segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Porfiando

Este jogo contra o Boavista era o mais importante da vida do Peseiro. Seria ainda pior do que o Lopetegui e o Rui Vitória?, era a pergunta que estava na nossa cabeça e na cabeça dele. Ver o Petrovic no banco foi um primeiro sinal positivo, embora não definitivo. É sempre bom ver que o nosso treinador aprende. A melhor maneira de meter o Petrovic por volta dos setenta minutos é tê-lo no banco. Como se viu no jogo contra o Arsenal, metê-lo a titular limita muito essa manobra tática. Mas havia mais dúvidas e perplexidades que se esperava que este jogo ajudasse a resolver. O Bruno Gaspar ainda é pior também do que o André Almeida? O Mateus (do Boavista) é mais velho do que o Matusalém? 

Os primeiros dez minutos ajudaram a resolver uma destas dúvidas. O Mateus não só é mais velho do que o Matusalém como dispõe de melhor pé direito, como se viu num remate que nos atirou ao poste. Mas, com exceção deste remate, não se viu muito mais do Boavista. Antes desse remate, tínhamos desenvolvido dois lances de perigo que se transformaram num modo de vida durante a primeira parte. O Acuña avançava, o Montero deslocava-se para o lado esquerdo para o apoiar, até sair um centro à espera que o mesmo Montero aparecesse a cabecear. As jogadas do lado esquerdo sucederam-se sempre com os mesmos resultados: ou a bola acabava centrada para o guarda-redes e a defesa do Boavista cortarem ou depois de se ganhar um ou dois lançamentos laterais acabávamos por desistir. Nas duas primeiras, porém, os jogadores do Boavista ainda não tinham percebido que não estava ninguém na área e aliviaram de forma precipitada. Na primeira, o Battaglia rematou para uma boa defesa do guarda-redes adversário. Na segunda, o guarda-redes sacudiu mal a bola e o Bruno Gaspar enfiou-lhe uma rosca por cima da baliza. 

Para variar (de flanco), o Bruno Fernandes sacou um centro do lado direito e o Nani começou por tirar as medidas à baliza com um cabeceamento para mais um boa defesa do guarda-redes. O Acuña continuava a porfiar (há anos que não me lembrava de recorrer ao porfiar em qualquer tempo verbal) pelo lado esquerdo mas não havia maneira de aparecer o Bas Dost; nem o Bas Dost nem o Montero, que insistia em vir tabelar com o ele sem o avisar para esperar um bom bocado até se voltar a meter dentro da área. Por uma vez, a jogada não se repetiu e apareceu o primeiro golo. O Montero foi ao lado esquerdo sem o Acuña por perto, mas com o Mathieu a fazer-se passar por ele, simulou uma vez, simulou outra, até arrancar para a linha e centrar para a entrada de cabeça do Nani. Do outro lado, o Diaby parecia querer começar a aquecer. Ganhou uma bola, foi à linha, atrasou-a para o Bruno Fernandes lhe enfiar uma bica e marcar três pontos para o País de Gales. 

Na segunda parte, o Boavista e o Xistra entraram determinados em expulsar o Acuña. Livre e cartão amarelo para o Acuña (o primeiro do jogo). Entrada de sola sobre o Acuña, dando origem a livre mas sem cartão amarelo. Pontapé no Acuña quando protegia a bola que se deslocava para fora, sem que fosse marcada falta nem, muito menos, mostrado cartão. Finalmente, mais uma entrada sobre o Acuña que deu origem a falta e ao primeiro cartão aos jogadores do Boavista. O Acuña não saiu por expulsão mas por lesão. O objetivo principal do Boavista estava cumprido. 

Na marcação de um livre, o Bruno Fernandes tirou as medidas à baliza e mandou um balázio ao barrote. Como o Nani, esperava-se que depois dessa medição, a seguinte fosse parar dentro da baliza e assim foi. O Diaby, que estava a passar do quente ao rubro, pegou na bola do lado direito, veio para dentro, tabelou com o Montero, foi à linha e, em vez de meter para a molhada à espera que o Montero conseguisse estar em dois lugares ao mesmo tempo, centrou atrasado para a entrada da área onde apareceu o Bruno Fernandes a repetir a marcação do livre mas em corrida. Dois minutos depois, o Diaby voltou a fazer das dele, avançou pelo lado direito e, desta vez, tabelou para fora com o Bruno Gaspar e desmarcou-se para dentro da área para receber a bola. O centro apanhou-o atrasado, mas ainda em condições de tentar um golpe de “jiu-jitsu”, gerando a confusão na área e permitindo um primeiro remate à meia-volta do Bruno Fernandes, contra as canelas dos defesas, seguido de um outro em “smash” do Nani, fazendo a bola bater no chão, sobrevoar a defesa e entrar na baliza. 

Depois do três a zero veio a festa, com o Peseiro fazer o favor de a não estragar com a entrada do Petrovic ou do Castaignos. Entrou o Bas Dost e a equipa passou a jogar ao ritmo do “Thunderstruck” dos AC/DC. A bola não voltou a entrar, embora o Diaby ainda tenha tentado uma picadinha por cima do guarda-redes quando estava isolado, antes de ser substituído (para a ovação) pelo Bruno César (que ressuscitou da tumba onde o Jorge Jesus o meteu por jogar em todos os lugares possíveis, alguns deles ao mesmo tempo). 

Tudo está bem quando acaba bem. Antes do jogo, estava tudo mal. Depois do jogo, está tudo bem. Ultrapassámos o Santa Clara e aproximámo-nos do Rio Ave. O Benfica perdeu e andam todos a rasgar cartões, a insultar o treinador e a marcar assembleias gerais destitutivas. Recuperámos dois pontos ao Braga e mantivemos a distância para o Porto. Como disse o Varandas, queremos os melhores jogadores e o melhor treinador e já faltou mais para isso. Ninguém pediu que fossem bons.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A grande (des)ilusão


Não se deixem enganar. Alguns comentadores e seus sucedâneos pretendem convencer-nos que o Arsenal entrou displicente, quando o que aconteceu foi uma jogada de grande ilusão. Temos que dar a mão à palmatória. O Peseiro pode não perceber grande coisa de futebol mas começa a ganhar dotes de ilusionista. Ao jogarmos com três pivots (o Rui faz bem a análise na posta anterior), renunciando a qualquer forma inteligente de jogar futebol (com balizas), fechando todos os caminhos tanto ao adversário, como à própria equipa, Peseiro não apenas surpreendeu o adversário e os seus jogadores, como conseguiu criar a ilusão nas bancadas e em casa de que o Sporting estaria (o tempo verbal aqui é fundamental) a disputar o jogo. E conseguiu-o sem qualquer remate enquadrado com a baliza.  Não é fácil.

Como em qualquer ilusão acontecida no Estádio de Alvalade em provas europeias, esta foi sancionada por dois acontecimentos laterais (nada surpreendentes, mas com consequências): um penalti não assinalado e um vermelho a um jogador do Arsenal que por momentos perdeu o norte preocupando-se em travar o Montero que certamente não iria marcar golo, mas ficando o Arsenal a jogar com dez. Uma prova da grande ilusão? Um sms que recebi ao intervalo de um leão dos sete costados. Dizia assim: ganda jogo. É preciso traduzir o ganda?

Engendrada a ilusão, ficaram criadas todas as condições para a… desilusão. E isso aconteceu na segunda parte. Peseiro, no seu íntimo, sabia-o, embora a ilusão criada tivesse enganado até o próprio (como se viu no final do jogo nos seus comentários) criador. Ora, o treinador espanhol dos ingleses lembrou-se dos programas que via quando era pequenino sobre ilusionismo, foi ao google e leu a definição: ilusionismo é a arte perfomativa que tem como objectivo entreter o público dando a ilusão de que algo impossível (ou sobrenatural) ocorreu. Unai Emery sorriu e disse para os seus botões: aquilo não é bem uma táctica, antes uma estratégia, uma cortina de fumo para esconder a existência de balizas. Da conversa que teve com os seus jogadores reza a história da segunda parte. Uma desilusão dizem alguns. Uma injustiça dizem outros. O ilusionista acha que vamos no bom caminho.  

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Passar o Cabo Bojador às arrecuas

O Caminho Marítimo para a Índia não se descobriu de uma só vez. Foi preciso passar primeiro o Cabo Bojador, depois o Cabo das Tormentas, até se chegar a Calecute. O duplo pivô era o Cabo Bojador do Peseiro. Hoje, contra o Arsenal, foi ultrapassado pelo triplo pivô: Petrovic, Gudelj e Battaglia. É uma forma de avançar às arrecuas. Permite pressionar mais à frente (digo eu) e jogar com cinco centrais em caso de necessidade. Não permite é construir pelo meio, mas essa possibilidade estava há muito jogos descartada pelo Peseiro. 

Nós estranhámos esta tática e o Arsenal (felizmente) também. A primeira parte foi o triplo pivô e os outros. O triplo pivô não se dava com os outros e os outros não se davam com o triplo pivô. Os outros foram todos, não olhando o triplo pivô às camisolas, tanto atrapalhando os do Sporting como os do Arsenal. Os do Sporting foram ganhando cantos e os do Arsenal paciência. Oportunidades de golo e remates à baliza é que não se viram. 

A segunda parte prometia. Iria o Peseiro desfazer o triplo pivô? Iria mantê-lo, substituindo o Petrovic pelo Petrovic aos setenta e tal minutos (a substituição do Ristovski, por lesão, pelo Bruno Gaspar ainda mais dever ter embrulhado em hesitações o hipotálamo do Peseiro)? Iríamos assistir à passagem do Cabo Bojador e do Cabo das Tormentas num só jogo, com a entrada do Misic e o quádruplo pivô? E o Arsenal? Continuava a ganhar paciência ou perdia-a de vez e estávamos perdidos? 

Para nosso azar, o Arsenal perdeu a paciência. O Aubameyang (este tipo muda de clube só para nos chatear!) começou por aquecer as mão ao Renan Ribeiro para lhe permitir logo a seguir uma mancha de todo o tamanho. Na pequena área, o André Pinto cortou um remate com o tornozelo que iria levar a bola para dentro da baliza. A equipa reagiu e evoluiu duas fases de uma vez só, passando do triplo pivô ao quíntuplo pivô, sem passar pelo quádruplo, com o recuo do Bruno Fernandes e do Nani, ficando cada vez mais sozinho o Montero. O Peseiro pressentiu o perigo e meteu o talismã do costume: o Jovane Cabral; mas era tarde de mais. 

Todos estávamos a ver que o Arsenal por boas ou más razões acabaria por marcar. De ressalto, com um ataque rápido ou um cruzamento, de remate de fora da área, aproveitando uma buracada da defesa ou um frango. Foi através de uma buracada do Coates, mas podia ser de outra forma qualquer. O Peseiro começou por não reagir, esperando que o talismã ainda produzisse efeito. Não produzindo e por dever de ofício, acabou por tirar o Nani e meter um rapaz que ele, o Cintra e um amigo do Cintra contrataram quando estavam a beber umas minis acompanhadas de uns pires de caracóis, mantendo o triplo pivô com o Bruno Fernandes a fazer de Gudelj. 

Não tivemos uma oportunidade de golo. Não fizemos um remate de jeito à baliza. Marcámos cantos atrás de cantos sem criar qualquer perigo. Quando o Arsenal perdeu a paciência e os seus jogadores desataram a correr e a passar a bola ao primeiro toque deixámos de ter pernas e organização para os deter e, muito menos, para os ameaçar no contra-ataque. Não foi bom. Foi mau. Só que podia ter sido péssimo e não foi. Continua “o nada está perdido” e, enquanto continuar, nada mudará até se ter perdido tudo. Quando é que nós vimos isto?

