sábado, 17 de outubro de 2026

Aquela máquina

 

Não é certo que a bolha onde sobrevive o futebol português seja um lugar habitável. Mas convém não exagerar. Considerando algumas vozes da especialidade, parece que o Benfica teve mais uma grande noite europeia. A liga dos campeões é um bem supérfluo perto da grandiosa liga europa. Assim nos contam as vozes e as imagens que deslumbram os nossos olhos quando os pousamos nos jornais do dia. Parece que ganhar aos mineiros de Lens, jogando com uma equipa cuja média de idades não ultrapassava os 24 anos, cheia de nomes famosos como Kaique, João Simões, Irankunda e Quaresma, não lembra ao diabo; ou então é apenas uma formalidade ganhar ao segundo classificado da liga francesa no seu estádio. “União Europeia” e “Leão solidário” - escrevia o jornal A Bola. O mesmo jornal onde se podia ler sobre o jogo do Benfica: máquina ofensiva encarnada. Não sei qual foi a capa dedicada ao Porto, mas parece que as frutarias são raras em Sevilha. Uma cidade que vale a pena visitar.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Bem pensado!

Silas Andersen: «Vi o Issa [Doumbia] a correr e pensei que ele talvez precisassse da bola!...»

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Um país chalupa, um país de chalupas

Nós, portugueses, temos elevada autoestima em tudo o que mexe com pontapés na bola. Com uma autoestima destas, é difícil de nos (auto)convencermos que não ganhámos o Campeonato do Mundo [e ganhámos o Campeonato Europeu às três pancadas com a preciosa ajuda do Professor Karamba] porque não somos tão bons como nos julgamos. Temos bons jogadores e jogadores que jogam em boas equipas nos melhores campeonato, mas as outras seleções também têm bons jogadores e jogadores que também jogam em boas equipas nos melhores campeonatos. Havia um e um só que se distinguia dos demais, pelos títulos, individuais e coletivos, por ser considerado o melhor do Mundo em várias épocas e um dos melhores de sempre: o Cristiano Ronaldo.

Tínhamos de descarregar esta nossa frustração, esta raiva incontida e, ano após ano, os nossos comentadores foram-nos oferecendo um alvo para essa ira: se jogamos com o melhor do Mundo e se não ganhamos o Campeonato do Mundo, então, a culpa só pode ser do melhor do Mundo. Esta doença coletiva devia ter sido devidamente sublimada por um psicólogo, por alguém que soubesse da coisa e não por pessoas que sabem coisas, do tipo coisas que nós sabemos que eles sabem. Ninguém se perguntou porque carga de água é que o convocavam, jogo sim, jogo também, se era tão mau, mas tão, tão mau como o pintavam [não, não há evidência de ele se ter apresentado na Casa da Seleção sem ser convidado].

Ontem, o homem foi-se embora de vez e o país respirou profundamente aliviado, como há muito não o fazia, sentindo-se como há muito não se sentia. O mal não foi sublimado, mas exorcizado, estripado por um homem corajoso, um homem que não tem medo de nada nem de ninguém, o nosso Gil Eanes, o nosso Bartolomeu Dias do pontapé na bola. Resta-me uma dúvida: se falharmos hoje, amanhã ou depois, se não ganharmos a Liga das Nações, o Campeonato da Europa ou o Campeonato do Mundo vamos atribuir a culpa a quem? Ao Gonçalo Ramos, é isso? Ou ao Vitinha, ao Rúben Dias ou ao Palhinha? Talvez tenhamos de passar por isto para que alguém nos volte a abraçar, a dar colo ou nos coloque no divã e nos faça perguntas sobre a nossa infância e o nosso amor incompreendido pela mãe ou pelo pai.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

A Terra Onde o Tempo Parou

O Porto, clube, de Pinto da Costa podia dar um filme [e que filme!], um filme de “gangsters”, com atores carismáticos, desde os mais antigos, como James Cagney, Edward G. Robinson ou Humphrey Bogart, protagonistas de “Heróis Esquecidos” ou “Anjos de Cara Suja”, aos mais recentes, como Robert De Niro, James Caan, Marlon Brando, Al Pacino, James Woods ou Joe Pesci, protagonistas do “Padrinho” ou do “Era uma vez na América”. No entanto, um filme de “gangsters” português não é, nunca pode ser igual a um americano, pois, num país pindérico como o nosso, o Estado Novo nunca permitiria a “Lei Seca” enquanto “beber vinho desse de comer a um milhão de portugueses” e não se compara a sordidez de boates como o "Calor da Noite" ao “glamour” de “speakeasies” como o "21" Club de Nova Iorque [e não, ninguém associaria “golden whistle” a fruta ou a café com leite].

