segunda-feira, 20 de maio de 2019

Quando uma manada de elefantes entra em campo

O jogo contra o Porto tinha dois objetivos que na prática era um só: assegurar que um ou outro dos (poucos mas) bons jogadores do Sporting não estivesse na final da Taça de Portugal, no Jamor, aproveitando os do Porto, ainda, para descarregar a frustração da perda do campeonato nas canelas dos adversários ou em qualquer outro elemento anatómico que estivesse à mão (ou ao pé, melhor dizendo) de semear. O Sporting aparentemente também tinha o mesmo objetivo, assim se compreendendo a razão para o Mathieu, o Acuña e o Bruno Fernandes integrarem a equipa titular. 

Os do Porto iniciaram o jogo com o propósito de molhar a sopa no seu alvo principal, o Bruno Fernandes, esperando qualquer coisa, designadamente uma resposta em conformidade que o levasse à expulsão. O objetivo estava bem definido, mas o Bruno Gaspar trocou-lhes as voltas ao atrasar inopinadamente uma bola para o Borja se embrulhar com o Corona e acabar expulso depois de mais uma rábula onde o VAR representou o papel de árbitro interpretando o lance e as relações de causa e efeito do que viu e esquecendo-se de fazer outras interpretações diferentes do árbitro quando viu o que viu, como as entradas sem bola do Filipe e do Militão. O Sporting tem poucos bons jogadores, como se referiu, muitos assim-assim e alguns, consensualmente, maus. Assim, expulsado um assim-assim, para uns, ou mau, para outros, reduziu-se a possibilidade de expulsão de um dos bons. Por isso ou porque com mais um sentiram a responsabilidade de fazer mais alguma coisa, os jogadores do Porto passaram a olhar mais para a nossa baliza, embora mantendo um olho no burro ou no cigano, não sei bem como é que aplica este aforismo neste contexto. A primeira parte concluiu-se sem que se tivesse jogado praticamente à bola: o Felipe acertou mais vezes no Bruno Fernandes do que na dita e o Marega também não conseguiu acertar na dita e, muito menos, com a dita na baliza e fez-se ao “penalty” e à expulsão do Mathieu com uma coreografia que nem nos anos oitenta e noventa se aceitava. 

Ao intervalo, terão explicado ao Bruno Fernandes que o melhor era encostar-se à esquerda e deixar pura e simplesmente de participar no jogo e nunca, mas mesmo nunca, se lembrar de atacar, colocando-se a jeito. Os do Porto atrapalharam-se com este triste e vil apagamento do seu alvo principal e ficaram sem objetivo. Umas castanhas aqui, umas biqueiradas ali, umas correrias inconsequentes acolá e nada mais. Estava-se num marasmo tão, mas tão grande que um mau, o Diaby, um bom, o Acuña, e um assim-assim, o Luiz Phellype, tiveram tempo, mas tanto tempo para se relembrarem onde ficava a baliza da equipa adversária que acabaram por marcar um golo. Raivoso, o Sérgio Conceição fez entrar o Aboubakar carregado de apontamentos. O homem, atrapalhado, em vez de montar a habitual roda com os colegas à frente da claque e, enquanto um dos seus membros despia a camisola, realizar um “brainstorming”, decidiu ler as cábulas enquanto corria. Não é um processo que se recomende e, assim, não se estranhou que tenha esbarrado no Renan Ribeiro quando estava isolado e se esperava que marcasse. 

À falta de melhor, os jogadores do Porto fartaram-se de ganhar cantos e tanto cantos marcaram que os nossos, exaustos e vagamente entediados, entraram em modo “levem lá a taça (em minúsculas, entenda-se)”, deixando de saltar às bolas e de fazer subir a linha defensiva. O Danilo empatou e logo a seguir o Herrera fez o dois a um, saudando as claques com um coração e evitando ter de se lhes dirigir no final do jogo para pedir desculpa de qualquer coisinha. Fiquei com dúvidas quanto à sua posição e com mais dúvidas fiquei quando a SporTv desatou a passar repetições e repetições de todos os ângulos menos daquele que permitia esclarecer essas dúvidas, chegando a passar umas repetições de trás da baliza cuja coisa mais relevante que permitiam vislumbrar era o “bleached blonde hair” do Herrera. 

Parecia que tudo estava resolvido a bem para ambas as partes, mas não estava. Os do Porto voltaram à casa de partida e continuaram à viva força a querer expulsar um dos (poucos) bons jogadores do Sporting. À falta do Bruno Fernandes, que tinha sido substituído, desviaram as suas atenções para outro alvo: o Acuña, o argentino das bolas grandes, como afirma a sua mulher e nós não temos condições de desmentir. Quando o Acuña dominou a bola junto ao banco do Porto, local ideal para se encenar uma ópera-bufa como a que se iria assistir, o Corona e o Herrena fizeram-lhe uma emboscada e desataram a bater-lhe de todas as formas e feitios, enquanto, subitamente, se vê entrar em campo uma manada de elefantes comandada pelo Sérgio Conceição. Vendo o seu colega em ligeira desvantagem em número e armamento, os nossos reorganizaram-se e fizeram uma investida que rompeu a inexpugnável Linha Maginot, enquanto o Acuña, fora do campo, se mantinha tranquilo a explicar a dois elefantes os ensinamentos do Mahatma Gandhi e os princípios do Satyagraha para evitar que engrossassem a manada. O VAR que tinha visto uma mão do Borja que, quem sabe, talvez pudesse impedir a adequada progressão do seu adversário e assim, quem sabe, isolar-se, não viu nem o Sérgio Conceição nem a manada de elefantes entrar em campo. Não viu ele e também não viu o árbitro, o quarto árbitro e os dois fiscais de linha. Ainda bem que estas assimétricas patologias oftálmicas não afetam a polícia que se dispôs de imediato a acabar com a rebaldaria. O árbitro expulsou o Corona e mostrou amarelo ao Acuña, por considerar, admite-se, que uma revolução mesmo por meios não violentos não deixa de ser uma revolução e uma forma de perturbar mentes mais simples e dadas aos instintos da sua natureza. 

Mas, no fim, o que importa é o resultado e o resultado foi lisonjeiro para nós. Ficámos sem um jogador para a final da Taça de Portugal e o Porto também. Não merecíamos este resultado e o Porto muito menos, que tanto porfiou para o conseguir enquanto nós só passámos a jogar como uma verdadeira equipa quando tivemos de enfrentar uma manada de elefantes. Depois de levar uma bofetada do Sérgio Conceição, o Renan Ribeiro caiu, mas, como reza a lenda, por cada leão que cair, outro se levantará!

sexta-feira, 17 de maio de 2019

O custo de oportunidade de falar do que se não conhece

Tive a oportunidade de escrever este “post” sobre as rescisões dos jogadores do Sporting e os acordos que o Sousa Cintra tinha vindo a desenvolver. Recorri aos famosos conceitos do “Dilema do Prisioneiro” e do “Equilíbrio Nash” para explicar que a procura do interesse próprio de cada uma das partes tanto poderia levar a um acordo ou a acordo nenhum, ganhando todos ou perdendo todos respetivamente. Os dados que apresentei para explicitar a estratégia de cada uma das partes que participava neste jogo eram simbólicos e, portanto, fictícios. Os acordos foram sendo feitos e o que pareceu evidente era que os acordos eram sempre melhores do que as alternativas, isto é, os não acordos. 

Entretanto, chegou-se ao mais recente acordo com o Gelson Martins. Existe um consenso: é um mau acordo para o Sporting. Quem assim afirma esquece-se de nos explicar qual seria, então, a melhor alternativa. A única alternativa conhecida é o não acordo e a decisão judicial. A decisão judicial tem um grau de imprevisibilidade relevante e mais imprevisível ainda são as consequências dessa decisão. Mesmo que exista absoluta convicção sobre os méritos da posição do Sporting, ninguém consegue antecipar as consequências. 

Ninguém sabe se as consequências recairão completamente sobre o jogador e, sendo assim, como é que será determinada a indemnização e, mais do que isso, se o jogador disporá de condições para a pagar (a simples insolvência pessoal determina a possibilidade do Sporting não se ver ressarcido de nada). Ninguém sabe se as consequências recairão também e em que grau sobre o Atlético de Madrid e as diversas formas que este clube teria de prorrogar o não pagamento de qualquer indemnização, obrigando a um outro acordo para o Sporting receber o que quer que seja, abdicando agora de um acordo para ter de chegar a outro mesmo que viesse a ganhar o processo judicial. Neste como noutros casos semelhantes, o tempo corre sempre contra quem espera ser indemnizado, dificilmente sendo ressarcido dos danos causados e sobretudo na dimensão dos danos causados no passado reportados ao momento presente com taxa de atualização razoável. 

Numa economia de mercado o preço é justo ou injusto em função do seu custo de oportunidade, a melhor alternativa em idêntica situação de risco. O Mundo como o conhecemos não é uma parábola onde no final ganham sempre os bons e os justos. A realidade, o nosso dia-a-dia e o das instituições, dispensa bravatas e títulos de jornais. Como diz o Woody Allen, a realidade por mais dura que possa ser ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife. Os erros não se corrigem, nem se desculpam, evitam-se simplesmente. É verdade que o envolvimento de intermediários e o pagamento de comissões sobre serviços que se desconhecem constitui o lado obscuro do futebol. Há muito tempo que a absurda circulação de dinheiro sem explicação nestas transações deveria levar as instituições que nos representam a tomar medidas. Mas essa, embora mais interessante, é outra discussão. 

Nada disto impede que a Direção do Sporting dê devidas explicações a todas as partes interessadas deste negócio, especialmente aos sócios. Também é verdade é que se as desse com o necessário detalhe se estaria a fragilizar do ponto de vista da sua posição de mercado e correria o risco de ser criticada como foi quando se procedeu à divulgação da auditoria. Existe é uma verdade: o custo de oportunidade de falar do que se desconhece é falar do que se conhece, pedir as necessárias explicações do que se desconhece ou estar calado. É mais fácil ajuizar esta decisão do que ajuizar a decisão do acordo.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Protocolo de estádio


Parece que vão (tentar) tirar os títulos ao Joe Berardo. Depois daquela grandiosa exibição na comissão parlamentar (como se chama?), comissão de inquérito à recapitalização e gestão da CGD, Berardo provou-nos que o futebol, mesmo na sua versão toupeiras e padres, ou fruta da época, mesmo na sua versão televisiva (CMTV incluída), tem ainda muito que andar para chegar aos robustos calcanhares do comendador Joe. Fiquem descansados os adeptos de ambos os desportos, no final as coisas só correm mal para quem tem de pagar bilhete.

O campeonato está a acabar e vai ser em grande, conforme o protocolo estabelecido. Aliás, o protocolo estabelecido está tão bem feito que ainda este fim-de-semana disso tivemos uma prova (como se disso fosse preciso). Quando na semana anterior se falava por aí na possibilidade do Sporting ainda chegar ao 2º lugar pensei para comigo: acabou-se a série de vitórias. Não sou bruxo, nem de Fafe, mas dou uns toques em prestidigitação direcionada.  

Após a vitória e eliminação do Benfica da taça, como andávamos suficientemente longe para chegar ao título, foi-nos permitida a graça de um bom futebol, sem situações inoportunas, imprevistas, sem percalços de maior. Bem vistas as coisas, lutávamos, quando muito, com o Braga para o terceiro lugar. Braga que, posteriormente, foi devidamente presenteado com as bengaladas da praxe, para saber o seu lugar no respectivo protocolo. 

Sobre o jogo com o Tondela já o Rui disse tudo. Contribuímos com a nossa dose cavalar de falhanços para aperfeiçoarmos o nosso lema de falhar cada vez melhor. Mas fica-nos a sensação de que não poderia ser de outra forma. Há um protocolo a respeitar.


