domingo, 19 de janeiro de 2020

Tapar a minha angústia com uma peneira


Meus amigos, continuamos em franca recuperação… dos nossos valores, formas de estar e espírito sportinguistas. Apesar de estarmos, no final da primeira volta, a dezanove pontos do primeiro lugar, doze do segundo, atrás do Famalicão e com o Braga a morder-nos os calcanhares, ninguém parece preocupado, aceita-se com naturalidade e razoabilidade e maturidade esta sina perdedora. A única preocupação razoável são as claques, as nossas, bem entendido. Terá Frederico falado sobre o assunto (respeitosamente) com Vieira na tribuna? Não é de crer que o tenha aborrecido com essa ou outras minudências.

O mais interessante é a passividade amorfa dos adeptos durante e depois dos jogos. Antes também. Voltamos à lengalenga da cultura desportiva, como se na indústria do futebol e quejandos alguém se preocupasse realmente com isso. Não se trata de ganhar a todo o custo mas sim de competir a todo o custo. São coisas deferentes. É preciso que os jogadores e o treinador percebam o que é competir com o Leão rompante ao peito.

Veja-se de soslaio este jogo com o nosso grande rival. Desta feita não foi a grande vitória moral como contra o Porto (já agora, o Braga não foi lá ganhar?), não, foi aceitação da superioridade do plantel, da equipa, dos jogadores (já agora, e da direção também, não?), dos roupeiros, dos olheiros, e do orçamento do rival, como se isso ganhasse jogos. Se isso ganhasse jogos tínhamos ganho ao Tondela, ao Gil Vicente, ao gigantesco Alverca, e por aí fora. Para ganhar é preciso conhecer o adversário, as suas qualidades e fraquezas, conhecer bem a nossa equipa e tentar surpreender. Competir é isso. Depois logo se vê.

Vivemos à sombra do ataque à Academia. Serve para tudo. Ninguém anda preocupado porque ninguém é responsabilizado. As claques servem como peneira (efémera) para tapar o sol e a minha angústia. Quanto ao resto, aconselha-se os jogadores e equipa técnica do Sporting a darem uma vista de olhos ao jogo da seleção de andebol contra a Suécia. Quando competimos olhos nos olhos também podemos ganhar. A qualquer um.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Estranha forma de vida


Frederico no seu labirinto continua a sua cruzada pela moralização do futebol português. Qual paladino, investe freneticamente, mas apenas em assuntos de claques e seus arredores. A dezasseis pontos do primeiro lugar e a doze do segundo, não encontra nada melhor para fazer do que cavaquear com alguns secretários de estado, curiosamente, sem nenhum dos seus congéneres a acompanhá-lo. Ao seu lado apenas os encontrará na tribuna presidencial, de resto, as opiniões dos seus congéneres relativamente ao assunto em questão são conhecidas: uns não reconhecem a existência de claques no seu clube, apenas grupos (des)organizados; outros ostentam com orgulho o símbolo da sua guarda pretoriana. No seu labirinto Frederico nem a si mesmo se encontra.

Curiosamente, ou talvez não, o paladino não investe na denúncia dos e-mails, padres, paróquias, ou frutas da época, o paladino não denuncia arbitragens condicionantes que por aqui o sempre atento Rui Monteiro desmascara, o paladino não quererá aborrecer secretários de estado com tamanhas minudências. As preocupações do paladino são outras. No início percebia-se, agora cheira a fait-divers ou a esqueletos em decomposição no armário.

Pacto Leonino

No Sporting, vivem-se tempos de chumbo (a expressão é um pouco exagerada mas não me ocorre de momento uma mais feliz). Testemunho atrás de testemunho, o tribunal vai esviscerando o antigo presidente. Do atual não se vislumbra um projeto, uma ideia, um rumo que mobilize os sócios e adeptos, enquanto se vão recolhendo assinaturas para promover a sua destituição. Com novas eleições, seria o regresso dos pavões habituais com uma ou outra alma bem-intencionada que, sendo eleita, rapidamente iria congestionar ainda mais o Inferno. De um saco de gatos, evoluiríamos para um circo de feras, continuando cada sportinguista na sua trincheira com a possibilidade de se recolher em mais algumas, enquanto continua o fogo de artilharia. 

Esta minha angustiante reflexão encontrou alívio numa sugestão de leitura do meu amigo Júlio Pereira. Sugeriu-me a leitura do conto “Democracia Eletrónica” do livro “Sonhos de Robô” do Isaac Asimov, talvez a maior referência da literatura de ficção científica. O conto futurista, escrito há mais de cinquenta anos, descreve as eleições norte-americanas controladas por um supercomputador, que, recolhendo informação de todos os cidadãos, seleciona um, o mediano, o eleitor-padrão para escolher o Presidente dos Estado Unidos da América. Assim se evitam campanhas eleitorais e o confronto entre grupos de cidadãos organizados em partidos políticos, garantindo-se ainda que as preferências dos eleitores são cientificamente respeitadas. 

No nosso caso, sem o supercomputador, será necessário encontrar um método equivalente, produzindo os mesmos resultados. Proponho, assim, que se peça ao Leonardo Jardim para escolher um novo presidente, um com quem esteja disposto a trabalhar. Não tenho dúvidas que o sócio mediano, o sócio e eleitor-padrão, qualquer que ele seja, gostava de ser um Leonardo Jardim com as quotas em dia. Ah, estava-me a esquecer: é preciso contratá-lo primeiro!

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Mais fluoxetina para melhorar a autoestima sportinguista

Não sei se a autoestima dos sportinguistas anda pelas ruas da amargura ou se é congénita, isto é, se ser-se do Sporting implica baixa autoestima. Acabado o jogo contra o Porto, regresso a casa ainda a tempo de ver um adepto a dizer que a equipa tem um problema de atitude. A partir daí foi um chorrilho de autocrítica sobre a eficácia, a qualidade dos jogadores e, inevitavelmente, o Varandas e a preparação da época. A autoestima é tão baixa que aceitamos todas as narrativas sobre o jogo como se nem o tivéssemos visto. Deixo cinco notas que permitem a um sportinguista com adequada autoestima aguentar este resultado e preparar-se para o jogo contra o Benfica. 

[O conceito de arriscar demasiado] 
No sábado à noite, no meio de mais um “zapping”, ouço um senhor comentador com o cabelo pintado de cor de ferrugem a analisar o triplo ou o quádruplo “penalty” do Ruben Dias num só lance, afirmando que se trata de um jogador que arrisca muito e que naquele lance tinha arriscado demasiado. Se bem percebo a semântica, o Ruben Dias é como aquele condutor que excede sempre os limites legais de velocidade na expetativa de não ser apanhado pelo radar ou pela própria polícia de trânsito. No futebol não é aleatória a presença de radar ou de polícia de trânsito: não há jogo se não houver essas condições. O Ruben Dias não arrisca nem deixa de arriscar, infringe a regras de jogo perante a complacência dos árbitros que veem o que todos vemos e fazem de conta que não estão no estádio mas, por azar, escondidos na berma da Estrada Nacional Nº2. 

[Quem não arrisca não petisca e o petisco sai sempre aos mesmos] 
Não se petisca se não se arrisca e não há domingo sem sábado. Havendo risco e petisco no sábado, também haveria no domingo, estava bom de ver, quando se tem o mesmo árbitro que ainda há uns meses validou um golo com a mão ao Porto na Final da Taça de Portugal. Como também não há segunda sem domingo, li a análise efetuada por um ex-árbitro n’ “A Bola” a dois lances do Alex Telles, um que deveria ter originado um “penalty” e outro o segundo amarelo e consequente expulsão. Na análise recorre-se outra vez não às regras de jogo mas ao Código de Estrada: o Alex Telles arriscou demasiado também. Se continuo a perceber a semântica, os jogadores deixaram de fazer faltas e passaram a arriscar. Vamos admitir por um só momento que a situação era exatamente a inversa: o Acuña arriscava demasiado duas vezes e no final o Sporting ganhava dois a um. Alguém estaria a falar noutra coisa se não nisso e isso ainda seria qualificado como "arriscar"? É verdade que a situação é hipotética. O Acuña mesmo sem arriscar nada levou um amarelo, não fosse pensar que podia arriscar alguma coisa. 