Podia dar um filme se fosse interessante recriar [no presente] esse passado, mas, há uma semana atrás, no jogo contra o Manchester City para a Liga dos Campeões, o Porto, clube, lembrou-nos que o tempo nunca muda, não havendo passado [só presente, um eterno presente]. No livro “A Terra Onde o Tempo Parou”, do escritor checo Bohumil Hrabal, são os habitantes de uma localidade que se recusam a compreender a mudança dos tempos num determinado contexto histórico [antes, durante e após a II Guerra Mundial], continuando a viver habitualmente; no Porto, clube, os tempos nunca mudam, sejam as pessoas quais forem, seja o contexto histórico ou a localidade qual for. No Porto, clube, chama-se identidade a esta [estranha] forma de resistência ao tempo que passa [mesmo repetindo-se a história como farsa, com bolas, toalhas ou lixívia].

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Falhar quase ganhando

 

Bom, temos os ajustamentos do plantel ajustados. Alguns jogadores saíram pelo seu próprio pé. Diz que outros procuraram novos desafios. As explicações são balsâmicas e despertam alguma melancolia em quem tem tempo e paciência para as escutar. O balneário está unido e alguns jogadores foram ao dentista esbranquiçar o faqueiro para sorrirem melhor.

Já me dei ao trabalho de escrevinhar por aqui sobre a necessidade do mito, um mito regular e mitologicamente organizado. Mas, antes de qualquer mito ou ficção temos de partir de uma ideia, um modelo, e encontrar uns indivíduos que se enquadrem e estejam dispostos a dar o corpo ao manifesto, jogando à bola. Depois logo se vê.

Relativamente ao jogo de ontem: em primeiro lugar existe um penalti sobre o Maxi logo aos sete minutos, mais coisa menos coisa. Não sabemos se seria marcado golo e agora ficamos mesmo sem saber. A manhosice da arbitragem poderia dar para o Sporting só marcar um golo próximo do fim e assim não ter de passar pela provação de não se deixar empatar na segunda parte. O treinador deve ter dito isso mesmo e, se calhar, treinado: vamos marcar perto do fim e assim não damos tempo para abébias. Chiu… não digam a ninguém. Dito e feito.

O Sporting marca perto do final do jogo, logo a seguir um jogador adversário é expulso e ficamos todos à espera do rolo compressor leonino que acabaria com o jogo. Népia. Era, alegadamente, um rolo compressor da marca Husqvarna, e serviu apenas para terraplanar o relvado em excelente estado do antigo campo dos Bargos. A equipa entristeceu, recuou, ainda faltavam uns bons dez minutos com os descontos. Não se faz. Tanto treino para nada.

O Famalicão lá foi subindo, sem grande firmeza ou esperança. Num lance atabalhoado, sem pressão, Gonçalo Inácio fez golo (na baliza errada), ainda que sem grande convicção, ou com a mesma convicção de quem come uma sopa num centro comercial. Acontece. Segundo o treinador a energia da equipa apenas falhou por uns segundos e os malvados do Famalicão aproveitaram logo para desencaminhar o inexperiente Inácio e seus companheiros de infortúnio.

Maximiliano Araújo, em entrevista no final do jogo afirmou que o empate era justo e que a equipa não teve fome suficiente a defender. É preciso traduzir?

Assim ficamos com um grupo unido, com pouca fome e a precisar de treinar a marcação de golos apenas no último suspiro da partida. Estamos de volta à velha máxima: ser Sportinguista é meio caminho andado para um pacemaker.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Non c'è pazienza

Parece que o Farioli ainda não fala português e ninguém acha isso estranho. O Farioli é italiano e dá entrevistas e conferências de imprensa num inglês macarrónico com o qual nem os caçadores de camones do Porto conseguem concorrer. É muito tempo para aprender a dizer fruta.

O mercado, segundo os comentadores especializados em comentários especializados sobre o mercado, correu bem a todos. A grande dúvida é o Sporting, segundo consta nas entrelinhas. Confundem desejo com dúvida. Talvez seja por isso que Ríos e Ivanovic (ambos geniais) tenham saído de fininho do Benfica. Cinquenta milhões a saírem de fininho (por empréstimo) fazem muito barulho, tanto que incomodam o Trubin sentado no banco. No Porto, o talento do seu presidente permitiu despachar in extremis Rodrigo Mora para a Roma. Até ver, saiu por menos de metade do Quenda que ainda ficou uma época em Alvalade. Será uma técnica high press ou ou pressione alta?

