Taremi seguida do seu habitual mortal encarpado no jogo da segunda volta, no Dragão. Tinha a ideia que o Sporting podia ter mais quatro pontos e o Porto menos dois. Tinha a ideia que podiam (e deviam) ter acabado com os mesmos pontos, com o Sporting campeão. 

Tinha, mas já não tenho. Tratava-se de ideias erradas, muito erradas. A zaragatoa fez-me ver estrelas ou a (sua) luz, pelo menos. A zaragatoa e as inúmeras explicações dos últimos dias. O Porto bateu o recorde de pontuação do campeonato, é a melhor equipa portuguesa de todos os tempos. O Sporting fez tantos pontos quantos os da época passada, quando foi campeão, e foi a segunda melhor equipa atrás da melhor equipa portuguesa de todos os tempos. Os portistas estão orgulhosos e nós também.

[A zaragatoa mexeu-me com as ideias, é um facto, mas não, não conseguiu mudá-las, o teste deu negativo.]

sábado, 23 de abril de 2022

Dissecar o cadáver

 

Entre a Páscoa e a Pascoela, o Sporting decidiu mortificar-nos com um relance delicioso das nossas memórias. Como a memória é curta convém notar que a Páscoa este ano foi em Abril. Já não se trata do Natal, nem do dia de reis, nem sequer do dia dos namorados, ou perto do dia do pai. Não, o Sporting em meados de Abril ainda discute (ou discutia) o título e estava nas meias-finais da taça. Esse pormenor mostra-nos que o nosso sofrimento tem tido o prolongamento que merece.  

Dois factores contribuem decisivamente para alguma da penumbra que ensombra a clarividência dos Sportinguistas: os resultados recentes e, sobretudo, a perda do seu tempo assistindo aos vários programas da bola que por aí pululam. Nestes, assistimos a verdadeiras aulas de anatomia versadas em dissecação de cadáveres. Ontem, por desleixo, enquanto esperava o filme dos Monty Python “Em Busca do Cálice Sagrado” e bebericava um último copo de um tinto encorpado do Dão, dei por mim a fazer zapping pelos milhares de canais que se dedicam ao nobre ofício da informação futeboleira.

Invariavelmente o assunto era o mesmo: ora o mau momento do Sporting, ora o caso… a novela Slimani. As teorias eram tantas e tão diversificadas que dei por mim deleitado, pensando que aquilo não eram teorias da conspiração mas sim teorias da inspiração. As participações eram fervorosas, analíticas, conhecedoras, todavia, incrivelmente vazias. O objetivo era claro: mostrar que a turbulência teria voltado ao Sporting. Devemos sempre pensar a quem isto serve.

Entretanto, e paralelemente, tenta-se salientar o (suposto) magnífico momento do Benfica, com os resultados que todos conhecemos. Do Porto, apenas maravilhas, com o seu presidente a tentar meter a foice em seara alheia. Como a memória é curta e desprovida de escrúpulos, já ninguém recorda aquele enternecedor jogo entre a B SAD (ou será be sad?) e o Benfica, ou esse longínquo FC Porto-Portimonense com que fomos (recentemente) brindados. Com a saída das máscaras, será que voltaremos ao velho normal? `


quarta-feira, 30 de março de 2022

Tenrinhos!

A Macedónia do Norte entrou a pensar ganhar a jogar para o empate. Ora, se há seleção cuja especialidade seja ganhar empatando é a portuguesa. Só com o Fernando Santos é que os tenrinhos da Macedónia acabavam por perder com dois golos de contra-ataque. Ainda há quem o queira substituir, que prefira ter razão a ganhar [sabe Deus como, mas ganhar, não interessa]. 

terça-feira, 22 de março de 2022

Forte personalidade (do ano)

Ontem, num jornal desportivo perto de si, analisava-se assim a arbitragem do árbitro Dias no jogo do Porto contra o Boavista: “Arbitragem globalmente competente em jogo intenso e com vários lances de difícil avaliação. A sua forte personalidade acabou por prejudicá-lo ao não aceitar boa indicação do VAR [de cartão vermelho para o Mbemba]”.

Embora com atraso, a nossa modernidade (tardia) implica nova linguagem e novas formas de codificação, e a bola não é, não pode ser exceção. Não, não se trata de ideologia de género [seja isso o que for] como agora se diz. Ninguém tem culpa, nem o pai, nem a mãe. Trata-se, tão-só, do filho de uma grandessíssima forte personalidade e quem sai aos seus não degenera, diz o ditado popular. 

domingo, 20 de março de 2022

O assunto é um futebol sério

 

Falar sobre futebol passou a ser um assunto. O futebol não deveria ser um assunto, apenas um jogo. Mas em Portugal (que eu me lembre) sempre foi um caso de vida ou de morte. Recordo-me bem de alguns “enterros” da equipa anteriormente campeã, com direito a desfile e tudo. Se tivermos em consideração os inúmeros casos que nas últimas décadas salpicaram o futebol porquês, percebemos que o futebol se tonou parte do cancioneiro ao mesmo tempo que do tribunal. Ser um assunto, portanto, não é de hoje. O que é de hoje é o filme que envolve o assunto. O filme e a logística. Por exemplo, ontem nem me passou pela cabeça deslocar-me a Guimarães para assistir ao jogo. Para isso precisamos de ter em dia o livrete das operações especiais undercover, com especialidade em caracterização e fuga. Não é fácil entrar naquele estádio (e noutros) sem um conjunto de habilidades e caracterização apropriada. Requer passagens anteriores por Guimarães e conhecimento da língua local. Também não é fácil sair do estádio, principalmente se estivermos na bancada dos adeptos leoninos (qualquer outra é totalmente desaconselhável, mesmo a experientes espiões). Durante o jogo a coisa também não se afigura simples, teremos sempre de ter em conta os adeptos adversários e os nossos. Fora das quatro linhas joga-se um jogo cuja linguagem é pertença de apenas uns (poucos) eleitos.

Ontem foi mais um dia de jogo, perdão, de assunto. As equipas entraram em campo e começaram a tentar jogar futebol, embora com as paragens normais nos vários apeadeiros do costume. Enquanto teve pernas para a intensidade de um jogo de futebol profissional, ainda que jogado às pinguinhas, o Vitória pareceu dividir o jogo, principalmente na primeira parte, fruto de algum desacerto (é assim que se diz?) leonino, criando assim a ilusão que estávamos perante um jogo de futebol. Na segunda parte, com a naturalidade habitual, o Sporting falhou e marcou. De repente o futebol voltou a ser um assunto qualquer que não interessa ao caso e começamos a assistir à lenga-lenga habitual de protestos dentro e fora de campo. Paragens, dentro e fora do campo. E uma carga policial, desta feita apenas fora de campo, mas dentro do estádio. A partir daí o assunto ficou cada vez menos dividido e o Sporting marcou e falhou, não necessariamente por esta ordem, demostrando algum virtuosismo no assunto em causa. O futebol é um assunto sério, ou o assunto é um futebol sério? Eis a questão.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Valha-nos Rúben Amorim e suas promessas!

Continuo a pensar o que sempre pensei sobre a Liga dos Campeões, mas começo a apreciar estes jogos a meio da semana. Não têm a emoção de um jogo contra um Varzim para a Taça de Portugal ou contra um Arouca para o campeonato, mas nem só de emoções vive um homem [ou mulher por muito que digam que são mais emotivas]. Os jogos da Liga dos Campeões são o mais parecido que se consegue arranjar de um jogo a sério. É um treino a sério e sério, um exercício com fogo real [embora não deixe de ser um treino para os mais atentos e avisados]. Depois de um jogo destes, um treinador pode ver-se despedido ou um jogador reabilitado. Também há o dinheiro [e não é pouco], uma espécie de Plano de Recuperação e Resiliência [PRR] do futebol português, mas é conversa repetida, conversa gasta. 