[A eficácia de uns e a falta de eficácia de outros] 
Os resultados no futebol não encerram nenhum dilema moral. Quem ganha merece ganhar porque, de outra forma, não se tratava de futebol mas de patinagem artística. Outra coisa bem diferente é encontrar explicações “a posteriori” para os resultados. A explicação encontrada foi a da famosa eficácia e da sua relação com a qualidade dos jogadores. O Soares foi eficaz e o Acuña também. Quanto ao Marega, este sim, encerra em si mesmo um dilema que deixa perplexos os adversários e mais ainda os seus colegas de equipa: nunca se sabe para que lado ele não vai conseguir dominar a bola e se para esse (não) efeito recorre ao fémur, à tíbia ou ao perónio da perna esquerda ou direita. O Marega mais uma vez não conseguiu dominar a bola, perdeu-a e, com isso, acabou por a meter dentro da baliza. Nos manuais das melhores universidades e no Canal 11, da Federação Portuguesa de Futebol, qualifica-se este tipo de situação como “piço do caraças”. Em conclusão, o Sporting e o Porto foram igualmente eficazes só que o segundo teve um “piço do caraças”. 

[A ironia do Sérgio Conceição] 
O Pinto da Costa sempre teve sentido de ironia e as suas declarações marcaram o estilo do Porto até hoje. Ninguém se esquece da sua resposta, quando interpelado por um jornalista para análise de um lance em que o velho João Pinto aliviou a bola contra a barra da sua própria baliza, que ele assim terá procedido para evitar ceder canto. É neste registo irónico que compreendo a afirmação do Sérgio Conceição de que o primeiro golo do Porto resultou de um lance estudado. Admito que lhe tenham perguntado como é que explicava o facto de o Marega não conseguir dominar uma bola e, às vezes, ao perdê-la acabar por marcar golo. Sem o registo irónico, a afirmação é desprovida de sentido. Se o Marega treinasse afincadamente a receção de bola, deixaria de ser imprevisível e não mais conseguiria marcar golos ao perdê-la, depois de lhe tocar com a extremidade anatómica mais improvável. 

[A tática, sempre a tática] 
O treinador da equipa que ganha tem sempre razão. Outra coisa bem diferente é encontrar razão (racionalidade) no que faz como forma de explicar o resultado. O Porto não ganhou o jogo porque entrou o Luiz Dias. O Porto ganhou o jogo porque o Soares marcou o segundo golo, depois de um canto bem marcado pelo Alex Telles que encontrou o Doumbia a dormir. O Sporting entrou muito bem na segunda parte e dominou durante vinte a vinte cinco minutos, criando diversas oportunidades de golo. Não marcando, quando a pilha se esgotou, o Porto equilibrou o jogo e num lance de bola parada marcou (nestas circunstâncias foi eficaz). Depois do segundo golo, o jogo nunca mais foi o mesmo. Não se pode analisar o que se passou a seguir com a mesma grelha de leitura do que se passou antes. Os lances criados pelo Luiz Dias foram depois do segundo golo e não antes. O Silas não reagiu mal. Perdido por cem, perdido por mil, desmontou a equipa e apostou em partir o jogo, arriscando os contra-ataque do Porto, mas tentando numa ou noutra situação apanhar o adversário desequilibrado e em desvantagem numérica. A intenção tinha a sua razão de ser: o Porto tem muitas dificuldades em controlar o jogo com bola. Esqueceu-se foi que para esse efeito estava lá o árbitro. Depois desse golo, foram marcadas mais faltas do que no resto do tempo e, assim, o jogo não se partiu, embora o Sporting ficasse mais exposto defensivamente.

domingo, 5 de janeiro de 2020

A minha angústia a apanhar sol


Meus amigos peço desculpa pela minha loucura, mas gosto de ler nas entrelinhas. Anos atrás, no consulado de Godinho, o presidente do Porto desejava um Sporting mais forte. Era um desejo com o bafo do moribundo, bem o sabemos. O treinador do Porto, no final deste jogo, faz mais ou menos o mesmo, mas com menos flores: era uma injustiça termos marcado mais - dizia ele - porque o Sporting esteve bem, e até terá sido um jogo difícil. É assim que se fazem os enterros e respetivas despedidas de alguns conhecidos rivais. A solenidade do momento não deve tolher o nosso raciocínio: o que interessa é não contarmos para as contas finais.

O jogo foi o que se viu. E olha que fizémos um bom jogo. Aos cinco minutos já estávamos a passar para a próxima passagem de ano futeboleira. As contas eram fáceis: treze pontos para o primeiro, nove para o segundo. Era o jogo de uma época. Mas ninguém estava preocupado. No final passamos para dezasseis e doze pontos para o primeiro e segundo, respetivamente. Segundo o treinador ainda estamos com um olho no segundo e outro, se calhar, no cigano. Atrás de nós já se sente um ou outro olho com a mesma convicção ocular. Andamos nisto com a dedicação de um adolescente a quem proíbem o exagero da consola. Ele sabe que o pai também gosta de jogar.

Em breve, esmiuçaremos a época à procura de nenúfares. Será tudo previamente planeado ao pormenor. Não fosse o movimento de rotação e translação da terra e ainda estaríamos no centro do universo. Mas assim é o sol que terá de fazer o seu trabalho: brilhar para nós. Desculpem-me a angústia. 

domingo, 29 de dezembro de 2019

Gala dos prémios Jorge Mendes (tembém conhecidos como Globe Soccer Awards)

- Prémio CR7 Jogador do ano: Cristiano Ronaldo.
- Prémio revelação do ano João Félix: João Félix.
- Prémio agente do ano Jorge Mendes: Jorge Mendes.
- Prémio academia do ano Benfica: Benfica e Ajax (Ajax? não se entende o que faz aqui).

Prémio melhor estação do ano a cobrir a gala dos prémios Jorge Mendes TVI: TVI.

E assim se faz o entretenimento nestas semanas de descanso sem bola em Portugal. A liga também terá direito ao seu prémio. É falar com o Jorge e para o ano lá estará. Sem dúvida.

Em directo do Dubai...

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O coração do Scrooge que há em nós (sportinguistas)

O jogo de sábado presta-se a todas as metáforas. O contexto permite várias: o Natal e o seu pinheiro, as depressões e tempestades que passaram a ter nome próprio e deixaram de ser simples vento e chuva. Talvez se preste à principal alegoria, à nossa razão de ser: a resistência. Nas últimas quatro décadas, o Sporting constitui uma impossibilidade. Pouco ou nada se ganha, o Benfica e o Porto, à vez, passeiam a sua hegemonia. Mas nós continuamos Sporting e do Sporting e, connosco, os nossos filhos e netos. Contra o Portimonense, não desistimos, não desistimos dos jogadores, os jogadores não desistiram de nós e o Silas não desistiu da sua equipa e do apuramento para a “final four” da Taça da Liga, vendo para lá do que a vista alcança. 

Começámos depressa de mais, com sentido de urgência despropositado, como se tudo tivesse que ser resolvido no primeiro quarto de hora. A precipitação, as perdas de bola, a aselhice e o azar iam deitando tudo a perder: um “penalty” escusado e um autogolo. Qualquer equipa se teria resignado. Nós não. O Ristovski fez o que sabe fazer melhor, passar ao Bruno Fernandes, e o Bruno Fernandes simulou o remate, tirou um adversário do caminho e esperou a desmarcação do Vietto para lhe fazer tabelar a bola na cabeça e assim voltarmos ao jogo. Pressentia-se o segundo golo ainda antes do intervalo, mas o nosso caminho não tem só as suas pedras, tem também árvores, bichos vários e aves raras. O árbitro viu o que não podia ver porque não existiu (teve uma alucinação, por outras palavras), e expulsou o Bolasie, premiando a batota. 

O início da segunda parte constituiu mais um teste à nossa capacidade de sobrevivência. Um avançado desmarca-se nas costas da nossa defesa, isolando-se e obrigando o Coates a um corte em desespero, que, azar dos azares, tira o Max da jogada e deixa o adversário com a baliza aberta. Esperávamos o golo, enquanto o jogador do Portimonense dominava a bola para a empurrar para a baliza. No entanto, do nada, da “twilight zone”, vimos regressar o Max ainda a tempo de se estirar e desviar o remate para o poste, mantendo-nos com a cabeça de fora. Logo a seguir, o Coates quis-nos explicar, a nós, aos seus colegas e ao adversário, que não estávamos no jogo só para sobreviver e foi por ali fora, tropeçando na bola e nos adversários, tabelando uma e outra vez, até deixar o Vietto isolado para rematar com a canela ao lado, falhando um golo cantado. 

