domingo, 16 de agosto de 2026

O futuro já foi melhor


Ao intervalo (nos dois primeiros jogos): terão sido dadas instruções ou sedativos?

Nota: Sedativos - substâncias que deprimem o sistema nervoso central, reduzindo a ansiedade, a irritabilidade ou a excitação e induzindo o relaxamento ou o sono.

Anos atrás, Rúben Amorim e o seu braço direito Hugo Viana (com a anuência desesperada do presidente) criaram uma ficção. Não se tratava (apenas) de uma ideia de jogo – antes uma sequência interminável de imagens que fizeram o seu curso rumo a uma nova dramaturgia, cujo mito (enraizado) poderia eventualmente ser resumido: “onde vai um vão todos”. Naqueles últimos onze jogos, onze vitórias - para o campeonato - antes da exportação de Amorim, incluindo o último jogo em Braga (Amorim com as malas feitas) sentia-se no ar o smells like victory – como o napalm pela manhã do Coronel Kilgore, interpretado por Robert Duvall no filme Apocalipse Now.

O futebol faz-se (ainda se faz) de lendas e narrativas, de mitologias que agregam um grande conjunto de pessoas à volta de um campo de futebol (mesmo que estejam a ver o jogo em casa ou a ouvir o relato na Tasmânia). A isso se chama mística. Amorim conseguiu unir a malta ao ponto de estarmos todos em jogo – e ninguém ficava (muito) para trás.

Rui Borges herdou a engrenagem com os cobradores e maquinistas mais importantes, incluindo os gestores de apeadeiros e os que gostam apenas de ver passar comboios. Aproveitou o saber como (os ingleses chama-lhe know-how) e foi campeão. No ano seguinte (ainda com os protagonistas quase todos, excluindo Gyökeres) parecia que a farpela já não vestia tão bem, como o dominó errado do poema de Pessoa (deixem passar o armanço) – conheceram-me logo por quem não era. Bom, não foi quase logo, embora nos jogos principais fizesse a sua diferença. A eliminação nos quartos com o Arsenal (na sequência de uma grande liga dos calmeirões) mostrou paradoxalmente um Sporting aliviado – alguns jogadores incharam tanto que nunca mais voltaram ao sítio, outros esvaziaram rapidamente e só queriam que a época terminasse. O final foi burlesco, a equipa parecia uma ex-equipa, arrastando a usa indolência como um caracol em vacances.

Uns saíram, outros entraram (essa análise ficará para outra oportunidade). Compete à equipa técnica (principalmente ao treinador) costurar e juntar os pedaços até que estes se assemelhem a uma equipa. Caso não tenha grande jeito para a ficcionar, poderá sempre optar pelo ensaio livre ou recorrer ao teatro de revista. No limite poderá optar pelo documentário ficcionado, onde se explicará por A mais B que tudo não passa de um embuste para endrominar os adversários, deixando-os confusos – ao ponto de os próprios jogadores duvidarem de si próprios e da equipa.  

Ao intervalo: terão sido dadas instruções ou sedativos? Não se sabe qual destes temer mais.

 

6 comentários:

  1. Isso terá sido quando os sinais eram bons A dada altura a comissão de liquidação do passado que se queria apagar, parecia ter o trabalho concluído com invulgar brilho e grande proficiência.
    Foi então que as coisas passaram a ter duas partes. Cada uma com a sua própria narrativa. Uma boa a outra terrivel.
    Com a agravante de a segunda poder anular as coisas boas da primeira. Torna-se dificil olhar para o futuro sabendo nós que o que aí vem costuma, nestas duas jornadas, ser muito assustador. Parece-me que uma adequada mudança da prescrição do intervalo pode ser a solução. Se mesmo assim as tremuras e o medo persistirem talvez se possa recorrer ao Bragança, ao Pote e, talvez, ao Nel para exorcizar os fantasmas que vieram piorar o futuro, logo agora que o Lyon Corner parecia ser o local de um futuro mais risonho e mais confortável ainda que mais beto.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Meu caro,
      Comissão de liquidação é muito bom. Talvez de demolição fosse mais apropriado. Ainda falta demolir ou tornar o Borges um mero espectador (não nos esqueçamos que assinou ainda com o Viana em trânsito) redundante dos feitos da oriundos das alturas.
      Relativamente ao resto, talvez seja interessante começar a treinar igualmente as "segundas partes" e olhar para o plantel como um todo. A miúfa não ajuda nada...

      SL

      Eliminar
    2. "tornar o Borges um mero espectador" era a minha utopia antes do último defeso. Debalde, que a comissão de demolição - concedo que é uma designação mais adequada à crescente sensação de que o futuro já foi melhor - tinha outras ideias, sobre os méritos e os deméritos dos que acabaram exaustos nas Linhas de Torres. Agora, que a demolição foi concluída, constata-se que, surpreendentemente, chegam todos abananados -estou a citar o nosso Borges - ao início das segundas partes.
      Talvez se possa voltar ao principio e rever os procedimentos, com o ponto focal no que não se pode fazer ao intervalo. Talvez se deva impedir a continuação das rotinas desse suposto tempo benéfico, revigorante mesmo , até se descobrir porque razão elas se tornaram tão entorpecentes. Talvez possam começar por não fazer nada e verificar o efeito. Talvez se possa aproveitar o Lion Corner e convidar o Borges e o staff para desfrutar.

      Eliminar
    3. Mau caro,
      Por outro lado, pensando bem, será conveniente manter alguém como o Borges em lume brando. É da literatura musical, próxima do futebol: se corre o bicho vem, se parar o bicho pega... n'est-ce pas??
      SL

      Eliminar
  2. Parece que o Corner beto é Lion e não Lyon, como o londrino.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Meu caro,
      Até nisso o poder se adapta: ao mesmo tempo que os puffs lion negoceia-se a curva sul. Não vá o...

      Eliminar