Mas deixemo-nos de teorias e vamos aos factos, ao jogo propriamente dito contra o Manchester City, começando por sublinhar a argúcia tático-estratégica do Rúben Amorim. Ainda antes de começar, a eliminatória já estava perdida. Como estava perdida e estava [como se viu] tratámos de enfardar cinco de uma vez em casa. O facto de o termos feito em bom tempo e resolvido o que havia para resolver, permitiu-nos negociar um acordo de cessar-fogo e, assim, dividir o espólio com o adversário. Na primeira parte começámos por cumprir o acordo até que nos entusiasmámos e levámos a bola duas vezes seguidas para o ataque. O adversário ficou aborrecido [e com razão] e o vingativo Sterling foi muito desagradável com uma pessoa mais velha, com idade para ser avô dele, merecedora de mais, muito mais respeito. Valeu-nos [e valeu-lhe] o Adán que levantou o braço, segurou a bola e deu-lhe uma reprimenda das antigas. 

A segunda parte iniciou-se com uma brincadeira combinada entre as duas equipas. O adversário fingia que marcava, nós fingíamo-nos surpreendidos com os ressaltos e os passes e desmarcações, o Adán fingia que levava um frango e no final o árbitro anulava por fora de jogo. Ficava tudo na mesma mas sempre se podia dizer que a culpa [como sempre] era do árbitro [que só participa no jogo na exata medida que alguém tem de ficar com a culpa]. Às páginas tantas, o guarda-redes do Manchester City foi substituído por um senhor saído diretamente da repartição de finanças ou dos serviços municipalizados locais e foi esse senhor que demonstrou, se dúvidas ainda existissem, que o Paulinho falha sem olhar a credo, raça ou género, um verdadeiro paladino do princípio da não discriminação. Tudo acabou numa primeira bacalhauzada entre o Rúben Amorim e o Guardiola seguida de nova bacalhauzada entre o Paulinho [o único, o autêntico] e o Guardiola. 

Vou ter saudades destes jogos a meio da semana. O Rúben Amorim promete-nos que vamos regressar, para o ano. Valha-nos isso! 

quinta-feira, 3 de março de 2022

Real e sua representação ou futebol na Broadway

Para cada um de nós, a realidade, o real não existe, existindo, sim, a sua representação. O olhar pressupõe um entendimento sobre o que se vê e nem todos vêm o mesmo pois dispõem de entendimentos diferentes. Esta sobreposição entre o que se vê e o seu entendimento encontra-se bem expresso no Poema das Coisas Belas, de António Gedeão. Aqui vão uns versos:

"Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas, Mas só são coisas quando coisas percebidas, Por que direi das coisas que são belas? E belas para quê?"

"Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas, Sem precisarem de ser coisas percebidas, Para quem serão belas essas coisas? E belas, para quê?"

Ontem, o Evanilson tropeçou no Pedro Porro e caiu, aproveitando ainda para lhe enfiar uma bofetada nas fuças. O Paulinho tropeçou no Bruno Costa e caiu também. Os tropeções e as quedas são iguais, diferenciando-se uma situação da outra pelas fuças amassadas. A representação do Evanilson e a representação do Paulinho constituem uma dupla representação, a representação de dois artistas que remetem para a representação do real, sendo essa representação diferente para mim e para o árbitro Dias. Há dias, a representação do Taremi também foi diferente para mim e para o árbitro Pinheiro. Há mais dias ainda, a representação do Pepe e a queixada amassada do Coates também foram diferentes para mim e para o árbitro Almeida. 

Três jogos, dois empates e uma derrota. É mau? Podia ser melhor? Podia ser pior? Não sei nem me interessa. Representação é arte, teatro, não é desporto. Se fosse desporto, futebol, interessava, sendo arte performativa, tanto faz que seja drama ou tragicomédia, revista ou ópera, desde que seja boa e se desenrole nos sítios certos, na Broadway ou no Parque Mayer, tanto faz também.     

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Coletes e apitos: mais do(s) mesmo(s)

O jogo de ontem contra o Estoril constituiu uma lição para o Rúben Amorim, outra para o Pepe Guardiola e outra ainda para nós, sportinguistas, dados a elucubrações técnico-táticas sobre o futebol. O Rúben Amorim ficou a saber que não tem mal nenhum defender com os onze atrás da linha do meio-campo, com cinco na defesa, quatro no meio campo e um no ataque [mas a defender e a correr atrás dos adversários como se não houvesse amanhã], sempre que o inimigo é superior em número e armamento. O Pepe Guardiola ficou a saber que, depois de se estar a ganhar por três a zero, fazem-se substituições aos magotes e deixa-se o jogo andar, conforme estabelecido na Convenção de Genebra. Nós, bem, nós definitivamente ficámos a saber que, no final, ganha a melhor equipa, a que tem os melhores jogadores, e pouco interessa se joga este ou aquele ou se se joga com mais ou menos autocarro, com este ou aquele sistema tático [a melhor é a mais cara e a mais cara é a melhor porque uma coisa é a outra e vice-versa, de acordo com teoria da eficiência dos mercados]. 

O campeonato continua mais do mesmo. Continuam os coletes nos jogos do Porto. Mudam-se as cores mas não se muda a moda [dos coletes]. O futebol transformou-se em “paintball” sem armas de brincar mas com bofetadas, pontapés e jogadores aos pinotes e essa é a razão para os coletes, as cores dos coletes [no azul, não confundir coletes com capacetes]. Também continuam as notícias sobre empresas de informáticas e as suas relações comerciais com clubes de futebol [é a isto que se chama digitalização ou transformação digital]. A este propósito, tem sido inestimável o jornalismo de investigação do Porto Canal, havendo quem afirme que um dia destes também irá descobrir o Apito Dourado [ou descobrir que não é possível descobri-lo porque nunca existiu], o verdadeiro Santo Graal do jornalismo desportivo.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Há coisas que não se pedem a ninguém

Não se envia uma equipa na sexta-feira para a fronteira entre a Ucrânia e a Rússia para a mandar regressar a casa passado um par de dias para jogar à apanhada com umas borboletas de Manchester. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: o teatro de operações e as tropas de camuflado da Organização do Tratado do Atlântico Norte não se confundem com o recreio e os meninos de bibe e chapéu de palhinha do Jardim Escola João de Deus. 

Vão-se os anéis, ficam os dedos ou, por outras palavras, vão-se os resultados e as eliminatórias, fica o pilim, o graveto, o carcanhol. Se bem percebi as notícias dos últimos dias, os clubes portugueses de futebol precisam de cada vez mais dinheiro para contratar empresas de informática. Quando se trata de cibersegurança, não se brinca, não se olha a meios. Fica a dica para as empresas de telecomunicações e de media e os laboratórios de análises clínicas.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Não há nada melhor que uma boa tradição

 

Vou começar pelo fim: já tinha saudades de um espetáculo como aquele a que ontem assistimos no final do jogo entre o Porto e o Sporting. Um espetáculo verdadeiramente envolvente, com a participação de vários elementos erradamente (para alguns) considerados estranhos a um jogo de futebol.  Li algures que parecia termos voltado aos saudosos anos oitenta e noventa, como se a tradição não se tivesse mantido incólume todos estes anos naquela arena. Sucede que o Sporting nos últimos tempos tinha deixado de contar na lida daquela brava raça autóctone, e por isso mesmo a tradição ter-se-á suavizado, num sentido paternalista, condescendente, adaptado à realidade.

Na arena em causa e, desde tempos imemoriais, não se distingue a direção do clube dos grupos mais ou menos desorganizados de adeptos, ou de outros elementos inerentes à tradição. Toda a gente pode participar, seja de que maneira for. Essa tradição já terá alargado as suas fronteiras a clubes como o Canelas, cujo nome nos transporta para o âmago da sua imagem de marca.

Posto isto, voltemos ao início, onde forçosamente teria de haver um jogo de futebol. O árbitro, parte integrante da tradição, terá entrado em campo com algumas limitações, principalmente em determinado local dado a evacuações, onde não lhe caberia um feijão. Não é fácil arbitrar nessas condições. O orifício constrangido torna praticamente impossível qualquer discernimento que ponha em causa o cicerone responsável pela chave capaz de voltar a reabrir o dito cujo. Não é fácil respirar com aquilo apertado, ficando a visão toldada, incapaz de qualquer acção contrária ao pré estabelecido.

