Fomos beneficiados pela pandemia da COVID-19 e por não existir público nos estádios. Fomos beneficiados por perder contra o Lask Linz e deixar de jogar a Liga Europa. Fomos beneficiados por perder contra o Marítimo e deixar de jogar a Taça de Portugal. Fomos beneficiados por não jogar em plena Filomena contra o Nacional e jogar um dia depois num mar de lama. Fomos beneficiados pelos testes “falsos positivos” do Sporar e do Nuno Mendes e, assim, por não contarmos com eles no jogo contra o Rio Ave. Fomos beneficiados pelos testes “negativos” do Sporar e do Nuno Mendes e, assim, por contarmos com eles para o jogo da Taça da Liga. Fomos beneficiados por contratar o Sporar e jogarmos com ele em vez do Rodrigo Tiuí. Nem o Marcelo Rebelo de Sousa é tão beneficiado, irra!
Falaremos do Sporting, mais mal do que bem. Falaremos também do Benfica, sempre mal. Falaremos do Porto, conformados.
terça-feira, 19 de janeiro de 2021
domingo, 17 de janeiro de 2021
O engodo das couves
Não é como jogamos, isso toda a gente sabe, mas como pensamos, que faz
a diferença. Os adversários estudam os vários planos (se forem realmente
estudiosos), as combinações (se se derem a esse trabalho), a dinâmica, mas não
conhecem e não podem dominar o nosso pensamento (por vezes, nem sequer
pressentem a existência do dito). Pensar não é o mesmo que ter uma ideia, ou até
várias. O pensamento é uma entidade raríssima que, em doses bem medidas,
juntando-se a algum talento, à disciplina, ao treino, sendo mesmo um dos
interlocutores privilegiados daquilo a que hoje futebolisticamente se denomina
(com uma certa pompa), de intensidade, poderá formar uma espécie de Isomax,
desafiando assim os limites da rigidez elástica.
Tinha começado assim esta posta,
para tentar compreender o jogo do Sporting com o Rio-Ave, mas depois percebi
que, com Rúben Amorim, o pensamento penetra mais fundo, em áreas remotas, onde
apenas os mais devotos conhecem os segredos do universo da bola. Mesmo sem carta
de condução para naves espaciais, Rúben percebe como poucos o lema do Sporting:
falhar, falhar sempre, falhar cada vez
melhor, adaptando-o com uma nuance: falhar apenas um pouco, falhar um pouco
melhor, para poder (quem sabe?) ganhar. Trata-se de um engodo arriscado, mas
genial. E estou a falar muito a sério!
Com sete minutos de jogo já
Gonçalo Prata vestia um cartão amarelo, incompreensível até para o cartilheiro comentador.
Já agora, todos: os comentadores a soldo, a arbitragem, a pressão dos
adversários, os pasquins detratores, os sportinguistas (muitos, sem dúvida
alguma), gravitam em torno desse misticismo da iminente derrota, do falhanço cósmico,
como numa espécie de maldição inevitável.
No final da primeira parte (e com
o Borja em jogo) o Sporting ganhava um a zero e podia ter dilatado a vantagem.
O engodo seguiu o seu curso, materializando-se num golo do adversário desenhado
por uma espécie de equipa B do Sporting (estranho
jogar contra a nossa equipa B – dizia uma mensagem de um amigo),
aproximando-nos assim do abismo cósmico previsto. Não aconteceu? Aconteceu, mas
apenas pela metade. O Sporting não perdeu, empatou um jogo que poderia ter
ganho e que, segundo alguns, era indispensável ganhar, porque a seguir havia um
clássico. E depois jogava o Braga. Isto é: o calendário pendurado na parede.
A falhar um pouco, empatados, esperamos
pelo clássico onde (sem se rir) JJ disse mais tarde que não sabia o resultado
(a paródia do costume) do Sporting (esperaria outra coisa, certamente). Do
empate no clássico apenas saíram vencedores: o Benfica que ganhou (mais uma vez
JJ) empatando, o Porto que empatou ganhando, ou perdendo, nas palavras de Conceição,
várias oportunidades (nenhuma de estar calado). O jogo, pelo resumo, foi a confusão
do costume, não se sabendo nada (ainda) de túneis. Os melhores são assim: rotineiros.
O Braga terá ficado no conforto
cósmico da confinação dos empatas, sem saber do engodo de Rúben. Em Paços de
Ferreira também havia jogo, mas apenas por acaso. A genialidade de Carvalhal,
agora com aquele remate técnico na calvície, cavalgou a ilusão fantástica do
futebol inglês, mas com pronúncia acentuada do Minho, sita em Braga. Uma
mensagem de um amigo meu do Boavista esclareceu: têm de vender os Hortas, sempre que é para passar o Benfas mandam a
bola para as couves.
Para as couves: um bom título para o nosso futebol.
Entretanto, continuámos em
primeiro. Com a distância possível (segundo se diz por aí).
sábado, 16 de janeiro de 2021
A saúde está primeiro e nós também
Há coisas que não se fazem, simplesmente não se fazem. O Ferro estava a fazer um mau trabalho, é isso? Perdemos para a Taça de Portugal e isso e só por isso é razão para se trocar o treinador principal pelo adjunto? O senhor Pereira do Automóvel Clube de Portugal ou da Direção Geral de Viação, não sei bem, disse o que tem de ser dito: não é por se andar a tirar a carta que se está em condições de conduzir. Quem tem filhos sabe isso muito bem. Facilitamos, damos-lhes as chaves do carro e no mínimo fica com um arranhão na porta ou com o para-choques amolgado, mesmo que seja para o tirar e voltar a colocar na garagem.
O Rúben Amorim está a tirar a carta e deram-lhe o carro para as mãos, como qualquer pai faz com o coração nas mãos sabendo que o não deve fazer. Não andou bem, o carro naturalmente. Vi os últimos quinze minutos da primeira parte e os primeiros quinze da segunda, onde praticamente tudo de relevante aconteceu. Quando comecei a ver estávamos em pleno Plano A. Muita troca de bola para trás e para a frente, idas às linha para se voltar para trás e começar de novo, virando de flanco para fazer o mesmo do outro lado. De repente sai uma jogada de manual: os jogadores do Sporting e do Rio Ave concentram-se em três metros quadrados do lado direito, a bola sai da molhada para o Pedro Porro que faz uma passe a rasgar para o Plata, do lado contrário, que mete a bola de primeira para o Pedro Gonçalves a encostar de primeira também ao seu estilo, para o lado oposto ao do movimento da bola e natural movimento do guarda-redes. Foi um golo de manual, um golo digno de ser ensinado na escola de condução onde anda o Rúben Amorim.
Até ao final da primeira parte podíamos ter arrumado o jogo. O Tiago Tomás rematou à entrada da área e o guarda-redes fez uma excelente estirada e safou a bola para canto. O Pedro Porro antecipa-se a um adversário e recupera a bola, mete-a no Pedro Gonçalves que a centra para o João Mário a deixar passar para o Nuno Santos, que enche o pé e a chuta para as nuvens. Na segunda parte entrámos em modo não sei se continuamos a pressionar alto e a atacar ou se recuamos um pouco para deixar o adversário adiantar-se e, com mais espaço, jogar em ataques rápidos ou contra-ataques. Contrariamente a muitos sportinguistas, considero que temos tantos planos como as letras do alfabeto. Não podemos é entrar com uma combinação de planos, com um pouco do A e o restante do B. A equipa ficou expetante, perdeu o controlo de jogo e expôs-se ao ataque do Rio Ave.
Na primeira, o Mané faz um passe ao Ádan. Não avisados, na segunda tivemos a defesa sem saber bem se não recuava e fazia a linha de fora-de-jogo ou se recuava e ficava com um olho no burro e outro no burro. Optaram pela segunda possibilidade, que é o que fazem as equipas que não sabem o que fazer nestas circunstâncias. O Borja recuou a olhar a bola sem compreender bem onde se encontrava por referência ao Geraldes, portador da bola, e ao Mané que se desmarcava. Acabou tudo em golo do Rio Ave, após triangulação entre o Geraldes, o Mané e o Dala. Os rapazes foram fantásticos, pedindo imediatamente desculpa pois pensavam estar a marcar um golo pelo Sporting. Estão perdoados para que se saiba. Tarde ou cedo acabaremos por trocar alguns dos que temos por outros e esses por outros ainda até tudo acabar ao fim de trocas e baldrocas no regresso desses três outra vez e descobrirmos que também não os devíamos ter contratado de volta.
Não vi mais. Fiquei a saber que empatámos. Admiti que estávamos a testar os nossos principais rivais, o Porto e o Benfica, a ver do que valiam, do que eram feitos e capazes. Queríamos que pelo menos um deles nos desse alguma luta, mas, se dúvidas houvesse, ficámos a saber um pouco mais tarde que isto está resolvido. Não há assim razão para não se acabar com isto, com o campeonato, entenda-se. A saúde está primeiro e nós também.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
Caviar é uma ova
O sportinguista é bicho estranho, esquisito, muito esquisito. É um iconoclasta ao contrário, não desvaloriza os méritos alheios mas os seus. É aristocrata, falido mas aristocrata. Pode estar a morrer de fome mas não come uma sardinha de conserva na lata de conserva da sardinha, exigindo uma lata de conserva de esturjão, de caviar. Nem tudo lhe serve, é pobre e mal-agradecido. Esta ladainha vem a propósito do último jogo contra o Marítimo e a eliminação da Taça de Portugal.
Habituado a comer sardinha em latas de esturjão, os sportinguistas rasgaram as vestes e concluíram que o plantel não tem profundidade, alternativas para estar em muitas frentes. Por defeito e feitio, tenho sempre alguma dificuldade em fazer reflexões emocionais, não envolvendo a componente analítica. Para estes sportinguistas, a profundidade é autorreferente e normativa; está escrito na pedra que o Sporting deve ter uma equipa com tantos jogadores, distribuídos por estas e aquelas posições em quantidade e qualidade bem definidas. Quando assim penso, vem-me à cabeça o Jorge Jesus e o conjunto de sérvios, albaneses, croatas, macedónios, brasileiros, argentinos, congoleses que era preciso contratar sob risco de uma maldição. Os que estavam, os da formação nunca serviam. Quem quiser voltar a esse passado sabe o que lhe espera e espero que tenha bom proveito.
