quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A herança não se explica, meu caro


Recentemente, a páginas tantas, uma nova colega de trabalho que vive em Guimarães falava do seu Vitória. Quando a conversa rumou (em sociedade é assim que termina) para a família, partilhou que o seu filho, a ovelha (segundo ela) maluca da família, era, afinal, do … Sporting. Nado e criado em Guimarães, com 17 anos, o rapaz era adeptos fervoroso (pasme-se) do Sporting, clube que nunca tinha visto campeão. Em futebol, bem entendido, que o rapaz acompanha as outras modalidades, sabe-se lá porquê. A admiração roçou-nos por pouco tempo. Afinal estávamos ali alguns malucos com mais histórias. E pouco titulados. Em futebol sénior, bem entendido.

O trabalho de casa, vulgo TPC (embora eu sempre o pense como TdC) é fundamental para uma boa classificação final. Faz parte do treino, entre outras coisas. Ir às aulas é fundamental. Mas é preciso estar atento. Tirar apontamentos. Ler os livros. Enfim, até copiar. Mas copiar bem. Aprender é um prazer, mesmo com um fardo às costas.

Uma herança, ainda que lamentável, não se explica. Quer dizer, fala-se disso em casa. Em família. De tanto vermos o mesmo filme, começámos a acreditar que tudo aquilo faz parte do cenário de um Western (Spaguetti) rodado na Andaluzia. E por isso verdadeiro, como qualquer outro cenário bem construído. E facilmente o identificámos pela banda sonora: Spooooorting.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

This shit is a joke

Há imagens que valem por mil palavras. Há imagens com (poucas) palavras que se tornam num compêndio, um género de compêndio de economia do Samuelson para o futebol português, como o fez o Estaleiro de Obras. O vídeo é absolutamente esclarecedor sobre a forma como decorre um jogo do Sporting, a sua arbitragem e os comentários na televisão. 

O Sporting enquanto clube e as suas direções cometem erros. Mas erros todos cometem, uns mais e outro menos, e por muito que custe a alguns, não foram esses erros que determinaram anos e anos sem ganhar campeonatos, antes do Inácio e depois do Bölöni, porque nunca estivemos em circunstâncias de os disputar sequer. Ontem o Figo, o Balakov, o Cristiano Ronaldo, hoje o Bruno Fernandes, todos eles aprendem rapidamente uma coisa: nunca ganharão o que quer que seja no Sporting. Estes jogadores jogam enquanto acreditarem em moinhos de vento. Dons Quixotes como nós podem-se dar ao luxo de acreditar, porque a nossa vida não depende disso. Para um jogador profissional, para o Sancho Pança, moinhos de vento são só moinhos de vento.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Crónica de um guarda-redes hipocondríaco

Minuto noventa, lançamento lateral a favor do Marítimo e a bola não há meio de aparecer, até aparecer no sítio errado, dentro do campo junto à linha de fundo. O guarda-redes do Marítimo desloca-se paquidermicamente para a ir recolher ao mesmo tempo que o Coates, que o empurra para que o jogo se desenrole sem mais delongas. O guarda-redes, empurrado, atira-se para o chão a espernear como se lhe tivessem arrancado o baço numa intervenção cirúrgica sem anestesia. O Coates leva o segundo amarelo e é expulso, a primeira vez ao longo de muitos anos a jogar na Europa e a segunda vez em toda a carreira. Entra a equipa médica para prestar assistência ao guarda-redes. Procura-se perceber pelas imagens exatamente de que se queixa o paciente e, de repente, percebe-se quando lhe aplicam um “spray” analgésico no cotovelo, é exatamente nesse local que tem um dói-dói. Se fossem todos como ele, não havia enfermeiros que quisessem trabalhar no SNS ou hospitais privados que pretendessem prestar cuidados de saúde convencionados com a ADSE. 

A seguir, os jogadores do Marítimo preparam-se para marcar o livre. O árbitro explica-lhes que não é livre mas lançamento lateral. A duras penas, o lançamento lateral é efetuado e gera-se mais uma confusão. Os jogadores pegam-se e monta-se o sururu do costume. De repente, percebe-se pelas imagens que o Marcel Keizer é expulso, pela primeira vez na sua carreira, o equivalente à expulsão do Schumpeter por discutir com Marx o fim histórico do capitalismo e a inevitabilidade do ou de um socialismo. Há dias tivemos um macedónio expulso por impropérios, desta vez a fava coube a um holandês que, estranhamente, não se exprime grande coisa em inglês. Vem-me à memória o Isidoro Rodrigues, um árbitro bigodudo dos tempos gloriosos do Apito Dourado, a expulsar Mirko Jozic por ter traduzido para a segunda e não para terceira pessoa do singular do presente indicativo uma exclamação em espanhol. 

Na minha cabeça tudo começa a fazer sentido: está-se em presença de uma competição organizada pela “World Wrestling Entertainment (WWE)”. Parece luta livre mas não é. Parece que os atletas arreiam uns nos outros mas não: quem bate, finge que bate, e quem leva, finge que leva. Os árbitros participam na encenação que pode envolver os mais diversos participantes, vindos do público ou dos balneários, enquanto os holofotes acompanham a sua marcha decidida para o ringue. Só é pena que, em Portugal, não entrem mulheres e os atletas não se apresentem vestidos de forma apropriada (e espalhafatosa), com fatos de banho em licra, embora o público aplauda na mesma e os comentadores também façam de conta que é tudo a sério. 

Quando se encena um jogo é muito difícil falar dele como se fosse a sério. A maior parte do tempo foi dedicado à prestação de cuidados de saúde ao guarda-redes e a assistir às suas reposições de bola em jogo. O homem faz uma defesa e lesiona-se. O homem vê uma mancha de gordura na camisola e confunde-a com um cancro de pele. Dói-lhe a cabeça e pensa que está engripado. Compreendo-o. Sou assim, como todos os homens, aliás. Somos hipocondríacos, é uma verdade. Como todos os homens, também dispõe de uma parte do cérebro que não pensa em nada. Somos dados a aparentes contemplações quando nada se está a passar na nossa cabeça. À inevitável pergunta: “o que é que estás a pensar?”, segue-se a mais inevitável das respostas, “em nada”, e as mulheres nunca acreditam. Era exatamente nesse estado que o guarda-redes se encontrava sempre que marcava um pontapé de baliza ou fazia qualquer outra reposição da bola em jogo com as mãos ou os pés. Nada se estava a passar na sua cabeça e a mulher não andava por perto para lhe fazer a pergunta da ordem, acordá-lo do torpor e mandá-lo pôr a mesa. 

O jogo foi uma encenação e a equipa do Sporting representou a propósito. Deu os habituais quarenta e cinco minutos de avanço. Entrou na segunda parte determinada. Criou oportunidades para ganhar quatro jogos. Mas uma peça é uma peça e não se pode fugir às deixas. Todos representaram bem o papel que lhes estava atribuído. O Marcel Keizer insistiu no Gudelj. O Acuña manteve o ar furioso. O Bruno Fernandes esteve em todo o lado ao mesmo tempo, rematou cruzou e assistiu. O Bas Dost andou pela área e esteve quase, quase a marcar. O Doumbia carregou a equipa com o Wendell. O Diaby recebeu mal as bolas, tropeçou nelas e virou-se sempre para o lado errado. O Raphinha serpenteou os defesas como se fossem mecos. O Coates subiu à área para as “moches” do costume. O Ristovski foi voluntarioso nas subidas e levou uma porrada, desta vez num pé e não na testa. O que é que se pode pedir mais? Se querem ver um jogo de futebol, não vão ao estádio, vão à ópera, como diz o Sérgio Conceição.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Fa(c)tos, a(c)tos a a(c)tas

Ontem, não vi, não li e não ouvi praticamente nada sobre o jogo contra o Villarreal. Liberto dos factos, qualquer pessoa se sente mais livre para falar do que quer que seja. Colegas mais jovens de trabalho, costumam-me pedir para os ajudar a escrever atas de reuniões dos mais diversos órgãos e instâncias. Chegam-me com horas e horas de gravações transcritas em páginas e páginas. Em Portugal, é comum existirem ordens de trabalho vagas sem documentação distribuída para deliberação, acrescentando-se o facto de ninguém procurar conduzir as reuniões e evitar intervenções excessivas e sem propósito. Reconheço que, com o avançar da idade, fui ficando mais e mais paternalista e, com frequência, ajudo-os. É um exercício muito divertido procurar dar sentido às intervenções de pessoas que não sabem o que dizem e dizem-no sem concordâncias verbais e nominais. Depois das atas prontas, invariavelmente as pessoas se reveem no que (não) disseram e sentem-se mesmo orgulhosas do que (não) disseram. Este é o exercício que me proponho fazer. 

Onze contra onze, ganha o Bruno Fernandes, é uma das morais deste jogo. É extraordinária a sua sagacidade, percebendo que o defesa ia dominar mal a bola ainda antes de ela lhe ser passada, seguida de uma demonstração de convicção e autoconfiança, correndo meio-campo com a bola e rematando sem qualquer hipótese de defesa ainda antes de entrar na área isolado. Na segunda parte, os jogadores do Sporting revelaram um enorme sentido das conveniências. Pressentido que era possível passar a eliminatória e que na seguinte se podia suceder uma catástrofe, suicidaram-se coletivamente. Não o podendo fazer coletivamente ao mesmo tempo, essa missão foi iniciada por aquele que quando joga é como se não jogasse, o Jéfferson.

Se onze contra onze ganha o Bruno Fernandes, dez contra onze ganham o árbitro e o Gudelj, porque os do Villarrreal não atinavam, é outra das morais deste jogo. É absolutamente extraordinário o comportamento defensivo no golo adversário, com o Ristovski a parar o avanço de um jogador do Villarreal enquanto espera ajuda pelo lado de dentro que nunca aparece, porque o Gudelj vem a passo a recuar e sem saber o que fazer muito bem. Para que se consumasse o suicídio coletivo, no último minuto, o Bas Dost falhou o segundo golo à boca da baliza. Este falhanço tem atenuantes. A desmarcação acontece no momento do passe do Bruno Fernandes, antecipando a trajetória da bola que depois lhe aparece à frente de repente, não lhe dando tempo para preparar o remate (que, porventura, devia ter sido de cabeça e não com o pé esquerdo, o seu pior pé). 

A minha opinião sobre as competições europeias é conhecida de há muito e não mudou. Serve para o “graveto” e pouco mais. Também serve para os treinadores dizerem que ainda se encontram em todas as frentes antes de deixarem de estar, como desculpa para o cansaço dos jogadores. Os grandes clubes europeus e os seus adeptos se querem circo romano devem procurar cristãos noutros locais. Dito isto e continuando com os mesmos objetivos de início da época nas competições internas (coisa que os nossos adversário não o podem dizer), sou capaz de fazer a ata do discurso final do Marcel Keizer no balneário depois da eliminação. Várias vezes estive tentado a colocar nas atas que referi discursos recheados de citações, mas até o abandalhamento administrativo tem limites. No futebol não tem e, por isso, segue a ata do discurso final. 

Marcel Keizer entra no balneário e olha nos olhos cada um dos seus jogadores, fulminando-os. Os jogadores ficam sem se conseguirem mexer, petrificados. O silêncio é de chumbo e não de ouro. Marcel Keizer desloca-se para o meio do balneário e começa a falar: 

“You ask, what is our policy? I say it is to wage war by land, sea, and air. War with all our might and with all the strength God has given us, and to wage war against a monstrous tyranny never surpassed in the dark and lamentable catalogue of human crime. That is our policy. You ask, what is our aim? I can answer in one word. It is victory. Victory at all costs - Victory in spite of all terrors - Victory, however long and hard the road may be, for without victory there is no survival”. 