O destino não estava escrito, ainda havia tempo para se fazer história, e o Silas substitui o Doumbia e o Ristovski pelo Luiz Phellype e o Gonzalo Plata, deixando todo o lado direito para o Rafael Camacho e assim mandando o miúdo fazer-se à vida. E o miúdo nunca mais foi miúdo, cresceu, ficou adulto e partiu tudo com o segundo golo. O Silas volta a mexer e equilibra a equipa, tirando o desgastado Wendell para meter o Battaglia, que recupera uma bola, o Vietto desmarca de primeira o Bruno Fernandes e este domina-a com um pé e, sem a deixar cair, fá-la sobrevoar um defesa, isolando o Gonzalo Plata que, mais parecendo um veterano, marca o terceiro golo. Os festejos não deixam dúvidas: temos equipa! Mas uma história, uma bela história, precisa de todos os seus heróis improváveis, todos têm o seu papel, faltando, assim, o último golo do Luiz Phellype, depois de um excelente passe do Gonzalo Plata a desmarcar o Vietto que cruza rasteiro para este marcar um “penalty” de bola corrida. 

Este jogo foi mais do que um jogo, foi um conto de Dickens. O rabugento Scrooge que há em nós (sportinguistas) tem um coração à espera da sua oportunidade. Ninguém desiste, ninguém desiste de ninguém. O Bruno Fernandes, o Camacho, o Plata, o Phellype, o Max, o Coates, o Acuña (o Mahatma Acuña neste jogo, tais foram as falta e as entradas à espera da sua reação), todos eles, não desistiram, não desistiram de nós e nós não desistimos deles. Esta é a história que queria escrever para desejar um Feliz Natal a todos os sportinguistas!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Academia, sempre!

O Silas tem algo de Fernando Santos. Não tem tudo, ainda não determina completamente o seu destino e, com ele, o destino do mundo. Mas as suas ações estão recheadas de intenções subliminares, têm um propósito, mesmo que o ultrapasse, resultando de combinações có(s)micas. Quem criticou a tática e a constituição da equipa contra o Lask, que vá buscar a pedra de volta para a arremessar aos seus próprios telhados de vidro. Contra o Santa Clara, tínhamos uma final e, como qualquer final, o que importava era ganhar. Ganhámos com direito a brinde, com goleada e nota artística. 

Nunca sabemos se o que vemos resulta de intenção do treinador e da equipa ou da nossa propensão para encontrar racionalidade, mesmo, no acaso. Vamos admitir a primeira possibilidade porque se as coisas acontecem devem ter uma boa razão para acontecer. A melhoria da qualidade de jogo deve-se, finalmente, à projeção ofensiva dos dois laterais. Para esse efeito, a substituição do Borja pelo Acuña e a do Rosier pelo Ristovski foram fundamentais. Para assegurar adequada cobertura da zona central e dobra dos laterais, o Doumbia e, especialmente, o Wendell jogaram mais recuados. O recuo e a compensação do Doumbia permitiam ainda que o Mathieu avançasse e se encostasse mais do lado esquerdo, servindo de apoio ao Acuña e participando na construção do ataque. 

Pela primeira vez esta época, o Sporting dispôs de toda a largura de campo para atacar, obrigando a defesa e o meio-campo do Santa Clara a bascular para um e outro lado permanentemente. A possibilidade de atacar com os laterais deixou também a zona central mais descongestionada, embora o Bolasie e o Vietto fizessem movimentos interiores e, assim, garantissem mais presença na área no momento de meter a bola para a molhada. A jogar desta forma, sentimos falta do Bas Dost. O Bolasie e o Luiz Phellype fizeram o que puderam, mas não são a mesma coisa. 

Aproxima-se janeiro, o mês de todos os perigos. É evitar fazer asneiras e, para isso, o melhor é não fazer nada. É preferível não contratar ninguém, sobretudo para não se ter de vender os poucos que sabem jogar à bola, como o Acuña, o Bruno Fernandes ou o Coates. Bom, bom, seria vermo-nos livres de uns tantos, como o Borja, o Fernando, o Jesé ou o Ilori. A Academia sempre resolve o resto quando é preciso.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Sem espinhas


Vejam isto: o Sporting ganha 4-0 e o treinador da equipa adversária põe-se a efabular um discurso, que a sua equipa esteve aquém (aquém de quê?), que foi mais demérito que o mérito do adversário, que a passividade para aqui e para ali. Também é por isso que as equipas perdem, mas sobretudo porque os adversários são melhores e as obrigam a isso.  E o Sporting foi e é melhor que o Santa Clara, principalmente quando não inventa e não joga o Jesé e o Ilori, ou o Rosier. Noventa por cento dos jogos da liga portuguesa são contra equipas que lutam dignamente para não descer de divisão. Os seus orçamentos anuais não permitem sequer que Cristiano Ronaldo mantenha a sua alta rotação de relógios e brincos. Esqueçam os iates. No máximo dá para um bote. 

No final da primeira parte já podia estar três a zero, pelo menos. Porém, a passividade e o demérito da equipa da casa não nos deixaram alternativa. Marcamos apenas um e contrariados. Quando viemos dos balneários, sem tempo ainda para nos apercebermos do demérito e da passividade alheias, já lá tínhamos enfiado outra bola. Da forma como o demérito do adversário, a sua passividade e o nosso (algum) mérito andavam, via-se que íamos marcar mais e assim o fizemos. Era uma sensação estranha, via-se claramente no rosto dos nossos jogadores. O jogo acabou e na viagem para os balneários o demérito e a passividade do adversário ainda se notavam e estivemos quase para marcar mais um. Mas não gostamos de ver a malta a sofrer, a não ser nós próprios. É assim o nosso clube. E nunca deixaremos de o apoiar. 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

The Lask but not the least


Achei estranho a marcação de um jogo-treino para a Áustria. Depois percebi que havia aqui um sentido cultural, pois por essas bandas ainda se fazem verdadeiros mercados de natal de rua, onde toda a gente vai, em contraponto aos nossos centros comerciais. A ideia era interessante. Mas havia o jogo. Todas as mudanças ocorridas iam de encontro à ideia de um jogo-treino, dar uma oportunidade a alguns jovens, insistindo em colocá-los ao lado de génios como Ilori, Rosier, Jesé, para trocarem experiências. Ficar em primeiro lugar do grupo, ganhar um mísero milhão de euros, ser cabeça de série no sorteio, não poderia ser sobreposto ao próximo jogo do campeonato, onde lutamos estoicamente pelo terceiro(?) lugar e vamos jogar contra o Santa Clara. É este tipo de exigência que cria os grandes heróis.

O Lask, conhecedor dos mercados de rua e igualmente dos centros comerciais, onde se podem aquecer as mãos e os joanetes, não foi de modas e focou-se neste jogo como se de um jogo importante (a que propósito? - terá pensado Silas) das competições europeias se tratasse. Em pouco tempo percebemos que o Sporting se tinha organizado de forma a tentar não sofrer muitos golos, alguns ainda vá, mas muitos não. O lance do primeiro golo é uma pérola que deve constar dos bons manuais de como se deve defender com os olhos e em grupo. A seguir o Jesé chegou vinte minutos atrasado a um golo cantado e perguntou: Mister, isto é a sério? fosca-se… Esta sequência didática culminou com o Renan a provar por A + B que os árbitros levam estes jogos treino para terrenos pantanosos. Aquela saída ao jogador adversário já está nos anais dos jogos-treino a que se dedicam estudiosos de Ponte da Barca e Póvoa do Lanhoso.

Os nossos miúdos estavam deliciados: agora vamos ter esta experiência enriquecedora de jogar apenas com dez. A estratégia afigurava-se certa, sofrer golos, muitos é que não. Na segunda parte os jogadores do Sporting concentraram-se num jogo de bocejos muito eficaz, não estivesse o Camacho meio a dormir e até tinha marcado um golo, algo que não estava previsto. O Lask continuava a levar as coisas a sério, e lá foi tentando marcar mais golos. Dirigentes do Lask ainda solicitaram que deixassem o Sporting jogar com 11 para ver se dava pica, mas tal não foi permitido.

