segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

#ondevaiumvãotodos# ou uma greve [em forma de] assim-assim

Há pouco mais de três anos, Artur Soares Dias [vídeo-árbitro] vislumbrou um leve roçagar da melena do Coates no borboto do punho da camisola do guarda-redes e vá de chamar o Luís Godinho [árbitro] para anular o golo no finzinho do jogo [do Sporting] contra o Famalicão. O Luís Godinho jurou que viu a melena, que viu o roçagar, que viu o borboto, que viu tudo o que Artur Soares Dias lhe disse que viu e o Sporting, bem, o Sporting empatou. Há males que vêm por bem e, assim, o “onde vai um, vão todos” da conferência de imprensa do Rúben Amorim acompanhou-nos até ao título.

Há anos, apanhámos uma greve de árbitros. No sábado, uma de polícias [não foi bem uma greve, uma propriamente dita, foi mais uma em forma de assim-assim]. Nunca mais apanhamos uma de trapezistas, de malabaristas, de palhaços ou de bicharada amestrada. Treinadores adeptos do “meia bola e força” ou do “bola para o mato que o jogo é de campeonato” costumam afirmar que, quem deseja assistir a um espetáculo, deve ir à ópera. Ora, por estas ordens de razão, quem quer circo, deve ir ao circo, a não ser que haja greve [dos artistas] ou o urso esteja constipado. 


[Os impactos da falta de polícia não são neutros no que aos resultados e classificações diz respeito. Nós, sportinguistas, sabemo-lo bem. No sábado, houve uma generalizada epifania. É estranho, não é?!]

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Ver futebol no café como quem vai ao cinema

Ontem era dia de ir ao Theatro Circo, ao cinema, ver “Folhas Caídas”, realizado por Aki Kaurismäki, finlandês que passa metade do ano em Viana do Castelo. O ritual de ir ao cinema não é, não pode ser o mesmo de ir ver a bola no Flávio [se tivesse pescoço para isso, nunca deixaria de ir ao cinema sem uma camisola de gola alta preta]. Chego à bilheteira e o filme está esgotado. Tento mostrar-me consternado, não me é permitida outra atitude [sim, ou melhor, não, não procuro parecer o tipo de pessoa que vai para os cafés ver a bola e escreve umas patacoadas sobre o que vê ou não vê, tanto faz]. Para que não restem dúvidas sobre a minha consternação, compro bilhetes para o filme da próxima segunda-feira [“Os Delinquentes”, de Rodrigo Moreno].

A atitude de quem se prepara para ir ao cinema não é a mesma de quem se prepara para ir ver a bola. Entro no Flávio ainda a tempo de ver o Trincão marcar mais um golo, depois do Edwards se embrulhar com a bola e dois adversários. Ainda com a atitude de quem vai ao cinema, procuro encontrar uma interpretação, uma explicação razoável para o que acabo de assistir. Não é simples compreender esta súbita vontade do Trincão de fazer o gosto ao pé jogo após jogo e mais do que uma vez por jogo, como ontem. Talvez Trincão tenha deixado de ter medo de existir, de encontrar a sua razão de ser, o sentido último de cada pontapé na bola, que carecia sempre de sentido, quanto mais de direção.

Com cinco a zero ao intervalo, não era de esperar uma segunda parte empolgante. Admitia até a possibilidade de julgamento no Tribunal Penal Internacional se ultrapassássemos o nosso melhor resultados dos últimos cinquenta anos. Esperava-me [esperava-nos] quarenta e cinco minutos de tédio. Recebo uma primeira mensagem “WathsApp” com notícias dos agricultores em França. Recebo outra com uma pequena chalaça: “É preciso acabar com a corrupção mesmo que se tenha de pagar algum por fora!”. Recebo a seguinte com um “link” para um guia metodológico para avaliação de políticas públicas. A meio de um jogo, uma mensagem destas de um sportinguista constituiu um pedido de socorro, na esperança de que alguém possa falar com o Gyökeres. Ou porque falaram ou porque não avisaram o Geny Catamo que o jogo tinha acabado, os rapazes do Casa Pia levaram ainda mais três [golos] de castigo.


[O meu amigo Pedro Almeida faz hoje anos, sessenta anos. Éramos amigos em Viseu e fomos, com um ano de diferença, estudar para Lisboa: eu agronomia, no Instituto Superior de Agronomia; ele economia, na Universidade Nova de Lisboa. Há muito que não nos (re)vemos. É, sempre foi, uma das mentes mais irrequietas que conheci e conheci muitas assim. Queria ser tudo, quase tudo na vida. Adorava escrever. Fazíamos noitadas a escrever à desgarrada. A partir de uma palavra ao acaso no dicionário, escrevíamos uma frase e depois outra e outra ainda até construirmos um texto. É a ele e a essa paixão inconsequente pela escrita que dedico esta postada, com um grande abraço pelo seu aniversário!]      

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Coisas importantes que os jogos da Taça da Liga ajudam a explicar ou a resolver

A análise do jogo de ontem [do Sporting] contra o Braga não é tão simples quanto parece ou, aliás, quanto parece a análise de qualquer jogo [de futebol como é bom de ver]. De um lado, estava uma equipa que tinha medo de perder; do outro, estava uma equipa que não tinha vontade de ganhar. Talvez não se possa dizer de forma absoluta, tão definitiva, mas as proporções entre medo de perder e vontade de ganhar correspondem grosso modo à atitude das duas equipas no início do jogo. O Sporting entrou ao ataque, mas, desconfiado, com cada jogador a avançar enquanto olhava pelo espelho retrovisor, isto é, com medo de perder. O Braga queria levar o zero a zero tão longe quanto possível [se fosse até aos “penalties” tanto melhor], esperando que caísse dos céus aos trambolhões um erro ou um alívio mal feito do adversário, uma bola vadia, isto é, sem vontade de ganhar. 

No final, quem tinha medo de perder, perdeu; quem não tinha vontade de ganhar, ganhou. Diz-se que Deus escreve direito por linhas travessas. Talvez assim seja e, se assim for, temos um Deus brincalhão que gosta de jogar à rabia com os treinadores e as equipas. Prefiro esta intervenção divina do que aquela que decorre da máxima, da seguinte lei que regula o universo: “quem não marca, sofre”. Trata-se de uma versão castigadora de Deus, que castiga os ricos [de oportunidades] e beneficia os pobres [de oportunidades], pois é deles o reino dos céus. Esta foi a primeira análise que me veio à cabeça embora não tenha a certeza que Deus não esteja a acompanhar com mais atenção a Taça Asiática: quem está disposto a perder o Tajiquistão contra o Quirguistão para ver a meia-final da Taça da Liga?

Há um outro ângulo de análise deste jogo que convém não menorizar. Vivem-se dias de chumbo em Braga. Ao fim de anos, o Braga está com os mesmos pontos do Guimarães no campeonato. Está em causa o equilíbrio do sistema urbano minhoto, a hierarquia funcional entre dois dos seus principais centros urbanos e a mobilidade interurbana. Está prevista a construção de um Metrobus entre Braga e Guimarães, com ligação à ferrovia [à Alta Velocidade ou Velocidade Elevada, não sei bem]. Estavam previstos bilhetes de ida e volta com partida de Guimarães e só de ida quando a partida fosse de Braga. O racional é simples: quem sai de Guimarães tem de regressar [ninguém o quer em Braga]; quem sai de Braga e vai para Guimarães não mais pode regressar [ninguém o quer de volta em Braga]. Se a hierarquia entre os dois clubes continuasse assim, esta bilhética [integrada] teria de mudar? Os bilhetes de Braga também seriam de ida e volta? Os bilhetes de Guimarães também seriam só de ida? Como compatibilizar a anterior com a atual bilhética? Enfim, Guimarães é tão [mas tão] importante como Braga?

Está-se a viver um contexto idêntico no Centro de Portugal desde que a Académica de Coimbra desceu à Liga 3, mantendo-se o Académico de Viseu na Segunda Liga. Num contexto como este faz sentido manter a Universidade de Coimbra em Coimbra? Não deveria ser transferida para Viseu [admitindo que os de Viseu quisessem aqueles constitucionalistas todos]? Ainda se deveria chamar de Coimbra? O que fazer do Politécnico de Viseu? Ficava ou ia para Coimbra? Se fosse, Coimbra ficava com dois politécnicos? Se ficasse, Viseu passaria a dispor de uma universidade e de um politécnico como Coimbra? Quem é mais importante? Coimbra? Viseu? Para mim é Viseu, não tenho dúvidas nenhumas. Nem sequer se comparam cidades que dispõem de clubes que jogam em divisões diferentes. 

A vitória de ontem veio (re)colocar as coisas [as cidades ou centros urbanos] nos seus devidos lugares [ou de acordo com as necessárias hierarquias funcionais] ou, pelo menos, não se volta a falar nisto tão cedo outra vez [convém também não acreditar tanto na sorte quando jogarem contra o Benfica]. 


[Esta postada é um pouco estúpida pois tem destinatários especiais. Eles sabem quem são. Eles sabem que eu sei e sabem que eu sei que eles sabem, como diria o Otávio Machado.]

domingo, 21 de janeiro de 2024

Ver sem ver

Continuamos jogo a jogo, crónica a crónica. Não interessa a maior ou menor proximidade à data do último jogo. Existe uma e uma só regra: a crónica de um jogo tem de preceder a realização do jogo seguinte. O jogo [do Sporting] contra o Vizela foi na quinta-feira. De lá para cá, muita água correu debaixo das pontes, mas passado é passado, ninguém o pode alterar, mas uma simples crónica ajuda a ter esperança no dia de amanhã [ou no dia de terça-feira, melhor dizendo, quando disputarmos a meia-final da Taça da Liga]. 