O discurso foi em crescendo. Ao constrangimento inicial dos jogadores, seguiu-se o correspondente nó na garganta. Sentiam sem saber o que sentiam. As palavras, uma a seguir à outra, feriam a consciência de si próprios e o coração, que ganhava vida própria e acelerava, provocando pressão insuportável sobre as têmporas. O discurso acabou mas as últimas palavras continuavam vivas no meio do balneário, “ Vitória – vitória a todo o custo, vitória a despeito de todo o terror, vitória por mais longo e difícil que possa ser o caminho que a ela nos conduz; porque sem a vitória não sobreviveremos”. De repente, um juntou-se a outro ao qual se juntou mais outro até ficarem todos menos um: o Jéfferson. O que se passou a seguir e o destino final do Jéfferson não devem ser contados.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O(s) pícaro(s) sem filtro

Li o “Sem filtro”, do Bruno de Carvalho (deve ser a este tipo de leituras que se chama responsabilidade social de um “blogger” do Sporting). O livro não passa de umas tantas transcrições mal-amanhadas de outras tantas gravações. A parte que interessa, interessa pouco. É um disco riscado. Ninguém é o que pensa. É as escolhas que faz: a vida não deixa de ser uma somatório de escolhas. Bruno de Carvalho fez escolhas, de pessoas, de amigos, de inimigos e de táticas. Acabou por se derrotar pelas escolhas que fez. A moral da história, verdadeira ou falsa, de nada interessa se não se aprende o que se é a partir das escolhas feitas em consciência. Não vale a pena dizer que as escolhas foram erradas se não se tiver consciência desses erros e de que esses erros têm consequências. Na vida, ou se aprende com os erros ou está-se sempre a recomeçar, uma e outra vez, cumprindo o Mito de Sísifo. 

A parte que menos interessa, interessa mais. Não por ter algo que não saibamos, mas por reproduzir por quem esteve por dentro o que qualquer um de nós só vislumbra de fora. Há o jogo, o que interessa, e há tudo o que o envolve, recheado de personagens pícaras, ao jeito da Crónica dos Bons Malandros, do Mário Zambujal. As fragilidades do Jorge Jesus, prisioneiro da sua visão de si mesmo e da sua egomania; o Octávio Machado, sem funções atribuídas, que sobrevive porque se espera que saiba o que diz que nós sabemos que ele sabe; o consultor motivacional que foi à sua vida e era o “Lexotan” do treinador e da equipa; o Teo que, independentemente do valor do contrato, queria que lhe pagassem umas contas, nem que fossem da água e da luz; os jogadores, os seus pais e agentes, e seus representantes (?), constituindo umas Matrioscas que vão saído dentro umas das outras, procurando cada uma delas ganhar o seu; a mulher que não casou com o homem mas com o presidente e o homem foi o último a saber quando deixou de ser presidente; a banca, os bancários e os banqueiros, as empresas e as suas administrações e os políticos, todos, envolvidos em negócios em nome do interesse público e do altruísmo, que cada um reivindica para si em quantidades maiores do que os outros. Aparentemente, tudo gira em torno de Bruno de Carvalho, como se a Terra precisasse do seu umbigo para o movimento de rotação e a noite se suceder ao dia e o dia à noite, que se define menos pelo que diz de si próprio mas pelo que não diz ou diz dos outros.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Ajustar as velas em função do vento

“É preciso ajustar as velas em função do vento”, disse o Abel Silva, treinador do Braga, no final do jogo de ontem. As alegorias nem sempre se percebem. Nem sempre são alegorias sequer, recordando o “Bem-vindo Mister Chance” e a interpretação de Peter Sellers. O sentido metafórico apela mais ao recetor do que ao emissor. Poderá querer dizer que os treinadores, os bons, precisam do vento para navegar. O problema é que nem sempre se sabe de que lado sopra o vento antes de se começar a jogar e o vento muda de direção e sentido durante o jogo. O bom treinador talvez seja aquele que saiba jogar contra o vento, que seja capaz de navegar à bolina. O bom treinador não é, nem pode ser um cata-vento. É esta necessidade de antecipar de que lado sopra o vento que me vem preocupando no Marcel Keizer. A equipa vai sendo ajustada tacitamente de jogo para jogo, em função do adversário e daquilo que dele se espera. 

Ontem, contra o Braga, aconteceu mais uma vez. Em posse de bola, a equipa jogava com três jogadores recuados: Coates, Ilori e Borja, com os dois últimos a jogar pelo lado de fora, em cobertura às laterais. Não se pode dizer que a equipa jogou com três centrais, porque se é verdade que o Ristovski recuava quando se defendia para a sua posição de lateral, não acontecia exatamente o mesmo com o Acuña. Na primeira parte, a linha defensiva era formada por quatro jogadores, passando por vezes para cinco, na segunda parte, por força da colocação do Wilson Eduardo e da necessidade de o Acuña fechar mais o lado esquerdo da defesa. Esta tática permitiu à defesa jogar mais confortável contra os dois avançados do Braga e não sinalizar à partida o jogador pelo qual passaria predominantemente a construção de jogo. O Gudelj não precisou de jogar tão recuado como de costume, competindo a esses três jogadores a saída da bola, ou pelas laterais ou pela zona central. Com o Ristovski mais projetado na lateral, o Diaby podia partir do lado direito para o meio, encostando ao Bas Dost e apoiando-o, de forma alternada com o Bruno Fernandes. 

O Braga nunca atinou com esta forma de jogar. A imprevisibilidade da saída de bola deixou o Wendell sistematicamente liberto do lado esquerdo para conduzir o jogo ofensivo, onde o Esgaio não sabia se devia encostar ao Borja, marcar o Acuña ou jogar mais por dentro para impedir que o Wendell recebesse a bola e ganhasse superioridade numérica. Do outro lado, o defesa esquerdo nem sempre percebia se devia acompanhar as movimentações do Diaby ou tapar as investidas do Ristovki. As táticas ajudam os jogadores a ganhar jogos mas são sempre os jogadores que os ganham. Livre à entrada da área bastante descaído para o lado direito do ataque e circunstância ideal para se assistir a um momento Balakov às avessas, também designado momento Bruno Fernandes. O guarda-redes pressentiu o que iria acontecer e meteu cinco jogadores na barreira, ao qual se juntou um sexto quando o Ristovski lhe tentou tapar a visão do lado de dentro, com pelo menos um deles a tapar um metro para além do poste, convidando assim o Acuña a rematar. O Bruno Fernandes é que não estava para brincadeiras e meteu a bola por onde não parecia possível que ela entrasse, fazendo-a descrever uma parábola, passando por cima da barreira e caindo em seguida praticamente junto ao ângulo inferior direito da baliza. 

O Abel Silva percebeu o problema que tinha do lado direito da defesa e fez a substituição que se impunha no início da segunda parte. No entanto, só tarde de mais é que percebeu que tinha problema idêntico do outro lado da defesa também. O Diaby recebeu uma bola do lado direito, tropeçou nela e num adversário, tropeçou nela outra vez e noutro adversário e, quando se isolava, dois adversários tropeçaram nele esquecendo-se de tropeçar na bola ao mesmo tempo. “Penalty” e Bas Dost a avançar para a bola enquanto olhava para o guarda-redes, rematando para o lado contrário onde este se lançou. Lançamento de linha lateral do lado direito, Bruno Fernandes a receber a bola e a demonstrar ao Diaby que existem formas esteticamente mais consentâneas com o estatuto de jogador de futebol de nela tropeçar e nos adversários, dando-lhe um ligeiro toque de calcanhar (?) para a frente, tirando o defesa do caminho e metendo de primeira para o Bas Dost encostar, perante a incredulidade dos defesas quanto à forma como tudo aconteceu. 

A perder por três a zero, os jogadores do Braga resolveram dar um festival de mau perder, perante um árbitro que achava que a cor dos cartões só combinava com as das camisolas do Sporting, nada que não se esperasse, sobretudo depois da forma como acabou a primeira parte connosco a atacar e vários jogadores dentro da área à espera de um passe. A marcação das faltas também seguiu um padrão hilariante, especialmente quando o defesa esquerdo se decidia espraiar-se no relvado sempre que sentia nas costas o bafo do Acuña. Com o jogo a concluir-se, o árbitro deu-o como perdido e a contragosto foi mostrando um ou outro amarelo aos do Braga que, assim, conseguiram concluí-lo com onze jogadores. 

Várias dúvidas e perplexidades nos deixa este jogo. Esta tática é para continuar? Serviu contra o Braga e serve contra outros adversários, em particular quando são mais modestos? Hipotecam-se tantos jogadores na construção do ataque quando os adversários jogarem com um só avançado, equilibrarem o meio-campo e recuarem mais? A equipa do Sporting dispõe de um portfólio de táticas que treina e ao qual pode recorrer nos jogos ou estas táticas são coladas com cuspe nos treinos que lhes antecedem? Uma certeza existe: o Marcel Keizer não é um Peseiro qualquer e sabe o que faz. O que não sabemos é se é o medo de perder que o move ou a vontade de ganhar. Talvez valha a pena mostrar-lhe a ele e aos jogadores o último “time out” do Nuno Dias no jogo de futsal contra o Benfica, perguntando aos seus jogadores se queriam virar o resultado da primeira volta. Quando se esperava que a equipa procurasse neutralizar melhor o 5x4 do adversário, foi ela própria que lhe impôs esse 5x4, enfiando-lhe mais dois golos num minuto e forçando o seu destino.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Manual de desistência

Há uns pares de anos que a minha filha saiu de casa para estudar. Conforme vai avançando vai ficando cada vez mais longe. Liga-me, pouco, mas liga, como seria de esperar. Liga-me antes de qualquer momento de maior tensão. As circunstâncias mudam e as palavras também. O diálogo conclui-se sempre da mesma maneira: não morremos de véspera e não nos arrependemos de falhar por tentarmos, o que nos arrependemos é de falhar por nem sequer termos tentado (sobretudo por medo de falhar). O jogo de ontem, contra o Villarreal, constitui um manual de desistência. 

Começou-se por perder de véspera. A conferência de imprensa que antecedeu o jogo é a de um treinador que se derrota a si próprio e à sua equipa. O jogo não contava. Não tínhamos obrigação de o ganhar. A vida são dois dias. Cristo morreu, Marx também e a própria equipa conheceu melhores dias. A equipa não é Bruno Fernandes e mais dez. A equipa é o Gudelj. Só há Bruno Fernandes porque há Gudelj e o resto é paisagem. E o Gudelj diz que sim, esquecendo-se de nos explicar a razão para estar sequer sentado naquele local àquela hora para dizer o que disse. Quem é que o escolheu para estar ali? É com discursos destes e jogadores destes que se mobilizam os adeptos para irem ao jogo? 

A equipa entrou na expetativa, na expetativa do que o adversário ia fazer para que a expetativa se cumprisse e se transformasse em fatalidade. Biqueirada do guarda-redes para aliviar a bola, Petrovic a fazer-se mal ao lance e a enfiar-lhe uma carecada e isolar um avançado furioso que avançou até à área para se desfazer dela de qualquer maneira, transformando uma combinação cósmica numa combinação cómica de defesas atrapalhados que, à beira de um ataque de nervos, permitem a um jogador adversário marcar um “penalty” em corrida. A expetativa cumpria-se como fatalidade perante um adversário também ele na expetativa e que pretendia simplesmente esperar. Pretendia esperar e continuou à espera, agora da reação do Sporting, não mais se atrevendo a procurar criar qualquer lance de perigo. Mas nós continuámos à espera também e assistiu-se a um jogo de duas equipas à espera uma da outra, sem ninguém avisar os da casa que se encontravam a perder e o tempo estava a contar. Sem tempo, quem espera desespera, instalando-se a desesperança, dentro e fora do campo. 