(Nota: Campeões Europeus! - uma posta de pescada para breve)

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Distopias da futebolândia nacional

No sábado, era dia de festa. Despedíamo-nos de Alvalade esta época, depois de manipulações várias, beneficiando o Benfica e prejudicando o Porto pelo caminho, com o tão desejado título Abel&Salvador: o terceiro lugar. Os fins sempre justificaram os meios. Ano após ano, não sendo possível ganhar o campeonato nacional, queremos ser os melhores da Europa, seguindo o exemplo do Liverpool e do Tottenham. Um dia longínquo, seremos os melhores da Europa e de Portugal também. Uma coisa de cada vez, por ordem crescente de importância relativa. O Bruno Fernandes pretende seguir o caminho inverso, procurando ser campeão nacional antes de ser campeão europeu. Gostos ou falta de gosto, melhor dizendo. 

Como nos tinha avisado o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), as equipas que jogassem no Vale do Tejo iriam sofrer as consequências de anticiclone das Ilhas Britânicas. As altas pressões atmosféricas trazem massas de ar quente e, estas, alucinações. Assim, ao lado da equipa do Tondela e do árbitro, entrou em campo a equipa do Setúbal, embora os jogadores fossem os do Sporting. Nada contra o Setúbal nem os jogos do Setúbal, mas se é para ver jogar o Setúbal contra o Tondela o melhor é o jogo realizar-se no Bonfim e com os jogadores do Setúbal. 

Os comentadores da SporTv ou não perceberam ou fizeram-se desentendidos e continuaram a ver jogar o Sporting. Viram a agressão do Ristovski, o protesto do Bas Dost, o fiscal de linha a demorar a marcar fora-de-jogo a um jogador do Sporting. Não viram foi jogar o Tondela ou confundiram os seus jogadores com os do Liverpool e o seu treinador com o Jürgen Klopp quando afirmaram que se trata de uma equipa com muito critério na saída para o contra-ataque ou que impediam o adversário de ter tempo de posse de bola como habitualmente. Não viram que as imagens não permitiam que se visse de forma clara e evidente razões para a expulsão do Ristovsky, não viram a ridícula simulação de falta que levou ao protesto do Bas Dost, não viram uma joelhada na cabeça do Bruno Fernandes, não viram nova falta do mesmo jogador sobre o Acuña para segundo amarelo, não viram as sucessivas entradas por trás (ou interpretaram-nas como brilhantes manobras táticas para impedir que os jogadores do Sporting se virassem). Viram o Sporting, não viram o Tondela, viram o que o árbitro viu e não se via e não viram o que o árbitro não viu e se via. Podia tratar-se de um espetáculo da “World Wrestling Entertainment” (WWE), mas não. Tudo parece obedecer à necessidade de uma narrativa oficial que permita, no fim, afirmar-se que a bola é redonda, embora se tenha recorrido à tática do quadrado para a fazer rebolar da forma mais conveniente possível. 

Quando a equipa do Tondela empatou, os comentários de dois benfiquistas que estavam no café constituíram uma epifania. Enquanto um rejubilava o outro dizia-lhe: “Ainda vamos arranjar maneira de fazer descer o Chaves!”. Afinal talvez não estivesse a ver jogar o Setúbal e o jogo mais não fosse do que a primeira mão da liguilha que se disputa entre o Tondela e o Chaves e cujo desfecho se encontra aprazado para a próxima jornada. Finalmente também compreendi o comunicado do Braga após o jogo contra o Benfica, culpando o Sporting e o mesmíssimo árbitro pelas faltas não assinaladas do Ruben Dias, do João Félix e do Florentino: os jogadores eram do Benfica mas a equipa era a do Sporting, como no sábado era a do Chaves ou a do Setúbal, vá-se lá saber. 

O “El País” deste sábado publicou uma reportagem sobre as sucessivas taxas naturais negativas dos portugueses nos últimos dez anos e a tendência de agravamento decorrente do envelhecimento da população. O título não podia ser mais sugestivo: “Os portugueses se extinguirão este século?”. É um título que dá que pensar, sobretudo aos sportinguistas. Será que ainda vamos a tempo de ganhar por mais uma vez que seja o campeonato nacional?

terça-feira, 7 de maio de 2019

Um oito à Bordalo Pinheiro

Um encontro de agrónomos que se realiza ano após ano há cerca de vinte anos calhou neste fim-de-semana. Quando se iniciaram estes encontros, muitos de nós ainda não tinham filhos. Ao fim destes anos, temos filhos mas é como se não tivéssemos: não estão para nos aturar e ainda bem (para eles, diga-se). Combinar encontros e jogos de futebol no mesmo fim-de-semana não é para todos, sobretudo se se joga ao domingo, exatamente quando se está de regresso a casa. Implica adequada logística e todo um sem número de concessões que coloque as mulheres em dívida moral. 

O encontro foi nas Caldas da Rainha e, por isso, não regressámos sem uma ida à loja da fábrica Bordalo Pinheiro. Analisámos com detalhe e atenção a importância que se reveste uma fruteira em forma de couve penca na decoração da sala de jantar ou de um canídeo em porcelana à frente da casa com a respetiva placa “Cuidado com o Cão”, para que os vizinhos tenham medo (de o partir, claro está). O meu amigo Luís representou tão bem que fiquei na dúvida se a folha de couve não lhe era destinada. Estávamos em plena A8 quando o jogo contra o Belenenses se iniciou. Com o aproximar do final da primeira parte, o Luís, a medo, começou a dizer que estávamos a ficar sem combustível. Vimos toda a segunda parte na estação de serviços de Vagos, pois deu-se o caso de o jogo ali estar a ser transmitido, coisa que nunca imaginámos e muito menos planeámos, juntando-se o útil ao agradável. 

Aparentemente, a equipa do Sporting estava a adaptar-se ao relvado simplesmente, treinando para a final da Taça de Portugal. O Belenenses, com menos um jogador, comportava-se como um clube grande, recordando-me um ex-Presidente que afirmava que um clube grande, como o Belenenses, deve ser grande até a dever. Os jogadores em vez de despejarem a bola para a frente ou saírem com ela pelas laterais, inventavam um “tiki-taka” pelo meio que, à primeira pressão, acabava tudo em pânico. Num desses pânicos o Bruno Fernandes acertou nas pernas do guarda-redes e notou-se que estava a ficar cada vez mais irritado consigo mesmo. Como os jogadores do Sporting pareciam que estavam num jogo-treino, não se estranhou o golo do Belenenses. Foram à frente uma primeira vez e o Renan Ribeiro defendeu. À segunda, depois do Mathieu fazer um passe assim-assim para o Borja também efetuar uma receção assim-assim e ajeitar a bola para um jogador do Belenenses que vinha embalado, marcaram numa recarga do Licá, o velho Licá, o ex-internacional Licá. 

O jogo prometia. Mas o Gudelj de meia-distância fez embater a bola no lombo de um adversário e entortou o guarda-redes todo, fazendo o três a um e mantendo uma postura de quem faz remates daqueles várias vezes ao dia. A seguir, um defesa do Belenenses e o Luiz Phellype procuraram explicar ao João Félix as circunstâncias que permitem a um avançado rebolar-se no chão depois de levar uma trancada sem parecer maricas. O Bruno Fernandes fez a paradinha do costume e bateu o recorde do Mundo e da Europa também, mas continuava-se a notar a irritação. Lançado em profundidade pelo Raphinha, o Luiz Phellype torneou o guarda-redes e passou a bola ao Bruno Fernandes para fazer mais um golo, que não ficou muito mais alegre atendendo à facilidade, apesar de ter batido o recorde do recorde que tinha batido. Entrou o Bas Dost e os jogadores do Belenenses fizeram o favor de perder mais uma bola no meio para o Bruno Fernandes o isolar e marcar mais um golo à segunda. O Acuña foi à linha e centrou para o segundo poste, onde apareceu o Bruno Fernandes a rematar de primeira e a marcar mais um, batendo o recorde que tinha batido duas vezes e ficando com melhor cara. Até o Diaby participou num golo, atrapalhando-se com um defesa e deixando a bola para o Bas Dost simular e o Doumbia rematar e fazer o resultado final. 

Percebia-se que se estava perante uma situação de emergência. Desconhecia-se era que o árbitro fizesse parte de uma equipa do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), só assim se compreendendo a razão para acabar o jogo logo ali e não dar o devido tempo de descontos. Com mais quatro ou cinco minutos, havia tempo de sobra para marcar mais um ou dois golos. Havia tempo e mais do que tempo para o Bruno Fernandes voltar a molhar a sopa. Concluído um “encore” pedimos outro e mais outro, procurando assim matar as saudades que dele vamos ter. Cada jogo jogado é menos um por jogar até ao final de época e temos saudades, muitas saudades, pois dificilmente o voltaremos a ver com a nossa camisola.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Chover no molhado

Praticamente tudo foi dito sobre a vitória da nossa equipa na UEFA Futsal Champions League. No entanto, carregou-se mais nos adjetivos do que na análise do percurso que nos levou a esta vitória e na forma como se foi aprendendo com as derrotas. O nosso cérebro está preparado para estabelecer relações de causa e efeito, quando muitas vezes os resultados se devem ao acaso. Não percebo grande coisa de futsal, nem sequer aprecio de sobremaneira esta modalidade. Mas, como todos, na minha cabeça gerou-se um entendimento sobre as causas que levaram a este sucesso. 

Nas anteriores finais que disputámos, fiquei sempre com a convicção que coletivamente éramos tão bons ou melhores do que os adversários e os nossos jogadores dispunham de qualidade técnica pelo menos equiparável. Sempre me pareceu é que éramos mais frágeis na dimensão física e na baliza, onde os nossos guarda-redes, apesar de bons, não estavam ao nível dos adversários. A tudo isto, somávamos um certo romantismo: dificilmente se via uma biqueirada sem propósito e havia uma obsessão em trocar a bola e sair sempre a jogar. As dispensas e aquisições desta época visaram colmatar estas falhas. Passámos a ter um guarda-redes tão bom como os melhores, Guitta, e os regressos de Erick Mendonça e de Leo Jaraguá conferiram uma maior capacidade física e de choque com os adversários. A tudo isto somou-se um maior pragmatismo. Assistimos a jogos em que os jogadores, incluindo o guarda-redes, não tinham grandes problemas em colocar a bola na frente sempre que pressionados. 

Estas alterações resultaram da fria análise de Nuno Dias às derrotas passadas e da disponibilidade da direção do Sporting e, em especial, de Miguel Albuquerque para as promover. As exibições e os resultados não começaram por ser os melhores. Deixámos de ser arrasadores no campeonato nacional e o Benfica parecia o favorito. Não só não desanimámos como subimos a parada e, em finais do ano passado, renovámos com o Nuno Dias, até 2022. O sinal foi inequívoco: era com estes jogadores e com esta equipa técnica que pretendíamos ganhar todas as competições. A competência faz-se da análise dos nossos pontos fracos e fortes em relação à concorrência e de alterações em conformidade e da capacidade de resistir à tentação de tudo mudar quando existem reveses, aprendendo com as derrotas, que são a mãe das vitórias futuras.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Quem ri por último é de raciocínio lento?


Anda por aí um cartaz de um partido político em cujo slogan se pode ler mais ou menos isto: eles falam, nós fazemos. A frase de tão gasta apenas nos chama a atenção porque na imagem aparece o candidato a falar para apoiantes, ou seja lá quem for, não interessa. A falar, vejam bem. A frase não bate com a imagem mesmo que nos esforcemos por dar de barato que os cartazes não têm som e que deve ser muito difícil (acham?) pôr alguém a agir num cartaz. Não bate com a perdigota mas casa bem com propósitos previstos.

