segunda-feira, 9 de março de 2026

A desqualificar é que a gente se desentende

A incapacidade de compreender e de (des)qualificar adequadamente o treinador adversário é meio-caminho andando para se ver o título do campeonato por um canudo [não, nada disto envolve o Bom Jesus ou qualquer alegoria que envolva Braga]. O Mourinho considera uma parolice o guarda-redes do Porto queixar-se convenientemente de um dói-dói e pedir assistência médica sempre que o Fariolli quer dar instruções aos restantes jogadores [fazer um “time out” como ele próprio diria em italiano]. Não há parolice, há chico-espertice, coisa completamente diferente, isto é, o Fariolli é chico-esperto ao assim proceder, mas não parolo. Desqualificar o adversário é uma forma de lhe retirar uma ou mais qualidades, implicando prévio conhecimento dessa ou dessas qualidades. Não se é competente para desqualificar se não se dispõe de competências para qualificar também. No entanto, desqualificar não é insultar, nem o Mourinho seria capaz de uma coisa destas, cruzes-canhoto, abrenúncia. 

Seja como for, pensando-o parolo, o Mourinho entrou em campo com uma equipa constituída por jogadores como o Barrenechea, o Prestianni ou o Rafa. Demorou três quinze dias a compreender este logro, a compreender que não estava em presença de um parolo, mas de um chico-esperto, mas ainda a tempo de substituir estes três [tristes tigres] pelo Lukebakio, o Ivanović e o Barreiro e de empatar o jogo [dois a dois]. O Fariolli é chico-esperto e, como chico-esperto que é, considera-se mais esperto do que os outros, metendo o Moura, o Moffi e o Gomes, quando estava a ganhar por dois a zero, só para demonstrar que é mais esperto do que o Mourinho [como se tal fosse possível]. Este jogo, este clássico demonstrou a importância de um bom “scouting” e a falsa equivalência entre chico-esperto e esperto [na melhor das hipóteses, o chico-esperto é o esperto dado à indolência, à melancolia].   

Este é um blogue de sportinguistas e é do Sporting que se deve falar [“mais mal do que bem”, mas falar, sempre]. Comecemos pelo contexto: não é possível compreender o jogo [do Sporting] contra o Braga sem se compreender o seu entorno mediático e institucional. O Porto, clube, pretendia e pretende cortar relações institucionais com o Sporting. Com relações institucionais cortadas passa a ser moralmente adequado esconder bolas ou procurar que os adversários se constipem. Lá em casa, há uns tempos, a caldeira começou a revelar problemas. Contratámos um picheleiro e nada. Só quando contratámos alguém da Escola de Frankfurt é que compreendemos a verdadeira dimensão do problema, o emaranhado institucional em que nos encontrávamos. Nunca mais olhámos a caldeira, qualquer caldeira, da mesma maneira [vamos substituí-la por uma bomba de calor ou por um ar condicionado, equipamentos menos dados a melindres].

Perante uma ameaça desta natureza, um clube, uma equipa que não se sente não é filha de boa gente [e gente não é certamente e a chuva não bate assim]. Encontrando-nos a ganhar, recuámos e defendemos como se não houvesse amanhã [a expressão é um tanto exagerada quando se defende com o Fresneda ou o Inácio, convenhamos]. Foram instruções do Rui Borges? Foi cansaço, falta de pernas dos jogadores? Foram as lesões de jogadores como o Ioannidis ou o Debast? Não, nada disso, só quem esteve de relações cortadas, de candeias às avessas é que sabe o que se sofre e como se é incompreendido nesse sofrimento.  Podíamos ter ficado a ver por um canudo [o título]? Podíamos, mas não era a mesma coisa, embora continuemos a respirar por uma palhinha [não confundir uma palhinha com o Palhinha, um artigo indefinido com um artigo definido, um substantivo comum com um substantivo próprio]. 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Destruição: dos anos 80 do Conjunto Típico Torreense ao Porto de Farioli