Como considero que a profundidade não é autorreferente, analiso-a relativamente aos nossos principais adversários. Ora, está bom de ver que por lá pululam alternativas e mais alternativas que, sendo tantas, nem sequer precisam de contratar mais e, jogue quem jogar, será sempre uma jogatana. O Benfica e o Porto têm jogado pouco ou nada e, nesta eliminatória, ficámos a conhecer a profundidade, as alternativas da equipa do Porto. Não sei se podemos contratar um rapaz como o que apresentaram no jogo contra o Nacional, muito habilidoso, com bom toque de bola, capaz de neutralizar os jogadores adversários e ao mesmo tempo de marcar o golo redentor, o golo no último minuto que o Sporar não foi capaz de marcar.
O que espero do Sporting, do Rúben Amorim e dos nossos rapazes é que continuem como até aqui, que não pensem se esta jornada vão ficar mais à frente ou mais atrás dos adversários; que não tenham medo de perder e medo de perder a vantagem que dispõem no campeonato. Espero que continuem a jogar com a mesma alegria, com a mesma vontade de ganhar, jogo a jogo como até aqui, sem nenhuma outra responsabilidade que não seja a de jogar um jogo de cada vez. Eu não lhes peço mais nada.
Talvez pedisse jornalismo desportivo mas isso é o mesmo que pedir a paz, a felicidade, a convivência entre os povos. O jornalismo acabou e em sua substituição ficou o entretenimento, seja isso o que for, com diretos, muitos diretos, e debates, muito debates. Há dias ouvi uma entrevista de Juca Kfouri, grande jornalista brasileiro. Afirmava que os operadores televisivos e os clubes e a federação brasileira tendem a associar-se e isso explicava a razão para a inexistência de jornalismo desportivo e de visão crítica quanto ao futebol praticado, especialmente na televisão. Como contraponto, colocava o exemplo clássico da compra de um carro em segunda mão. Quando alguém compra um carro, o carro passa a ser dele e dele pode dizer o que entender e de quem lho vendeu. Se o carro é mau, dirá que é mau e que o vendedor o aldrabou.
Não estou de acordo com Juca Kfouri. O exemplo do carro em segunda mão também se aplica exatamente aos operadores que compram os direitos de transmissão. Os operadores não compram os direitos para ficar com eles, mas para os revender de imediato aos telespetadores e assinantes. Compram um carro em segunda mão para o revender de imediato a outros que necessitam de um carro em terceira mão. Para o revender de imediato, não podem dizer mal dele. Ninguém espere que os canais e os jornais desportivos que vendem este entretenimento venham dizer-nos que se joga tão mal em Portugal que até dói e que as arbitragens são de ir às lágrimas. Talvez se esperasse mais dos canais públicos e dos jornais generalistas, mas não tem sido possível. Os primeiros, porque estão entretidos nas guerras de audiência e a imitar os outros, os segundos porque já estão quase em extinção e a fazer jornalismo sem jornalistas.
[O título deste “post” é uma simples homenagem ao Gregório Duvivier, ator, humorista, guionista e escritor brasileiro. O Porta dos Fundos e o Greg News ajudaram-me a manter a sanidade mental no confinamento de março. Não sei se encontrarei substituto à altura para o confinamento que hoje se inicia]
terça-feira, 12 de janeiro de 2021
Vende-se “smart" TV
No Natal, contra tudo e contra todos, especialmente de ideias passadistas quando ao adequado enquadramento de interiores da sala de jantar, mas contando com o informado e imprescindível apoio da minha filha Ana, regressada de Zurique para um curto período de férias, comprei uma “smart" TV, uma coisa bem supimpa, que faz a felicidade de qualquer homem na crise da meia-idade. Um calhamaço de 50 polegadas, com ligações “hi-fi”, “bluetooth”, “streaming” e o raio a quatro, tudo a operar em sistema Android. Com a tal de “smart" TV e o “smartphone”, fica-se com a sensação que se pode fazer um frango de churrasco ou uma entremeada na brasa.
Regressado do trabalho, sentei-me à frente da dita, da tal de “smart" TV para ver o jogo do Sporting contra o Marítimo para a Taça de Portugal. Apesar do aparato tecnológico e das minhas tentativas de controlo remoto, ouvia insistentemente a voz do Manuel Cajuda a comentar o jogo. Comecei a imaginar que, depois do jogo e do Manuel Cajuda, veria o “Bonanza”, a “Casa na Pradaria” ou a “Vaca Cornélia”. Ora, este era o tipo de programas e séries que via numa Grundig a preto e branco que o meu pai tinha comprado aí pelos finais dos anos sessenta, princípios dos anos setenta. Imaginam o desconsolo, o sonho de uma vida, uma “smart" TV e depois isto: uma série dos anos sessenta ou setenta a preto e branco.
Quando percebi que o Borja tinha regressado, senti um ligeiro arrepio, mas está frio, muito frio, e pensei que era do frio, não sendo necessário desempacotar o desfibrilador. O Manuel Cajuda e um outro comentador tentaram reconfortar-me, afirmando que tínhamos um banco de luxo, enumerando os jogadores e entre eles o Sporar. É o mesmo que nos falarem de Ricardo Salgado e de banco bom na mesma frase. Mais coisa menos coisa, falhanço aqui, falta ali, perdas de tempo acolá, o jogo ia (não) correndo: uma bagatela de 26 faltas só na primeira parte. O melhor momento foi mesmo quando o árbitro foi saber como se encontrava um jogador do Marítimo que estava a ser assistido fora do campo. Apreciei a diligência e a atenção. Não me voltam a apanhar no SNS24. Quando me sentir mal, ligo ao Manuel Oliveira.
A segunda parte foi mais do mesmo. Muitas faltas. Amarelos nem vê-los. Perdas de tempo com jogadores do Marítimo estropiados e desmaiados pelo chão. Estava-se nisto quando o Neto fez o que tinha de ser feito e, se alguém o tinha de fazer, ele e só ele o poderia fazer. Passou para as costas do Palhinha, um jogador recupera a bola, tropeça no Feddal, tropeça na bola, passa-a para o lado direito e golo do Marítimo. Passado mais um bocado, canto para o Marítimo, desvio ao primeiro poste, aparece um jogador ao segundo poste a empurrar a bola e segundo golo. Foi um prémio muito merecido para esse jogador. Fez quatro faltas para amarelo e só viu um. Alguns dirão: o prémio foi não ter sido expulso. Não, nada disso, era pouco, muito pouco, o árbitro não queria e não o ia expulsar, fizesse o que fizesse. Não o expulsar não era prémio. Prémio, reconhecimento é deixá-lo marcar um golo para assim o homenagear.
A coisa está feita e não se fala mais nisso: perdemos e fomos eliminados da Taça de Portugal. Esta história é repetida. Foi assim que fizemos contra o Lask Linz e temos sido beneficiados por não jogar a Liga Europa, como muitos afirmam. Agora, sempre poderão afirmar também que iremos ser beneficiados por não jogar a Taça de Portugal.
domingo, 10 de janeiro de 2021
We Shall Fight on the Beaches
“[…] we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing trength in the air, we shall defend our island, whatever the cost may be. We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender”.
Até ontem, atribuía estas palavras, este discurso a Winston Churchill, no
parlamento inglês, em 4 de julho de 1940. Ontem, descobri que estava enganado,
que as palavras eram da Doutora Helena da Liga Portuguesa de Futebol,
dirigindo-se à equipa técnica e aos jogadores do Sporting. Enfrentámos a tempestade
Filomena no ar. Não conseguimos aterrar, no Funchal, recorrendo à alternativa
do Porto Santo. Voltámos a levantar voo e a enfrentar a Filomena no ar até a
derrotarmos e aterrarmos no Funchal. Em terra, também foi preciso tentar derrotá-la,
mesmo com risco de um resfriado, de uma gripe. Não foi possível na
quinta-feira. Na sexta, defrontámo-la em terra e no mar, num mar de lama. As coisas
estiveram mal paradas no ar, em terra e no mar, mas nunca nos rendemos.
O trabalho prejudica muito o futebol. Só vi os últimos trinta minutos.
Percebi o contexto. O Nacional estava a jogar contra o vento e tinha muitas
dificuldades em sair com bola longa para o ataque. E nós pressionávamos a saída
bola de trás como se não existisse amanhã; e o Pedro Gonçalves isola-se do lado
direito e remata cruzado para um mergulho do guarda-redes; e o Palhinha
recupera uma bola, domina-a no peito, coloca-a no chão, percebe que o
guarda-redes está mal colocado e remata de longe, com ela a sair rente ao
poste; e entre o Nuno Mendes, o Nuno Santos e o Palhinha recuperam uma bola e
metem-na no Pedro Gonçalves que a estica para o outro lado onde aparece o Pedro
Porro que simula, faz uma pausa, espera até a meter novamente no Pedro Gonçalves à
entrada da área, que simula o remate, passa pela defesa e a remata por cima da
baliza, depois de ter ficado presa na lama; e o Nuno Santos corre como se fosse
a última vez e, isolado à entrada da área, remata cruzado, ao lado, com a bola
a ficar presa numa poça de água; e o Pedro Gonçalves ganha uma bola à entrada da
área, passa-a do pé direito para o esquerdo e enfia uma bojarda ao poste; e o
Tiago Tomás isola-se do lado esquerdo e remata ao primeiro poste para mais uma
boa defesa do guarda-redes; e entra o Matheus Nunes; e entra o Jovane Cabral; e
o Pedro Gonçalves desmarca o Matheus Nunes do lado direito, que centra para o corte de um defesa, sobrando a bola para o Tiago Tomás, que arranca para a
linha e a centra atrasado para o Jovane Cabral a encostar para a baliza de
primeira.
Durante trinta minutos passou sempre o mesmo pela minha cabeça: a nossa maldição,
uma maldição pior do que a do Béla Guttmann. Vieram-me à cabeça jogos atrás de
jogos e olhares, olhares desolados, do Polga, do Rui Patrício, do Liedson ou de milhares de adeptos na final da Taça UEFA em pleno Estádio de Alvalade.