Recentemente, um jornal desportivo, em dia de jogo europeu (quartos de final da liga dos campeões) entre o Porto e o Liverpool, trazia uma capa cujo grande (e único) destaque era um jogador do Sporting de nome Wendel. E qual era o grande feito do Wendel, perguntam vocês? O grande (de)feito do Wendel foi ter ido assistir (pelos vistos sem autorização) ao Juventus – Ajax em Turim. Não está a causa a falta do rapaz, devidamente assinalada pela direção leonina, duas voltas ao ginásio, um jogo de fora e alguns contos de reis. Aqui interessa-nos o destaque dado de forma completamente inusitada a este episódio. Não se trata apenas de desvalorizar (totalmente) o jogo europeu do Porto, mas de continuar a sevar a agenda mediática de casos envolvendo o Sporting. Esta capa nada tem que ver com o futebol, com o falar de futebol, nem sequer se enquadra na agenda do dia futebolístico, apenas serve o propósito de continuar a queimar em lume brando a vida interna do Sporting. Como se isso fosse necessário, dir-me-ão. Claro que é. Milhões estão em jogo nos próximos anos. Não bate com a perdigota mas casa bem com propósitos previstos.

Este fim-de-semana o Braga perdeu mais uma vez (de goleada) com o Benfica. Até aí tudo bem. Já pensaram na conversa do Braga este ano relativamente ao campeonato? Entre sonhos e objetivos mais ou menos delineados ao sabor do vento, nas entrelinhas lia-se: 3º lugar. E é isso que convém aos dois do costume. Já aqui escrevi muito sobre a tentativa de bipolarização do futebol português, milhões estão em jogo, e com os critérios da liga dos calmeirões cada vez mais apertados, dois já é muito, três é demais.

No final do jogo, Abel não cabia em si de contente, por mais uma derrota (justíssima) com um opositor com estofo (e jantes de liga leve) de campeão. Nada a dizer da arbitragem, nada a dizer do resultado, lá como cá, uns justíssimos dez a três como resultado global. Alguns viram nisto uma porta aberta de saída do clube, outros (mais atentos aos cartazes publicitários), uma chance para treinar a (outra) equipa B do Benfica, outros ainda notaram um contraste entre as palavras do treinador e o comunicado emitido pela direcção do clube, onde se critica (supostamente) arbitragem.

Não perceberam que as palavras não batem com a imagem pretendida. Espremido (leiam bem o final) o comunicado é uma nota de pesar pelo quarto lugar, e um ataque pouco disfarçado ao Sporting, o verdadeiro (e único) responsável pelos pontos perdido pelo Braga, incluindo (imagina-se) as cabazadas sofridas de forma justa com o Benfica. Por isso Salvador se senta ao lado de Vieira, que nem sequer precisa de assistir ao jogo no balneário. Por isso Salvador se senta ao lado de Pinto da Costa a saborear um bom bacalhau ali para os lados de Adaúfe.  

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Há dias assim ou a balada da cidade triste

Há dias assim. Sabemos que vamos descobrir, quando nos atirarmos para dentro da banheira, que se vai exercer uma força vertical de intensidade igual ao peso da água que será deslocada pelo nosso corpo. Sabemos que vamos descobrir, quando nos sentarmos debaixo de uma macieira e nos cair no cocuruto da cabeça uma maçã madura, que esta nos vai atingir a uma velocidade igual a nove, vírgula, oito metros por segundo quadrado multiplicados pelo tempo de duração da queda, medido em segundos. Sabemos que vamos descobrir também que, substituindo-se o Gudelj pelo Doumbia, vamos jogar melhor. Sabendo que vamos descobrir o que ainda não foi descoberto, tomamos as necessárias precauções, vestindo-nos da cabeça os pés como deve ser, para não sermos apanhados a correr pela rua abaixo com o pirilau a abanar enquanto gritamos “Eureka! Eureka!” 

A descoberta demorou a ser descoberta. O Guimarães veio jogar à bola a Alvalade, o que se saúda. Pressionava a nossa saída da bola com dois jogadores, encostando outros dois às laterais para bloquearem o Acuña e o Ristovski, subindo sempre os jogadores do meio-campo quando o Doumbia ou o Wendell desciam para receber a bola. Durante quinze a vinte minutos fomos perdendo bolas sobre bolas e enfiando biqueiradas para a frente, com destaque para o Coates. O Keizer explicou ao Doumbia que se devia adiantar com o Wendell, arrastando os médios que os marcavam, para que houvesse mais espaço para sair a jogar. Por isso ou porque os do Guimarães deram o berro, a partir dessa altura foi uma profusão de oportunidades perdidas e de tiros ao barrote. O Acuña desmarca o Raphinha que, à meia volta, remata ao barrote. O Raphinha desmarca o Bruno Fernandes que, de primeira, remata ao barrote. O Raphinha centra e o Luiz Phellype desvia a bola de cabeça contra o barrote. O Bruno Fernandes desmarca na área o Luiz Phellype que, isolado e com o guarda-redes no chão, remata contra o barrote (Em Alvalade, qualquer um dos seis barrotes é nosso. Espera-se maior sentido de compromisso de cada um deles, atitude que sempre revelaram com a direção anterior e com esta deixa muito a desejar. Não gostei!). O Diaby demonstrou-nos que tanto acerta nas orelhas da bola com o pé esquerdo como com o direito, não sendo defeito mas feitio, e o Bruno Fernandes enfiou um balázio de fora da área que passou a um poucochinho da baliza com o guarda-redes a assistir com cara de Svilar. 

Entretanto, no meio deste despilfarro, o Acuña abalroou um adversário à entrada da área. Não sabendo se era dentro ou fora da área, o árbitro seguiu o manual de boas práticas tão apreciado pelos comentadores e fez vista grossa à falta mais que evidente. Recuperada a bola, o Acuña lançou o Luiz Phellype que foi ceifado por um defesa do Guimarães com o árbitro a fazer vista grossa também para compensar. Por momentos, o jogador do Guimarães pensou que era o Beckenbauer e tentou fintar a equipa toda do Sporting até perder a bola, que acaba nos pés do Bruno Fernandes. Recebendo a bola parado, faz um passe extraordinário de trinta metros, rasgando a linha defensiva do adversário e isolando Raphinha, que marca o primeiro golo não sem antes sentar o guarda-redes duas vezes. A (falsa) convicção dos comentadores da SporTv de que a falta teria ocorrido dentro da área e a (con)sequência imediata e direta da sua não marcação  foi o golo do Sporting, transformou a simples análise de um  hipotético livre num conjunto de relações de causa e feito que determinou aquele resultado final, como se se estivesse em presença da falsificação das notas de quinhentos escudos do Alves dos Reis e da necessidade de se realizar o julgamento de Nuremberg. A avaliação dos danos foi ao ponto de afirmarem que os jogadores do Guimarães estavam perturbados. Ora, se a qualquer um de nós nos enfiassem quatro no barrote não deixaríamos de ficar perturbados! 

Na segunda parte, o Guimarães entrou com outro plano. A equipa recuou para o seu meio-campo e deixou de pressionar à frente. Esperava-se um jogo de nervos em que nos iríamos ainda arrepender das oportunidades perdidas. Felizmente, nada disso aconteceu. O Renan Ribeiro, numa reposição de bola, colocou-a a quarenta metros no Raphinha do lado direito do ataque que a dominou magistralmente com um adversário a um metro de distância e enfiou-lhe três reviengas seguidas até a meter ao primeiro poste onde apareceu o Luiz Phellype a ganhar a frente a um defesa, como lhe mandou o Bruno Fernandes, e a empurrá-la para o segundo golo. Os jogadores do Guimarães não reagiram e continuaram com a tática que trouxeram do balneário, de jogar na expetativa e no erro do adversário. Os jogadores do Sporting não foram no engodo e nada mais aconteceu até ao final do jogo, a não ser uns assobios ou de adeptos do Guimarães ou de adeptos do Sporting com problemas de menopausa ou andropausa, conforme o género. 

O Sporting fez um excelente jogo. O Guimarães procurou jogar à bola e não foi feliz, porque o Sporting foi superior. Nada que não se espere que aconteça num jogo de futebol, dado que não podem ganhar as duas equipas. Não se compreende assim a razão dos comentadores da SporTv procurarem desqualificar a nossa vitória desqualificando os jogadores e a equipa adversária. Descobrimos o que sabíamos que íamos descobrir. Descobrimos ainda que existe uma qualquer lei da física ou da organização social que determina após um empurrão do Acuña a sucessão de um conjunto de eventos que culmina num golo do Sporting. 

Faz-me lembrar um livro do Pierre Siniac que li há muitos anos. Numa cidade francesa, sempre que uma astróloga acertava nas suas previsões da semana, dava uma choruda gorjeta a um pedinte, que com esse dinheiro ia jantar a um determinado restaurante. Como era vítima de assédio sexual desse pedinte, se sabia disso, a empregada do restaurante metia a sua folga semanal. Um agente de seguros, que estava apaixonado por ela, se não a via no restaurante ia jantar a outro, onde invariavelmente pedia coelho à caçador, que era caçado pelo dono de uma loja de artigos de luxo e vendido ao dono desse restaurante. Vendendo-o e não se tendo que deslocar para o dar a uma instituição da igreja, tinha tempo para arranjar a montra da sua loja. Arranjando-a, um dos seus clientes podia comprar uma prenda para oferecer a uma prostituta que não tinha relações com ele sem ela. Tendo relações com ele, não estava disponível para ter relações com o vendedor desses artigos, que assim se dirigia a essa loja, onde o esperava a esposa do caçador que estava por ele apaixonado. Não tendo de esperar pela sua paixão escondida, chegava a tempo ao jornal onde trabalhava, não ficando o diretor desse jornal deprimido por se sentir abandonado e não se embriagando. Estando sóbrio, disponibilizava-se para efetuar a cobertura jornalística no centro cultural do filme que ia passar e do debate que se lhe sucedia. Havendo debate, a responsável do centro cultural não tinha medo de ficar sozinha a encerrar a sala depois do filme terminar e assim abria a bilheteira. Havendo filme, o assassínio seduzia uma vítima e o homicídio acontecia. Se a astróloga fazia uma previsão que nessa semana ia acontecer uma desgraça na cidade, este ciclo infernal retomava-se e o homicídio acontecia sempre. “Balada da Cidade Triste” é o título deste livro. Também podia ser o título do campeonato nacional e do seu entorno mediático.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Bruno Fernandes, a inteligência nunca é defeito

Os melhores jogadores portugueses, regra geral, são transferidos muito novos para outras equipas de campeonatos mais competitivos. Encontrando-se numa fase muito precoce do seu percurso profissional e do desenvolvimento das suas capacidades desportivas e da sua personalidade, quase sempre o destino imediato é o banco ou a bancada, não se afirmando como titulares. O melhor dos melhores, Cristiano Ronaldo, andou uma época a aprender com o Alex Ferguson, no Manchester United. Muitos outros, não dispondo de treinadores que ensinem e tenham paciência, nem se chegam a afirmar nas equipas para as quais foram contratados. 

Bruno Fernandes confidenciou-nos que não tinha a certeza de estar preparado no final da época passada para jogar num desses campeonatos, necessitando de mais uma época intensa, com muitos jogos nacionais e internacionais, para se sentir confiante nas suas capacidades para enfrentar esse desafio. Podemos ver a inteligência do Bruno Fernandes em movimento todos os fins-de-semana. Tudo o que faz – um passe, uma finta, uma desmarcação, um remate – tem sempre o propósito de colocar a sua equipa mais próxima do objetivo do jogo: o golo. A essa inteligência soma uma personalidade vincada que lhe permite liderar, como capitão, os seus colegas de equipa dentro de campo e decidir por si a sua carreira. Comporta-se como o adulto que é: pensa pela sua cabeça, não se deixando levar pela propaganda mediáticas e os negócios que envolvem os clubes e empresários que têm em vista o curto prazo e não (toda) a carreira dos futebolistas. 

