segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Quanto melhor, pior ou quanto pior, melhor?

A última semana futebolística não é simples de analisar. Não é simples de dizer de que cor eram as camisolas de uma equipa ou da outra como também não é nada simples indicar em que sentido é que cada uma das equipas devia correr e, assim, de que lado ficava a baliza de uma e da outra equipa. Há gente que acha coisa diversas: que quanto pior, pior; quanto melhor, melhor; quanto pior, melhor; ou quanto melhor, pior. No fundo, no fundo, não é simples dizer quem ganhou ou não ganhou pois não existe um entendimento comum sobre o que é ou não é uma vitória ou se uma vitória pode ser uma derrota e vice-versa. 

Há quem ache que chamar “maricones” a um jogador adversário é melhor do que lhe chamar “mono”, que são os mesmos que acham que é pior chamar “mono” a um jogador adversário do que lhe chamar “maricones”. Para estes, se se chamar “maricones”, ganha-se, se se chamar “mono”, perde-se e vice-versa. Há quem ache exatamente o contrário e para estes, se se chamar “mono”, ganha-se, se se chamar “maricones”, perde-se. Mas cada um atribui o sentido que entender à expressão “melhor” ou à expressão “pior”: para alguns, quanto pior, melhor; para outros, quanto melhor, pior. É melhor ser racista ou homofóbico? É pior ser racista ou homofóbico? Não sei, ninguém sabe.

Acho [não me recordo de recorrer ao verbo achar, mas está-me a saber bem, muito bem mesmo] que se devia promover um dois em um. Há dias fui a uma loja de marca e tive um grande desconto na compra da segunda camisola. Saí da loja muito satisfeito com este negócio [embora mais tarde tenha ficado a pensar se a segunda camisola, a mais barata, teria grande utilidade]. Quem é racista também deve ser homofóbico para facilitar a constituição das equipas, escolher as camisolas e decidir o lado da baliza do adversário. De um lado, jogam os racistas e homofóbicos, do outro, os que não são racistas nem homofóbicos. Assim, sim, é possível chegar a um resultado, embora os segundos tenham [sempre] tendência para perder, pois têm menos “likes”, são mais sensaborões, aborrecidos.   

Mas quem ache [outra vez o verbo achar] que os problemas identificados se encontram resolvidos, está muito enganado. É que há quem ache que quem esconde as bolas quando está a ganhar e gama as toalhas do guarda-redes adversário é moralmente superior a quem chama “maricones” ou “mono” ao adversário, embora os que chamem nomes também digam que têm amigos negros e homossexuais. Com esta é que ninguém estava a pensar, com esta não há solução possível. De um lado, jogam os racistas e homofóbicos e, do outro, os que escondem as bolas e roubam as toalhas? E os que não são nem uma coisa nem outra, jogam contra quem? Jogam contra todos? É possível jogar contra todos? Ao mesmo tempo? Temos de confiar na FIFA e na UEFA para resolver problemas como este, pois um comum mortal, como eu e outros, não consegue por muito que pense, por muito que dê voltas à cabeça. 

Estava a esquecer-me: o Sporting ganhou ao Moreirense por três a zero. A teoria da fezada sofre um grande abalo. Fezada e três a zero não rima. Fezada e três a zero a jogar bem rima muito menos, mesmo que a afilhada do Rui Borges esteja a ver o jogo. Na época passada, achei que o Rui Borges foi muito sensato ao seguir as orientações técnico-táticas que o Morten Hjulmand lhe ia transmitindo [aparentemente, terá ficado com o Moleskine do Ruben Amorim]. Será que o Rui Borges nos enganou? Será que a afilhada não está relacionada com a fezada do último jogo? Será que ela é que tem o curso de treinador(a)? No Sporting, não seria a primeira, nem a segunda vez.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Fezadas e temas conexos

Os treinadores portugueses ou o treinador português, melhor dizendo, devia constituir-se como uma Denominação de Origem Protegida (DOP), uma Indicação Geográfica Protegida (IGP) ou uma Especialidade Tradicional Garantida (ETG). A afirmação "I think I'm a special one" do José Mourinho não passa de uma forma hiperbólica de reclamar este estatuto no contexto europeu. Há uma característica inimitável do treinador português que não é devidamente reconhecida, a fezada e a sua transformação em princípios tecno-táticos fundamentais do futebol moderno. O conceito é simples, mas de difícil aplicação bem-sucedida, ter uma fezada é ter confiança em algo sem que exista evidência [analítica ou empírica] que a sustente. 

