sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Coisas e mais coisas

Nesta segunda-feira, no clássico Porto – Sporting, passaram-se, como é que hei de dizer, coisas, sim, coisas, é a melhor definição para estas coisas em si mesmas, não sei se me faço entender. Quando o jogo se aproximava do final, uns miúdos arrumaram as bolas e não havia bolas para ninguém. Muitos e muitos sportinguistas rasgaram as vestes, porque sim, porque não há direito, porque o Villas-Boas até se escreve com dois éles e um hífen como o beto da Foz que é e sempre foi, porque é anacrónico [não estamos no tempo da fruta, do apito ou do guarda Abel nem os jogadores têm bigode], porque o Farioli até fala estrangeiro e tudo, etc., etc., etc.

Pedi ao meu sobrinho João, portista envelhecido em casca de carvalho, uma explicação, uma análise. A explicação é simples para quem sabe do que fala, para quem conhece o Porto como a palma das suas mãos, o Porto clube e o Porto cidade e a sua burguesia refinada no contato com os ingleses do Vinho do Porto. O jogo foi tarde, muito tarde. Não lembra a ninguém começar um jogo às 20.45h num dia da semana com aulas no dia seguinte. Um a um, cada miúdo foi trazido para casa por uma orelha não sem antes deixar tudo arrumado, muito bem arrumadinho, como deve ser, como mandam as mães. É a educação esmerada destes miúdos que lhes permite depois serem pais de miúdos com educação mais esmerada ainda, ontem no Colégio das Caldinhas, hoje no Colégio do Rosário. 

Também houve problemas com o aquecimento dos balneários. Quem nunca teve aquecimentos com problemas em casa, aquecimentos de vidro, que atire a primeira pedra. Os jogadores do Sporting, queixinhas, vieram dizer que estava muito quente. Deviam viver em minha casa, onde para se poupar na conta do gás nunca se liga o aquecimento central. Deviam acordar com o pingo no nariz e deitar-se ainda com o pingo no nariz, dia após dia. O Porto explicou muito bem, são contra o centralismo, o centralismo de Lisboa, mas não veem qualquer problema no centralismo do aquecimento: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Ou se centraliza o aquecimento ou se descentraliza o aquecimento e não se sabe onde se para, cada jogador sua escalfeta, é isso que querem?

Houve mais coisas, coisas como o roubo de umas toalhas ao guarda-redes do Sporting que ele usava para limpar as luvas ou lá o que é. Mas quem é que se importa com toalhas? Vai-se à Feira de Espinho ou à Feira da Vandoma e traz-se uma dúzia delas, daquelas de turco, fofinhas, em tons de azul, por tuta e meia. Não duram muito, desbotam lavagem após lavagem, mas servem muito bem para limpar as luvas ou lá o que é. Por tuta e meia querem o quê? Toalhas de marca? Toalhas Buddemeyer em algodão egípcio ou Toalhas Trussardi Maggiore? Tenham juízo e não se armem em finos: limpem as luvas ou lá o que é nos calções, na camisola ou no que tiveram mais à mão. 

Na segunda-feira fui ao Theatro Circo ver o filme “Pai, Mãe, Irmã, Irmão”, realizado por Jim Jarmusch, com atores como o Tom Waits, a Charlotte Rampling ou a Cate Blanchett. Não vi o jogo, portanto. Valem-me os diferentes canais de televisão sempre a informarem coisas e mais coisas, coisas importantes, sem dúvida. Quanto é que ficou o jogo, alguém me sabe dizer? Agradecia. 

13 comentários:

  1. Gostei muito do seu comentário como sempre caro Rui Monteiro. Você foi ao cinema enquanto eu tentava ver o jogo no computador. Quem tenta esse tipo de experiência

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  2. ...sabe muito bem que não vai ver o jogo! Eu sirvo-me do Flashscore para acompanhar o score! É claro que não gosto de pagar seja o que for por um mau jogo! Também é claro que não vi os lances de que o nosso Sporting se queixa mas subsequentes leituras fazem-me adivinhar que aconteceram mesmo.
    E é pena que a tradição tenha de ser respeitada! Não quero ser eu a informá-lo sobre o resultado mas você tem um sobrinho que lho dirá. Se tiver coragem, claro.
    Venha mais vezes comentar mais não seja para me falar daquilo que eu não pude ver!
    Um abraço leonino
    Aboím

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    1. Caro Aboim,

      De vez em quando tenho saudade e volto uma vez ou outra para ver se ainda mantenho algum jeito para dizer disparates sobre o futebol. Não sei se o Flashscore informa sobre o essencial, nem a própria transmissão sequer. Precisamos de reportagens em direto com alguém da CM TV a ver os balneários, a filmar o roubo das toalhas ou a arrumação das bolas. Esta coisa de se dar atenção ao jogo propriamente dito nunca foi uma tradição nacional.