Não sabemos se a sua carreira continuará a ser bem-sucedida. Uma lesão, um treinador e as suas preferências táticas, um clube e as suas circunstâncias, podem-no impedir de se afirmar no contexto internacional como deseja e todos desejamos. Mas as condições pessoais estão reunidas para se afirmar como titular em muitas das boas equipas europeias. É importante que os jogadores, os clubes e os empresários reflitam bem sobre este exemplo. Muito jovens e sem a titularidade assumida nos seus clubes ao longo de algumas épocas, nem sempre os jogadores se encontram nas condições adequadas para jogarem com regularidade nas equipas que os contratam e nem todos conseguem, depois, dar um passo atrás para dar dois em frente. Sem a cupidez habitual, os clubes podem continuar a retirar benefícios financeiros das transferências, acrescentando-lhes os desportivos. Os empresários têm de decidir se representam os interesses dos jogadores ou os seus.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Onde está o Palocevic?

A meio da conferência de imprensa “pre-match”, entram na sala os três capitães de equipa do Nacional e fazem uma declaração de apoio ao seu treinador. Costinha leva os dedos da mão direita à cara e com o polegar e o médio esfrega os dois olhos, contendo as lágrimas, mas a voz embragada trai-lhe a emoção. Prometiam-nos sangue, suor e lágrimas. Era o mínimo que se esperava, esperando-se também que a SporTv, solidária, se deixasse de comentários e passasse como música de fundo o “Chariots of Fire”, do Vangelis. Qualquer que fosse o final, feliz ou infeliz, imaginava-me com uma lágrima ao canto do olho enquanto sentia um nó na garganta. Ganhando ou perdendo, este jogo contra o Nacional encerraria uma lição de vida. 

Começa o jogo e os jogadores do Nacional recuam e nenhum deles passa a linha de meio-campo para pressionar a saída de bola dos jogadores do Sporting, que começam por ficar desconfiados. Pouco a pouco, percebem que podem engonhar o início das jogadas vinte metros à frente do habitual. O comentador da SporTv ia-nos avisando que se tratava de um engodo, pois a qualquer momento o Palocevic iria fazer um lançamento longo para nos apanhar com as calças na mão. Avisados, os jogadores do Sporting continuavam a jogar a passo, só atravessando o meio-campo quando o Mathieu fazia o habitual passe tenso para o Acuña avançar com a bola pelo lado esquerdo. Sem o Wendell e com o Doumbia, a equipa ganhava mais presença física no meio-campo e pressionava melhor e sempre que a bola ia à frente os do Nacional viam-se e desejavam-se para a tirar de lá, apesar do comentador da SporTv nos continuar a ameaçar com o Palocevic. Com o Doumbia a seu lado ou um pouco mais à frente, o Gudelj finalmente parecia um trinco em condições, fazendo de segunda lâmina da Gillette, aparando os adversários depois dos cortes da primeira. O que se ganhava em consistência defensiva e em pressão sobre os adversários, perdia-se em espontaneidade ofensiva: o Doumbia é mais um jogador de passe e de lançamentos para os colegas do que, como o Wendell, de pegar na bola, correr com ela e tabelar para aparecer mais à frente, acelerando o jogo e passando a equipa a dispor de mais um elemento no ataque. 

Mesmo a mastigar o jogo, a equipa do Sporting ia criando sucessivas oportunidades de golo. Com o Bruno Fernandes sozinho ou mal acompanhado, apareceu o Diaby que, colocado do lado direito do ataque, fazia de Raphinha, mas mantendo a habitual relação conflituosa com a bola. Ninguém estranhou, portanto, que se fossem desperdiçando essas oportunidades. Quando ficou isolado, não se estranhou o remate com o bico da chuteira contra o guarda-redes que se encontrava esparramado no chão. Embora sem ser surpreendente, não deixou de ser brilhante a sua disputa de bola a seguir, tropeçando nela e permitindo que tudo acabasse num pontapé de baliza, bastando estar quieto para ganhar um canto. O Jovane procurava intercalar algumas dessas intervenções do seu colega com outras da sua lavra, igualmente inconsequentes mas com nota técnica mais elevada. Enquanto isso, o Luiz Phellype infernizava a vida dos centrais. Não se trata de um Slimani, mas também não é um Bas Dost. Permite à equipa jogar mais longo, porque recebe bem a bola, protegendo-a com o corpo até a entregar a uma colega, e pressionar melhor a equipa adversária quando recupera a bola. 

Ao intervalo, o empate a zero não deixava de ser lisonjeiro para a equipa do Nacional (expressão que deixaria um Gabriel Alves ou um Alves dos Santos orgulhoso do seu legado de lugares-comuns que constitui o essencial da escola de jornalismo desportivo nacional). No início da segunda parte, o comentador continuou a avisar-nos que ainda veríamos com quantos paus se faz uma canoa, quando o Palocevic engrenasse e o Avto fosse colocado do lado direito. Sem sinais de um e de outro, o Doumbia avançou mais e o massacre continuou com o Diaby a acertar nas orelhas da bola ou a acertar com a bola nas orelhas de um qualquer defesa adversário que estivesse à frente da baliza. Até que a meio da segunda parte, do lado esquerdo do ataque, o Acuña bate um livre direitinho para a cabeça do Coates que, empurrado por um defesa, não acerta na bola, sobrando para o outro lado onde aparece o Luiz Phellype a rematar sem a deixar cair para o primeiro e único golo da partida. 

A ganhar, a equipa do Sporting recuou, deixando as despesas do jogo aos jogadores do Nacional. No entanto, para grande consternação do comentador da SporTv, quando o Avto estava finalmente a jogar do lado direito, foi substituído. Aparentemente, o Costinha terá visto a sua cabeça a assomar do bolso dos calções do Acuña e tirou-o para meter um rapaz espadaúdo que costuma fazer de Ben-Hur nos filmes da Páscoa. Quando se esperava ver em ação o Palocevic, o melhor que se viu foi um remate de um jogador com o pé direito contra o seu próprio pé esquerdo, fazendo a bola sobrevoar a barreira e a baliza do Sporting. O árbitro marcou falta – dois toques seguidos pelo mesmo jogador na marcação de um livre – perdendo-se assim a oportunidade de se lhe entregar o “Diaby de Ouro” da partida. Com o Bruno Fernandes extenuado, os contra-ataques deram em nada, mas um nada convicto e resultante da convicção do Jéfferson e do Diaby. 

O jogo acabou sem que tivesse descoberto o Palocevic. O Palocevic permaneceu um mistério. O Palocevic é o bicho-papão a que se recorre quando as crianças não querem comer a sopa: “come a sopa ou vou chamar o Palocevic!”. As crianças, renitentes, comem-na e nunca chegam a saber se o bicho-papão existe mesmo. A sopa estava pejada de brássicas e leguminosas e só de nariz tapado se conseguia tragar. Tragámo-la, como se de óleo de fígado de bacalhau se tratasse, mas sob a ameaça do comentador da SporTv de chamar o bicho-papão, perdão, o Palocevic. Assim, em vez de uma história épica de superação e redenção, assistimos a um conto infantil para ajudar a engolir duas horas de tédio.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Oh, é apenas um Petit favor


Com a naturalidade de quem aborda um bom cozido à portuguesa num almoço de domingo, Petit, um tipo cuja (suposta) franqueza cheira a impunidade, lá foi dizendo o que toda a gente sabe mas não quer dizer para não estragar a surpresa: isto anda tudo mais ou menos (des)controlado no futebol imaginário cá do burgo. Os jogadores (daqueles que são normalmente titulares) fazem-se expulsar (só isto é todo um programa) para não jogar contra o Benfica. Por ordem expressa do treinador. Normalmente, esta ilegalidade lícita, ou ilicitude legal (eu sei lá), é muitas vezes feita para limpeza de amarelos contra equipas (supostamente) mais fracas, designadamente, em competições como a taça (igualmente reprovável - parece-me uma chico-espertice à portuguesa).

Neste caso, porém, retiram-se jogadores titulares de um jogo (fora de portas) contra uma equipa superior, logo limitando as hipóteses, já de si limitadas, de ganhar. É uma espécie de excursão ao estádio da Luz. Não se desse o caso de ambas as equipas lutarem por objectivos primordiais nesta época (título e descida de divisão), e poderíamos pensar estar perante relações entre subalternos. A verdade desportiva deve ser isso. Como diria o outro, o chato é que isso mexe com muito dinheiro. O Sporting, que nunca sabe em que rua fica o Canadá, perdeu uma pipa de massa com a derrota em casa do marítimo o ano passado. É o que dá jogar a sério. A seguir foi o que se viu.

Não são necessárias malas com dinheiro. Perde-se, e com muito gosto.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Quando uma pessoa muito inteligente encontra outra mais inteligente ainda

Uma pessoa muito inteligente encontra outra mais inteligente ainda num bar frequentado por pessoas muito inteligentes e por outras mais inteligentes ainda. Estabelece-se entre eles o seguinte diálogo. 

Pessoa muito inteligente: Se se colocasse o Bruno de Carvalho num clube, o Bruno Lage noutro e o Bruno Fernandes noutro ainda, qual o clube dos Brunos ganharia o campeonato? 
Pessoa mais inteligente ainda: O clube do Bruno Paixão! 
Pessoa muito inteligente: É do Benfica, não é?! 
Pessoa mais inteligente ainda: Como é que adivinhou?! Bastou-lhe uma simples resposta a uma simples pergunta sobre Brunos? 
Pessoa muito inteligente: Não. Reparei que traz uma camisola do Benfica vestida. 
Pessoa mais inteligente ainda: É muito inteligente! 
Pessoa muito inteligente: Obrigado, mas é mais inteligente ainda!

(Texto escrito depois de ler "Pastoralia", de George Saunders, com tradução e prefácio de Rogério Casanova)

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Nem à chapada!

A entrada rápida em jogo do árbitro, vamos designá-lo assim por comodidade, surpreendeu a equipa do Aves. O Mathieu e o Renan Ribeiro ficaram naquela situação do “vai tu, espera que vou eu”, intrometeu-se um pequenote que ganhou a bola e foi derrubado pelo nosso guarda-redes fora da área e a meio-caminho da linha de fundo. O comentador da SporTv, vamos designá-lo assim por comodidade também, deixou de ver pela sua própria retina e passou a ver pela retina que o árbitro lhe emprestou. O julgamento não podia ser mais claro: “lance de golo eminente” e expulsão do Renan Ribeiro. Horas e horas e dias e dias de treino, táticas de engonha, de provocação, de estacionamento de autocarro deitados ao lixo em quatro minutos. Os jogadores do Aves ainda procuraram fazer como se nada se tivesse passado, mas há sempre um problema de má consciência nestas circunstâncias: jogar contra menos um aumenta a responsabilidade e reduz o leque de desculpas. 

Como sempre acontece nestes jogos contra adversários mais frágeis, a equipa do Sporting continuou com o início da construção de jogo a dois, com o Gudelj mais avançado relativamente aos centrais e sem se mexer, não proporcionando linhas de passe seguras e obrigando-os a avançar com a bola sem destino, a passá-la para o lado ou a esperar que o Wendell recue para a receber e encontrar uma nesga para correr com ela ou a passar a alguém para que se inicie o ataque. Com menos um, o Bruno Fernandes encostou à esquerda e, com o apoio do Acuña, constituiu-se a dupla Asterix & Obelix superior em número e em armamento ao acampamento romano do Aves. O Bruno Fernandes começou por ameaçar com um remate de fora da área, para um boa defesa do guarda-redes, seguido de um perigosíssimo lançamento lateral e de uma combinação com o Acuña que lhe permitiu o centro para o Luiz Phellype marcar de cabeça o primeiro golo. Enquanto isso, o árbitro e o comentador mantinham uma abordagem conceptual e analítica rigorosa, não se vendo o segundo amarelo nem se ouvindo qualquer explicação quando um jogador do Aves, vamos designá-lo assim por comodidade também, placou o Bruno Fernandes quando este se esgueirava para o ataque. Esse jogador manteve o mesmo registo na segunda parte e só o Inácio o conseguiu tirar de dentro de campo, à força (de substituição, entenda-se). 