O futebol português, na sua qualidade de educador das massas, não para de nos surpreender. A nossa indulgência apenas se poderá comparar, ainda que tenuemente, à nossa capacidade de sofrimento. 

(nota: logo precisamos de uma exibição de Gala:)

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Falhar ganhando

 

Este começo de época o Sporting tem sido uma contradição. Isso só é bom quando esta resulta de um movimento obscuro inacessível aos adversários. Todo o resto tem os seus honorários. Não basta mudar – é preciso acreditar que faça efeito (principalmente dentro do balneário). Seria mais ou menos isto que Maquiavel diria ao treinador Rui Borges se por acaso o encontrasse por Mirandela. Um amigo meu acrescentaria, rindo-se: os meios vão criando os fins.

A pré-época correu bem, mas estava alguém a ver? Estava. Esse é um dos problemas da pré-época: ser a pré-época. O seu campeão habitual, o Benfica, tem confirmado - pelo menos nos últimos anos, que ser campeão antes do campeonato começar não quer dizer grande coisa. Às vezes o mesmo acontece durante a época das vindimas ou no Natal.

O Sporting fez a sua escolha, ou como dizem os comentadores que memorizaram os resumos dos manuais feitos pela IA: abriu um novo ciclo, ou escancarou. Isso tem custos. Para toda a gente. A derrota no final da taça não foi esquecida. A renovação com o treinador antes do final da taça não foi esquecida. O discurso intrusivo (estou a ser simpático) do presidente na apresentação da renovação do treinador não foi esquecido. O silêncio do treinador também não. A cautela tende ao silêncio – escreveu um dia Giorgio Manganelli.

Torna-se então necessário conceber uma nova ficção sem grande frisson ou arrepios estéticos de alguma ordem: a sensibilidade de alguns artistas nem sempre o permite. Não basta mudar – é preciso acreditar que faça efeito.

“Errámos a ganhar” – disse Rui Borges sobre o golo do Alverca a fechar. Tem sido assim: errar a ganhar já deu para um susto e um empate. Enquanto a equipa não é uma equipa, enquanto a ficção ganha tempo, enquanto as bancadas desconfiam, é preciso falhar ganhando. Falhar (sempre) cansa. E já não estamos habituados.

domingo, 16 de agosto de 2026

O futuro já foi melhor


Ao intervalo (nos dois primeiros jogos): terão sido dadas instruções ou sedativos?

Nota: Sedativos - substâncias que deprimem o sistema nervoso central, reduzindo a ansiedade, a irritabilidade ou a excitação e induzindo o relaxamento ou o sono.

Anos atrás, Rúben Amorim e o seu braço direito Hugo Viana (com a anuência desesperada do presidente) criaram uma ficção. Não se tratava (apenas) de uma ideia de jogo – antes uma sequência interminável de imagens que fizeram o seu curso rumo a uma nova dramaturgia, cujo mito (enraizado) poderia eventualmente ser resumido: “onde vai um vão todos”. Naqueles últimos onze jogos, onze vitórias - para o campeonato - antes da exportação de Amorim, incluindo o último jogo em Braga (Amorim com as malas feitas) sentia-se no ar o smells like victory – como o napalm pela manhã do Coronel Kilgore, interpretado por Robert Duvall no filme Apocalipse Now.

O futebol faz-se (ainda se faz) de lendas e narrativas, de mitologias que agregam um grande conjunto de pessoas à volta de um campo de futebol (mesmo que estejam a ver o jogo em casa ou a ouvir o relato na Tasmânia). A isso se chama mística. Amorim conseguiu unir a malta ao ponto de estarmos todos em jogo – e ninguém ficava (muito) para trás.

Rui Borges herdou a engrenagem com os cobradores e maquinistas mais importantes, incluindo os gestores de apeadeiros e os que gostam apenas de ver passar comboios. Aproveitou o saber como (os ingleses chama-lhe know-how) e foi campeão. No ano seguinte (ainda com os protagonistas quase todos, excluindo Gyökeres) parecia que a farpela já não vestia tão bem, como o dominó errado do poema de Pessoa (deixem passar o armanço) – conheceram-me logo por quem não era. Bom, não foi quase logo, embora nos jogos principais fizesse a sua diferença. A eliminação nos quartos com o Arsenal (na sequência de uma grande liga dos calmeirões) mostrou paradoxalmente um Sporting aliviado – alguns jogadores incharam tanto que nunca mais voltaram ao sítio, outros esvaziaram rapidamente e só queriam que a época terminasse. O final foi burlesco, a equipa parecia uma ex-equipa, arrastando a usa indolência como um caracol em vacances.

