quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Fezadas e temas conexos

Os treinadores portugueses ou o treinador português, melhor dizendo, devia constituir-se como uma Denominação de Origem Protegida (DOP), uma Indicação Geográfica Protegida (IGP) ou uma Especialidade Tradicional Garantida (ETG). A afirmação "I think I'm a special one" do José Mourinho não passa de uma forma hiperbólica de reclamar este estatuto no contexto europeu. Há uma característica inimitável do treinador português que não é devidamente reconhecida, a fezada e a sua transformação em princípios tecno-táticos fundamentais do futebol moderno. O conceito é simples, mas de difícil aplicação bem-sucedida, ter uma fezada é ter confiança em algo sem que exista evidência [analítica ou empírica] que a sustente. 

O Rui Borges tem elevado a fezada [enquanto tecno-tática futebolística] à quinta potência. De memória, lembro-me dos jogos contra o Marselha, o Paris Saint-Germain ou o Atlético de Bilbau, por exemplo: cada um destes jogos não atava nem desatava e no seu finzinho o Rui Borges mete o Allison Santos, um rapaz do Leiria, e foi tiro e queda. Foi uma, foi duas, foi três vezes e a situação deixou de ser sustentável. Se a fezada resulta com [esta] frequência deixa de o ser, isto é, passa a existir evidência [empírica] e a fezada deixa de ser o que é, uma fezada. Deixando de ser útil para o Sporting enquanto fezada, a transferência para o Nápoles era inevitável e não, não se transferiu o Allison Santos, um rapaz do Leiria, o que se transferiu, aquilo que verdadeiramente vale o que o Nápoles pagou, foi esta fezada, uma fezada de créditos firmados na Liga dos Campeões. 

Sem esta fezada, os jogos continuaram a decidir-se nos últimos minutos, agora, pelo Luís Suárez. É difícil transformar o Luís Suárez numa fezada, atendendo a que não corre como se não houvesse amanhã, não mete os olhos no chão e [até] passa a bolas aos seus colegas. A controvérsia instalou-se, mas por pouco tempo, pois, no Domingo, no jogo contra o Famalicão, o Luís Suárez não podia jogar. Os jogadores estavam com a sua habitual modorra e o jogo foi-se arrastando, arrastando até se chegar aos últimos minutos e, como habitualmente também, lá se marcou o golo do costume. O marcador foi o Bragança, de cabeça, a saltar ao primeiro poste, a dar de raspão na bola e a enfiá-la no outro lado da baliza. 

Como ele próprio confessou, nunca tinha marcado um golo de cabeça e, assim sendo, concluo eu, também não sabia bem o que estava a fazer ao primeiro poste e, muito menos, porque carga de água resolveu saltar e cabecear a bola como a cabeceou. Para os mais apressados, estava encontrada a nova fezada, tanto mais que o Bragança começou como suplente e só entrou em campo na parte final do jogo. É nestes momentos que o Rui Borges nos surpreende, nos expõe os seus pensamentos mais disruptivos. O golo, o resultado, não se devia ao Bragança ou ao Bragança como fezada, mas à fezada de trazer as afilhadas para ver o jogo. Se têm dúvidas, vejam o que aconteceu ao Benfica anteontem contra o Real Madrid porque [e só porque] as afilhadas do Rui Borges e do Trubin já estavam a dormir.

O Porto, o Porto clube, protestou, protestou muito. Não havia direito, o Sporting faz o que lhe apetece e ainda lhe sobra tempo, não respeita nada nem ninguém, não cumpre as regras da UEFA e da FIFA, não retira as bolas, os pinos e os apanha-bolas quando se vê a ganhar, nem sequer arranja um larápio de toalhas de guarda-redes. O Frederico Varandas reagiu com veemência, com alguma brutalidade até: não está em causa o roubo das toalhas durante o jogo, mas a sua não devolução depois de ele acabar e, assim, enquanto não lhe devolverem as toalhas, o Sporting também não as vai roubar a ninguém. Sobre as bolas, os pinos e os apanha-bolas foi mais evasivo, mas não podia ser de outra forma, dada a delicadeza do assunto. O Sporting não consegue rivalizar com o Porto e ninguém se surpreende quando não arregimenta miúdos de educação esmerada, miúdos do Colégio Valsassina, do Colégio de São João de Brito ou assim.

O Famalicão também protestou e muito. Esmiuçaram o que havia para esmiuçar no golo que lhes foi anulado e as suas razões ficaram muito, mas muito bem explicadinhas. Sabem que depois de um golo, o videoárbitro deve verificar se houve alguma irregularidade que não foi devidamente sancionada pelo árbitro e, se assim for, então, deve ser anulado. Mas o que o treinador e um outro senhor que manda no Famalicão também sabem é que a FIFA e a UEFA sim senhora, mas rever não é ver, é ver de esguelha na melhor das hipóteses, é ver com recurso ao Braille [à ponta dos dedos], é ver enquanto se come uma sandes de courato e se bebe uma mini. Quanto a isto não se tem muito a dizer e compreendo o silêncio comprometido do Frederico Varandas. Sempre que me falam da UEFA e da FIFA, destas duas ONG, até me vêm lágrimas aos olhos ao lembrar-me do Michel Platini e do Joseph Blatter apanhados quando carregavam comida e mais comida às costas para um campo de refugiados no Botswana.

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