Mas, com o Sporting, o mais óbvio dos destinos nunca se cumpre ou cumpre-se por atalhos. O pequenote da expulsão recebeu a bola do lado esquerdo, correu com ela para o meio acompanhado pelo Gudelj que, pelo caminho, lhe deu um branca e abandonou a marcação, permitindo-lhe tabelar na zona central, aparecer isolado e ser derrubado pelo Salin, que saiu da baliza à maluca e fez esse favor ao adversários quando este se preparava para sair pela linha do fundo. “Penalty” e golo do empate do Aves. Estamos sempre condenados a ver a pedra escorregar pela ladeira abaixo para a ter que a transportar às costas até ao cimo. Desta vez, não demorou muito tempo a voltar a colocá-la onde estava. Falta a meio do meio-campo do Aves, constituindo os seus jogadores uma barreira compacta que, após um ligeiro franzir de sobrolho do Bruno Fernandes, debandam em pânico para a linha da sua própria baliza para evitar o golo, doença que tem vindo a ser classificada como Síndrome de Svilar. De uma forma ou de outra, o golo é sempre inevitável e a profecia cumpre-se a si mesma, sendo decisiva a precisão do remate do Wendell nas orelhas da bola que a leva direitinha ao pé esquerdo do Mathieu para lhe dar o destino adequado. 

A perder por dois a um e a jogar com mais um jogador, o Aves sentiu-se na obrigação de retirar um dos seus cinco defesas e colocar um extremo, passando a assumir o jogo e a atacar de forma continuada. Atacar é uma simples forma de descrever os sucessivos passes (in)consequentes entre os defesas e os médios para conseguirem levar a bola até uma das laterais e lhe enfiarem uma biqueirada para dentro da área. O Coates e o Mathieu chegavam e sobravam para as encomendas, beneficiando ainda da preciosa ajuda do Derley, avançado centro, que aliviava quando os centrais não o faziam competentemente. Assim, nada de muito relevante aconteceu na segunda parte, com exceção dos últimos minutos. O Acuña isolou-se do lado esquerdo e rematou contra as pernas do guarda-redes. Mais tarde, arrancou com a bola e foi placado por um adversário à entrada da área, sem que tivesse sido marcada o livre (perigoso) e mostrado o segundo amarelo ao jogador do Aves, tendo o árbitro optado por lhe mostrar um amarelo por se ter levantado e esbracejado, enquanto vociferava qualquer coisa em argentino, que está para o castelhano como o português para o brasileiro. O comentador da SporTv criticou o irritante hábito do Acuña de se deixar derrubar em lances perigosos que podem levar à expulsão dos adversários e de não ficar satisfeito quando nada é assinalado. O Raphinha isolou-se e, depois de dominar a bola à Diaby, rematou contra o guarda-redes. 

Estava-se naquela fase em que o Aves tirava os mais franzinos e metia os mais altos e gordos, quando o Bruno Fernandes resolveu cumprir uma promessa qualquer que tinha feito ao Bruno Lage. O Ristovski enfiou uma bica na bola para dentro da área e o Bruno Fernandes fez de Jardel e voou sobre os centrais, rodando o pescoço a preceito e de forma a acertar na bola com a cabeça no momento certo e fazendo-a entrar na baliza sem defesa possível, diversificando o seu portefólio de golos. Pensava-se que tudo estava acabado, mas o jogo não se podia concluir a não ser da mesma forma como se tinha iniciado. Depois de uma chapada no Coates, à qual o árbitro fez vista grossa, o Derley marca o segundo golo (que foi anulado pelo VAR). Revistas as imagens, o comentador começa por afirmar que a chapada não era clara para, perante as evidências, concluir mais tarde que era subjetiva. Quando enfardava um par de galhetas da minha mãe enquanto me dizia que lhe doía mais a ela do que a mim, não a compreendia. A chapada era objetiva e mais objetivo ainda era o latejar das bochechas e o tom vermelhusco que assumiam. Afinal ela tinha razão. As chapadas sempre podem ser subjetivas e a dor tanto pode ser de quem as dá como de quem as leva. As chapadas podem ser atos de amor e dadas de luva branca. Não interessa a literalidade, mas a metáfora. Anos e anos a recalcar e a sublimar, para chegar a este tardio entendimento. Um abraço ou uma chapada, tanto faz, ao comentador da SporTv pela redenção proporcionada.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Audita-me, cariño


Por falar em novidades: andamos uma semana (pelo menos), na praça pública,  a discutir as andanças de um suposto protocolo com o Batuque. Gosto do nome. Nem uma, ou duas palavras, sobre as comissões pornográficas pagas pelos clubes a empresários (intermediários, é assim?). No exercício anterior o Benfica gastou cerca de dezassete milhões nas ditas. O Porto dezasseis. O Sporting, a reboque, foi até aos dez. Os dezassete pagos pelo Benfica representam o terceiro maior orçamento (comparativo) da liga, à frente do Braga. O Real Sport Clube (quem?) pagou mais de um milhão, mais do que o Vitória (Guimarães), e muito mais que a maioria dos clubes da primeira liga gastam em orçamentos. Tudo limpo, limpinho. E sem qualquer investigação. Se recuarmos, verificamos que nos exercícios entre 2015 e 2018, o Benfica gastou mais de setenta milhões em comissões, o Porto mais de quarenta, e o Sporting cerca de trinta milhões. O silêncio sobre esta ilusão do futebol português é suficientemente ensurdecedor para deixarmos de acreditar (apenas) em batuques. Auditar sim, mas com o carinho que todos merecem. 

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Audita-me, por favor


Não é preciso contactar o Guinness World Records para sabermos que o Sporting detém o record absoluto interestelar (inclui os mais recentes buracos negros) da realização de auditorias. Sejam estas forenses, de gestão, ou simplesmente da tanga. Ninguém as faz tanto como o Sporting, e com os resultados que se conhecem. Para além das auditorias, somos igualmente muito fortes em reestruturações, sejam da dívida, do passivo, das equipas, da administração, ou simplesmente da própria reestruturação, ou reestruturações anteriores.

Ninguém nos supera em termos de limpeza(s): direções anteriores, direções anteriores à anterior, direção em exercício, o carinho que nutrimos pela limpeza supera mesmo em número a quantidade de assembleias gerais que fazemos para as nutrir de preceitos jurídico-administrativo/sádicos. Os tribunais entopem com as ações impostas por (supostos) sportinguistas contra (supostos) sportinguistas, debatem-se formas de Sportinguismo debaixo de água e criam-se neologismos que dividem em várias ramificações os sportinguistas, para gáudio de todos os outros adeptos que assim não precisam de mexer uma palha para enterrar mais o cadáver.

Esta semana tivemos mais uma auditoria (supostamente) reveladora. Nada de novo. A pronta divulgação da mesma na praça pública (esparramada na sua totalidade) sem qualquer apresentação prévia aos sócios e adeptos do Sporting, demonstra bem que não temos necessidade de toupeiras, hackers, ou quaisquer fugas de informação. Somos um livro aberto. É um modelo de gestão como qualquer outro. Aposto que, a seu tempo, também será devidamente auditado.


Preço de tudo e valor de nada

“Cínico é o que sabe o preço de tudo, mas o valor de nada” é um excelente aforismo de Oscar Wilde e vem a propósito do último livro de Mariana Mazzucato, que acabei de ler (“The Value of Everything – Making and Taking in the Modern Economy”, na versão original, dado que a tradução portuguesa é incompreensível). Para os Clássicos, o valor de um bem ou serviço constituía o somatório do valor de trabalho acumulado na sua produção. Para os Marxistas, a definição não era muito distinta, resultando a mais-valia da expropriação do valor àqueles que efetivamente o produziam: os trabalhadores. Para os Neoclássicos, o conceito alterou-se radicalmente: o valor não é objetivo, depende das preferências subjetivas dos consumidores e, portanto, tudo o que tem preço tem valor e o valor é o seu preço. Esta alteração de conceitos tem consequências na forma como analisamos o funcionamento da economia, classificamos o que é produtivo e improdutivo e discernimos lucros de rendas. 

A auditoria realizada à gestão da anterior administração do Sporting revela que foram pagos cerca de 3,2 milhões de euros em comissões na transferência de Alan Ruiz. Não se trata de uma situação singular, repete-se em todas as transferências envolvendo os mais diversos clubes. Os jogadores constituem ativos resultantes de investimentos realizados pelos clubes que desta forma pretendem acrescentar valor aos serviços prestados aos seu sócios e simpatizantes, sob a forma de melhor futebol e de mais vitórias e títulos. Qual é o valor que acrescentam os intermediários destes investimentos, sobretudo quando cobram quantias desproporcionadas em termos relativos e absolutos sem que disponham sequer de qualquer título de propriedade? Sem eles, os investimentos dos clubes não se realizariam? Os jogadores jogariam pior? As equipas praticariam pior futebol? Ninguém precisa de ser o Adam Smith para perceber que se trata de um atividade que se encontra do lado improdutivo da economia. Não basta admitir que se estes serviços têm preço é porque alguém lhes atribui valor. Esta é só mais uma forma de extrair valor a quem o produz, isto é, de extrair rendas. É mais uma das faces obscuras do futebol como indústria. É preciso perseguir o rasto deste dinheiro.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

O completo e absoluto nada

Ontem, no jogo contra o Rio Ave, aconteceram três golos e mais nada. Perante este não acontecimento, o que se pode dizer? Nada ou escrever sobre o nada, transformando-o em alguma coisa? Vi o jogo no habitual café da esquina. Lembro-me dos golos e de uma entrevista da Maria de Lurdes Modesto sobre a gastronomia tradicional portuguesa, que li na revista do Jornal de Notícias enquanto (não) via o jogo. Faz sentido uma crónica em jeito de entremeada em que a seguir a cada camada de Bruno Fernandes se acrescenta outra de Bacalhau à Braz, decorando-se o prato com duas azeitonas de Wendell e de Luiz Phellype? Mesmo que fizesse, seria sempre insossa. 

O Keizer tem aprendido e não é pouco. Contra equipas mais atacantes, engendrou um sistema em que o Borja faz alternadamente de terceiro central e de defesa esquerdo, conforme equipa tem ou não a bola. Contra equipas que jogam mais à defesa, deixam-se dois defesas centrais e a construção de jogo passa sobretudo por eles e pelo limpa-para-brisas do Gudelj. A bola é trocada entre os jogadores a dez à hora, até o Mathieu fazer um passe tenso para a esquerda ou recuar o Wendell para a receber e avançar com ela, desbloqueando-se o jogo ofensivo. Esta construção de jogo envolve tantos jogadores que os sobrantes estão condenados a morrer de solidão entre os adversários. Este modelo de jogo entedia os jogadores, entedia-nos a nós, espetadores, e chega a entediar qualquer equipa adversária que não tenha ingerido umas doses de ansiolíticos. 

O jogo iniciou-se sob estes augúrios, esperando-se assim mais uma noite longa. No entanto, depois de um canto a favor do Rio Ave, o Bruno Fernandes ganha a bola ao primeiro poste, sobrando para o Diaby a passar ao Luiz Phellype que desmarca o Wendell do lado esquerdo. O Wendell arranca com a bola e o Diaby, o Acuña e o Luiz Phellype partem à desfilada, parecendo mais uma turba depois de um arrastão na Costa da Caparica ou em Copacabana. O Wendell passa em profundidade para o Acuña tocar na bola e ainda a ajeitar melhor para o Luiz Phellype que tem todo o tempo do mundo para procurar o seu melhor pé e a encostar para a baliza, enquanto o guarda-redes permanecia de cócoras. Depois de doze minutos em que nada acontece, acontece o primeiro golo. Depois de mais de vinte minutos sem nada acontecer outra vez, o Bruno Fernandes rouba a bola ao Fábio Coentrão, centra-a para o Luiz Phellype a cabecear ao lado, aparecendo um central a destempo a abalroá-lo. “Penalty”, Bruno “Lampard” Fernandes a fazer a paradinha do costume, o guarda-redes a resistir à tentação de adivinhar o lado para onde se dirigiria a bola e a atirar-se tarde para o chão quando ela lhe foi rematada para o seu lado esquerdo. Mais um quarto de hora sem nada acontecer e as equipas vão para intervalo com o Sporting a ganhar por dois a zero. 