Uns saíram, outros entraram (essa análise ficará para outra oportunidade). Compete à equipa técnica (principalmente ao treinador) costurar e juntar os pedaços até que estes se assemelhem a uma equipa. Caso não tenha grande jeito para a ficcionar, poderá sempre optar pelo ensaio livre ou recorrer ao teatro de revista. No limite poderá optar pelo documentário ficcionado, onde se explicará por A mais B que tudo não passa de um embuste para endrominar os adversários, deixando-os confusos – ao ponto de os próprios jogadores duvidarem de si próprios e da equipa.  

Ao intervalo: terão sido dadas instruções ou sedativos? Não se sabe qual destes temer mais.

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Académico de Viseu: justiça, economia e progresso

Na semana passada li o estudo “Desbloquear o Crescimento de Portugal. Reformas Estruturais e Desafios à Implementação de Políticas Económicas”, contratado pela CIP [Confederação Empresarial de Portugal] e pelo IDL [Instituto Amaro da Costa], a Nuno Palma e a James. A. Robinson. Em princípio, não seria um estudo qualquer, estando envolvido James. A. Robinson, Prémio Nobel da Economia há dois anos, coautor de Daron Acemoglu nos livros “Porque Falham as Nações. As Origens do Poder, da Prosperidade e da Pobreza” e “O Equilíbrio do Poder. Estado, Sociedades e o Futuro da Liberdade”. A conclusão desse estudo é lapidar: o problema está na pontualidade e, assim, decisões judiciais em 90 dias [nos tribunais administrativos e fiscais] arrastam outros comportamentos individuais e coletivos, assegurando-se que [no final] os comboios da CP não se atrasam nem um segundo e o crescimento económico, o nosso cálice sagrado, se encontra ao virar da primeira esquina.

Não há evidência, não se demostra o que se afirma e, por isso, está-se no domínio da fezada, da discussão técnico-tática entre treinadores de bancada. O estudo é mau, muito mau, não vale o papel em que pudesse ser impresso por algum incauto. O professor da Universidade de Chicago [James. A. Robinson] não merecia, mas o Nuno Palma, professor da Universidade de Manchester, é sempre muito criativo, tendo recentemente descoberto a relação entre a [eventual] Doença Holandesa da economia portuguesa e os Fundos Europeus, a partir das investigações da Tânia Laranjo no Correio da Manhã. Só um investigador com a argúcia do nosso compatriota conseguiria reconhecer a importância do Correio da Manhã no progresso da ciência económica e na compreensão da economia portuguesa.

As decisões judiciais em 90 dias, o panegírico que estes dois autores nos recomendam, merece reflexão, profunda reflexão, pois se alguma coisa está mal em Portugal é a justiça ou não nos fosse lembrando a investigação do nosso “Quarterly Journal of Economics”, o Correio da Manhã, dia sim, dia também. Outro dos livros que acabei de ler na semana passada [“O Poder da Destruição Criadora. Inovação, Crescimento e o Futuro do Capitalismo”], de Philippe Aghion [e seus coautores], Prémio Nobel da Economia do ano passado, traz-nos alguma investigação relevante sobre a relação entre a justiça e a economia. Existem distorções que afetam as decisões dos juízes resultantes de circunstâncias como a hora do dia, o cansaço, a fome, a idade ou o estado de espírito. Neste livro, encontrei uma referência ao artigo “Juízes Emocionais e Jovens Azarados” de Naci Mocan e Ozkan Eren, da Universidade do Louisiana, onde se demonstra que os juízes são mais severos, aplicam penas mais longas sempre que a equipa de futebol [americano] do estado tem resultados negativos inesperados. 