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

A alucinar

Passei o fim-de-semana com uma constipação das antigas. Com a cabeça a funcionar a anti-histamínicos, decidi ver o jogo do Sporting contra o Loures. Alucinei o tempo todo sem saber se era do jogo se era do sono. Vi um aranhiço gigante com a cabeça do Castaignos e uma girafa que fazia lembrar o Petrovic. Vi um senhor forte no banco do Sporting, nervoso, a olhar para o relógio, a gesticular e a dizer qualquer coisa que ninguém prestava atenção. Parecia um outro senhor que perdeu a final Taça UEFA no Estádio de Alvalade.

domingo, 21 de outubro de 2018

Para a semana o jogo é contra o Arsenal da Devesa (equipa de São José de São Lázaro - Braga), não é?

Por manifesta ignorância e razões gastronómicas comecei a ver o jogo no telemóvel. Fiquei surpreso, não sabia que o Sporting jogava com o Borussia Dortmund. O jogo estava por isso repartido, embora com a intensidade do slow motion do meu velhinho vídeo VHS. Em câmara lenta ganhamos a possibilidade de observar em pormenor o desenho táctico, mas neste caso não se vislumbrava nenhum, o que é óptimo para ludibriar o adversário. Neste caso particular o Loures, perdão, o Borussia de Dortmund vestido de amarelo menos florescente (achei estranho publicidade ao crédito agrícola mas deixei passar), também não tinha um grande desenho táctico e assumia o fato de macaco como umas das belas-artes do futebol. Continuei a ver o jogo, agora na TV. Continuava repartido e em slow motion, o Sporting não conseguia fazer dois passes seguidos e alguns jogadores pareciam do campeonato de Portugal, e não me refiro aos que vestiam de amarelo pouco florescente. Finalmente marcamos à bomba (tinha que ser marcado por um jogador de primeira liga), com o guarda-redes do Dortmund a fazer de guarda-redes do Loures.

Ao intervalo o treinador disse aos jogadores para jogarem contra este Dortmund C como se jogassem contra o Loures em Alverca, e rapidamente estariam a distribuir autógrafos. Foi se calhar por isso que logo no reinício do jogo o Fernandes falhou um penálti de forma displicente. Finalmente dominávamos o jogo (ainda que em slow motion) e dei por mim a ver a história da Maria Leal e do seu marido esquizofrénico, e a forma como esta (supostamente) lhe limpou um milhão de euros enquanto cantava no campeonato do bardo do Obelix.

Entretanto o Nani marcou o segundo e mentalmente marquei o terceiro e o quarto. O Peseiro voltou a jogar contra o Borussia e entrou o Petrovic. Depois de devidamente reforçado o meio campo (?) poderíamos ter sofrido um ou dois golos. Mesmo não trazendo o Paco Alcacer o Dortmund tem bons jogadores na frente. Ainda sofremos um nos descontos depois de lançarmos um puto aos leões para jogar três minutos. Da próxima vez espero que na taça de Portugal não nos saia uma equipa da Bundesliga. Como disse o Peseiro, não seria hoje que iríamos jogar bem. Não explicitou quando será. Talvez para não dar nenhuma vantagem competitiva aos adversários.

Nota: a fabulosa equipa de Folha, o Portimonense, foi eliminada da taça pelo Cova da Piedade.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Os que jogam e sabem jogar e os que não sabem dar um pontapé na bola

Fui jogar à capital europeia da burocracia. Há seleções nacionais, há jogadores, há dinheiro, muito dinheiro que faz de bola ao mesmo tempo, há regras mas não há árbitro. Também se passa uma época toda a preparar esta final, que não é bem uma final, porque a esta se sucede sempre outra e mais outra. Há táticas, há técnica, há modelo de jogo, há quem comente sem nunca ter dado um pontapé na bola mesmo quando ela lhe é passada. No fim, também se ganha ou perde, mas o resultado ideal é o empate para que todos possam reclamar pelo menos uma parte da vitória. Assim, estive com o equipamento da seleção nacional vestido, mas sem direito a festejar golos e a correr para o público a beijar a camisola. Uma maçada, portanto. 

Neste jogo, aplica-se o princípio de que é sempre preferível um acordo a uma boa demanda. A razão só interessa na exata medida que nos permite chegar a um empate ou à vitória que queríamos deixando para os outros a vitória que desejavam também. Tudo isto serve para falar do possível acordo entre Sporting e o Wolverhampton para a transferência do Rui Patrício. 

O Wolverhampton dispõe do Rui Patrício, um dos melhores guarda-redes do Mundo, e parte à frente: ainda sem o jogo se ter iniciado, tinha a parte da vitória que desejava. Estando o Rui Patrício do lado de lá, o Sporting entra a perder, a não ser que não queira chegar a acordo para vir com umas bravatas, na perspetiva conhecida do “com papas e bolos se enganam os tolos”. Se o Sporting aceitar um acordo envolvendo um montante de transferência inferior ao que lhe foi proposto no passado perde. Aceitando um acordo por mais dinheiro, ganha sempre. Pelo caminho, liquida contas com o Rui Patrício, que nestas coisas há sempre uns rabos-de-palha que encravam os acordos. O Jorge Mendes não é para aqui chamado. O que se lhe deve, se é que se lhe deve, diz respeito a outro negócio e não a este. As dívidas pagam-se ou também se chega a acordo para se pagar na parte ou no todo, mas esse é outro jogo. 

O Sporting está em condições para chegar a um bom acordo. Melhor estaria se o Rui Patrício não estivesse a jogar no Wolverhampton e se não se acentuassem as suspeitas de envolvimento da direção do Sporting na invasão de Alcochete. Quem negoceia não determina estas circunstâncias. Mesmo assim, estou convencido que vai chegar a um bom acordo, isto é, um bom acordo para as três partes: Rui Patrício, Wolverhampton e Sporting. Haverá sempre os que vão achar que é uma capitulação, mas esses são os que comentam o jogo sem nunca terem dado um pontapé numa bola, bastando vê-los quando se metem nestas andanças e se lhes passa a bola.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Déjà vu?

Factos:
À sétima jornada estamos no 5º lugar com treze pontos. Temos o 7º melhor ataque e a oitava (por extenso tem outra pinta) melhor defesa.  Sussurram-me que não sofríamos quatro golos para a liga há cerca de dez anos e picos. Estamos tristes, diz ele. É um passo atrás, mas nada nos pode perturbar, diz ele. Ele… é o treinador. Se calhar o problema é ninguém o perturbar. A ele e aos jogadores. Deixem os bocejos para nós, tristes adeptos.

Suposições:
Estes tipos não treinam, ou se treinam tentam disfarçar ao máximo para confundir os adversários. Bom, às vezes lá treinam, mas fora do país. Como na passada semana, na Ucrânia. Aliás, no final desse treino disputado ao ritmo de uma marcha fúnebre, uma verdadeira conspiração cósmica intercedeu, colocando uma mão por debaixo do treinador. Sucede o mesmo com o menino e o borracho. Até quando?

Questões (zangadas):
Se estes tipos não treinam, o que fazem durante aquele tempo todo em que estão na academia? Se o treinador é um especialista em futebol, porque será que nós não temos inveja disso? Se os jogadores bocejam antes de um jogo, isso será ausência de noites bem dormidas? A falta de intensidade demonstrada é um resquício (ainda) de traumas psicológicos? Mesmo daqueles que não estavam na Academia no dia X? A falta de jeito (súbita em alguns casos) de alguns jogadores é para acompanhar a qualidade do treinador? A nossa paciência será um poço sem fundo? Entre outras…

Nota:
Já agora, como se sentiu o presidente sentado no camarote do estádio do Portimonense? O mesmo clube em que o presidente da SAD recentemente agrediu à cabeçada Rafael Barbosa, jogador emprestado pelo Sporting, entretanto recambiado (para os nossos sub 23).


(originalmente publicado aqui)

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Entregar a equipa a quem sabe

Tive que trabalhar no fim-de-semana. Acabei o que tinha de fazer exatamente no momento em que se iniciava o jogo. O estado espírito não podia ser melhor: a consciência do dever cumprido e a perspetiva de ultrapassarmos o Porto e nos aproximarmos do Braga. 

Entrámos como de costume, em modo assim-assim. O facto de estarmos a jogar contra o último não comoveu o Peseiro e mantivemos o duplo pivô porque é sempre preciso cautelas e caldos de galinha. Quando recuperamos a bola, o Gudelj fica mais atrás par sair com ela, optando invariavelmente por a passar para o lado ou para trás não arriscando a avançar com ela ou a fazer um passe que não seja óbvio (meu rico William Carvalho “que te partiste tão cedo desta vida descontente”). O Battaglia avança mais um pouco para atrapalhar a equipa quando perder a bola ou, apertado, não conseguir fazer o passe em condições. Quando perdemos a bola, ficam os dois a olhar um para o outro no meio, deixando os laterais entregues à sua sorte ou à boa vontade dos centrais para ajudarem a fechar do lado de fora. Aquilo que o Battaglia fazia sozinho não o conseguem fazer o Battaglia e o Gudelj juntos. O duplo pivô do Peseiro não é uma tática, é uma superstição! 

Com este meio-campo feito de papel (não me lembro de um corte ou sequer de uma falta do Battaglia e o Gudelj), os dos Portimonense sentiram-se à vontade para trocar a bola sem correrem riscos de maior. Pouco a pouco, foram ganhando gosto e começaram a criar lances de perigo nas alas, dado que, sozinhos contra o mundo, nem o Ristovski nem o Acuna tinham unhas para aquela guitarra. O único que conseguia jogar contra mundo era o Coates. Invariavelmente, ou o lance acabava nele ou acabava em golo, como se viu. No primeiro, o Jovane Cabral perdeu a bola à entrada da área adversário e, como o Ristovski tinha avançado, de repente abriu-se uma ciclovia de trinta metros para um ciclista do Portimonense correr sem qualquer adversário por perto. O Coates, quem mais, ainda o tentou puxar para a linha de fundo e obrigar a parar, mas o dito ciclista depois de parar puxou a bola para dentro e rematou à vontade com o Gudelj não só a não fechar como a aparecer tarde e a más horas e a virar a cara à bola. Os do Portimonense perceberam que se a coisa tinha corrido tão bem não havia razões para não repetirem. Numa outra jogada, ganharam vantagem do lado esquerdo do ataque outra vez, o Ristovski ficou como o tolo no meio da ponte, o Coates teve de vir à dobra, a bola passou na mesma e o mesmo ciclista foi à linha, parou, rodou e, com todo o tempo do mundo, atrasou para o remate do terrível Nakajima, aparecendo novamente a passo de tartaruga o Gudelj tarde e a más horas e a virar a cara novamente no momento do remate. 

Um azar nunca vem só. Levámos o golo e o Salin rachou a cabeça e teve de ser substituído. Como o Raphinha estava lesionado, no início da segunda parte teve de se queimar a segunda substituição. Quando os jogadores estão com a cabeça partida ou com o esternocleidomastóideo ou outro músculo qualquer a abanar, é necessário substituí-los. Mas substituí-los não é bem tirar uns e meter outros como se a simples reposição da quantidade fosse a única obrigação do treinador. Para espanto, o Peseiro pôs o Bruno Fernandes do lado esquerdo com a única obrigação de enfiar umas biqueiradas para dentro da área, ficando o Nani mais solto a jogar no meio. Se as coisas estavam mal pior ficaram. Escondeu-se o único jogador que sabe construir no meio e gerar desequilíbrios e o buraco no meio passou a atingir a dimensão de uma cratera quando se perdia a bola. 