O meu amigo Pedro Azevedo disse tudo. Depois de o ler, se não estivesse profundamente entediado, tinha dado o jogo de ontem [do Sporting] contra o Porto como definitivamente encerrado. Assim como assim, aqui fica, então, mais uma postada, o meu modesto contributo para a bi-dobradinha deste Sporting do Frederico Varandas, esse terrível homem dos sete mares [nunca de antes navegados], esse Fernão Mendes Pinto dos túneis, dos quinhentinhos, do Canal Caveira ou das casas de alterne. 

Trabalho e vivo há mais de trinta anos no Norte de Portugal e é deprimente, muito deprimente ver um clube assente nos princípios e valores daquela região que constitui o berço da nacionalidade a desmoronar-se jogo a jogo, época atrás de época. Quer-se intimidar o árbitro, condicioná-lo, fazê-lo pensar duas vezes antes de apitar seja o que for? Muito bem, pede-se a Don Vito Corleone [Marlon Brando] que lhe coloque uma cabeça de cavalo [ensanguentada] na cama ou a Jules Winnfield [Samuel L. Jackson] que lhe recite Ezequiel 25:17. Não lembra a ninguém é colocar um italiano a dizer num inglês com sotaque da Amareleja que o árbitro é mau, muito má pessoa por ter gamado o Sporting com toda a gente a ver e não se ter revoltado quando toda a gente que viu lhe disse o que viu, que tinha gamado o Sporting. 

Quer-se destruir o adversário, derrotá-lo em toda a linha, subjugá-lo até à sua rendição incondicional? Muito bem, pede-se ao Nuno Rogeiro, ao José Milhazes, ao José Tomaz Castello Branco ou ao Miguel Baumgartner que expliquem o atual contexto geopolítico e geoestratégico e a importância de dispor de armamento nuclear tático [não confundir, nunca confundir com armamento nuclear estratégico, porque matar todos devagarinho, um a um, é muito diferente do que matar todos de uma só vez, de uma penada]. Não, não lembra a ninguém as queixinhas do tal fulano italiano porque a equipa adversária regressou do intervalo com cinco minutos de atraso [só faltou queixar-se do ladrar irritante do Yorkshire Terrier da mãe do Luís Suarez que não deixa ninguém dormir a noite toda].

Ninguém leva nada disto a sério. Ouve-se e apetece-nos [logo] comer uma canja, como o Rui Borges. Talvez valha a pena respirar fundo e voltar ao princípio. O Porto perdeu contra o Sporting por um a zero na primeira mão da meia-final da Taça de Portugal. Hoje, a Terra continuou o seu habitual movimento de rotação a cerca de 1.670 km/h [no Equador] e o seu não menos habitual movimento de translação a mais de 107.000 km/h. Daqui a um mês ou dois joga-se a segunda mão. Até lá, espera-se que continue o bom tempo.

terça-feira, 3 de março de 2026

Não se deve ter um campeonato quando se pode ter tantos quantos as equipas

Não se consegue acompanhar o ritmo alucinante, estonteante dos acontecimentos no futebol português. Explicando melhor, o ritmo dos jogos do futebol português aguenta-se muito bem ou não tivessem atingido patamares de excelência jogadores velozes e intensos como o Pedo Barbosa ou o Fábio Rochemback; o que não se acompanha é o ritmo das notícias, um autêntico corrupio de ninharias embrulhadas em papel cuchê que constitui um festim para qualquer comentador ou analista mais ou menos encartado. Para dar um só exemplo, o José Mourinho constitui o Pedro Passos Coelho com mais [muito mais] cabelo, não há dia em que não se procure compreender o que possa estar a pensar por franzir o sobrolho ou por dizer seja o que for [que ele diga].  