Trinta e sete anos depois, o clube da minha cidade, da cidade onde nasci, Viseu, subiu à Primeira Divisão do Campeonato Nacional ou Liga Portugal, como agora se diz. Primeiro tiro, primeiro melro: deslocação ao Estádio da Luz e empate com o Benfica por dois a dois. Os benfiquistas dizem-se mais ou menos 6 milhões, mais ou menos 60% dos portugueses, a que devem corresponder mais ou menos 60% dos juízes também. Hoje, quantas decisões judiciais foram deixadas para amanhã e para depois e para depois de depois? Os tribunais cumpriram os prazos, quaisquer prazos? Quantos comboios da CP chegaram a tempo, mesmo o Alfa ou o Intercidades? As reformas estruturais vão ser para quando? E o PIB? Com o Benfica neste estado, não, não há decisões judiciais em 90 dias, não, não há desenvolvimento económico. É necessário um Benfica mais forte, muito mais forte, é esta a recomendação que acabei de ler em mais uma investigação do Correio da Manhã. 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Ronaldo e a economia da atenção

O futebol e todo o seu entorno integram aquilo que à falta de melhor definição se vem chamando de economia da atenção. Com o advento dos “smartphones” e das redes sociais, especialmente, as pessoas encontram-se permanentemente expostas a estímulos e mais estímulos, a informação e mais informação, sem capacidade de processar e criar um entendimento sobre esta informação e o que as rodeia e sem sentido crítico para avaliar o que [verdadeiramente] interessa e o que não interessa [nada]. Muito pelo contrário, aquilo que menos interessa é exatamente aquilo que mais interesse suscita nesta era do vazio, do entediamento, do passar o tempo, enfim, do “scroll up”.

A atenção é recurso escasso e, assim, o que gera mais atenção, por muito pouca que seja, tem maior, muito maior valor económico. Há mais de seiscentos milhões de pessoas em todo o Mundo que seguem o Cristiano Ronaldo no Instagram, acompanhando dia a dia, hora a hora, as trivialidades que ele [ou alguém por ele] divulga, um número absurdo, estratosférico. Tudo, mas mesmo tudo, o que envolve o Cristiano Ronaldo desperta atenção, tem valor económico, desde uma simples ida à praia a um abraço ou a um beijo a um dos seus filhos [e filhas]. Não espanta ninguém que o clube [Al-Nassr] ou a seleção [portuguesa] onde joga despertem muito mais atenção e tenham muito maior valor económico também. 

Nesta contemporaneidade [que nos foi dada viver], onde tudo tem um preço, um beijo, um abraço que seja, o preço constitui a medida do valor de todas as coisas e quanto maior for o preço mais valiosas são essas coisas. Só de salário, o Cristiano Ronaldo ganha dez vezes mais do que o jogador que se segue na seleção portuguesa [Bruno Fernandes], que foi considerado o melhor da Premier League, o campeonato mais competitivo do Mundo. Sem o Cristiano Ronaldo, além de nós, portugueses, quem estaria interessado em ver um jogo da nossa seleção? A quem interessariam os nossos resultados, as nossas vitórias, os nossos títulos? Seríamos como a Áustria, a Suíça, o Uruguai ou outras seleções de que ninguém quer saber. 

Não se pode separar a atenção que tem merecido a nossa seleção da atenção que é dispensada ao Cristiano Ronaldo. O Gonçalo Ramos teria mais atenção e maior valor económico sendo titular de uma seleção portuguesa que, sem Cristiano Ronaldo, interessa a muito poucos ou sendo suplente do Cristiano Ronaldo na atual seleção portuguesa que interessa a meio Mundo? Se o Gonçalo Ramos fizesse um jogo tão mau como o do Cristiano Ronaldo contra o Congo, o “The Independent” dedicar-lhe-ia o mesmo título [“Dez homens e uma estátua”], faria uma crónica à qual daria um título sequer? É possível ser um jogador ou um treinador de futebol português no estrangeiro sem ninguém o associar ao Cristiano Ronaldo? Queremos [ou não] o Cristiano Ronaldo, queremos [ou não] contar para o Totobola [como dantes se dizia]? Se não queremos contar para o Totobola, a resposta é simples, demasiado simples, simplória, até. 

[Neste tempo da hiperpolítica, como refere Anton Jäger, tudo é politizável, tudo se politiza e, assim, o futebol também. A equipa mais aborrecida de sempre, a atual seleção de Espanha, ganhou o Campeonato do Mundo. Na final, a Argentina jogou pior, muito pior do que qualquer outro dos adversários da Espanha (Arábia Saudita, Uruguai, Cabo Verde, Áustria, Portugal, Bélgica e França), mas ninguém vai dizer que jogou com dez homens e uma estátua, apesar de não terem feito um (único) remate à baliza (para amostra) durante noventa minutos. Talvez tenha jogado pior porque demonstrou ser pior, bem pior do que o Egipto, por exemplo.]