Não sendo o Sporting devidamente informado destas condições respeitantes à tradição (nem os seus adeptos, que ingenuamente compareceram em grande número), o jogo inicialmente até parecia semelhante a um jogo de futebol. Até o Porto, sem o Paulinho Santos e o Jorge Costa em campo, aparentava querer jogar à bola, embora a presença de Vítor Baía nas imediações indicasse o contrário. Neste impasse, com o árbitro ainda a respirar por uma palhinha de plástico, o Sporting marcou dois golos, o segundo verdadeiramente sublime, o que me forçou a dar uma volta inteira ao sofá em plena e desvairada corrida. O jogo de futebol, na sua aparência de jogo de futebol, terá continuado, já não me lembro bem, mas terá continuado, até deixar de continuar a ser um jogo e ser apenas algo que era parte de uma tradição.

Felizmente, a tradição trouxe-nos à terra. Não há nada mais belo que uma tradição.

Por mim era já património imaterial da animalidade. Obrigado.

 

 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Superstições

Não me considero uma pessoa supersticiosa mas a verdade é que a melhor explicação que encontro para o visível abaixamento de forma do Sporting é a falta de diálogo sobre o tema aqui na 'Insustentável leveza de Liedson'. Assim sendo, resolvi escrever este pequeno texto para que não fiquemos a ver a importantíssima Taça da Liga por um canudo, só por ausência de textos neste blog.

E existe muito para escrever. Podia começar por falar da insustentabilidade que é andar a jogar à bola sem uma defesa quase imbatível. Ou da insustentável falta de leveza da tripla "PSP", que parece continuar a falhar golos como se ainda vivêssemos no tempo em que os adversários já se davam por contentes se o Adán fizesse mais que uma defesa no jogo inteiro (quanto mais marcar 2 ou 3 golos!). Ou será que a insustentabilidade é mais global e não podemos esperar que um plantel curto não chegue para tanto durante tanto tempo ?

Não sabemos. Aliás, não sabemos se o Rúben Amorim não terá razão quando diz que até jogamos melhor que o ano passado, mas as coisas parecem não acontecer...

Mas algumas coisas sabemos. Sabemos que a equipa não tem a crença que vai aparecer um golo aos 90+ minutos a salvar o dia. Não queremos saber, mas sabemos, que os árbitros se vão habituando ao VAR e afinal um murro do Pepe não vale tanto como um choque entre o Matheus Reis e o Galeno (ou que os pitons do Bragança são afinal muito mais violentos que os do Otamendi ou do Mbemba). Nem tanto queremos saber se o Nuno Santos é o único futebolista em Portugal que provoca o público.

Enfim, diria que passaram apenas umas semanas desde o dia 17 de novembro, quando por aqui se refletia sobre a impressionante performance da nossa seleção, e quase nada mudou. O Sporting perdeu, como vai continuar a perder (e a ganhar e a empatar), mais por demérito próprio que outra coisa qualquer. Mas o futebol Português, esse continua a não desiludir (vá, talvez a seleção desiluda um pouco). Assim sendo, resta-nos a superstição para acreditar que vai ficar tudo bem!

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Despedir ou não despedir o Fernando Santos é a questão?

A derrota contra a Sérvia originou indignação das antigas. A culpa era toda do treinador e está na altura do Fernando Santos com as suas mezinhas ir pregar para outra freguesia. Os jogadores são magníficos e está-se mesmo a ver que qualquer uma daquelas pessoas que na televisão fala de bloco alto e baixo, de transições, ofensivas e defensivas, de momentos de jogo os colocava a jogar articulados e afinados, um género de “London Symphony Orchestra” do pontapé na bola. A ideia simples e ingénua que os nossos jogadores são bons e com bons jogadores se fazem boas equipas que jogam bem e assim ganham não corresponde aos factos, é um facto. 

Portugal joga mal, como sempre jogou, com o Fernando Santos, o Paulo Bento ou o Carlos Queiroz. O que distingue a seleção de ontem relativamente à de hoje não é a qualidade de jogo mas a convicção: uma coisa é jogar mal, outra bem diferente é jogar convictamente mal. Temos dois jogadores que fazem a diferença relativamente a todos os outros das restantes seleções: o Pepe e o Ronaldo. Não estou a afirmar que o Ruben Dias, o João Cancelo, o Bruno Fernandes, o Diogo Jota ou o Bernardo Silva sejam maus jogadores, muito pelo contrário. O que afirmo é que são como os chapéus do Vasco Santana, há muitos como eles. Os jogadores da Sérvia são excelentes e as diferenças relativamente aos portugueses de pormenor. 

O que fez da Seleção Nacional uma equipa temível não foi o bom ou o mau jogo. O jogo foi sempre mau. Nos tempos áureos do Fernando Santos, a Seleção Nacional chegou a ser a equipa mais cínica do Mundo: dificilmente sofria um golo e sabia que marcava pelo menos um. Esta crença que se autorrealizava uma vez atrás da outra assentava nos dois protagonistas que falei. A solução não está em despedir o Fernando Santos para se arranjar outro que coloque a equipa a jogar melhor. A solução está em despedir o Fernando Santos para se arranjar outro que nos coloque a jogar tão mal como de costume mas que o faça convictamente. O problema do Fernando Santos não é a qualidade do jogo mas a incapacidade de transmitir essa convicção.

domingo, 31 de outubro de 2021

A culpa disto tudo é de Rúben Amorim

 

Esta foi uma semana interessante: o Presidente da República em directo de um multibanco; o ex-presidente do Benfica em passeata de Ferrari no Gerês, a banhos nas termas; o chumbo do orçamento, meio caminho andado para eleições antecipadas; os combustíveis pela hora da morte; tudo culminando num sábado com os três grandes a jogarem em sequência, com os resultados que se conhecem.

Em abono da verdade a culpa disto tudo é de Rúben Amorim. Existe um a.R. e um d.R. Um antes de Rúben e um depois de Rúben. Antes de Rúben vivíamos na mística do falhar, falhar cada vez melhor, falhar sempre. Depois de Rúben, se não for um grande jogo, que ganhe o Sporting, e onde vai um vão todos. Todos? Todos, menos o Paulinho, dirão alguns, menos atentos.

De facto, o Paulinho parece tomado pela velha máxima do Sporting, falhar, falhar cada vez melhor, falhar (quase) sempre! Mas, na realidade, o Paulinho é um agente infiltrado, treinado não para matador, mas para dissimulador, forçando o adversário a cometer erros e a abrir espaços. Semear a incerteza é semear o pânico.

Como diz o Vítor Manuel, ninguém ganha sozinho, e assim sendo, o Paulinho não falha sozinho, falha para a equipa, em suma, falha para um bem maior. Ainda ontem, num canal televisivo com nome de jornal desportivo, Vítor Manuel destacava a importância de Paulinho no preenchimento de espaços, nas transições (tudo menos a marcação de golos) e nas bolas paradas, de que o golo de Coates é um exemplo, pois a bola é cabeceada ao primeiro poste por Paulinho, não em direcção à baliza, mas para um espaço onde supostamente aparecerá alguém que não falhe. Esse alguém, ultimamente é Coates, ele próprio um dissimulador, por excelência.