Na quinta-feira, jantei com uns colegas no Solar Moinho de Vento, no Porto, não havendo televisão por perto. Não vi o jogo, portanto. Há quem pense que ver o jogo é condição necessária [e suficiente] para se saber o que lá se passa [ou se vai passando]. Nada de mais errado, como nos explicam o Jorge Coroado, o José Leirós e o Fortunato Azevedo no jornal “O Jogo”. Segundo eles, o árbitro errou ao mostrar cartão amarelo ao Hjulmand do Sporting [15 minutos], ao não mostrar cartões amarelos ao Anderson e ao Escoval do Vizela [51 e 70 minutos]; ao não marcar dois “penalties” a favor do Sporting [68 e 88 minutos]. O árbitro estava a ver o jogo [há testemunhas]. Quanto ao vídeo-árbitro, nada se pode afirmar, nada se pode concluir definitivamente [no Solar do Moinho de Vento não estava, isso posso confirmar]. 

Ver o jogo não é condição necessária e suficiente para se ver o que nele vai acontecendo, como se demonstrou. Nem sempre se vê também porque uma imagem ou uma sequência delas pode resultar de efeitos especiais: o primeiro golo do Vizela fez-me lembrar a bicicleta a voar no E.T. [O Extraterrestre], mítico filme dos anos oitenta realizado por Steven Spielberg. Se nem sempre se vê o que se está vendo, o que está à frente dos olhos, então não se deve falar do que se não viu ou [de outra forma], ainda se acaba dentro do campo com o apito na boca a ver sem ver. Está visto, resta-nos continuar assim, a procurar o milagre de ganhar jogo atrás de jogo [com crónica atrás de crónica] e a esperar os jogos decisivos contra o Benfica e o Porto. Pode ser que nesses jogos se consigam duas goleadas que nos permitam ganhar por um ou dois a zero. A ver vamos [ou vamos ver, não sei bem].

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Crónica para cumprir calendário

Há coisas com as quais não se brinca. Não, não é aquela coisa do respeitinho ser muito bonito. É mais simples e mais complicado, pois sabemos que não devemos brincar com essas coisas, embora brincar com elas [racionalmente] também não tenha consequências [ou não aparente tê-las]. Desde o meu recente regresso à blogosfera, o Sporting só tem registado vitórias. A cada crónica sucede-se uma vitória, à qual se sucede uma nova crónica. Ainda não escrevi a crónica do jogo [do Sporting] contra o Chaves e o jogo [do Sporting] contra o Vizela é já amanhã. Como não se brinca com a sorte [ou o azar], vou escrever a malfadada crónica para não me sentir responsabilizado se alguma coisa vier a correr mal [cruzes canhoto]. 

Depois deste tempo todo, mal me lembro desse jogo e vou ter que consultar as mensagens que fui trocando. “Desde o Palombella Rossa, do Nanni Moretti, que não me interessava assim por um jogo de polo aquático!”, diz-me um amigo. Ora aqui está um bom ponto de partida para se escrever qualquer coisa sobre o Sporting e este jogo contra o Chaves. Nanni Moretti [ator para além de realizador] representa o papel de um dirigente do Partido Comunista Italiano no contexto da implosão do sistema partidário do pós-guerra [e das vésperas ascensão de Silvio Berlusconi a primeiro-ministro de Itália]. Uma e outra vez, vai-nos aparecendo o ator num momento decisivo, o momento da marcação de um “penalty” [num jogo de polo aquático]. 

A alegoria presta-se a diferentes interpretações e não vou ser eu a limitar a imaginação de ninguém. Há quem possa pegar pelo jogo; há quem possa pegar pela agonia do Partido Comunista Italiano; há quem possa pegar pelo Silvio Berlusconi e o seu Milan daquela época [com jogadores como Baresi, Maldini, Donadoni, Ancelotti, Rijkaard, Gullit ou van Basten]. O meu ângulo de análise, a minha interpretação é radicalmente diferente [disruptiva, seria a melhor forma de a qualificar]. O que este meu amigo me transmitia era que o relvado se assemelhava a uma piscina. Não se está em presença de uma metonímia, de uma sinédoque ou algo do género, mas de uma hipérbole. Eu diria de outra forma: alguém resolveu instalar um estádio e um relvado em plena Rede Ecológica Nacional e Rede Natura 2000. Ouvia-se o coaxar das rãs e andavam num vaivém espécies exóticas como um Esgaio, um Trincão ou um Paulinho. 

Quanto ao jogo, sim, quanto ao jogo [que eu estou cá para falar dele e só dele], começámos por falhar, continuámos a falhar e preparávamo-nos para concluir falhando. O acaso resolveu o problema e, depois de um pontapé de canto, de um cabeceamento falhado, de um passe com o braço de um jogador do Chaves, o Paulinho ficou como o Nani Moretti no momento do “penalty”. O Paulinho é muito menos sofisticado do que o Nani Moretti e, por isso, não refletiu politicamente sobre a situação tal e qual como lhe era ou foi apresentada e limitou-se a empurrar a bola para a baliza [os simples são assim, fazem as coisas sem pensar no que estão a fazer e nas consequências do que fazem ou se preparam para fazer]. O vídeo-árbitro demorou uma eternidade para validar o golo, admitindo-se também que estivesse a ver o Palombella Rossa e a refletir sobre as democracias liberais contemporâneas. Começando a segunda parte, o Nuno Santos faz um centro atrasado para a entrada da área e o Trincão colou a bola no ângulo da baliza. A probabilidade de se voltar a ver uma coisa desta do Trincão é a mesma de se ver duas vezes o Cometa Halley: quem viu, viu; quem não viu, bem pode ficar à espera sentado [ou à espera do Cometa Halley]. O Pote resolveu dar a festa por concluída com um dos seus habituais passes para a baliza, demonstrando que o falhanço na primeira parte [quando, isolado, enfiou uma bolada no guarda-redes], se tratava de uma situação que não o dignificava e, marcando golo, o colocaria ao nível de qualquer um, de um simples aproveitador de azares alheios. 

Não há muito mais a dizer sobre este jogo. Fiz a minha parte. Escrevi o que me lembrava. Escrevi o que havia para escrever. Podia ter escrito mais e melhor? Poder, podia, mas o jogo também podia ter sido um pouco melhorzinho. Que venha o Vizela que estou [definitivamente] preparado [espero que o Rúben Amorim e a equipa também].

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Embirrar

A política serve múltiplos propósitos. Ao embirrar-se com os políticos [ou com alguns deles, pelo menos], evitamos embirrar [ou embirrar muito] com a família, os amigos ou os vizinhos nas reuniões de condomínio, por exemplo. A política tem vindo a perder importância, preponderância nas nossas vidas e, assim, cada vez temos mais dificuldade em recorrer aos políticos para preenchermos a quantidade de embirração a que todos temos direito [o famoso direito à embirração no qual assentam as democracias liberais]. O futebol tem vindo a substituir a política em várias dimensões [o futebol é a política por outros meios e vice-versa, como diria Clausewitz se se tivesse lembrado] e também nesta da embirração. Não se embirra com as equipas adversárias ou os seus jogadores, quando muito detestamo-los [mas esse é um sentimento sem grande nobreza, convenhamos]. Embirrar é uma coisa que dedicamos aos nossos, isto é, cada adepto embirra com os jogadores do seu clube, não fazendo qualquer sentido um adepto do Sporting embirrar com um jogador do Benfica ou um adepto do Benfica embirrar com um jogador do Sporting. Só se embirra [com] de quem se gosta ou se é obrigado a gostar [nem que seja à força por força da falta de alternativas].   

Se não se lerem estes prolegómenos com a devida atenção, pode-se pensar que não fazem sentido quando se pretende escrevinhar uma crónica sobre o jogo de ontem [do Sporting] contra o Tondela para os oitavos de final da Taça de Portugal. Apelo, como sempre apelo, à inteligência dos leitores, dos leitores deste blogue. Num jogo como este, as possibilidades de recurso a segundas e terceiras escolhas aumentam e, aumentando, aumentam também as possibilidades de embirração. Para [só] falar dos mais [re]conhecidos, ontem tínhamos o Neto, o Esgaio, o Trincão e o Paulinho para embirrar. É aquilo que se designa nesta área do conhecimento como um festim, uma orgia [de embirração, não fazer confusões].

Afazeres profissionais impediram de ver o jogo desde o início. Quando comecei a ver, estávamos a ganhar por dois a zero. Reduziam-se a pó [ou a pouco mais] as possibilidades de embirrar nos termos previamente estabelecidos [ou pensados] e, por isso, comecei a embirrar sem sujeito, a embirrar por embirrar. Revejo o primeiro golo e volto a ver o Gyokeres a associar-se com os seus colegas como se fosse amigo do Paulinho desde a escola primária: depois do Edwards, agora também com o Nuno Santos e o Pote. Não é possível não embirrar [nem que seja um bocadinho] com um jogador que parece ser amigo de outros com que nós [sempre] embirrámos. Começo a pensar que se ele se continua a associar ainda desaprende e deixa de marcar golos. Estava a começar a embirrar solenemente com esta perspetiva quando ele resolve marcar o terceiro golo [com uma simplicidade desarmante, limitando-se a desviar de cabeça a bola do guarda-redes, quando era dado como incapaz de cabeçadas]. No início da segunda parte, irritado [não confundir sentimentos], volta a marcar mais um golo, aproveitando-se de um mau atraso de bola ao guarda-redes provocado pela pressão do Paulinho [ao que isto chegou, sim, depois da pressão do Paulinho sobre um adversário, leram bem!].

