Este era o jogo de época para o Sporting, afirmavam os jornalistas e comentadores em todo o lado. Para o Benfica era um jogo a feijões, depreendia-se desses comentários e dessas análises. Os títulos são mais do que muitos esta época e mais um menos um não fazia grande diferença. Há títulos todos os dias e em todos os jornais: a tática de Bruno Lage, a maior descoberta depois da prensa de Gutenberg, ou o menino Félix, um fenómeno que só tem paralelo num melro branco e num ovo de oitocentos gramas encontrados no Entroncamento, e milhões, muitos milhões de euros. A maioria dos portugueses sabe que não se consegue ultrapassar mil euros por mês quanto mais tantos e tantos milhões de euros em noventa minutos.
O Keizer percebeu desde o início que não era possível ultrapassar tantos milhões de euros e preocupou-se em, pelo menos, não se deixar ultrapassar por eles, repetindo a tática que tão bons resultados tinha dado no último jogo contra o Braga. Com bola, a equipa jogou com três defesas – Coates, Mathieu e Borja -, permitindo que o meio-campo jogasse mais adiantado e sem referência na saída para o ataque e obrigando o Bruno Gaspar a atacar e a recuperar para fazer de defesa direito quando o Benfica atacava. Do lado esquerdo, o Acuña não tinha a responsabilidade de recuar da mesma forma, jogando como médio e extremo esquerdo. Com três defesas para dois avançados – Seferović e João Félix – e o meio-campo mais avançado, o Sporting pôde pressionar mais alto e sem sofrer calafrios nas transições ofensivas do adversário. Esta tática surpreendeu o Benfica nos primeiros vinte, vinte e cinco minutos, que, com os médios e defesas pressionados, não conseguia organizar o seu jogo e, em particular, os seus jogadores não dispunham nem de espaço nem de tempo para colocar a bola na frente, no Seferović, para construírem a partir daí. O Sporting carregou mas foi inconsequente, em especial quando o Gabriel enfiou uma biqueirada no calcanhar do Raphinha e nos deixou numa situação de três contra dois com a bola a ser conduzida pelo Bruno Fernandes na zona central, o que costuma ser meio golo.
Dadas as dificuldades do Benfica em jogar, o árbitro diligentemente começou a ensarilhar o jogo. Uma falta aqui, outra acolá, um encosto que é falta para logo a seguir outro o não ser, um cartão amarelo agora e outro passado algum tempo à equipa contrária para compensar. Nos últimos minutos da primeira parte deixou-se de jogar futebol para se assistir a uma sinfonia desafinada de apitos e aos “moches” entre jogadores e o árbitro, com o Bruno Lage a assoprar ao ouvido do quarto árbitro. Para atingir o mais alto nível de disparate na escala de Mota, o árbitro resolveu mostrar um amarelo ao Gudlej num lance que nem falta foi.
Na segunda parte, o Benfica pareceu entrar melhor, mas há Bruno Fernandes e quando há Bruno Fernandes não há mal que sempre dure. Arrancada pelo meio-campo fora até ser derrubado à entrada da área por uma entrada de carrinho por trás do Pizzi. A contragosto foi marcado o livre, embora o amarelo tenha ficado no bolso porque a falta não foi do Ristovski. Um livre daqueles na biqueira das botas do Bruno Fernandes é um “penalty”. O seu remate transformou a bola num Tomahawk que embateu na barra, com o Svilar a atirar-se para fazer que fazia alguma coisa. O Sporting ganhou moral e continuou a carregar. Sai o Bruno Gaspar e entra o Ilori, começando-se a antecipar uma defesa a três para o quarto de hora final, que se concretiza minutos depois com a saída do Borja e a entrada do Diaby. O jogo estava encanzinado e, nestas circunstâncias, só se resolve se o melhor jogador em campo o resolver. O melhor jogador em campo era o Bruno Fernandes e, portanto, só o Sporting podia ganhar aquele jogo.
Quando se deslocava para o meio, o Bruno Fernandes estava sempre rodeado de dois ou três jogadores do Benfica. Até que, depois de uma pressão alta, a bola sobrou para o lado direito para o Bruno Fernandes que ficou com a possibilidade de jogar um contra um contra o Grimaldo. O um contra um do Bruno Fernandes transforma-se sempre num um contra zero, com o Grimaldo a procurar tapar-lhe o lado de fora, o do seu pé dominante, o direito. O Bruno Fernandes fez-lhe a vontade e passou-o por dentro, enfiando de seguida com o pé esquerdo um novo Tomahawk ao ângulo superior esquerdo da baliza, com o Svilar a atirar-se para fazer que fazia alguma coisa, sem que desta vez a trave o ajudasse. O Benfica reagiu de imediato e meteu o Taarabt, um rapaz que mal se mexia e que, depois de tocado por Bruno Lage, levantou-se e andou, enquanto o treinador continuou as suas tarefas de multiplicar os pães e os peixes, de curar leprosos e abrir estradas em macadame pelo meio dos mares. Enquanto o Taarabt organizava o jogo do Benfica, o Raphinha o Luiz Phellype e o Diaby ainda tiveram tempo para se atrapalharem mutuamente em duas jogadas, perdendo-se dois golos.
Afinal, o jogo não era o jogo da época para o Sporting mas para o Benfica, tal a azia que se apoderou dos seus jogadores, treinador e presidente. Os jogadores desataram a correr atrás do árbitro, o Bruno Lage informou-nos que não se divertiu nada (pudera, ninguém se diverte quando perde), o Luís Filipe Vieira veio falar das arbitragens até ao final do campeonato, afirmando ao mesmo tempo que não estava a falar delas. Os comentários finais foram para nos desqualificar. O Benfica teve mais oportunidades de golo (?) e valeu-nos Bruno Fernandes. Espero que não se importem que joguemos com ele, dado que lhe pagamos o salário ao fim do mês. O Sporting é o Sporting de Bruno Fernandes, como o Ajax era o Ajax de Johan Cruijff, o Nápoles era o Nápoles de Maradona, o Real Madrid era o Real Madrid de Cristiano Ronaldo ou o Barcelona era (e ainda é) o Barcelona de Messi. Os génios são raros por definição. Quem os tem, não os desperdiça e coloca a equipa a jogar em função deles. O que não se compreende é que sendo o João Félix um génio, como todos afirmam, o Benfica não seja o Benfica de João Félix, prescindindo dele para entrar o Jonas com o jogo e a eliminatória por resolver.