terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Mais fluoxetina para melhorar a autoestima sportinguista

Não sei se a autoestima dos sportinguistas anda pelas ruas da amargura ou se é congénita, isto é, se ser-se do Sporting implica baixa autoestima. Acabado o jogo contra o Porto, regresso a casa ainda a tempo de ver um adepto a dizer que a equipa tem um problema de atitude. A partir daí foi um chorrilho de autocrítica sobre a eficácia, a qualidade dos jogadores e, inevitavelmente, o Varandas e a preparação da época. A autoestima é tão baixa que aceitamos todas as narrativas sobre o jogo como se nem o tivéssemos visto. Deixo cinco notas que permitem a um sportinguista com adequada autoestima aguentar este resultado e preparar-se para o jogo contra o Benfica. 

[O conceito de arriscar demasiado] 
No sábado à noite, no meio de mais um “zapping”, ouço um senhor comentador com o cabelo pintado de cor de ferrugem a analisar o triplo ou o quádruplo “penalty” do Ruben Dias num só lance, afirmando que se trata de um jogador que arrisca muito e que naquele lance tinha arriscado demasiado. Se bem percebo a semântica, o Ruben Dias é como aquele condutor que excede sempre os limites legais de velocidade na expetativa de não ser apanhado pelo radar ou pela própria polícia de trânsito. No futebol não é aleatória a presença de radar ou de polícia de trânsito: não há jogo se não houver essas condições. O Ruben Dias não arrisca nem deixa de arriscar, infringe a regras de jogo perante a complacência dos árbitros que veem o que todos vemos e fazem de conta que não estão no estádio mas, por azar, escondidos na berma da Estrada Nacional Nº2. 

[Quem não arrisca não petisca e o petisco sai sempre aos mesmos] 
Não se petisca se não se arrisca e não há domingo sem sábado. Havendo risco e petisco no sábado, também haveria no domingo, estava bom de ver, quando se tem o mesmo árbitro que ainda há uns meses validou um golo com a mão ao Porto na Final da Taça de Portugal. Como também não há segunda sem domingo, li a análise efetuada por um ex-árbitro n’ “A Bola” a dois lances do Alex Telles, um que deveria ter originado um “penalty” e outro o segundo amarelo e consequente expulsão. Na análise recorre-se outra vez não às regras de jogo mas ao Código de Estrada: o Alex Telles arriscou demasiado também. Se continuo a perceber a semântica, os jogadores deixaram de fazer faltas e passaram a arriscar. Vamos admitir por um só momento que a situação era exatamente a inversa: o Acuña arriscava demasiado duas vezes e no final o Sporting ganhava dois a um. Alguém estaria a falar noutra coisa se não nisso e isso ainda seria qualificado como "arriscar"? É verdade que a situação é hipotética. O Acuña mesmo sem arriscar nada levou um amarelo, não fosse pensar que podia arriscar alguma coisa. 

[A eficácia de uns e a falta de eficácia de outros] 
Os resultados no futebol não encerram nenhum dilema moral. Quem ganha merece ganhar porque, de outra forma, não se tratava de futebol mas de patinagem artística. Outra coisa bem diferente é encontrar explicações “a posteriori” para os resultados. A explicação encontrada foi a da famosa eficácia e da sua relação com a qualidade dos jogadores. O Soares foi eficaz e o Acuña também. Quanto ao Marega, este sim, encerra em si mesmo um dilema que deixa perplexos os adversários e mais ainda os seus colegas de equipa: nunca se sabe para que lado ele não vai conseguir dominar a bola e se para esse (não) efeito recorre ao fémur, à tíbia ou ao perónio da perna esquerda ou direita. O Marega mais uma vez não conseguiu dominar a bola, perdeu-a e, com isso, acabou por a meter dentro da baliza. Nos manuais das melhores universidades e no Canal 11, da Federação Portuguesa de Futebol, qualifica-se este tipo de situação como “piço do caraças”. Em conclusão, o Sporting e o Porto foram igualmente eficazes só que o segundo teve um “piço do caraças”. 

[A ironia do Sérgio Conceição] 
O Pinto da Costa sempre teve sentido de ironia e as suas declarações marcaram o estilo do Porto até hoje. Ninguém se esquece da sua resposta, quando interpelado por um jornalista para análise de um lance em que o velho João Pinto aliviou a bola contra a barra da sua própria baliza, que ele assim terá procedido para evitar ceder canto. É neste registo irónico que compreendo a afirmação do Sérgio Conceição de que o primeiro golo do Porto resultou de um lance estudado. Admito que lhe tenham perguntado como é que explicava o facto de o Marega não conseguir dominar uma bola e, às vezes, ao perdê-la acabar por marcar golo. Sem o registo irónico, a afirmação é desprovida de sentido. Se o Marega treinasse afincadamente a receção de bola, deixaria de ser imprevisível e não mais conseguiria marcar golos ao perdê-la, depois de lhe tocar com a extremidade anatómica mais improvável. 