Mesmo escondido, o Bruno Fernandes fez das suas, primeiro ia marcando um golo de bandeira, depois assistiu para o Jovane Cabral de baliza aberta até que, por fim, centrou para um corte defeituoso de um defesa, acabando a bola no Nani que a passou para o Montero a empurrar para a baliza. Os dos Portimonense tremeram e o Gudelj esteve perto de empatar o jogo. Quando se esperava que o Peseiro tirasse o Gudelj para meter um avançado, deixando o meio campo todo entregue ao Battaglia como ele gosta e encostando os adversários às cordas, assistimos ao filme habitual, desta vez protagonizado pelo Folha (sim, pelo Folha!). O treinador adversário procurou reagir à situação e mexeu na equipa. O Peseiro, mais uma vez, ficou na expetativa, deixando a iniciativa ao treinador adversário. 

Mesmo com o Jackson Martínez à beira de um ataque cardíaco, o Portimonense reorganizou-se e, na sequência de um canto (que resultou de uma perda de bola do Nani à entrada da área adversária e de uma correria dos adversários pelo nosso meio-campo sem ninguém lhes sair ao caminho), a bola sobrou para a entrada da área onde apareceu o terrível Nakajima a rematar para o terceiro (ninguém, ninguém estava à entrada da área para a proteção). Só depois de estar tudo perdido é que o Peseiro se lembrou de fazer alguma coisa e alguma coisa foi tirar o Jovane Cabral e meter o Diaby, adiantar o Coates e passar ao chuveirinho. O Coates ainda reduziu, mas o ridículo ainda tinha mais ridículo para dar. Num chuveirinho que o Coates não ganhou, o terrível Nakajima recuperou a bola e lançou um colega que correu todo o meio-campo isolado até marcar o quarto golo, quando estavam três defesas do Sporting completamente desconcentrados e sem nenhum se lembrar de marcar o único jogador do Portimonense que por ali andava. 

Podia recordar o passado e concluir com o “é preciso dar tempo ao tempo”. Podia até concluir que não perdermos pontos para o Porto e só perdemos um ponto para o Braga e nada está perdido. Mas nós sabemos o que sabemos e não vale a pena ignorá-lo: o Peseiro é o Peseiro e será sempre o Peseiro. A continuar assim, na melhor das hipóteses, vamos disputar o quarto, quinto  e sexto lugares com o Rio Ave e o Guimarães. Se precisamos de, desde já, preparar a próxima época, é melhor entregar a equipa a quem sabe e quem sabe não é seguramente o Peseiro.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Peseiro sem pé-frio: uma teoria

O dia correu-me mal. Dormi pouco e mal. Acordei cansado. Fui cansado para o trabalho e com enorme dor de cabeça. Precisava de concluir um relatório importante que tinha de enviar até ao final desta semana, sem ninguém se ter lembrado que sexta-feira era feriado quando estabeleceu o prazo. A manhã correu depressa sem ter feito o que pensava. A tarde correu melhor, mas sem conseguir concluir o relatório. Às seis e cinco da tarde, veio-me à cabeça o jogo do Sporting contra o Vorskla Poltava e apeteceu-me definitivamente procrastinar. 

A balda tem regras. Se se disse que enviava o relatório era necessário convencer o destinatário que efetivamente não precisava dele. Telefona-se-lhe e levanta-se uma série de questões que para ficar em palpos de aranha. Estava pouco inspirado e o destinatário deu mais luta do que pensava. Só cedeu ao fim de cinquenta minutos com uma rajada de argumentos imbatível que o impediam de sair para o fim-de-semana antes da meia-noite, acabando por desistir. Ficou tudo adiado para a segunda-feira de manhã mas a primeira parte tinha ido à vida, embora ainda houvesse a segunda. Desci as escadas para comunicar ao chefe o combinado e descansá-lo. Estava à secretária a olhar para um berbicacho que tinha para (não) resolver. Como sou um género de diretor clínico de uma unidade de cuidados intensivos, os berbicachos são minha especialidade e, assim, uma conversa de dois minutos acabou por durar mais de meia hora. 

Subi as escadas enquanto consultava o “smartphone”. Estávamos a perder por um a zero. Quase desanimei. Sentei-me ao computador e procurei aceder à SIC. Levei com dois anúncios seguidos antes de conseguir vislumbrar a cor da relva. Ainda nem tinha percebido muito bem como é que associava os equipamentos às equipas quando o Jéfferson enfiou uma bica na bola para dentro da área que o Montero matou no peito, simulou o remate com o pé direito, tirou um adversário da frente e rematou-a com o pé esquerdo ao canto inferior da baliza, fazendo o golo do empate os noventa minutos. Os jogadores do Vorskla Poltava não se quiseram dar por satisfeitos e, na sequência de um livre, meteram-se todos dentro ou nas imediações da área do Sporting. A bica foi para o barulho, cabeçada para um lado, cabeçada para o outro, pontapé para o ar de um lado, pontapé para o ar do outro, sem ninguém se decidir quem levava o bacalhau. No meio daquela caos, a bola, farta deste tratos de polé, dirigiu-se por sua iniciativa a um jogador do Sporting, que a encaminhou com precisão para a corrida do Raphinha, que fintou para dentro um adversário e de imediato a meteu no Bruno Fernandes que, isolado, se atrapalhou com o guarda-redes, permitindo, no ressalto, o remate do Jovane Cabral para o dois a um. 

O jogo acabou. Invadiu-me uma sensação estranha e não era a de aleegria. Especialmente nas competições europeias, vi por várias vezes o Sporting deixar-se empatar ou perder nos últimos minutos. Não me lembrava de uma coisa daquelas. O meu amigo Júlio Pereira ligou e ouvi do outro lado o habitual “Então?!” depois dos jogos do Sporting. Respondi-lhe que só tinha tido tempo para ver os últimos cinco minutos e os dois golos e que não tinha percebido nada do que se tinha passado. Disse-me que com ele tinha acontecido o contrário: deixou de ver o jogo quando estava prestes a acabar e nos encontrávamos a perder e ao entrar no carro, para ir buscar o filho, estávamos a ganhar por dois a um. Percebemos de imediato o que se tinha passado. Aquela vitória não resultava de qualquer súbito aquecimento do pé do Peseiro. A coincidência de ter começado a ver o jogo exatamente quando ele deixou de o ver (a ordem é arbitrária) tem a mesma probabilidade de ocorrência de um encontro à noite com o Bosão de Higgs a passear o cão pela trela. Acabámos a conversa mais descansados: não havia razões para a normalidade sportinguista não seguir a sua vida.  

Estava explicado o resultado. Tudo se deveu ou ao paranormal ou a uma combinação có(s)mica idêntica à que originou o “Big Bang”. Não se iludam: até ver, o pé do Peseiro continua frio. Não se iludam com a coreografia que ensaiou ao deixar os melhores no banco para os meter depois, parecendo que sabe mexer no jogo e fazer substituições. A vitória deve-se a mim e ao meu amigo Júlio Pereira. Deve-se a nós por puro e simples acaso, mas que se deve, deve.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

É para verem o que custa a vida!...

Na jornada anterior, contra o Chaves, um defesa do Benfica foi expulso a poucos minutos da conclusão do jogo. Apesar do jogo estar praticamente concluído, o Chaves ainda conseguiu empatar e foi um “ai Jesus” de críticas ao árbitro. O Rui Vitória até falou de respeito pelas famílias dos jogadores e da dele próprio. O Luís Filipe Vieira veio afirmar também que o Benfica tem de jogar melhor que os seus adversários para os vencer, o que se trata de uma completa novidade e sinal dos tempos (esperemos). 

Ontem, o Rúben Dias fez na Liga dos Campeões o que costuma fazer sempre e foi expulso, contrariamente ao que acontece no campeonato nacional. A jogar contra dez, os pernetas dos gregos recuperaram da desvantagem de dois golos, chegando ao empate, sendo necessário um golo do Alfa Semedo para o Benfica ganhar o jogo. Ontem e hoje não se pára de falar de vitória épica como se estivéssemos a falar da Batalha de Aljubarrota. 

Os jogadores, a equipa técnica, os dirigentes e os sócios e adeptos do Benfica têm hoje uma melhor noção do que sentem os outros quando lhes acontece o que foi analisado aqui. É para verem o que custa a vida (a dos outros, pelo menos)!...

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Amuo com amuo se paga

Nani, o capitão de equipa, saiu amuado do jogo contra o Braga por ter sido substituído pelo Jovane Cabral, tendo vociferado uns tantos impropérios (que se imaginam dirigidos ao treinador). O Peseiro ficou amuado também com esta situação e não o convocou para este jogo contra o Marítimo. Até aqui, tudo bem: amuo com amuo se paga. Na prática, a teoria é outra ou, na teoria, a prática é outra (nem eu percebo exatamente o que estou a dizer). Se não tivéssemos ganhado, o amuo do Peseiro seria pior do que o amuo do Nani. Assim, como ganhámos, o amuo do Peseiro foi melhor do que o amuo do Nani. 

Depois da derrota em Braga só a vitória contra o Marítimo se admitia. Se não ganhássemos, não havia amuos que nos valessem. Não tenho dúvidas sobre o discurso do Peseiro no balneário: “Este jogo é para ganhar. Para isso reservei-vos uma agradável surpresa, vai jogar o Petrovic!”. Os gritos de contentamento devem ter sido mais do que muitos. Terão sido de tal forma que o Peseiro pediu calma para anunciar mais outra novidade. “Não me fico por aqui. É para ganhar e para ganhar é preciso não empatar ou, pior ainda, perder. Quando nos virmos a ganhar, entra o Misic!”. Deve ter sido o júbilo, os jogadores terão ficado ao rubro. 

Nos primeiros trinta minutos, a equipa demonstrou que tinha interiorizado esta convicção e com sentido de urgência (admito que estavam desejosos de ver jogar o Misic tanto como nós). A equipa estava empolgada e mais empolgada ficou quando o Petrovic fez uma roleta, passando entre vários adversários até encontrar uma brecha para atrasar a bola. Ficaram empolgados os colegas de equipa e mais ficaram os espectadores que desataram a aplaudir este Zidane dos Balcãs, para seu próprio espanto (digo eu). 

O empolgamento resultante desta jogada teve efeitos retroativos e deu origem a um golo logo aos dez minutos. O Jovane Cabral ganhou uma bola a meio do meio-campo e fez um passe em profundidade entre o central e o defesa do lado esquerdo para a desmarcação do Raphinha que, isolado, fintou o guarda-redes e foi derrubado por ele. Um senhor de bigode que estava há minha frente no café gritou logo: “Nem lhe tocou!”. O árbitro não ouviu o senhor de bigode e marcou o correspondente “penalty”. O Bruno Fernandes repetiu a paradinha do costume e deixou como de costume também o guarda-redes de cócoras inclinado para um lado e a ver a bola entrar pelo outro. O Bruno Fernandes está a fazer uma época abaixo de miserável e por isso ainda não conseguiu mais do que a bagatela de quatro golos marcados em seis jogos. 

O Marítimo não acusou o golpe e continuou como se nada fosse. Nós também não ou também assim-assim e, em particular, o Jovane Cabral continuou a jogar sozinho contra o resto do mundo. Numa dessas jogadas, fintou todos os adversários que lhe apareceram pela frente procurando ganhar ângulo para o remate. Não conseguiu encontrar a melhor situação para esse remate e foi andando até se encontrar perdido junto à linha lateral do lado direito e sem saber bem o que fazer à bola. Um jogador do Marítimo fez o favor de o abalroar. Na marcação do livre, o Raphinha meteu a bola tensa na área que, depois de uma carambola nuns tantos jogadores do Marítimo, acabou na bota direita do Montero e, a seguir, dentro da baliza. O senhor de bigode voltou a gritar: “Foi mão do Coates!”. Um outro senhor de bigode, que estava ao seu lado, procurou explicar-lhe que os jogadores equipados de vermelho eram os do Marítimo, demonstrando uma tese que que tenho vindo a aprofundar há tempos: a existência de qualquer excrescência capilar situada sobre o lábio superior não perturba por si só a visão a não ser que se trate de um adepto do Benfica. 