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Não é só o rei que vai nu

Entretanto, uma convenção de comentadores portugueses reuniu-se para discutir o novo calendário Pirelli de nus da seleção nacional: afinal (sabem como é a história, não sabem?) parece que as transparências eram tantas que toda a gente via menos os intervenientes (e os que lá iam aplaudindo: que lindos vestidos – são dos melhores costureiros da Europa e das arábias e do mundo). Como dizia o outro: uma coisa é quando se ganha, outra quando se perde. Aplausos. Este debate é seguido com muita atenção por todo o país.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

O caos como ausência ou como existência

O jogo [de Portugal] contra a Croácia reforçou as minhas convicções sobre as convicções do nosso selecionador. Começámos com o 4x3x3 do costume, com o Vitinha a recuar para a equipa sair a jogar, mas com o Rafael Leão do lado esquerdo em vez do João Félix, mantendo-se o Pedro Neto do lado direito. Durante um quarto de hora, parecia que desta vez seria diferente. A partir daí, voltou-se à modorra do costume, embora a Croácia continuasse desconfiada, sem atrevimento.

Na segunda parte, a Croácia resolveu abrir as hostilidades e passou para a frente. O nosso treinador não foi de modas e, perdido por cem, perdido por mil, substituiu quatro jogadores de uma assentada. As substituições foram no momento certo, quando se esperava a validação [ou não] de um golo marcado pelo Cristiano Ronaldo, não revelando desespero ou desorientação, mas, tão-só, a convicção do nosso selecionador de que estar a empatar ou a perder durante o jogo é igual [ao litro].

Depois destas quatro substituições instalou-se o caos, o caos na nossa seleção e, pouco a pouco, na seleção da Croácia também. Ficámos a saber que o caos é contagioso, que não se pode estar ao pé dele ou de alguém que dele seja portador. Marcámos dois golos que contaram e a Croácia outros dois, mas que não contaram e não contaram assim por um bocadinho, um bocadinho pequenininho, que nem à vista desarmada se destrinça [só medindo a tensão arterial da bola ou lá como se faz]. 

Ou não temos tática nenhuma porque não vale a pena ter tática alguma quando o resultado se deve ao puro e simples acaso, ao caos; ou temos tática e a tática é a tática de não ter tática, restando a desordem, o caos; ou temos tática que se compõe de tantas e tão variadas e complexas [táticas] que se confunde com o próprio caos. As situações parecem idênticas por que o resultado também o é: o caos; parecem mas não são, pois, sem tática, o caos é uma decorrência, é endogenamente determinado, enquanto, com tática, mesmo que seja a sua negação, o caos é exogenamente determinado. 

terça-feira, 30 de junho de 2026

O jogo terminou no aquecimento

É tudo grande e moderno neste mundial: O jogo termina quando o relógio do estádio decide contar os números por ordem decrescente de melancolia. A hora tardia e a ingestão de consideráveis quantidades de bebidas alcoólicas não permitiam uma análise cuidada ao jogo. As 22 horas restantes do dia possibilitariam dissecar o cadáver convenientemente em duzentos programas de análise técnica/futebolística, tentando perceber o que tinha acontecido a Portugal no jogo com a Colômbia. Na segunda parte, ordenei aos jogadores que corressem apenas com a imaginação – disse o selecionador, maravilhado. 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Por uma unha negra

A sorte dá muito trabalho, como se costuma dizer, mas a falta dela talvez dê mais ainda, que o digam os jogadores colombianos depois do [último] jogo contra a seleção portuguesa. Em nenhuma circunstância se justificou tanto a expressão “por uma unha negra” como, aos noventa e um minutos, no golo anulado à seleção colombiana por fora-de-jogo de Davinson Sanchez no momento de cabecear a bola para a baliza; talvez nem sequer tenha sido por uma [simples] unha, mas pela mania de calçar chuteiras um número acima do necessário para sentir os pés mais desafogados, menos apertados.

Empatámos e passámos aos dezasseis avos de final deste Mundial. Que ninguém se engane, se equivoque por um minuto que seja [especialmente os nossos adversários], vai ser de empate em empate até ao empate final. Hoje como ontem [e como sempre], ganhamos, empatando, e, assim, unidos, empataremos [até que a voz nos doa]!