No final do jogo Silas esclareceu-nos tudo através do seu manual de desculpas em dois volumes. Tem a chancela da editora The Lask but not the least.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

O imenso Mathieu ou o futebol total no singular

Há vitórias por poucochinho que sabem a derrota, que o digam os Antónios, o Costa e o Seguro. Há outras, como a do passado Domingo, que representam autênticas goleadas. As expetativas não marcam golos mas também determinam os resultados. Segundo o Silas, se não fizemos o jogo da época para lá caminhámos, sendo as melhorias significativas. Estas afirmações baseiam-se em profunda evidência empírica e recurso a técnicas experimentais como as que determinaram o Prémio Nobel da Economia atribuído a Michael Kremer, Abhijit Banerjee e Esther Duflo. Colocou a equipa a jogar com e sem o Ilori e o resultado desta análise contrafactual não deixa margens para dúvidas: os problemas defensivos não são coletivos mas individuais (ou individual, melhor dizendo). 

Como venho referindo há mais de dois anos, a melhor forma de se passar ao ataque é contar com o passe tenso do Mathieu para o lateral esquerdo, normalmente o Acuña, ou, na impossibilidade, com o seu passe também rápido a virar o flanco ao jogo. Bem podem avançar e recuar o Doumbia ou Wendell que o sucesso da transição ofensiva continua a chamar-se Mathieu. O único lance de perigo do Moreirense também é revelador da nossa transição defensiva. Perda de bola e o Doumbia sem saber se corta a linha de passe ou marca o único adversário situado entrelinhas e que podia construir o contra-ataque, defesa a recuar perante um avançado de frente para a baliza e passe para o lado direito da defesa, onde não se encontra o Mathieu o nosso mais rápido e atento defesa. Com o Wendell sem capacidade de pressão, o Doumbia sem leitura de jogo, sem saber se sai ao jogador com bola, marca o espaço e as linhas de passe ou acompanha a desmarcação dos adversários, e a lentidão do Coates ou do Neto, a nosso transição defensiva também tem um só nome: Mathieu. 

O ataque também costuma ter um só nome: Bruno Fernandes. Neste jogo, as coisas não lhe saíram muito bem e o ataque também ficou entregue ao Mathieu: desmarcou o Borja para o primeiro golo, anulado por um poucochinho; rematou ao poste na marcação de um livre; participou na melhor jogada de ataque culminada com remate do Bruno Fernandes ao lado; e, cereja em cima do bolo, centrou tenso para a cabeçada do Luiz Phellype que nos deu a vitória. Enfim, no futebol existe a defesa e o ataque e, nos entretantos, conforme se ganha ou perde a bola, a transição defensiva e a transição ofensiva. Também há quem diga que existem ainda as jogadas táticas: os cantos e livres. No Sporting, Mathieu faz tudo isto e, por vezes, sozinho. É a encarnação num só jogador do futebol total do Rinus Michels e do Johan Cruijff. 

O treinador do Moreirense efetuou uma análise muito interessante ao jogo. O interesse não esteve tanto no que disse mas na semântica utilizada. Segundo ele, se os seus jogadores tivessem mais discernimento quando da posse da bola, o resultado poderia ter sido diferente. Traduzindo, se os jogadores do Moreirense soubessem o que fazer da (e com a) bola, podiam ganhar o jogo. Aparentemente, a equipa está magnificamente treinada para jogar sem bola, modalidade que designávamos por “apanhada” quando era miúdo.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Mais uma voltinha, mais uma viagem

Demoro mais a expelir as derrotas do meu corpo e da minha mente. Como elas têm sido em número considerável, apenas com o recurso a um laxante me é permitido continuar a viver de forma minimamente aceitável. E não é nada fácil escrever sobre o assunto.

Fui ver o Sporting a Barcelona, perdão, a Barcelos, no jogo para o campeonato. Ainda hei-de escrever o guião para uma longa-metragem desse jogo e a sua envolvência. Fico-me por uma curta (metragem), mas grossa. Ali chegados, notamos o misterioso desaparecimento das roulotes. À imagem do desaparecimento das abelhas, nenhuma explicação plausível foi enunciada. Na procura de uma bucha apenas encontramos alguma irritação. Estava frio, muito frio. Na entrada para a bancada Norte, onde se encontrava o grosso dos adeptos do Sporting, à irritação, frio e alguma fome, tivemos que juntar uma pitada de paciência.

Para além da proibição (nem sempre, nem para todos) óbvia de entrar no estádio munidos de catanas, explosivos, pistolas e cacetes, também não se podia entrar com nada que tivesse grafado JL, Juventude Leonina, ou Directivo, o que desde logo suscitou algumas questões interessantes. Gente havia vestida dos pés ao pescoço com os ditos, outros juravam acrescentar a roupa interior, outros nem se lembravam se tinham, ou não tinham, em qualquer sítio, as palavras proibidas escritas. Outros juravam não entregar as tatuagens. Bom, depois de apurada conferencia lá se deixou entrar tudo menos os cachecóis. Alguns putos entraram assim no estranho mundo das proibições e dos ultras, deixando o seu querido cachecol à porta. Um absurdo que nos levou à queima para começar o jogo.

E no começo do jogo, ali mesmo à minha frente, o Jesé sofreu penalti, na única vez, em setenta e tal minutos em que ganhou a posição a um jogador adversário. O árbitro sabia ao que vinha e fez de conta (sem precisar) que não era nada com ele. A partir daí o deserto, de ideias, de fio de jogo, de qualidade dos intervenientes. A partir daí apenas o frio, a fome, alguma irritação, a paciência, nos lembravam que estávamos vivos e num estádio de futebol. Dentro de campo não se podia dizer o mesmo.

Já sabemos a história, sem remates não há golos. Apenas o Ilori torna isso possível. O Ilori e o guarda-redes do Gil. Conseguimos chegar ao intervalo sem cortar os pulsos. Foi um feito apenas ultrapassado pelos resistentes que conseguiram chegar ao final do jogo. É certo que temos cinco ou seis jogadores (cuja contratação até é da responsabilidade desta direção) cujo talento para jogar futebol foi-nos manifestamente exagerado, mas não estávamos a jogar em Barcelona, apenas em Barcelos. Compete ao treinador a redundância de treinar e o aborrecimento de planear o jogo contra uma equipa que toda a gente sabia como ia jogar.

No final do encontro Silas disse que tinha mostrar mais uns vídeos aos jogadores e que sentiu que a equipa, em certos momentos (não foram todos?), estava completamente descoordenada, com cada um a jogar para si. Esperamos, assim, pela coordenação no jogo seguinte.

O jogo seguinte continuou a ser em Barcelona, perdão, em Barcelos. Por razões profissionais não pude me deslçocar ao estádio. Não sei se as roulotes apareceram. A equipa do Sporting, isso é certo, não marcou presença na primeira parte do jogo. Por vergonha, provavelmente por estar a jogar contra as segundas linhas do Gil, lá tivemos que disputar a segunda parte com o suspeito do costume a dar um ar da sua graça, lá para o final do jogo. Silas, sempre assertivo, afirmou que tem tido pouco tempo para treinar. Ninguém lhe recordou a recente paragem de três semanas. Aqui ninguém é responsável e ninguém é responsabilizado. Somos uma simpatia no trato. É isso que às vezes enerva o Marcos Acuña. Mas já está tudo perdoado. Venha o Moreirense. Se tivéssemos tido mais tempo para treinar é que era. Não era?

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Jogar para negativos

Nem sempre os fins justificam os meios, mas, no Sporting, parece que os meios se justificam independentemente dos fins. O que conta, o que verdadeiramente conta é tática, não como forma de chegar ao resultado, mas substituindo-o como objetivo. Instalou-se uma burocracia, o que conta é o processo, que desce aos confins do departamento mais obscuro para voltar a subir na hierarquia, sem falhar uma carimbo, uma assinatura. A troca de bola entre os centrais, o recuo do Doumbia, o avanço dos laterais, a descida à vez do Wendell e do Bruno Fernandes não encontram no ataque nenhuma dinâmica que o justifiquem. O que se passa atrás não tem nenhuma relação com o que se passa à frente, onde estão os avançados parados à espera de Godot. 

O Gil Vicente não precisou de fazer nada ou, melhor dizendo, só precisou de esperar que nos suicidássemos. Na primeira parte, praticamente só o Ilori atacou com ousadia, infelizmente sem se dar conta que aquela não era a área do adversário. E os disparates são como os GNR, andam sempre aos pares: passa à bola ao adversário e recupera deixando outro em jogo. E o disparate emparelhou-se outra vez quando o remate fraco do Wendell adormeceu o guarda-redes enquanto esperava pela bola. Ao intervalo, o empate justificava-se, o que não se justificava era o resultado; em vez de 1 a 1, devia ser -1 a -1. 