Sofrido o segundo golo, os jogadores do Marítimo procuraram sacudir a modorra que se tinha apoderado do hipotálamo e das pernas. Avançaram mais, trocaram mais a bola no nosso meio-campo e chegaram mesmo a criar uma oportunidade de golo, que não foi concretizada porque o Acuna resolveu armar-se em desmancha-prazeres. Na segunda parte, estranhamente, dedicaram-se a fazer jogo passivo sem que o árbitros nada assinalasse. Os jogadores do Sporting recuaram até próximo da sua área e foi um fartar de passes para o lado, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, umas vezes mais para a frente, outras mais para trás, sem nenhuma intenção de rematar à baliza do Salin. Quando um jogador do Marítimo franziu o sobrolho, ameaçando quebrar o armistício negociado ao intervalo, o Peseiro não esperou nem mais um segundo e substituiu o Jovane Cabral pelo Misic, cumprindo o prometido. 

Com a entrada do Misic, nenhum jogador do Marítimo se atreveu mais a franzir o sobrolho, tendo continuado o jogo passivo até ao fim (o árbitro foi misericordioso com quem estava a ver o jogo e só deu dois minutos de descontos). Os espectadores é que não estavam para aquilo e desataram a assobiar. Com o Jorge Jesus, baldávamo-nos durante uma hora e procurávamos ganhar na última meia hora de jogo com o Coates no ataque. Com o Peseiro, procuramos ganhar na primeira meia hora, baldando-nos na restante hora de jogo. Conclui-se, assim, que os adeptos do Sporting não se importam de chegar atrasados aos jogos, mas não estão dispostos a sair mais cedo. Compreendo-os muito bem. Sem querer parecer sexista, quando chego a casa mais cedo do que o previsto, também acabo pelo menos por ter de ir despejar o lixo e meter a louça na máquina de lavar.

domingo, 30 de setembro de 2018

Teorias

Ao contrário de Jorge Jesus, tenho várias ideias, outras tantas teorias e, por vezes, até alguns pensamentos que redundam em nadas. Um desses pensamentos que se desdobram em teorias é sobre o Nani. Bom, o Nani é como os eucaliptos (vamos exagerar): seca tudo à sua volta (ou quase). Ele não faz por mal, é um grande jogador, símbolo do nosso clube, importante na conjuntura actual (que não é fácil), mas não é um líder. Isso percebemos com a naturalidade da nossa insignificância. Nem sequer me refiro à sua saída, em braços imaginários, em Braga. O homem não gostou (lembram-se de Rochemback?) e o Peseiro lá teve que fazer aquilo que era o bom senso em termos de balneário: não o convocar para o jogo com o Marítimo. Com esforço, imaginamos.

Parte disto (lá estão as minhas teorias) explica a primeira parte de ontem com o Marítimo. O Fernandes soltou-se, deixou de pensar na vida, de ter um símbolo ali por perto, e começou a pautar o jogo nem que seja pela sua presença. O Peseiro é que tem que ver isso (eles podem jogar os dois, claramente), descobrindo a complementaridade entre ambos que beneficie a equipa, mas de forma a que coisa carbure. O Nani chama a si todas (ou quase) atenções; parte significativa das bolas, e até alguns adversários para receberem um autografo ou lhe darem uma pranchada. Temos que utilizar isso para a equipa, deixando o Fernandes na sua rotação assassina (desculpem, são influências da TV). O Marítimo tem bons jogadores mas só nos vai ganhar se um for jogo muito importante para nós e, sobretudo, para o Benfica. De resto, deixam jogar.

Foi o que se viu, uma primeira parte santa, podíamos ter marcado mais. Até o Montero fez o gosto ao pé de nós todos. Na segunda entramos em modo farsolas: quinze minutos e nada mais. O Marítimo à socapa contactou o nosso rival. Eles estavam chateados, nada de mais, a procissão ainda vai no adro. O resto foi peanuts, como diria JJ. Deu para o Peseiro inventar o Misic (ah, e ainda lá andava o Petrovic- que grande vitória a nossa), e fazer uma substituição aos noventa e três: entrou o Mané para os pôr em sentido. Todos nós ficamos. Claro.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Entreacto


Jorge Jesus, em mais uma conferência de imprensa imperdível, afirmou, agastado com o (suposto) anti-jogo adversário, que na Europa em noventa minutos, jogam-se cinquenta, mas que na Árábia Saudida se jogam apenas trinta minutos de tempo jogado, como se cinquenta fosse muito. Não é nada que não soubéssemos já. Mas temos que reflectir acerca da generalização europeia. Serão cinquenta minutos uma média europeia? Pois se assim for, não poderemos comparar Portugal a Inglaterra, e estaremos mais próximos (esperemos que apenas nisso, tendo em conta a sociedade progressista saudita) da Arábia saudita. Proponho deste já, apenas para dar o mote, a descida dos bilhetes para metade, toda a gente sabe que os clubes não vivem da bilhética (os estádios vazios são disso prova), matando-se assim vários coelhos com uma cajadada: o nosso tédio, mais gente nos estádios e menos gastos na carteira do entediado. Os trinta euros para os adeptos sportinguistas no jogo com o Braga são bem demonstrativos do que é realmente o anti-jogo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Se há bons e maus, nós somos dos bons

Há dias ouvi o Pedro Adão e Silva a falar sobre o Benfica e os diferentes processos em investigação pelo Ministério Público e, em particular, sobre aqueles em que existem arguidos constituídos e a acusação deduzida. Para ele, existem dois Benficas, à semelhança do BES. Há um Benfica moderno com uma estratégia desportiva e empresarial de sucesso. Esse Benfica vive paredes-meias com outro que vem do Norte, esse local geográfico de onde vêm todos os males que periodicamente assolam Lisboa, e dos tempos do Calor da Noite e do Canal Caveira. 

Para ele, as vitórias devem-se ao Benfica moderno (e lisboeta, digo eu), constituindo o outro Benfica (o do Norte, digo eu) um anacronismo porque os tempos também são outros. Concluiu que se enganam os benfiquistas que acreditam que a aposta nesse passado longínquo, em tempo e espaço, os levou ou os pode levar a qualquer lado. 

Compreende-se o argumento. Durante o Estado Novo, esse argumento era muito comum nas conversas em voz baixa nalguns locais: o regime não era intrinsecamente mau, o Presidente do Conselho era de uma probidade a toda a prova, o problema residia numas certas pessoas que gravitavam à sua volta e abusavam da confiança. É o “não há rapazes maus” do Padre Américo, podem é andar mal acompanhados (digo eu que não tenho certeza se o Padre Américo o disse mas que o pensou, pensou). 

Não tenho elementos para desmentir esta visão dual do Benfica do Pedro Adão e Silva e da supremacia do lado moderno na produção de resultados. O que conheço e procurei demonstrar estatisticamente aqui há alguns anos é a implausibilidade dos resultados se se procurar explicá-los pelo lado moderno. É mais fácil explicá-los pelo lado anacrónico, mas não tenho a pretensão de dispor da sabedoria do Pedro Adão e Silva em todos os domínios da vida pública.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

O “quatro em linha” de Peseiro

Este jogo era um teste importante para o Sporting de Peseiro. Não tenho dúvidas que seria assim que o Freitas Lobo iniciaria este texto se estivesse no meu lugar. Continuando assim a pensar pela cabeça dele, depois de um ror de vitórias e de um empate na Luz, deixámos de ser o patinho feito e passaram a levar-nos a sério. Um bom resultado seria um indicador importante sobre a necessária resiliência da equipa para se assumir como candidata ao título ou se, na melhor das hipóteses, não lhe restaria outra alternativa que não fosse a de se assumir como “outsider”. A partir do resultado, a cabeça dele produziria um emaranhado de congeminações técnico-táticas-psicológicas-anímicas que levaria a uma conclusão lapidar: se sim, sim, se não, não, mas talvez, talvez. Infelizmente não sou o Freitas Lobo e tenho de trabalhar a fazer qualquer coisa que se veja sem poder viver do bitaite. 

Sendo ele um especialista e eu um amador, volto à sua apreciação. Acho que ele também diria que as equipas se encaixaram taticamente. Cada uma das equipas condicionou a saída da bola da outra, passando-se a jogar à biqueirada para a frente. O jogo transformou-se num “solteiros contra casados”, ganhando um bacalhau (do miúdo, naturalmente) e um garrafão de vinho tinto (morangueiro, evidentemente) quem chutasse com mais força. Podia não ter sido assim, mas para que assim fosse, o Artur Soares Dias anulou-nos uma jogada de ataque prometedora, como agora se diz, por fora-de-jogo inexistente. Sem o VAR, as regras são para beneficiar o ataque. Com o VAR, ainda mais, devendo-se deixar decorrer a jogada até ao fim para se averiguar se houve ou não qualquer infração. As regras nunca se nos aplicam, é um azar que temos a juntar a tantos outros como o de termos o Peseiro a treinador. Voltando ao mesmo, o jogo teve momentos que nos fez lembrar algumas das partidas mais memoráveis de Vidal Pinheiro e do Salgueiros. 

Na segunda parte, o Sporting pareceu apostado no contragolpe. A tática é baseada no conhecido “deixa-os poisar” misturado com o não menos conhecido “apanhá-los com as calças na mão”. A ideia (de jogo, como diz o Jorge Jesus) não parecia má. Quando um jogo está para o chocho, é provável que ganhe quem tem jogadores mais virtuosos no ataque e nós tínhamos os três mosqueteiros e o D'Artagnan: Raphinha, Montero, Bruno Fernandes e Nani (a ordem é arbitrária). A tática esteve para dar resultado, mas o Bruno Fernandes rematou ao lado. Quando, por azar, essa tática não resulta acaba por perder quem tem o pé mais frio e nisso, com o Peseiro, somos imbatíveis.

O Braga andava num afã tonto a fingir que atacava quando ganhámos a bola e procurámos partir em desfilada para o contra-ataque. A bola chega ao Montero que procura fazer não sei o quê e acaba por a passar atrasada para a corrida do Ristovski – primeiro azar do Peseiro. O Braga recupera a bola e uma mosca morta que por ali andava (nas palavras sábias do Freitas Lobo, o homem andava por ali devido a um pensamento tático revolucionário do Abel) avança para a área pelo lado esquerdo do ataque. Hesita tanto e demora tanto, mas tanto, que permite ao Montero recuperar e fechar o lado de dentro, ficando o Coates com a cobertura do lado de fora, o que em condições normais permitiria matar o lance de ataque. A mosca morta conseguiu centrar sem saber bem como e a bola passou por debaixo do pé do Coates – segundo azar do Peseiro. Um avançado do Braga antecipa-se à defesa e remata meio enrolado para a baliza, só que estava um outro jogador do Braga a fazer de homem-estátua à frente do Salin, impedindo-o de ver a bola e de a defender – terceiro azar do Peseiro. Para cúmulo, o Ristovski tinha recuperado a sua posição defensiva, colocando em jogo, desta forma, o homem-estátua – quarto azar do Peseiro. O golo resultou assim de um “quatro em linha” do Peseiro. 

Depois, bem, depois o Peseiro fez o que pôde. Tirou o Nani e meteu o Jovane Cabral, ficando com dois extremos rápidos e com dezenas de metros de “sprint” nas pernas. Tirou o Montero e meteu o Castaignos como avançado mais fixo para o assalto final. Quem não tem cão, caça como um gato; o que não caça é com uma torre eólica “offshore” holandesa. Recomenda-se que para a próxima se meta um central e se adiante o Coates. Ainda demorou uma dezena de minutos para se decidir a partir o jogo, tirando o Gudelj e metendo o Diaby.