Tudo ia acabar como sempre acaba, não há como lhe fugir. Trinta minutos que
duraram uma vida, imagens atrás de imagens de meio século de sportinguismo,
desta fatalidade. E a bola entrou e entrou na baliza certa! Os homens não
choram, é uma chatice, mas podem-se rebolar na lama como miúdos sabendo que não
escapam ao ralhete da mãe.
E as palavras finais do Rúben Amorim dizem tudo: “Não tenho palavras para
a atitude destes jogadores, como eles encaram os desafios, as dificuldades, tenho
um orgulho enorme em ser treinador deste grupo”. Para o bem ou para o mal, as
palavras contam, as palavras têm consequências.
sábado, 9 de janeiro de 2021
Estranha forma de vida
Diz um amigo meu Sportinguista
que já não aguenta. Era no natal, no ano novo, nos reis, não tarda, diz ele,
passará o seu aniversário em primeiro, quem sabe o carnaval e, mesmo a páscoa,
não fica assim tão fora de mão. A pressão tem sido enorme, de todos os
quadrantes surgem os avisos à navegação, o primeiro lugar do Sporting é efémero
(gritam), outra coisa seria inexplicável. Os comentadores comentam (suspirando),
os gazetistas desinformam, Jorge Jesus agita-se e pedincha reforços, Sérgio
Conceição confia na fruta de época, os adeptos adversários engolem em seco as
piadinhas, e os Sportinguistas encolhem os ombros desculpando-se por esta
estranha forma de vida.
Um jogo tinha sido adiado certamente
para empatar no dia seguinte (um filme recente de um rival). Ou talvez porque
os meninos tinham medo ao vento. Um avião terá andado horas em passeio,
sobrevoando a Madeira para ver se conseguia ter uma vista privilegiada da ilha.
Ou então para criar suspense e voltar a casa. De tudo, o meu amigo ouviu. Chegado
o momento, a equipa do Sporting calçou as galochas e, de peito feito,
dedicou-se à agricultura num batatal bem regado. Os rostos felizes dos
vencedores coincidiram, no final, com a devida vénia dos vencidos.
Estranha forma de vida? Isso já
nós sabemos há muito tempo. E com orgulho!
quinta-feira, 7 de janeiro de 2021
Não foi por culpa do árbitro
O Sporting não ganhou ao Nacional e não, não foi por culpa do árbitro. Apesar de um pouco lento na análise dos lances, com sucessivas consultas ao VAR, demorando muito tempo na decisão e quebrando o ritmo de jogo, Manuel Mota decidiu sempre bem. Controlou disciplinarmente muito bem o jogo também, sem mostrar um amarelo para amostra.
Os lances não são isentos de controvérsia. Não sei se um Fábio Veríssimo ou um Luís Godinho não teriam decidido de outro modo. Por exemplo, dificilmente teriam permitido a entrada no mínimo imprudente do Coates de calções. As leis não são de simples interpretação neste caso. Está um senhor na televisão a explicar tudo. Quando chove a cântaros e está um briol do camandro, o jogador não pode colocar em causa a sua integridade física e a dos restantes jogadores. Era evidente que o Coates já estava com o pingo no nariz e nem a uma coberta ou a um xaile recorreu.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2021
Uma teoria da relatividade sobre o jogo Sporting x Braga
O jogo contra o Braga necessita de umas notas, de umas explicações adicionais, para ver se se compreende o que se passou e as razões para tanto mau perder. De repente, ficámos a saber que existem milhões e milhões de adeptos do Braga e que a comunicação social é quase unânime em considerar a sua equipa como a melhor do campeonato e arredores. No futebol, tarde ou cedo, as profecias autorrealizam-se: nem sempre se perde, nem sempre se ganha. Afirmar que o Sporting vai perder não é sequer uma profecia, é um facto. A comunicação social fez esta profecia como sempre a faz, época após época, mas a profecia tarda a cumprir-se. É todo um parlapié sobre futebol, um modo de vida que está em causa.
Desta vez é que era. O Sporting não ganhava e o Benfica, ao ganhar [estava-se mesmo a ver], passava para a liderança. Num só fim-de-semana, a conversa e mais conversa sobre esta profecia legitimava-se e assim se continuava como dantes, como de costume. Mandaram-se os habituais foguetes antes da festa e depois foi um sarilho para andar a apanhar as canas, aparecendo melões, muito melões, e explicações atabalhoadas, como a dos remates enquadrados e não enquadrados de um rapaz da Sporttv. O mau perder do Carvalhal, que aprecio [afirmo para não haver dúvidas] e que aprecio ainda mais quando, ao falar inglês, traduz literalmente frases idiomáticas, cumprindo o princípio do grande Eça de se falar patrioticamente mal qualquer outra língua que não seja a língua portuguesa, foi a cereja em cima do bolo.
Vamos analisar um pouco melhor jogo para ver se nos entendemos. As equipas encaixaram-se bem e as oportunidades de golo foram muito poucas. O entusiamo do relato e dos comentários fizeram-nos crer noutra coisa, mas a verdade não é essa.
Na segunda parte, o Braga não tem nenhuma oportunidade de remate enquadrado, como agora se diz. No lance do golo anulado, nem o Feddal, nem o Coates procuram recuperar posição e limitam-se a manter a linha de fora-de-jogo e assim a anular o lance à nascença. Há quem diga que 14 centímetros é pouco, mas a verdade é que foram os jogadores do Sporting que intencionalmente o deixaram 14 centímetros em fora-de-jogo. O outro suposto lance nasce de outro bom posicionamento da linha defensiva que deixa o Esgaio vários metros em fora-de-jogo, que o fiscal-de-linha vesgo não viu ou fez que não viu [e então não é vesgo mas outra coisa]. Em síntese, durante 45 minutos o Braga não tem uma oportunidade para amostra e nos últimos 30 minutos, a perder, não o consegue apesar de ter a equipa toda no ataque.
Na primeira parte, o Braga tem uma excelente oportunidade de golo, quando o Horta se isola e tenta o chapéu ao Ádan. Os dois outros remates perigosos nascem de simples confusões e carambolas. No primeiro, a bola anda em bolandas até que o Horta sem ver bem onde estava nem onde estava a baliza lhe enfia uma biqueirada para onde estava virado. No segundo, tudo se inicia num corte do Coates, seguido de uma escorregadela do Paulinho que impede a disputa da bola e lhe permite, no chão, aliviá-la mais ou menos para onde estava virado, proporcionando um remate de fora da área de olhos fechados que leva a bola ao poste.
Não pretendo desenvolver nenhuma teoria sobre oportunidades de golo ou remates enquadrados, seja isso o que for, e assim estabilizar conceitos. O que estamos mais ou menos de acordo é que a equipa do Sporting e a sua defesa só permitiram uma oportunidade golo a partir de uma jogada do Braga com pés e cabeça [em sentido figurativo, porque em sentido literal a cabeça não é para aqui chamada]. Esta análise permite um conclusão, que vem sendo repetida jogo após jogo: o Sporting não é uma equipa fácil de bater! Este é o grande mérito do Rúben Amorim e, como tenho referido, na cabeça dele, na sua tática defender bem é condição necessária. Sem defender bem, não é possível ganhar.
Em muitas circunstâncias, defender bem é condição necessária e suficiente. Há sempre uma bola vadia, uma carambola, um canto ou um livre que fazem o que falta para se ganhar o jogo [no futebol português, ganham-se mais jogos assim do que de outra forma qualquer]. Quando se tem de atacar é que a porca torce o rabo. O Sporting não dispõe de um ponta-de-lança de referência que permita, com base nele, construir o ataque e chegar a zonas de finalização. A equipa precisa sempre que os laterais consigam desbloquear os seus flancos e desequilibrar no ataque, com movimentações dos extremos para o interior; para isso, precisa de espaço e foi esse espaço que o Braga concedeu no primeiro golo. A diferença esteve na finalização do Pedro Gonçalves por oposição ao Horta.
Não conseguindo construir no ataque posicional [à falta de melhor definição], a equipa vive da pressão alta e de bolas em profundidade, colocando muita, muita intensidade nesta forma de jogar. A diferença relativamente às outras equipas também tem sido esta: mais intensidade e maior resistência física. O segundo golo [mais um remate enquadrado] e os últimos vinte minutos de controlo do jogo devem-se às substituições e a essa maior capacidade física [no início do jogo, o Sporar não teria passado pelo Esgaio e pelo Rolando como cão por vinha vindimada].
Dito isto, o resultado poderia ter sido outro. No futebol, é sempre possível. Ganhar e merecer ganhar são uma e a mesma coisa. O objetivo é marcar mais golos do que adversário e, marcando, atinge-se o objetivo e "mutatis mutandis" impede-se o adversário de o atingir. O Braga não jogou mal, muito pelo contrário. Foi o facto de ter jogado bem que tornou esta vitória ainda mais relevante. O que se dispensa são os foguetes antes da festa, o futebolês permanente, o mau jornalismo e a arbitragem portuguesa, como se viu mais uma vez. Não são precisos estes acessórios para que os jogadores façam dentro de campo o que têm de fazer e que os treinadores determinaram. No fim, no fim logo se vê e assim é que é bonito.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2021
Venha o próximo
Não fui ao estádio. Estava para
ir receber a equipa e beber um copo no Boina Verde, ver a malta dos coiratos a
arrebitar cachimbo, ficar na bicha a ruminar impropérios antes de entrar no
estádio, escutar os petardos (será a passagem do ano?), olhar a casinha e
recordar sem vergonha o cachecol da caveira e a faixa do puto que já foi capa
de um disco memorável. De Braga são apenas 3 horas e picos, mais uns trocos (valentes)
de portagem, mais uns trocos (valentes) de gasóleo, mas desta vez não era
possível, nem com a máscara do Dali da Casa de Papel. Tentei as autoridades, as
oficiais e as oficiosas, não, não era possível partir o mealheiro e esmiuçar os
envelopes das prendas de Natal para ver o Sporting. Já lá fui tantas vezes, reza
uma história de contar os tostões, apenas para ver o Sporting, entrar no
estádio, andar lado a lado com as gentes das nossas cores. Todo o mundo sabe
que…
A internet não sabe. Às vezes o
jogo chega com delay, às vezes não chega. Depois de uma manhã de trabalho e uma
tarde de confinamento, entrei no estádio. Às pinguinhas, os acontecimentos
aconteciam (deixem passar) com o beneplácito dos comentadores, passando as
imagens rente ao desleixo dos árbitros. E a nossa equipa jogava, planava, ao
som dos festejos de um corte do Porro (lembram-se?), de uma defesa do Adán, de
um ou outro tricot do Pantufas. Ao intervalo o Braga ganhava zero a zero (gritavam
alguns, em desespero). Fumei um cigarro e depois outro. Acho que bebi uma cerveja.