      Abraço,
      RM

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  3. Excelente, Rui! Parabéns.

    Pedro Azevedo

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  4. Ironia tão fina quanto uma “seda charmeuse” (ou “Amoreira”)

    Pedro Azevedo

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    1. Caro Pedro,

      Comprei "A Violência e o Escárnio" de Alberta Cossery, embora ainda não o tenha lido. Não o li mas já aprendi com ele, citando-o: "Sei aprenas duas coisas muito simples. O resto não tem importância. A primeira é que o mundo onde vivemos é regido pela mais ignóbila quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta. A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a ´serio; é isso que eles querem, que os levemos a sério".

      Grande abraço,
      RM

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  5. Caro Liedson Rui Monteiro, o texto é delicioso, mas esse conformismo sobre o Porto só pode vir de quem nunca percebeu que a nossa essência é precisamente o contrário: inconformismo. No Dragão não se pede desculpa por ser intenso, competitivo e astuto — isso chama-se identidade. Enquanto uns choram por bolas, toalhas e termostatos, outros ganham jogos e títulos.
    Dito isto, justiça seja feita: o Sporting tem uma excelente equipa, bem trabalhada, competitiva e com qualidade. O problema não é perder no Dragão — isso já aconteceu a muitos grandes. O problema é achar estranho que ali se jogue para ganhar sempre.
    O Porto continuará a incomodar. E ainda bem. 💙🐉
    Teresa Gradim

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    1. Teresa,

      Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, citando-me. Acho bem o inconformismo portista. Como trabalho no Porto há mais de três décadas, também aprecio esse inconformismo portuense em muitas das questões que envolvem a nossa vida coletiva. Mas o futebol é só futebol e, sobretudo, não consigo compreender a relação entre futebol, por um lado, e foguetes, toalhas e miúdos a esconder bolas, por outro.

      O Porto é muito, mas muito mais do que o seu clube de futebol: é a Casa da Música, é Serralves, é o S. João, é a Universidade do Porto, etc., etc., etc. Confundir o Porto com o seu clube diminui a cidade e os portuenses, como bem percebeu o Rui Rio.

      Beijos,
      RM

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  6. Os apanha bolas do Porto, até já marcaram golos na baliza do Sporting. E valeram. Portanto, esconder as bolas já não foi mau.

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    1. Meu caro,

      Tem toda a razão. O Porto tenta replicar as suas práticas com décadas e décadas de sucessos. Não consegue completamente porque já não há apanha-bolas como antigamente. Já não vêm da Ribeira, onde só há turistas, mas do Colégio do Rosário!

      SL
      RM

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Caro Rui,

    Obrigado pelo seu texto que já leio com muito atraso.

    O jogo do Dragão foi uma clara evidência que o Sporting até pode andar aqui uns anos enganado a ganhar mais do que os rivais do Norte, mas continuamos a anos luz deles. Em matérias de gestão de apanha-bolas, decoração de balneários ou criar confusões para sacar uns amarelos levámos uma lição. Em matéria de futebol a lição foi para ambos os lados (ou talvez para os adeptos?): nem o chamado 'jogo do título' vale uma boa ida ao cinema ou um serão a ler Albert Cossery!

    SL,

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    1. Obrigado, João, ainda vem muito a tempo.

      No Porto ou contra o Porto, não há futebol sem folclore, o folclore (re)inventado por António Ferro para promoção da cultura popular e do regime. A modernidade não chega, nunca chega ao pontapé na bola da cidade invicta.

      Ora, de futebol, do meu Sporting gosto, do folclore não gosto, embora também saiba tocar acordeão. Como diz o Tom Waits, “Um cavalheiro é alguém que sabe tocar acordeão, mas não o faz”.

      Abraço,
      RM

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