A equipa tentou e ia conseguindo. O Raphinha junto à meia-lua rematou a rasar o poste. Um pouco mais tarde, na sequência de um canto e de uma troca de bola com o Bruno Fernandes, enfiou um tiro que parecia ir direitinho ao ângulo mas ou porque a bola tocou ao de leve num jogador do Braga ou porque ganhou vida própria saiu milimetricamente ao lado. O Jovane Cabral ganhou uma bola a dois jogadores do Braga e foi desembestado para a área passando à vez por cada um dos três mecos que lhe apareceram pela frente até rematar mas sem conseguir desviar a bola suficientemente do guarda-redes que fez uma boa defesa. Ganhámos a primeira bola nuns tantos chuveirinhos mas não foi ter com nenhum dos nossos jogadores permitindo os alívios do Braga. 

Perdemos. Se fosse o Freitas Lobo, estaria a fazer prognósticos no fim do jogo, incensando o engenho tático do Abel e sublinhando a rematada estupidez do Peseiro. Mas ninguém me tira da cabeça que o resultado se explica pela biqueira da bota do Bruno Fernandes e pelo “quatro em linha” do Peseiro. Se fosse com outro clube, havia todas as razões para desanimar. Tratando-se do Sporting, não. Há sempre um exemplo que compara pior num passado mais ou menos recente. Quando fazemos mal, encontramos sempre outra situação que ainda fizemos pior. No ano passado, com o rei da tática, perdemos também e jogámos muito pior. Nessa altura, ficámos a oito pontos do primeiro e agora ficámos a três. É mau? É. Podia ser pior? Podia. A situação pode melhorar? Pode. O que fazer, então? Comprar uma pata de coelho ao Peseiro e pedir à SportTv para nos livrar do Freitas Lobo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O infinito infinitamente e mais além

Como sempre digo nestas alturas, as competições europeias e, especialmente, a Liga Europa não interessam nem ao Menino Jesus (sempre tive dúvidas sobre a graça desta alegoria e, com o despedimento do Jorge Jesus, ainda tenho mais dúvidas agora por nem sequer se compreender muito bem). Jogámos contra o Qarabag. Nunca tinha ouvido falar desta equipa. O nome é tão estranho que nem sequer consegui arranjar forma de meter um género de acento circunflexo às avessas por cima do guê. Visto de Portugal, imaginei que fosse de um país algures entre a Galáxia de Andrômeda e o infinito. Uma pesquisa no Google permitiu-me saber que se trata de um clube do Azerbaijão. O nome começou a não me parecer estranho até que percebi que, embora jogando em Baku, o clube se situa no enclave de Nagorno-Karabakh que vem sendo disputado pelo Azerbaijão e a Arménia. Também fiquei saber que, para a UEFA, pertence à Europa e não à Ásia. O Festival da Eurovisão e as competições europeias têm vindo a baralhar a geografia toda. 

Mas o futebol não se rege por latitudes e longitudes, como diria o Conde de Abranhos. O Qarabag não é clube de futebol qualquer. Na época anterior, disputou a fase de grupos de Liga dos Campeões. Integrando um grupo de tubarões europeus (Roma, Chelsea e Atlético de Madrid), fez dois pontos. Tendo como referência a participação na Liga dos Campões, verifica-se que somos melhor equipa em 250%. O desnível em relação ao Porto é maior: +400%. Quanto ao Benfica, a relação inverte-se e inverte-se de tal forma que chega ao infinito (diferença (%)=[(2-0)/0]x100). É uma equipa pior do que nossa, muito pior ainda do que a do Porto, mas infinitamente melhor do que a do Benfica (sem toupeiras e sem o Renato Sanches, diga-se em abono do Benfica). Se todos os cuidados são poucos contra o Benfica, ainda mais deviam ser contra o Qarabag. 

O Peseiro fez estas e outras contas e analisou o papel do Azerbaijão e, em particular, do Qarabag na geoestratégia mundial e foi consequente: retirou o Jéfferson da equipa e colocou no seu lugar o Acuna; medida que se veio a revelar adequada como se verá mais para a frente. O treinador do Qarabag não lhe ficou atrás e engendrou uma tática de autocarro que não deixava um metro quadrado de terreno livre nem no meio campo, nem, muito menos, na grande área. A defender, com uma linha defensiva de cinco jogadores, bem sincronizados nas subidas e descidas no terreno, muito junta à linha do meio campo, não deixava espaço para os jogadores do Sporting respirarem quanto mais para correrem. Quando porventura se pedia a bica para dentro da área, para se jogar em profundidade como agora se diz, preferimos a desmarcações do Montero para trás e para os lados em apoio aos médios, melhorando a nossa posse de bola e a forma como se torna mais fluída a sua circulação, mas esquecendo-nos de meter em sua substituição alguém na área adversária. 

Assim, na primeira parte, criámos um único lance de perigo depois de uma finta do lado esquerdo absolutamente estonteante do Mathieu (ainda hoje o defesa deve estar a procurar saber exatamente o que lhe aconteceu) e culminada com uma finalização de calcanhar do Montero. Noutras circunstâncias teríamos gritado: “Olé!”; e o Montero sairia em ombros com, pelos menos, uma orelha e um rabo. As circunstâncias não eram as mais adequadas e os jogadores saíram cabisbaixos para o intervalo com um empate. 

Não chegámos a perceber se se corria o risco da segunda parte reproduzir a primeira. Às páginas tantas, o Mathieu ganha a bola na defesa, sai com ela controlada, mete-a na frente no Bruno Fernandes (e não para o lado, como mandava o Jorge Jesus) que a recebe e se vira para a frente de forma ao segundo toque a colocar no Nani que a recebe também para a frente e ao segundo toque faz um passe (se fosse o Gelson Martins acabava tudo numa correria e num centro para a molhada) para o segundo poste onde apareceu o Raphinha a empurrar para o primeiro golo. Com seis toques apenas se percorreu uma distância de mais de sessenta metros, passando a bola por quatro jogadores e acabando dentro da baliza. É nestas alturas que nos lembramos do “com três letras apenas se escreve a palavra mãe, é das palavras pequenas a maior que o Mundo tem”. 

A partir desse golo o jogo descomplicou-se e passámos a criar sucessivas oportunidades. Os jogadores soltaram-se e passaram a estar exclusivamente focados no jogo e na bola, sem as dúvidas existências que o Jorge Jesus lhes suscitava como se estavam a fazer o que lhes tinham ordenado naquelas circunstâncias de tempo e lugar e de que forma o que faziam ou não faziam se enquadrava numa perspetiva ontológica. De vez em quando, havia um ou outro que resolvia isolar um adversário para rapidamente aparecer o Salin ou o Coates a safar a situação. Com a aproximação do final do jogo, qualquer sportinguista sabe que o pior está para acontecer e essa crença é reforçada quando está o Peseiro está no banco. 

Só que, num ataque pelo lado direito, um avançado procurou passar por dentro o Acuna que, de imediato, lhe ganhou a frente, fazendo-lhe uma projeção (um “ippon” mais precisamente), ficou com a bola e enfiou-lhe uma biqueirada para tão longe quanto as forças lhe permitiam. A bola foi batida com tanta força que chegou quase à bandeirola de canto do adversário, tendo um defesa acorrido para a recuperar e a proteger com o corpo para evitar a entrada do Montero. No entanto, o Montero, sem saber como, ganhou-lhe a frente e ficou com a bola. Quando se esperava que encanasse a perna à rã, aguardando pelo encosto e pela falta, resolveu fazer tudo errado e fê-lo de tal forma que deu tudo certo: com o calcanhar meteu uma cueca ao adversário, foi buscar a bola, passou-a de primeira para o Raphinha - que tinha acreditado naquela pantominice, vá-se lá saber porquê -, a receber, levantar a cabeça e colocá-la à hora certa e no sítio certo para o Jovane Cabral marcar um “penalty” em corrida. Assim se cumpriu a profecia que não se sabe se o é ou se o é porque se autorrealiza: o Jovane Cabral quando entra mexe sempre com o jogo e é decisivo. Como se costuma dizer no basquetebol americano, o Jovane Cabral está na naquela fase em que só se pede uma única coisa: “Não toquem no homem!”. 

Há muito tempo que não me divertia a ver um jogo do Sporting. Gritei quando marcámos ou quando estivemos quase a marcar. Mandei para um sítio que eu cá sei o Battaglia, o Coates e o Gudelj quando iam isolando os adversários. Insultei o Montero quando fez o que não devia para acabar a gritar que estávamos em presença de um génio que precisava de ser, mais do que reconhecido, canonizado em vida se fosse possível. No final estava feliz, pelo resultado e pela convicção que, por nós, o enclave de Nagorno-Karabakh era português. 

(O Renato Sanches marcou um golo. Pelo que percebi da leitura dos jornais, o Benfica terá empatado um a um com o Bayern de Munique. Parabéns ao Renato Sanches pelo golo marcado e parabéns ao Benfica por num só jogo ter superado o desempenho da época passada na Liga dos Campeões)

terça-feira, 18 de setembro de 2018

É isto, não é?

Os danos são irreparáveis e estão à vista de todos: a SAD do Benfica é acusada pelo Ministério Público pela prática de 30 crimes no processo e-toupeira. O Benfica promove o “fair play” e os mais elevados padrões de ética desportiva. Os seus dirigentes são exemplos de probidade, não sabendo nada nem de nada. Até agora é isto que os media nos vão informando todos os dias. 

Se bem percebo o que fui lendo e ouvindo nos media até ontem, então o funcionário judicial que se encontra em prisão preventiva acusado destes e doutros crimes no mesmo processo e-toupeira agiu por iniciativa própria para prejudicar o Benfica e os seus dirigentes, infligindo os danos que se conhecem. Se bem percebo o que fui lendo e ouvindo nos media ontem a propósito da cessação do contrato com o Benfica, é possível que o Paulo Gonçalves possa estar de alguma forma envolvido com esse funcionário judicial, causando em conjunto esses danos. Se bem percebo tudo isto, o Benfica vai processar o primeiro e, possivelmente, o segundo pelos danos causados. É isto, não é?

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Os “flippers” da vizinha são melhores do que os nossos

O Peseiro não facilitou. Insistiu na mesma equipa do jogo contra o Feirense com duas alterações: uma por lesão do Nani, jogando o Jovane, e outra por opção, tirando o Ristovski, que tinha jogado dois jogos em pouco tempo pela seleção, e metendo o Bruno Gaspar. Contra todas as expetativas, manteve o habitual duplo pivô: Battaglia e Acuna. Não é bem isso, é mais um par de “flippers”. Cada um tem a responsabilidade de acertar na bola quando ela anda pelo seu lado e procura marcar pontos tabelando com os obstáculos que estão à sua frente, que neste caso se designam “jogadores adversários”. 

Contrariamente ao que acontece no jogo de “flippers”, os obstáculos mexem-se e querem eles próprios fazer de “flippers” tentando acertar na bola também e tabelar nos obstáculos, que neste caso passam a ser os jogadores do Sporting. A existência de vários jogos de “flippers” num mesmo jogo em que os “flippers” e os obstáculos se revezam à vez, torna o jogo um pouco confuso. A solução passa ou pela bica para a frente, tentando que o jogo de “flippers” se jogue no meio campo do adversário, ou pelo recuo do Bruno Fernandes para se sair a jogar. Com o Jorge Jesus, o Bruno Fernandes jogou praticamente em todas as posições. Com o Peseiro deu-se um passo em frente e espera-se que o Bruno Fernandes jogue em todas as posições ao mesmo tempo, faltando jogadores na frente porque ainda não lhe é possível, por agora (com o treino lá chegará), estar em todo o lado e ir passando a bola a si próprio até encontrar uma brecha para rematar.