Começou a segunda parte, o delay
atrasava-me os pensamentos e fui algumas vezes apanhado em fora de jogo, uma
delas por catorze centímetros. O jogo, repentinamente, foi colhido de surpresa
pela entrada em campo de uma equipa que não tinha autorização para tal, ainda por cima depois de o Braga se apanhar a ganhar zero a zero. O VAR não se pronunciou
(incrivelmente) e essa equipa que surpreendentemente (para alguns) estava em
campo acabou por ganhar dois a zero. A imunidade de grupo, ainda assim, não
estava, nem está, garantida.
Fui-me a um coelho (daqueles
criados em casa - o PAN que me desculpe) estufado, acompanhado de um tinto
robusto. Satisfeito, lembro-me de pensar: venha o próximo!
domingo, 3 de janeiro de 2021
Não perceber e sem o inglês a atrapalhar
Não se pode pedir ao Braga que num só jogo equilibre o campeonato. Quinze amarelos a menos do que o Sporting não se recuperam do pé para a mão [pé e mão são a mesma coisa, como se viu neste jogo]. O Braga fez o que lhe competia? Claro que fez. Não se mete um caceteiro como um Raúl Silva ou um Ali Elmusrati por acaso, por dá cá aquela palha, sem intenção alguma. Fizeram tudo o que estava ao seu alcance: quatro “penalties” e os árbitros nada, nem “penalty”, nem amarelo, nem nada. Uma entrada do Matheus à rótula do Sporar e amarelo logo compensado por um amarelo ao Matheus Nunes por, depois de agarrado por um adversário, lhe ter tocado na face. Sim, quando é que esperam que o Braga recupere o atraso? Por esta andar, jamais, “never ever”, como diria o Carvalhal.
O Braga fez três remates perigosos na primeira parte e o Sporting também. No primeiro, o Ádan fez uma boa defesa, no segundo, a bola vai ao lado, no terceiro, a bola vai ao poste. Não sei o que aconteceu ao Sporting. Sou como o Rúben Amorim, não consigo ver a marcação de “penalties”. Sempre que havia um, ausentava-me para fumar um cigarro e, quando regressava, nada, tudo na mesma. Depois do jogo, ouvi um ex-árbitro na SIC afirmar que tinham sido “penalties”. Havia uma dúvida num, que um jogador pode fazer uma manchete porque futebol e o voleibol são a mesma modalidade, mas houve dois toques, é transporte, não é possível no voleibol também. Os jogadores do Sporting não foram marcar, recusaram-se a marcar, remataram de propósito para fora, não queriam ganhar de “penalty”, foi isso? Uma explicação, é o que se pede.
O Sporting tremeu depois de primeira oportunidade de golo do Braga. Até ao final da primeira parte, foi um ai Jesus, Nossa Senhora. A segunda parte inicia-se com um golo anulado ao Braga por fora-de-jogo. O Carvalhal se já estava inchado mais inchado foi ficando, e com ele, a equipa do Braga, não percebendo que se estava a expor cada vez mais na defesa, numa defesa que depois das correrias que o Sporting lhe proporcionara na primeira parte não podia com uma gata pelo rabo. De longe, de muito longe, o Sporting é a equipa do campeonato mais perigosa no ataque rápido, no contra-ataque, no contragolpe. Dar-lhe espaço é mortal. O primeiro golo é um clássico desta época: viragem de flanco de jogo para o lateral que avança no terreno, Nuno Mendes, centro para as costas do lateral do lado contrário, passe para o meio e Pedro Gonçalves a encostar, de forma simples, sem tentativa de chapéu ou outra figura geométrica, sem força a mais ou a menos, com precisão.
E o Braga enche-se de brios e reage. E o Rúben Amorim não cede, metendo o Sporar e o Tabata para continuarem a pressão sobre a defesa. E mete o Matheus Nunes na meia direita e mata o jogo. Com a defesa completamente à deriva até o Sporar parecia o Messi. Foi mais um, mas se tivéssemos um avançado com outra capacidade, teria sido ainda mais um ou outro. O Rúben Amorim disse-o sem o dizer explicitamente: na segunda parte, os avançados estiveram inúmeras vezes em situações de um contra um. E o Braga entrou no perdido por cem, perdido por mil. Mas quando se quer ganhar com a alma é preciso jogadores com mais alma do que Porro, Coates ou Feddal e o Braga não os tem.
O Braga podia ter marcado primeiro? Claro que sim. Se tivesse marcado, o jogo poderia ter sido diferente? Claro que sim. Não marcando, o Sporting acabaria por ganhar o jogo e foi isso que o Carvalhal e a equipa do Braga nunca perceberam. Com espaço, com a defesa à beira de uma apoplexia e com a equipa do Sporting mais, muito mais fresca, o golo seria uma questão de tempo. O Braga tentou reagir, ainda faltava mais de meia hora, mas desconseguiu e a única oportunidade de golo nasce de um fora-de-jogo do Esgaio que permitiu uma defesa ao Ádan, que nem a devia ter tentado, como disse o Rúben Amorim, com a fina ironia que o caracteriza nas conferências de imprensa. A grande diferença entre o Sporting e o Braga esteve nos treinadores, no conhecimento das forças e fraquezas das suas equipas, mas, sobretudo, no conhecimento das forças e fraquezas da equipa adversária. No final do jogo, o Carvalhal demonstrou que não percebeu nada e, não, o inglês não atrapalhava.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
Bom ano com o Scrooge e tudo!
Ganhámos, ganhámos e voltámos a ganhar e alguns sportinguistas, não satisfeitos, parecem embalados na conversa dos comentadores oficiais do regime. Aproximam-se tempos tenebrosos, de jogos atrás de jogos, de dificuldades e mais dificuldades. O horror, a frustração, o desânimo estão ao virar da esquina! O que vai fazer o Ruben Amorim? Como é que irá reagir um Nuno Mendes, um Tiago Tomás ou um Bragança a estas exigências? E os amarelos? E o avançado que tanto vem como não vem? E o central, não precisamos de um central, vamos continuar com o Neto?
Este Natal foi um belo exemplo de que há coisas que interessam mais, muito mais. Este Natal foi chocho, muito chocho. A pandemia não dá tréguas e as mensagens foram poucas e pouco animadoras. Irritado, enviei uma série de mensagens de bom Natal com umas imagens parvas que para aí andam, com o Pai Natal vestido de verde e apelos ao exemplo do Sporting de isolamento e distanciamento. As respostas foram às pazadas de sportinguistas, de portistas, e de benfiquistas. De repente, estava a responder a um mar de gente. Um amigo de longa data, com o qual não converso há anos, liga-me e conta-me as histórias do filho mais novo, miúdo, do seu orgulho em ir à escola para demonstrar aos seus colegas benfiquistas e portistas com quantos paus se faz uma canoa.
Não, não estamos a perceber nada do que está a acontecer. A disputa do campeonato pouco importa. É mais, muito mais do que isso. Estamos a redimir-nos, a reconciliarmo-nos connosco próprios e com os outros. Já ganhámos, não custa assim tanto perceber. Devemos isso ao Ruben Amorim, ao Tiago Tomás, ao Coates, ao Neto [sim, ao Neto também!], ao Pedro Gonçalves, ao Nuno Santos, ao Sporar [também ao Sporar, sim senhor, ou não nos lembramos do penalty à Panenka no último minuto?!] e por aí fora. Há as sombras do costume e esta jornada foi pródiga nelas, no jogo do Porto e no do Benfica. Mas até os Contos de Natal do Charles Dickens não vivem sem o odiento Scrooge, que até ele se redime [se um dia houver juízo, talvez o futebol português aproveite esta oportunidade para se aproximar da redenção].
Nada do que possa acontecer nos retira o que já ganhámos, o que os nossos já ganharam com a nossa camisola. Não há ninguém, nem o Scrooge, que faça o tempo andar para trás. Não tendo desejado um bom Natal, desejo um excelente ano de 2021 aos rapazes da nossa equipa e, através deles, a todos os sportinguistas.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2020
Não há cérebro sem corpo, embora possa existir corpo sem cérebro
Não bastava jogar contra uma equipa com nome de laranjada ou refresco [prefiro 7-Up a estas bebidas isotónicas, para que conste]; não bastava jogar num campo e num estádio sem dono [no PREC chegou a ser uma Unidade Coletiva de Produção e, ao que dizem, passou a zona de caça turística gerida pela FPF com uns dinheiros do Cristiano Ronaldo à mistura]; como disse o Rúben Amorim, era preciso ainda preparar taticamente pior a equipa do que prepararia o Petit, prepará-la para menos do que nada. Em conclusão, para se estar preparado para tudo é preciso preparar-se para tudo ou para nada.
Quando se refere tudo é tudo mesmo, incluindo um novo fenómeno Lucílio Baptista. Este fenómeno caracteriza-se por se ver o que não se vê e não se viu, não sendo propriamente uma forma de adivinhar. Trata-se de um erro de paralaxe de uma pessoa, mas que altera a realidade de todas as outras ao seu redor. Já me aconteceu. Um dia, a passear de carro no Alentejo fui surpreendido por uma vaca a voar, apontando: “Olha, olha uma vaca a bater as asas, a voar!”. Ao meu lado, a minha mulher não disse nada, cumprindo à risca o protocolo do VAR. Essa situação foi analisada por um ex-árbitro na SIC. Que não, não era uma vaca. Que sim, era um mamífero. Que talvez fosse um veado. Que a afirmação correta devia ter sido: “Olha, olha um veado a bater as asas, a voar!”
