sábado, 17 de outubro de 2026

Aquela máquina

 

Não é certo que a bolha onde sobrevive o futebol português seja um lugar habitável. Mas convém não exagerar. Considerando algumas vozes da especialidade, parece que o Benfica teve mais uma grande noite europeia. A liga dos campeões é um bem supérfluo perto da grandiosa liga europa. Assim nos contam as vozes e as imagens que deslumbram os nossos olhos quando os pousamos nos jornais do dia. Parece que ganhar aos mineiros de Lens, jogando com uma equipa cuja média de idades não ultrapassava os 24 anos, cheia de nomes famosos como Kaique, João Simões, Irankunda e Quaresma, não lembra ao diabo; ou então é apenas uma formalidade ganhar ao segundo classificado da liga francesa no seu estádio. “União Europeia” e “Leão solidário” - escrevia o jornal A Bola. O mesmo jornal onde se podia ler sobre o jogo do Benfica: máquina ofensiva encarnada. Não sei qual foi a capa dedicada ao Porto, mas parece que as frutarias são raras em Sevilha. Uma cidade que vale a pena visitar.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Bem pensado!

Silas Andersen: «Vi o Issa [Doumbia] a correr e pensei que ele talvez precisassse da bola!...»

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Um país chalupa, um país de chalupas

Nós, portugueses, temos elevada autoestima em tudo o que mexe com pontapés na bola. Com uma autoestima destas, é difícil de nos (auto)convencermos que não ganhámos o Campeonato do Mundo [e ganhámos o Campeonato Europeu às três pancadas com a preciosa ajuda do Professor Karamba] porque não somos tão bons como nos julgamos. Temos bons jogadores e jogadores que jogam em boas equipas nos melhores campeonato, mas as outras seleções também têm bons jogadores e jogadores que também jogam em boas equipas nos melhores campeonatos. Havia um e um só que se distinguia dos demais, pelos títulos, individuais e coletivos, por ser considerado o melhor do Mundo em várias épocas e um dos melhores de sempre: o Cristiano Ronaldo.

Tínhamos de descarregar esta nossa frustração, esta raiva incontida e, ano após ano, os nossos comentadores foram-nos oferecendo um alvo para essa ira: se jogamos com o melhor do Mundo e se não ganhamos o Campeonato do Mundo, então, a culpa só pode ser do melhor do Mundo. Esta doença coletiva devia ter sido devidamente sublimada por um psicólogo, por alguém que soubesse da coisa e não por pessoas que sabem coisas, do tipo coisas que nós sabemos que eles sabem. Ninguém se perguntou porque carga de água é que o convocavam, jogo sim, jogo também, se era tão mau, mas tão, tão mau como o pintavam [não, não há evidência de ele se ter apresentado na Casa da Seleção sem ser convidado].

Ontem, o homem foi-se embora de vez e o país respirou profundamente aliviado, como há muito não o fazia, sentindo-se como há muito não se sentia. O mal não foi sublimado, mas exorcizado, estripado por um homem corajoso, um homem que não tem medo de nada nem de ninguém, o nosso Gil Eanes, o nosso Bartolomeu Dias do pontapé na bola. Resta-me uma dúvida: se falharmos hoje, amanhã ou depois, se não ganharmos a Liga das Nações, o Campeonato da Europa ou o Campeonato do Mundo vamos atribuir a culpa a quem? Ao Gonçalo Ramos, é isso? Ou ao Vitinha, ao Rúben Dias ou ao Palhinha? Talvez tenhamos de passar por isto para que alguém nos volte a abraçar, a dar colo ou nos coloque no divã e nos faça perguntas sobre a nossa infância e o nosso amor incompreendido pela mãe ou pelo pai.