Na segunda parte, o Gil Vicente passou a jogar para nulos e nós continuámos para negativos. No jogo do King é a mesma coisa, no futebol não. No futebol, quem joga para negativos perde sempre, independentemente do adversário jogar para nulos ou escolher trunfo. Oferecemos um “penalty” e, quando o Bruno Fernandes tentou fazer de central de último recurso no terceiro golo, até parecia que do outro lado jogava o Messi. O Vítor Oliveira, no fim, procurou confundir-nos ainda mais, para ser corporativamente simpático com o Silas. Talvez tenhamos piores jogadores do que o Benfica ou o Porto, mas não jogámos contra nenhuma dessas equipas, jogámos contra o Gil Vicente. Jogámos contra o Gil Vicente e não criámos uma oportunidade de golo para amostra nos segundos quarenta e cinco minutos. 

As desculpas perspetivam o pior. A carne é fraca, segundo o Silas, é fraca e não tem cabeça para cumprir as orientações, jogando cada um para seu lado. São muitos anos a virar frangos. Um Carlos Manuel ou um Paulo Sérgio cheira-se à distância. Quanto tempo vai demorar até encontramos o Jesualdo Ferreira da nossa salvação? Ainda chegará a tempo?

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Entretanto


José Mourinho foi para o Tottenham. Alguns jornalistas, comentadores e adeptos também. Embora estes últimos mais mal pagos. De repente ficou a saber-se que o Tottenham dispõe de uma academia com 17 campos relvados e um estádio novo com a segunda maior lotação da premier league. Diz-se até por aí que uma equipa com o mesmo nome foi finalista da liga dos campeões do ano passado.  A paixão tem destas coisas. Numa das milhares de reportagens feitas a partir de Londres, um jornalista folheia os jornais ingleses do dia seguinte à assinatura do contrato (nada que não pudesse ser feito a partir dos estúdios em Lisboa – seria?), deleitado com as contracapas, os rodapés, as fotografias, numa demonstração sólida do mais profundo provincianismo e do jornalismo de encher chouriços.

Entretanto, os restantes jornalistas e comentadores sobrevoaram o Atlântico para saber quem seria o novo barbeiro de Jorge Jesus e se este ainda comia peixe todos dias. Continuaram a encher chouriços até descobrirem um clube de futebol (com regatas pelo meio) e uns programas de televisão onde apenas se pode participar de megafone ou com uma garganta de aço inoxidável, programas onde incrivelmente Cristina Ferreira pareceria uma sussurradora profissional. Nesses programas, onde se mistura religião e futebol, os comentários baloiçam entre o mais puro chauvinismo e a hoste dos ressabiados, tudo por causa de um avô que lhes foi dar umas dicas sobre bola e mastigar chiclete em público, não necessariamente por essa ordem.  Os resultados estão à vista. Se Jesus tiver algum juízo, levanta ferro o mais rapidamente possível e vem treinar o Arsenal, um clube com um centro de estágios com muitos campos, todos irrigados, e um estádio com apenas menos dois mil lugares que o Tottenham. Um sonho de menino.

Entretanto, fomos à vida no futsal. Espero que este feito também seja devidamente reconhecido pela direção, à imagem do ano anterior.   

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Soltas da seleção nacional

[Sem pé quente] 
Não precisávamos de ganhar e muito menos de marcar dois golos. Desperdiçámos a possibilidade de mais um empate ao desperdiçarmos o empate da Ucrânia contra a Sérvia. A ideia de atingir objetivos sem depender de outros e da combinação de resultados pode ser o reconhecimento do Santos que o seu pé quente teve melhores dias. 

[Com os pés frios] 
No fim do jogo, os jogadores afirmaram que mal sentiam os pés, tal era o frio. Porventura, a temperatura dos pés em sentido literal influencia-a em sentido figurativo. Talvez não se possa ter pé quente com os pés frios. Na dúvida, não seria de excluir a hipótese de se colocar uma escalfeta no banco. 

[Com os pés] 
O Cristiano Ronaldo marcou o nonagésimo nono golo ao serviço da seleção nacional. O simples facto de não ser fácil dizer nonagésimo nono golo de forma seguida, sem pausas e sem nos entaramelar a língua é, só por si, um sinal do feito extraordinário. Mais do que mais um golo, este, em particular, é revelador do empenho do Cristiano Ronaldo em marcar golos que os outros fazem um esforço enorme para falhar, como se viu com o Jota, apesar do guarda-redes do Luxemburgo também ter feito um esforço não despiciendo para o sofrer. 

[Sem cabeça ou com a cabeça assim-assim] 
O treinador da seleção de Malta embateu com a cabeça no banco de suplentes e não há maneira de se lembrar do jogo contra a Espanha. O Santos por um momento também se esqueceu de ser quem é, e não dizer nada e não revelar os seus segredos, e disse na entrevista o seguinte: “Acabámos por marcar num lance que tínhamos pensado, colocando a bola na profundidade, nas costas da defesa”. Até a emissão da RTP caiu (redonda).

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Esports de inverno


por aqui vos falei da saga daquele jogador do Sporting com nome de medicamento, o Demiral 18mg. Nessa mesma posta fazia uma pequena (grande) referência a mais um central, nesse caso em trânsito para o Granada. O seu nome era Domingos Duarte e foi agora chamado à seleção nacional. Não costumo advogar o fanatismo serôdio da formação, mas deixar escapar, em saldo, jogadores destes, apenas terá uma explicação lógica: incompetência. Incompetência essa, devidamente destapada em sentido contrário, isto é, nas compras efetuadas. Mas parece que ficamos com 25% de uma futura venda. O trabalho invisível continua.  

Ontem estava a ver televisão e de repente fui levado com pompa e circunstância até ao colo do Prémio Puskás, dois mil e quinze, se não me falha a memória. Ao lado do prémio surgia um nome: Wendell Lira. Já estamos a contratar – pensei, não sei porquê, mas gostamos destas coisas. Lira vinha reforçar a nossa equipa de Esports. Por momentos pensei que estavam a inglesar o termo associando-o ao português do Brasil. Só depois percebi que o reforço era para a equipa de videojogos. Grande contratação, ninguém estava à espera. O trabalho invisível continua. Somos mesmo um clube eclético. Sem dúvida alguma.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Quem (não) faz um filho fá-lo por gosto

Comecei a perceber este jogo ainda antes de se iniciar. O nosso treinador tanto afirma que ainda não teve tempo para treinar como pretende ao mesmo tempo justificar as suas mudanças táticas de jogo para jogo pelo facto de treinar diferentes sistemas, encontrando-se a equipa em condições de optar por qualquer um como forma de surpreender o adversário. Nunca levei muito a sério aquela coisa do nível IV, mas desconfio que talvez não fosse má ideia ele fazer um curso desses nem que fosse por correspondência. 

Não fiquei, assim, surpreendido quando vi a equipa entrar com o Neto, o Coates, o Ilori, o Rosier, o Borja, o Eduardo e o Ricardo Fernandes. O Silas preparou a equipa para jogar como se se tratasse do Belenenses e o adversário o Sporting e não o próprio Belenenses. O original, por muito mau que possa ser, é sempre melhor do que a cópia. Enredámo-nos num emaranhado de sete ou oito jogadores para conseguir fazer sair a bola do nosso meio-campo. Invariavelmente, acabávamos a perdê-la ou com o Renan Ribeiro a enfiar-lhe uma biqueirada para a frente onde os dois ou três que sobravam enfrentavam opositores superiores em número e em armamento, como se estivessem em Candaar, no Afeganistão. O Bolasie e o Vietto não revelaram medo, revelariam aqui e ali alguma melancolia por não poderem conviver com os seus colegas e amigos, ensarilhando-se também com eles e com a bola, como fazem os soldados para ocuparem os poucos tempos livres entre as emboscadas. 

Os jogadores do Belenenses ficaram surpreendidos, pois pensavam que vinham jogar contra o Sporting, não estando preparados para jogar contra si próprios. Estavam preparados para montar o seu autocarro e não para enfrentar o autocarro adversário. Esta contradição não os deixou nada confortáveis. Procuraram queimar tempo passando a bola entre si, permitindo ao treinador no final dizer que tinham assumido o jogo, seja isso o que for, desde que não envolva a baliza do adversário. Os adeptos não gostaram da transmutação, do transgénero operado pelo Silas e começaram a assobiar. Depois, bem, depois uns começaram a cantar uma coisa qualquer e outros a assobiar. No estádio percebe-se bem. Na televisão não se percebe grande coisa. Só mais tarde é que percebi que enquanto uns vaiavam o Varandas os outros vaiavam os que vaiavam os Varandas. No próximo jogo, a transmissão deve ser legendada para melhor podermos acompanhar estar peripécias. 