A análise do lance do suposto “penalty” do Adan foi clara quanto ao erro de paralaxe e ao processo estranho de alteração da realidade. O tal ex-árbitro jura a pés juntos que o avançado não toca na bola, mas que precisava de uma imagem de demonstrasse que tinha sido o guarda-redes a tocar-lhe. Não se aplica o habitual se não é boi é vaca ou se não é galo é galinha. Sem visualização da genitália, se não é boi pode ser andorinha ou se não é galo pode ser rinoceronte. No “penalty” a nosso favor fez o favor de explicar que se o defesa se limitasse a espetar uma faca nas costas do avançado havia razões para mostrar o vermelho. Se ao mesmo tempo lhe enfiar um balázio na mona, então deve-se mostrar o simples amarelo.
Ando a ler “Sentir & Saber”, do António Damásio [não confundir com Manuel Damásio, se faz favor], e encontro-me especialmente preparado para compreender estas análises. Chama-se inteligência ou competência não explícita, resultado da evolução de processos bioquímicos que permitem detetar sem sentir, sem compreender, sem saber. Os seres unicelulares, como as bactérias, dispõem-se exclusivamente desta competência. Os homens, dispondo de sistema nervoso, combinam formas não explícitas e explícitas para a sua sobrevivência e nenhuma substitui a outra. Não tem mal, mas saber pressupõe sentir e compreender o que se sente: não há cérebro sem corpo, embora possa existir corpo sem cérebro.
Continua a ladainha que todas as equipas já compreenderam o sistema tático do Rúben Amorim. Umas porque estacionam o autocarro e não dão espaços nas costas da defesa, outras porque marcam a saída da bola pelos centrais e fecham as laterais, impedindo as subidas de Pedro Porro e de Nuno Mendes. As equipas vão perdendo, uma atrás da outra, mas estão a compreender, a saber. A única que compreendeu, que soube de facto, foi a equipa do Luís Godinho e, ainda assim, precisou da compreensão, da sabedoria da equipa do VAR. Os adversários não precisam de compreender o sistema tático do Rúben Amorim, mas tão-só de aprender com quem sabe sem saber, através de um longo processo de evolução da espécie que determinou o equilíbrio homeostático do futebol português.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2020
Je suis Charlie!
Fui jantar a casa de uns amigos, não vendo o jogo em direto. A confiança era total. Não vacilei, nos queijos, na sapateira ou no robalo. Ataquei com o que tinha mais à mão. Não perdi um tópico de conversa. Do meu lado esquerdo, ao fundo da sala, passava o jogo. Dei uma ou outra olhadela, de esguelha, de soslaio, tranquilo, muito tranquilo. Como disse, confiança total: a vitória era nossa assim ou assado, como o robalo.
Cheguei a casa e vi o jogo em diferido. Um exercício mais ou menos burocrático, como verificar se as vacinas estão em dia ou a data de validade do Cartão de Cidadão ou da Carta de Condução. Sabemos de antemão que está tudo bem. Queremos é tomar nota mental da necessidade mais ou menos urgente de passar pela Loja do Cidadão. Estava tudo em dia, como esperava. Em janeiro, talvez não fosse má ideia passar pela Loja do Cidadão para trazer um calmeirão para o ataque, um Bas Dost por um oitavo do preço anterior.
Há um ano, qualquer equipa que jogasse contra o Sporting entrava de peito feito à procura da vitória. Agora entram para perder por poucos. O Farense esteve impecável. Entrou para perder por um e o mais tarde que pudesse ser. Só perdeu por um no final do jogo e assim podem voltar para casa com a consciência do dever cumprido e com a confiança em alta. Não sou do Farense, mas, se fosse, estava orgulhoso daqueles bravos rapazes. Entre eles e o árbitro, com os do Sporting à mistura, conseguiram arranjar 44 faltas, mais ou menos uma por minuto de jogo útil. É bom, muito bom. É obra!
O Sporar marcou de “penalty” à Panenka. Pouco se falou desse feito, dessa impossibilidade có(s)mica, de um eslovenos marcar como um checo. Falou-se de artes marciais mistas ou MMA. Há opiniões para todos os gostos. Vale mais pontos o direto do guarda-redes nas fuças do Feddal ou o mata-leão aplicado no pescoço do Coates? Na conferência de imprensa o Rúben Amorim foi ambíguo. Por um lado, prefere o mata-leão mas, por outro, confessa que um direto é mais contundente. Também não sei dizer. Foram dois bons golpes que apanharam os adversários desprevenidos. Conclui-se o jogo e uma horda de muçulmanos do último reduto do Algarbe Alandalus, armada de cimitarras, desatou a perseguir campo fora o Charlie Hebdo. O árbitro não foi de modas e, solidário, mostrou um cartão onde se lia em letras garrafais “Je suis Charlie!”.
domingo, 20 de dezembro de 2020
Um Natal alternativo
O jogo começou com zero a zero. O
jornalista da SportTv estranhou. O Sporting ainda não tinha marcado. Seria
desta? Já no aquecimento se notava qualquer coisa. O Vidigal não se deixou logo
levar por estas evidências um tanto ou quanto esotéricas. No entanto, a equipa do
Sporting mordeu o isco, deixando-se levar por uma certa melancolia pré-natalícia,
enredando-se numa teia dinâmica a dar para o autocarro de passageiros com vídeo
e wi-fi, onde se lia por fora: Sporting Clube de Farense. O Farense estava de
volta dezanove anos depois e o Sporting podia chegar ao Natal em primeiro lugar
dezanove anos depois. Estas coisas pesam no subconsciente da malta.
Ao intervalo não houve golos.
O início da segunda parte começou
com zero a zero. O Jornalista da SportTv salientava a organização defensiva do
autocarro que poderia a qualquer momento transformar-se num Tuk-Tuk a descer
perigosamente uma ribanceira. Vidigal torcia o nariz (embora isso não se
pudesse observar em directo) àquilo que normalmente se denomina de um jogo menos conseguido do Sporting e
já toda a gente aguardava mais uma conferência de imprensa de Jorge Jesus.
Cerca dos noventa minutos de jogo
o resultado estava zero a zero. Como no aquecimento, aliás. Numa jogada na área
do Farense, Coates sofre um penálti prontamente não assinalado. Em sequência da
jogada, o guarda-redes do Farense esmurra um Feddal mal colocado (não deveria
estar ali e assim não seria esmurrado, ou quem deveria estar era o Coates e
assim não seria penálti), confundindo o árbitro ao ponto deste assinalar uma
grande penalidade óbvia porque não cometida sobre o Coates. Um estupefacto
Sporar marcou mais um golo sem sequer suar a camisola. Chegamos ao Natal em
primeiro. Como não estava previsto, ficámos a aguardar a conferência de imprensa de sua excelência o Pai Natal, e da comissão de festas da Federação Portuguesa de Futebol. .
quinta-feira, 17 de dezembro de 2020
Lições de gestão e Rúben Amorim
Ao longo da minha vida profissional não fiz outra coisa do que gerir equipas de trabalho. Dei também aulas de gestão, embora sempre considerasse que a gestão não é uma ciência, quanto muito, um ofício, que se aprende fazendo. Não há nenhum livro, nenhuma teoria que habilite ninguém a tratar com uma pessoa em particular. Os livros ajudam a construir grelhas de leitura para melhor se lidar com pessoas, mas não nos ensinam a tratar com todas e cada uma e é sempre de pessoas que trata a gestão.
Não sei se o Rúben Amorim alguma vez estudou gestão. Porventura, não estudou e, por isso, é que se trata de um bom gestor. Na prática de gestão aprende-se que uma organização que não faz bem o básico, o banal, o habitual está sempre condenada ao insucesso. O sucesso começa no dia-a-dia, no trivial, naquilo que ocorre e acontece bem que nem nos damos conta que ocorreu e aconteceu bem. No futebol, esse dia-a-dia, o banal, o trivial, é a defesa. É a defesa no duplo sentido. É defender bem coletiva e individualmente e, tratando-se de um jogo, ser capaz de neutralizar os pontos fortes do adversário. O Rúben Amorim começou por aí e tem sido a partir daí que a equipa tem evoluído.
O que conta, o que verdadeiramente conta, é o método. O meu pai tinha uma expressão que reproduzia até à náusea, que não sei se era da cabeça dele ou a tinha encontrado em algum lado: “O método é o caminho lógico para a descoberta de verdade”. O esquema tático do Rúben Amorim está estabelecido e os jogadores conhecem-no como ninguém. Quando o método é bem conhecido e interiorizado por todos, a flexibilidade aumenta, parecendo que não. Quando todos conhecem o método, o lateral esquerdo pode jogar à direita ou no meio-campo. Quem geriu equipas sabe que assim é e é assim que tem de ser. Os recursos são sempre escassos e a flexibilidade e a adaptação são virtudes. O sistema de três defesas tem várias alternativas, podendo ser protagonizados por vários jogadores e com posicionamentos relativos entre si diferentes, conforme as circunstâncias do jogo. Já vimos vários jogadores a fazer o trio de defesas, mesmo durante o decorrer do jogo, conforme se pretenda um balanceamento mais ofensivo ou defensivo. A tática dos três defesas é que nunca muda.
As duas premissas são condição necessária mas não suficiente. Há uma parte que está no acreditar. Uma das coisas mais importantes que aprendi na vida é que as expetativas são autorrealizáveis. Pela negativa é que não há dúvidas nenhumas. Se não acreditarmos, não vamos fazer e não fazer alimenta a descrença e a descrença leva-nos a confirmar que sempre tivemos razão para não acreditar. É um círculo vicioso que se autoalimenta e não há forma de o quebrar. Pela positiva, as coisas são mais difíceis mas o círculo virtuoso também acontece. Se acreditarmos, vamos fazer e, ao fazer, se fazemos acontecer reforça-se a crença. Acreditar não é fé. É tentar que todos compreendam que é possível chegar a um objetivo, a um resultado, que transcende cada um. Há quem lhe chame visão, embora o enunciado das visões que se veem por aí seja de chorar às lágrimas. A liderança tem neste contexto um papel fundamental. Acreditamos se acreditarmos em quem lidera. É isso que nos faz melhor, que faz com que cada um se sinta parte, que um avançado recue mais depressa para ajudar um defesa, que um defesa guarde as costas do avançados. E conforme se fazem as coisas acontecer maior é a crença e quanto maior a crença mais se faz acontecer. É o que se está a ver com Rúben Amorim.