Esta leitura do jogo permite compreender melhor a sagacidade do Peseiro. Aposta mais nos "flippers” adversários do que nos seus. Sempre que pode, a equipa pressiona alto e impede a saída confortável do adversário. A pressão parece um pouco atabalhoada, mas há sempre um “flipper” adversário tonto que tenta fazer o que mecanicamente não é possível, entregando-nos a bola em zona perigosa. Foi assim que nasceu o primeiro golo, com o Jovane a recuperar uma bola junto à área adversária e a passá-la de imediato ao Montero que, após a pausa do costume para processamento das coordenadas dos colegas e adversários no seu GPS, desmarcou o Raphinha que rematou para o um a zero. Para além do golo e de um cabeceamento do Coates ao lado, a primeira parte teve pouco mais. 

A segunda parte não se iniciou com melhores augúrios. Só que, em dado momento, o Jovane entrou desembestado na área a contornar os obstáculos que se lhe depararam até um deles fazer de “flipper” antes do tempo e acabar por o derrubar. O Mota que vê tudo – ainda nos lembramos dele a ver um falta de Slimani que ninguém viu e a anular-nos um golo e a impedir-nos a vitória e a manutenção da distância para o Benfica na época 2013/14 quando liderávamos o campeonato - viu o “penalty” e marcou-o. O Bruno Fernandes com a paradinha habitual fez o dois a zero. O jogo parecia arrumado, mas nos “flippers” nunca se sabe. O Acuna de olhos fechados procurou atrasar uma bola para a defesa e acabou a passá-la a um adversário, originando o dois a um. O passe surpreendeu não só a defesa como o realizador da SportTv, que só conseguiu filmar o jogador do Marítimo isolado a marcar o golo. 

Duas circunstâncias impediram que o final do jogo se transformasse no “ai Jesus” do costume. Depois de marcar um golo, o Bruno Fernandes libertou-se de angústias e entrou no seu normal que constitui a “twilight zone” para qualquer mortal. A bica para a frente promovida pelo Peseiro tem muito que se lhe diga. A do Jesus pressupunha que o Bas Dost ganhasse a primeira bola, perdendo-se sempre a segunda porque os colegas não percebiam a ideia de jogo do treinador com o “up and under kick”. O recurso ao rugby com o Peseiro é mais eficaz. Sem o Bas Dost na frente, não se espera ganhar a primeira bola, avançando a equipa em bloco para ganhar a segunda. Numa destas jogadas, o Bruno Fernandes ficou com a bola de frente para a baliza, tabelou com o Montero, fez uma revienga a um adversário e meteu-a pelo buraco da agulha para o três a um. Depois deu para tudo. Deu para se estrearem o Wendel, o Gudelj e o Diaby e para um defesa do Marítimo ter sido acusado e condenado por homicídio na forma tentada. 

Com o Jorge Jesus, o nosso futebol era um aborrecimento, mas era porque era para ser assim. Não se esperava que melhorasse. Nem nós, adeptos, o esperávamos, nem os jogadores. A esperança é a última a morrer mas estava, há muito, morta e enterrada. Jogava-se mal porque os conceitos de mau e de bom do treinador não eram idênticos aos nossos. Bom é com o treinador. Mau é com os jogadores. Como não são os treinadores a andar aos pontapés na bola, só víamos o mau sem compreendermos o bom que estava por detrás dele e na cabeça (ou na ideia de jogo) do criador. 

Com o Peseiro existe aborrecimento mas também existe esperança. Ainda acreditamos que o aborrecimento é por acaso. Falta tempo, isto é, treino e entrosamento dos jogadores, que chegaram às pinguinhas. Em cada jogo, esperamos sempre melhorias e estas têm aparecido, poucas mas suficientes para não se perder a esperança. É um “learning by doing” permanente. Com o Raphinha hoje, o Gudelj amanhã e o Sturaro um dia destes é possível voltar a ver a nossa equipa a jogar bom futebol. A ganhar já vemos. 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

É giro!

Não acompanhei com atenção devida a campanha eleitoral. Não ouvi ou li sequer uma única entrevista ou um único debate. Acompanhei a campanha pelas chamadas “gordas” dos jornais. Com tão pouco conhecimento do que se passava, achei por bem não efetuar grandes análises enquanto decorria a campanha. Neste momento, penso que posso dizer alguma coisa, dado que os órgãos sociais estão eleitos e daqui nada resulta ou pode resultar.

Embora nas redes sociais se tenha continuado a alimentar as teorias da conspiração e o entrincheiramento entre “croquetes” e “brunetes”, na campanha nado disto foi tema de discussão e cada candidato contraditou os outros e defendeu os seus pontos de vista sem desqualificar os adversários e o debate público. Com exceção do Pedro Madeira Rodrigues, com os (maus) resultados que se conhecem, ninguém se lembrou de prometer o que não pode e arranjar uma catrefada de cromos (jogadores e treinadores). Esta atitude coletiva revelou sentido de responsabilidade perante a atual situação económica e financeira do Sporting.

Rapidamente a corrida ficou reduzida a três contendores com reais hipóteses de vitória: Ricciardi, Benedito e Varandas. Destes mais rapidamente ainda se passou para dois: Benedito e Varandas. O Ricciardi só tinha para oferecer os seus conhecimentos na banca de investimento e, por isso, insistiu numa campanha monotemática sobre a situação patrimonial e financeira, entregando o futebol ao José Eduardo, esse grande ex-apoiante do Bruno de Carvalho e defensor do croquete sem qualquer sentido metafórico. Ando há demasiados anos a ensinar que a situação patrimonial e financeira mais tarde ou mais cedo reflecte sempre a viabilidade do modelo de negócios de qualquer organização. No Sporting, a médio e longo prazo, não se consegue a sustentabilidade financeira sem vitórias, títulos, bom futebol e mobilização dos adeptos, não sendo separáveis os Ricciardis, para um lado, e os Josés Eduardos, para o outro.

Não gosto muito de futsal, é um género de andebol mas com menos jogadores e jogado com os pés. Mesmo assim, vi muitos jogos do Sporting e assisti a muitas vitórias e a conquistas de títulos com o Benedito a capitão. Nunca gostei de jogadores baixotes. O Benedito é baixote mas parecia de borracha, chegando a bolas impossíveis; e, sobretudo, tinha uma alma que não acabava, vivendo cada jogo como se fosse o último da sua vida e festejando todos os títulos com os adeptos como se fosse, e é, um de nós. Tudo isto, associado ao percurso académico e profissional que seguiu, bem como à equipa que constituiu, dava garantias de ser um bom presidente.

Agora parece mais conveniente dizê-lo, mas o meu candidato sempre foi o Varandas. O Varandas era o médico da equipa principal de futebol. Imagino que não ganhasse pouco, exercendo, ainda por cima, a profissão que é a dele e que ele gosta de exercer, como se verificou nas suas intervenções em campanha. Podia ter tentando passar pelos pingos da chuva sem se molhar, continuando a exercer a sua (bem remunerada) profissão. Deixou acabar a época para se demitir, cumprindo até ao último dia as suas funções, disponibilizando-se imediatamente  para ser candidato, quando o Bruno de Carvalho ainda tinha poder e todos os que se lhe opunham andavam a fazer contas de cabeça. Foi corajoso e deu esperança a quem não se revia em Bruno de Carvalho e isso não era pouco nessa altura, quando simplesmente se especulava sobre uma suposta destituição sem qualquer alternativa no horizonte.

Dito isto e acabada a história, importa pensar o futuro com o Varandas a presidente. Ontem, cheguei ao trabalho e perguntei às minhas colegas o que pensavam do Varandas a presidente do Sporting. A resposta foi unânime: “É giro!” Um pouco despeitado, procurei aprofundar a análise. “Está bem, mas o que pensam dele a presidente do Sporting”. A resposta foi novamente unânime: “É o mais giro presidente do Sporting e o presidente mais giro de todos os clubes portugueses”. Não insisti e procurei não me ver ao espelho durante o dia. Hoje, voltando a pensar no assunto, percebi melhor o que elas me disseram. Não sabemos se o Varandas vai ser um bom presidente e tão bom ou melhor do que os seus antecessores ou os dos clubes rivais. Mas sabemos com certeza que é o mais giro e, para início, isso não é pouco. As minhas colegas estiveram, hoje, muito mais disponíveis para falar comigo, mesmo sobre futebol, melhorando imenso o ambiente de trabalho.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

How Democracies Die

O apuramento dos resultados das eleições do Sporting coincidiu com a leitura de “Como as Democracias Morrem”, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Demorando seis horas para anunciar os resultados finais, o trapalhão do Marta Soares conseguiu que lesse o livro todo antes de ficar a saber que Frederico Varandas era o novo presidente do Sporting. Há males que vêm por bem.

A sobrevivência das democracias não depende exclusivamente da existência de constituição que as defenda nem de eleições livres. Depende de muitas regras, mais tácitas do que explícitas. As mais importantes são a da autolimitação de quem exerce o poder e a do respeito pelo adversário, nunca em nenhum momento, por muito que se discorde, deverá ser considerado nem insinuado como ilegítimo.

O Sporting não vive em nenhum sistema presidencial nem parlamentar. Apurados os resultados, as candidaturas e os seus protagonistas deixam de representar quem quer que seja e os diferentes órgão sociais eleitos passam a representar todos os sportinguistas. Os sportinguistas a partir desse momento passam a representar-se a si próprios nas Assembleias Gerais. O que visa as eleições é assegurar a livre escolha de órgão sociais do clube que garantam a prossecução dos seus objetivos e a perenidade da organização.

Desse ponto de vista, mal acaba o ato eleitoral, deixa de haver vencedores e vencidos. Há órgãos sociais eleitos e que passam a exercer funções e nada mais, em benefício do Sporting e dos seus associados, representando-os a todos. O João Benedito e o Frederico Varandas estiveram muito bem nas declarações finais. O João Benedito reconhecendo o Frederico Varandas como seu presidente. O Frederico Varandas reconhecendo, com humildade, que, pela sua relevância como atleta do clube, o João Benedito tem um lugar inapagável na história do Sporting.

Há só um ponto que vi esgrimido no final das eleições e que vem da deriva autocrática do passado e daquela que há no pior de cada um de nós. Depois de eleito pelas regras vigentes, Frederico Varandas é o legítimo presidente do Sporting. O facto de ter menos eleitores não diminui em nada a sua legitimidade. As regras, tácitas e explícitas, não se colocam em causa, sob o risco de se colocar em causa o modo de vida democrático. Espero que se tenha aprendido com a experiência e se deixe de brincar aos estatutos e regulamentos, com alterações sob chantagem e sem se cuidar das regras de convivência que estabelecemos e nos permitiram chegar até aqui após mais de cem anos de existência.

sábado, 8 de setembro de 2018

Para todos os gostos

Hoje é um importante dia de Sporting. Estamos perante um acto eleitoral, vai-se tornando um hábito, mas bastante diferente do habitual. Praticamente ninguém se recandidata. De resto um pouco de tudo.

Temos candidaturas que fazem do futebol a sua bandeira, candidaturas que apostam nas modalidades. Temos candidaturas mais próximas de modelos empresariais, de clube-empresa, outras que nem querem ouvir falar disso. Temos candidatos que conhecemos desde sempre, outros que nunca tínhamos ouvido falar. Candidatos do Sporting de Lisboa, outros do Sporting do país. Candidatos que apostaram tudo numa boa empresa de comunicação, outros que nem à televisão foram. Candidatos que o foram e desistiram, candidatos que queriam ser e não o são. Há para todos os gostos, e isso é positivo. Vamos ter o Sporting que a maioria dos sócios quiserem. Podemos escolher e não há nada de errado nisso.

Também temos opinion makers que acham que ter muitos candidatos é mau. Mesmo apesar de alguns deles terem feito parte de Governos que conseguiram maiorias parlamentares com uns 40% dos votos, acham que o Presidente do Sporting precisa de ter um resultado quase Venezuelano para ter legitimidade. Não podia discordar mais. O último Presidente teve 90% e deu no que deu...

Posto isto vamos votar e esperar os resultados. Hoje o Sporting só pode sair a ganhar!

