segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Falhar ganhando

 

Este começo de época o Sporting tem sido uma contradição. Isso só é bom quando esta resulta de um movimento obscuro inacessível aos adversários. Todo o resto tem os seus honorários. Não basta mudar – é preciso acreditar que faça efeito (principalmente dentro do balneário). Seria mais ou menos isto que Maquiavel diria ao treinador Rui Borges se por acaso o encontrasse por Mirandela. Um amigo meu acrescentaria, rindo-se: os meios vão criando os fins.

A pré-época correu bem, mas estava alguém a ver? Estava. Esse é um dos problemas da pré-época: ser a pré-época. O seu campeão habitual, o Benfica, tem confirmado - pelo menos nos últimos anos, que ser campeão antes do campeonato começar não quer dizer grande coisa. Às vezes o mesmo acontece durante a época das vindimas ou no Natal.

O Sporting fez a sua escolha, ou como dizem os comentadores que memorizaram os resumos dos manuais feitos pela IA: abriu um novo ciclo, ou escancarou. Isso tem custos. Para toda a gente. A derrota no final da taça não foi esquecida. A renovação com o treinador antes do final da taça não foi esquecida. O discurso intrusivo (estou a ser simpático) do presidente na apresentação da renovação do treinador não foi esquecido. O silêncio do treinador também não. A cautela tende ao silêncio – escreveu um dia Giorgio Manganelli.

Torna-se então necessário conceber uma nova ficção sem grande frisson ou arrepios estéticos de alguma ordem: a sensibilidade de alguns artistas nem sempre o permite. Não basta mudar – é preciso acreditar que faça efeito.

“Errámos a ganhar” – disse Rui Borges sobre o golo do Alverca a fechar. Tem sido assim: errar a ganhar já deu para um susto e um empate. Enquanto a equipa não é uma equipa, enquanto a ficção ganha tempo, enquanto as bancadas desconfiam, é preciso falhar ganhando. Falhar (sempre) cansa. E já não estamos habituados.

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