A gestão não é uma ciência e, portanto, nada nos garante que se se fizer o que é suposto fazer-se os resultados vão sempre acontecer. A gestão não é física: a maçã às vezes cai, outras não, cai com a aceleração da gravidade, outras não, não cai e fica a planar. O desempenho de gestão não envolve exclusivamente os recursos internos. Depende da envolvente externa que não se controla, as ameaças e as oportunidades que a famosas análises SWOT sempre sublinham. O problema do Rúben Amorim está nessa envolvente externa: sobram ameaças e faltam oportunidades. Quando assim é, por muito bom gestor que se seja, nem sempre se consegue. Quando não se consegue, nem sempre a culpa é do gestor. Como costumava dizer o nosso ex-primeiro-ministro e atual Secretário-geral da ONU: é a vida!
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
“Memento mori”
No regresso a Roma depois de campanhas militares vitoriosas, os generais romanos tinham a mania de levar atrás de si uma escravo que lhes repetia permanentemente ao ouvido: “Respice post te. Hominem te esse memento. Memento mori”. O Rúben Amorim tentou a mesma coisa com o Ferro, mas, ou porque não sabe latim ou porque só decorou a cassete das “flash interview”, desistiu. Tentou de outra forma, com o Neto, o Borja ou o Sporar, especialmente com o Sporar, como vimos hoje no jogo contra o Mafra, não aos cochichos mas dentro campo. E assim: “Olha ao seu redor. Não se esquece que é apenas mais um treinador do Sporting. Lembra-se de que um dia vai perder”.
O jogo contra o Mafra foi isto e pouco mais. Se houver um toupeira em campo, o Sporar mais depressa lhe acerta do que na bola [“sim, eu sei, ele também não acerta na toupeira, é só uma forma de dizer; aliás, no golo, a bola ressalta, notando-se que foi uma toupeira a fazer-lha embater na canela, quando nos preparávamos para lhe ver o taco espirrar mais uma vez”]. Está na sucessão de uma linhagem de grandes pontas-de-lança, onde se incluem um Eskilsson, um Peter Houtman, um Purovic, um Missé-Missé ou, mais recentemente, um Castaignos. Depois de o ver jogar, se um treinador não se reconduz à sua mais simples condição humana, então, é porque se trata de Jorge Jesus.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2020
Prà rua ou prò c@&@#$o
Ligo a televisão na TVI para ver o jogo do Sporting contra o Paços de Ferreira, o grande Paços de Ferreira que fez tremer o gigante Benfica, treinador pelo não menos gigante Jesus ao ponto de necessitar de um cabeceamento do árbitro para ganhar no último minuto. Começa o jogo e começo a ouvir os comentários do Dani. Fazia o mesmo sentido aquilo que dizia como fazia se estivesse a passar um documentário do Discovery Channel. Aliás, as semelhanças dele com o David Attenborough são incríveis: nenhum deles percebe nada de bola, com exceção do David Attenborough.
O Sporting começa por insistir, insistir no ataque. Moita-carrasco, o Paços de Ferreira não respondia. E, pouco a pouco, o Sporting parecia ter desistido. Os jogadores do Paços de Ferreira foram arrebitando, conforme iam ouvindo o Dani, ou vice-versa, não sei bem. De repente, com três toques apenas se escreve a palavra mãe, das palavras pequenas a maior que o mundo tem: Coates lança em profundidade, o Nuno Santos desvia de cabeça e o Tiago Tomás de primeira enfia a bola ao ângulo.
O Tabata [dão-se alvíssaras a quem me explicar que jogador é este, de onde vem, para onde vai e se vai e leva uma muda de roupa] corre pelo lado direito e sozinho, junto á área, enfia uma biqueirada para a bancada. Mensagem de WhatsApp recebida: “Este Tabata está a gozar comigo”. Resposta imediata: “É um brinca na areia, é o que é”. Golo, Tabata! Correção, correção: “Não é um brinca na areia, nada disso, peço desculpa”. Jogada incrível do Sporting: troca de bolas entre o Palhinha e o Porro, lançamento de bola para a diagonal do Tiago Tomás que a segura, deita uma e outra vez o defesa enquanto espera para a passar ao Tabata que a ajeita para o pé esquerdo e a enfia ao ângulo outra vez.
Não, não estou preparado psicologicamente para ver o Sporting jogar tanto. Vale-nos o Neto [“desculpa Neto!”] porque, sem ele, era um cabo dos trabalhos e uma discussão sem fim para se encontrar um ponto fraco da equipa. Começo a acreditar que os três centrais são para isso mesmo, para jogar o Neto e não perdermos muito tempo a apontar o patinho feito. De outra forma, ou se recorria a uma análise do Instituto Ricardo Jorge ou nada feito.
A segunda parte foi mais do mesmo. Entusiasmo do Dani com as transições do Paços de Ferreira, com os seus ataques vertiginosos e os seus defesas laterais transformados numa dupla-dupla, numa dupla mesmo dupla, melhor dizendo. “Falharam na finalização, não tem mal, há que treinar mais, mas os princípios de jogo estão lá”, diz o Dani, enquanto me lembrava da rosca do Neto para a própria baliza e a única defesa do Adan. Os nossos estavam com os princípios todos e com os finalmentes também e marcámos mais um, deixando mais três ou quatro para quem os apanhar. Por via das dúvidas, marcou o Palhinha para não se inventar mais uma falta do Coates.
O árbitro Pinheiro fez um bom jogo, um jogo como deve ser. Não foi por ele que o adversário ganhou. E amarelo para o Palhinha. E amarelo para o Nuno Santos. E amarelo para o Ferro que também não parece de ferro [“eu sei, eu sei, foi ao Vital, mas não se pode perder este trocadilho da treta”]. Esperava ansiosamente que seja mostrado o amarelo ao Paulo Cintrão, debalde. Lembro-me de uma mensagem de WhatsApp inicial de um amigo que estava a ver o jogo na Sporttv:”Eu ponho-te na rua, c@&@#$o!, diz o árbitro a um jogador do Paços de Ferreira”.
Finalmente percebe-se, percebe-se tudo: a forma educada como se trata os jogadores do Sporting. O árbitro está disposto a mandar um jogador do Sporting para a rua, mas nunca para o c@&@#$o, para o c@&@#$o só os adversários. Sei bem o que isso pode representar para o crescimento de um jovem e para a sua autoestima. Fui um pouco “nerd” na adolescência, mas, durante o ciclo preparatório, tinha a mania de ser engraçadinho [achava que assim impressionava um miúda pela qual esperei como esperei pelo amarelo ao Paulo Cintrão]. Os professores mandaram-me várias vezes para a rua e saí sempre feliz. Não sei o que teria sido de mim se me tivessem mandado para o c@&@#$o.
sábado, 12 de dezembro de 2020
Notas de rodapé
O Sporting fez um grande jogo,
com momentos (e golos) capazes de levantar um estádio vazio. Está provado que é
possível. A páginas tantas, eu só pensava: o tridente da frente (é assim que se
diz?) é composto por um gajo que jogava no Portimonense, outro no Rio-Ave e
outro ainda que jogava nos sub qualquer coisa 21 ou 23 do Sporting, já não sei.
E quando descíamos o olhar continuávamos surpreendidos com a qualidade da equipa,
onde, por vezes, até o Neto engana. A coisa tem mão, antebraço, cotovelo e
braço do treinador. Arriscaria dizer até que tem clavícula e omoplata do
técnico. A distribuição anatómica do treinador no jogo da equipa chega ao ponto
de o cérebro conseguir faiscar várias sinapses, causando alguma surpresa até
nos comentadores do jogo na TVI.
O Paços de Ferreira é uma boa
equipa, com bons jogadores, e visitou Alvalade para jogar futebol. Não sei se
será conveniente entronizar já o Pepa no olimpo dos treinadores, mas os
resultados e as exibições recentes da equipa são um excelente cartão de visitas.
Posto isto, vencemo-los duas vezes, marcando cinco golos sem sofrer nenhum. Um
pormenor apenas.
Assim de cabeça, o árbitro do
jogo conseguiu mostrar quatro cartões amarelos, três dos quais (adivinharam) mostrados
a jogadores do Sporting (Porro, Palhinha, Nuno Santos). Amarelar é um verbo transitivo muito bem conjugado pelos árbitros
que apitam o Sporting. Quem pode, pode…
segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
"Onde se quebrou o pote, aí é que se procura a rodilha."
Bastaria a celeridade com que o conselho de arbitragem se manifestou após o Famalicão-Sporting para percebermos, não apenas o que está em jogo, mas igualmente que não fazemos parte desse jogo. Não entramos na equação. Não estava (nem está) previsto qualquer desvio. Note-se: o dito conselho de arbitragem que, pelos vistos se reúne apressadamente ao sábado à noite através do Zoom (presume-se), e rapidamente se apressa a defender a ordem (pré)estabelecida, aplaudindo a decisão de arbitragem (a segunda, presume-se) e do VAR sobre o golo anulado a Coates, não faz qualquer comentário, não reclama nem mais um aplauso, nem uma vaia sequer, para o resto do jogo, e teria material suficiente para escrever um novo código de conduta para árbitros submissos ao sistema. Nesse sentido, terá perdido uma oportunidade.
O ridículo, felizmente, não mata. Escrevemos aqui milhares
de vezes que a bipolarização do bolo do futebol português não admite outros
cozinheiros (ou chefes em crescimento, já agora). É para fazer de conta que existe
uma competição. No final, ganha uma das faces da velha moeda. A proteção da
moeda, cara ou coroa, decide o futuro dos intervenientes no (suposto) jogo. É
assim com os árbitros. É sabido: "onde se come, ficam migalhas."
sábado, 5 de dezembro de 2020
Relato e análise ao jogo Famalicão x Sporting
Relato:
“Início do jogo e Artur Soares Dias passa para Luís Godinho. Artur Soares Dias dá indicações para Luís Godinho avançar no terreno e Luís Godinho avança. Artur Soares Dias dá indicações para Luís Godinho recuar e Luís Godinho recua. Espera, espera, está um jogador do Sporting a impedir a jogada de Luís Godinho. Luís Godinho afasta-o, bem, muito bem Luís Godinho! Artur Soares Dias dá indicações para Luís Godinho desmarcar e Luís Godinho desmarca. Bem, muito bem Artur Soares Dias e ainda melhor Luís Godinho!”