A segunda parte inicia-se sem nada acontecer e depois de mais oito minutos em que nada acontece, acontece o terceiro golo: o Acuña desmarca o Bruno Fernandes pelo lado esquerdo num lançamento lateral, que vai até à linha, avança para a área, levanta a cabeça, espera que o Wendell apareça na zona frontal para lhe passar a bola e este a enfiar na gaveta do lado direito da baliza. Depois, bem, depois não aconteceu nada até ao fim do jogo ou não aconteceu nada daquilo que nos leva ao futebol: remates, defesas, oportunidades de golo, enfim, emoção. Em cada canto a favor do Rio Ave, o Rúben Semedo ia à área contrária para abraçar o Coates. O Fábio Coentrão ia falando com os seus ex-colegas para averiguar da possibilidade de voltar. O Diaby deixava sistematicamente a bola para trás de forma a procurar dominá-la com o calcanhar. O Joavane Cabral revelava idêntica inconsequência mas com perfil técnico mais apurado. O Bruno Gaspar inconseguia todas as tentativas de contra-ataque. Entretanto, a equipa do Rio Ave mantinha-se impassível. Os jogadores trocavam a bola ao primeiro toque no meio-campo, nem atacando nem defendendo. Ao mais pequeno sinal de desequilíbrio da defesa do Sporting, atrasavam a bola para reiniciar o ataque, fazendo lembrar as pausas da nossa equipa de andebol para sair o Carneiro e entrar o Ruesga. O jogo concluiu-se com todo o “fair play”, sem que o árbitro mostrasse qualquer amarelo.

Este jogo fez-me lembrar um discurso do Eduardo Cabrita, Ministro da Administração Interna, que ouvi há uns tempos: depois de uma hora de vacuidades não me lembrava de rigorosamente nada. Estes jogos e esses discursos têm o objetivo de apagar a memória. Apagam a memória enquanto nos deixam vagamente entorpecidos e dispostos a defender a paz entre os homens. Não tenho dúvidas que o Dalai-lama irá utilizar a gravação deste jogo nos próximos “workshops” que realizar.

sábado, 6 de abril de 2019

Um dia infélix

Estava ganho. Eram favas contadas. A eliminatória estava no papo. Crónicas de uma morte anunciada foram previamente escritas. Estavam prontas a seguir para o prelo. Nem as fotografias de capa do dia seguinte faltavam. Eram de todos conhecidas. O enfado de ter que haver jogo deixava alguns descontentes. Perda de tempo, sem necessidade. Um jogo de risco? Nem para a polícia - sorriam alguns. Ao minuto cinquenta e oito, ou cinquenta e nove, de um jogo até aí sem golos (estranhamente o Sporting não estava a ser goleado, muito pelo contrário), um dos jornalistas que comentavam junto ao relvado, escutando-se, por momentos, os adeptos do Benfica no estádio, comenta enlevado: "apenas dois petardos, de resto só cânticos, e dos bons". No final o Benfica ganhou, como se impunha, dominou o jogo todo, como se sabia de antemão, e até poderia ter marcado mais. Se não aconteceu deveria ter acontecido. Ou então foi apenas um dia infélix. Deixem lá isso. São apenas cânticos, e dos bons. 

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Foi você que comparou o João Félix ao Bruno Fernandes?

Este era o jogo de época para o Sporting, afirmavam os jornalistas e comentadores em todo o lado. Para o Benfica era um jogo a feijões, depreendia-se desses comentários e dessas análises. Os títulos são mais do que muitos esta época e mais um menos um não fazia grande diferença. Há títulos todos os dias e em todos os jornais: a tática de Bruno Lage, a maior descoberta depois da prensa de Gutenberg, ou o menino Félix, um fenómeno que só tem paralelo num melro branco e num ovo de oitocentos gramas encontrados no Entroncamento, e milhões, muitos milhões de euros. A maioria dos portugueses sabe que não se consegue ultrapassar mil euros por mês quanto mais tantos e tantos milhões de euros em noventa minutos. 

O Keizer percebeu desde o início que não era possível ultrapassar tantos milhões de euros e preocupou-se em, pelo menos, não se deixar ultrapassar por eles, repetindo a tática que tão bons resultados tinha dado no último jogo contra o Braga. Com bola, a equipa jogou com três defesas – Coates, Mathieu e Borja -, permitindo que o meio-campo jogasse mais adiantado e sem referência na saída para o ataque e obrigando o Bruno Gaspar a atacar e a recuperar para fazer de defesa direito quando o Benfica atacava. Do lado esquerdo, o Acuña não tinha a responsabilidade de recuar da mesma forma, jogando como médio e extremo esquerdo. Com três defesas para dois avançados – Seferović e João Félix – e o meio-campo mais avançado, o Sporting pôde pressionar mais alto e sem sofrer calafrios nas transições ofensivas do adversário. Esta tática surpreendeu o Benfica nos primeiros vinte, vinte e cinco minutos, que, com os médios e defesas pressionados, não conseguia organizar o seu jogo e, em particular, os seus jogadores não dispunham nem de espaço nem de tempo para colocar a bola na frente, no Seferović, para construírem a partir daí. O Sporting carregou mas foi inconsequente, em especial quando o Gabriel enfiou uma biqueirada no calcanhar do Raphinha e nos deixou numa situação de três contra dois com a bola a ser conduzida pelo Bruno Fernandes na zona central, o que costuma ser meio golo. 

Dadas as dificuldades do Benfica em jogar, o árbitro diligentemente começou a ensarilhar o jogo. Uma falta aqui, outra acolá, um encosto que é falta para logo a seguir outro o não ser, um cartão amarelo agora e outro passado algum tempo à equipa contrária para compensar. Nos últimos minutos da primeira parte deixou-se de jogar futebol para se assistir a uma sinfonia desafinada de apitos e aos “moches” entre jogadores e o árbitro, com o Bruno Lage a assoprar ao ouvido do quarto árbitro. Para atingir o mais alto nível de disparate na escala de Mota, o árbitro resolveu mostrar um amarelo ao Gudlej num lance que nem falta foi. 

Na segunda parte, o Benfica pareceu entrar melhor, mas há Bruno Fernandes e quando há Bruno Fernandes não há mal que sempre dure. Arrancada pelo meio-campo fora até ser derrubado à entrada da área por uma entrada de carrinho por trás do Pizzi. A contragosto foi marcado o livre, embora o amarelo tenha ficado no bolso porque a falta não foi do Ristovski. Um livre daqueles na biqueira das botas do Bruno Fernandes é um “penalty”. O seu remate transformou a bola num Tomahawk que embateu na barra, com o Svilar a atirar-se para fazer que fazia alguma coisa. O Sporting ganhou moral e continuou a carregar. Sai o Bruno Gaspar e entra o Ilori, começando-se a antecipar uma defesa a três para o quarto de hora final, que se concretiza minutos depois com a saída do Borja e a entrada do Diaby. O jogo estava encanzinado e, nestas circunstâncias, só se resolve se o melhor jogador em campo o resolver. O melhor jogador em campo era o Bruno Fernandes e, portanto, só o Sporting podia ganhar aquele jogo. 

Quando se deslocava para o meio, o Bruno Fernandes estava sempre rodeado de dois ou três jogadores do Benfica. Até que, depois de uma pressão alta, a bola sobrou para o lado direito para o Bruno Fernandes que ficou com a possibilidade de jogar um contra um contra o Grimaldo. O um contra um do Bruno Fernandes transforma-se sempre num um contra zero, com o Grimaldo a procurar tapar-lhe o lado de fora, o do seu pé dominante, o direito. O Bruno Fernandes fez-lhe a vontade e passou-o por dentro, enfiando de seguida com o pé esquerdo um novo Tomahawk ao ângulo superior esquerdo da baliza, com o Svilar a atirar-se para fazer que fazia alguma coisa, sem que desta vez a trave o ajudasse. O Benfica reagiu de imediato e meteu o Taarabt, um rapaz que mal se mexia e que, depois de tocado por Bruno Lage, levantou-se e andou, enquanto o treinador continuou as suas tarefas de multiplicar os pães e os peixes, de curar leprosos e abrir estradas em macadame pelo meio dos mares. Enquanto o Taarabt organizava o jogo do Benfica, o Raphinha o Luiz Phellype e o Diaby ainda tiveram tempo para se atrapalharem mutuamente em duas jogadas, perdendo-se dois golos. 

Afinal, o jogo não era o jogo da época para o Sporting mas para o Benfica, tal a azia que se apoderou dos seus jogadores, treinador e presidente. Os jogadores desataram a correr atrás do árbitro, o Bruno Lage informou-nos que não se divertiu nada (pudera, ninguém se diverte quando perde), o Luís Filipe Vieira veio falar das arbitragens até ao final do campeonato, afirmando ao mesmo tempo que não estava a falar delas. Os comentários finais foram para nos desqualificar. O Benfica teve mais oportunidades de golo (?) e valeu-nos Bruno Fernandes. Espero que não se importem que joguemos com ele, dado que lhe pagamos o salário ao fim do mês. O Sporting é o Sporting de Bruno Fernandes, como o Ajax era o Ajax de Johan Cruijff, o Nápoles era o Nápoles de Maradona, o Real Madrid era o Real Madrid de Cristiano Ronaldo ou o Barcelona era (e ainda é) o Barcelona de Messi. Os génios são raros por definição. Quem os tem, não os desperdiça e coloca a equipa a jogar em função deles. O que não se compreende é que sendo o João Félix um génio, como todos afirmam, o Benfica não seja o Benfica de João Félix, prescindindo dele para entrar o Jonas com o jogo e a eliminatória por resolver.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A geometria da vergonha

Semana passada em Barcelona, de visita à minha filha. Curso intensivo de modernismo e de cubismo enquanto se tropeça em japoneses, chineses e coreanos vestidos à ocidental, que se adoram a si próprios, tal a frequência dos retratos nos mais variados contextos. A geostratégia mundial pode-se ter alterado, com a Ásia a substituir a Europa, mas o domínio do simbólico continua a ser nosso. A geometria está em todo o lado: na arquitetura, nas artes plásticas e no futebol, e vai desde as catenárias da Sagrada Família à “parábola perfeita de Messi”, como qualifica o El Mundo o remate do primeiro golo do Barcelona contra o Espanhol. Em Portugal, o futebol não imita a arte e as parábolas estão remetidas a figuras de estilo. 

O jogo contra o Chaves inicia-se enquanto desço do Parque Güell para o bairro de Grácia, onde me esperam as habituais “patatas bravas”, “croquetas” e “hummus” para “compartir” regadas pelo Tempranillo ou Merlot que conseguir pagar. Do “WhatsApp” vão chegando as primeiras mensagens: “vinte e três minutos para ver uma jogada em condições”, “Mota a mostrar amarelo ao Gudlej numa falta igual à de um jogador do Chaves e por duas vezes a beneficiar o infrator”, “todas as semanas é a mesma coisa”. Chego ao bairro de Grácia ao intervalo e vejo o resumo da primeira parte. Embora continuemos a atravessar a nossa fase azul, o golo podia fazer parte de uma fase rosa que esperamos que lhe suceda: os passes entre o Ristovski, o Raphinha e o Bruno Fernandes formam um desenho perfeito que o escorregão do Luiz Phellype não conseguiu estragar, levando-o às lágrimas. 