Os do Villarreal limitavam-se a jogar à rabia com os do Sporting que, feitos tontos e sem avanço da linha defensiva, se limitavam a correrias sem nexo e desesperantes elas próprias. A cada correria sem propósito perdia-se convicção para a próxima, numa espiral descendente. Os extremos completamente abertos e sem apoio, estavam condenados a receber a bola em dificuldades e a jogar contra o resto do mundo entregues a si próprios. A meio da primeira parte sofre-se mais um golpe de incompetência: o Bruno Gaspar sai com uma lesão muscular, que, por não se tratar da primeira vez, nos deixa perplexos sobre a utilidade do gabinete de alta “performance”, a principal bandeira de campanha do Varandas. Nos últimos minutos, os extremos trocam de posição, passando a jogar com o pé dominante pelo lado de dentro e ficando assim mais próximos do Bas Dost e do Bruno Fernandes e deixando a linha para os laterais. As melhorias fizeram-se notar (é quase criminoso deixar um jogador como o Raphinha com golo na ponta das chuteiras a centrar bolas do lado esquerdo do ataque). 

Nestas alturas agarramo-nos sempre a qualquer coisa para termos esperança. A troca dos extremos, como coisa que é, era a qualquer coisa a que nos iríamos agarrar como tábua de salvação para vermos a segunda parte. Mas até essa tábua de salvação a que nos queríamos agarrar nos tiraram. Os extremos voltaram às posições iniciais e o Jovane Cabral ficou condenado a fazer o que todos esperam, inclusivamente os defesas. O jogo da rabia dos do Villarreal aprimorou-se, enquanto esperavam, continuando os do Sporting completamente incapazes de jogar no meio campo contrário de forma continuada. A meio da segunda parte, o Petrovic começou a avançar um pouco mais, procurando dar apoio a quem tinha a bola na zona de ataque. A equipa melhorou um poucochinho pequenino. Com os espetadores exasperados, o Marcel Keizer fez uma dupla substituição, metendo o Luiz Phellype e o Wendell, saindo o Petrovic e o Jovane Cabral. Com o Miguel Luís mais atrás, a equipa ganhou mais critério na troca de bola e ficou mais compacta. Parecia que ainda era possível, mas o Acuña resolveu suicidar-se, enfiando um soco no estômago de uma equipa que, a partir desse momento, parecia um conjunto de mortos-vivos à procura da razão de ser do limbo onde se encontrava.

A fleuma do Marcel Keizer foi chão que deu uvas. A expressão corporal trai-o, durante os jogos e nas conferências de imprensa, que começam a ser cada vez mais penosas. Há ansiedade, inquietação e nervosismo de toda a ordem. Ele sabe, como a minha filha sabe. A minha filha liga-me sabendo, espera é que seja eu a dizer-lho. Quem é que diz ao Marcel Keizer o que ele sabe mas precisa de alguém para lho dizer?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Sem filtro?


A páginas tantas dei por mim a temperar a pescada em filetes. Pensei que dava para tudo: fazer o jantar e ver o Sporting namorando como se fosse um dia qualquer. Qualquer dia é bom para namorar, não sendo necessário um evento para nos recordar. Quando dei por mim já estávamos a estagiar em cascos de carvalho com um golo a tiracolo. Talvez demasiado cedo? Pensei que não. Nem sempre a virtude vem do cedo erguer, e os pardais fazem parte da história por isso mesmo. Garfei o que pude, acompanhado de um tinto do Douro que não ficará para a memória. Fui ver do jogo, com a convicção dos maduros disto tudo que não vacilam perante qualquer evidência.

Tenho na memória uma primeira parte inexistente. Lembrei-me do filme Balbúrdia no Oeste, do Mel Brooks e, um outro, que me recordava umas exéquias. O toque a finados era manifestamente exagerado. Na segunda parte, passamos a jogar num misto zona homem a homem, mas sempre com os nossos em vista. O Gabriel Alves ainda tentou aparecer para nos recordar os velhos tempos, mas era demasiado tarde. O Keiser já tinha vestido um impermeável de rendas que não lhe permitia ver qualquer forma de vida inteligente no horizonte. Farto de novelas, Marcos Acuña decidiu comprar um bilhete para São Petersburgo. E nós? Nós fomos fumar um cigarro. Sem filtro?  

Se perguntarem, fui ao bar


Joana latino, comentadora de fait-divers da SIC, hoje em reportagem no exterior no estádio de Alvalade, poucas horas antes do jogo. Pergunta a expert:

Isto às vezes discute-se muito a arbitragem, acha que isso vai ser um fator? – o português é arcaico mas ainda assim percetível.
Não, o VAR agora resolve tudo - responde um dos tipos.
O VAR é o Varandas? – sugere a jornalista, preparadíssima para estas andanças.
Não… o vídeo-árbitro
Ai o vídeo-árbitro, desculpe lá, estava aqui completamente  - diz a entrevistadora, sem grande convicção relativamente ao planeta onde se encontra. 
– A senhora tem que se modernizar, tem que ir à formação… tem que ir à formação.

O entrevistado dizia tem que ir à formação, com cara de dizer tem que ir ao castigo. Todos sorrimos com esta rábula que encaixa perfeitamente na rábula do futebol entretenimento, mas sem bola. Que é todo o futebol português.  


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Não?!...

Lê-se e não se acredita: o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol interditou o Estádio da Luz por quatro jogos, após uma queixa apresentada pelo Sporting, que acusou o Benfica de apoiar claques não legalizadas em vários jogos da época 2016/17. O que não se acredita é que depois de tanto tempo o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol admita que existam claques não legalizadas, quando se sabe que existem, isso sim, grupos organizados de adeptos que levam tarjas e bandeiras para o Estádio da Luz do tamanho do tolde do Circo Cardinali no bolso de trás das calças. Só falta dizer que esse grupo tem o nome “No Name”!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Um razoável Bruno Fernandes na escala de Bruno Fernandes a fazer de Bruno Fernandes

Estou farto de ver jogar o Sporting. Mas estou ainda mais farto de ver jogar (ver jogar é uma forma de dizer) os nossos adversários. Em cerca de um mês, com o jogo de ontem, foi a terceira vez que vi jogar o Feirense, uma equipa cujo melhor jogador (de futebol) não só tem pinta como constitui também o seu melhor praticante das “Mixed Martial Arts”. A tática do Feirense assenta muito neste jogador e nessa mistura, não de artes marcais, mas de modalidades, de futebol com artes marciais e vice-versa. Na primeira parte, o futebol jogado como artes marciais e as artes marciais praticadas com bola constituíram os modelos de jogo que levaram a melhor. 

Nem começámos muito mal. No entanto, a mistura de que falava impôs-se rapidamente e o(a)s menino(a)s do Sporting começaram a chamar pelo pai. O pai não lhes acudiu, ficando-se por um ou outro cartão amarelo. Compreendo-o. O que não compreendo é que seja, ao mesmo tempo, defensor de que o “futebol não é para menino(a)s” e permita um ritual de acasalamento desse melhor jogador do Feirense ao Bas Dost durante a marcação de um canto, tendo marcado falta ao Bas Dost por não ter correspondido ao assédio. Se calhar até o compreendo, não o compreendendo. Há uns anos atrás, quando era miúdo, andei atrás de uma rapariga da mesma forma, embora tenha demorado menos tempo e a rapariga tenha fugido num espaço mais curto até aparecer o pai dela e marcar falta, não a ela mas a mim. Ontem, senti-me resgatado, redimido, fosse o pai dela este pai e o meu futuro teria sido outro. 

Esta mistura de modalidades e de artes marciais deu origem a uma mistura de equipas. Os jogadores do Sporting participavam nas jogadas dos do Feirense e os do Feirense participavam nas dos do Sporting. Praticou-se assim um género de Caldo Verde à moda do Minho: uns trouxeram as couves e a panela, os outros o chouriço e a broa. Umas das melhores malgas desse caldo verde acabou com a bola dentro da nossa baliza. O Ristovski passa a bola a um jogador do Feirense, que a passa ao Ilori, que a passa a outro jogador do Feirense, que a passa ao Coates, que chuta contra ele e o Renan Ribeiro cede canto quando a bola ia para fora. Canto marcado, bola ao primeiro poste, cabeceamento de um jogador do Feirense e o Renan Ribeiro embrulhar-se com um adversário e a meter-se dentro da baliza com a bola, protagonizando um “momento Vítor Baía”, mais recentemente reclassificado de “momento Svilar”. Não é propriamente um “momento Svilar” pelo facto de o árbitro não ter cortado o mal ou o bem, dependendo das perspetivas, pela raiz, recorrendo ao VAR, concluindo-se, assim, que até a roubar os nossos adversários somos roubados. A acabar a primeira parte, os jogadores do Feirense resolveram participar num jogada dos do Sporting, revelando elevados níveis de reciprocidade. O Wendell passa ao Bruno Fernandes, o Bruno Fernandes passa ao Acuña, o Acuña segura a bola um pouco até o Borja se desmarcar pelo lado esquerdo para um centro ao primeiro poste e uma carecada no Wendell, com um jogador do Feirense a meter a mão à bola e a metê-la na sua baliza, corrigindo uma má finalização do jogador do Sporting e demonstrando que amor com amor se paga. 

A segunda parte não tem história ou tem a história dos golos, porque nem sequer me apetece escrever mais sobre este jogo. O Ristovski desatou numa correria pelo lado direito sem que ninguém lhe aparecesse ao caminho, chegado à entrada da área passou a bola ao Diaby e desmarcou-se para a receber mais à frente, o Diaby não lhe fez a vontade e virou para dentro e centrou para a cabeça do Bas Dost que não lhe chegou, permitindo uma cabeceamento em salto de peixe do Bruno Fernandes. Livre à entrada da área do adversário, grande sarrabulho (ou caldo verde, como se quiser) entre os jogadores do Sporting e os do Feirense para ver quem é que metia mais gente na barreira para tapar a visão do guarda-redes, remate do Bruno Fernandes e a bola a entrar sem que ele se mexesse, evitando fazer a triste figura do Svilar. À saída da área do Feirense, biqueirada até à entrada da área do Sporting, onde o Borja e o Ilori em vez de meterem água resolveram aprimorar e fazer um número de natação sincronizada para isolar um avançado búlgaro que marca. Pior do que sofrer um golo do Feirense é sofrer um golo de um avançado búlgaro do Feirense. Estranhamente, os jogadores do Feirense em vez de enfiarem mais uns tantos biqueiros na bola para dentro da nossa área, meteram um jogador bom de bola, que acabaram de contratar ao Leixões, passando a dispor de uma ideia de jogo e deixando sem sobressaltos a nossa defesa. 