Análise ao jogo:
“O árbitro esteve muito bem. Vê-se que apitou para o início do jogo exatamente no momento em que o jogo se iniciou. É um lance de muito, muito difícil decisão. O jogo inicia-se com o apito e ao iniciar-se é porque houve o apito? Está-se em presença da dialética entre o ovo e a galinha. No início do jogo, no contexto desta dialética, a FIFA determina que se deixe jogar. Nem sempre os espetadores se encontram familiarizados com a dialética hegeliana e a sua oposição ao kantianismo e à dialética transcendental e é preciso esclarecê-los. No final da primeira parte, volta-se outra vez à dialética hegeliana e à forma como a FIFA a interpreta e, ao interpretá-la, determina a sua aplicação. A primeira parte acaba porque o árbitro apitou ou porque acabou a primeira parte é que o árbitro apita? A ação [de apitar] determina a inação [fim da primeira parte] ou é a inação [o não jogar] que determina a ação [o apitar]? A FIFA manda jogar, desculpe, não jogar, neste caso. O início da segunda parte e o seu final também não estão isentos de dificuldades interpretativas, mas a discussão reconduz-se ao início da primeira parte e ao seu final. A FIFA manda jogar ou não jogar, conforme os casos, dada a impossibilidade de determinar o início da relação de causalidade entre o ovo e a galinha, de acordo com a dialética hegeliana ou outra dialética qualquer. De mais simples análise é o sopro, o sopro no apito, em todos estes momentos. As imagens são claras. Nota-se nitidamente que o árbitro inspira primeiro, cumprindo as leis da FIFA. Menos informados, os espetadores tendem a estabelecer uma relação de permanente sequência entre inspirar e espirar, impedindo que se conclua também o que determina o quê. A FIFA interpreta essa relação como uma relação que, embora sequencial, se inicia com a ação de inspirar. Num primeiro momento, espirar é uma consequência de inspirar, e não o contrário, e só depois é que as relações de causalidade se sucedem, mas sem necessidade de apito. Luís Godinho e Artur Soares Dias estiveram muito bem, aplicando muito bem as leis e as suas interpretações da FIFA. As imagens são claras e os espetadores encontram-se esclarecidos. Não, de nada, não precisam de agradecer, estamos aqui para esclarecer.”
[O relato e a análise ao jogo são acompanhados de Missa Cantada, em fundo, de acordo com os livros litúrgicos e as melhores práticas litúrgicas]
quarta-feira, 2 de dezembro de 2020
Filhos de um deus menor
O jogo para a liga dos calmeirões entre o Moreirense e o
Sporting, perdão, entre o Porto e o City, foi extremamente interessante do
ponto de vista sociológico/futebolístico, permitindo-nos, finalmente, perceber
a expressão: o rico, come; o pobre,
alimenta-se. A grande diferença entre o Porto-City e o Sporting-Moreirense
é que o Porto jogou em casa. O Porto é mais rico que o Moreirense e o City é
mais rico que o Sporting, sendo que as diferenças de orçamentos entre Porto/City
e Sporting/Moreirense são igualmente brutais, embora o Porto seja um cliente
habitual da calmeirões e, por isso
mesmo, segundo os próprios, um membro do clube.
Todavia, quando assistimos a
ambos os jogos, reconhecemos parecenças interessantes: tanto o Porto como o
Moreirense (e aqui talvez mais o Porto), pouco ou nada fizeram para ganhar o
jogo, estando largos períodos sem sequer se aproximar da baliza adversária,
quanto mais fazer um remate enquadrado com a dita cuja. City e Sporting, por
outro lado, para além do domínio territorial e da posse de bola, jogaram uma
espécie de tiki-taka maníaco compulsivo, com sucessivas trocas de bola para o
lado e para trás, ora verificando se a torneira estaria fechada, ora se o gás
teria sido desligado. Sei o que isso é, vou muitas vezes atrás para ver se
fechei a porta do carro.
Entretanto, mesmo assim e, apesar
disso, construíram várias oportunidades para golo, sendo que o Sporting
conseguiu ganhar (sem espinhas) o jogo. Os comentadores, por seu turno,
salientaram o grande jogo defensivo (não poderia ser outro, obviamente), tanto
do Moreirense como do Porto, acrescentando, no caso do Porto, o enorme pragmatismo
dos 60 milhões em fundo. Uma luz ao fundo do túnel.
Reza a nossa história alternativa
que Lito Vidigal se terá deliciado ao assistir ao pragmatismo (deixem passar)
de Sérgio Conceição (em tudo semelhante ao do Marítimo quando enfiou três
batatas no Dragão), muito próximo do pragmatismo do Marítimo no recente jogo
com o Benfica. Jorge Jesus, que aprecia a relativização da verdade, consoante a
andança do vento, terá vislumbrado em Conceição uma força inequívoca de futebol
com pouca nota artística, bem próximo do (supostamente) defendido por Lito
Vidigal. Não fosse aquela falta marcada ao contrário que resultou no segundo
golo do Benfica, e ainda estaríamos a discutir se voltava o professor de
ginástica ou o senhor Lage. Consoante a luz divina surgisse na noite de Vieira.
Como parentes pobres que somos disto tudo, resta-nos jogar jogo a jogo. Mesmo com pouca luz.
segunda-feira, 30 de novembro de 2020
Jogo a jogo, caixa a caixa de Sedoxil
Não é fácil comentar o jogo de sábado contra o Moreirense. Não é fácil porque ainda estou a sofrer dos efeitos de uma caixa de Sedoxil que mamei durante o jogo ["Varandas, pá, quando voltar a haver público, não esquecer de distribuir mexazolan à rapaziada, percebido?!"]. A mania de ir para o ataque, criar vantagem numa ala, estar em condições de meter na área, voltar para trás e para trás até chegar ao guarda-redes e começar tudo de novo transforma qualquer um num “serial killer”. Encontrar-se um jogador à entrada da área com tempo e espaço para rematar e vê-lo passar para o lado e ensaiar uma tabelinha leva a querer cortar os pulsos. Assistir à incapacidade do Sporar de reagir a tempo, de antecipar o lance, de chegar primeiro deixa-nos com uma enorme dor de cabeça depois de a enfiarmos uma e outra vez contra a esquina da parede. A interpretação do Lago dos Cisnes pelo nosso João Nureyev Mário no meio campo deixa-nos com vontade de enfiar o gato pela sanita abaixo ["Desculpa Ana, o gato é teu, mas esteve quase, quase; não, não sou um anormal e prometo que isto nunca mais me volta a passar pela cabeça, mas esconde o gato, por favor, esconde o gato"].
Só de escrever isto voltei a ficar à beira de mais um ataque de ansiedade [um momento, um momento para ir à casa de banho enfiar mais um Sedoxil e gritar ao espelho: “Ganhámos, Ganhámos!"]. Já passou, já estou melhor e escrevo já [“Ganhámos, porra, ganhámos! Toma César Peixoto, vai buscar! Palhinha, grande Palhinha!"]. Estava a dizer exatamente o quê? Sim, qualquer coisa sobre o jogo do Moreirense. Talvez sobre os comentários ao primeiro golo do Sporting. Há quem diga que houve cotovelo do “Pote”. Acho é que há dor de cotovelo de quem gosta de meter a mão no pote, sem aspas e caixa baixa.
Fico-me pela “flash interview” e pela conferência de imprensa porque, de outra forma, torno a ventilar. O Pedro Gonçalves voltou a receber o prémio de melhor em campo e voltou a falar de equipa, equipa e mais equipa, sem o eu, nunca o eu. O Ferro falou, falou e falou, independentemente da pergunta, sempre com o processo, processo para aqui, processo para ali. O Rúben Amorim foi genial. É jogo a jogo, diz ele, e nós acreditamos, acreditamos que não há campeonato [esperemos que os do costume também se vão distraindo com essa de que não há campeonato, que não estamos a jogar campeonato nenhum, que estamos a jogar um jogo e depois outro, tão-só]. Fala do jogo a jogo e faz-me lembrar a minha infância, em Viseu, na Escola do Magistério Primário. Jogávamos contra os da Escola da Avenida. Jogávamos contra os da Escola de Massorim [os betos da altura]. Jogo a jogo, sem nenhum campeonato, pelo prazer de jogar, por uma vontade de ganhar maior, muito maior do que o medo de perder.
sexta-feira, 27 de novembro de 2020
Tempos modernos e difíceis ou a eterna vitória do capital contra o trabalho
Ver o jogo do Sporting contra o Sacavenense para a Taça de Portugal na TVI, na televisão da Cristina Ferreira, gerava expetativa, muita expetativa. Esperei, esperei e nada. Nem o António Costa, nem o Marcelo Rebelo de Sousa, nem o Luís Filipe Vieira entraram em campo para fazer umas pataniscas de bacalhau ou uma simples entremeada na brasa. Em vez disso, parecia que estava a ouvir os Tempos Difíceis, de Charles Dickens, ou o Manifesto do Partido Comunista, de Friedrich Engels e Karl Marx. Os do Sporting representavam a burguesia, a classe dominante, os proprietários dos meios de produção, enquanto os do Sacavenense representavam o povo, os oprimidos e o proletariado. Parecia que o Sporting se encontrava a jogar contra o Fabril quando o Fabril tinha jogado contra o Porto. Segundo os comentadores, os do Sacavenense tinham acabado de deixar o Charles Chaplin sozinho na linha de montagem de Tempos Modernos, sem sequer mudar o fato de macaco.
Mal o jogo se tinha iniciado e já o Nuno Santos tinha molhado o bico. Os comentadores tentaram transformá-lo num novo milagre mariano ao afirmar que o passe tinha sido do Borja. Por falar em Borja, gostei de o ver jogar no lado direito. Sendo canhoto, anda sempre à procura do pé esquerdo quando a bola lhe vai para o direito e essa dessintonia entre o pé que está mais à mão e o pé que está mais ao pé [da bola, entenda-se], constitui uma revienga imparável. Como centra tão mal com o pé esquerdo como com o direito, o resultado é o mesmo, mas passa por dispor de um estilo enleante e azougado. O Coates marcou o dois a zero passado um pouco. O Rui Veloso cantou uma coisa sobre voar sobre os centrais mas com o Coates não é bem assim, é voar contra os centrais, contra a bola, contra o guarda-redes, contra a baliza. O Jovane marcou o terceiro, apesar dos comentadores jurarem a pé juntos que não, não havia “penalty” nenhum. Como todos sabemos, quem mais jura mais mente, acabando por pedir desculpa.