Cerca dos cinquenta minutos, com quatro a zero, o Ruben Amorim manda desmontar a tenda, substituindo o Inácio e o Gyokeres. Fiquei cerca de quarenta minutos a olhar para a televisão sem qualquer propósito enquanto bebericava o chá verde que tinha pedido [no Café Flávio, como de costume]. Para me ocupar ou ocupar o tempo, procurei embirrar, embirrar com todas as minhas forças e em várias direções e sentidos. Comecei pelo Neto e não consegui. Passei para o Esgaio e inconsegui também. Virei-me para o Trincão e os resultados não foram muito melhores [fiquei irritado quando falhou isolado, mas não cheguei a embirrar propriamente]. Desesperado, apostei tudo no Paulinho. O Paulinho não deixa ficar mal seja quem for, seja em que circunstância for. Isolado, espirra-lhe o taco e a bola acaba no guarda-redes. Isolado, espera, espera tanto, mas tanto pela desmarcação do Afonso Moreira que a partir de certa altura a possibilidade de lhe passar a bola era nula e, entretanto, também já não tinha ângulo para tentar o remate direto à baliza, acabando a bola às três tabelas a embater no poste. Enfim, estavam reunidas as condições para embirrar [com]. Debalde, não consegui, fiquei irritado, chateado, mas não embirrado. Voltei para casa e rebobinei [esta expressão é para os da minha geração] o Congresso do Partido Socialista e a apresentação da Aliança Democrática. Senti-me profundamente aliviado.

domingo, 7 de janeiro de 2024

Prefiro não o fazer

Passei uma parte da tarde de ontem a ler “Bartleby, o Escrivão”, de Herman Melville, que comprei numa simpática livraria aqui de Braga [a 100ª Página]. O escrivão Bartleby leva a passividade ao extremo, não se recusando propriamente fazer o que quer que seja, mas preferindo não fazer o que quer que lhe fosse solicitado. A [permanente] resposta “Prefiro não o fazer” deixa qualquer um desarmado e muito mais o seu patrão, um advogado de Nova Iorque. Estive várias vezes para escrever a crónica do jogo [do Sporting] contra o Estoril, mas o “Prefiro não o fazer” foi mais forte do que eu e do que o meu sportinguismo. Mas o livro tem um fim trágico e a última coisa que me ocorre é transformar a passividade em desistência. 

Dizer que o jogo era decisivo é pouco, muito pouco. O jogo era de importância transcendental para estatística futebolística como ciência ao alcance de poucos [mas do Paulo Sérgio seguramente]. Existe uma relação de causa e efeito entre pontapés de baliza ou cantos e golos ou uma simples correlação [embora com um erre quadrado elevado]? Essa era a pergunta a que este jogo procurava dar resposta, a hipótese que precisava de ser testada. O resultado também interessava, mas encontrava-se numa segunda ordem de importância. Assim, de forma disfarçada, uma vez fingindo que dominava mal a bola, outra parecendo que a atrasava ao guarda-redes, o Nuno Santos ofereceu dois cantos ao adversário. Os cantos foram marcados e, bem, acontecer, aconteceu alguma coisa, mas não foi qualquer golo. 

Ficava por saber se essa relação ou essa correlação resultava do engano do árbitro e não do canto ou do pontapé de baliza propriamente ditos. O árbitro fez por se enganar e tanto se enganou que transformou um canto a nosso favor num pontapé de baliza para o Estoril, sem que nada de especial acontecesse, muito menos um golo [quanto mais um golo de calcanhar do Paulinho]. Mais tarde, no dealbar do jogo, um canto contra nós acabou no golo de consolação do Estoril, depois de um desvio marado do Paulinho para o meio da grande área. Com estas evidências, não sei o que se pode concluir. Conclusão pode não haver, mas permanece uma hipótese de trabalho: com o Paulinho em campo parecem acontecer coisas surpreendentes, do arco da velha, embora nem todas muito agradáveis [pelo menos para nós, sportinguistas].

Do jogo não sei se se retira muito mais ou retira-se o costume. Na quinta-feira à noite, enquanto procurava perfazer os habituais dez mil passos diários debaixo de uma chuva insistente, deparei-me na ombreira da porta de um prédio com um homem de pijama e chinelos rodeado por três cães falando francês ao telemóvel. “O que faz um homem de pijama e chinelos rodeado por três cães falando francês ao telemóvel em Braga numa noite chuvosa de quinta-feira?”, foi a pergunta que me veio à cabeça. Parece que esta situação, esta pergunta não tem relação com o jogo. Nada de mais errado. É que é mais fácil encontrar um homem de pijama e chinelos rodeado por três cães falando francês ao telemóvel em Braga numa noite chuvosa de quinta-feira do que um avançado como o Gyokeres. Que o digam os jogadores do Estoril que, no final, estavam em muito pior estado do que o General Custer e o 7º Regimento de Cavalaria após as investidas dos “sioux” e “cheyenne” liderados pelo Sitting Bull. 


[Os mais distraídos podem ser levados a pensar que escrevi a crónica prometida do jogo do Sporting contra o Estoril. Os mais atentos terão reparado que não escrevi crónica nenhuma. Simplesmente, prefiro não o fazer]   

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Réveillon

Muitas pessoas se deslocam ao Algarve para o “réveillon”. Há programas para todos os gostos e feitios [e carteiras]. Não me pareceu estranho, portanto, que os jogadores [do Sporting e do Portimonense] se estivessem a preparar para uma passagem de ano num local mal iluminado e congestionado como a grande área do Portimonense. Na Sportv não se queria nada com a passagem de ano e insistia-se que se tratava de uma tática. Percebe-se, é uma tática, mas uma tática comercial: se se vende uma partida de futebol como uma partida de futebol não pode parecer que se está a vender outra coisa mesmo sob a ameaça dos jogadores fazerem o comboinho a qualquer momento. Quando assim é, quando assim acontece, sempre se pode falar de autocarros, mas este canal de televisão é demasiado sofisticado para recorrer a linguagem futebolisticamente vulgar [ia dizer foleira ou de tasca].

Como os jogadores do Sporting insistiam em movimentar-se a passo de caracol e a trocar a bola mais devgar ainda, não havia oportunidades de golo e um amontoado de jogadores podia passar por uma tática e, sim, quem não tem Pinheiro caça com Paulinho [tão cedo não tento outro trocadilho destes]. O árbitro via-se e desejava-se para que a tática não se desmanchasse e passasse efetivamente por tática: falta ali que não é, falta acolá que não é mas passa a ser, falta que é mas não é, conversa paternal com os jogadores do Portimonense. A primeira parte foi isto, conversa da treta na Sportv, árbitro e mais árbitro e bola, bola a sério, bem, nem vê-la. O zero a zero ao intervalo fazia-nos suspirar por um “réveillon” a ver o Big Brother com a sogra e os sanguessugas dos cunhados [e cunhadas].

A segunda parte foi completamente diferente, não porque fosse diferente mas porque o Pote resolveu testar se o artelho do pé direito ainda estava atarraxado, depois de uma amável calcadela de um lateral direito que insistia em não levar a sério os [sábios] conselhos do árbitro. Sempre a farejar o golo, o Gyokeres lançou-se desabrido atrás da bola e quando a encontrou limitou-se fazê-la encontrar a baliza. É estranho, muito estranho que este avançado loiro de olhos azuis não se interrogue sobre o sentido da vida quando se encontra isolado, limitando-se a empurrar a bola com o pé que tem mais à mão. Não há uma dúvida, uma perplexidade, um questionar-se sobre a sua razão de ser: quem sou? para onde vou? preciso de levar uma muda de roupa interior? Não há diálogo possível entre dois avançados, quando um [o Paulinho] se questiona permanentemente, fazendo da bola e do jogo o contexto para esse questionamento, enquanto o outro marca golos só porque sim, porque está dentro de campo e gosta de fazer macacadas depois de os marcar. 

No Sporting detesta-se esta simplicidade, esta falta de consciência do dramático e permitiu-se imediatamente que um grandalhão marcasse o golo do empate com o ombro, embora rodando a cabeça como se de um Jardel se tratasse. Estavam criadas as condições para o desespero, para a desesperança, para que acontecesse Sporting como sempre tende a acontecer. Mas o árbitro não foi na cantiga e roubou descaradamente o Portimonense. Não, não, o Sporting não precisava de um “penalty” ou de uma expulsão do adversário, mas, tão-só, de um pontapé-de-baliza mal marcado. Um pontapé de canto transformado num pontapé-de-baliza e bola no calcanhar do Paulinho que se faz tarde. Golo e escândalo. Como é possível? Não se estava mesmo a ver? Ninguém conhece o calcanhar de ouro? O homem que se questiona e ao questionar-se imprime à bola e aos adversários movimentos que se cruzam e entrecruzam e que têm tanto de anárquico como de eficazes? Passada a angústia, o Paulinho voltou a demonstrar-nos que é preciso ter sangue-frio para se ser como só ele é, para nunca se deixar tentar pela facilidade, pelo golo fácil e tranquilizador [se fosse o Rúben Amorim, tinha regressado a Lisboa a pé para se continuar a questionar durante a viagem].


[Esta postada serve para desejar um excelente ano de 2024 a todos e todas as sportinguistas. Prometo voltar se os sportinguistas tiverem a mesma paciência comigo que têm com o Paulinho, o Esgaio ou o Trincão e se a articulação entre o tarso e metatarso do anelar da minha mão direita estiver em melhor estado do que o esqueleto do St. Juste]  

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Quem falha assim não é gago

 

Quem falha assim não é gago: começava desta forma a minha mensagem a um amigo após o jogo de ontem entre o Sporting e a deusa da caça; amigo esse que deve ter amigos na Procuradoria-Geral da república, com claras ramificações no jornal A Bola, já que este hoje (quase festivamente – eu diria) dava aos escaparates uma capa cujo título em grandes parangonas dizia: quem falha assim passa em segundo.

Sabemos que o jornal A Bola anda ansioso por fazer uma capa europeia glorificando o seu protegido, e o máximo que conseguiu foi saudar a vitória blaugrana sobre o Porto, mostrando Félix e Cancelo batendo no peito adornados com a seguinte frase: assim custa mais.

Pois custa. O Sporting entrou em modo não é preciso sermos desmontados, tendo em conta que toda a gente sabe mais ou menos como a gente joga, ainda para mais com o Esgaio mascarado de Porro, quer dizer, o Esgaio mascarado de Esgaio mascarado de Porro, e o Trincão entretido com o facto de ser um jogador de alta competição às pinguinhas. Não era fácil entrar assim, ao mesmo tempo que a linha defensiva jogava roleta russa com o fora de jogo, tantas foram as vezes que aquele moço do ataque da Atalanta com tatuagens ficou praticamente cara a cara com o redes leonino sempre ensaiando o mesmo movimento de caça ao leãozinho, até que deu sorte, como diz um amigo meu com experiência em telenovelas brasileiras. Quem não deu sorte foi o Pote que tem jogado, a espaços, disfarçado de Paulinho, confundindo a equipa adversária ao mesmo tempo que se confunde a si próprio.