“Surreal!”, grita o meu “WhatsApp”. Tínhamos acabado de nos deixar empatar quando estávamos a jogar contra dez, por expulsão de um jogador do Chaves. “O Bruno Fernandes é um fenómeno!”, grita de novo o meu “WhatsApp”, quando passámos para a frente. “É uma vergonha!”, grita o meu “WhatsApp”, mais uma vez. Não recebo mais nenhuma mensagem até ao final do jogo. Chego ao hotel e vejo o resumo integral do jogo. A expulsão do Ristovski é uma vergonha, a somar à de Setúbal. Tudo obedeceu a uma encenação: o VAR só pode interferir numa jogada ou a pedido do árbitro ou quando tem a certeza que este cometeu um erro manifesto, não havendo lugar a interpretações, subjetivas, por definição. O árbitro resolveu sancionar a interpretação do VAR, que constitui uma pura e simples mistificação, dado que só a expulsão lhe podia permitir reverter a sua decisão anterior de expulsar um jogador do Chaves por derrubar o Raphinha quando se isolava. Pelos vistos, o sistema habitual resolveu branquear mais esta vergonha. Foi a sola, como em Setúbal terá sido o vernáculo. A sola do Ristovski é diferente da sola dos jogadores do Chaves e dos restantes jogadores do campeonato nacional. 

A sola ou o vernáculo de um macedónio são um problema, na semana em que dois personagens desconhecidos – César Boaventura e Vítor Catão – nos entraram pelas nossas casas para nos fazer reviver um episódio do Duarte e Companhia. O Lúcifer ou o Átila dessa mítica série eram mais verosímeis, apesar de se tratar de uma representação. Não existe é agência de detetives e em vez de um Citroën 2CV vemos figurões a passear em carros de alta cilindrada com dono desconhecido, mesmo para o fisco. Sem estética nem geometria, o futebol português só nos envergonha como país e como povo.

terça-feira, 19 de março de 2019

Longos dias têm cem anos

“Longos dias têm cem anos”, o aforismo, que também constitui título de um dos livros da Augustina, não me saía da cabeça. Vinha-me à memória não a obra da Vieira da Silva mas os Vieiras da Silva em que fui tropeçando ao longo da vida, que duram e duram por eles próprios e pela sua descendência. Uma semana de altos e baixos como nenhuma outra. A minha filha a ligar-me e a contar o seu sucesso sem necessidade de apelido, o apelido do meu pai que faço questão de honrar todos os dias quando me levanto e me vejo ao espelho. O jogo contra o Santa Clara constituía a oportunidade adequada para se me varrer da cabeça este aforismo. 

Não vi a primeira parte. Chego ao Flávio e encontro um dos meus colegas de purgatório à beira de uma apoplexia. A segunda parte inicia-se a bom ritmo. Pelo que percebo, a equipa do Sporting está mais determinada e a jogar melhor. O Acuña vê o Bruno Fernandes “à mama” e faz um arremesso da linha lateral de vinte metros que o isola, para uma cavalgada imparável até fazer um compasso de espera para fixar dois defesas e passar a bola ao Raphinha com tempo para perguntar ao guarda-redes para que lado a queria levar e o deitar ao comprido. Animei-me. Debalde. A equipa rapidamente se transformou numa pilha de nervos e o meu colega sportinguista ficou numa pilha de nervos ainda maior. Cada bola recuperada era bola perdida no passe seguinte, com especial destaque para o Diaby. Nenhum outro jogador levou a este extremo o conceito de “último passe”: quando ele passa a bola abre-se um buraco negro e ela desaparece para aparecer no segundo seguinte na bancada, atrás da baliza, nas mãos do apanha-bolas ou nos pés do adversário. 

“Longos dias têm cem anos” volta mais uma vez. Procuro concentrar-me no jogo para tirar este pensamento da cabeça. Não o consigo tirar mas o Marcel Keizer tira o Doumbia, seguindo as melhores práticas internacionais de supervisão prudencial dos bancos centrais: médio amarelado é médio substituído. O comentador da SporTv começa a ter alucinações e a ver o que ninguém vê, avisando-nos dos perigos do Santa Clara. Mas o Santa Clara é uma equipa madura que dispõe de princípios de jogo consolidados e, por isso, troca a bola entre os jogadores no seu meio-campo, conseguindo o que não conseguia o adversário, segurando a bola sem que se criasse qualquer perigo para o Sporting. Entrou o Miguel Luís e a equipa estabilizou. Deixaram de se perder tantas bolas e o Wendell passou a jogar tendo-o como referência e deixando o futebol brinca-na-areia. O Bas Dost continuava a arrastar-se em campo, sem confiança, sem fé em si próprio, como se carregasse a maldição de levar o mundo às costas. 

O tempo de jogo vai-se esvaindo até acabar e “longos dias têm cem anos” não mais me sai da cabeça. Se o futebol não serve para nos tirar coisas da cabeça, serve exatamente para quê e para quem? Talvez a culpa não seja do futebol mas do Sporting. Há sempre tempo, um tempo em que tudo será possível porque “longos dias têm cem anos”.

sábado, 16 de março de 2019

Enquanto os outros não jogam, folgam as costas


Menos de vinte e cinco mil pessoas em Alvalade (começa a ser normal). Mais algumas a assistir em casa ou no café. Treinar mais, com mais tempo, pelos vistos não é melhor. Mas deve dar para ver que Doumbia é um bocadinho melhor que o Gudelj. A semana tinha sido interessante em termos de faca e alguidar e alguns ressabiados trouxeram do carnaval a fantasia de messias; fantasia essa que volta e meia paira junto à estátua do leão. A nossa fantasia deveria ser apenas o Cristiano Ronaldo (ou, talvez, a Georgina). É o mais próximo que um dos nossos estará do Olimpo.

Isto tudo para não falar do jogo. O adversário demorou mais de meia hora para passar do meio campo. Deve ser a isso que os treinadores chamam de exibição conseguida. O Sporting quando não tem um adversário arranja sempre um. Nem que seja dentro de portas. Fizemos de tudo para não chatear demasiado o nosso oponente, ao mesmo tempo que tentávamos lançar no mercado uma nova gama de soporíferos. Quando chegou o intervalo foi um alívio para todos.

A segunda parte abriu praticamente com uma perdida do Raphinha. Logo a seguir uma bola, sabe-se lá bem como, chegou aos pés de um nosso adversário em frente à baliza, o qual, atónito, ainda olhou para o treinador a perguntar se era para marcar, a resposta foi qualquer coisa como acerta num dos gajos, um golo da nossa parte não faz parte da estratégia. E assim foi, o tipo chutou contra o Ristovski que era quem estava mais à mão. Da nossa parte, a estratégia não englobava qualquer golo de bola parada, principalmente de canto (e foram uns quinze). Mas não dizia nada na folha de serviço sobre marcar a partir de um lançamento lateral.

O Acuña que jogou muita bola lá no bairro sabe bem a importância de um bom lançamento para um companheiro que esteja à mama. Neste caso apenas desmarcou o Fernandes que já fez este ano duas voltas ao mundo em quilómetros corridos, enquanto a equipa adversária tinha adormecido com aquele medicamento que tínhamos distribuído na primeira parte. Contra o Bruno Fernandes não há estratégia que valha, o passe foi meio golo para o Raphinha brilhar.

A partir daí o treinador adversário fingiu que estava desiludido com o resultado. O Keiser que já sofre da síndrome portuguesa de que mais vale um pássaro na mão do que dois a voar, fingia que ia mexer para tentar matar o jogo. No meio disto tudo não admira que a bola não entre nas balizas. A não ser por um acaso, ou num lance trabalhado, como um lançamento de linha lateral com a equipa adversária a dormir.

quarta-feira, 13 de março de 2019

A Lenda e a Maria Albertina

[A Lenda] 
Não vale a pena dizer muito mais sobre o que fez o Cristiano Ronaldo ontem no jogo da Juventus contra o Atlético de Madrid. Tudo está dito e só vale a pena acrescentar que é dos poucos jogadores que se transformou numa lenda ainda durante a sua carreira. Daqui a muitos anos, muitos pelo mundo fora dirão aos netos “eu vi jogar o Cristiano Ronaldo” e contarão os seus feitos e, especialmente, os seus golos. Muitos, mas menos, dirão que o viram jogar com a camisola do seu clube. Poucos, muito poucos dirão que o viram jogar pela primeira vez e marcar o seu primeiro golo com a camisola do seu clube no seu estádio. Não aprecio especialmente as homenagens e muito menos em vida. Mas, quando o Cristiano Ronaldo deixar de jogar, devemos mandar fazer uma estátua à frente do Estádio de Alvalade para que se transforme num lugar de culto para todos aqueles que amam o futebol. 

[Maria Albertina] 
Jesus, o Jorge, ressuscita de vez em quando, não para a redenção do Homem e a sua salvação, mas para declarar ao Mundo as suas descobertas que vão desde o remédio para a queda do cabelo à tabela periódica. Há sempre um pé de microfone que aparece nos locais mais improváveis, nos aeroportos, num restaurante, “wherever”, para lhe permitir transmitir ao Mundo as suas revelações e descobertas. Há dias revelou que o Sporting estava definitivamente arredado da disputa do campeonato, contrariamente ao que aconteceu nas três épocas em que foi treinador da nossa equipa. Depois de um colapso organizativo, com três direções em meia dúzia de meses e três treinadores durante o mesmo período, estamos com mais um ponto do que na época de 2016/2017 por esta altura e a menos quatro e três pontos, respetivamente do Benfica e do Porto, não dispondo de descobertas suas como o Elias, o Marković, o André, o Campbell, o Castaignos ou o Alan Ruiz. No Sporting só ganhou mais uma coisa do que todos os outros: dinheiro.

segunda-feira, 11 de março de 2019

The Benny Hill Show

Os jogos do Sporting não podem ser apreciados pelo futebol praticado mas como espetáculos do mais puro e simples entretenimento. A equipa do Sporting faz a sua parte mas sem a prestimosa colaboração da equipa adversária, dos árbitros e dos comentadores durante e após o jogo (?) o espetáculo não funcionaria. Este jogo contra o Boavista tinha todos os condimentos para se transformar num episódio do “Benny Hill”: uma equipa baseada num dos ancestrais princípios do futebol português do “abaixo do pescoço é canela” com um treinador patusco que entra em campo para placar jogadores adversários e na “flash interview” ou na conferência de imprensa que se sucedem aos jogos diz coisas surpreendentes e engraçadas. Quem viu o jogo não deu o tempo por mal-empregado. 

Os do Sporting iniciaram a partida com imensa vontade de nos divertir e fizeram-no logo aos três minutos. Livre a favor do Boavista, corte de cabeça do Luiz Phellype para o interior da grande área, escorregão do Coates, Ristovski a disputar o lance em ajuda ao colega, bola a bater no cocuruto da cabeça de um jogador adversário e a ressaltar na canela de outro, enganando o Renan Ribeiro e colocando-nos a perder por um a zero. Não há culpados, há excelentes atores que interpretaram uma cena impossível deste guião. Os minutos seguintes trouxeram-nos as cenas do guião a que estamos habituados. O Boavista nem sequer pressionava a saída da bola da nossa defesa e concentrava os seus jogadores nos últimos trinta metros, que iam batendo em tudo o que mexia. Na linguagem da dramaturgia futebolística, o árbitro aplicava um critério largo, representando o seu papel de forma convincente, chegando à tradicional cena de ir conversar com um jogador do Boavista que tinha varrido o Acuña para o informar e para nos informar com gestos enérgicos e decididos que as coisas assim não podiam continuar. As coisas continuaram e acabou por mostrar um amarelo a um dos jogadores do Boavista, tendo mostrado logo a seguir outro ao Gudelj sem qualquer diálogo prévio, admitindo, e bem, que tinha ouvido a conversa anterior. O empate acabou por aparecer porque os jogadores do Boavista não quiseram representar pior do que os do Sporting e, por eles, os ressaltos não escolhem baliza. 