Na sexta-feira, fui ver o “Correio da Droga” do Clint Eastwood. É um filme razoável na escala Clint Eastwood, com o Clint Eastwood a fazer de Clint Eastwood, como de costume, e a representar a América de Clint Eastwood. No final, redimem-se todos: o Clint Eastwood, os bons não são tão bons assim e reconhecem o mau que há neles, os maus não são tão maus assim também e reconhecem o seu lado bom, sobrando a honra e o prazer das coisas simples, a família, as flores e as sandes de carne assada. Neste jogo, tivemos o Bruno Fernandes a fazer de Bruno Fernandes, atingindo um nível razoável na escala de Bruno Fernandes, correspondendo a um estratosférico na escala de qualquer outro jogador. No final, redimem-se todos também: o Bruno Fernandes consigo próprio, o Marcel Keizer das suas hesitações e contradições e, até, o Gudlej da sua pose Roger Moore que, após qualquer zaragata a meio do campo, sai sempre de “smoking” sem uma ruga ou uma ponta de pó em direção ao casino mais próximo onde engatará a miúda mais enigmática e gira que trabalha para os maus e se converte à salvação da humanidade.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Pre-matcht

Não sei se já repararam, se o meu sangue não me engana, se tivéssemos ganho ao Tondela e ao Setúbal,  mesmo encaixando a cabazada contra o Benfica e o empate contra o Porto, em caso de vitória hoje ficaríamos a quatro pontos do Porto e a três do Benfica (em caso de vitória deste). E depois ainda recebíamos o Braga. Certo? Eis o se...porting. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Seja Félix


O Gedson Fernandes (apenas na primeira metade da época) foi vendido vinte vezes. Mais uma pérola da formação benfiquista –  podia-se ler nos escaparates das papelarias, nos muros e mesmo em publicidade nas avionetas. Os pretendentes entupiam as nossas fronteiras (inclusive as marítimas). Agora é o piscinas Félix, capa de jornal, revista, fanzine, disputado por meio mundo, ainda mais disputado pelo outro meio, a fronteira mais uma vez absolutamente assoberbada de pretendentes, televisões de todo mundo fazem a cobertura dos seus jogos, milhões se batem por pagar a sua cláusula, mais uma pérola acoplada às avionetas que sobrevoam as nossas praias. Pais mudam o nome dos seus filhos para Félix, novos cortes de cabelo à Félix povoam os crânios dos portugueses (e nem todos são de rapazes). Mas nem toda a gente pensa assim. Um ou dois seres humanos acham que o Bruno Fernandes foi o melhor jogador dos dois dérbis. Talvez o melhor jogador do campeonato. Não queremos ser chatos mas, já agora: quando vale o Fernandes?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A tropa não é para menino(a)s

“Não, não vais rematar daí?! É estúpido, nem o Ronaldo ou o João Félix, não sei bem como é que se chama. Se marcasses, valias o total das imparidades da Caixa Geral de Depósitos!” 

Dia comprido e feliz. Reunião em Leiria, com almoço no Carloto, metros à frente do Regimento de Artilharia de Leiria, onde cumpri grande parte do Serviço Militar Obrigatório (SMO). À mesa, descubro, do meu lado direito, um camarada de armas, que cumpriu o SMO um ano antes e fez a recruta em Vendas Novas como eu. Contamos histórias desses tempos, ele mais bem informado e documentado, descobrindo que ambos fazíamos parte da Brigada de Aquisição de Objetivos, constituída pelos mais corajosos, aqueles que, durante a Guerra do Vietname, tinha uma esperança de vida que não chegava a dez minutos depois de iniciado o fogo de artilharia (porque o inimigo sabe que estes homens são os olhos da artilharia e constituem os primeiro alvos ou porque são vítimas de fogo amigo quando a mira está mal apontada ou os da balística não fazem os cálculos como deve ser). Descubro que o meu comandante de Vendas Novas era o atual General Rovisco Duarte, ex-Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Percebi melhor como é que foi temperada a coragem e o sentido de liderança de que sou feito. 

Regresso a casa embalado por um relato onde se fazia coro com os benfiquistas que estavam no Estádio da Luz: “[qualquer coisa] João Félix”, “João Félix para a esquerda”, João Félix para a direita”, “João Félix a ler o último romance de Rodrigo Guedes de Carvalho”, “João Félix a jogar PlayStation”, “João Félix beija a namorada enquanto sub-repticiamente faz deslizar a mão direita por baixo da sua camisola”. Nem quando da criação do Universo, Deus esteve em tanto lugar ao mesmo tempo a fazer tantas e tantas coisas. 

“Espera lá: a trinta metros da baliza e o guarda-redes está a construir a barreira com seis jogadores! Chatice, saiu um. Espera, espera, o guarda-redes está encostado ao outro lado da barreira para tentar ver a bola. Já lá mora!”. Continuo a ver o jogo a partir deste exato momento de regresso a casa. Está a acabar. “Golo! Golo! Bem me parecia, foi um momento Vítor Baia”, lembrando-me dos tempos dourados do Canal Caveira, do Calor da Noite, da fruta e do apito, quando se considerava que o seu ponto forte era o espaço aéreo, como hoje se diz, até ir para Barcelona e vermos os catalães a cantar em sua memória: “foi um toiro que o matou, num dia de infelicidade”. Os comentadores apressaram-se a explicar-nos que não se tratou de um golo anulado porque o árbitro apitou antes de a bola entrar, detalhe absolutamente decisivo para se compreender o que se tinha passado e o que não se poderia passar a seguir, atendendo à entrada de carrinho do árbitro sobre o VAR, cortando o lance pela raiz. A esta explicação acrescentaram outra logo a seguir, sobre a necessidade do VAR verificar se o Coates tinha agarrado uma camisola fora ou dentro da área, ou fora da área mas continuando dentro da área ou na Zara do Colombo, saindo sem pagar. Acabado o jogo, rebobino a cassete melhor do que um Sargento de Dia em Tancos. 

Relativamente ao jogo anterior, passámos a jogar com mais um e o Benfica com menos um (o Sálvio), apesar de se manter a desvantagem numérica, dado continuarem o Gudelj e o Bruno Gaspar. O Marecl Keizer alterou o posicionamento da defesa na saída da bola, abrindo mais os centrais e não permitindo que um só jogador do Benfica pressionasse dois ou três de uma vez só. No entanto, o Gudelj teve de recuar mais e o Bruno Fernandes também para preencherem melhor a zona central que, com o afastamento dos centrais, se podia transformar no Deserto de Atacama. Obrigado a jogar mais recuado o meio-campo por esta razão, o Wendell ficou entregue à sua sorte, enquanto tentava pressionar sozinho ou mal acompanhado cerca de meia equipa do Benfica quando tinha a bola. 

Sem tantas perdas de bola na zona central, o Benfica deixou de ter plano de jogo. Não tinha plano de jogo mas tinha o Gudelj do outro lado, que é uma outra forma de o ter não o tendo. O Gudelj abordou com a convicção do costume uma bola pinchona, tirando da jogada o Ilori que se preparava para a afastar e isolando o Salvio (não estou a brincar, estamos a falar do Salvio que todos conhecemos). O Salvio meteu a cabeça no chão e correu até aonde a vista alcançava e, ao esbarrar em alguém, passou a bola a um colega que estava à entrada da área para se atrapalhar com ela e o Bruno Gaspar, o inevitável Bruno Gaspar, e a passar para o lado onde apareceu um outro colega que se tinha começado a desmarcar pelo meio mas ainda a tempo de voltar para trás na rotunda da circular externa da defesa do Sporting, fazendo uma manobra perigosa, não originando por milagre uma colisão com o Jovane Cabral que vinha a travar prevendo o perigo. Passado o perigo de colisão, fechou os olhos aliviado e desfez-se da bola com força, numa atitude pouco correta que por pouco não ia acertando no Renan Ribeiro com consequências graves para a sua saúde. A primeira parte foi o desenlace deste súbito (des)congestionamento de trânsito e o João Félix. O João Félix invariavelmente recebia a bola, alçava ligeiramente o rabo, até o adversário lhe tocar, e efetuava um salto encarpado para a frente resultante do impulso da sua libido descontrolada, culminando, assim, com a sensualidade necessária o lance. O público assobiava os jogadores do Sporting, só apetecendo dizer: “vai lá tu fazer melhor!” (Imagino a sequência destas imagens que o Porto Canal irá fazer um dia destes até o rapaz, infelizmente, se transformar no Neymar de Carnide). 

Na segunda parte, entrámos um bocadinho (pequenino) melhor e quando estávamos na nossa melhor fase levámos um (auto)golo às três tabelas. Depois de se verificar que o golo não tinha sido do João Félix, mas autogolo do Ilori, o comentador não deixou de explicar que mesmo assim resultava do alcance estratégico da jogada. Ninguém se riu e o jogo continuou. Entraram uns do Sporting e outros do Benfica, saindo outros tantos do Sporting e do Benfica, e o resto todos sabem. No final, o Benfica marcou dois golos e teve mais duas oportunidades (cabeceamento do Rúben Dias e remate ao lado do Grimaldo) e o Sporting marcou dois golos e teve mais duas oportunidades (dois remates do Wendell ao lado) ou marcou um golo e teve mais três oportunidades, no entendimento do árbitro e dos comentadores. Em Alvalade há mais um dia destes.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A banalidade da derrota


A propósito da leitura de “A Ordem do dia” de Éric Vuillard, ocorreu-me aquela expressão criada por Hannah Arendt, depois transposta para livro com o mesmo nome: A banalidade do mal. Por portas travessas de um cérebro cujo humor se acantonou há muito tempo, dei um passo ao lado para associar uma outra expressão: a banalidade da derrota: eis o Sporting actual.

Há muito tempo que afirmo a inexistência de uma cultura de exigência. Não confundamos com uma cultura de vitória, para isso são necessárias vitórias e um caminho: a tal cultura de exigência. Vertida do topo até se entranhar em todos elementos da estrutura. Gestão, planeamento, comunicação, definição de objetivos claros para toda a gente.

As conferências de imprensa de lançamento do jogo de domingo são paradigmáticas. O treinador do nosso rival afirmou que o jogo se tratava de uma final. Para ambos. O treinador do Sporting disse que o jogo não era decisivo. Pois não, para o quarto lugar não era. Imagino-o a sair da conferência de imprensa, com as mãos nos bolsos, calmamente, chegar ao dia de jogo ainda com as mãos nos bolsos, começar o jogo com as mãos nos bolsos, e, de repente, não perceber o que lhe estava a acontecer. Não percebeu na hora porque não tinha percebido antes.

Primeiro pensei: é uma conspiração de equívocos. Não, não era uma conspiração, os equívocos fluíam dentro de campo com a personalidade de um dogma. O Rui na posta de análise ao jogo segue bem essa trajectória em que o cozido à portuguesa invade o “Stamppot”, cujo culminar foi o jogo de domingo. O cozido à portuguesa é pesado. Toda agente sabe disso. 

Não se trata apenas de uma questão de identidade. Cada jogo, cada oponente, cada situação implicam uma estratégia, uma visão, às vezes, até, uma ideia, nem que seja pequenina, que germine um caminho. Essa adaptação é contínua e versátil. Mas nada disto importa sem a tal cultura de exigência. Ao escutarmos alguns jogadores, o treinador, os dirigentes, parece que nada disso estará no topo do bolo. Devia. Sem isso, a banalidade da derrota será uma realidade. E isso nota-se. Não haverá, no fim, nem bolo, nem gente para cantar os parabéns.

Nota: não ouvi as conferências de imprensa de hoje (ontem).

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Futebol, populismo e democracia

A minha experiência a escrever neste blogue tem sido muito enriquecedora, para o melhor e para o pior. As boas experiências guardamo-las para nós, encontrando-se entre elas o reconhecimento, a solidariedade e, o que parecia inimaginável, a amizade, cibernética e contextualizada por essa tecnologia, mas uma forma de amizade que preanuncia as relações virtuais do futuro (que nalguns casos são presente também pela solidão de muitas pessoas). Mas, “as famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira” (célebre citação do Tolstoi no ainda mais célebre “Anna Karenina”), e por isso as más experiências são mais enriquecedoras na sua diversidade do que as boas. 