Na segunda parte, com o Edwards e Catamo em campo, e com os tipos da Atalanta cansados de correr e de ver o Sporting trocar a bola como quem joga ao meiinho, começamos a nossa odisseia do costume, isto é, começamos a jogar futebol e a falhar golos. É claro que o Edwards marcou (e falhou antes disso um golo dado), é claro que jogamos contra dez, mas o que ressalta, para além das bolas nos postes, é a falta de golos, sumo pontífice do jogo da bola. O Pote desperdiçou (às vezes julgo ver ali alguma displicência de craque de trazer por casa), duas ou três oportunidades, e depois a equipa recebe ordens do banco, ou talvez de alguma entidade divina, não sei, ordens de começar a fechar o tasco, dando oportunidade à equipa adversária de respirar e de ganhar peito quando estava com o rabo entre as pernas, passando de caçador a caçado.

Quem falha assim não é gago nem pode ter grandes ilusões.

domingo, 19 de novembro de 2023

Tropeçar em si próprio

 

Por razões pessoais e profissionais e de manifesto desinteresse pelo mundo da bola e seus arredores, o que talvez inclua grande parte do país, não foi possível apresentar a minha versão dos factos que rodearam o último dérbi. Em primeiro lugar já não me recordo da última vez que o Sporting ganhou um jogo na luz para o campeonato, nem sequer tenho lembrança próxima de qualquer vitória em clássicos recentes (Porto ou Benfica). São factos, discutíveis para alguns, mas factos.

Posto isto, que não interessa para nada, é preciso notar que o jogo foi sorrateiramente inclinado para o Benfica pela arbitragem (o que até nem ia dando em nada). Na primeira parte não me recordo de qualquer falta assinalada ao Benfica, já o Sporting não leu a sebenta do costume e um desorientado Inácio deixou-se ir à confiança. Basta atentar no dualidade de critérios demonstrada no amarelo ao Edwards, deixando os entretidos malabaristas Rafa e Di Maria, entre outros, mostrar todos os seus dotes artísticos com a conivência dos juízes.

Posto isto, que já se sabia que possivelmente iria acontecer, é preciso notar que o Sporting entrou no jogo em jeito de pisa ovos, demorando a perceber que este Benfica é só fumaça, acabando a primeira parte com um grande golo (e jogada) de um jogador que o ano passado, por exemplo, não faria falta nenhuma, segundo informações próximas. Na segunda parte concretizou-se a tentativa de inclinação do campo e, talvez por isso, o nosso adversário praticamente não conseguiu criar qualquer perigo, tal era o declive que certamente os estonteava.

A entrada de Paulinho, surpreendente para alguns, não apanhou de surpresa aqui o escriba, já embalado com um bom tinto e embaciado pelo fumo de alguns cigarros, porque o ano passado Paulinho já assumia lá na frente um papel de defesa avançado, competindo com o Coates para o óscar de melhor central de lança. Só é chato para o Bragança, que assim ficou a perceber que, para o treinador, talvez o lugar dele seja no meio, mas do banco de suplentes.  

A mensagem do treinador foi eficaz, ficando o adversário confuso com a sua fumaça, o declive acentuado do campo e a nova dinâmica leonina, cujas pedras se amontoavam num caos de aparente lucidez futebolística. Esse amontoado caos de aparente lucidez futebolística resultou num acumulado de jogadores do Sporting dentro da pequena área (outros marcando com os olhos) o que possibilitou a possibilidade (deixem passar) de um jogador do Benfica rematar à baliza com todas as condições possíveis e imaginárias para fazer um golo num treino entre familiares próximos. O que se passou a seguir foi mais uma faúlha para juntar às pilhas do pacemaker que, como todos sabemos, é meio caminho andado para qualquer sportinguista.

Dos dirigentes do Sporting, paladino incluído, nem uma palavra sobre a inclinação do campo, não fossem para o ano deixar de ter direito a camarote presidencial e, quem sabe, a um voucher com tudo incluído. Nem nos miaus deste ano se miou sobre o assunto, apenas um bramido para o império mumificado das antas, e uma palavrinha de relance para o trinador (esta palavra existe) dos milhafres, como se agora um presidente tivesse de se dirigir a um funcionário de outro clube. São factos, embora sem grande interesse, de facto.

 

 

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Blá-blá-blá minha machadinha

 

Ninguém sabe como a janela com terraço (enorme) e marquise do mercado vai fechar, já com o comboio em andamento. Felizmente o Benfica já é campeão antecipado e assim fica tudo muito mais fácil, sabemos com o que contar e podemos até vender metade da equipa por simples devaneio.

Estando o campeonato entregue aproveitei para estar com o rebento e comer em família umas sardinhas no pouso habitual da Figueira, mais precisamente em Buarcos. De qualquer forma parece que já não havia bilhetes (mas já lá vamos). Ninguém explicou em inglês ao Viktor Gyökeres que o campeonato era um pró-forma e vai daí o rapaz (grande jogador) levou a coisa a sério e marcou dois golos antes dos vinte minutos de jogo. O resto da rapaziada deve ter ficado em choque, incluindo o adversário, pouco habituado a um Sporting crente na possibilidade (remota) de marcar golos na baliza adversária. Andamos mais de um ano a dizer que não precisávamos de um avançado e agora, ainda por cima com o Benfica já campeão, aparece um rapaz a exemplificar o teorema de Pitágoras da bola. Não podia ser, pois não?

O que vale é que o Trincão continua inconsequente, insistindo na mesma finta do recreio da infância em Braga, e o Pote lá foi falhando o melhor que pôde, para a coisa não destoar muito, sabendo nós que o rapaz é muito ciumento (lembram-se do Sarabia?) e tão expressivo corporalmente que se nota a milhas. Não foi preciso muito mais, a malta acreditou que o jogo estava ganho, o Benfica campeão, e até o Amorim deu um jeito espalhafatando o jogo com as suas substituições, tudo para criar a ilusão de que estávamos perante adversários do mesmo escalão (sabem qual é o orçamento o Vizela?). O resto foi o blá-blá-blá do costume, desorientação orientada na defesa (aquele primeiro golo do Vizela é um déjà-vu de um déjà-vu), e orientação desorientada no ataque. Valeu o Paulinho a fazer de Coates, com um golo a central de lança. Tudo acabou bem, as sardinhas estavam boas, o tinto papava figos, nem deu para enervar muito com o título já entregue.

Uma palavra mais para o anúncio do estádio esgotado (com exceção da parte visitante), anúncio esse que deve ter afastado alguns adeptos/sócios verdadeiramente interessados em ver o jogo, para depois mais uma vez, constatarmos que grande parte dos gamebox não põe lá os pés. Estão de férias todo o ano. Um amigo que lá esteve também me relatou o silêncio ensurdecedor do estádio em certos momentos, nada a ver com o rugido que já por lá ecoo, blá-blá,blá…

domingo, 23 de julho de 2023

Com tranquilidade

 

Segundo a CMTV estamos perante um Super Benfica, possivelmente um Benfica galáctico, talvez mesmo intergaláctico. Interrogam-se os mais avisados comentadores sobre a pertinência de termos o desperdício de tempo gasto em mais um campeonato, quando tudo indica que este estará mais que entregue. O ano passado estava decidido em Dezembro (e depois teve que de ser disputado até Maio, um pormenor esquecido), este ano tudo leva a crer que estará no papo no final de Julho, quando muito Agosto, mas sempre antes de o campeonato começar.

Assim está perfeito, o Sporting poderá começar a preparar a temporada ainda com mais tempo do que este ano e o anterior. Poderá prepará-la com mais de um ano de antecedência, aproveitando esse longo defeso para acertar agulhas e alinhavar novas táticas, sem ter de se preocupar com uma janela de mercado que de tão longa mais parece uma marquise dos anos oitenta, já que terá várias janelas e alguns postigos de mercado ao longo desse ano e talvez o Jeremiah St. Juste tenha tempo de resolver a sua lesão, voltar a lesionar-se e ninguém dar conta.

O Sporting precisa de tempo. Precisou de mais de um ano, após a saída abrupta e nunca realmente explicada (entre tantas outras) do Slimani, para perceber a necessidade de um avançado, um ponta de lança, ou mesmo alguém que faça a vez do Coates nos últimos minutos dos jogos. Tudo leva o seu tempo, estudar os possíveis alvos, ficar em quarto lugar, vender os restantes jogadores do meio campo, para finalmente investir sem qualquer possibilidade de erro, assim se deseja.

A suposta aposta na formação e na contratação de jovens jogadores começa a dar frutos, como se poderá constar na lista de dispensas ou emprestados: Tanlongo, Fatawu, Marsá, Sotiris, entre outros, tudo malta com um largo potencial à sua frente, segundo os responsáveis leoninos. Já para não falar de Vinagre, mais um elemento do carrossel Mendes, que andará à roda até fazer sangue como o genial Tiago Llori.

Temos tempo, assim o afirma a onda vermelha mediática, este ano está entregue, a não ser que surja um ou outro contratempo, mas isso apenas se o campeonato desnecessariamente começar.