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Copiões

Ontem, fiquei num hotel em Lisboa a passar a noite. No quarto, comecei por preparar a reunião de trabalho de hoje que tinha justificado a minha deslocação. Acabada essa tarefa, fiquei sentado na cama com o comando da televisão na mão a desfilar os canais, tentando ultrapassar o habitual tédio deste momento (o mais deprimente de quem está habituado a viajar em trabalho). Independentemente dos canais, o tema era sempre o mesmo: Benfica, Benfica e mais Benfica.

Com o BdC, todos os canais se transformaram na SportingTv. Sentíamo-nos sempre em casa. Agora, todos os canais se transformaram na BenficaTv. Não nos sentimos em casa, mas o processo mediático é o mesmo. De repente, temos especialistas de bola a falar sem se rirem de Código Penal e Código Processo Penal; temos juristas a falar disso, mas, sobretudo, de bola e de cabalas sem se rirem também. Na SportingTv os temas e os intervenientes eram os mesmos. Os benfiquistas não suportam o sucesso dos outros e desataram a copiar-nos: copiões, é o que eles são.

Como tinha dito aqui e aqui, os administradores da SAD do Benfica começaram por considerar que o facto de não saberem implicava a não existência. Agora, passaram a considerar simplesmente que o facto de não saberem (só eles, Deus e o Ministério Público é que sabem se sabem ou não) não os responsabiliza. Aparentemente, há quem alinhe nesta nova metafísica da linguagem que não é nova, se nos lembrarmos das declarações dos administradores da PT e do BES na Comissão de Inquérito da Assembleia da República.

Numa organização que se preze, o desconhecimento dos seus administradores de atos e factos potencialmente graves responsabiliza-os por isso mesmo: por não saberem. É suposto que saibam e, sobretudo, que não ignorem. É para isso que lhes pagam salários simpáticos. Neste caso, a situação agrava-se. Podiam não saber dos factos, mas sabiam da gravidade das suspeitas e nenhuma diligência interna efetuaram entretanto para os apurar ou, pelo menos, não o demonstraram.

Numa organização que se preze, existindo suspeitas, o funcionário é suspenso de funções e é aberto respetivo processo de inquérito para apuramento de atos, factos e, potenciais, responsabilidades, podendo acabar em procedimento disciplinar. Estas diligências efetuam-se, antes de mais, para defesa da organização e do próprio funcionário. O que os administradores da SAD do Benfica deviam estar a informar os acionistas, os sócios do clube e os adeptos em geral era dessas diligências e respetivas conclusões; e não a fazer juras de desconhecimento e de “licitude”.

Numa organização que se preze, administradores que assim não procedessem iam para o olho da rua pelo seu próprio pé ou empurrados quando viessem com juras e não com atos e conclusões. Esta responsabilidade pode não ter contornos criminais (os tribunais é que servem para isso), mas não deixa de ser responsabilidade e de ter responsáveis (embora esta responsabilidade seja de natureza diferente da anterior, embora potencialmente complementar em função da gravidade dos atos e factos apurados internamente e consequente comunicação ao Ministério Público).

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O interlúdio de Sousa Cintra e da Comissão de Gestão

Depois de todos os incidentes que, podemos dizer, se iniciaram com o jogo entre o Atlético de Madrid e se concluíram com a destituição de BdC, o Sporting estava escaqueirado (este é o termo exato). Os sócios e adeptos estavam divididos, não havia direção, nem treinador (ou havia um que ganhava um balúrdio sem nada no currículo que o justificasse) e os principais jogadores tinham rescindido alegando justa causa sem que houvesse dinheiro para contratar outros de igual valia. É neste contexto, caótico, que é designada a Comissão de Gestão, assumindo Sousa Cintra a liderança da SAD.

Ninguém, no seu juízo perfeito, esperava milagres ou, dizendo melhor, esperava um único milagre: que se realizassem com a normalidade possível as eleições e, até lá, que o Sporting desportivamente não desaparecesse. Esperava-se que a Comissão de Gestão ganhasse tempo precioso para que Sporting pudesse voltar à normalidade.

A Comissão de Gestão cometeu seguramente erros, mas cumpriu o essencial e o essencial não era fácil. Contratou um dos poucos treinadores experientes que se encontravam disponíveis para pegar a prazo numa equipa que ainda nem se sabia que equipa era. Assegurou o regresso do Bruno Fernandes, do Bas Dost e do Battaglia. Negociou e vendeu o William Carvalho para o Bétis de Sevilha. Contratou os jogadores que pôde dentro das preferências do treinador e das disponibilidades financeiras. A equipa tem feito o que pode e à quarta jornada o Sporting está na frente do campeonato, depois de ter defrontado o Benfica na Luz.

Podemos analisar as decisões tomadas pela Comissão de Gestão e pelo Sousa Cintra e se se encontram reunidas (ou não) as condições necessárias para o Sporting dispor de uma equipa de futebol competitiva. Mas, como sempre costumo dizer, antes das explicações vêm os resultados. A primeira avaliação é se os resultados esperados foram concretizados. Esperava-se que ganhassem o tempo necessário para que uma nova direção pudesse tomar legitimamente posse, depois de ser escolhida pelos sócios do Sporting, sem entretanto se comprometer o futuro mais do que estava.

Pode-se sempre afirmar que podiam ter feito mais e melhor, mas uma coisa é certa: o Sporting tem um treinador, uma equipa com bons jogadores e está em primeiro lugar do campeonato. Naqueles que eram os resultados essenciais, a Comissão de Gestão e o Sousa Cintra cumpriram e o Sporting conseguiu a normalidade possível. Para o bem ou para o mal, o passado é da responsabilidade da anterior direção e o futuro será da direção que vai ser eleita no próximo dia 8.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Salvos pelo Castaignos ou pelo Princípio da Incerteza de Heisenberg

Caros amigos (esta resulta da influência das crónicas do Nelson Rodrigues que ando a ler), no sábado, finalmente pude ver um jogo do Sporting do primeiro ao último minuto no Flávio. Na mesa e na cadeira do costume, à distância certa da televisão. Com os sportinguistas de sempre, cinco, contando comigo e com o dono do café, e contra todos os benfiquistas que ocupam o resto da sala e não se calam um segundo. No meu “habitat”, consegui ver o jogo como gosto de ver para vos puder relatar como deve ser.

O Peseiro escala uma equipa como qualquer um de nós o faria. Há um guarda-redes, quatro defesas, os mais altos jogam a centrais, e um ponta-de-lança, sendo os restantes distribuídos pelo campo de forma mais ou menos equilibrada espacialmente, três mais ou menos no meio, uns mais à frente e outros mais atrás, e dois mais ou menos nas laterais. Este equilíbrio territorial, que se baseia numa certa simetria longitudinal na disposição dos jogadores, é um bom princípio de jogo. É um bom princípio, mas o jogo tem mais que o princípio e, mesmo com todas as perdas de tempo dos jogadores do Feirense, sob o olhar complacente do árbitro, é necessário assegurar que tenha um bom meio e um bom fim, isto tudo durante noventa minutos.

Este bom princípio rendeu logo uma excelente jogada de ataque. O Bruno Fernandes desmarcou-se entre o central e o lateral do lado esquerdo, centrou atrasado, o Nani rematou de primeira contra as pernas de um defesa, a bola ressaltou para o lado onde apareceu o Acuna a fechar os olhos e a acertar com a bola numa perna do guarda-redes. Depois, bem, depois foram acontecendo coisas. Não sei descrever as coisas que foram acontecendo a não ser como coisas que são. O Battaglia pegava na bola e corria do meio para o lado direito até esbarrar em alguém e voltar para trás e passar a bola. O Acuna fazia o oposto, pegando na bola e correndo do meio para o lado esquerdo até esbarrar em alguém também e passar a bola. O desespero vai-se apoderando de um e de outro até que um dos centrais resolve iniciar a jogada de ataque, normalmente o Coates, enfiando um biqueirada para a frente ou passando a bola junto à linha para um dos laterais. O Nani e o Bruno Fernandes bem tentavam desmarcar-se para dentro ou para fora, mas a bola não lhes chegava, não lhes servindo de nada esbracejar. O Montero esforçava-se no famoso jogo entre linhas mas sem que a bola chegasse por uma vez para tabelar com um médio ou com um extremo.

Os jogadores do Feirense também não faziam nada que se visse. Demoraram a adaptar-se à nossa pressão alta um pouco caótica, não conseguindo sair com bola e limitando-se a umas biqueiradas que os centrais e o Battaglia inevitavelmente resolviam. Havia isto tudo e o Jéfferson que é um caso à parte. É irrelevante que à sua ferente esteja um jogador de carne e osso, um soldadinho de chumbo ou um jerrican, quando procura centrar a bola acerta sempre no adversário que está à sua frente.

No início da segunda parte, tudo piorou, se ainda era possível. Os jogadores do Feirense deixaram de se atrapalhar com a suposta pressão alta e passaram a dominar o jogo a toda a sela. Não criaram grande perigo porque não sabem mais e a nossa defesa também não dá abébias (o André Pinto está a revelar-se). Só que, simplesmente, deixámos de chegar à área contrária. Como é quase impossível marcar qualquer golo sem se chegar lá, o Peseiro fez o que costuma fazer e que é a única tática disponível neste momento: meteu o Jovane Cabral e tirou o Jéfferson. O acerto foi total, na entrada e na saída.

A jogar com onze e o Jovane Cabral a correr como se não houvesse amanhã, por contágio, os restantes jogadores desataram a correr também. O jogo ficou partido que é como o Battagalia mais gosta de jogar, mais de metade do relvado e meia equipa adversária ficam por sua conta. Os jogadores do Feirense deixaram de ter descanso e montamos-lhe definitivamente o cerco, passando à fase do tiro ao boneco com o Salin a encarnar no Caio Secco, guarda-redes do Feirense, e a parar todos os remates. Estava-se neste impasse quando o Peseiro, na sua cabeça, assumiu que só com um jogador que tivesse com a bola uma relação baseada no Princípio da Incerteza de Heisenberg é que seria possível ganhar o jogo. O Castaignos é o jogador que, no Mundo, mais dificuldades tem em determinar simultaneamente a posição e a velocidade da bola, às quais adiciona a tradicional dificuldade de escolha da extremidade do corpo mais adequada para a jogar.

A sua entrada foi decisiva. Bola metida em profundidade à procura da velocidade e da desmarcação do Raphinha, o defesa esquerdo corta de cabeça para o meio onde, à entrada da área, o Castaignos a recupera e a passa ao Raphinha definitivamente. O Raphinha domina-a e levanta a cabeça, percebendo que não tem a quem a passar, faz pedalada e meia e passa por fora o defesa e ganha a linha, toca de calcanhar para trás e simula que vai centrar, acabando por fazer uma cueca no defesa que apanha o Ristovski desmarcado e em grande aceleração. O Ristovski junto à linha de fundo não vai de modas e centra rasteiro de primeira para a entrada da pequena área onde aparecia o Castaignos a atrapalhar um defesa, a bola passa por ele e o Jovane Cabral ao segundo poste antecipa-se a um adversário e em esforço mete-a lá dentro. Chegados a este ponto percebe-se melhor a entrada do Castaignos: foi a sua incapacidade em determinar simultaneamente a posição e a velocidade da bola que permitiu, por um lado, atrapalhar os defesas e, por outro, a entrada convicta do Jovane Cabral. Esta incapacidade é reconhecida pelo próprio, como se viu na forma como deixou a bola para trás e entrou a toda a brida pela baliza dentro, não estorvando, assim, a possibilidade de finalização do seu colega.