[A tática, sempre a tática] 
O treinador da equipa que ganha tem sempre razão. Outra coisa bem diferente é encontrar razão (racionalidade) no que faz como forma de explicar o resultado. O Porto não ganhou o jogo porque entrou o Luiz Dias. O Porto ganhou o jogo porque o Soares marcou o segundo golo, depois de um canto bem marcado pelo Alex Telles que encontrou o Doumbia a dormir. O Sporting entrou muito bem na segunda parte e dominou durante vinte a vinte cinco minutos, criando diversas oportunidades de golo. Não marcando, quando a pilha se esgotou, o Porto equilibrou o jogo e num lance de bola parada marcou (nestas circunstâncias foi eficaz). Depois do segundo golo, o jogo nunca mais foi o mesmo. Não se pode analisar o que se passou a seguir com a mesma grelha de leitura do que se passou antes. Os lances criados pelo Luiz Dias foram depois do segundo golo e não antes. O Silas não reagiu mal. Perdido por cem, perdido por mil, desmontou a equipa e apostou em partir o jogo, arriscando os contra-ataque do Porto, mas tentando numa ou noutra situação apanhar o adversário desequilibrado e em desvantagem numérica. A intenção tinha a sua razão de ser: o Porto tem muitas dificuldades em controlar o jogo com bola. Esqueceu-se foi que para esse efeito estava lá o árbitro. Depois desse golo, foram marcadas mais faltas do que no resto do tempo e, assim, o jogo não se partiu, embora o Sporting ficasse mais exposto defensivamente.

13 comentários:

  1. Caro Rui Monteiro,
    Excelente análise. O Sporting poderia e deveria ter vencido o FCP. Jogando assim e mesmo com mais uma arbitragem expectavelmente habilidosa, o Sporting poderá vencer o Slb mas é preciso que Doumbias e cia não adormeçam. Força Sporting!
    SL

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    1. Meu caro,

      Não é por este jogo que andamos deprimidos. Porventura, o principal problema foi a falta de alternativas no banco. A pressionar alto como estava o Sporting, para obrigar o Porto a sair ao pontapé para a frente, mais tarde ou mais cedo os da frente iriam dar o berro e o jogo iria-se equilibrar.

      SL

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  2. Caro Rui,

    Não embarco nas versões dos comentadores e dos rivais, o que vai dar ao mesmo. Mas olhar um pouco para dentro será menos um embaraço à verdade: falhamos. Por exemplo o piço do Marega acontece porque a malta estava a assistir às coreografias dos Super Dragões. Falhar assim até terá um nome. E não será certamente o do árbitro.

    Um abraço

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    1. Caro Gabriel,

      Não acho que o Sporting tenha perdido pela defesa. O Sporting perdeu o jogo no ataque porque com o Vietto, o Bolasie e o Luís das consoantes dificilmente marcaríamos um golos num jogo destes. ~

      Acho também que andamos num estado de anomia tal que aceitamos sem mais a narrativa alheia. Como é que alguém diz que uma biqueirada para a frente, para as cosas da defesa, lance que se repete em cada jogo mais de uma dezena de vezes, é um lace estudado? Como é que alguém afirma que por meter um jogador passado um par de minutos outro mete golo num lance de bola parada? E do árbitro, ninguém fala?

      Um abraço,

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  3. Caro Rui Monteiro,
    O jogo não estava ainda bem acabado e já eu estava num outro site "qualquer" (tão qualquer quanto o seu...) e, enquanto tinha as ideias frescas e o meu interior a ferver e, se a memória não me trai, vimos exactamente o mesmo jogo! O Sr Jorge Sousa sabe-a toda mas não sabe que eu sei disso.
    Enganou muita gente mas não a mim! Sem me avançar muito nos pormenores que eu observei apesar de os ter visto numa má imagem de computador ele tinha a cara de alguém com dificuldade de cumprir a missão. Há quem lhe chame cara de hemorróide. Ou de embaraço. Achei curioso (mas "à la longue je m'habitue) que os árbitros para certos jogos sejam nomeados pelas equipas principais nesses confrontos. Gostei muito da figura do Acuña ter "arriscado" e só já não me lembro se levou antes o tal amarelo disuasor.
    Para o ano vai haver de novo São João e creio que será feriado em Braga à semelhança de Mire de Tibães.

    SL c/ abraço

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  4. O Sr JS poria mais um "s" no disuasor para dissuadir (=amedrontar) um pouco mais ou então iria passar o tempo a falar com o Acuña como fez com o Bruno Fernandes para o distrair. Deus saberá em que língua.