Mal se iniciou a segunda parte e já estava outra vez o Nuno Santos a fazer das suas, das dele, salvo seja, e o Coates só teve de empurrar para o quarto golo. O Jovane ainda foi a tempo de fazer de central, tornando a jogada mais real, mais próxima de um jogo contra o Fabril ou o Paredes, essas grandes equipas de jogadores profissionais, treinados e bem treinados. Sem o efeito surpresa do Borja do lado direito, os do Sacavenense perceberam que o Borja era o Borja e ala que se faz tarde pelo lado esquerdo da nossa defesa. Um operário marcou um golo e, subitamente, um operário era um jogador de futebol, com chuteira, calções e camisola. Estava tudo em modos de assim, até que entrou mais um puto, o Pedro Marques. O puto queria marcar golos à viva força. Atacava a bola de cabeça, não dava uma bola por perdida, tentava e marcava, e voltava a pedir a bola, queria mais, sempre mais. Tudo acabou com o último golo de outro puto, Gonçalo Inácio, impedindo o Coates de fazer “hat-trick” [se fosse comigo, tinha-lhe enfiado uma galheta].
Começo a suspeitar que não esteja a ver jogar o Sporting ou que o esteja a ver mas na RTP Memória. Onde anda aquela equipa que transformou o Alverca e o Loures em colossos do futebol nacional? O que tem a dizer o Ministério da Coesão Territorial sobre isto? Foi para isto que se criou o Ministério da Coesão Territorial? Ao menos que mandem entrar em campo alguém do ministério para fazer umas pataniscas de bacalhau ou uma entremeada na brasa.
quinta-feira, 26 de novembro de 2020
Quarenta e quatro passos, doze toques na bola de canhota e dez segundos e seis décimos
Há uma idade para ídolos e os ídolos não se mudam, porque nunca se volta a essa idade, a idade dos ídolos. O meu ídolo foi e é o Maradona. Tudo o que possa dizer sobre o Maradona tresanda a redundância e falta de imaginação. Sei é que quarenta e quatro passos, doze toques na bola de canhota e dez segundos e seis décimos mudaram o Mundo.
quarta-feira, 25 de novembro de 2020
domingo, 22 de novembro de 2020
Entretanto...
Estava ao acaso a ver os resumos
da bola deste fim-de-semana e dei comigo a pensar com os meus botões: já imaginaram
a nossa defesa com Eric Dier (Tottenham e seleção Inglesa), e aquele tipo com
nome de medicamento, Demiral (titular da Juventus e seleção turca)? Ambos vendidos
ao desbarato, sendo que o Demiral foi literalmente despachado para o Alanyaspor
com uma opção de compra absolutamente confrangedora. As suas histórias são
diferentes, convergindo, no entanto, na costumeira dissipação de recursos e
numa estratégia errática de automutilação sem paralelo no futebol mundial e
arredores. Não há uma vacina que nos valha?
domingo, 15 de novembro de 2020
Tudo ao molho e muita fé
Fernando Santos a fazer de
Fernando Santos, com aquele tique do pescoço e tudo. Fernando Santos a
escalonar e a montar (deixem passar) uma equipa à Fernando Santos, mas sem
sorte ou Providência que lhe valha. E sem o Éder, que é um tipo bem relacionado.
Assim a equipa entrou à espera de um rame-rame confinado que apenas existia na
sua mente. A outra equipa, por outro lado, entrou com vontade de ganhar o jogo
e surpreender uns desequilibrados tugas. O politicamente correcto de Santos,
lançando quem deveria lançar, isto é, quem é suposto lançar no jogo, mostrou, desde
o início, um conjunto de jogadores perdidos na sua vaidade de jogadores que jogam em grandes equipas e
valem muito dinheiro. A estratégia de jogar para o lado (ou para trás) e
deixar passar o tempo não resulta quando a outra equipa chega sempre primeiro a
cada bola. Não tarda, o Pedro Gonçalves vai valer um pote de ouro. E ai será mais uma opção para
juntar ao molho.
terça-feira, 10 de novembro de 2020
Resgatar a alegria
Para isso não precisam de ir a um
endireita (no Minho acontece muito). Talvez apenas a vida, em toda a sua
plenitude a vislumbre. O futebol de pouco importa, quando as contas nos
subjugam, quando o tempo nos esmaga perdidos no trânsito, quando a família fica
longe de um olhar. Mas, quando, em tempo de pandemia, não conseguimos sequer
pensar em viver normalmente, nem vislumbrar um sentido para tudo isto, o
futebol ainda se enterra mais, num lodo indefinível que caminha para o vazio.
Como tudo o resto.
De onde brotará então a alegria?
De uma conversa, de melhores notícias, de um abraço inesperado sem remorsos. De
um livro. As vitórias do Sporting funcionam como um bálsamo para uma pequena e
ligeira alegria. Apenas isso. Estamos em jogo. Deixem-nos sonhar.
segunda-feira, 9 de novembro de 2020
Make Sporting Great Again
Guimarães constitui um “swing state”. Nada está decidido à partida, tanto se ganha como se perde e perder ou ganhar decide campeonatos. Quando se perde, perde-se o campeonato. Quando se ganha, não é certo que se ganhe o campeonato. Mas sem se ganhar, não se ganha o campeonato, como demonstram os últimos ganhados pelo Sporting. Para se ganhar um “swing state” não se pode facilitar à Hillary Clinton. É ir para cima deles desde o início, interessando pouco se são hispânicos, afroamericanos ou "white anglo-saxon protestants" (WASP).
Era para ir e fomos. Ainda estavam os de Guimarães a ajeitar as meias e os calções, quando o Sporar se deixa antecipar pelo guarda-redes e o João Mário enfia uma bojarda à barra. Logo a seguir, o Sporar fica isolado do lado direito do ataque e volta a fazer-nos lembrar o Krpan, embora, talvez, com um pouco menos de velocidade. Bola recuperada pelo Pedro Gonçalves, tabela com o Sporar, corrida desenfreada até à área, passe para o Nuno Santos, que fica à procura do pé que tinha mais à mão até o descobrir e enfiar um remate rasteiro com o pé esquerdo, fazendo o primeiro golo.
A ganhar por um a zero, o Sporting acalma e o Guimarães passa a trocar a bola de trás para a frente, de frente para trás e vice-versa [não é indiferente a ordem, mas não sei bem como explicar: começa-se atrás e só se pode passar para a frente e só chegada a bola à frente é que se pode passá-la para trás; também se pode passar para o lado, mas acho que dá para perceber a ideia, a dinâmica da coisa]. Aparece o Quaresma e foi enternecedor o seu duelo com o Neto. Dois homens entradotes, mostrando boa disposição e fazendo-nos lembrar que o envelhecimento ativo e saudável deve ser prioridade das políticas públicas. Ainda esperei vê-los a jogar uma bela partida de dominó, mas não foi possível, porque, entretanto, o Neto ia fazendo de Otamendi, não fosse o Adán estar atento [passada a pandemia, lembrar de voltar a levar o Neto ao lar].
Os de Guimarães começaram a ficar empolgados, liderados pelo Quaresma montado num alazão branco, gritando: “Bora, bora que já estão cagados!”. Ou porque não estavam ou porque estavam e precisavam de ir mais descansados para o intervalo fazer o que tinha de ser feito, os do Sporting encheram-se de brios. O João Mário ganha a bola à entrada da área, enfia uma cueca num adversário e vai pelo campo fora até desmarcar o Sporar, no lado direito, que volta para trás, passa para o Pedro Porro, tabela entre os dois, passe atrasado e balázio do Pedro Gonçalves para o dois a zero. Este rapaz talvez ainda não seja um Darwin, mas não deixa de corresponder a uma boa evolução da espécie.
Os de Guimarães entram na segunda parte com a faca na liga. O André André não leva o segundo amarelo por agarrar o Pedro Gonçalves, ficando evidente que se está em presença de dinastia protegida pelo “establishment”, um género de mistura de “Clynton's family” e de Wall Street. Não levou e fez-nos perder tempo com o VAR e as suas habituais mariquices do fora-de-jogo. O Adán molha o dedo para ver de onde vem o vento, calcula o movimento na vertical, uniformemente (des)acelerado em função do pontapé e da gravidade, e na horizontal, uniforme na ausência de atrito, e coloca a bola no Pedro Gonçalves que a domina e faz o três a zero. O rapaz talvez seja mesmo a evolução final da espécie, sendo necessário uns milénios ainda para o Darwin descer da árvore e se transformar num primata assim. O resto, bem, o resto interessa pouco. O Rúben Amorim fez as substituições que se impunham e o Matheus Nunes parte o resto da loiça que estava por partir e os do Guimarães passam a ter medo de sair do seu meio campo, tal o receio de o verem à desfilada.
A “flash interview” começa bem com o Neto, parecia um senador do Minnesota ou assim. Piora com o nosso treinador principal Ferro. Ainda não lhe deram outra cassete e ele continua a debitar a anterior. Quando se ganha por um, faz sentido dizer que se deviam ter marcado mais uns tantos e que se criaram oportunidades para tal. Quando se ganha por quatro e se diz o mesmo, é falta de respeito pelo adversário. Na conferência de imprensa, o Rúben Amorim comporta-se como um verdadeiro Joe Biden. O Sporting é candidato ao título? Cada jogo são três pontos e é preciso contar até ao fim. O Sporting é a equipa que pratica o melhor futebol? Cada jogo são três pontos e é preciso contar até ao fim. O Sporting é beneficiado por não jogar as competições europeias? Cada jogo são três pontos e é preciso contar até ao fim. Quem não suporta este discurso é um ressabiado benfiquista, que, a propósito da pandemia, só nos quer deixar festejar no Marquês pela manhã com uma meia de leite e umas tostas no bucho.
