quarta-feira, 16 de maio de 2018

Para o que aconteceu ontem nunca, mas nunca mais se repita!

Ter um clube, ser de um clube não se explica. Nem sequer é razoável. Seria muito mais conveniente que não se tivesse e não se fosse. Não estaríamos permanentemente a sair da festa da comunhão do sobrinho para ver se empatámos contra o Moreirense ou se até estamos a ganhar, suportando o olhar reprovador da mulher e do resto da família. Não ficaríamos de neura toda a semana porque empatámos ou perdemos. Não faríamos papéis ridículos no café da esquina depois de um golo perante a incredulidade dos vizinhos que nos consideram pessoas normais e educadas.

Ser do Sporting é racionalmente uma inconveniência, mas não consigo deixar de ser. Sou capaz de contar a minha vida toda a partir das datas e dos factos que fazem a história do Sporting do que utilizando qualquer outra cronologia mesmo envolvendo aqueles que mais amo. Entranhou-se em mim e na minha vida de tal maneira que não consigo desfazer-me desta pertença.

Ontem, ao chegar a casa e ver as imagens na televisão, tive vergonha desta minha pertença. Daria tudo para me ver livre dela. Daria tudo para não me sentir responsável também, mas sou responsável. Não sei se sou ou pelo menos tento-me convencer que não sou, que os responsável são os outros, mas sinto-me responsável. Não consigo deixar de pensar que esta pertença irracional, por muito pouca expressão que possa ter, juntamente com a dos outros sportinguistas é que conduziu à violência e a esta desgraça.

Mete-me alguma confusão a desvalorização da violência e a relativização da desgraça. É um caso de polícia? É sim senhor, mas também deve merecer consequências no plano desportivo. Não me parece que se possa jogar a final da Taça de Portugal e continuar a pensar que tudo continua como antes. Se ganharmos, festejamos? Como se nada tivesse acontecido? Num país a sério, seria cancelada a final e não seria atribuído o título esta época. Não sendo um país a sério, se fôssemos um clube a sério, não deveríamos jogar a final da Taça de Portugal: glória ao Aves! É que disto tudo importa que não se perca a memória, para que enquanto a vergonha perdurar, e espero que perdure para sempre, o que aconteceu ontem nunca, mas nunca mais se repita.

18 comentários:

  1. Caro Rui,

    Neste momento é tão difícil ser do Sporting quanto escrever seja o que for sobre o tema. Assim, congratulo-o pela coragem de escrever este texto, com o qual estou amplamente de acordo. O único tema do qual discordo ligeiramente tem a ver com o jogo. Havendo condições de segurança faz todo o sentido jogar, sendo assim uma forma de resistência aos que praticaram os lamentáveis actos de violência.

    Isto não quer dizer que veja motivos para festejar seja o que for no próximo Domingo. Não sei se quero mesmo que haja jogo. Não sei se quero mesmo que o Sporting ganhe. Quero apenas abrir um site de notícias e ler que não só os responsáveis por toda esta violência foram todos detidos, como os órgãos sociais do Sporting se demitiram e prometeram emigrar para o fim do mundo!

    SL

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    1. Caro João,

      Jogar é uma forma de resistência à violência. Não jogar tem a vantagem da memória. É preciso ter memória.

      SL

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  2. Subscrevo o texto e partilho dos sentimentos. Mas admitindo que os jogadores estão em condições de nos representar na final da Taça devemos começar por aí a reconstruir o edifício demolido nas últimas semanas a partir da posição ocupada pelo Presidente-adepto-maluco. Isso passa por substituir/suspender com carácter de urgência BC e criar condições para que os jogadores se situam seguros e não optem por rescindir os contratos. Passa por suspender as claques em particular a Juventude Leo e expulsar todos os envolvidos que sejam associados. Passa por segurar os apoios que ameaçam debanda como o da NOS. As questões materiais não são as mais importantes, reconheço, mas os estragos autoinfligidos são tão brutais que é necessário começar, ontem se possível, a reconstruir o Sporting.

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    1. Meu caro,

      É necessária uma actuação de emergência. De outra forma, é o descalabro financeiro. É preciso estancar a hemorragia.

      SL

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    2. Se ela não acontecer alguns dos nossos jogadores mais apetecíveis - e não estou a falar de William ou Patrício - mas de Bruno Fernandes ou até Bas Dost, acabam a norte de azul e branco vestidos.