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Três em cada quatro pessoas fazem parte de setenta e cinco por cento da população

“Um jornal acabou de publicar os resultados de um inquérito: aparentemente, três em cada quatro pessoas fazem parte de setenta e cinco por cento da população”; esta é uma piada de David Letterman, famoso apresentador do “Late Night” e do “Late Show”, contada no “Riso, Humor e […] Matemática”, de Cláudia Custódio. O óbvio é [obviamente] autoexplicativo [e ainda pode ter piada]. 

Gary Lineker afirmou [mais coisa, menos coisa] que: “no futebol, são onze de cada lado e, no fim, ganha a Alemanha” [no contexto desta afirmação, fazia sentido a referência à Alemanha, mas essa seleção não é para aqui chamada]. Disse o óbvio e o óbvio [obviamente] devia ser óbvio para todos, mas não é [ou não foi] quando se analisa o jogo de Portugal contra a República Democrática do Congo.

O ponta-de-lança serve para marcar golos e como o Cristiano Ronaldo é ponta-de-lança, logo, se não marca, não joga bem e, se não joga bem, a culpa do resultado só pode ser dele. Diz-se que está velho, pois os velhos não têm qualquer préstimo nas sociedades contemporâneas. Está-se a esquecer que, de um lado, do lado português, estão onze, onze jogadores, não um, por mais decisivo que possa ser. 

Os jogadores da nossa seleção esqueceram-se da baliza e só passaram a bola para trás e para os lados [e a passar a bola para trás e para os lados ninguém ganha jogo nenhum, conclui-se]. Não passaram para a frente porque quiseram, porque não lhes apeteceu, porque não foi o que tinham combinado, depreende-se. Está-se a esquecer que, do outro lado, também estavam onze jogadores, uma equipa, que não permitiu que  a outra jogasse de forma diferente.

Portugal empatou, logo não jogou bem, pois jogar bem por jogar bem só se os jogos se decidissem pela classificação atribuída por um júri, como na patinagem artística. É como se um facto [um empate], um simples facto encerrasse [em si mesmo] a sua explicação, fosse autoexplicativo. Recorrendo a Gary Lineker, a conclusão é óbvia [ou devia ser óbvia]: o treinador e a equipa da República Democrática do Congo prepararam melhor o jogo, sabiam melhor o que fazer [e fizeram-no]. 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

“O mínimo que se pode pedir a uma equipa é que ela não se mexa" - II

 

Foi o meu primeiro jogo completo (bem, quase completo, não aguentei tanta emoção) do mundial 2026. Gostei muito. Principalmente das inovações. É genial a paragem para a publicidade, perdão, para hidratar. É bom para hidratar, parar o jogo, quebrar o ritmo e também deve ser excelente para o treinador dar instruções e para os jogadores e respectivos músculos se distraírem daquilo que andam a fazer. Com tantas queixas em Portugal de antijogo e jogo negativo, eis aqui uma excelente iniciativa, sem dúvida. Aposto que o Porto vai propor a medida para os jogos no Dragão, a juntar aos esconde bolas e palma toalhas. É sabido que a hidratação, nos jogos do Dragão, principalmente no inverno é uma medida mais do que necessária: justa. Espero que a hidratação se alargue ao resto do estádio para os espectadores poderem beber umas cervejolas e assim suportarem melhor alguns jogos de futebol. Como o de ontem. Obrigado.

sábado, 13 de junho de 2026

Do campo ao mercado


Quarenta e oito seleções. Não sei quantos milhares de quilómetros de chouriços para encher. Doze grupos. Não sei quantos quilómetros de chouriços televisivos para encher. Fora o pré e o after match. Fora os directos, onde se consegue perceber um avião a levantar voo com direito a relato, a metáfora perfeita para atingir o sucesso, presume-se. Atenção aos fenómenos climáticos extremos e a outros fenómenos, uma poderosa vitrine de exclusão, vigilância e forte tensão internacional (podia ler-se no Público) e, possivelmente, uma vitrine para alguns jogadores e para o futebol. Nunca se sabe.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Fazer história

Fizemos história, essa é que é essa! Em Torres Vedras, o Carnaval ao domingo nos finais de maio é [infinitamente] preferível ao Carnaval, Carnaval, ao Carnaval à terça-feira em fevereiro. No Carnaval de 17 de fevereiro, “o céu esteve predominantemente muito nublado, registando-se períodos de chuva e temperatura máxima de 15°C”, enquanto, no Carnaval de 24 de maio, “o céu esteve limpo ou muito pouco nublado, registando-se temperatura máxima de 28°C”. O Natal é quando um homem [ou mulher] quiser e o Carnaval também, desde que haja cabeçudos [e gigantones], claro.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O "leão" da Malásia

 

No final da conversa ao telefone, o meu amigo ainda perguntou:

- E o mundial?