A meio da primeira parte o Silas tirou o Neto para meter o Camacho e ao intervalo trocou o Ricardo Fernandes pelo Doumbia. Os sinais de retoma do final da primeira parte confirmaram-se no início da segunda. Mas a retoma só ficou completa quando saiu o Eduardo e entrou o Luiz Phellype. O que faltava em febra sobrava em coirato e entremeada mas era a carne que havia e foi toda para o assador. O Doumbia ficou com o meio-campo defensivo e o Bruno Fernandes e o Vietto passaram a ter mais bola. No primeiro golo, destaca-se a forma precisa como o Luiz Phellype fez embater a bola nas canelas de um adversário, fazendo-a ressaltar para o sítio exato onde apareceu o Vietto a rematar depois de um mortal à retaguarda. No segundo, a desmarcação milimétrica do Bolasie proporcionada pelo passe do Doumbia e a saída à Renan Ribeiro do guarda-redes adversário, colocando a bola à disposição do Vietto. 

Pior do que errar é insistir no erro. O Silas aprende depressa, o problema parece ser o de só aprender durante os jogos. Ao intervalo deve ter transmitido aos seus jogadores que ou as coisas mudavam ou estava disposto a fazer um filho a cada um deles. Os jogadores não acreditaram naturalmente, mas ficaram na dúvida se não estava disposto a tentar. Não foi por acaso que, por via das dúvidas, resolveram festejar os golos junto à bandeirola de canto, longe do banco.

sábado, 9 de novembro de 2019

Miaus


Frederico continua a sua saga. Escutei-o nos Rugidos do Leão. Leu uma cópia como se estivesse na escola primária. Raramente levantava a cabeça para comunicar as suas palavras com a audiência, limitando-se a ler, como um bom menino. Duas ou três enfâses povoaram essa leitura. Bom, terá dito a professora. Desta vez até estava bem alinhavado, como um verdadeiro discurso (goste-se ou não), o problema é que um discurso engloba um comunicador, o texto e a audiência. O texto é a ponte. Apenas isso. Dessa ponte deixo aqui um reparo: para além das gabarolices e do tratamento estatístico, habilmente moldado, fica mal, muito mal, esquecer a Comissão de Gestão, na excelente época (assim nos foi apresentada por Frederico) 2018-2019. Nem uma palavra. As palavras ficaram para as outras, (quantas são, afinal?) minorias. Deixo aqui um bom título para o discurso: unidos venceremos.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Bem vindos a Valhalla*


A cabeça do nosso treinador não é monótona. A cada jogo ele arranja uma forma de alinhavar uma equipa nova, confundindo assim o adversário e a própria equipa, cujo sistema de não ter sistema, feito com jeito e de forma sistemática, até pode dar alguns frutos, ainda que mirrados. O nosso treinador não fez a pré-época, andava por essa altura a observar as bancadas vazias de um tristonho Jamor, nem participou na contratação dos jogadores, embora a escolha dos mesmos nos pareça ter sido feita através de requisição civil, tentando ocultar, em parte, a greve dos nossos dirigentes em dirigir.   

O Borja tem aquele ar de bom samaritano que nasceu num sítio pobre da América Latina, mas deu a volta, afastando-se de um mundo de drogas e violência, só não se sabendo como e quando se tornou jogador de futebol. Nem ele sabe, apenas a requisição civil. O Rosier, ainda não o topei bem, tem estilo de raper dos subúrbios de  Montauban, embora  Montauban seja demasiado pequena para ter subúrbios, ele ainda assim arranjou maneira, não se sabendo bem quando o futebol começou a ser congeminado na sua cabeça. Musicalmente está nos antípodas de Jesé, futebolisticamente temos as nossas dúvidas. Ontem jogou o Neto e o Ilory, a intenção era desde o início convencer o adversário do esquema de três centrais e dois laterais subidos, escondendo o verdadeiro às de trunfo: Coates. Coates tem golo. Em qualquer das balizas. E fez um grande jogo.

Tudo baralhado como deve ser, ainda assim passamos os primeiros dez minutos a jogar de pé para pé cá atrás. Quando quisemos que a bola chegasse ao meio campo, estava lá o Doumbia. Ele já avisou que não foi para isso que o requisitaram: andar ali a receber e a ter que passar a bola, observando a posição dos outros jogadores, equipa contrária incluída, isso enerva-o, fica nervoso com a bola redondinha nos pés, mais ou menos como o Bolasie, só que o Bolasie usa isso para endrominar o adversário e a si próprio, com resultados variáveis, diga-se. O Doumbia fica igualmente nervoso com a proximidade do Eduardo, apenas se acalmando quando, levantando a cabeça, o que é raríssimo, encontra a imagem de nosso senhor Bruno Fernandes a pairar no campo. Aí, nesse momento, sorri e sente-se um verdadeiro jogador de futebol.

Estava frio, o jogo ainda não tinha aquecido e já os Noruegueses tinham papado dois golos. Aqueles Noruegueses, embora sejam muito interessantes como figurantes (ou mesmo actores) da série Vikings, como jogadores da bola deixam algo a desejar. Nesse sentido, entendem-se muito bem em campo com alguns dos jogadores do Sporting, que embora nunca tenham participado em castings para a série Vikings, têm alguma veia artística, já que conseguem representar (de forma razoável) um jogador de futebol profissional.

A segunda parte trouxe-nos à memória que no futebol (principalmente quando joga o Sporting) como na sétima arte, tudo é possível. Mas foi apenas por momentos. Ganhámos bem. Venham de lá esses toscos dos Holandeses.


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Crónica de um relato anunciado

Não vi o jogo do Benfica contra o Lyon mas recebi o relato. Foi como se o tivesse visto. 

Antes do jogo, o entusiasmo: o Zenit tinha perdido e abria-se um caminho radioso para o Benfica afirmar a sua dimensão europeia. Com o primeiro golo, os factos começam a enganar-se e a não condizer com a realidade. “Não se percebe, uma equipa com a capacidade da do Benfica quando chega a estes jogos europeus parece entrar numa realidade paralela”, afirma um comentador. 

Depois de um ciclista francês testar a caixa de velocidades contra a defesa do Benfica, acontece o segundo golo e suspeita-se que a realidade tenha acabado de bater à porta. Apesar dos nabos dos defesas e do guarda-redes ameaçarem dar buraco, os jogadores do Lyon ganham quase todos os ressaltos e disparam em contra-ataques sucessivos deixando um dos comentadores em desespero. O desespero dá lugar à esperança quando finalmente falham um passe e o Benfica recupera a bola: “Eles também falham! Eles também falham!”, rejubila o comentador. 

A segunda parte inicia-se com os franceses em ritmo de treino e os jogadores do Benfica a cheirar a bola. De repente, chouriçada para a frente e golo do Benfica. Volta o entusiasmo, não pela vitória, mas pelo empate que deixaria tudo como dantes. Os franceses aborrecem-se com a desfeita e decidem voltar a jogar a sério cinco minutos e marcam novamente. “Está difícil o Benfica chegar à Europa”, lamenta um comentador, entrando em falso e denunciando-se, para logo em seguida vir outro em socorro e rematar a conversa, afirmando: “Este jogo prova que o Benfica não aposta na Europa”. Porque, se apostasse, a Europa render-se-ia aos pés do André Almeida, digo eu e mais não digo.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Filosofia da alcova


Por acaso ia começar esta posta mais ou menos assim:

Apesar dos deuses (os nossos) andarem loucos, os árbitros continuam a adorar os templos do costume, colocando lá as suas oferendas, em sinal de fé e de referência. Ainda por cima estando o Sporting a braços com uma equipa que (re)começa o ensino primário (do futebol?), já com o cheiro no ar a castanhas,  a papas de sarrabulho,  e com a fruta da época a dar para as romãs e os dióspiros, não parecendo de todo possível acompanhar o andar da carruagem. Pergunta: qual é a novidade? A retórica da interrogação leva-nos para uma extrema-unção mas sem padres que nos valham.

Depois de muito pensar, deu-me para continuar a posta assim:

Pese embora os floreados de vitórias (inóspitas) recentes, e outras vocações passadas, começa-nos a faltar aquele sorriso que acolhia com humor um vislumbre de pacemakers a que apenas faltariam as pilhas para continuar a acarditar; começa a falhar aquela vontade única de acolher no nosso seio o falhar outra vez, falhar melhor; começa a ser difícil digerir a força alquímica do reino do quase, quase, ou, para outros, ainda assim dos nossos, a república do para o ano é que vai ser. Começamos a ser outra coisa. E essa outra coisa, ainda indefinida, é o Sporting actual.

