O Porto, clube, de Pinto da Costa podia dar um filme [e que filme!], um filme de “gangsters”, com atores carismáticos, desde os mais antigos, como James Cagney, Edward G. Robinson ou Humphrey Bogart, protagonistas de “Heróis Esquecidos” ou “Anjos de Cara Suja”, aos mais recentes, como Robert De Niro, James Caan, Marlon Brando, Al Pacino, James Woods ou Joe Pesci, protagonistas do “Padrinho” ou do “Era uma vez na América”. No entanto, um filme de “gangsters” português não é, nunca pode ser igual a um americano, pois, num país pindérico como o nosso, o Estado Novo nunca permitiria a “Lei Seca” enquanto “beber vinho desse de comer a um milhão de portugueses” e não se compara a sordidez de boates como o "Calor da Noite" ao “glamour” de “speakeasies” como o "21" Club de Nova Iorque [e não, ninguém associaria “golden whistle” a fruta ou a café com leite].
Podia dar um filme se fosse interessante recriar [no presente] esse passado, mas, há uma semana atrás, no jogo contra o Manchester City para a Liga dos Campeões, o Porto, clube, lembrou-nos que o tempo nunca muda, não havendo passado [só presente, um eterno presente]. No livro “A Terra Onde o Tempo Parou”, do escritor checo Bohumil Hrabal, são os habitantes de uma localidade que se recusam a compreender a mudança dos tempos num determinado contexto histórico [antes, durante e após a II Guerra Mundial], continuando a viver habitualmente; no Porto, clube, os tempos nunca mudam, sejam as pessoas quais forem, seja o contexto histórico ou a localidade qual for. No Porto, clube, chama-se identidade a esta [estranha] forma de resistência ao tempo que passa [mesmo repetindo-se a história como farsa, com bolas, toalhas ou lixívia].
Notável texto sobre a preversa utilização do conceito da identidade como mecanismo de rejeição da mudança. Não por acaso terá havido a dado passo uma guerra de bastidores entre os que defendiam um regionalismo exarcebado, fundado numa identidade mítica, por oposição à regionalização enquanto projecto de reorganização do estado democrático.
ResponderEliminarNessa altura os identitários, com Pinto da Costa à cabeça, prestaram um grande serviço aos centralistas/lisboetas, que ele declarava desprezar, contribuindo para sabotar a regionalização.
O Porto de Vilas Boas reergue-se recorrendo a essa mitificação desse peesente eternamente vitorioso.
Enquanto aguardo pelo meu exemplar da Terra onde o Tempo Parou, vou acabando de ler o meu segundo Cossery, o extraordinário "Mandriões no Vale Fértil".
A influência de um blogue pode ultrapassar a sua identidade desportiva e isso ser um prazer para os seus leitores.
JG
Meu caro,
EliminarAnálise muito, muito lúcida. Dispomos de uma organização territorial do Estado português que remonta à reforma de Passos de Manuel. Se uma organização que remonta a meados do Século XIX ainda hoje nos serve no primeiro quartel do Século XXI vou ali e já venho. Existe uma geografia administrativa dissonante da geografia funcional, que não dá resposta às necessidades das famílias e das empresas. A regionalização político-administrativa [não confundir com regiões autónomas] serve para dar resposta a este problema e não para transpor para o plano político quaisquer identidades territoriais, ainda para mais contruídas a partir do futebol.
Pinto da Costa prestou um péssimo serviço ao Porto e ao Norte de Portugal ao promover essa confusão entre identidades inventadas a propósito do futebol e assuntos sérios, como a regionalização, de tal forma que a regionalização começou a ser tratada como um Porto-Benfica permanente ao som do “quero ver Lisboa a arder”. O objetivo também foi sempre o de a partir deste regionalismo de vão de escada vitimizar-se fosse qual fosse a patifaria com árbitros e casas de alterne.
Quantos aos autores, li os livros de Alber Cossery que estão hoje disponíveis [“As Cores da Infâmia”, “Mandriões no Vale Fértil”, “Mendigos e Altivos” e “A Violência e Escárnio”] e não consigo recomendar nenhum ou só consigo recomendar que os leia todos pois diverti-me imenso a ler qualquer um. Quanto ao Bohumil Hrabal também recomendo todos, mas especialmente o “Comboios Rigorosamente Vigiados”.
Abraço,
RM
O filme ainda não foi anunciado mas o livro, “ Golpe de Estádio “ está à venda 😆
ResponderEliminarMeu caro,
ResponderEliminarO Marinho Neves foi muito corajoso ao dizer o que todos sabíamos, mas não éramos de dizer. Ficcionou a verdade, mas de tal forma que a ficção não passava da realidade em carne viva.
SL
RM