terça-feira, 3 de março de 2026

Não se deve ter um campeonato quando se pode ter tantos quantas as equipas

Não se consegue acompanhar o ritmo alucinante, estonteante dos acontecimentos no futebol português. Explicando melhor, o ritmo dos jogos do futebol português aguenta-se muito bem ou não tivessem atingido patamares de excelência jogadores velozes e intensos como o Pedo Barbosa ou o Fábio Rochemback; o que não se acompanha é o ritmo das notícias, um autêntico corrupio de ninharias embrulhadas em papel cuchê que constitui um festim para qualquer comentador ou analista mais ou menos encartado. Para dar um só exemplo, o José Mourinho constitui o Pedro Passos Coelho com mais [muito mais] cabelo, não há dia em que não se procure compreender o que possa estar a pensar por franzir o sobrolho ou por dizer seja o que for [que ele diga].  

Quando um canto erradamente assinalado contra o Santa Clara no estertor do jogo permitiu a vitória do Sporting, clamou-se pela necessidade de a arbitragem perscrutar melhor, muito melhor, esmiuçando até ao tutano cada jogada, cada lance, não fosse o diabo tecê-las. No jogo [do Sporting] contra o Famalicão, o videoárbitro perscrutou e perscrutou muito bem [assinalando uma falta e, assim, anulando um golo], clamou-se, então, que não senhora, rever é uma coisa, perscrutar é outra [completamente diferente]. Ver, ver com olhos de ver, é apenas para os árbitros e, no jogo do Porto contra o Arouca, assim foi: o árbitro viu o que ninguém viu e o videoárbitro reviu e, revendo, não viu, confirmando um “penalty” no estertor deste jogo também.

Não se conseguindo um entendimento que dure mais do que uma jornada, o Benfica apresentou uma proposta disruptiva, um verdadeiro corte epistémico. Cada clube analisa a arbitragem dos seus jogos e dos seus rivais e vai fazendo a respetiva contabilização dos benefícios e prejuízos. A partir dessa informação e com recursos ao Método dos Mínimos Quadrados Ordinários, estima a pontuação e, assim a classificação de cada clube. Mais canto, menos canto, mais “penalty”, menos “penalty”, são estas as contas do Benfica: Porto em primeiro, com 63 pontos; Benfica em segundo, com 61 pontos, mas um jogo a menos; Sporting em terceiro, com 55 pontos. 

Com a vitória de ontem contra o Gil Vicente, o Benfica passaria para primeiro, com 64 pontos, não fosse o Porto considerar um canto, um livre ou um fora-de-jogo mal marcado, pouco importa, voltando tudo ao mesmo. Não se obtém uma classificação final, mas, antes, tantas quantas os clubes que recorram a estes modelos econométricos, isto é, ninguém ganha, ninguém perde, antes pelo contrário. No limite, todos os clubes poderiam acabar o campeonato com zero pontos, dependendo da arbitragem, embora ainda não se tenha encontrado solução para a distribuição do total dos pontos, que pode variar entre os 306 [todos os jogos acabam empatados] e os 918 [todos os jogos acabam com um vencedor e um vencido].

Estes prolegómenos tinham um e um só objetivo: ganhar balanço, imaginação para escrever qualquer coisa sobre o jogo [do Sporting] contra o Estoril. Ganhámos por três a zero, é o que me ocorre dizer, depois de pensar, pensar bem na arbitragem e nos cantos, livres ou pontapés de baliza que assinalou. O Luiz Suárez marcou os dois golos iniciais, o primeiro com a sola da chuteira, o segundo meio com a canela, meio com o peito do pé, depois de receber a bola com a ponta da chuteira. Num último fôlego, o Daniel Bragança marcou o terceiro, depois de uma bela desmarcação e de uma melhor assistência do Nuno Santos, dois dos nossos 358 enfermiços habituais. Como veem, o futebol, o futebol propriamente dito, com bola e tudo, tem muito pouco interesse, muito pouco que se lhe diga, um aborrecimento, enfim.