Falemos então de qualidade - pensei eu:

Não nego os meus modestos conhecimentos do jogo, mas perdoem-me a ignorância relativamente aos repastos que ditam as transferências, que (supostamente) ordenam as linhas mestras, que inclinam a gravidade dos campos, ou que enlanguescem as pernas dos jogadores e outros atributos cujos nomes desconhecemos. Não queremos o Sporting a caminhar sobre as águas (embora para o Sporting nada seja impossível), mas com a responsabilidade própria de profissionais bem pagos, ainda que alguns tenham verdadeiramente feito a pomba ao assinarem pelo Leão. Fazer a pomba é sair a sorte grande. A deles, claro.

Mas que raio, orçamento será sinónimo de qualidade?

Consultamos várias porcas e todas torceram o rabo: as condicionantes, as variáveis, as componentes são tantas, que inevitavelmente a sua gestão terá de vir de mãos hábeis, abraçadas a cérebros engenhosos e suficientemente astutos para resolverem quebra-cabeças enquanto o diabo está distraído e esfrega um olho. Podemos olhar para a massa de várias formas, mas quem a molda faz toda a diferença.

Exemplos, em cuja linguística se alicerça o vocábulo diferença (em território nacional):

Veja-se o caso do Tondela versus Sporting. Dizem-nos que o tamanho não importa, desde que, obviamente, haja trabalho. É um bom ponto de partida para mentes mais fracas e dadas a traumas, pois relativamente aos orçamentos ficamos logo esclarecidos. O Fernandes paga a equipa do Tondela. Mas isso dá-nos a obrigação de lhes ganhar? Bom, alguma coisa nos deveria dar. A bola não sendo uma ciência exacta e muito dada a surpresas lá vai seguindo o seu caminho com alguns padrões. Os nossos rivais tendo os maiores orçamentos (e controlando o futebol) são normalmente os que ganham. Aliás, sempre que jogamos com grande equipas europeias e, ressalvando algumas exceções, somos orgulhosamente ungidos pelas vitórias morais. E depois lá vem o dito: com um orçamento daqueles, também eu. Também tu?

Que fazer, afinal ó artista?

Blá, blá, blá... gerir melhor os recursos internos, rodear-se de gente competente e eficiente. Exigir desde o topo da pirâmide e responsabilizar. Ok, já sabemos. Aprender observando os outros. Não dividir para reinar, fundamentalmente se nem somos bons em contas de somar. Usar, seguindo os ensinamentos de Thomas Cromwell a diplomacia variável e a ciência da ambiguidade. Dá trabalho, mas poderá ajudar no caso do tamanho (já) não ser suficiente.  

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Várias equipas e modalidades e um só campeonato

É difícil explicar os resultados do Sporting. Os resultados são relativos, são aferidos em relação aos resultados dos adversários, em cada jogo e na totalidade dos jogos do campeonato. Ontem, o Sporting perdeu porque o Tondela ganhou e vice-versa. A classificação final reflete essa relação entre resultados que se opõem durante o campeonato. Sendo aferidos desta forma, os resultados têm de ser comparáveis. Para serem comparáveis, as equipas têm de disputar a mesma modalidade, implicando o respeito pelas mesmas regras. Por exemplo, não faz sentido admitir que equipa de andebol do Sporting possa ganhar o campeonato nacional de futebol, mas, se os deixarem jogar com a mão e aos adversários só com os pés e a cabeça, era provável que acontecesse. 

Ora, como as regras que se aplicam ao Sporting não se aplicam aos adversários, tenho muitas dificuldades de explicar os resultados e, assim, os méritos dos jogadores, treinadores e direções, porque num mesmo jogo se está em presença de mais do que uma modalidade. Pantominice na marcação de um “penalty” contra o Portimonense, três “penalties” a favor do Rio Ave, golo com o braço do Paços de Ferreira, regras diferentes para assinalar faltas e mostrar cartões em todos os jogos, especialmente no de ontem e contra o Boavista e o Paços de Ferreira. Ontem chegámos a mais um absurdo: em vez de ajudar a acertar, o VAR ajuda a errar. Não sei se ajuda ou se o árbitro gosta de ser ajudado. 

Contra-ataque, jogador do Tondela a entrar de carrinho ao pé de apoio do Doumbia seguido de outro a arrancar o Bruno Fernandes pela raiz. Cartão vermelho mostrado ao primeiro e esquecimento do amarelo ao segundo, primeira parte da rábula cumprida. Sururu do costume montado, enquanto a SporTv nos vai presenteando com uma reportagem do Doumbia a passear de mão dada com o jogador do Tondela em vez de repetir o lance pelas imagens conclusivas, como se gerar falsas dúvidas fosse um dos princípios da ética jornalística. O árbitro que viu o que viu, decidiu que tinha de ver na televisão também e cumpre-se a segunda parte da rábula. A rábula conclui-se com ele a dar o visto por não visto e a ficar-se por um amarelo. Para todos percebermos até onde se pode levar a rábula, a SporTv faz um programa a seguir para concluir que o lance era para vermelho e a decisão inicial correta. 

E o jogo continuou assim ou em modo de assim, com rábula atrás de rábula. Vemos ser marcada falta ao Bolasie quando tinha um adversário às cavalitas. Vemos não ser marcado qualquer livre, quando o mesmo jogador adversário lhe fez trezentas e quarenta e oito faltas seguidas para o impedir de entrar isolado pelo lado direito da área. Vemos ser marcada falta à entrada da área por entrada de um central do Tondela sobre o Luiz Phellype sem o correspondente amarelo. Vemos o Eduardo levar um amarelo após uma falta que não fez. Podia estar aqui os próximos dias a explicar que as regras aplicadas às duas equipas não foram iguais e, portanto, estiveram a jogar modalidades diferentes. 

O Sporting perdeu? O resultado só tem sentido se os desempenhos forem comparáveis, se a modalidade praticada por uma equipa for igual à da outra. Que sentido tem afirmar que a equipa de futebol do Sporting perdeu contra a equipa de rugby do Tondela?

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Arte e contexto

O jogo de ontem, contra o Paços de Ferreira, teve alterações táticas que deviam constar de qualquer manual de treinador de nível IV. A entrada do Borja, um esquerdino que faz parte de uma longa lista onde constam nomes célebres como o de Grimi, Marian Had, Ronny, Joãozinho, Balajic, Dimas, Zeegelaar ou Jéfferson, para atacar o nosso lado esquerdo da defesa. A entrada de Ilori que nos deixa a pensar: por que razão, estando a jogar com três avançados, o adversário resolve meter mais um? Um pouco mais tarde, compreendemos as mudanças táticas operadas na equipa do Sporting depois destas entradas, sem que o Silas tivesse necessidade de transmitir à equipa o que quer que fosse. É o trabalho invisível a fazer o seu caminho. Não sendo de esperar grande coisa do Ilori, os centrais deixaram-no solto, sem marcação, para que o Mathieu podesse marcar o Borja e, assim, evitar males maiores. 

Nevoeiro, chuva, filmagem em “zoom out” e uns mecos cor-de-rosa fluorescente a deslocarem-se, entrecortados por uma mancha azul petróleo que tudo parava para mostrar uma cartolina amarela fluorescente também, fazendo lembrar uma versão aprimorada do Branca de Neve de João César Monteiro. O que se passa no ecrã não é literal, é metafórico. Cada espetador interpreta da forma que quiser o que (não) vê. Não existe arte sem contexto, sem narrativa. O jogo de ontem prestava-se a todas, até à narrativa da sua ausência ou da sua antítese, apelando ao não-jogo, seja isso o que for na subjetividade de cada um. 

Esta semana fui ao lançamento do livro “Rendimento Básico Incondicional. Uma Defesa da Liberdade” de uns professores da Universidade do Minho. A filosofia e a arte deixam-nos a pensar, interpelam-nos. Embrulhado em ontologia, quando deixei de ver a televisão, interrogava-me: será que ganharíamos um jogo de futebol contra o Paços de Ferreira? O futebol português tem esta qualidade, a de nos deixar com mais perguntas do que respostas e com vontade de vermos mais e mais para nos inquietarmos. Espero com ansiedade o próximo jogo para que nele encontre respostas, embora não seja certo que as obtenha e não venha a ser confrontado com questões ainda mais complexas sobre a existência.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Minorias e maiorias de bancada

Ontem, contra o Guimarães, a expetativa era grande. Nesta altura, a expetativa é sempre grande, cada jogo é um Brexit. A carne estava toda no assador, não faltando a Dona Dolores para esconjurar maus-olhados. Jogava-se às casinhas e ao cai que não cai da Direção para se saber se ganhava a democracia da bancada ou a democracia do voto. 