Quando não falha o Paulinho, falha o Matheus Nunes a fazer de Paulinho. Um destes dias falhará inesperadamente Coates, em prol de outro movimento que permitirá um golo de pontapé de moinho a Adán. Entretanto, o que era inesperado (golos de Coates na sequência de um canto) tornam-se uma repetição facilmente desmontada, mais uma vez, por todos os adversários. Ontem isso aconteceu mais uma vez. Antes do jogo, já o Pepa mostrava o lance do golo a uns incrédulos jogadores do Vitória. Qualquer semelhança com a realidade é da responsabilidade de Rúben Amorim.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Prefiro os Flintstones

Depois de ter escrito o que escrevi sobre o jogo do Besiktas, estava dispensado de escrever o que quer que fosse sobre o jogo do Moreirense. Estabelecida a lei-geral é só esperar que se aplique em cada caso em concreto. O problema está em estabelecer essa lei-geral e duas observações não chegam. Há dimensões epistemológicas nas táticas do Rúben Amorim que remetem para potenciais contradições, como, por exemplo, a criação do universo a partir de um único momento fundador, o Big Bang, e o conceito axiológico do antes, fundador de qualquer movimento filosófico que se preze. Por outras palavras, o Rúben Amorim é um discípulo da Escola de Frankfurt, um Habermas do pontapé para a frente [e sem fé em Deus].

Todos viram e só preciso de me repetir em parte. Coates, o nosso ponta-de-lança, continuou escondido a central, enquanto aquele que parece o nosso ponta-de-lança, Paulinho, continuou a parecer e, assim, a fazer de contas que é [e fá-lo tão completamente e convictamente que às vezes até ele acredita que o é]. No momento certo [num canto, por outras palavras] lá apareceu o Coates para o golo da ordem e a vitória do costume. Antes e depois, o Paulinho foi falhando, umas vezes desmarcando-se bem e dominando mal, outras desmarcando-se e dominando bem e rematando mal. Houve falhanços para todos os gostos e, assim, se pode dizer que ele não sabe o que é falhar [quem sabe falhar costuma falhar consistentemente, sempre da mesma maneira]. 

Ontem, para a Taça da Liga, tudo mudou [e quando digo tudo, digo mesmo tudo-tudo]. Escondido, recuado ou avançado, não importa, não só deixámos de ter ponta-de-lança como deixámos de ter alguém que fizesse de ponta-de-lança também. Baralhámos completamente o Famalicão mas não menos baralhados ficaram os nossos jogadores [que os adversários não saibam quem é o nosso ponta-de-lança é uma coisa, outra coisa é os nossos jogadores não saberem também]. Valeu-nos o Ugarte. Está cá há pouco tempo e, por isso, ainda está completamente baralhado, independentemente de jogarem [ou não] o Coates e o Paulinho. 

O jogo ameaçava ser chato, chato mesmo e aí, aí sim, percebemos a razão para existirem árbitros sobretudo quando não existem vídeo-árbitros. Um jogo que podia acabar em goleada, acabou sofrido com uma vitória tangencial: tanto se jogava com o pé como com a mão, os fora-de-jogo (não) eram assinalados como se houvesse vídeo-árbitro para corrigir a (não) decisão, os amarelos apareciam e desapareciam sem ninguém perceber se estavam escondidos na manga ou havia outro truque qualquer. Foi um regresso ao passado, um passado pelo qual muitos suspiram. Passado por passado prefiro os Flintstones. 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Ponta-de-lança que é e não parece e outro que parece mas não é

Sem o envolvimento emocional de um jogo contra Os Belenenses, para a Taça de Portugal, ou o Vizela, para o campeonato, o jogo de ontem para a Liga dos Campeões [Champions League, para os entendidos] presta-se a reflexão aprofundada, a abordagens mais analíticas. O Rúben Amorim tinha deixado uma ou outra pista, nomeadamente quando afirmava que a colocação de um qualquer lateral a central, como o Esgaio, conferia dinâmica diferente à equipa e ao seu jogo coletivo. Devia ter suspeitado, a relação entre categorização dos jogadores e a sua função e localização no terreno de jogo pode ser mediata, indireta. 

Contra o Besiktas, tornou-se evidente este tipo de relação e suas consequências no desenho tático da equipa. O Sporting não joga com três centrais, é um facto. Joga com dois centrais e um ponta-de-lança. Porque é que esta autêntica revolução na forma como se organiza uma equipa não se tornou visível há muito, muito mais tempo? Porque o ponta-de-lança também joga bem a central, tão bem que até parece um central. Não imaginamos o Cristiano Ronaldo a jogar no lugar do Pepe e a fazer de Cristiano Ronaldo na mesma, marcando e voltando a marcar. Nem todos os jogadores dispõem da completude de um Coates, nem todos podem ser predestinados. 

Para que esta tática apanhe de surpresa o adversário, há requisitos a cumprir. O aparente ponta-de-lança pode não ser um ponta-de-lança mas tem de parecer ou, de outra forma, um Guardiola ou um Klopp percebem o engodo e dirão para os seus botões: “com que então, o Rúben [sim, eles tratam-no com esta familiaridade] a disfarçar o ponta-de-lança de central?!” O Paulinho cumpre às mil maravilhas esse papel. Nós conhecemos um Missé-Missé, um Peter Houtman ou um Purović só pela cor ou pelo aroma, bastando para tal rodar ligeiramente o cálice enquanto com as mãos à sua volta o vamos procurando aquecer. Não somos como outros, que só sabem destrinçar um branco de um tinto, sabemos também o ano de colheita ou o sabor da Touriga Nacional, da Tinta Roriz ou de outras castas internacionais, como o Chardonnay, o Cabernet Sauvignon ou o Merlot. 

O Paulinho não é ponta-de-lança mas podia ser, como ontem teve a oportunidade de demonstrar [quem marca o golo que marcou, como quem bebe uma mini e come um prato de tremoços, podia ser]. Não, não é um nabo de um ponta-de-lança ou um nabo de um ponta-de-lança com azar, como ouvi dizer. É um jogador que faz de ponta-de-lança sem o ser porque se o fosse estava a jogar a central, como o Coates e ninguém saberia o que fazer ao Coates. Recuar tanto o ponta-de-lança levanta questões práticas quando se trata de marcar golos. Quanto mais longe se está da baliza mais tempo se demora a lá chegar. Nos primeiros momentos, quando as forças abundam, os adversários não permitem que o nosso ponta-de-lança se adiante. Pouco a pouco, vamos chegando mais e mais à frente, até aparecerem os cantos e cada um deles se transformar num “touchdown”. 

[Vamos acabar com a crónica que se faz tarde. Ganhámos quatro a um ao Besiktas e embolsámos 2,8 milhões de euros. Era preferível receber o dinheiro sem jogar, para nós e para o Besiktas. É todos os anos o mesmo: estabelece-se quem vai aos oitavos, aos quartos, às meias e à final e obrigam-se todos os outros a jogar as pré-eliminatórias e a fase de grupos como se não soubessem de nada]

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Futebol de várzea e gordos à baliza

Voltámos a jogar contra o Arouca, anos e anos após o nosso Presidente da altura ter sido acusado de cuspir no seu Presidente, quando apenas expeliu uma baforada que nem de fumo foi mas de vapor de água, dando origem a uma das discussões públicas mais profícuas sobre um tema que nos interessa a todos, independentemente da clubite ou sequer da longitude ou da latitude, o da transição climática ou da descarbonização. Embora sem despertar o mesmo interesse do ponto de vista da nossa organização social e da nossa vida em sociedade, também houve uma época em que o Lito Vidigal, treinador do Arouca, entrou em campo para empurrar um central do Sporting, gerando um chinfrim e um salsifré danados. Sem as baforadas de fumo ou de vapor de água ou as entradas dos seus treinadores em campo para arrear nos jogadores adversários, o Arouca é o Arouca e os jogos contra o Arouca são os jogos contra o Arouca [não confundir os jogos contra o Arouca com os jogos contra o Portimonense e, muito menos, destes com os jogos contra o Barcelona do Koeman]. 