O futebol, e o futebol português em particular, constitui o reino da intolerância. Onde devia haver respeito entre iguais apesar da diferença, há ódio entre diferentes e ainda entre os que aparentemente são iguais, pertencendo ao mesmo clube. Essa intolerância e esse radicalismo é congénito, sendo determinado em primeiro lugar pelos dirigentes, passando pelos treinadores e adeptos, e alimentado por uma envolvente mediática doentia e não menos fanática. Apesar da sua crescente importância à escala global, não conheço outro país da mesma dimensão de Portugal onde existam tantos jornais desportivos, espaços desportivos nos jornais generalistas e tempo televisivo dedicado ao futebol. 

Está-se em presença de um mal social que contamina todo o espaço público e o degrada. Os efeitos colaterais em toda a vida pública são evidentes, no debate político, por exemplo. A discussão futebolística atrai todos, especialmente as moscas. Gera notoriedade, produzindo protagonistas que podem ser exportados para outros domínios da vida política, económica e cultural. Felizmente, na política, os partidos do sistema têm conseguido cooptar alguns desses protagonistas, institucionalizando-os (dificilmente se compreende a candidatura de certos comentadores às câmaras municipais sem essa notoriedade). O problema é saber até quando estes protagonistas e as suas réplicas podem ser contidos no espaço futebolístico ou a partir da sua institucionalização no “mainstream” partidário. 

Por portas travessas, o futebol tem prestado inestimáveis serviços à democracia portuguesa, onde não têm emergido partidos populistas e extremistas à esquerda e à direita. Para mim, não têm emergido porque não é preciso, o futebol e os clubes encarregam-se de representar esses potenciais eleitores, porque eles existem, ninguém tem dúvidas (a frustração e o ressentimento estão em todo o lado). A asfixia futebolística (parafraseando umas pessoas conhecidas) não deixa espaço nem tempo para manifestações do mesmo fenómeno no espectro político. Enquanto assim for, talvez valha a pena ver futebol e escrever sobre ele. Quando assim não for, então deve-se acabar com o futebol e os clubes em nome do bem-comum. É que não vale a pena pensar que o atual estado das coisas alguma vez possa mudar.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

“Stamppot” à portuguesa

Há quem esteja mais depressa disponível para errar pela cabeça dos outros do que pela sua. Pior ainda, há quem esteja disponível para errar pela cabeça dos outros do que para acertar pela sua. Ao longo da minha vida profissional, deparei-me vezes sem conta com a segunda situação. É uma mistura de medo, resignação e não fazer de desmancha-prazeres. Na psicologia designa-se comportamento de manada e é frequente quando da exuberância irracional nos mercados de capitais, os “animal spirits” referidos por Keynes ("Maria vai com as outras", na tradução portuguesa). 

O Marcel Keizer chegou ao Sporting com um modelo de jogo aliciante. Futebol ofensivo, com defesa adiantada, laterais projetados no terreno em simultâneo e extremos colocados por dentro, jogo predominante pela zona central e preocupação com rápida recuperação da bola (os tais cinco segundos da pressão alta). A preponderância da zona central, das movimentações interiores dos jogadores para dar linhas de passe e do jogo ao primeiro toque em tabelinhas e progressão permanente era a sua marca de água. Como qualquer outro, este modelo apresenta fragilidades: os laterais têm de andar acima e abaixo e não são bem protegidos pelos extremos e o trinco ou seis tem de ser pau para toda a colher e equilibrar a equipa sempre que se perde a bola e não se recupera de imediato. 

Os primeiros jogos constituíram excelentes exibições e concluíram-se com goleadas. Mas havia um mas: sofriam-se sempre uns tantos golos. Os pontos fracos assinalados eram aqueles onde dispúnhamos de jogadores mais fracos também, especialmente Bruno Gaspar, Jéfferson e Gudlej. A pouco e pouco o Marcel Keizer foi adaptando este modelo para expor menos esses pontos fracos. Os extremos passaram a ser mais extremos outra vez e a bola passou a sair mais pelas laterais, ficando o jogo interior entregue às permanentes correrias do Bruno Fernandes e do Wendell e o ataque aos cruzamentos para a cabeça do Bas Dost, mesmo quando não joga. Este modelo não é brilhante mas não funciona mal quando a equipa joga na expetativa, atrás da linha do meio-campo e a explorar o contra-ataque ou as transições ofensivas. Este modelo começou a ser anunciado na tibieza como foi encarado o jogo contra o Guimarães e nos jogos seguintes. Contra equipas que estão disponíveis para assumir o jogo, como o Porto, este modelo pode dar bons resultados. Contra equipas pequenas não dá resultado nenhum porque os jogadores adversários não saem do sítio, bastando estacionar o autocarro e marcar o Bas Dost. 

Ontem, contra o Benfica, o Marcel Keizer resolveu fazer uma mistura explosiva. Quis assumir o jogo, mas colocou os jogadores no mesmo modelo que vinha adotando. Queria a equipa a sair pelo meio, ao mesmo tempo que continuava com a defesa recuada e os extremos abertos e muito avançados. Em inferioridade no meio-campo, há formas mais inteligentes de suicídio, a não ser que o Gudlej fosse o Maradona com a bola nos pés e o Baresi sem ela. Os jogadores do Sporting não ligaram uma única jogada em condições e a equipa estava permanentemente exposta sempre que perdia a bola, sucedendo-se os sobressaltos e deixando o Nani e o Raphinha sem bola na primeira parte. Às asneiras coletivas somaram-se as individuais. O Gudelj comportou-se como a anedota que é, não recuperando uma bola, não a disputando em permanência e perdendo-a com frequência, e o Bruno Gaspar foi a cereja em cima do bolo, oferendo os dois primeiros golos, o primeiro deixando sair um cruzamento que nem a um júnior se admite e o segundo esquecendo-se de alinhar com os centrais e colocando em jogo o avançado do Benfica. Quando tudo parecia perdido ainda na primeira parte, o Samaris tentou fazer o que não sabe, o Wendell pressionou-o e recuperou a bola, o Nani fez um passe magnífico para o Bruno Fernandes fuzilar de primeira à entrada da área e desviado para o lado direito. 

Parecia que tudo ainda era possível. Parecia mas não era. Não se percebeu a substituição do Nani, manifestamente aquele tipo de jogador para quem se olha nestes jogos e se espera que faça o que fez no primeiro golo, para entrar o trapalhão do Diaby. O que ainda se percebeu menos foi o terceiro golo logo a abrir, num lance que não se admite também a uma equipa de juniores. Livre do lado direito do ataque a meio do meio-campo, biqueirada para dentro da área e o Rúben Dias a saltar sozinho como se estivesse numa peladinha com os amigos. A partir do terceiro golo foi o destrambelhamento total. As perdas de bola sucediam-se, umas mais infantis do que as outras, e as oportunidades concedidas também, perante a permanente atrapalhação do guarda-redes, dos defesas e do Gudlej. O desgaste físico dos jogadores do Sporting era por demais evidente e o Marcel Keizer ia hesitando nas substituições (se era para deixar sem dono o meio-campo, mais valia ter partido o jogo e metido mais cedo o Luiz Phellype). O Benfica ainda marcou mais um e o Sporting outro, ambos de “penalty”. 

O Marcel Keizer procurou fazer uma mistura de “Stamppot” e de Cozido à Portuguesa. Quando se espera salchicha e puré de batata apanha-se com chouriço de sangue, pé e porco e batatas cozidas e vice-versa. Não sei se se deixa influenciar pela conversa técnico-tática nacional ou se é influenciado pelos elementos nacionais da sua equipa técnica versados nessa conversa. Não sei se o jogadores não se sentem confortáveis com o modelo de jogo inicial e o vêm adulterando. Mas há coisas que são incompreensíveis. Costumo dar o benefício da dúvida aos treinadores na escolha dos jogadores. Estou disposto a admitir que: o Lumor sofre de uma maleita qualquer que o impede de jogar futebol e melhor seria empandeirá-lo; o Francisco Geraldes vem de uma lesão e não se sabe se está em condições de ter o melhor rendimento; o Luiz Phellype ainda não conhecia bem a equipa no jogo contra o Tondela; o Doumbia não compreende ainda bem o que se lhe pede; o Jovane Cabral não está preparado para jogar certos jogos mais difíceis e mais exigentes taticamente. O que manifestamente não consigo compreender é o afastamento do Miguel Luís, quando jogou de forma regular e bem em diversos jogos consecutivos, a maior parte deles a titular, deixando o Bruno Fernandes e o Wendell esgotarem-se jogo após jogo. Não sei o que se passa na cabeça do Marcel Keizer, admitindo que passa por lá alguma coisa. Ninguém lhe pediu para ganhar nada. Pediu-se-lhe para colocar a equipa a jogar bom futebol, lançar novos jogadores e, assim, preparar a próxima época. Se era para jogar à Peseiro tínhamos o original e não andavam ao engano os jogadores e os adeptos. 

Artur Soares Dias, sempre ele e ao melhor nível. O melhor árbitro português. O melhor exemplo do que ao que tudo isto chegou. Na primeira parte, não consegue ver a uma metro de distância faltas continuadas do João Félix sobre o Wendell, precisando de consultar o VAR quando tudo acabou num golo do Benfica. Aceito a decisão do “penalty” a favor do Benfica. É verdade que o João Félix vai em queda ainda antes de tocar no Renan Ribeiro, é verdade que deixa o pé para nele embater, mas também é verdade que nestas circunstâncias o guarda-redes está sempre no local errado à hora errada. O que não aceito é que seja necessário recorrer ao VAR para marcar o “penalty” sobre o Bas Dost ainda mais evidente. O que não aceito de todo é que entre a falta e o golo tenham decorrido oito minutos (por única e exclusiva responsabilidade do árbitro) e se concedam sete minutos de desconto de tempo. O Benfica não precisava, como não precisou, dos favores do árbitro. O Benfica não merecia que os seus méritos, e foram muitos, fossem embaralhados com esses favores, como se verificará na discussão desta semana num qualquer canal perto de si como habitualmente.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Vinho e futebol, bom e mau

Não há como não gostar do Sérgio Conceição. Existe vontade e determinação a que se associa o sentido de compromisso e de solidariedade com os seus jogadores e a sua equipa. Não fala futebolês e, melhor ainda, não é sonso nem se faz de sonso. Mas ninguém é perfeito (eu próprio tenho os meus dias). Perdeu a final da Taça da Liga e teve “mau perder”. Se no calor do momento ainda se pode compreender, não pode haver compreensão nenhuma passado um dia. 

Reafirmou que tinha “mau perder” como se fosse uma virtude. Para ele, o “mau perder” opõe-se ao “bom perder”, quem tem “mau perder” não gosta de perder, admitindo-se que quem o não tem também não gosta de ganhar. Há pessoas que têm “mau vinho”. Depois de beberem ficam irascíveis, implicativas e conflituosas. A essas não se opõem as que têm “bom vinho”, isto é, depois de beberem, entaramela-se-lhes a língua, caminham aos esses e adormecem em qualquer canto e esquina. Aos que têm “mau vinho” opõem-se os que sabem beber, bebendo com conta peso e medida, de forma a apreciar o que bebem e a usufruírem do convívio com os outros. Da mesma forma, aos que têm “mau perder” opõem-se os que sabem perder, sendo essa a virtude.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Pior do que fumar

Acabámos de ganhar a Taça da Liga. No próximo fim-de-semana jogamos contra o Benfica. Ficávamos com uma semana para nos prepararmos para o “derby” enquanto enfiávamos uma outra alfinetada aos portistas e benfiquistas. Era mesmo necessário este jogo contra o Setúbal? Esta não era a semana perfeita para ficarmos refastelados em casa a ver o Barão Negro sem mais esta maçada? São questões que deixo para discussão, embora tenha a minha opinião formada, parecendo-me que os jogadores do Sporting têm a mesma. 