O Silas não tem o Nível IV mas tem a escola toda do futebol português. Antecipando um Guimarães a jogar à bola no campo todo, organizou a equipa para jogar em contra-ataque, metendo o Jesé em vez do Luiz Phellype. Com bola, pediu paciência, muita paciência, que os seus jogadores ficam com os bofes de fora rapidamente se o jogo acelera. Pediu paciência e muita confiança em Coates e, especialmente, em Mathieu, que está em todo lado ao mesmo tempo, fechando no meio e na lateral, saindo com segurança em passes curtos ou longos. Com os inconsequentes Eduardo e Doumbia no ataque organizado, pede-se-lhe que descubra o Acuña ou o lateral do outro lado, invertendo a natural circulação da bola. 

De repente, duas cavadelas, duas minhocas, com o Vietto a demonstrar superior inteligência e capacidade técnica, passando a bola no momento certo para isolar, primeiro, o Jesé e, depois, o Acuña. As jogadas acabaram da mesma forma: bola dentro da baliza e guarda-redes deitado. Na PlayStation os nossos são bons. E o jogo podia ter ficado arrumado no início da segunda parte se não fosse a coerência do árbitro. Não viu o “penalty” sobre o Bruno Fernandes a meia-dúzia de metros e voltou a não o ver na televisão, depois do VAR o ter visto. Como diria o Einstein, só a infinita estupidez humana é certa. 

O 4x3x3 do Silas tem o problema de o Bolasie e, principalmente, o Vietto não acompanharem a movimentação dos laterais contrários quando estes atacam. Como o Doumbia e o Eduardo não ajudam a fechar por dentro, o Rosier e o Acuña ficam entregues à sua sorte. Embora a sorte do Acuña seja o azar dos adversários, do outro lado, com o Rosier, não se passa o mesmo. E o cântaro foi à fonte tantas vezes quantas as necessárias até se levar o golo do costume. Os minutos seguintes pareciam prenunciar o pior. Mas um bom central, como o Coates, não escolhe baliza, sobretudo quando o guarda-redes sofre de bicos de papagaio. 

O jogo estava resolvido e o restante tempo  constituiu um prelúdio para o que se iria passar a seguir. Ganharia a democracia da bancada ou a democracia do voto? Quando se ganha, a maioria da bancada alia-se à maioria do voto. A democracia da bancada depende dos resultados, são eles que determinam os movimentos sociais. Sem resultados, aquilo que pode parecer uma minoria rapidamente se transforma numa maioria. Com resultados, uma minoria é uma minoria. Ontem, a maioria foi uma, no próximo jogo se verá. A democracia da bancada volta dentro de momentos no próximo estádio.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A cinética da bola

Dois momentos definem o jogo de ontem contra o Rosenborg: o Coates enfia uma canelada na bola para aliviar e fá-la embater no Doumbia e ressaltar para a barra; o Vietto remata à entrada da área contra um adversário, a bola faz um balão, o Pedro Mendes disputa-a e cai, aparecendo o Bolasie a enfiar-lhe uma marrada que a faz tabelar, primeiro, na canela de outro adversário e, depois, no braço do guarda-redes e entrar na baliza. Estes dois momentos definem com exatidão a mudança tática operada na equipa do Sporting. Em condições normais, com outro treinador, no primeiro momento, a bola teria entrado e, no segundo, batido na barra. 

O jogo teve três partes: do início ao primeiro momento; do primeiro ao segundo; do segundo até ao momento em que se agitaram lenços brancos. O início e o fim estão pré-determinados, não dependem das ocorrências do jogo: vai-se ver o jogo no pressuposto de que ele se inicia e que no final se vaia o Varandas. A cinética da bola vem por acréscimo. Os adeptos vão ao estádio para ter razão, independentemente do resultado. Quando finalmente lhes derem razão, a sua vida será um profundo vazio. É que as suas profecias autorrealizam-se e a vitória de cada um, da sua razão, será a derrota de todos.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Razão de ser

Ontem, vi o jogo da equipa de andebol do Sporting contra os finlandeses do Cocks para a Liga dos Campeões. Tudo o que podia correr mal, correu e correu ainda pior. Com Frankis Carol e o Edmilson Araújo lesionados e não se dispondo ainda do Marko Vujin, sobrava o Pedro Valdés na primeira linha, que também se lesionou durante o jogo. 

De repente, tínhamos o Carlos Carneiro a central e uma primeira linha constituída por ele, pelo Carlos Ruesga e pelo Gonçalo Vieira. O Thierry Anti e os jogadores fizeram tudo e de tudo para ganhar o jogo, acabando a nossa primeira linha com o Arnaud Bingo a lateral esquerdo e o Valentin Ghionea a lateral direito. Nos últimos minutos, o árbitro não expulsa por dois minutos um jogador adversário e deixa-nos sem o Carlos Ruesga na fase do jogo que mais dele precisávamos. Sofri com eles e acabei de ver o jogo à beira de uma apoplexia. 

O jogo é sagrado. É o jogo que nos leva a ser do Sporting. Vê-se um jogo para se sofrer com os jogadores, para os apoiar o tempo todo e celebrar com eles. Não há, não pode haver outra razão para se ir a um estádio ou a um pavilhão. Quando se vai e não se respeita o jogo e os jogadores, algo de muito errado de passa. Qual é a razão para se ser do Sporting quando o jogo e os jogadores não importam?

domingo, 20 de outubro de 2019

A propósito


Falhar outra vez. Falhar melhor.
Samuel Beckett


Falhar melhor
não sei, mas falhar
sempre

cansa!


(adaptado daqui)

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

A insustentável invisibilidade do ser

Está-se a fazer trabalho invisível, é o que nos informam. Não confundir invisibilidade com inexistência. Nem sempre o que não se vê não existe, embora o contrário seja verdade: o que se vê, existe. Preferíamos existência visível, mas, não podendo ser, que seja existência invisível. 

O pensamento é invisível, por definição, mas existe. “Não há machado que corte a raiz ao pensamento”, dizia o cantor. No entanto, mesmo com uma equipa constituída por Aristóteles, Platão, Sócrates, Kant, Heidegger, Hegel, Nietzsche, Descartes, Schopenhauer, Rousseau e Voltaire é muito difícil ganhar a onze jogadores de calções e chuteiras que correm pensando o melhor que sabem e podem enquanto o oxigénio se lhes esvai dos neurónios.

Está na altura de combinar pensamento e ação, existência e visibilidade. É que se se continua assim, é possível que se deixe de ver porque se desaparece simplesmente. O nada, o vazio, é o perfeito invisível. É que, com tão prolongada invisibilidade, começo a suspeitar que tenhamos deixado de ser.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Soltas da semana

[Caixa alta] 
Estranhamente, nenhum jornal desportivo de hoje escolheu o habitual trocadilho “Traumatismo (U)craniano”.

[Correcção de última hora] 
Afinal "A Bola" sempre recorreu ao Traumatismo Ucraniano na sua edição "on line" de ontem. Fizeram "bluff", sinalizando ao Record e ao Jogo que tinha este título na manga para hoje.

[Correcção de última, última hora]
Afinal, afinal, o "Correio da Manhã" sempre recorreu ao Traumatismo Ucraniano na sua edição de hoje. A normalidade sempre nos tranquiliza. Por momentos, temi que a imprensa nos surpreendesse.

[O maior] 
“Não persigo recordes; são eles que me perseguem”.

[Geringonça] 
Um governo minoritário foi apoiado durante uma legislatura por uma geringonça. Quem faz parte da geringonça que apoia o João Félix na seleção? É que nem canta “reggaeton” nem é suficientemente gordo para ir à baliza.

[Lições do Santos] 
É o que dá querermos ganhar. Os ucranianos só queriam empatar. Da próxima vez, voltamos ao mesmo.

[Maldição do Santos] 
No último minuto, cabeceamento do Cristiano Ronaldo salvo pelo guarda-redes na linha de baliza seguido de remate do Danilo à barra. Ou o Santos está a perder qualidades ou os ucranianos não sabem no que se meteram.