Sem estes acontecimentos e os correspondentes penduricalhos narrativos, não se pede a ninguém para escrever uma crónica de um jogo como este, um jogo a que os brasileiros costumam designar de futebol de várzea [o equivalente à nossa Liga dos Último, programa televisivo de boa-memória]. O Rúben Amorim procurou explicar-nos o sentido, a razão para assistir ao que se assistimos, sem dar parte de fracos e admitir que a equipa não aguentava um gato pelo rabo. Não, os centrais estavam de boa saúde, ele é que teve a ideia [genial] de jogar com dois laterais no lugar de dois centrais para alterar a dinâmica da equipa, para que os laterais feitos centrais corressem atrás dos felinos atacantes do Arouca [viu-se essa capacidade do Esgaio no golo do Arouca]. Acabámos por jogar com um central e quatro laterais, dois à direita e dois à esquerda. É bizarro? Não, com esta simetria longitudinal, não. Seria de jogássemos com quatro de um lado e nenhum do outro ou três de um lado e um do outro.

Enquanto o Vinagre continuar no psiquiatra, há necessidade de meter o Nuno Santos a lateral esquerdo [ou muito me engano ou já não sai de lá] e de rearranjar o meio-campo e o ataque. O Matheus Nunes foi para o ataque, para o lugar que costuma ocupar o Nuno Santos, e entrou o Daniel Bragança para o meio campo, para o lugar do Matheus Nunes. Com quatro esquerdinos a atacar – Nuno Santos, Bragança, Sarabia e Paulinho –, parecíamos a equipa de futsal do Nuno Dias. Cerca dos quinze minutos, estes esquerdinos fizeram das suas [das deles, salvo seja] e o Matheus Nunes fez o primeiro golo. Esperava-se o segundo para acabar com o jogo [há quem diga que só depois do terceiro é que se pode descansar] mas o Sarabia é um pouco como o Paulinho: está sempre a um bocadinho pequenininho de marcar golo, sendo certo que a responsabilidade de um extremo não é a mesma da de um avançado-centro ou ponta-de-lança. 

Na segunda parte, nem entrámos mal no jogo, mas um canto a nosso favor originou uma correria como se não houvesse amanhã de um avançado do Arouca, concluída com um centro para o cabeceamento de um avançado e grande defesa do Ádan, mas, azar dos azares, a bola sobra para outro jogador do Arouca que remata à meia-volta e faz o empate [nunca tive problemas em ir a um dentista brasileiro ou a um médico espanhol no centro de saúde, mas estava longe de imaginar que a escassez de avançados levasse o Arouca a contratar um palestiniano]. As coisas estavam a ficar feias, muito feias, mas no futebol de várzea é sempre o gordo que vai à baliza e vai à baliza não por ser guarda-redes mas por ser gordo e jogar ainda pior noutra posição onde se tenha de mexer mais. Percebendo isso, os nossos esquerdinos fizeram as reviengas do costume e o Nuno Santos enfiou um remate de fora da área fazendo com que a bola tabelasse no gordo, perdão, no guarda-redes e acabasse dentro da baliza.

O Arouca queria mas não podia e nós nem queríamos nem podíamos. O Rúben Amorim ainda tentou refrescar o ataque mas o Jovane Cabral, o Tiago Tomás e o Tábata não fizeram uma jogada de jeito para amostra, tendo que entrar o Ugarte para segurar o meio-campo e evitar males maiores [como disse, não tenho problemas de nacionalidades, estranho um palestiniano, para logo entranhar um uruguaio]. Ganhámos e somámos mais três pontos, naquela lógica do jogo a jogo. O Paulo Sérgio não foi de modas e acertou com um pinheiro no Jesus [não confundir com o Pinheiro, que esse arbitrou o nosso jogo] e estamos em segundo lugar a um ponto do primeiro. 

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Todo o mundo é composto de mudança

Todo o mundo é composto de mudança, lá dizia o poeta, mas há pessoas e instituições cujas vontades não mudam com os tempos e as suas mudanças. Na Liga dos Campeões insiste-se em obrigar as equipas a jogar para receber o graveto, os carcanhóis. É uma canseira inútil, uma infelicidade desnecessária, que nada muda, nem as moscas. Não obrigar as equipas a jogar seria uma belíssima ideia, uma ideia própria do seu tempo, um tempo em que o real e o virtual se completam, se encaixam tão perfeitamente que é como se passassem a ser um e um só. Também não seria má ideia [digo eu] jogar estes jogos com arbitragem. O resultado não mudaria mas os jogos poderiam ser mais giros. Há países e campeonatos que têm a mania de recorrer a essa função [arbitragem] e a essas pessoas [árbitros]. Recorrer a umas pessoas disfarçadas não é a mesma coisa. Percebe-se a ideia [lá está, a ideia, mais uma ideia feita], de reproduzir a cadeia alimentar: os mais grandinhos ganham aos mais pequenotes até engordarem o suficiente e virem os tubarões engoli-los. 

Estes prolegómenos têm um propósito, uma ideia [lá está, mais uma], funcionam como um introito para breve dissertação sobre a participação do Sporting na Liga dos Campeões. Há dias, antes ou depois do jogo contra o Dínamo de Kiev, não sei bem, Jorge Jesus afirmou, categórico: “É importante ganhar, mas também é importante não perder”. É a condição necessária e (não) suficiente às avessas, de pernas para o ar [quem não se lembra que numa função não basta a primeira derivada ser nula para o ponto se constituir como um máximo?]. O Ruben Amorim ignorou esta coisa de que é preciso assegurar a condição necessária primeiro para se conseguir a condição necessária e suficiente no final. Para se ganhar é necessário não perder, embora não perdendo também se possa não ganhar. 

No jogo contra o Ajax foi evidente que se queria ganhar sem se compreender que era preciso não perder em primeiro lugar. A lição foi imediatamente aprendida e os jogos do campeonato caseiro contra o Estoril e o Marítimo foram o sangue, suor e lágrimas da época passada. Ontem, contra o Borussia de Dortmund, o conhecimento estava consolidado. Não ganhámos, não empatámos, perdemos, perdemos com dignidade. Não pretendemos ganhar sem primeiro procurar não perder. Procurar não perder não implica que não se perca, de todo. Procurar não perder não evita a derrota, evita a humilhação, sendo que o graveto, os carcanhóis não mudam. É assim que nos devemos comportar até ao final deste calvário ou até que as ideias mudem, se encontrem com a contemporaneidade que nos foi dada viver. Um dia, que não estará longe, receberemos sem jogar e nessa altura, sim, a participação na Liga dos Campeões terá valido a pena, plenamente. Até lá, jogo a jogo no campeonato e mais nada.

[Há uns meses que não dava ao gatilho. Estava um bocado perro, ao princípio. A coisa foi melhorando palavra a palavra até ficar tudo assim-assim, no final. Não sei se valeu a pena, independentemente do tamanho da alma. Acho que perdi o jeito] 

domingo, 19 de setembro de 2021

Descer à terra

 

Demorou até tirar os pontos (resultantes da pancada de 4ª feira) e pensar: não há nada como descer à terra! Para todas as situações e mais algumas, temos em Portugal um provérbio que supostamente encaixa como uma luva, provérbio esse que, invariavelmente, não levamos à prática. Diz-nos ancestral sabedoria que quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele. Pusemo-nos a jeito. Hoje à noite saberemos contornar a situação, voltando às vitórias. 

 

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

domingo, 12 de setembro de 2021

E agora algo completamente diferente...

 

Os pré-match costumam ser muito estimulantes. O que antecedeu o Sporting – Porto não fugiu à regra. Enquanto se embalava o prejuízo do Benfica em certificados do aforro, discutia-se a problemática das viagens e dos jogos da seleção. A contabilidade foi ao ponto de medir em quilómetros e milhas as viagens dos jogadores, refletindo também a pertinência dos minutos jogados e dos quilómetros percorridos pelos jogadores em campo, alargando o panorama analítico em milhas e em léguas, muitas delas submarinas. Tudo para chegar ao resultado pretendido: um Porto hipoteticamente cansado e um Sporting resplandecente e com o sono em dia. Horas de chegada foram divulgadas; jogadores chegados ao aeroporto corriam desvairados para apanhar um táxi que os levasse ao hotel. Chegariam a horas do pequeno-almoço?