O Jorge Jesus, supostamente, tinha uma ideia de jogo e era apegado a ela. A ideia era estúpida, como se viu pelos resultados, mas uma ideia é sempre uma ideia, quando, na cabeça, para além dela só se dispõe de um risco ao meio. Quanto ao Peseiro não se sabe se tem uma ideia de jogo, mas, se tem, não parece muito apegada a ela, porque nunca percebemos muito bem o que se está a passar em campo. A ideia de jogo é capaz de ser a ideia que cada jogador tem de si próprio e dos seus colegas. É uma ideia que se vai construindo ao longo do jogo. Pouco a pouco, os jogadores esperam entender-se, trocando ideias. É um “brainstorm” permanente. No final, com uma ideia, sem ideia nenhuma ou com tantas ideias quantas as cabeças, o resultado é o mesmo: uma hora de avanço concedida ao adversário e meia hora com o credo na boca. Sendo o resultado o mesmo e o ordenado infinitamente mais reduzido, podemos concluir, como qualquer economista, que estamos muito mais eficientes: o custo por golo marcado e por ponto conquistado reduziu-se e muito.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Continuação dos prolegómenos sobre a metafísica (do) benfiquista

Esta minha incursão pela metafísica suscitou mais interesse do que esperava. Não sei se foi da (pseudo) filosofia ou do Benfica. Porventura, terá sido da entremeada. Mas nem só de comunicados da SAD vive a filosofia (do) benfiquista. Há mais declarações que implicam análise rigorosa.

Quando perguntado sobre as claques do Benfica, Luís Filipe Vieira respondeu: “Nunca sube que o Benfica tinha claques”. A conjugação da primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo saber com pronúncia açoreana não é para aqui chamada. O que é para aqui chamada é a relação entre saber ou conhecimento e existência. Há quem afirme que o que existe define os limites do que se sabe. Luís Filipe Vieira afirma o contrário, o que se sabe define os limites do que existe, isto é, o que não se sabe não existe. No entanto, uma questão subsiste: e quando se insiste em não saber? Bernardo Soares diz-nos que não saber é não existir. Neste caso, quem insiste em não saber, existe, está-se é a fazer de morto.

Na conferência de imprensa após o jogo do Benfica contra o Sporting, Rui Vitória afirmou: “Foi uma arbitragem descontrolada”. Este qualificativo da arbitragem não se define por si próprio, define-se por oposição ao seu antónimo. Neste caso, não se põe o dilema do “ovo e da galinha”, foi a galinha (a arbitragem controlada) que apareceu primeiro. Quem sabe o que é uma arbitragem descontrolada, “mutatis mutantis”, sabe o que é uma arbitragem controlada. Voltando à metafísica benfiquista, o saber é o princípio da existência: se se sabe o que é uma arbitragem controlada então é porque tal tipo de arbitragem existe. Os “vouchers” e os emails indiciavam que tal existisse, embora o Benfica se tenha recusado a aceitá-lo. Desse ponto de vista, a afirmação do Rui Vitória é revolucionária, não chega à conclusão pelos factos mas pela filosofia.

Depois da SAD do Benfica ser constituída arguida no caso e-Toupeira, na televisão, André Ventura afirmou: “Isto não tem a ver com corrupção desportiva, tem a ver com corrupção dita comum: a corrupção definida no Código Penal”. A relação vai para além do saber e da existência, envolvendo a linguagem. Há quem afirme que a linguagem e o conhecimento são uma e a mesma coisa, só se sabendo o que se consegue formalizar de algum modo. É a linguagem que define os limites do que se sabe. Se perguntassem a André Ventura o seguinte: “Senhor doutor, o que pensa de corrupção que envolva a magistratura do Ministério Público?”. A resposta seria lapidar: “É comum”. Os significados de comum são: vulgar, frequente, habitual, que não tem grande significado ou valor. Neste caso, é a linguagem que (de)limita a existência ao (de)limitar o que se sabe. Em conclusão, nada disto é potencialmente grave, é comum, vulgar, frequente, habitual e não tem grande significado ou valor.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Eu (não) sei, tu (não) sabes, ele (não) sabe, nós (não) sabemos, vós (não) sabeis, eles (não) sabem

A SAD do Benfica foi constituída arguida no processo e-Toupeira. O Conselho de Administração da SAD efetuou uma nota de imprensa para exprimir o seu desacordo relativamente a esta decisão judicial. Este texto dispõe de todos os requisitos metafísicos para se transformar no equivalente pós-moderno do socrático “só sei que nada sei”. O texto merece uma leitura atenta tal a densidade analítica. Destaca-se uma afirmação: “Nenhum membro do Conselho de Administração da SAD do SLB sabe o que o Dr. Paulo Gonçalves sabe ou não sabe”.

Quando alguém afirma que não sabe o que o outro sabe ou não sabe está admitir não saber e saber ao mesmo tempo, um paradoxo que precisa de adequado esclarecimento filosófico. O que o outro não sabe não se define por si próprio, define-se por oposição ao que sabe, isto é, constitui um resíduo ou a diferença entre tudo o que potencialmente pode saber e aquilo que sabe efetivamente. Não saber o que o outro não sabe é, assim, saber o que o outro sabe. Por maioria de razões, não é possível não saber o que o outro sabe sem admitir pelo menos que ele sabe o que sabe. 

Numa leitura mais apressada, poder-se-ia admitir que se está em presença de desculpas, verdadeiras ou falsas. No entanto, para esse efeito, deveria ter sido utilizada outro tempo verbal: “Nenhum membro do Conselho de Administração da SAD do SLB sabia”. Parece mais correta, tanto mais que membros desse Conselho de Administração foram inquiridos antes da SAD ser constituída arguida. Admitir que “não se sabia” pressupõe que se passou a saber, pelo menos. Mas a utilização do presente do indicativo em vez do pretérito imperfeito revela o alcance da mensagem. Não se pretende esclarecer, pretende-se criar um oxímoro que nos leva a Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa): “Saber é matar [...]. Não saber, porém, é não existir”.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Aos amigos favores, aos inimigos a lei

No jogo contra o Moreirense, três jogadores do Sporting protestaram três decisões do árbitro e foram sancionados com três amarelos. Nada a dizer: lei é lei. Contra o Benfica, a equipa do Sporting procurou perder tempo e o árbitro compensou com seis minutos de descontos. Nesses descontos, voltou a perder tempo e o árbitro compensou com mais cinco minutos. Nada a dizer: lei é lei.

Fica-se a aguardar que num só jogo três jogadores do Porto ou do Benfica sejam sancionados com os correspondentes amarelos por protestarem decisões do árbitro. Fica-se a aguardar que qualquer uma destas equipas tenha o jogo prolongado por mais onze minutos por perder tempo.

sábado, 25 de agosto de 2018

As bandarilhas de Peseiro

Se bem percebi o que fui lendo esta semana, este jogo era um pró-forma. O Benfica tinha o jogo ganho, só não se sabia por quantos, e os sportinguistas estavam conformados. Quando soube a meio da tarde que o Mathieu não jogava e imaginei um lado esquerdo da defesa com o André Pinto e o Jéfferson, eu próprio não fiquei muito otimista.

O Peseiro surpreende pela simplicidade, sobretudo pela simplicidade como aprende. Contra o Moreirense, tentou jogar com o Battaglia e um estorvo ao lado e não resultou. Contra o Setúbal, tentou jogar com o Battaglia e outro estorvo ao lado e não resultou também. Hoje, jogou sem nenhum estorvo e resultou. Sem um estorvo, pode entrar um jogador que saiba jogar à bola. Jogou o Raphinha, para sorte nossa e dele e para azar do Grimaldo e do Benfica. A colocação do Raphinha do lado direito e a insistência em jogar por esse lado mesmo nos pontapés de baliza, condicionou a construção de jogo do Benfica, que vive de correrias pelas laterais.

O Benfica passou a contar com três arruaceiros para construir jogo: Rúben Dias, Jardel e Fejsa. Com eles e, por vezes, com o André Almeida, que nem o treinador nem a direção confiam, mas lança mau olhado a qualquer contratação para a sua posição. Com o Battaglia e o Acuna a controlarem o Pizzi, restava ao Benfica apostar todas as fichas no nosso Jéfferson. Apostou no Rafa e apostar no Rafa é o mesmo que apostar no Jéfferson mas ao contrário. O Benfica ficou limitado às bolas paradas e aos ressaltos. Nós, ficámos limitados à sorte e às abébias dos sarrafeiros da defesa adversária, dado que o nosso plano era o de evitar que o Benfica pudesse dispor do seu.

O jogo ficou ensarilhado e ensarilhado continuou durante noventa minutos. Em dois cantos os jogadores do Benfica esforçaram-se por acertar no Salin, que para os não humilhar resolveu fazer uns voos encarpados com meia pirueta. Num lançamento de linha lateral, a bola ressaltou no cocuruto da cabeça de um jogador do Sporting e permitiu uma rosca ao Cervi para grande defesa do Salin. Ao contrário, o Acuna rematou ao lado e o Montero antecipou-se ao Ruben Dias mas não conseguiu desviar a bola para a baliza.

A segunda parte prometia mais do mesmo. Só que do Rúben Dias é um jogador perigoso em todos os sentidos, para as canelas e outras componentes anatómicas que estejam abaixo do pescoço dos jogadores adversários, para a sua própria equipa sempre que árbitro não tenha sido devidamente ordenado. Centro atrasado, em “slow motion” Montero simula que se vai fazer à bola pelas costas do defesa, muda de trajetória e ganha-lhe a frente e o Rúben Dias com a raiva do engano procura arrancar-lhe os ligamentos dos tornozelos e uma rótula. Penalty e Nani a fazer um a zero. O Rui Vitória desatou a fazer substituições que só resultaram porque, por um lado, o Luís Godinho recuperou mais bolas do que o Gedson, e, por outro, o Peseiro enlouqueceu, fazendo entrar um dos estorvos e esperando que desta vez tivesse um resultado diferente.

Empatámos, mas é difícil o Benfica voltar a sofrer semelhante humilhação: acabar por não ganhar um jogo contra uma equipa onde jogaram o Castaignos, o Jéfferson e o Petrovic. O Peseiro enfiou estas três bandarilhas, se não contarmos com a do Salin. Enfiou, por fim, a bandarilha que está enfiada desde o primeiro dia: por um vigésimo do salário qualquer treinador português consegue fazer pelo menos o mesmo do que o Jorge Jesus (poupando-se, ainda, na bazófia).

domingo, 19 de agosto de 2018

A lei de Peseiro


A equipa não entrou condicionada, mas quase. Não fosse o Nani inventar um daqueles lances cujo epitáfio se resume a (supostamente) inofensivo, e o jogo ainda demoraria a criar uma ideia que tivesse um pernil do passado recente. Não basta ter uma ideia, é preciso acreditar nela. Ainda bem que não acreditámos. E se é para correr mal, corre(rá) de qualquer maneira. Como aconteceu, aliás, logo a seguir. Depois podíamos ter marcado. Ou não. O adversário acreditou que não. E continuou na sua toada de quem remoí um sentimento a reboque de mais um erro adversário.

No intervalo saiu o Bas Dost. O Dost e o Fernandes nem tinham entrado. Os últimos acontecimentos da novela dão-lhes uma resma de ideias de rescisão suficientes para tirarem um curso de direito por linhas tortas. O Peseiro intuiu.  Eu também. No nosso campeonato basta colocar alguém com vontade de jogar e jeito para a coisa. O orçamento e a cor da camisola podem ser letais em determinadas circunstâncias. Com os árbitros e demais entidades sobrenaturais não podemos contar. Entrou o Jovane. Eles sabiam. O Peseiro sabia que eles sabiam. Nós não. Estávamos nervosos. Com o Jovane as coisas tornam-se mais rápidas e imprevisíveis. O Nani sabe disso. O Nani andou por esse mundo fora onde se joga à bola a sério. Em Portugal a bola tem muitos nomes e alguns apelidos. Nani facilmente será um deles.

De resto imperou a lei de Peseiro: Nunca voltes a um sítio onde foste infeliz (o que não está provado).