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  3. Pois, tudo isso na Liga Ledman...certo?
    mlm

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    1. Ontem os encapuçados também se esconderam no anonimato. A cobardia não olha a clube.

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    2. Se o 5LB também andar por lá é capaz de não ser mau negócio!

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  4. Subscrevo. Mais que a tragédia de Alcochete, que pode originar uma catástrofe financeira, é a tragédia que continua com a alegada prática de corrupção por iniciativa de uns "putos" que chegaram ao clube trazidos pelo Presidente, com uma cultura comum à mesma geração de políticos, ou seja a prática normal da corrupção. Mas andámos nós a lutar contra o Estado Novo, para termos que aturar hoje uma geração destas?. Uns imbecis que podem, a confirmar-se o teor das acusações, levar o clube para os campeonatos amadores. Isto é inconcebível. Abominável...

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    1. Caro Vítor Cruz,

      Esta é um grande dilema. Não sei se a geração que fez o 25 de Abril cuidou adequadamente dos filhos e de construir uma sociedade mais decente.

      SL

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    2. Quais putos? Mas alguém com a cabeça no lugar pensa que o André Geraldes alegadamente fez o que fez sem que BC e outros dentro do clube não soubesse?

      De onde pensam que vinham as dezenas de milhares de euros pagos a jogadores e a árbitros? Do bolso do André Geraldes? Ou vinham do saco azul que BC tem? E de ondeiem esse dinheiro? Eu sei!
      Oiçam o que diz o ex-dirigente Vitor Ferreira.

      Se André Geraldes começar a falar, é intenção da PJ de o espremer o mais possível, podem ter a certeza que BC vai dentro! E se não for o Geraldes a falar, será a sua mulher a fazê-lo, até já o prometeu!

      Quando se abrem as portas do inferno…

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  5. Grande Rui
    Por isso te admiro tanto:)
    Concordo com tudo e partilho esse drama familiar e pessoal de ser feito de Sporting desde que me conheço
    Sinto uma enorme vergonha e não acredito que seja possível festaejar qualquer que seja o resultado é sem festa o futebol não faz sentido
    É pesadelo que gostava que fosse mentira
    Não é infelizmente
    Espero que esta não nos mate de vez

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    1. Grande António,

      Essa admiração vai ter preço naquilo que sabes um dia destes.

      Fora de brincadeiras, as grandes organizações são as que conseguem passar por estes momentos muito difíceis e tornarem-se melhores organizações. O Sporting é um grande clube. Vai doer sair desta. Mas vamos sair desta. Quando sairmos desta, vamos voltar a ganhar ou a perder, mas com ironia renovada e vontade de dar na cabeça dos lampiões e dos andrades.

      Um abraço

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  6. Caro Rui,

    hoje regresso à net, depois de 3ª feira. Desde dessa tarde que ainda não vi nenhuma capa de jornal, vi qualquer telejornal (ou algo similar). Este é o 1º e único blog que decido visitar. Vi, agora, pela primeira vez, este texto.
    Nele, está tudo o que penso e sinto (mas exemplarmente escrito, tal é a sua clareza e veracidade).

    Destaco esta passagem:
    "Ser do Sporting é racionalmente uma inconveniência, mas não consigo deixar de ser. Sou capaz de contar a minha vida toda a partir das datas e dos factos que fazem a história do Sporting do que utilizando qualquer outra cronologia mesmo envolvendo aqueles que mais amo. Entranhou-se em mim e na minha vida de tal maneira que não consigo desfazer-me desta pertença."

    É mesmo isto, e a minha luta vai ser largar tal cruz.
    No domingo (se houver domingo...), vou despedir-me do Sporting. Tem de ser.

    Um grande abraço e obrigado por este espaço maravilhoso.

    César (que também era, até ao dia 16, Cantinho do Morais).

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    1. Caro César,

      Nenhum de nós consegue explicar muito bem por que razão escreve sobre o Sporting. Temos as mesmas dúvidas. É pena que tenha desistido arranjando desta forma uma boa razão para o fazer também. A família agradece.

      Um grande abraço do

      Rui Monteiro

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    1. Meu caro,

      Um grande abraço para quem teve sempre razão (antes do tempo).

      Rui Monteiro

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