Parece que continuamos a ter áreas especiais para adeptos em Alvalade. Para mim Alvalade sempre foi especial no seu todo. Muito especial. À justiça o que é da justiça, de resto o que interessa é encher a casa (fora de casa cá nos arranjamos), mesmo que seja apenas para jogos a feijões, tendo em conta o campeonato estar decidido, segundo informações fidedignas da CMTV e do jornal A Bola, entre outros.   

domingo, 4 de junho de 2023

Quem não trabuca, não manduca

 

Não podemos deixar de nos sentir satisfeitos com a época que agora findou: um 4ºlugar no campeonato, atrás de um clube com metade do nosso orçamento; afastados precocemente da taça de Portugal por uma equipa com um potencial futebolístico incomum, chamada de Varzim Sport Club, restando-nos o tradicional quase no que toca à taça da liga, e um outro quase que chegávamos às meias-finais da taça UEFA, acoplado à tradicional sigla: injustiça. Foi um ano em cheio, sem dúvida, relativamente ao futebol profissional, reforçado com um grande desempenho da equipa B (as modalidades ainda estão em curso).

Nada disto teria seria possível sem um planeamento atempado, ajustado às necessidades do plantel, antecipando saídas e colmatando eventuais défices do ano anterior, permitindo assim um equilíbrio sóbrio entre a vertente futebolística e a financeira. Este ano que passou foi um exemplo a ser seguido como case study de uma boa gestão de um plantel profissional com aspirações legítimas.

Isso mesmo se refletiu na ocupação do estádio, sempre com grandes enchentes, sem clareiras manifestas, nem áreas terra de ninguém, possibilitando um ambiente de grande festa e de constante pressão no adversário. A união dos sportinguistas foi freneticamente defendida pelos órgão diretivos, com ações de (re)aproximação ente (supostas) facões antagónicas, promovendo e elevando o nome do clube como o grande bastião da diferença no futebol português.

Por tudo isso (e mais alguma coisa), a decisão dos administradores da SAD de se autoaumentarem (mesmo quando se venderam jogadores para equilibrar as contas), juízes em causa própria, agindo em nome do clube e sem darem cavaco aos sócios, só pode ser considerada justíssima e devidamente enquadrada no espirito de diferença que é a imagem do clube (e, pelos vistos, da SAD). Cada um tem aquilo que merece, ou como dizia o Maradona: a los que no creían, que la chupen.

 ....

Nota sem importância: diz-me um amigo meu que a grande diferença entre Mourinho e Conceição são os títulos europeus (o que não é pouco). De resto, a mesma escola de fanfarronice, mau perder, grande educação, défice de atenção, e uma tendência infantil para aquilo que ficou conhecido como mind games que não passam, afinal, de arruaças mentais. Subscrevo.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Alvalade vai dar à luz II

 

Mais uma vez Alvalade não chegou sequer aos 40 000 espectadores (em toda a liga não atingiu esse número), mesmo vendendo bilhetes aos adeptos adversários por portas travessas à 10 A, adeptos esses que comemoraram a cortesia com fumos e pirotecnia das suas cores, colorindo assim a festa. Ou terão sido malandros sportinguistas que se fazendo passar por benfiquistas compraram bilhetes a outros sportinguistas para festejar condignamente? Aposto que a direção do Sporting ainda não se lembrou dessa possibilidade. Fica aqui a deixa, com uma boa risada.

Confesso que percebo cada vez menos de futebol e seus arredores. Apenas sou um espectador assíduo desde puto de jogos da bola, em vários formatos, incluindo ao vivo. Agora o jogo é atravessado por especialistas de trazer a bola por casa, experts numa arte cientificamente comprovada, ou numa ciência comprovada artisticamente por artistas televisivos.

Entramos no jogo manuseando o campeão anunciado desde o ano passado. Aquilo parecia um passador com tons avermelhados de vergonha. Será o Santa Clara? - Interroguei-me. Marcamos dois e poderiam ser mais alguns, não é Pote? Na segunda parte entramos, por opção própria, em formato Covilhã (sem desprimor), até eu percebi a mensagem de recuo e abram alas ao campeão. Saiu o Edwards para comprovar que não queríamos alguém que levasse a bola por ali fora criando desequilíbrios, saiu o Trincão supostamente cansado, parece que apenas contra o Arsenal estes jogadores tinham pernas. Terá sido do jogo a meio da semana contra os Coldplay para a liga conferência das bandas musicais? Como não percebo nada de futebol, mas alguma coisa de música e festas, parece-me que quisemos muito participar na festa.  Até o Paulinho falhou mais um, mas toda a gente sabe que ele é muito melhor à baliza.

Uma confraria de equívocos poderia resumir a segunda parte do Sporting no jogo de ontem, mas não tenho tanta certeza assim. Estou apenas aborrecido por não perceber nada de futebol, todavia, uma pergunta me assalta o cérebro: será que o grande equívoco não terá sido a nossa primeira parte? Se calhar não estava nas previsões que corresse assim tão bem. 

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Alvalade vai dar à luz

 

Parece que se andam por aí a vender bilhetes a benfiquistas para o jogo. Vendidos por gente da casa. Não é de admirar, parte dos detentores de gamebox não chega a por os pés em Alvalade. Fica a sugestão de alugar ao adversário parte daquela bancada sempre vazia atrás de uma das balizas. Temos de ser uns para os outros. Festa é festa. 

domingo, 14 de maio de 2023

Dantes o futuro era melhor


Estava para escrever que na primeira parte a equipa do Sporting não entrou em campo, mas na realidade entrou e espalhou a sua beleza cheia de tique(s)-taka sem balizas. Era como se estivéssemos num eterno meiinho, não fosse a equipa adversária ter metido na cabeça que existia uma baliza, pelo menos uma baliza junto à defesa do Sporting, e ter metido a bola dentro dessa mesma baliza (o Coates ficou muito desiludido com a postura belicosa da equipa adversária). Quando se joga dessa forma (e o Sporting jogou este ano muitas vezes assim) tem de se avisar a equipa opositora do tipo de jogo que se vai jogar. Existem vídeos disponíveis na Internet sobre como se joga futebol com balizas.

Por falar em outra coisa, para além do jogo, conseguimos ouvir os assobios à equipa da casa, curiosamente vindos de locais normalmente ocupados por “gente de bem”. A coisa não ganhou contornos sonoros dramáticos porque em Alvalade (mais uma vez) estiveram pouco mais de 27 000 espectadores (só por curiosidade na semana passada um Vitória-Vizela teve mais de 20 000 espectadores). Aposto que este ano um novo record de vendas de game-box será publicitado com mais um grande planeamento de época.

A irritação da primeira parte já me tinha levado ao terceiro copo de um tinto encorpado que tinha servido de lastro às pataniscas de bacalhau, um tipo sabe bem que o Sportinguismo é meio caminho andado para um pacemaker…

Na segunda parte, para além das alterações (obviamente necessárias) na equipa, os jogadores foram submetidos a um tratamento revolucionário que os convenceu da existência de, pelo menos, uma baliza, a mesma em que tinham sofrido o golo na primeira parte. Não foi, de todo, fácil este procedimento realizado em tão pouco tempo e com recursos limitados (ter-se-á que vender mais um jogador para melhorar este aspecto). Em sequência, os jogadores do Sporting ganharam uma nova consciência do jogo, começando a tentar jogar futebol, algo que normalmente dá resultados, mesmo quando a concretização das jogadas fica dependente do acaso, porque normalmente quando se remata à baliza as probabilidades de marcar crescem exponencialmente. Foi assim que aconteceu o primeiro (auto)golo.

O segundo golo corresponde à fase central de lança que já aqui tínhamos aludido, uma fase que no Sporting tem feito escola, embora sem grandes seguidores pelo mundo fora, tirando alguns finais de jogos embalados em desespero. Após este golo o árbitro ainda tentou o bailinho da Madeira, conseguiu a proeza de enviar o Adán para a bancada no dérbi, e mais não fez porque tanto um acobardado bandeirinha como o VAR lá tiveram que retificar o óbvio desvario. Até porque toda a gente sabia que naquele lado do campo não havia baliza.



domingo, 23 de abril de 2023

Central de lança

Nunca fui apreciador de vitórias morais, ainda menos de derrotas imorais. O futebol, para mal de alguns dos nossos pecados, tem balizas. No meu bairro, quando era puto, não raro, fazíamos olhos moucos às balizas, deixando de fora até as pedras que as desenhavam, ficando a bola para nosso eterno deleite.

No final do jogo em Turim não faltaram panegíricos (elogios exacerbados) ao Sporting Europeu de Amorim. Finalmente o Sporting batia-se de igual com grandes colossos do futebol (sequência do Arsenal). Vindos do espaço, pensaríamos que o Sporting teria ganho o jogo, não apenas (supostamente) uma equipa. Sou dos que reconhece o dedo de Amorim no Sporting europeu. Forçosamente teremos, igualmente, de reconhecer o dedo de Amorim no Sporting nacional, ou para consumo interno. O jogo com o Arouca foi mais uma posta suculenta a juntar a um ano verdadeiramente embaraçoso (o orçamento do Braguinha não chega a metade do Sporting), tão bem planeado que em Janeiro já estávamos em serviços mínimos.

O jogo desta semana com a Juventus veio dar continuidade ao Sporting europeu, versus, está muito difícil marcar golos, embora os Italianos o façam sem saber ler e muito menos escrever. Está muito difícil marcar golos, ou, que porra, não se consegue introduzir a bola na baliza do adversário, a não ser com penáltis ou um coelho saído do Pote, não é uma questão nova. Aliás, para provar a sua antiguidade clássica, lá terminamos o jogo com o velho Coates a arfar na grande área adversária. O homem começa a não ter idade para tamanha discrepância posicional. Se calhar não precisamos de um ponta de lança, mas de um novo (ou mais novo) central de Lança.