Envergonhadamente, ficamos a saber que o Sporting não podia contar com 4 jogadores, três deles habituais titulares, embora estivessem frescos como alfaces, encontravam-se lesionados. Tudo feito para confundir ainda mais a equipa cansada do FCP, habituada pelo seu treinador a desmontar o Sporting, embora apenas antes dos jogos começarem. E foi assim que o jogo começou, com o Porto a jogar de igual para igual (segundo os comentadores) durantes uns bons 14 minutos, tempo que aguentou sem sofrer golos, já o jogo levava duzentas faltas e trinta amarelos. A partir daqui, Nuno Santos, incomodado com a facilidade com que aparecia isolado na frente do guarda-redes adversário, apiedando-se certamente do seu esfarrapado oponente, decidiu que apenas marcaria golos se estivesse com vários adversários pela frente e tivesse, nem que fosse por momentos, as pernas tortas do Garrincha. Nuno Santos é um leitor exacerbado de Eduardo Galeano, e conhece aquele gol de Garrincha marcado à equipa da Fiorentina, durante num jogo de preparação do Brasil a caminho do Mundial da Suécia. 

Na segunda parte a história do jogo continuou mais ou menos a mesma, mas durante muito tempo sem balizas. A acumulação de faltas ia a caminho do Guiness, e os cartões amarelos continuavam a brotar como se fossem cogumelos agraciados pela humidade dos carvalhos. Às vezes havia futebol e os jogadores distraiam-se. Terá nascido de uma dessas distrações o golo do Porto. Um golo marcado por um tipo cansado que tinha chegado tarde a casa e entrado pela janela do segundo andar, situada nas traseiras, única parte da casa sem arame farpado. O Sporting voltou ao jogo com o Paulinho sempre a abrir espaços para si próprio, acabando por se cansar na tarefa e nos cansar de o ver cansar-se. O empate agradava sobretudo ao árbitro e ao sorriso de alívio de Sérgio Conceição: não é todos os dias que uma equipa cansada e com um orçamento de muitos milhões e várias soluções, empata em Alvalade. Ou terá sido estrelinha?

 

PS: Nem dezanove mil em Alvalade? Estranho, não acham?

 

domingo, 1 de agosto de 2021

Eu já volto

 

Começamos como acabamos: a sermos desmontados e a ganhar.


quarta-feira, 2 de junho de 2021

Desconstruir a desmontagem

(Desmontagem 1)

(Desmontagem 2)


Este foi o campeonato em que as equipas técnicas (é assim que se diz agora, não é?) adversárias desmontaram sucessivamente a equipa do Sporting sem, no entanto, a conseguirem contrariar. A forma assumida pela desmontagem no processo levar-nos-ia para devaneios mais longos e muito menos interessantes que, por exemplo, a suspensão imposta agora a Sérgio Conceição no término das sucessivas desmontagens (embora contrariadas), e cumprida nas férias. Como toda a gente sabe, ir de férias é um castigo que consta na declaração universal dos direitos do treinador, desde que este tenha as qualificações necessárias.

As sucessivas desmontagens (embora contrariadas - este ponto parece-nos importante) da equipa profissional do Sporting, impostas por equipas técnicas do mais fino quilate, e devidamente credenciadas, foram sancionadas pela sapiência e largueza de horizontes futebolísticos de vários quadrantes, incluindo comentadores com formação completa em desmontagens e curso de treinadores por correspondência, ainda assim bem mais qualificados que Rúben Amorim, como ficou demonstrado. Joaquim Rita mostrou (mais uma vez) olho de lince para a coisa, e Ribeiro Cristóvão revelou muitas vezes a sua sagacidade. Mesmo Rui Pedro Braz que, segundo consta, está perto de entrar na estrutura benfiquista (como se alguma vez tivesse estado longe) revelou-nos a sua experiência em desmontagens, desde que não sejam para os lados da luz.

O próprio presidente da APAF, o credenciado José Pereira, foi-se revelando um amante das desmontagens, ao ponto de querer o candidato a treinador Amorim fora da área técnica, e se possível do planeta terra.

Terminado o campeonato, a desmontagem da equipa do Sporting continua, desta vez às peças. Segundo órgãos (bem informados) da comunicação social e das redes, todos os dias uma peça vai à vida: primeiro era o Nuno Mendes, depois o Pote (o Pote foi várias coisas na última semana), depois ia o Feddal, o Plata, o Jovane, o Palha, hoje vai à sua vida o Matteus Nunes, em troca de um maço de tabaco e um vídeo da bolha dos adeptos ingleses no Porto. Por este caminho não teremos jogadores para o ano e assim já não será necessário desmontar nada, porque não haverá nada para desmontar. E assim será mais difícil, por sua vez, contrariar a desmontagem. 

De resto, para além da desmontagem em curso, dá pena ver o castigo ao Conceição, exilado compulsivamente na Madeira, sendo ainda de salientar um milagre chamado Rafa na seleção Nacional, apenas possível pela grande devoção de Fernando Santos. Vai ser espectacular este defeso…

 


domingo, 30 de maio de 2021

Homenagem aos golos que não o foram

A época do Sporting foi de tal forma próxima da perfeição que não é fácil fazer um balanço, escolher os melhores momentos ou os mais decisivos. Imaginar em Agosto de 2020 que uma equipa com reforços desconhecidos ou duvidosos, uma direção em guerra com as claques, um clube com feridas abertas do passado, liderado por um treinador sem formação para tal e com vários jogadores inexperientes pudesse catapultar o Sporting para uma época brilhante.

Talvez por isso mesmo vou tentar uma abordagem diferente. Em vez de recordar os muitos golos importantes da época - onde haveria lugar, por exemplo, para um do esquecido Vietto, vários inesperados de Coates e um par deles de um insuspeito Matheus Nunes - proponho refletir sobre os golos que não o foram.

Na minha opinião houve três momentos que foram particularmente marcantes, todos eles muito diferentes. Como não consigo ordená-los por importância, vou abordá-los por ordem cronológica.

O primeiro golo que não o foi teve por protagonistas o Coates e o Luís Godinho, árbitro que tinha tido um brilhante desempenho no Sporting - Porto cerca de um mês antes. O lance ocorre ao minuto 90 e nasce de um pontapé de saída, o Sporting havia acabado de sofrer o empate, mas não se 'ficou': bola para um lado, para o outro lado, cruzamento de Porro e golo de Coates. Godinho decidido valida o golo (tal como no Sporting - Porto assinalou falta, grande penalidade e vermelho), VAR chama Godinho por causa de um pequeno toque (que existiu, tal como no Sporting - Porto) e Godinho ao ver as imagens decide exatamente ao contrário que havia decidido no Sporting - Porto (afinal o pequeno toque desta vez contou). E assim se perdiam 2 pontos, mas ganhava um slogan, uma ideia, uma ambição. A partir daqui para onde foi um foram todos, numa viagem que só acabou no Marquês (e em tantas outras praças e ruas deste país e de muitos outros!).

O segundo lance nada tem a ver com este, até porque a bola nem chegou a entrar na baliza. Ocorreu já passado quase meio campeonato no Estádio do Dragão, num jogo em que o Porto precisava desesperadamente de ganhar. Depois de uma primeira parte morna, o Porto entrou com tudo na segunda parte e parecia estar a 'encostar o Sporting às cordas'. Até que aos 73 minutos o Matheus Nunes desata a correr de baliza a baliza e falha por centímetros um golo que seria penalização excessiva para um Porto perdulário. Não sabemos se foi pelo susto de uns ou pela confiança de outros, mas a verdade é que a partir daí houve mais uma clara oportunidade para o Porto (logo no minuto seguinte) e o jogo voltou à temperatura da primeira parte. Depois deste empate já só o Amorim conseguia pensar jogo a jogo!