O comentador da SporTv procurava encontrar uma lógica e um propósito para o que íamos vendo, explicando-nos todo e qualquer lance como algo de previsível. Não tenho dúvidas que se entrasse um javali em campo acossado por uma matilha de cães e tiros de caçadeira nos transmitiria que “já se previa”. Atento aos pormenores do jogo, que tanto podiam ser um franzir de sobrancelhas ou um ajeitar de melena, viu a meio da primeira parte um avançar de linhas do Boavista e uma pressão sobre a bola mais à frente. Não são coisas que vejam a olho nu. É necessário aparelhagem sofisticada de nanometrologia para as ver ou a um ácaro num dos borbotos do “pullover” do Vidigal. Dá a ideia que esta parte do guião é sempre a mesma, é uma cartilha, ou uma cassete como a que recorrem os partidos políticos, que à custa de se repetirem umas tantas afirmações se confunde (falta de) coerência com razão. 

A segunda parte trouxe-nos persistências e novidades. Os do Boavista passaram a atirar-se para o chão mais amiúde, embora continuando a acertar forte e feio nas canelas dos do Sporting. As caneladas e os mergulhos davam origem a faltas sem distinção técnica e disciplinar, equiparando o árbitro assim aquilo que no futebolês contemporâneo se designa por “intensidade” de uns e outros lances. Com o aproximar do fim do jogo, passaram também a adoecer, enquanto na SporTv se efetuava o diagnóstico clínico e se concluía pela fadiga e desgaste físico como se, por oposição, os do Sporting tivessem jogado sentados. As oportunidades de golo do Sporting sucediam-se enquanto na SporTv nos alertavam para os perigos do contra-ataque do Boavista que ninguém viu e muito menos as suas consequências, bastando perguntar ao Renan Ribeiro se se lembra de ter efetuado uma defesa sequer. 

Estava-se nesta “Crónica de uma Morte Anunciada”, quando, dentro da área, um defesa do Boavista pregou uma estalada no Raphinha. O árbitro marcou “penalty” e assistiu-se à habitual manifestação do direito à indignação, com a música de fundo da SporTv sobre a “intensidade”. Na dramaturgia como na vida, os estragos dos estalos não se medem pela vermelhidão da bochecha do atingindo mas pela ferida no mais intimo e profundo de cada um, na alma, no orgulho. Numa peça como esta o árbitro tinha de marcar “penalty” para resgatar o orgulho ferido do Raphinha. Esta não era a peça que os do Boavista pretendiam representar, como ficámos a saber pelo jornal “A Bola” do dia seguinte ao informar-nos que Jorge Loureiro, filho de Valentim Loureiro, desferiu murros na nuca de Miguel Nogueira Leite, membro do Conselho Diretivo do Sporting, sem que tivesse sido marcado qualquer “penalty”, evidenciando-se a dualidade de critérios. O Bruno Fernandes marcou o golo da ordem e se não fosse a intervenção final do treinador Vidigal mais não havia a contar sobre este jogo. Iniciou a “flash interview” como a habitual teoria da conspiração para eliminar o último sobrevivente de Auschwitz até que, entusiasmado, se referiu à injustiça do resultado perante as oportunidades criadas pelo Boavista, tendo-lhe dado uma branca quando as pretendeu enumerar. 

Estas peças do Sporting têm a vantagem de se prolongarem muito para além dos noventa minutos de jogo, tal o interesse que despertam. N’ ”A Bola” do dia seguinte, um comentador (de teatro) explica-nos que houve um “penalty” perdoado ao Sporting, por falta de Acuña sobre o Perdigão, embora, a propósito da interpretação da UEFA destes lances, nos informe ao mesmo tempo que “a infração não foi óbvia, clara e evidente”. Explica-nos também que o Sporting foi beneficiado com um “penalty”, apesar de o Raphinha ter sido “tocado, no pescoço, pelo braço esquerdo de Edu Machado [… e] o contacto ter sido evidente”. Se bem o percebemos, o que é “evidente” não é e o que não é “evidente” é, nas suas próprias palavras, parafraseando às avessas o conhecido “nem tudo o que parece é”. Os comentadores vêem coisas nos jogos que não se vêem a olho nu. Ou recorrem a aparelhagem sofisticada de nanometrologia, como referi atrás, ou, então, fumam um produto que os deixa muito bem-dispostos. Se for a segunda, avisem, pois gostava de experimentar para ver os jogos mais divertido. 

domingo, 10 de março de 2019

PH é uma escala numérica utilizada para especificar a acidez ou basicidade de uma solução aquosa.


O Marcel Keizer disse quase tudo na conferência de imprensa antes do jogo: não era decisivo (o jogo), o Boavista era uma equipa com vista histórica para o panteão europeu dos que lá vão fazer de figurantes (mais ou menos como o Sporting), e o resto (o que se passa no Sporting) não era (nem podia ser) da competência da equipa de futebol profissional. Ficamos descansados.

Ainda estávamos descansados quando sofremos o golo da praxe. Impõe-se uma intervenção pública contra estas praxes que nos governam os primeiros minutos de jogo. Feita a interpelação ao tribunal europeu dos direitos dos clubes contra as praxes, lá marcamos um golo às três tabelas. O jogo corria de feição, ao ponto de aperfeiçoarmos os nossos falhanços. Falhanço ainda se escrevia com ph, quando o Luiz Phellype decidiu aprimorar o seu gosto de sniper pelos postes das balizas. Não basta falhar é preciso falhar com precisão.

O jogo foi uma constante de tiro ao meco. Ora os boavisteiros a acertar nas pernas dos jogadores do Sporting, ora o Sporting a rematar contra qualquer coisa que intercedesse com a possibilidade de um golo. Somos bons nisso, até a atmosfera nos repele algumas iniciativas.

Continuamos a respirar o ar do empate, sempre com o Bruno Fernandes a fazer de bomba da asma, a medir o ph do Raphinha, sempre em níveis consideráveis, continuamos com o Acuña decidido a não ser expulso, em qualquer das posições loucas em que joga, com o Coates a sair com a bola de peito feito a fazer de William, para depois ir tentar marcar de cabeça. O Mathieu também manteve o seu ph do costume, mas com t, e sem lesões. Depois fomos ao BAR. Foi limpinho. Alguma acidez, nada básica.

quinta-feira, 7 de março de 2019

A Batalha de Azincourt do andebol

O desporto é a guerra por outros meios, pacíficos, claro está. Quem assistiu ao jogo de ontem contra o Porto em andebol tão cedo não o esquecerá, seja portista ou sportinguista. Nestas circunstâncias vem-nos sempre à cabeça a Batalha de Azincourt e a peça de teatro Henrique V de William Shakespeare. 

Como os franceses, os do Porto eram superiores em número e armamento. A equipa é constituída por jogadores de notável envergadura física que poucos do Sporting podem igualar. Dispõe de dois guarda-redes brilhantes, especialmente o Alfredo Quintana, que durante épocas e épocas foi a nossa besta negra. A equipa é excelentemente treinada e dispõe de um modelo de ataque com sete jogadores que se tem revelado uma dor de cabeça para todos os adversários, nacionais e internacionais, aproveitando a referida envergadura física de dois dos três pivôs cubanos e do enorme acerto das pontas, nomeadamente do António Areia. 

Os do Sporting ganham em experiência, em particular com a experiência do Ruesga, mas a equipa no seu conjunto apresenta diversas fragilidades, sendo a mais evidente a ausência de um lateral direito de raiz. Não dispõe de alternativas sólidas em certas posições, como é o caso do central e do ponta direita (o Arnaud Bingo foi contratado recentemente mas pouco ou nada tem sido utilizado). Sobretudo, o plantel é curto em qualidade e quantidade para a exigências das diferentes competições em que o Sporting está envolvido, bastando a lesão de um jogador para que essas fragilidades sejam ainda mais evidentes.

A equipa do Porto entrou melhor e rapidamente ficou por cima do marcador e do jogo. O ataque do Sporting emperrava, com pouca circulação de bola e dificuldade de fazer chegar a bola ao pivô, restando a meia distância, com eficácia intermitente. Na defesa, havia muita dificuldade de parar o jogo das pontas do Porto. Para dificultar ainda mais a tarefa, um dos árbitros resolveu intrometer-se no jogo, fazendo um número que costumamos ver todos os fins-de-semana no campeonato de futebol e transformando-se no principal artista. A exclusão por quatro minutos do Tiago Rocha constitui um manual de tudo o que um árbitro não pode, nem deve, fazer naquelas circunstâncias. Os livres de sete metros convertidos pelo Ghionea permitiram-nos ir para o intervalo a perder só por três (12-15). 

Na segunda parte tudo mudou. Estes jogos, os jogos de e para campeões, ganham-se na defesa, ganham-se em equipa. É necessária muita entreajuda. É preciso que quando um jogador largue o pivô outro seja avisado e faça a necessária cobertura. É preciso que quando um jogador é passado na zona central, logo outro apareça na ajuda e pare o jogo. É preciso assegurar adequada deslocação dos jogadores ao longo da linha dos seis metros para que o adversário não ganhe vantagem no local onde circule a bola, permitindo libertar os pontas. Essa deslocação é dificultada pelos pivôs que têm essa como missão principal, sobretudo no caso do Porto, quando joga com dois. É preciso uma grande articulação entre o guarda-redes e os restantes jogadores porque, sozinho, não enche a baliza toda. 

O Sporting fez praticamente tudo bem a defender. É quase impossível permitir que uma equipa como a do Porto marque somente oito golos em trinta minutos. Mas não basta ter um plano para defender, é necessário acreditar e acreditar que o colega de equipa ao nosso lado nos ajuda como nós o ajudamos. Cada defesa faz acreditar mais nessa solidariedade e nesse sentimento de partilha. E o público é fundamental para essa crença. Os sportinguistas que estiveram no João Rocha acreditaram e fizeram os jogadores acreditar cada vez mais, enquanto procuravam desanimar os do Porto e desacreditar o árbitro que se tinha revelado artista na primeira parte. E apareceu Skok, pelos seus méritos e pelos méritos dos seus colegas a defender. 

No ataque, com o Ruesga a comandar, sabemos que não há precipitações e as jogadas decorrem como o planeado. O Francis Carol apareceu quando era preciso e o Frade foi uma completa surpresa para mim. Foi imparável. É a partir de uma exclusão do Miguel Martins arrancada por ele que o Sporting passa para a frente do jogo e amplia uma e outra vez o resultado, com dois golos dele também, depois de ganhar o seu espaço junto de calmeirões do Porto com mais de cem quilos e bater um guarda-redes como o Alfredo Quintana que sai rapidamente em leque como nenhum outro. 

O jogo acaba como a Batalha de Azincourt, com os franceses batidos, mas com o “fair play” que se exige aos vencedores e aos vencidos (o Canela agradeceu ao público e aos seus jogadores e destacou a qualidade da equipa do Porto e o Magnus Anderson, embora perdendo, não destoou). O que uns e outros nos proporcionaram foi um excecional espetáculo com emoção a rodos. Há quem diga que acabámos. Há quem diga que estamos insolventes. Há quem diga que estamos divididos entre croquetes e brunetes. Perguntem a cada um que esteve no Pavilhão João Rocha e aos que viram o jogo na televisão o que sentiu e o que pensou, isto é, o que viveu. Saltámos com o Frankis, lutámos com o Frade, atirámo-nos para o chão com o Skok, dissemos com o Ruesga aos colegas qual era a jogada que iríamos desenvolver, festejámos com eles como se tivéssemos sido nós a marcar os golos e a defender os remates dos adversários. Durante aquele tempo memorável só houve Sporting e fomos todos Sporting!