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    1. Caro Aboím Serôdio,

      Estamos cansados disto. Como diz, é chuva em novembro, Natal em dezembro. É sempre o mesmo e pelos mesmos. É interessante verificar o critério do árbitro a marcar faltas e faltinhas depois do dois a uma para o jogo não andar depois de fazer vista grossa ao penalty e ao agarrão do Alex Telles. De repente, o homem passou a ver tudo mesmo o que ninguém viu.

      SL

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  5. O Rui Monteiro é dos poucos bloggers consensual no Sporting, não que tente agradar a gregos e troianos, mas sim, pela maneira peculiar com que aborda os jogos. Dá-lhes lustro! Põe a malta a rir por bons motivos.
    Vou aguardar a sua crónica do Sporting x Benfica. Já soube que Vietto, Coates, Phellipe e Bruno Fernnades não vão falhar desta vez.
    Olhe que nunca joguei no Euro- milhões!

    João Balaia

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    1. Obrigado João.

      Este foi um jogo-treino para o jogo que interessa contra o Benfica. Não nos saímos completamente para treino. O nosso desígnio é estragar-lhes a festa como no ano passado para a Taça com o o rapaz que vale tanto como o PIB nacional.

      Também me parece que, se tudo correr bem contra o Braga, vamos acertar o passo aos do Porto na Taça da Liga.

      SL

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  6. Caro Rui. Excelente colocação dos 5 pontos de reflexão. Como se diz por aqui "estamos juntos". Mas noto que quer com BC que com FV o Sporting continua a ser o "patinho feio" do campeonato. Perguntas: porque é o ultimo dos três grandes? (ja que ninguém se mete assim com Braga ou Guimarães por exemplo). Será porque somos mansos a exigir respeito? Será por falta de capacidade de exigir mais verdade desportiva? Será porque temos cancros internos que não nos deixam crescer apesar da verborreia?
    Já o disse: Apesar das falhas infantis, apesar do lugar no campeonato, apesar das limitações do treinador (embora aqui eu seja mais "soft" pois sou apenas "daqueles da bancada"), apesar de erros clamorosos de casting (E eu acho que Dumbia pode vir a ser um grande jogador) ... eu insisto que a jogar como nos dois últimos jogos, o Sporting não fica a dever nada a nenhuma equipe do campeonato português

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    1. Caro Sol Carvalho,

      Somos todos treinadores de bancada como somos escritores de bancada ou cineastas de bancada. Gostamos de futebol, gostamos de livros, gostamos de cinema há anos.

      O futebol português é assim desde os anos 80 pelo menos (anteriormente não tenho memória), como se verificou no Apito Dourado. O problema é que nada aconteceu. Os árbitros e dirigentes envolvidos continuaram a vidinha como se nada fosse. Os que não continuam, foram promovidos e passaram a observadores ou a comentadores. Os árbitros e todos os envolvidos não conseguem funcionar de outra maneira e, perdida a hegemonia do Porto, passaram-se para o Benfica, como o demonstra o caso dos emails, com mais árbitros à mistura. Num país com uma imprensa livre e sem fanatismos, haveria uma opinião pública que não permitiria que a vergonha se reproduzisse ano após ano. Não havendo, vão-se construindo as narrativas que permitem legitimar quem ganha mesmo com batota.

      O BdC, a meu ver, perdeu uma grande oportunidade de mudar alguma coisa. Quando começou a revelação dos emails devia-se ter recusado a participar no campeonato. A única forma de mudar as coisas é pressionar o poder político, sobretudo quando se tem cerca de 2 milhões de adeptos e potenciais eleitores. Se tivesse constituído uma frente com o Porto nessa altura e tomassem essa decisão em conjunto, penso que as coisas podiam ter mudado.

      Como se viu neste jogo e se vê em muitos outros, época atrás de época, nem sempre o Sporting tem piores jogadores e treinadores. Para dar um exemplo: se tivéssemos a defesa do Benfica seria um terror. No Benfica, tanto podem jogar estes como outros que não há ataque que resista ao Ruben Dias hoje como ontem ao Luisão (na primeira disputa de bola estão logo a apanhar). Os últimos dois campeonatos que o Sporting ganhou foram em circunstâncias muitos especiais, com sorteio dos árbitros e o Pinto da Costa e o Valentim Loureiro, quem detinha o poder, em guerra aberta. Nessa altura o sistema desregulou-se e tivemos oportunidade de ganhar e ganhámos.

      Um abraço

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    2. Concordo com Sol de Carvalho que leio noutro blog : Doumbia tem pinta e com 21 anos mais"traquejado" vai ser um grnade jogador, tão Grande como o Gedson Fernandes, ate tem o mesmo penteado. No entanto Doumbia nunca valerá os tais 70 milhões; 10 a 15 e é um pau.
      Gedson esta a construir uma grande carreira no Banco do SLB,só para os privilegiados.

      João Balaia

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