- A guerra mundial?

- Não, o mundial de futebol…já compraste a caderneta de cromos?

- Não, vou fazer mais uma do Sandokan…

Pouco me importa o mundial. Este e os mais recentes. Há muito tempo que o mundial deveria ter-se desvinculado da palavra futebol. Mas não param de introduzir inovações, como aquela grande ideia do intervalo de meia hora, ou dos cantos serem marcados com o árbitro de olhos vendados. Ou aquela dos apanha-bolas serem todos formados no Futebol Clube do Porto. Era bom para o clube a para a cidade.  Os jogos, para que a inovação fosse realmente interessante, deveriam ter apenas meia hora e o resto deveria ser puro entretenimento, relatado em directo pelos comentadores da CMTV.

O Sporting 2.0 já entrou neste mundo onde as bolas são feita de música e os adeptos experienciam o jogo a partir de um mundo lounge e de um espaço Emerald Lounge, zona de lugares exclusivos e, claramente, acessíveis a todos (risos). Já não se trata de ver um jogo de futebol mas de uma experiência inédita em Portugal: O Lion’s corner. Experiência essa que já tinha começado com a venda dos bilhetes para a final do Jamor, cuja prioridade era o dinheiro e a disponibilidade para estar aberto a experiências. Depois temos lotações esgotadas com taxas de ocupação de 80%.

Acho que prefiro o "leão" da Malásia. E continuar as ler as “Notas de um velho nojento” do Bukowski.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O uso prolongado da equipa criou muitos ficheiros de lixo


Quando tenho o prazer de observar Georgios Vagiannidis a jogar futebol, lembro-me de uma frase do Bukowski no seu livro “Sobre a escrita”, quando este afirma que se criaram as escolas (de música, pintura, literatura) porque algumas vezes o artista individual era demasiado fraco para falhar sozinho. Por isso mesmo se criaram, igualmente, as equipas, embora o propósito seja disfarçar a mediocridade de alguns dos seus elementos através do “todo”.

Confesso que já tinha saudades de escrever: ontem, quando o Sporting entrou em campo já perdia um a zero. Pior: entrou em campo a perder e com a equipa incompleta: do Trincão apenas terá entrado o bigode (só se via o bigode, perdido), do Catano apenas entrara o sorriso, do Vagiannidis nem a sombra, e mesmo o Gonçalo Inácio marcava os seus adversários apenas com os olhos. O meio campo dormia como um leão ao sol no seu papel de rei da selva. O estádio assistia com deleite. 

Desde que vi aquela cara de alívio no final do jogo em Londres (com o Arsenal), percebi que o Rui Borges descomprimira ao ponto de levantar voo: ele, as suas ideias, a época toda a esvoaçar entre a neblina noturna londrina. Os jogadores (via-se bem a olho nu) descomprimiram e esvoaçaram. Alguns adeptos também: mais seria demais. Não se conseguia aguentar tanta emoção, pressão, gestão, lesão, entre outros, cuja terminação nos levaria para meandros menos abonatórios.

De volta à terra (literalmente), o jet lag adensou tenebrosamente as aspirações da equipa. Dormia-se acordado e acordava-se a dormir. Dois empates fibrosos acabariam com os alvoroços emocionais não fosse o nosso rival de Lisboa insistir em falhar cada vez mais e melhor. Até nisso nos perseguem. Ficou a taça na raça do jogo do Dragão onde as bolas, desta vez, não foram escondidas nem as toalhas amordaçadas.

Pronto, estava feita a época. Uma boa época, nas palavras do treinador, cuja renovação foi palco de um ensombrado jogo de espelhos com o presidente como protagonista, em mais uma das suas fanfarronices, diminuindo o treinador que apresentava e, por acréscimo, toda a estrutura. Já no ano passado o fizera na apresentação do novo Amorim: João Pereira.

Perdida a taça, com o desmantelamento do que resta da equipa, e o definitivo afastamento do que resta do dedo, mão e pé do exportado Amorim (e do braço direito Viana), o caminho fica livre para o presidente substituir, ele próprio, Rui Borges à primeira escorregadela. O Borges certamente dará um bom adjunto, como, aliás, se tem visto…