 

Nota: finalmente ultrapassamos os 45 000 espectadores num jogo em casa, embora a direção do clube tivesse anunciado com pompa lotação esgotada dias antes. A média para o campeonato é mais um embaraço desta época, pouco mais de 25 000, ou seja, pouco mais de 50% de taxa de ocupação, pese o anúncio (mais uma vez com pompa) no início da época de record na venda de game box. Talvez esteja na altura de pararmos com divisionismos e da direção “tentar” apagar os fogos injetando gasolina 98. É só uma ideia.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

E agora algo completamente diferente

 

Manuel Mota no Rio-Ave x Sporting: o optimista não sabe o que o espera (Millor Fernandes);

Rui Costa desdobra-se em aparecimentos: o conceito de plágio criativo;

Pinto da Costa não sabe quem é Fran Navarro: Al Capone não sabia em que rua ficava o Canadá;

Chegou um jogador Vegan para o Sporting: pelo menos não vem para encher chouriços;


domingo, 29 de janeiro de 2023

Taça Pinheiro Baptista

 

A defesa da tradição não se faz apenas através da vivência do folclore ou da conservação das instituições, inúmeros eventos permitem-nos experienciar ao vivo e a cores a manutenção do costume nas comunidades. Ontem tivemos a possibilidade de observar isso mesmo num jogo tradicional de futebol (e já tínhamos saudades), fazendo parte do elenco a equipa do Futebol Clube do Porto, a equipa de arbitragem dirigida pelo sr. Pinheiro, e uma terceira (por acaso o Sporting) equipa que estava lá para encher chouriços. O Sr. Pinheiro Baptista fez o que lhe competia na defesa da tradição, já por ele várias vezes, inclusive, cumprida. O Sr. Pinheiro Baptista, assim como o modus vivendi do Porto faz parte da riqueza intrínseca da tradição, aliás, expressa no dia anterior pelo porta-estandarte Pepe. Por momentos parecíamos estar confortavelmente instalados nos anos 90 do século passado.

O Sporting tentou jogar futebol com as limitações que lhe são conhecidas, e ainda assim poderia perfeitamente ter estragado ou adiado, pelo menos, o desenrolar da tradição, não fosse Adán ter transformada a sua baliza numa capoeira e a baliza adversária ser mais uma vez uma espécie de domínio inalcançável, tantas são as oportunidades esbanjadas, algo que também começa a ser parte inegável da tradição. A tradição continua sobrevivendo, igualmente, na enorme massa adepta verde e branca, verdadeiro suporte da grandeza do Sporting (vejam os jogos nos Norte do país).

Esta posta, como um jogo tradicional de futebol (sem Pinheiro Baptista), tem duas partes. Vamos à segunda:

Como diria Maricá, citado por Millor Fernandes: só com a ação se escapa da inércia. Presumo que o contrário também seja verdadeiro. O Sporting estava agindo, diziam-nos, logo em Abril de 2022, preparando atempadamente a época seguinte (com a mesma equipa técnica das duas épocas e meia anteriores). Logo chegou um vaso de porcelana chamado Jeremiah St. Juste, antes fosse de vidro, teria sido igualmente frágil, mas mais barato. A época continuou sendo preparada no enorme terreno de pousio que é o defeso no futebol nacional. A malta chega a esquecer-se que existe uma coisa chamada bola, como se estivéssemos nas gigantescas férias de verão dos idos 80 do século passado, em que a malta se esquecia que alguma vez tivesse frequentado um estabelecimento de ensino. Ainda bem que estava tudo pensado ao detalhe.

Cedo se percebeu que o Sporting tinha uma equipa vulgar que simulava caçar com gato, julgando-se cão: escrevinhámos sobre esse pormenor de simulacro que aos poucos tomou de assalto os balneários e algumas cabeças dotadas de livre arbítrio. Só não conseguíamos convencer os adversários, apenas os sportinguistas. Amorim lá foi explicando em várias das suas roupagens: economista das tardes da Júlia, administrador não executivo e até treinador. Não apreciei, apenas, as suas recentes declarações sobre a “distância” para os nossos rivais. Se se estava referindo a ovos para a omeleta deveria tirar da equação o Braga. De resto, apelar ao bom senso referindo a questão dos orçamentos talvez resulte em contexto europeu, não no lodaçal da bola cá do burgo. Perdemos vários jogos com equipas cujo orçamento não dá para mandar cantar um central de porcelana do Sporting.

(Nota extravagante ao meio da posta: já repararam que a média de espectadores do Sporting no campeonato não chega a trinta mil? E isso após o anunciado record de vendas de gamebox, uma box, poucos games assistidos).

Com tanto planeamento e boa gestão de recursos chagamos ao jogo da época (ainda por cima tradicional) com pouco espaço para os feijões. No final o presidente descobriu a pólvora outra vez e explicou que somos resistentes. Pois somos. E, o senhor, será que é?

 

domingo, 23 de outubro de 2022

Há qualquer coisa certa que não está errada

 

Tinha começado as hostilidades com uns camarões, lerpando de seguida um bife de atum acompanhado de arroz branco e uma cebolada. Um tinto do douro ainda por ali andava quando o jogo começou e se desenrolou no âmbito do rotinado: há qualquer coisa errada que não está certa. Amorim (mais uma vez) encenava o seu modelo ao ponto de confundir os adversários (tratar-se-ia do modelo ou do seu simulacro?) e os próprios jogadores que, fazendo jus à encenação, desperdiçaram inúmeras oportunidades de golo, aliás, como tinha acontecido na primeira parte do jogo com o Chaves, por exemplo. O Casa Pia mesmo participando do simulacro foi duas vezes à baliza adversária: um golo e uma bola no ferro foi o resultado. Ficou ainda uma expulsão em banho maria, sem VAR que lhe valesse.

Na segunda parte a intensidade dramática (afinal o Sporting perdia em casa – mais concretamente em meia-casa), tinha tudo para resvalar para o abismo ou para a mais inusitada glória. Por essa altura ainda andava ali por perto uma garrafa de tinto do Douro e alguns cigarros mal apagados quando Trincão enviou uma bola ao poste, já com Chico Lamba em campo. Por momentos pensei que o simulacro levasse a melhor, mas depois com a entrada de Paulinho tudo se precipitou. Com Paulinho na frente acontece um paradoxo espantoso: a sua presença parece um equívoco no modelo (ou na sua simulação/encenação), mas ao mesmo tempo funciona com uma (hipotética?) referência lá na frente. Isto confere ao jogo ou, se quisermos, confere ao modelo, outra imprevisibilidade, principalmente para quem defende, tornando a equipa do Sporting com menos um artista em campo (Trincão) muito mais incisiva e inquietante para o adversário, tanto que em poucos minutos o resultado ficou feito, com a contribuição decisiva do tal equívoco e do sempre imprevisível e aguerrido Nuno Santos (entre outros!). Se calhar há aqui qualquer coisa certa que não está errada... mas posso estar enganado. 

 

domingo, 16 de outubro de 2022

Há qualquer coisa errada que não está certa (II)

Não sou dado a pressentimentos, o esturro chega-me sempre na sua fase calcinada. Quando Matheus Nunes rumou ao sonho Wolverhampton Wanderers, um sonho que o próprio sonhou de véspera, já que tempos atrás se sonhava noutro olimpo, condescendi com a teoria da época previamente planeada, ainda o Jeremiah St. Juste não se lesionava cada vez que se levantava da cama para o pequeno-almoço.

Entretanto, Amorim, na sua versão economista das tardes da Júlia, encaminhava-nos para um ambiente de incoerências sem qualquer responsável, a não ser talvez um ente divino que manobra a vida do nosso clube com sapiência transcendental. Nestes casos acredito sempre na ilusão que me faz vestir a camisola preparando-me para a cerimónia.

O Sporting não se reforçou, sejamos honestos, nem que seja por um segundo. Saiu o Sarabia para entreter as idas à mercearia do Kylian Mbappé ou para colmatar as ausências de Neymar quando este está em campanha pelo Bolsonaro. Saiu o Palhinha que também veio a reboque do Braga (e nunca ninguém se queixou disso, caro Amorim); saiu o Tabata diretamente da feira da ladra em bom saldo, e o marroquino Feddal que ainda alguns devem recordar com saudade. O Jovane anda em convalescença espiritual em permanente aquecimento e o Slimani rumou ao paraíso das redes sociais, em bom francês.

As entradas foram permutas, rascunhadas para o modelo, percebi logo isso, já as conhecia do tempo da universidade - não esquecendo o Edwards que já cá estava, embora falando português por uma palhinha. Ninguém achou necessário incluir mais avançados, nem pinheiros, nem arbustos daqueles corredores que se costumam ver nos filmes de cowboys, capazes de fazer a vez do Paulinho quando este estiver ocupado entre linhas no banco de suplentes. E estava tudo planeado, cogitando-se mais um Pote de ouro no final do arco-íris.

Já muito foi escrito e talvez até falado, nas tascas, sobre a desmontagem da equipa do Sporting, mas sempre numa perspetiva extrínseca, isto é, do adversário, sem pensar na possibilidade da sua subversão a partir do interior e consequente decomposição em peças, mais ou menos coladas com a saliva de cada momento. Assiste-se muito a isso na vida de todos os dias. Pensei nisso enquanto via um documentário sobre o Gaudí e a sagrada família de Barcelona, ainda hoje por terminar.

O modelo (actual) é um simulacro do modelo, e como todos os simulacros, creio que o disse Baudrillard, não se trata de um seu sucedâneo, ou apenas de uma representação do original, mas da criação de uma ilusão, no limite da simplificação da simulação: fingir ter o que não se tem. Por isso todos acreditam que Amorim insiste, quando este encena, e, nesse sentido, assume-se como um criador de imagens que ultrapassam a esfera do futebol. Acredito que o simulacro até certo ponto precede o original.

Um bom exemplo disso são os primeiros dois jogos da liga dos campeões. Dizem-nos que resultaram porque o Sporting jogou contra equipas que tentaram assumir os jogos, libertando espaços, podendo assim surpreender com transições e trocas entre os jogadores, quando o que aconteceu foi funcionamento do simulacro em condições ótimas, permitindo finais assombrosos: por onde andará o rei Arthur Gomes após o admirável golo contra o Tottenham? Presumo que esteja a ser preparado para o modelo.