Sofremos um golo na primeira parte o que pode parecer um hábito mas não é: nos jogos fora de casa, há vinte e uma jornadas que sofremos pelo menos um golo e, portanto, não é um hábito, é um vício, como fumar. Faz mal mas não conseguimos parar, é compulsivo, é mais forte do que os jogadores e o Marcel Keizer (como antes o Jorge Jesus e o Peseiro). Este vício não afeta todos da mesma maneira. Para nós, adeptos, é pior sofrer um golo em todos os jogos fora do que fumar. Para os jogadores não é bem assim, sendo preferível para a sua saúde que não fumem mesmo que sofram uns golos aqui e acolá. 

Comecei a ver o jogo na segunda parte. O Doumbia ganhou uma bola ao Rúben Michael e leva uma trancada sem bola. O Raphinha ganha nas costas de cabeça de um defesa, a bola bate-lhe na mão (involuntariamente) e, na dúvida, o árbitro marca falta contra o Sporting e mostra uma amarelo ao Rúben Michael, pela falta anterior sobre o Doumbia imagina-se, e outro ao Bruno Fernandes, porque sim, porque tem poucos. Logo a seguir um jogador do Setúbal enfia uma cotovelada na cabeça do Ristovski, que lhe fez crescer um galo pica no chão de imediato, e o árbitro expulsa o jogador do Sporting (por palavras, em macedónio, presume-se, presumindo-se ainda que lhe tenha pedido para chamar o Varandas e como o Varandas não queria vir e não queria também ser assistido fora do campo, o árbitro o tenha expulsado por razões humanitárias). Era sobre isto que falaram o Luís Filipe Vieira, o Abel e o Salvador? Se houver também algum avençado envolvido neste jogo não se esqueçam de nos avisar para o despedirmos. 

O Marcel Keizer meteu o Nani e o Bruno Gaspar e tirou o Raphinha e o Doumbia. Mais tarde, meteu o Luiz Phellype e tirou o Petrovic. O jogo, bem, o jogo continuou, isto é, de um lado dez, do outro lado onze, servindo a bola de pretexto para o apito. Um tal de Mikel fez falta para segundo amarelo sobre o Nani e os comentadores sublinharam que ele arrisca muito, quando não arrisca nada, porque bate mas não fala em macedónio com a camisola errada e um alto na cabeça. Os jogadores do Sporting ainda levaram mais uns amarelos para aprenderem (o do Luiz Phellype só pode ser para rir). O árbitro fez tudo e mais um par de botas, chegando a suspender no tempo dois lances de perigo, um por fora de jogo que ninguém viu quando o trapalhão do guarda-redes saiu da baliza aos papéis e o Diaby ficou com a baliza aberta e outro por jogo perigoso (para o Setúbal, admite-se) do Luiz Phellype, quando a bola sobrou para a entrada da área onde estava isolado um jogador do Sporting pronto a rematar. Pelo caminho, o Bas Dost marcou um golo. 

Este jogo serviu exatamente para quê? Para vermos futebol? Para os jogadores disputarem um jogo? Serve de pretexto para o árbitro ter um emprego? A SportTv consegue que alguém lhe pague para ver isto ou as transmissões servem para criar conteúdos para o canal do Inácio? Sei as respostas todas. As perguntas são um simples exercício de retórica. Não nos venham é falar da falta de atitude dos jogadores do Sporting e da técnico-tática do holandês como se tudo fosse normal. Ver o Sporting é um vício. Faz mal mas nós, adeptos, não conseguimos parar. Um dia, aplicaremos uns adesivos, e vai-nos passar. Será um momento de libertação para nós e para o futebol português.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Há VAR e BAR, há ir e voltar


A chegada de Keiser despertou as luminárias da bola, todas elas versadas em futebol holandês e croissants amanteigados. Com as primeiras vitórias o desassossego instalou-se (Bernardo Soares escreveu sobre isso), e tiveram que se arranjar duas ou três explicações para o fenómeno enquanto se entrevistava Jorge Jesus algures no médio oriente. Após as primeiras derrotas, um dos analistas avançou com um ou dois pensamentos que fizeram escola no liceu de Carrazeda de Ansiães: nas vitórias os oponentes eram fracos, nas derrotas os oponentes eram consideravelmente superiores. Por exemplo, o Tondela. Do lado dos fracos ficava o Rio-Ave, a mesma equipa que o analista havia elogiado pouco tempo atrás como grande candidata ao quinto lugar. Em Carrazeda, duas teses de finalistas explicam em dezoito páginas esta linha avançada de pensamento.

Entretanto, uma convenção de treinadores portugueses reunia-se para discutir o calendário do cozido à portuguesa nos estágios e a importância das chicotadas psicológicas num curriculum vitae que se preze. José Mota foi um dos oradores mais aplaudidos. Lito Vidigal e Jorge Simão terão sido vistos a trocar papelinhos suspeitos. Conceição dissertou sobre bipolaridade: uma coisa é quando se ganha, outra quando se perde. Aplausos. Este debate foi seguido com muita atenção por todo o país.

Mais ou menos por essa altura, talvez um pouco antes, um conhecido dirigente terá visto a luz. Primeiro ainda se pensou que este iria a caminho do estádio com o mesmo nome, mas não, estávamos apenas a entrar num território bem conhecido do futebol português: o espiritismo. Quem diz espiritismo diz mezinhas, bruxaria, capelinhas, ou apenas feelings. Talvez seja por isso que o treinador contratado de seguida pelo dirigente que viu a luz, seja um expert em feelings. Tudo coisas que um treinador holandês, não possui, nem nunca possuirá, obviamente. A associação de treinadores portugueses que vão para os jogos de motorizada, aplaudiu com agrado.

Se possível fazer golos. Foi mais ou menos assim que Abel Ferreira lançou o jogo da meia-final da taça da liga contra o Sporting. Ainda não se descobriu outra forma de ganhar jogos, mas Abel, ainda assim acrescentou: e se possível não sofrer. Diz isto em todos os jogos, e apostamos que nas convenções de treinadores portugueses também, mas é sempre bom escutar estes pensamentos. Como já se sabia que o Braga ia à final, embora tivesse que marcar mais golos que o adversário, ficava apenas em suspenso quem seria o oponente. Salvador, lá no íntimo (como muitos bracarenses) preferia o Benfica, mas a conduta do dirigente que tinha visto a luz ao ir buscar dois jogadores ao Leixões com quem o Braga tinha (supostamente) acordo, deixou Salvador triste. Embora traído reagiu com elevação, à imagem do ano passado quando a altercação era com BdC e o Sporting.

Depois aconteceu aquilo: o VAR foi ao BAR, ou ao contrário, existem várias versões. Registe-se a conduta digna, urbana e elevada dos dirigentes mesmo na derrota. Um dos árbitros decidiu até auto suspender-se por se achar indigno de acompanhar tão ilustres personagens. Entregou-se a taça ao Porto, com o jogo da final a servir apenas de consagração. Sérgio Conceição apelou (sem se rir) ao desportivismo e contenção relativamente aos árbitros. As favas contadas chegaram a uns colegas meus de trabalho. Antes do jogo já estava três a zero. Chegou o dia e foi o que se viu e se poderá ler na excelente posta anterior do Rui. No final, destaque-se, mais uma vez,  a conduta digna e elevada, tanto de treinadores como de dirigentes do Porto. A nova modalidade de lançamento de medalhas avançará inexoravelmente rumo às olimpíadas. Está tudo na nova dissertação de Conceição aos peixinhos, perdão, aos treinadores portugueses. O mestre Madureira, da claque, também estará presente. Por via das dúvidas.  

domingo, 27 de janeiro de 2019

Keizerismo-Leninismo

Contra o Braga foi assim e contra o Porto ainda havia mais razões para assim ser: o jogo era uma formalidade. Os primeiros cinco minutos pareciam confirmar essa profecia. O Porto pressionou, pressionou, ganhou bolas atrás de bolas e parecia que não havia maneira de algum jogador do Sporting por cobro aquele vendaval e deixar a equipa respirar melhor. Mas foi o primeiro milho. Os pardais aproveitaram o que puderam, e puderam pouco, e depois, bem, depois foi mais pardais ao ninho. 

O Marcel Keizer voltou a surpreender o Sérgio Conceição. Quando pensava que se ia repetir mesma tática do jogo de Alvalade e, assim, nos podia cair em cima sem nos dar tempo de respirar, apanhou com uma defesa mais subida e uma pressão mais intensa sobre os defesas à saída do seu meio-campo. Com a defesa pressionada, o Oliver e o Herrera bem vigiados pelos jogadores do meio-campo do Sporting e o Rapnhinha e o Ristovsky a tirarem do jogo o Brahimi e o Alex Telles, restava aos do Porto jogar na profundidade, que corresponde “ao bola na frente e fé no Marega”. O posicionamento da defesa do Sporting concedia espaço nas suas costas mas não o suficiente, pois o Marega precisa sempre de mais dez metros do que qualquer outro avançado para se isolar, que é o espaço necessário para ter tempo de dominar a bola, enquanto vai tropeçando nela uma e outra vez. 

Os defesas do Sporting aguentaram bem o Marega, enquanto eu me via em palpos de aranha para aguentar o Manuel Queiroz a comentar na TVI. Os comentários sobre o excesso de faltas marcadas só aconteciam quando eram marcadas contra o Porto, não havendo nenhuma referência à dualidade de critérios na amostragem de amarelos, tudo culminado em modo vídeo-árbitro instantâneo, gritando: “O Raphinha não se dirigia para a baliza! O Raphinha não se dirigia para a baliza!”, quando o jogador do Sporting foi abalroado pelo Feilpe. Vivo em Braga e conheço bem o local onde se situa o estádio, encontrando-me em boas condições para confirmar a análise do Manuel Queiroz. O Raphinha, com efeito, não se dirigia para a baliza mas para uma loja da Decathlon, que fica perto. Não tenho nenhum problema que o jogo seja comentado por um adepto do Porto. Convém, no entanto, reforçar-lhe o superego, para que as pulsões subterrâneas do id não se manifestem de forma histriónica, pelo menos. É perguntar-lhe se é adepto do Porto umas tantas vezes antes do jogo e verificar se a agulha do polígrafo se mexe quando o procurar negar outras tantas. 

A primeira parte acabou por ser um passeio. O Porto construiu uma jogada de perigo e o Sporting cinco. Na segunda parte, o jogo mudou de figura. Condicionando por um amarelo, o Acuña foi substituído pelo Jéfferson. Compreendo os cuidados do Marcel Keizer, mas tenho as mais sérias dúvidas sobre os efeitos, dado que o Jéfferson costuma contar para o lado do adversário. A equipa fica na mesma a jogar com dez e vê o adversário superiorizar-se em número não numa mas em duas unidades. Como disse o Sérgio Conceição na conferência de imprensa, os jogadores do Sporting quebraram o ritmo de jogo. Esqueceu-se foi de explicar que quebraram o ritmo do jogo ao mesmo ritmo que os jogadores do Porto lhes iam quebrando a cana do nariz, transformando os primeiros vinte minutos numa episódio da Anatomia de Grey. Esta parte do jogo foi a mais apreciada pelo Frederico Varandas, como se notou pela forma empolgada como nos descreveu detalhadamente as alterações anatómicas das fossas nasais do André Pinto e do Petrovic, no final do jogo. 

