sábado, 30 de junho de 2018

O Mundial acabou: queríamos um Davy Crockett vs Buffalo Bill e ficámos com um Fernando Pessoa vs Homem Aranha

No Europeu, o Fernando Santos limitava-se a transmitir a mensagem do Senhor. A transmissão era simples direta e ninguém precisava de um teólogo para ficar a saber o que se ia passar. No Mundial, começou a falar como se fosse o Senhor ou o filho dele, o que é a mesma coisa. Começou a falar por parábolas. A parábola do neto não se percebeu. Não se percebeu se ele simplesmente estava com saudades do neto e o neto dele ou se a vinda dele era o anunciar de alguma coisa mais.

A intervenção do vídeo-árbitro no jogo contra o Irão e da Espanha contra Marrocos parecia uma coisa mas terrena, da FIFA, dos “vouchers”, dos emails. Mesmo assim, procurei ver mão divina a escrever direito por linhas tortas. A vitória da Argentina contra a Nigéria com um golo da Rojo a acabar o jogo parecia essa mão, a mesma mão que permitiu ao Maradona resgatar a honra perdida dos argentinos na guerra das Malvinas. Deus queria um Messi vs Ronaldo nos quartos-de-final. Queria Deus e queria o Mundo todo.

A meio da tarde, com a derrota da Argentina contra a França, percebi que de Deus não andava pela Rússia. A andar alguma coisa seria a FIFA ou agentes do ex-KGB. Não havia parábola, não havia nada. Só havia saudades que é o que nos distingue como povo. Estava conformado quando comecei a ver o jogo.

Começámos a perder, sobretudo a perder a sorte. A troca do Cédric pelo Ricardo Pereira deu azar. Cavani vira de flanco, Suárez domina a bola, vai para cima do Ricardo Pereira, sai pela direita e centra ao segundo poste para o Cavani com o peito, o ombro, o pescoço e o queixo a meter lá dentro. Não nos desmanchámos e continuámos a jogar como se nada fosse e tivéssemos até à eternidade para marcar um golo. Num livre, o Suárez ia-a metendo lá dentro outra vez, valendo-nos São Patrício. Procurei acreditar que pudesse haver mais intervenção divina à espreita.

Na segunda parte, continuámos na mesma como a lesma. Quem viu jogar o Sporting esta época sabe que aquele “tiki-taka” ou não leva a lado nenhum ou leva a um nervosos miudinho permanente até se chegar ao chuveirinho dos últimos minutos com a equipa toda dentro da área adversária à espera de um milagre. O milagre chegou mais cedo do que o previsto e sem necessidade de se entrar em modo de desespero. Canto do lado esquerdo, Raphael Guerreiro centra para a molhada, o Cristiano Ronaldo salta à bola, os dois centrais tentam abafá-lo, aparecendo o jovem Pepe nas costas a cabecear para o golo.

O divino que se tinha anunciado através de São Patrício parecia estar mais presente do que nunca. Engano meu. Biqueirada do Uruguai para a frente, o Pepe falha o corte de cabeça, a bola sobra para os jogadores do Uruguai que em três toques deixaram o Cavani isolado do lado direito para rematar com precisão sem hipóteses de defesa, ficando o Ricardo Pereira a meio caminho de fazer qualquer coisa e a acabar a marcar o avançado com os olhos. Quando se falham cortes de cabeça e os remates vão bem colocados, Deus deixa de se interessar pelo resultado final e o Mundo segue a sua desordem natural.

Reagimos como se esperava. Metemos o Quaresma na expetativa que a defesa do Uruguai ficasse com um olho no burro e outro no cigano. Mas não estando o Carlos Queiroz ficaram com os dois olhos no cigano (desculpa Quaresma!). Não restava outra alternativa que não fosse meter um ponta-de-lança. A custo, o Fernando Santos acabou por meter o André Silva. Era pouco, como sabíamos. Só criámos alguma confusão e aparência de perigo quando metemos o Pepe na área nos últimos minutos, sem que antes o Bernardo Silva bem acompanhado pelo William Carvalho e outros que por ali andavam fizessem o favor de queimar tempo com transportes de bola sem adversários pela frente e passes e mais passes até se lembrarem de meter a bola na área.

O Mundial acabou. O Mundo todo esperava um Messi vs Ronaldo. Vão ter um Cavani vs Giroud. Em vez de um Keynes vs Hayek, ou de um Mário Soares vs Álvaro Cunhal ou de um Davy Crockett vs Buffalo Bill, vão ter um César das Neves vs Mário Centeno, um António José Seguro vs Pedro Passos Coelho ou um Fernando Pessoa vs Homem Aranha. Quem é que quer assistir a uma coisa destas? Ninguém me tira da cabeça que isto está tudo feito para a vitória dos russos. É que nem Deus se atreve a meter-se com a FIFA, o Putin e os serviços secretos russos.

Sem comentários:

Publicar um comentário