Qualquer alteração significativa ao simulacro, ou melhor, qualquer interferência na simulação, seja a forma como o adversário se dispõe, não tentando desmontar o modelo, mas simplesmente desrespeitando-o, como o fez a Santa Clara recentemente, torna o jogo do Sporting um pastiche (um pastiche do simulacro) arrastado, sobrevivendo de alguns rasgos individuais. Nos jogos contra o Marselha a derrocada do Sporting não foi mais que a ingerência do fator humano no jogo, muito comum em futebol ou noutras actividades cuja presença humana seja notória. Não foram (apenas) os erros individuais que possibilitaram o descalabro, mas o descalabro que pairava como uma sombra terrível, aguardando apenas que o acolhessem.

Não será por acaso que após estas recentes ingerências etéreas no modelo (Amorim não se afasta nem um milímetro do seu… simulacro), o jornal Record tenha publicado que o Sporting procura pelo menos três jogadores para o mercado de Inverno; ou que tenha vindo a público o resultado financeiro absolutamente histórico, com lucro de 13,6 milhões nas contas da SAD, apresentado recentemente. Os números aparecem sempre nestas ocasiões, embora por aqui pairem algumas nuvens sobre o Clube, nomeadamente sobre o futuro das modalidades.

Nota: deixo aqui a minha perplexidade relativamente às assistências em Alvalade, após o anúncio com grande pompa do record de vendas de Gamebox. Em quatro jogos para o campeonato, dois não chegaram aos 30.000 espectadores e outros dois por pouco ultrapassaram essa barreira. Grande parte dos detentores de gamebox pura e simplesmente não vão ao estádio, ou estão sempre de férias, em lugar incerto. Outra perplexidade, para além dos silêncios cada vez mais prolongados nos jogos em casa, é aquela bancada vazia atrás de uma das balizas. Resolvam-se.

domingo, 21 de agosto de 2022

Há qualquer coisa errada que não está certa

 

Uns falam muito e conseguem não dizer nada – estão neste patamar alguns políticos da nossa praça; outros nada falam mas conseguem passar algumas coisas. Estão neste limiar os dirigentes do Sporting que nos últimos tempos se escondem atrás das conferências de imprensa do treinador. Amorim que ainda há pouco tempo era acusado de não ter qualificações para treinador de futebol, disserta agora sobre dinheiro e capital, gestão e empreendedorismo como se de um catedrático do IST se tratasse, ou de um avisado comentador económico nas tardes da Júlia.

Tudo isso poderia se afigurar estranho não tivesse eu andado a banhos e a whiskies velhos, peixinhos grelhados e tintos a condizer. E, nesse sentido, um pouco distraído. De volta, comecei a intrigar-me com alguns comentários de Amorim, principalmente na sua versão economista nas tardes da Júlia, não conseguindo discernir se o homem está realmente dentro de todo o processo ou se navega ao sabor dos velhos bitaites internos.  

Não sendo um fanático dos factos - ou mesmo da realidade - embora apreciador do realismo mágico, consigo serenamente olhar o homem na sua circunstância: vários titulares foram à vida (mais o Tabata) às pinguinhas (e o mercado ainda não acabou), outros entraram, mas já o ano passado a equipa parecia mais que espremida. Entrou o dinheiro da liga dos calmeirões, acrescido das vendas de jogadores, supostamente parte da reestruturação da dívida ficou concluída com reconversão das VMOC, a equipa vinha sendo preparada com antecedência, segundo os responsáveis, isto é, Amorim. Se o treinador afirma que a incoerência não é dele, será do comentador de economia das tardes da Júlia? Temo que voltemos ao tempo da visão estratégica e dos funâmbulos das contas.

Chegamos ao Dragão com passagem em Braga: três vezes na frente do marcador, três vezes nos deixamos empatar, algo nada normal durante o consulado Amorim, treinador. Mesmo descontando os erros individuais, intrínsecos a todo o ser humano, percebemos que a equipa como um todo defendeu de forma mais desorganizada. O jogo treino com o Rio-Ave serviu para a despedida de Matteus Nunes. A discussão arrebatada sobre se Amorim já sabia ou não sabia da saída de Matteus, se o timing terá sido o melhor (meu deus – a janela de mercado dura uma eternidade), são lateralidades pouco importantes numa semana com um clássico que nos poderia deixar a cinco pontos do Porto.

Amorim continuou o seu trabalho como um avisado comentador económico nas tardes da Júlia, o que lhe deve deixar pouco tempo para treinar a equipa, não sabemos. E não sabemos se existirá mais alguém no clube(?), já não digo um presidente, mas um vogal, um assistente administrativo que possa ir às tarde da Júlia, se não for para esclarecer ao menos para deixar o Amorim treinador treinar a dor como diria o Abel Xavier.

Felizmente o Hidemasa Morita ainda pesca pouco de português e não deve assistir às tardes da Júlia (agora o programa chama-se apenas Júlia, mas como passa de tarde..), e assim não sabendo da existência do comentador avisado de economia Amorim começou o jogo no Dragão com vontade de resolver aquilo com um remate tão colocado que acertou no poste. A primeira vez que o Porto foi à baliza do Sporting quase que o Taremi sacava um penalti, mas a bola sobrou para um isolado Evanilson e o árbitro já não teve de picar o ponto. A história da segunda parte mostra-nos um Sporting um pouco desorientado, até o Adán andava aos papéis, o Porro com a cabeça nas mãos acenando a um Sarabia fantasmático. 

No final não fiquei para os comentários. Novidades, já sabemos, é nas tardes da Júlia.

 

terça-feira, 17 de maio de 2022

Para o ano há mais

 

O ano acabou bem com o Rui Monteiro a ter de ir ao VAR por suposta entrada a pés juntos ao Covid. Ou vice-versa. As imagens não eram conclusivas. Felizmente a Covid estava em fora de jogo por alguns centímetros. A grande penalidade não foi assinalada para espanto de alguns, mais incautos.

O ano acabou bem para o Braga, conformado. Um quarto lugar apenas faz sentido se o Benfica for o terceiro. Caso tivesse o Sporting ficado em terceiro havia lugar para o VAR e alguns comunicados.

O ano acabou bem com o jornal A Bola e outros órgãos oficiosos a fazerem a apologia do Seixal e da formação benfiquista, inventar para quê, com tantos pontos de distância a ferida obrigava a uma pequena sutura, parecendo estarmos perante o Sporting Lisboa e Benfica. A mudança de paradigma na luz, que decerto surpreenderia Thomas S. Kuhn, é muito conforme as luzes que vão aparecendo nos sonhos ou em algumas visões noturnas, isto se ninguém ligar o quadro elétrico ou o sistema de irrigação.

O ano acabou bem para o Porto, sagrando-se campeão de futebol, embora atravessado pelo pseudo tabu do agora anjinho Conceição, e após uma ultrajante perseguição de que terá sido alvo este clube reconhecido pelo seu fair play desportivo e alimentar, onde a fruta se revela um elemento preponderante para o seu sistema digestivo.

O ano apenas acabou mal para o Sporting. Assim parece. Amorim foi o único a dizer que foi um ano negativo, pese embora a ocorrência de um pequeno milagre (sem componente religiosa) mais uma vez realizado. O Sporting fez o mesmo número de pontos do ano anterior e isto com grande parte do ano a jogar com o Paulinho como grande recuperador de jogo e o Pote com a cabeça no final do arco-íris. E com dois títulos a tiracolo. Finalmente, o segundo lugar parece-nos o primeiro dos últimos. E com alguns milhões a compor o ramalhete. Talvez para o ano o Vinagre se transforme em vinho do bom. Entre outros. Para o ano há mais.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Zaragatoas e ideias comichosas

Há poucas coisas que me mexem com as ideias. A zaragatoa é uma delas. Intromete-se nas narinas, avança, insistente, inconveniente, até fazer cócegas no hipotálamo e se instalar uma comichão de tal magnitude que nos veem as lágrimas aos olhos, de riso ou de choro, conforme as ideias importunadas. Assim se mudam as ideias (em sentido literal). A conclusão do teste, positivo ou negativo, é a simples confirmação da maior ou menor volubilidade das ideias. Sim, nem sempre somos de ideias feitas, também mudamos de ideias.

Nos últimos dias mudei de ideias. Circunstâncias da vida, obrigaram-me a fazer o teste da Covid-19. Até vi estrelas, tal foi o número de ideias (feitas) sobressaltadas. Tinha a ideia do Pepe a enfiar um pero no Coates no jogo Sporting x Porto da primeira volta, em Alvalade, sem “penalty”, nem expulsão. Tinha a ideia da expulsão do Coates após falta do Taremi seguida do seu habitual mortal encarpado no jogo da segunda volta, no Dragão. Tinha a ideia que o Sporting podia ter mais quatro pontos e o Porto menos dois. Tinha a ideia que podiam (e deviam) ter acabado com os mesmos pontos, com o Sporting campeão. 

Tinha, mas já não tenho. Tratava-se de ideias erradas, muito erradas. A zaragatoa fez-me ver estrelas ou a (sua) luz, pelo menos. A zaragatoa e as inúmeras explicações dos últimos dias. O Porto bateu o recorde de pontuação do campeonato, é a melhor equipa portuguesa de todos os tempos. O Sporting fez tantos pontos quantos os da época passada, quando foi campeão, e foi a segunda melhor equipa atrás da melhor equipa portuguesa de todos os tempos. Os portistas estão orgulhosos e nós também.

[A zaragatoa mexeu-me com as ideias, é um facto, mas não, não conseguiu mudá-las, o teste deu negativo.]

sábado, 23 de abril de 2022

Dissecar o cadáver

 

Entre a Páscoa e a Pascoela, o Sporting decidiu mortificar-nos com um relance delicioso das nossas memórias. Como a memória é curta convém notar que a Páscoa este ano foi em Abril. Já não se trata do Natal, nem do dia de reis, nem sequer do dia dos namorados, ou perto do dia do pai. Não, o Sporting em meados de Abril ainda discute (ou discutia) o título e estava nas meias-finais da taça. Esse pormenor mostra-nos que o nosso sofrimento tem tido o prolongamento que merece.  

