segunda-feira, 25 de junho de 2018

Um choque de civilizações onde não faltaram Aiatolá Queiroz e São Fernando

Este jogo contra o Irão envolvia uma ironia (do destino): os iranianos consideram Carlos Queiroz um herói. Só um povo com uma fortíssima camada civilizacional, como o persa, seria capaz de vislumbrar a cabeça de um génio para além do risco ao meio e do bigode (ou da falta dele quando dele nunca precisou tanto como agora). Nós, que somos uns arraçados, tê-lo-íamos visto como um “handicap”. O que nos iria ser dado assistir não seria assim a uma disputa de bola mas a um choque de civilizações (ou de uma civilização contra uma coisa por onde todos passaram e deixaram uma miscelânea que ainda hoje ninguém se entende, a não ser nas Assembleias Gerais do Sporting).

O Irão joga num 4x5x1 com grande capacidade de desdobramento ofensivo quando contra-ataca. Nós, no Europeu, jogámos num 4x5x1 também mas com desdobramento ofensivo baseado no princípio “deixa-os andar que vão acabar por cair de maduros” ou, em linguagem técnica da teoria do desporto de alta competição ensinada nas melhores universidades, “só vamos a eles quando os pudermos apanhar com as calças nas mãos”. Neste Mundial, a forma precipitada como o Cristiano Ronaldo tem marcado golos está a deitar por terra esta tática e o seu aprimoramento que dura há décadas. À partida, táticas idênticas interpretadas por dois povos com culturas diferentes e dois treinadores com a mesma escola da manha e que se distinguem pelo enformo capilar.

Entrámos bem, para variar. O trivelas estava presente e era só preciso passar-lhe a bola. A bola foi para a área uma e outra vez e uma e outra vez entre os centrais e o guarda-redes as abébias foram-se sucedendo. O João Mário falhou uma oportunidade de golo de baliza aberta, chegando dois iranianos a vias de facto. Não marcámos e, como de costume, demos o berro ao fim de vinte minutos. O Irão organizou-se afinal num 6x4, com um deles a andar atrás do William Carvalho para obrigar a bola a sair pelos centrais. Quando ganhavam a bola, corriam como se não houvesse amanhã cheios de fé no seu destino e no Raphael Guerreiro. Começava a temer-se o pior quando chegou o momento “Melhor Academia do Mundo”: o Quaresma vem à linha, deixa a bola no Adrien para a receber mais à frente e avançar com ela até enfiar uma trivela ao ângulo. Onde estejam, o Paulo Bento e o Lopetegui devem estar orgulhosos pelo trabalho (bem) feito. O monumento foi erigido para lhes agradecer e para acabar com as vuvuzelas (os iranianos podem estar avançados no seu plano nuclear como o Trump afirma, mas no chinfrim levam quase dez anos de atraso).

No início da segunda parte íamos deitando tudo a perder. O Cristiano Ronaldo arrancou um par de fintas e foi abalroado dentro da área. A custo e uns tantos “frames” depois, o árbitro marcou “penalty”. Temeu-se o pior. Frio como o gelo, o Cristiano Ronaldo partiu para a bola e permitiu a defesa do guarda-redes, mantendo a possibilidade de chegarmos ao empate. Armados de vuvuzelas outra vez e liderados pelo Aiatolá Queiroz, os iranianos não mais nos deixaram as fuças e as canelas em paz. Os portugueses tremiam e o árbitro e o vídeo-árbitro ainda mais. Cada lance passou a ser disputado “frame” a “frame”. Repetição para cá, repetição para lá e sai amarelo para o Cristiano Ronaldo. Mais repetições e “penalty” arrancado a ferros, com o árbitro e o vídeo-árbitro a marcá-lo por temerem não sair dali com vida. O Fernando Santos pediu cabeça e, obediente, o Rui Patrício não desviou a bola com o olhar como devia. Finalmente o empate que tanto esperávamos.

Não tenho dúvidas que o Queiroz vai dizer que a culpa não é dele e que é necessário limpar toda a m**** da Federação Iraniana de Futebol, sem antes deixar de receber a indeminização do costume. O Fernando foi um santo e até permitiu o abraço do Aiatolá Queiroz, que não teve ainda a delicadeza de lhe agradecer a possibilidade de dar as instruções ao João Moutinho que se tinha esquecido no Mundial da África do Sul. Entretanto, a Espanha empatou e passou para primeiro do grupo. Passámos em segundo. É pena que não possamos passar em terceiro. Se passássemos e a continuar assim o título estava no papo.

(Como está o ambiente no Sporting, parece-me a contratação do Aiatolá Queiroz muito mais adequada do que a do Mihajlović. Tem jeito para animar Assembleias Gerais e não estranha pessoas que andam com lenços a tapar a cara)

6 comentários:

  1. Parabéns pelo excelente relato do jogo!

    Saudações de um benfiquista
    JVP

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    1. Obrigado. O Queiroz e o Santos ajudaram muito.

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  2. Portugal nâo joga absolutamente nada,jogadores fora do lugar defesas laterais fora de forma não havia melhor? com o Uruguai vai ser bonito de ver ,se nâo for o S.Patricio o Santos nâo percebe nada daquilo .

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    1. Caro Luís Garcia,

      Desde quando é que para Portugal jogar bem constitui condição necessária e suficiente para se ganhar o que quer que seja? A sua inquietação inclui a resposta: vai haver São Patrício porque para isso é preciso um Santo(s) para interceder.

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  3. Recordo, meu caro Rui, que o São Fernando foi um padroeiro de Espanha, glorificado pelo seu amor ao senhor - no que se equiparará ao nosso, mais coisa menos coisa - e por, apesar dessa sua religiosidade profunda, nunca ter sido derrotado nas várias batalhas que travou. Não encontrei nenhuma pesquisa que comprovasse a tese de que a sua contribuição para essas incontáveis vitórias fosse, tal como algumas más-linguas afirmam no caso do nosso Santo Fernando, igual à sopa-de-alho - antes da última revolução gastronómica liderada pelos chefes gourmet´s e pelo Omega3 - da qual se dizia quando eu era pequeno que não fazia nem bem nem mal. Sabemos que essas batalhas eram a eliminar, não tendo ainda sido instituída a "Fase de Grupos".
    Há uma coisa que sabemos: o nosso Santo Fernando não ganha sempre, acha mesmo que o caminho para a redenção passa por somar o maior número possível de empates, e reservar as vitórias para quando tem que ser. Cometida a pequena imprudência que constituiu o jogo com Marrocos voltámos ontem à normalidade. Registam-se os esforços para evitar a derrota do Irão. Fez-se tudo o que estava ao nosso alcance. Razão tinha o nosso Santo Fernando para estar zangado com o Aiatolá Queiroz no final. Que pessoa tão mal agradecida depois de tanta santidade da nossa parte.

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    1. Meu caro JG,

      Excelente texto! Não tenho dúvidas que com o Queiroz no Irão a linha mais radical islamita não tarda nada está no poder. O Khamenei ao pé dele parece um menino.

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