Mas as coisas não haveriam de ser assim tão fáceis (o Amorim tinha razão em pensar jogo a jogo). Depois de vários jogos ganhos no limite, lá veio um em que o limite se virou ao contrário e acabámos empatados no último minuto. Como seria previsível a equipa tremeu e chegou a Faro a um mês do fim do campeonato a jogar contra uma equipa que desesperava por pontos. Quem achou que o Sporting sofreu para sair a ganhar ao intervalo mal podia imaginar o que seria a segunda parte, com o Farense a entrar muito forte. Aos 53 minutos Pedro Henrique isola-se e, num bom movimento técnico, tem um penalty em movimento a que Adán responde com uma defesa tão fabulosa como decisiva. Ainda houve mais oportunidades de parte a parte, mas este lance sem dúvida que deu muita alma ao Sporting, que assentou defensivamente e arrancou a ferros o muito necessário regresso às vitórias.

Haverão certamente muitos outros momentos importantes mas espero que recordar estes ajude a reforçar ainda mais o sorriso que persiste na cara dos Campeões de verde e branco!

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Não havia necessidade

Tinha afirmado que não perderíamos o campeonato antes do seu final, não imaginando, no entanto, que o pudéssemos ganhar. Ora, a expetativa não era a de burocraticamente ver mais dois jogos, com o Rúben Amorim a fazer deles a pré-época que ainda não começou. Um deles era contra o Benfica e existe sempre a expetativa sobre quem vence a taça da segunda circular [quantas e quantas épocas não nos limitámos a disputar com denodo esse magnífico troféu à falta de melhor!]. Entre os sportinguistas havia uma grande discussão entre os que preferem ganhar campeonatos sem qualquer derrota e outros que tantos se lhes dá desde que sejam campeões. Entre os benfiquistas a expetativa era grande dada a possibilidade de virem a fazer a melhor segunda volta de todas as equipas do campeonato, troféu também muito cobiçado, logo a seguir ao da segunda circular. 

O jogo não defraudou as expetativas [há anos que não recorria ao verbo defraudar e sinto que a semântica de algumas destas crónicas ficou empobrecida]. Assistiu-se a um belíssimo solteiros contra casados ou vice-versa com um resultado escasso, muito escasso. Como verificámos este fim-de-semana, marcar golos no hóquei em patins constitui tarefa bem mais árdua, sendo a baliza das pequenitas com um guarda-redes metido lá dentro de cócoras. Dois ataques e três corridas depois de se iniciar e o jogo estava partido. Ninguém marcava ninguém e o Cebolinha parecia o Chalana e o Pizzi o Bruno Fernandes. Meia-hora de jogo e estávamos a perder por três a zero. Nada que angustiasse o Pedro Gonçalves que antes de acabar a primeira parte ainda teve oportunidade de fazer mais um passe para a baliza e marcar mais um golo, só para chatear o Seferovic, que estava com a mania de que era avançado e marcava mais golos do que os outros.

Na segunda parte, o Rúben Amorim tentou levar o jogo um pouco mais a sério, tirando o João Pereira e o Daniel Bragança, metendo o Palhinha e o João Mário e colocando o Matheus Nunes a lateral direito. Para que não houvesse dúvidas que não estávamos a levar o jogo completamente a sério, oferecemos o quarto golo, com o Matheus Nunes a enganchar uma perna numa perna do Grimaldo, a fazer “penalty” e o Seferovic a marcar com toda a fossanga. Quem não gostou nada desta situação foi o Pedro Gonçalves que desatou a jogar como se não houvesse amanhã. Primeiro atirou ao poste, depois fez o passe ao segundo poste para o Paulinho meter dentro e o Nuno Santos marcar e acabou por marcar o terceiro golo de “penalty”, como o Seferovic, com a vantagem de ter sido sobre ele a falta. Nos últimos minutos o Rúben Amorim ainda fez de conta que queríamos dar mesmo a volta ao jogo, colocando o Coates na frente, a ponta-de-lança [quando todos sabemos que o Paulinho chega e sobra para as encomendas]. No fundo, no fundo, o que ele queria, o que todos queríamos era ir ver o hóquei em patins, onde havia um título, um título a sério para ganhar. 

O meu amigo Júlio Pereira tem uma visão mais conspirativa deste jogo. Depois de estar a ganhar por quatro a um, se empatássemos, o Jorge Jesus não se aguentava para a próxima época e todos sabemos que o Benfica precisa muito de gastar mais uns cem milhões de euros para preparar convenientemente a pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Não me interessa tanto a razão deste jogo mas a sua oportunidade. O título estava ganho, havia o hóquei, qual era a necessidade? 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Entre o acontecer e o não acontecer

Na terça-feira, jogava-se o jogo pelo qual esperava há dezanove anos. Em bom rigor, só no final sabia [e soube] que era o que esperava. Durante estes anos, outros jogos houve que podiam ser como este, o jogo por que tanto esperava. Não eram ou acabaram por não ser porque acontecia Sporting. Sporting também é nome próprio de qualquer acontecimento natural ou sobrenatural desde que disponha de duas características relacionáveis: elevada improbabilidade e impacto profundamente negativo no Sporting como equipa ou clube de futebol. Há vários exemplos: o falhanço a um par de metros da linha de baliza do Bryan Ruiz na época de 2015/16, a falta do Luisão sobre o Ricardo na época de 2004/05 ou o golo marcado com a mão pelo Ronny – jogador do Paços de Ferreira – na época de 2006/07. 

Um sportinguista experimentado pressente quando pode acontecer Sporting e na terça-feira os sinais não deixavam margem para grandes dúvidas. Os sinais começaram cedo, logo na primeira parte. Pressão alta, Feddal a antecipar e a ganhar a bola, Nuno Santos a partir à desfilada com ela até a chutar, de longe, contra o poste. Canto do lado esquerdo, centro do Nuno Mendes e cabeceamento ao lado do Paulinho. Pedro Porro a respeitar a desmarcação do Pedro Gonçalves e a meter-lhe a bola para ele pressionado rematar fraco, fraquinho, acabando a passar ao guarda-redes. Jogada do lado esquerdo do Pedro Porro que vai metendo para dentro, à procura do melhor momento para rematar, até o conseguir e a bola embater num defesa e deixar o João Mário completamente isolado que remata ao lado. Nuno Santos e Nuno Mendes engendram um ataque pelo lado esquerdo com o segundo a rematar à barra. Outro canto do lado esquerdo, novo centro do Nuno Mendes e Gonçalo Inácio a entrar ao primeiro poste e a cabecear ao lado. 

Subitamente um sinal contraditório: Feddal a lançar comprido para o João Mário que avança, flete para o meio, dá de caras com dois adversários, rodopia para o lado contrário e mete a bola no Nuno Santos que, isolado do lado esquerdo, a centra para o meio onde estava o Paulinho a encostá-la com a canela para a baliza. Um pouco mais tarde, novo sinal: jogada do Boavista pelo lado esquerdo do ataque, centro rasteiro para a entrada da pequena área, remate de primeira de um avançado para o lado direito do Adán quando este se deslocava para o seu lado esquerdo e defesa instintiva com a mão. Talvez não fosse acontecer Sporting, talvez!

No início da segunda parte, os sinais de que ia acontecer Sporting voltaram com maior intensidade ainda. Excelente tabelinha entre o Nuno Mendes e o Paulinho com este a acertar com a bola no guarda-redes na marcação de uma “penalty” em corrida. Bola metida pelo Pedro Gonçalves para magnífica desmarcação do Paulinho que demora tanto, mas tanto a tentar dominar a bola com o pé direito para a passar para o pé esquerdo que acaba por a rematar contra as pernas de um defesa. Nova jogada do Pedro Gonçalves pelo lado esquerdo, centro para a pequena área e o Paulinho a meio metro da baliza a acertar de raspão com a cabeça na bola e a fazê-la passar ao lado. Desmarcação do Pedro Gonçalves para as costas da defesa, passe perfeito do João Mário e remate ao poste. Nova desmarcação e novo “penalty” em corrida marcado pelo Paulinho, agora por cima da baliza. Paulinho, sempre o Paulinho a procurar que acontecesse Sporting. Tão pouco tempo no clube e já uma elevada compreensão do destino, do seu destino. 