Dois factores contribuem decisivamente para alguma da penumbra que ensombra a clarividência dos Sportinguistas: os resultados recentes e, sobretudo, a perda do seu tempo assistindo aos vários programas da bola que por aí pululam. Nestes, assistimos a verdadeiras aulas de anatomia versadas em dissecação de cadáveres. Ontem, por desleixo, enquanto esperava o filme dos Monty Python “Em Busca do Cálice Sagrado” e bebericava um último copo de um tinto encorpado do Dão, dei por mim a fazer zapping pelos milhares de canais que se dedicam ao nobre ofício da informação futeboleira.

Invariavelmente o assunto era o mesmo: ora o mau momento do Sporting, ora o caso… a novela Slimani. As teorias eram tantas e tão diversificadas que dei por mim deleitado, pensando que aquilo não eram teorias da conspiração mas sim teorias da inspiração. As participações eram fervorosas, analíticas, conhecedoras, todavia, incrivelmente vazias. O objetivo era claro: mostrar que a turbulência teria voltado ao Sporting. Devemos sempre pensar a quem isto serve.

Entretanto, e paralelemente, tenta-se salientar o (suposto) magnífico momento do Benfica, com os resultados que todos conhecemos. Do Porto, apenas maravilhas, com o seu presidente a tentar meter a foice em seara alheia. Como a memória é curta e desprovida de escrúpulos, já ninguém recorda aquele enternecedor jogo entre a B SAD (ou será be sad?) e o Benfica, ou esse longínquo FC Porto-Portimonense com que fomos (recentemente) brindados. Com a saída das máscaras, será que voltaremos ao velho normal? `


quarta-feira, 30 de março de 2022

Tenrinhos!

A Macedónia do Norte entrou a pensar ganhar a jogar para o empate. Ora, se há seleção cuja especialidade seja ganhar empatando é a portuguesa. Só com o Fernando Santos é que os tenrinhos da Macedónia acabavam por perder com dois golos de contra-ataque. Ainda há quem o queira substituir, que prefira ter razão a ganhar [sabe Deus como, mas ganhar, não interessa]. 

terça-feira, 22 de março de 2022

Forte personalidade (do ano)

Ontem, num jornal desportivo perto de si, analisava-se assim a arbitragem do árbitro Dias no jogo do Porto contra o Boavista: “Arbitragem globalmente competente em jogo intenso e com vários lances de difícil avaliação. A sua forte personalidade acabou por prejudicá-lo ao não aceitar boa indicação do VAR [de cartão vermelho para o Mbemba]”.

Embora com atraso, a nossa modernidade (tardia) implica nova linguagem e novas formas de codificação, e a bola não é, não pode ser exceção. Não, não se trata de ideologia de género [seja isso o que for] como agora se diz. Ninguém tem culpa, nem o pai, nem a mãe. Trata-se, tão-só, do filho de uma grandessíssima forte personalidade e quem sai aos seus não degenera, diz o ditado popular. 

domingo, 20 de março de 2022

O assunto é um futebol sério

 

Falar sobre futebol passou a ser um assunto. O futebol não deveria ser um assunto, apenas um jogo. Mas em Portugal (que eu me lembre) sempre foi um caso de vida ou de morte. Recordo-me bem de alguns “enterros” da equipa anteriormente campeã, com direito a desfile e tudo. Se tivermos em consideração os inúmeros casos que nas últimas décadas salpicaram o futebol porquês, percebemos que o futebol se tonou parte do cancioneiro ao mesmo tempo que do tribunal. Ser um assunto, portanto, não é de hoje. O que é de hoje é o filme que envolve o assunto. O filme e a logística. Por exemplo, ontem nem me passou pela cabeça deslocar-me a Guimarães para assistir ao jogo. Para isso precisamos de ter em dia o livrete das operações especiais undercover, com especialidade em caracterização e fuga. Não é fácil entrar naquele estádio (e noutros) sem um conjunto de habilidades e caracterização apropriada. Requer passagens anteriores por Guimarães e conhecimento da língua local. Também não é fácil sair do estádio, principalmente se estivermos na bancada dos adeptos leoninos (qualquer outra é totalmente desaconselhável, mesmo a experientes espiões). Durante o jogo a coisa também não se afigura simples, teremos sempre de ter em conta os adeptos adversários e os nossos. Fora das quatro linhas joga-se um jogo cuja linguagem é pertença de apenas uns (poucos) eleitos.

Ontem foi mais um dia de jogo, perdão, de assunto. As equipas entraram em campo e começaram a tentar jogar futebol, embora com as paragens normais nos vários apeadeiros do costume. Enquanto teve pernas para a intensidade de um jogo de futebol profissional, ainda que jogado às pinguinhas, o Vitória pareceu dividir o jogo, principalmente na primeira parte, fruto de algum desacerto (é assim que se diz?) leonino, criando assim a ilusão que estávamos perante um jogo de futebol. Na segunda parte, com a naturalidade habitual, o Sporting falhou e marcou. De repente o futebol voltou a ser um assunto qualquer que não interessa ao caso e começamos a assistir à lenga-lenga habitual de protestos dentro e fora de campo. Paragens, dentro e fora do campo. E uma carga policial, desta feita apenas fora de campo, mas dentro do estádio. A partir daí o assunto ficou cada vez menos dividido e o Sporting marcou e falhou, não necessariamente por esta ordem, demostrando algum virtuosismo no assunto em causa. O futebol é um assunto sério, ou o assunto é um futebol sério? Eis a questão.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Valha-nos Rúben Amorim e suas promessas!

Continuo a pensar o que sempre pensei sobre a Liga dos Campeões, mas começo a apreciar estes jogos a meio da semana. Não têm a emoção de um jogo contra um Varzim para a Taça de Portugal ou contra um Arouca para o campeonato, mas nem só de emoções vive um homem [ou mulher por muito que digam que são mais emotivas]. Os jogos da Liga dos Campeões são o mais parecido que se consegue arranjar de um jogo a sério. É um treino a sério e sério, um exercício com fogo real [embora não deixe de ser um treino para os mais atentos e avisados]. Depois de um jogo destes, um treinador pode ver-se despedido ou um jogador reabilitado. Também há o dinheiro [e não é pouco], uma espécie de Plano de Recuperação e Resiliência [PRR] do futebol português, mas é conversa repetida, conversa gasta. 

Mas deixemo-nos de teorias e vamos aos factos, ao jogo propriamente dito contra o Manchester City, começando por sublinhar a argúcia tático-estratégica do Rúben Amorim. Ainda antes de começar, a eliminatória já estava perdida. Como estava perdida e estava [como se viu] tratámos de enfardar cinco de uma vez em casa. O facto de o termos feito em bom tempo e resolvido o que havia para resolver, permitiu-nos negociar um acordo de cessar-fogo e, assim, dividir o espólio com o adversário. Na primeira parte começámos por cumprir o acordo até que nos entusiasmámos e levámos a bola duas vezes seguidas para o ataque. O adversário ficou aborrecido [e com razão] e o vingativo Sterling foi muito desagradável com uma pessoa mais velha, com idade para ser avô dele, merecedora de mais, muito mais respeito. Valeu-nos [e valeu-lhe] o Adán que levantou o braço, segurou a bola e deu-lhe uma reprimenda das antigas. 

A segunda parte iniciou-se com uma brincadeira combinada entre as duas equipas. O adversário fingia que marcava, nós fingíamo-nos surpreendidos com os ressaltos e os passes e desmarcações, o Adán fingia que levava um frango e no final o árbitro anulava por fora de jogo. Ficava tudo na mesma mas sempre se podia dizer que a culpa [como sempre] era do árbitro [que só participa no jogo na exata medida que alguém tem de ficar com a culpa]. Às páginas tantas, o guarda-redes do Manchester City foi substituído por um senhor saído diretamente da repartição de finanças ou dos serviços municipalizados locais e foi esse senhor que demonstrou, se dúvidas ainda existissem, que o Paulinho falha sem olhar a credo, raça ou género, um verdadeiro paladino do princípio da não discriminação. Tudo acabou numa primeira bacalhauzada entre o Rúben Amorim e o Guardiola seguida de nova bacalhauzada entre o Paulinho [o único, o autêntico] e o Guardiola. 

Vou ter saudades destes jogos a meio da semana. O Rúben Amorim promete-nos que vamos regressar, para o ano. Valha-nos isso! 

quinta-feira, 3 de março de 2022

Real e sua representação ou futebol na Broadway

Para cada um de nós, a realidade, o real não existe, existindo, sim, a sua representação. O olhar pressupõe um entendimento sobre o que se vê e nem todos vêm o mesmo pois dispõem de entendimentos diferentes. Esta sobreposição entre o que se vê e o seu entendimento encontra-se bem expresso no Poema das Coisas Belas, de António Gedeão. Aqui vão uns versos:

"Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas, Mas só são coisas quando coisas percebidas, Por que direi das coisas que são belas? E belas para quê?"

"Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas, Sem precisarem de ser coisas percebidas, Para quem serão belas essas coisas? E belas, para quê?"

Ontem, o Evanilson tropeçou no Pedro Porro e caiu, aproveitando ainda para lhe enfiar uma bofetada nas fuças. O Paulinho tropeçou no Bruno Costa e caiu também. Os tropeções e as quedas são iguais, diferenciando-se uma situação da outra pelas fuças amassadas. A representação do Evanilson e a representação do Paulinho constituem uma dupla representação, a representação de dois artistas que remetem para a representação do real, sendo essa representação diferente para mim e para o árbitro Dias. Há dias, a representação do Taremi também foi diferente para mim e para o árbitro Pinheiro. Há mais dias ainda, a representação do Pepe e a queixada amassada do Coates também foram diferentes para mim e para o árbitro Almeida. 

Três jogos, dois empates e uma derrota. É mau? Podia ser melhor? Podia ser pior? Não sei nem me interessa. Representação é arte, teatro, não é desporto. Se fosse desporto, futebol, interessava, sendo arte performativa, tanto faz que seja drama ou tragicomédia, revista ou ópera, desde que seja boa e se desenrole nos sítios certos, na Broadway ou no Parque Mayer, tanto faz também.