terça-feira, 24 de março de 2026

O Sporting assim, o Sporting assado, o Porto cozido, o Benfica (mal) passado

A ideia [simples] que o futebol é um [simples] jogo não se encontra alinhada com os Ares dos tempos, destes tempos [até a simples ideia de que o futebol pode ser a guerra por outros meios parece anacrónica pois nada se parece com a guerra quando se pretende a guerra e só a guerra]. Primeiro foi a cisma de que o Sporting não quer jogar contra o Tondela: o Sporting assim, o Sporting assado, o Porto cozido. Se o Sporting não quer jogar contra o Tondela, qual é o problema? Se o Porto considera que o cosmopolitismo europeu é compatível com a coesão territorial, a solidariedade com este clube do interior, que jogue contra o Tondela, quem o impede? A Liga de Clubes foi [sábia e] salomónica na decisão, decretando: se o Sporting joga se quiser e quando quiser, então o Sporting é eliminado da Liga dos Campeões, para ver se gosta de não ter ninguém contra quem jogar ou de jogar quando o adversário lhe apetecer também. Fiquei com uma dúvida, uma dúvida sem grande importância, convenhamos: sempre jogamos contra o Arsenal ou não? Não, não é importante, é só para saber. 

Depois, o José Mourinho resolveu dizer que não desejava que o Sporting e o Rui Borges vencessem a Liga dos Campeões, transformando este seu desejo [ou falta dele] na notícia da semana [esta e aquela dos Estados Unidos e de Israel não se entenderem com o Irão ou coisa assim, com as claques de uns e dos outros a jogar à batalha naval]. Eu também não desejo que o Benfica e o José Mourinho vençam a Liga dos Campeões, pois não desejo voltar atrás no tempo, não desejo voltar a ver o Sporting jogar contra o Bayern de Munique ou o Paris Saint-Germain: ficámos em sétimo na primeira fase, passámos a eliminatória contra o FK Bodø/Glimt e não se fala mais nisso. Se o Benfica quer voltar atrás no tempo, se tem contas para ajustar com o Real Madrid, que faça o que deve fazer, mas não nos atrapalhe, não nos aproxime sequer desse buraco negro, dessa confusa relação espaço-tempo. 

Assim, a vitória [do Sporting] contra o Alverca por quatro a um não tem, não pode ter, de facto, grande interesse ou só tem interesse na exata medida em que permite outras notícias e outras afirmações que alimentem o corrupio mediático nacional. Espreme-se, espreme-se e, deste jogo, desta vitória, consegue-se arrancar a custo, a muito custo uma alegoria moral a partir da relação entre o João Pinheiro e o Luis Suárez. A parábola conta-se em poucas palavras [não são assim tão poucas, mas diz-se por dizer-se, sem levar a sério o que se diz, por hábito]. 

Era uma vez um árbitro, um árbitro muito, mas muito desconfiado chamado João Pinheiro. Não via, desconfiava e apitava sempre que desconfiava. A coisa em si mesma, o real, era substituída pela sua interpretação, a sua subjetividade, a sua forma de ver o mundo, a sua desconfiança, enfim. No Domingo, quando o Luís Suarez se estatelou na grande área do Alverca, o João Pinheiro, desconfiou que havia falta do guarda-redes e, se assim pensou [ou desconfiou], mais depressa marcou “penalty”. O Luís Suarez disse-lhe que não, que não havia falta nenhuma, que não devia marcar “penalty”. O João Pinheiro não desarmou [à primeira], mas o videoárbitro perscrutou e mandou-o ver com olhos de ver. Viu, reviu e desconfiou, se não era falta, se não era “penalty”, se a culpa dele também não era, sobravam as [boas] intenções do Luís Suarez, mostrando-lhe, assim, o cartão amarelo por comportamento antidesportivo. O jogo continuou e, logo a seguir, o Luís Suarez marcou o dois a zero, numa jogada individual, escrevendo Deus direito por linhas travessas. Moral da história, quem porfia, desconfia e, quanto mais desconfia, mais e mais alcança.

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