Passados esses vinte minutos, então, sim, o Porto pegou no jogo ou, dizendo de outra forma, adiantou mais o Alex Telles e passou sempre a entregar a bola ao Brahimi para lhe fazer o que entendesse, porque ele entende como nenhum outro jogador dentro de campo o que se deve fazer com ela. Nessa altura, valeram-nos mais os jogadores do Porto do que os do Sporting. Percebeu-se que estava à espera que os segundos o atrapalhassem, mas ficou surpreendido por o atrapalharem os primeiros também. Num desses momentos de atrapalhação atacante, depois de um remate do Herrera, a bola ressaltou num tufo de relva, ressaltou no peito do Renan Ribeiro, ressaltou no pé do Marega, ressaltou na perna do Renan Ribeiro, ressaltou no pé do Fernando Andrade e entrou na baliza. O golo e os minutos que se lhe seguiram pareciam confirmar que o jogo estava decidido, apesar de duas substituições de sentido contrário: entrou o Diaby e saiu o Gudlej, no Sporting, e entrou o Danilo e saiu o Corona, no Porto. Os jogadores do Porto retinham a bola no meio-campo do Sporting e continuaram a insistir no ataque. 

De repente, tudo mudou: o Bruno Fernandes recebe a bola e de imediato faz um passe de trinta metros a rasgar a defesa do Porto e a desmarcar o Nani, que parte uma e outra vez os rins aos Militão, por quem nunca tinha passado no resto do jogo, e centra para um cabeceamento do Bas Dost em basculação ao lado. Os do Sporting acreditaram e os do Porto recearam e recuaram. O Jéfferson desmarca-se do lado esquerdo e centra (mal), safando o guarda-redes em cima da linha de baliza para canto. O canto sai mal mas a bola continua viva. O Jéfferson centra outra vez (mal) a bola bate num defesa e o Militão vai à linha de fundo evitar novo canto e alivia de cabeça para a entrada da área onde o Herrera ganha a bola para o Óliver que, à beira de um ataque de ansiedade, tenta-se ver livre dela de qualquer maneira e enfia uma biqueirada no Diaby. O árbitro, que estava a receber o troco das compras na loja da Decathlon, onde tinha ido com o Raphinha ainda na primeira parte, não vê, esquecendo-se, no entanto, que o “Big Brother was watching him”. “Penalty”, Bas Dost a olhar para o chão, remate para o meio da baliza com o guarda-redes a atirar-se para a esquerda e golo do empate. Logo a seguir o Bruno Fernandes faz um passe extraordinário sobre a defesa do Porto, desmarcando o Raphinha que, na cara do guarda-redes, não lhe consegue desviar a bola, batendo-lhe no tronco e saindo pela linha de fundo (para canto que o árbitro, livre do “Big Brother”, não assinalou). 

Nos “penalties”, o Porto teve a sua oportunidade de passar para a frente, mas o Militão optou por um golo de Super Bock. O Bruno Fernandes marcou a seguir como só ele sabe, entregando ao Renan Ribeiro e à sua dança o destino do Porto. O Renan Ribeiro defendeu o remate do Hernâni e, quando o Nani marcou a seguir, o Felipe foi para a marca de “penalty” com mais medo de falhar do que vontade de marcar. Tentou colocar a bola ao ângulo superior direito com tal precisão que, como acontece nestas circunstâncias, acabou por acertar na barra. 

Afinal o jogo não tinha sido uma formalidade e era necessário encontrar desculpas. Vieram em catadupa dos comentadores e do Sérgio Conceição: a sorte, o azar, o domínio, a atitude, explicando que o “penalty” nos caiu do Céu e, por oposição, o golo do Porto de um lance estudado e recheado de pormenores de elevada craveira técnica (que deve ter caído do Inferno!). O Sérgio Conceição está habituado a impor o seu jogo, porque as equipas contra as quais se bate são quase sempre muito fracas. Quando o adversário se equivale mais em termos físicos, técnicos e táticos é preciso conhecê-lo melhor, porque, quando não se conhece como se conhece a sua equipa, ganha-se mas também se perde. Contrariamente às minhas expetativas, o treinador do Sporting parece ter lido a “Arte da Guerra”, de Sun Tzu. A sua equipa pareceu sempre conhecer-se tão bem a si própria como ao adversário, nas suas fraquezas e nas suas forças, estando assim mais próxima de ganhar sempre. 

“É verdade que com frequência, em política, se aprende com o inimigo” (Lenine). Esta tem sido a orientação de Marcel Keizer no Sporting, que se poderá designar por Keizerismo-Leninismo. A continuar assim transformar-se-á no melhor “Treinador Português”, apesar de os comentadores serem defensores, e bem, que esta Denominação de Origem Protegida (DOP) só possa ser atribuída à produção nacional. A contrariedade foi tanta, deles e dos nossos adversários, que, uma competição sempre desvalorizada, parece transformada na Liga dos Campeões.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O Poema das Coisas Belas

“Estou a ver o jogo na SPORTTV. Parece que estou a ver o jogo do Sporting contra o CSKA transmitido por um canal russo”; foi a mensagem que recebi de um amigo mal o jogo se tinha iniciado, quando ia a meio da A1 de regresso a casa. O Sporting tinha perdido o jogo antes de se iniciar e o primeiro golo serviu para cumprir a profecia de que “seríamos goleados” do Joaquim Rita. A narrativa, como agora se diz, tinha sido preparada com antecedência e o jogo servia para a densificar com pseudo-pormenores técnico-táticos até ao corolário dos comentadores atuais: “estão a ver que não precisamos de jogadores e de bola e que nos bastamos a nós próprios!”. 

O futebol e, muito menos, o futebol português não merece o Poema das Coisas Belas, do António Gedeão, mas não me ocorre muito mais. O poema é muito melhor do que vou dizer. As coisas só são belas quando as atendemos como tal. Não são os olhos mas a cabeça que vê o que se vê e, por isso, não gostamos do que não entendemos, por preguiça ou preconceito. Por ter praticado algum desporto e por gostar de desporto, não percebo as pessoas que veem um jogo de futebol para ter razão. O jogo vê-se para ser apreciado. Nem os treinadores nem os jogadores veem o que vemos. Para nós, o Douro é uma excelente paisagem, enquanto para um agricultor são vinhas. É preciso distanciamento para ver a paisagem onde estão vinhas e tão só. 

Pelo resumo, o jogo de ontem foi uma chatice. Aparentemente, o Braga teve mais bola, mas as oportunidades de golo não se viram. O Braga tem o golo, uma oportunidade logo a seguir e um cabeceamento à barra, na segunda parte. O Sporting tem o golo e duas oportunidades do Raphinha que o antecederam. Para noventa minutos de duas das melhores equipas portuguesas é pouco, muito pouco. Salvaram-se os “penalties” e os anti-heróis, o Renan, o Ristovski e o Jéfferson. 

O que faltou em futebol sobrou em berraria. Sempre conhecemos esta competição como a Taça Lucílio Baptista. Sem VAR, assistiu-se a um dos maiores esbulhos do futebol português. Com VAR, os erros pagam-se mais caro. Ontem, o erro, o maior erro, foi o do árbitro não ter assinalado de imediato a falta sobre o Acuña. O erro seguinte em dimensão foi o do “penalty” não assinalado por agarrão ao Coates. Estes erros seguem um padrão: na primeira instância, o árbitro, por ação ou omissão, decide sempre contra o Sporting, sendo obrigado, em parte, a corrigir o erro por intervenção do VAR. Este padrão também existiu na “final four” da época passada (lembrem-se do “penalty” marcado contra o Setúbal na final e do “penalty” não marcado depois de falta do Danilo sobre o Bas Dost na meia-final). O que nos disseram ontem o treinador do Braga e o seu presidente, como no dia anterior o treinador do Benfica e o seu presidente, é que devemos voltar ao tempo do Lucílio Baptista. O que nos dizem os comentadores do costume é que fomos gamados mas ainda devemos ficar agradecidos, porque nesses tempos, quando as profecias se realizavam, é que era bom e teria sido bem pior ainda.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Contratos no gavetão das meias

Há muito tempo que não lia um romance de aventuras. Acabei de ler o último episódio da saga de Lorenzo Falcó, espião falangista, escrito pelo Arturo Pérez-Reverte. Os republicanos procuram transportar num cargueiro ouro do Banco de Espanha para pagamento de despesas de guerra aos russos, seus aliados. O cargueiro é interceptado por um contratorpedeiro da marinha aliada do General Franco, conseguindo fugir e refugiando-se em Tânger, sob jurisdição internacional. Há ação, muita ação, ninguém é o que parece, havendo espiões duplos em cada canto esquina, não faltando uma espia russa, que dá o título ao livro (“Eva”). Os personagens vão-se revelando ao longo do livro. Há heroísmo e cobardia onde menos se espera, há honra e respeito entre contendores, há inteligência a rodos, há amor impossível, tudo combinado em doses perfeitas de personagens densas. 

Passando dos anos trinta e da Guerra Civil de Espanha para a atualidade, leio que a mãe de um dirigente do Desportivo das Aves terá escondido uns contratos desse clube com o Benfica. Quando era miúdo, a minha mãe escondia, de mim e da minha irmã, bolachas e chocolates para que não os comêssemos de uma vez só. Bastava pensar como a minha mãe para descobrir o esconderijo, de onde ia subtraindo umas partes mas deixando sempre as embalagens incólumes para disfarçar. É esta minha experiência que me permite saber onde a mãe do dirigente do Aves escondeu os contratos. Não tenho dúvidas que os escondeu na cômoda do seu quarto, no gavetão das peúgas. As meias, verdades e mentiras, são o forte do Benfica. Isso sem heroísmo, honra e inteligência, passados quase cem anos da Guerra Civil de Espanha. Como diz um amigo meu, estas coisas só acontecem num país em forma de caixão, onde, digo eu, nem uma guerra civil em condições permitiu que tivéssemos o nosso Guernica.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Por milímetros!

Gosto de futebol. Gosto do Sporting. Mas tanto futebol e tanto Sporting cansa. Fui almoçar com um grande amigo e compadre e a minha afilhada. O almoço, tardio, alongou-se no tempo com as conversas que importam: a vida, a nossa vida, os filhos, a política e os livros. A conversa continuou em minha casa, aonde nos dirigimos para lhe emprestar um livro que lhe tinha sido referenciado. Celebrada a amizade, ainda fui ao Flávio a tempo de ver a segunda parte do jogo contra o Moreirense. O jogo servia para me entreter um bom bocado e prolongar a sensação bem descrita por uma grande filósofa dos costumes nacionais de que “estar morto é o contrário de estar vivo e vice-versa”. 

Esta visão da existência tem uma certa razão de ser, mas estar vivo também implica uma série de aborrecimentos como ver um jogo como o do Sporting x Moreirense. Como no circo, é importante que nos avisem quando o urso está constipado ou o trapezista partiu um braço. Mesmo que não cancelem o espetáculo, sabemos de antemão ao que vamos. Podemos querer ver somente os palhaços. Há quem goste e não os perca por nada desta vida, avisando também que vão atuar os irmãos Dalton acompanhados por um qualquer Rantanplan. É que, se fosse avisado, teria preferido rever a votação de braço no ar do Conselho Nacional do PSD para se saber se a moção de confiança devia ser votada de braço no ar ou por voto secreto. Foi um jogo muito mais bem disputado e envolvia, também, regras e árbitros. 

Os jogadores do Sporting iam trocando a bola atrás na expetativa do adiantamento dos do Moreirense para os pressionar, mas eles moita-carrasco, continuando a pressionar a saída da bola sem se aproximarem muito e mantendo-se unidos venceremos atrás. Sem movimentação dos médios, o jogo acabava invariavelmente por se esticar para um dos extremos, onde ou o Nani parava o jogo ou o Diaby tropeçava na bola. Recuperada a bola, os do Moreirense esqueciam-se da baliza e, durante quarenta e cinco minutos, por junto e por grosso, fizeram um único remate que resultou de uma biqueirada à toa cuja intenção era a de realizar um centro para a área, na melhor das hipóteses. 

