quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Um país chalupa, um país de chalupas

Nós, portugueses, temos elevada autoestima em tudo o que mexe com pontapés na bola. Com uma autoestima destas, é difícil de nos (auto)convencermos que não ganhámos o Campeonato do Mundo [e ganhámos o Campeonato Europeu às três pancadas com a preciosa ajuda do Professor Karamba] porque não somos tão bons como nos julgamos. Temos bons jogadores e jogadores que jogam em boas equipas nos melhores campeonato, mas as outras seleções também têm bons jogadores e jogadores que também jogam em boas equipas nos melhores campeonatos. Havia um e um só que se distinguia dos demais, pelos títulos, individuais e coletivos, por ser considerado o melhor do Mundo em várias épocas e um dos melhores de sempre: o Cristiano Ronaldo.

Tínhamos de descarregar esta nossa frustração, esta raiva incontida e, ano após ano, os nossos comentadores foram-nos oferecendo um alvo para essa ira: se jogamos com o melhor do Mundo e se não ganhamos o Campeonato do Mundo, então, a culpa só pode ser do melhor do Mundo. Esta doença coletiva devia ter sido devidamente sublimada por um psicólogo, por alguém que soubesse da coisa e não por pessoas que sabem coisas, do tipo coisas que nós sabemos que eles sabem. Ninguém se perguntou porque carga de água é que o convocavam, jogo sim, jogo também, se era tão mau, mas tão, tão mau como o pintavam [não, não há evidência de ele se ter apresentado na Casa da Seleção sem ser convidado].

Ontem, o homem foi-se embora de vez e o país respirou profundamente aliviado, como há muito não o fazia, como há muito não o sentia. O mal não foi sublimado, mas exorcizado, estripado por um homem corajoso, um homem que não tem medo de nada nem de ninguém, o nosso Gil Eanes, o nosso Bartolomeu Dias do pontapé na bola. Resta-me uma dúvida: se falharmos hoje, amanhã ou depois, se não ganharmos a Liga das Nações, o Campeonato da Europa ou o Campeonato do Mundo vamos atribuir a culpa a quem? Ao Gonçalo Ramos, é isso? Ou ao Vitinha, ao Rúben Dias ou ao Palhinha? Talvez tenhamos de passar por isto para que alguém nos volte a abraçar, a dar colo ou nos coloque no divã e nos faça perguntas sobre a nossa infância e o nosso amor incompreendido pela mãe ou pelo pai.