A equipa estava a jogar bem e o Rúben Amorim hesitava e não fazia substituições, quando havia jogadores que não podiam com uma gata pelo rabo. Faltava que os jogadores do Boavista fizessem o que era suposto fazer para que acontecesse Sporting. Os minutos foram passando e nada, não havia maneira de acontecer Sporting. Pela minha cabeça ia passando o pior: o golo do Boavista, a derrota contra o Benfica e um último jogo contra o Marítimo a fazer reviver velhos fantasmas. O jogo acabou e não aconteceu Sporting. Será que não aconteceu Sporting ou não aconteceu de todo? Somos campeões? 

quarta-feira, 12 de maio de 2021

domingo, 9 de maio de 2021

Súbita urgência

 

Estranho: são cerca de dezanove horas e trinta e tal minutos do dia nove de Maio de dois e vinte e um. É domingo. O Sporting joga na próxima terça-feira por volta do jantar. Antes de terça-feira, bem o sabemos, é segunda-feira, e joga o Porto com o Farense. Consta por aí que cheira a festa. Nunca se sabe. É jogo a jogo. Estranho, digo eu, ainda não saiu mais nenhum castigo para o Rúben Amorim: nem uma multa por estacionamento proibido junto ao banco de suplentes durante um treino? Nada sobre um potencial casaco mal abotoado? Um olhar percorrendo um beco sem saída? Vou ver as notícias, de certeza que há por aí qualquer coisa.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Acabar com este martírio

Não estou preparado para isto, isto de ganhar campeonatos [escrevo “ganhar” e penso se não seria mais adequado recorrer a expressão mais neutra, como “disputar”]. As últimas semanas tornaram-se num martírio. Sofri a bom a sofrer nos três empates quase seguidos, com o Moreirense, o Famalicão e a B-SAD, e desisti, não vendo o jogo contra o Braga. Ganhei coragem e regressei contra o Nacional. Aguentei a primeira parte e desisti também. Contra o Rio Ave nem tentei, nem um “zapping” para amostra. Acabado jogo e conhecido o resultado, ouço o Joaquim Rita afirmar: “O Sporting teve uma entrada leonina!”

Quando se ouve uma afirmação como esta fica-se com enorme curiosidade. Ontem, fui à procura da gravação do jogo e vi-o. Não, não é a mesma coisa que ver em direto. É um género de massa com frango do dia anterior aquecida no micro-ondas. Não estamos a jogar também, estamos a ver sabendo como tudo acaba [e acaba bem]. Não vale a pena mudar de canto do sofá ou trocar uma camisola puída do campeonato 1999/2000 por uma outra não menos puída do campeonato 2001/2002. É ver e burocraticamente tomar umas notas mentais para não menos burocraticamente escrever este “post” como mais uma página de um diário de bordo. 

Se as entradas do Sporting são leoninas por definição, desta vez também o foram por ação. Até ao primeiro golo, foi um massacre. As oportunidades sucediam-se aos pares, cada remate originava uma recarga, e no meio desta avalanche, de defesas improváveis e de bolas nos postes, o Rio Ave ia-se safando como podia. A equipa pareceu mais solta e mais dinâmica no ataque [até cansa de ver jogar o Pedro Gonçalves], pressionando bem na frente e deixando o adversário com poucas alternativas que não fosse a de se ver livre da bola para onde estava virado. Um a zero ao intervalo foi pouco, muito pouco. 

Na segunda parte, o Rio Ave resolveu fazer pela vida, colocando o nosso Mané [salvo seja] na frente e o nosso Coentrão [salvo seja também] mais atrás, do lado esquerdo, a fazer os lançamentos. Nós entrámos desconfiados, hesitantes e mais recuados, dando a iniciativa de jogo. Do lado direito da defesa, com o João Pereira sob pressão, temia-se o pior. O Rúben Amorim acordou para a vida, tirou o Nuno Santos [que saiu com cara de pouco amigos] e meteu o Matheus Nunes a fechar o lado direito do meio campo. Passado uns minutos, na sequência de um livre no nosso meio campo e de mais uma tentativa de desmarcação do Pedro Gonçalves nas costas da defesa, a bola é aliviada para a entrada da área, o Paulinho domina-a no peito, coloca-a no chão, enfia-lhe uma pantufada com o peito do pé, não dando quaisquer hipóteses de defesa ao guarda-redes [um golo à Ronaldo ainda antes de chegar o Ronaldo]. O resto do jogo foi o cumprimento da necessária formalidade de se jogar noventa minutos. O Rio Ave nem próximo esteve de criar uma oportunidade e nós, por isto ou por aquilo, acabámos por não concluir devidamente uns tantos contragolpes. 

Entretanto, o Benfica empatou-se e, ao empatar-se, empatou o Porto também. Estamos a dois pontos da vitória no campeonato, quando faltam três jornadas. Como é que foi possível chegar até aqui? Como é que isto se tornou sério e a sério? É importante acabar com isto [isto é aquilo que referi inicialmente] e quanto mais depressa melhor, para cada um voltar à sua vida, sem ansiedades, voltando a ver jogos sem a pressão de ter de os ganhar e a dizer mal dos jogadores e dos treinadores. 

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Vai ser um trinta-e-um?

 

Já foi. Ontem o Sporting cumpriu trinta e um jogos seguidos no campeonato sem perder. Noutros espaços clubísticos seria um acontecimento estratosférico digno apenas de deuses do Olimpo; mas como se trata de um grupo de jogadores jovens (até o João Pereira rejuvenesceu) dirigidos por um treinador pouco graduado (mas muito perseguido e que quando sair para outras latitudes será genial), tudo não passará de um momento (longuíssimo, diríamos), de estrelinha (uma constelação!), de um paio do lombo em constante gestação.

A questão da desmontagem da equipa do Sporting continua o seu curso. Miguel Cardoso mostrou mais uma vez como é fácil desmontar a equipa do Sporting sem a (conseguir) contrariar. A teoria do puzzle (que acabamos agora mesmo de inventar) demonstra como é simples desmontar um puzzle de 2000 peças (por exemplo), e depois arrancar os cabelos e algumas das unhas dos pés no desespero de não o conseguir montar, mesmo contrariado.

A desmontagem de uma equipa não é nunca acompanhada de uma folha de instruções adaptável a cada situação, e sendo o futebol um jogo em que as peças se movem sozinhas, ao contrário das damas, ou mesmo do dominó, podemos sempre ser surpreendidos pela forma como a equipa previamente desmontada joga. Foi isso que ontem aconteceu em catadupa durante a primeira parte de um jogo que, aos quinze minutos, poderia ser de confortável vantagem para a equipa constantemente desmontada.

Desconfiados, os jogadores da equipa da casa (uma equipa que normalmente tenta jogar futebol), não percebiam porque raio o campo estava tão pequeno, já que os jogadores da equipa previamente desmontada apareciam sempre em cima do acontecimento. Estariam a jogar em vantagem numérica? Seria aquilo a tal intensidade? Resultaria apenas de uma vontade indómita? Treinar-se-á o acreditar? Vários jogadores da equipa de casa (que gostam de jogar futebol) já se escreveram em cursos de coaching e psicologia positiva, esperando-se um verão de estudo intenso. Ao intervalo o resultado era lisonjeiro para os estudiosos perplexos da equipa da casa.

No segundo tempo, Cardoso, após desmontar a equipa adversária, desmonta também a sua, e volta a montá-la com uma peça fora do puzzle: Mané. Amorim, sem dúvida inspirado pela visionária acção do oponente, rapidamente montou algumas das peças desmontadas, valendo-se de um novo carburador: Matheus Nunes. Foi com a naturalidade dos audazes que o Sporting chegou ao dois-a-zero pelo Paulinho. Um grande golo que ele já merecia, sendo a par de Palhinha (voltou a encher o tal campo aparentemente pequeno) e de Coates, os grandes protagonistas da noite, sem exclusão de nenhum dos outros. O Sporting não tem estrelinhas, mas lá que parece uma constelação, parece.