Como não havia bola para ver, tive que me entreter com a arbitragem e com os comentários na SporTv. Mal comecei a ver o jogo, o Diaby foi derrubado à entrada da área. O árbitro não marcou falta e, apesar da repetição, não se ouviu qualquer comentário da SporTv. A seguir, o Nani faz uma cueca ao defesa direito e é derrubado, o árbitro não marca nada e na SporTv comenta-se que não podemos estar sempre a dizer que são marcadas faltas a mais e depois criticar o árbitro por não marcar aquela, assumindo que tinha existido. Pensei que a partir desse momento, mantivessem o mesmo tipo de análise. No entanto, nunca mais ouvi nenhum comentário coerente com a análise anterior. O comentário mais interessante foi mesmo o de uma entrada por trás às pernas do Raphinha de um jogador do Moreirense para parar um contra-ataque perigoso. Explicaram-nos que assim é que é e que assim é que deve ser e não vale a pena protestar, esquecendo-se que nestas circunstâncias, quando se faz um “tackle” por trás sem disputa da bola e para se acertar no adversário, o cartão a mostrar tem a cor da camisola do Benfica. 

O ponto alto desta rábula em que se transformou este jogo aconteceu aos oitenta minutos, quando, depois de uma biqueirada do Coates, o Raphinha se isolou, fintou o guarda-redes e marcou o terceiro golo. Não o tendo conseguido no jogo contra o Feirense, o árbitro embrulhou-se com o fiscal-de-linha e o VAR até conseguir o momento Lucílio Baptista por que todos anseiam. Nada que não estejamos habituados e, por isso, não se estanha. Na SporTv seguiu-se um momento Al-Qaeda do comentário futebolístico. O relatador gritava histérico: “O procolo! O protocolo!”. O comentador, um pouco mais distanciado, acabou por admitir que, por ele, não estava fora-de-jogo, contrariado de imediato pelo outro que gritava: “Os pés, são os pés! O tronco inclinado, é o tronco inclinado! Os braços, são os braços!”, embrulhando esta descrição de todas as extremidades anatómicas como o inevitável apelo ao protocolo. Se não tivesse respeito pelos leitores, explicar-lhe-ia qual foi a extremidade anatómica do Raphinha que ele viu em fora-de-jogo. Não sei se se tratou de um momento Al-Qaeda ou algo mais. Não sei se o VAR ouve aquela algaraviada e se se deixa condicionar na sua decisão. O que sei é que condiciona a opinião pública e, sobretudo, daqueles que estão a assistir à transmissão televisiva. 

Como não vi a primeira parte, decidi ver o resumo na SporTv+. Passado algum tempo e voltada a compostura, pensei que sobre aquele lance nos dissessem, pelo menos, que não se podia concluir nada. Afinal, não: o árbitro tinha decidido bem, embora o jornalista cheio de certezas nos dissesse também que “talvez os pés estejam ligeiramente adiantados”. O recurso ao advérbio é um hino ao jornalismo. Embora não seja dado às teorias da conspiração, reconheço que no futebol nacional o sistema se protege de múltiplas formas e segue uma sequência previsível. Hoje, n’ “A Bola”, um ex-árbitro, penso que aquele que se pegou à pancada com o Rui Patrício em Alvalade, diz-nos que o fiscal-de-linha, o árbitro e o VAR procederam corretamente, “apesar de termos visto duas imagens – nenhuma totalmente esclarecedora, porque ambas ligeiramente distintas -, a verdade é que ficámos com a sensação que o brasileiro estaria milimetricamente adiantado: se não pelo pé, pela inclinação do seu tronco no momento em que arrancou para a baliza adversária”. Ficámos a conhecer, assim, a sua milimétrica sensibilidade, uma sensibilidade que consegue alcançar menos de um centímetro à distância se não de uma pelo menos de outra qualquer extremidade anatómica e que se transforma em certeza no momento seguinte. 

Está na altura de a Direção do Sporting, admitindo que exista, ter um conversa muito séria com a SporTv. As pessoas, sportinguistas, benfiquistas e portistas, assinam aquele canal e pagam pelo serviço. Se querem comentários daqueles têm alternativas mais baratas e que ninguém tem dúvidas sobre a sua linha editorial, como a BenficaTv, o Porto Canal ou a SportingTv. A SportTv pode não fazer comentários sobre arbitragens durante os jogos, fazendo-o de forma autónoma e detalhada noutro programa qualquer. Se os faz, então deve fazer de todos os lances e, em particular, da coerência da arbitragem nas decisões que envolvem interpretação por alguém que perceba do assunto. No café onde vejo os jogos do Sporting, encontram-se três ou quatro sportinguistas, cerca de uma dezena de benfiquistas e um número idêntico de adeptos do Braga e do Porto. Não ouço desses adeptos das equipas adversárias o que ouço na SporTv, havendo um acordo tácito entre nós, que mal nos conhecemos, sobre a civilidade como nos relacionamos enquanto vemos os jogos dos nossos clubes ou dos clubes adversários. Essa civilidade está sempre em risco quando ouvimos o que ouvimos na SporTv. Gostaria de continuar a assistir tranquilamente aos jogos com os meus vizinhos sportinguistas, benfiquistas, portistas e “braguistas”. 


(N’ “A Bola”, o referido ex-árbitro afirma que há razões para marcar “penalty” contra o Sporting por falta do Acuña. Estou de acordo com ele. É pena que não esteja completamente de acordo noutro lance, para além ainda daquele que refiro no corpo do texto. Afirma que houve falta sobre o Bas Dost embora fora da área no lance que antecede o golo do Moreirense. Estou disposto a concordar com ele, apesar de nos andarem sempre a explicar que as faltas devem ser marcadas no local onde se concluem e não onde se iniciam. Só não estou de acordo completamente, porque estranhamente se esqueceu de referir que se era falta então devia ser marcado o correspondente livre e o defesa devia ser expulso. Detalhes e nada mais)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Atitude, alucinação e coerência

A equipa começa a apresentar sinais físicos de desagaste com tantos jogos seguidos e eu também. A equipa chegou atrasada ao jogo contra o Tondela e eu, ontem, também. Como de costume, entrei com o pé direito no Flávio e foi logo golo do Bas Dost, fazendo um duplo pé direito, mas afinal não tinha valido. O árbitro marcou falta, bem, falta de (deixa cá ver…) atitude. Sou favorável ao controlo anti-doping da arbitragem. É verdade, fumei coisas maradas quando era mais miúdo. Fumei mas não inalei, eu e outras pessoas especialmente recomendáveis como o Bill Clinton. Não é por isso que deixo de conhecer bem os sintomas. Uma vez, uma amiga minha, muito bonita por sinal, chegou-me a dizer que era um homem belo ao mesmo tempo que gritava para fugirmos que vinha a correr atrás de nós uma aranha gigante com a cabeça do Álvaro Cunhal adornada com o bigode do Chalana. Na ausência de VAR, percebe-se a intenção da Federação Portuguesa de Futebol de escolher um árbitro cujo nome comece por vê. É o mais parecido que se consegue arranjar. No entanto, esta boa ideia pode ser debalde se o árbitro estiver sempre a ver espécies da família dos aracnídeos com cabeça de políticos, de quem o país está mesmo a precisar para se acabar com a rebaldaria, disfarçada com excrescências capilares faciais de jogadores de futebol dos anos setenta e oitenta. Não foi somente neste lance que o árbitro marcou falta de atitude, sobretudo aos jogadores do Feirense. Para o árbitro, os jogadores, embora enfiando as suas caneladas, estiveram muito aquém do desejável, não merecendo qualquer cartão amarelo e gerando, desta forma, elevados custos reputacionais para um Aly Ghazal, por exemplo. 

Na segunda parte, o cerco apertou-se e os jogadores do Feirense foram-se amontoando em trinta metros do seu meio-campo, saindo em transições diretas para fora, para os defesas do Sporting e, com mais profundidade ainda, para o próprio Salin. O cerco tardava a dar resultados devido a um campo eletromagnético que se situava próximo da baliza, fazendo suspeitar que o Fernando Santos tivesse andado por ali com as suas mezinhas. Foi ele o responsável por desviar remates do Bas Dost, quando tudo levaria a crer que até o Castaignos marcaria golo, do Nani ou do Bruno Fernandes. Os golos do Sporting só se conseguem explicar por algum curto-circuito. O Wendell recebeu a bola do lado direito do ataque próximo da grande área, simulou que rodava para fora, rodou para dentro, enquadrou-se e meteu a bola na gaveta. Logo a seguir, depois de um canto, a bola sobrou para a entrada da grande área onde apareceu o Bruno Fernandes a fazer um remate furioso que o guarda-redes procurou defender depois de a bola ter saído da baliza. Em qualquer dos casos, houve falta de atitude não assinalada pelo árbitro, dado que o Bas Dost se encontrava às cavalitas dos defesas a abanar os braços como se estivesse num concerto dos Guns N' Roses ou dos AC/DC. 

Depois do dois a zero e estando há cerca de meia hora a aboborar na sua área, o Salin pediu ao Marcel Keizer e à sua defesa maior sentido de compromisso com a equipa (adversária, claro está). O treinador fez as substituições que se impunham para esse efeito e os defesas passaram a colaborar ativamente nas jogadas de ataque do Feirense. Com a saída do Mathieu e a entrada do André Pinto, o Coates sentiu-se em muito melhor companhia e foi o mais esclarecido, fazendo de imediato o que tinha de ser feito. Para não se perder tempo, passou a bola a um adversário à entrada da área, o adversário fez-se rogado e tirou-lha para a entregar a outro, o outro não se mostrou afoito também e tirou-lha para a entregar a outro, o segundo outro fez cerimónia e tirou-lha para dar ainda a um terceiro outro, que, para o evitar, finalmente rematou para defesa do Salin. Até acabar o jogo, o Salin fez mais um par de boas defesas correspondendo assim a excelentes iniciativas atacantes dos jogadores do Feirense e da sua defesa em conjunto. 

Acabado o jogo, regressei a casa ainda a tempo de ouvir os comentários da RTP3. Estava um senhor de meia-idade, a atirar para o forte, com barba grisalha aparada e cabelo castanho-avermelhado, mais ou menos da mesma cor de uma tinta de zircão que utilizei para dar uma primeira demão num portão da casa de Bucos, em Cabeceiras de Basto, a criticar o Marcel Keizer pelo jogo contra o Porto. Não estranhei. À sua maneira, o que estava era a elogiar o jogo contra o Feirense. Foi bom ouvir esse elogio ao nosso treinador no mesmo dia em que o seu desempenho foi equiparado ao do grande e inigualável José Peseiro. Está na altura de se comparar o seu desempenho com o do Del Neri no Porto, despedido quando se encontrava com os mesmos pontos do primeiro. Na época de 2004/2005, projetando-se os resultados até então obtidos, se não o tivessem despedido, o Porto teria sido campeão. Seria campeão “ex aequo” com as restantes equipas, mas, mesmo assim, campeão. Os erros pagam-se caro e o Benfica acabou por ser campeão nessa época. Corremos sérios riscos ao despedir o José Peseiro. Ainda bem que contratámos outro treinador que é tão bom como ele. 

Com estes elogios todos, os comentadores não encontraram razões neste jogo para criticar o Marcel Keizer. Não estiveram bem. Não se pode aceitar que um treinador diga que prefere ganhar três a dois a um a zero e, depois, ganhe dois a zero sem sequer uma palavrinha para nos explicar porque é que preferiu este resultado ao seis a quatro que impõe a sua própria filosofia de jogo. Exige-se coerência aos treinadores entre o discurso e a sua prática.