O Rui Borges tem elevado a fezada [enquanto tecno-tática futebolística] à quinta potência. De memória, lembro-me dos jogos contra o Marselha, o Paris Saint-Germain ou o Atlético de Bilbau, por exemplo: cada um destes jogos não atava nem desatava e no seu finzinho o Rui Borges mete o Allison Santos, um rapaz do Leiria, e foi tiro e queda. Foi uma, foi duas, foi três vezes e a situação deixou de ser sustentável. Se a fezada resulta com [esta] frequência deixa de o ser, isto é, passa a existir evidência [empírica] e a fezada deixa de ser o que é, uma fezada. Deixando de ser útil para o Sporting enquanto fezada, a transferência para o Nápoles era inevitável e não, não se transferiu o Allison Santos, um rapaz do Leiria, o que se transferiu, aquilo que verdadeiramente vale o que o Nápoles pagou, foi esta fezada, uma fezada de créditos firmados na Liga dos Campeões. 

Sem esta fezada, os jogos continuaram a decidir-se nos últimos minutos, agora, pelo Luís Suárez. É difícil transformar o Luís Suárez numa fezada, atendendo a que não corre como se não houvesse amanhã, não mete os olhos no chão e [até] passa a bolas aos seus colegas. A controvérsia instalou-se, mas por pouco tempo, pois, no Domingo, no jogo contra o Famalicão, o Luís Suárez não podia jogar. Os jogadores estavam com a sua habitual modorra e o jogo foi-se arrastando, arrastando até se chegar aos últimos minutos e, como habitualmente também, lá se marcou o golo do costume. O marcador foi o Bragança, de cabeça, a saltar ao primeiro poste, a dar de raspão na bola e a enfiá-la no outro lado da baliza. 

Como ele próprio confessou, nunca tinha marcado um golo de cabeça e, assim sendo, concluo eu, também não sabia bem o que estava a fazer ao primeiro poste e, muito menos, porque carga de água resolveu saltar e cabecear a bola como a cabeceou. Para os mais apressados, estava encontrada a nova fezada, tanto mais que o Bragança começou como suplente e só entrou em campo na parte final do jogo. É nestes momentos que o Rui Borges nos surpreende, nos expõe os seus pensamentos mais disruptivos. O golo, o resultado, não se devia ao Bragança ou ao Bragança como fezada, mas à fezada de trazer a afilhada para ver o jogo. Se têm dúvidas, vejam o que aconteceu ao Benfica anteontem contra o Real Madrid porque [e só porque] a afilhada do Rui Borges e a afilhada do Trubin já estavam a dormir.

O Porto, o Porto clube, protestou, protestou muito. Não havia direito, o Sporting faz o que lhe apetece e ainda lhe sobra tempo, não respeita nada nem ninguém, não cumpre as regras da UEFA e da FIFA, não retira as bolas, os pinos e os apanha-bolas quando se vê a ganhar, nem sequer arranja um larápio de toalhas de guarda-redes. O Frederico Varandas reagiu com veemência, com alguma brutalidade até: não está em causa o roubo das toalhas durante o jogo, mas a sua não devolução depois de ele acabar e, assim, enquanto não lhe devolverem as toalhas, o Sporting também não as vai roubar a ninguém. Sobre as bolas, os pinos e os apanha-bolas foi mais evasivo, mas não podia ser de outra forma, dada a delicadeza do assunto. O Sporting não consegue rivalizar com o Porto e ninguém se surpreende quando não arregimenta miúdos de educação esmerada, miúdos do Colégio Valsassina, do Colégio de São João de Brito ou assim.

O Famalicão também protestou e muito. Esmiuçaram o que havia para esmiuçar no golo que lhes foi anulado e as suas razões ficaram muito, mas muito bem explicadinhas. Sabem que depois de um golo, o videoárbitro deve verificar se houve alguma irregularidade que não foi devidamente sancionada pelo árbitro e, se assim for, então, deve ser anulado. Mas o que o treinador e um outro senhor que manda no Famalicão também sabem é que a FIFA e a UEFA sim senhora, mas rever não é ver, é ver de esguelha na melhor das hipóteses, é ver com recurso ao Braille [à ponta dos dedos], é ver enquanto se come uma sandes de courato e se bebe uma mini. Quanto a isto não se tem muito a dizer e compreendo o silêncio comprometido do Frederico Varandas. Sempre que me falam da UEFA e da FIFA, destas duas ONG, até me vêm lágrimas aos olhos ao lembrar-me do Michel Platini e do Joseph Blatter apanhados quando carregavam comida e mais comida às costas para um campo de refugiados no Botswana.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Coisas e mais coisas

Nesta segunda-feira, no clássico Porto – Sporting, passaram-se, como é que hei de dizer, coisas, sim, coisas, é a melhor definição para estas coisas em si mesmas, não sei se me faço entender. Quando o jogo se aproximava do final, uns miúdos arrumaram as bolas e não havia bolas para ninguém. Muitos e muitos sportinguistas rasgaram as vestes, porque sim, porque não há direito, porque o Villas-Boas até se escreve com dois éles e um hífen como o beto da Foz que é e sempre foi, porque é anacrónico [não estamos no tempo da fruta, do apito ou do guarda Abel nem os jogadores têm bigode], porque o Farioli até fala estrangeiro e tudo, etc., etc., etc.

Pedi ao meu sobrinho João, portista envelhecido em casca de carvalho, uma explicação, uma análise. A explicação é simples para quem sabe do que fala, para quem conhece o Porto como a palma das suas mãos, o Porto clube e o Porto cidade e a sua burguesia refinada no contato com os ingleses do Vinho do Porto. O jogo foi tarde, muito tarde. Não lembra a ninguém começar um jogo às 20.45h num dia da semana com aulas no dia seguinte. Um a um, cada miúdo foi trazido para casa por uma orelha não sem antes deixar tudo arrumado, muito bem arrumadinho, como deve ser, como mandam as mães. É a educação esmerada destes miúdos que lhes permite depois serem pais de miúdos com educação mais esmerada ainda, ontem no Colégio das Caldinhas, hoje no Colégio do Rosário. 

Também houve problemas com o aquecimento dos balneários. Quem nunca teve aquecimentos com problemas em casa, aquecimentos de vidro, que atire a primeira pedra. Os jogadores do Sporting, queixinhas, vieram dizer que estava muito quente. Deviam viver em minha casa, onde para se poupar na conta do gás nunca se liga o aquecimento central. Deviam acordar com o pingo no nariz e deitar-se ainda com o pingo no nariz, dia após dia. O Porto explicou muito bem, são contra o centralismo, o centralismo de Lisboa, mas não veem qualquer problema no centralismo do aquecimento: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Ou se centraliza o aquecimento ou se descentraliza o aquecimento e não se sabe onde se para, cada jogador sua escalfeta, é isso que querem?

Houve mais coisas, coisas como o roubo de umas toalhas ao guarda-redes do Sporting que ele usava para limpar as luvas ou lá o que é. Mas quem é que se importa com toalhas? Vai-se à Feira de Espinho ou à Feira da Vandoma e traz-se uma dúzia delas, daquelas de turco, fofinhas, em tons de azul, por tuta e meia. Não duram muito, desbotam lavagem após lavagem, mas servem muito bem para limpar as luvas ou lá o que é. Por tuta e meia querem o quê? Toalhas de marca? Toalhas Buddemeyer em algodão egípcio ou Toalhas Trussardi Maggiore? Tenham juízo e não se armem em finos: limpem as luvas ou lá o que é nos calções, na camisola ou no que tiveram mais à mão. 

Na segunda-feira fui ao Theatro Circo ver o filme “Pai, Mãe, Irmã, Irmão”, realizado por Jim Jarmusch, com atores como o Tom Waits, a Charlotte Rampling ou a Cate Blanchett. Não vi o jogo, portanto. Valem-me os diferentes canais de televisão sempre a informarem coisas e mais coisas, coisas importantes, sem dúvida. Quanto é que ficou o jogo, alguém me sabe dizer? Agradecia. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

“O mínimo que se pode pedir a uma equipa é que ela não se mexa."*

 

Talvez conste da decoração do balneário quando o Sporting lá for outra vez: o primeiro penálti em muitos anos (acontecera alguma vez no dragon fruit?). É uma questão pertinente.

Salvaguardando o esforço e a dedicação, este jogo ficará para os anais do esquecimento, encadernado em carneira italiana, com a dedicatória: controlar o adversário para assim se controlar a si próprio (deixem passar). Passou-me pela cabeça: agarrem-me que eu ganho o jogo. O tempo, aborrecido, lá foi passando, com o Porto muito distante das cavalgadas da primeira volta, receoso que houvesse jogo a sério. 

Aquilo pareceu-me falta, já vi unicórnios bem piores, assinalados reverentemente. Algumas carambolas fizeram o resto, expondo que, para marcar golos, basta existirem alguns dispositivos corporais ainda vivos dentro de campo. A partir daí o Sporting deixou o agarrem-me e foi-se a eles, mostrando que o objetivo principal poderia ser alcançado: e foi. Por milagre do senhor dos penaltis extraviados no dragão, mas foi. O jogo acabou finalmente. Os jogos à segunda-feira já são um desconsolo emocional, com início às 20h45m tornam-se uma espécie de after, um roteiro para dançar madrugada dentro.

As contas são fáceis quando os dedos bastam: quatro para frente e três a olhar para trás. Aos cinco primeiros o Sporting não ganhou um jogo: empates com o Gil, Benfica e Porto fora. Derrota com o Porto e empate com o Braga em casa. A procissão já não vai no adro, e tem um novo elemento a aproximar-se do andor. Assim seja.



(* frase sacada a Salvador dali, substitua-se equipa por escultura)