Quando um canto erradamente assinalado contra o Santa Clara no estertor do jogo permitiu a vitória do Sporting, clamou-se pela necessidade de a arbitragem perscrutar melhor, muito melhor, esmiuçando até ao tutano cada jogada, cada lance, não fosse o diabo tecê-las. No jogo [do Sporting] contra o Famalicão, o videoárbitro perscrutou e perscrutou muito bem [assinalando uma falta e, assim, anulando um golo], clamou-se, então, que não senhora, rever é uma coisa, perscrutar é outra [completamente diferente]. Ver, ver com olhos de ver, é apenas para os árbitros e, no jogo do Porto contra o Arouca, assim foi: o árbitro viu o que ninguém viu e o videoárbitro reviu e, revendo, não viu, confirmando um “penalty” no estertor deste jogo também.

Não se conseguindo um entendimento que durasse mais do que uma jornada, o Benfica apresentou uma proposta disruptiva, um verdadeiro corte epistémico. Cada clube analisa a arbitragem dos seus jogos e dos seus rivais e vai fazendo a respetiva contabilização dos benefícios e prejuízos. A partir dessa informação e com recursos ao Método dos Mínimos Quadrados Ordinários, estima a pontuação e, assim a classificação de cada clube. Mais canto, menos canto, mais “penalty”, menos “penalty”, são estas as contas do Benfica: Porto em primeiro, com 63 pontos; Benfica em segundo, com 61 pontos, mas um jogo a menos; Sporting em terceiro, com 55 pontos. 

Com a vitória de ontem contra o Gil Vicente, o Benfica passaria para primeiro, com 64 pontos, não fosse o Porto considerar um canto, um livre ou um fora-de-jogo mal marcado, pouco importa, voltando tudo ao mesmo. Não se obtém uma classificação final, mas, antes, tantas quantas os clubes que recorram a estes modelos econométricos, isto é, ninguém ganha, ninguém perde, antes pelo contrário. No limite, todos os clubes poderiam acabar o campeonato com zero pontos, dependendo da arbitragem, embora ainda não se tenha encontrado solução para a distribuição do total dos pontos, que pode variar entre os 306 [todos os jogos acabam empatados] e os 918 [todos os jogos acabam com um vencedor e um vencido].

Estes prolegómenos tinham um e um só objetivo: ganhar balanço, imaginação para escrever qualquer coisa sobre o jogo [do Sporting] contra o Estoril. Ganhámos por três a zero, é o que me ocorre dizer, depois de pensar, pensar bem na arbitragem e nos cantos, livres ou pontapés de baliza que assinalou. O Luiz Suárez marcou os dois golos iniciais, o primeiro com a sola da chuteira, o segundo meio com a canela, meio com o peito do pé, depois de receber a bola com a ponta da chuteira. Num último fôlego, o Daniel Bragança marcou o terceiro, depois de uma bela desmarcação e de uma melhor assistência do Nuno Santos, dois dos nossos habituais 358 enfermiços. Como veem, o futebol, o futebol propriamente dito, com bola e tudo, tem muito pouco interesse, muito pouco que se lhe diga, um aborrecimento, enfim.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Quanto melhor, pior ou quanto pior, melhor?

A última semana futebolística não é simples de analisar. Não é simples de dizer de que cor eram as camisolas de uma equipa ou da outra como também não é nada simples indicar em que sentido é que cada uma das equipas devia correr e, assim, de que lado ficava a baliza de uma e da outra equipa. Há gente que acha coisa diversas: que quanto pior, pior; quanto melhor, melhor; quanto pior, melhor; ou quanto melhor, pior. No fundo, no fundo, não é simples dizer quem ganhou ou não ganhou pois não existe um entendimento comum sobre o que é ou não é uma vitória ou se uma vitória pode ser uma derrota e vice-versa. 

Há quem ache que chamar “maricones” a um jogador adversário é melhor do que lhe chamar “mono”, que são os mesmos que acham que é pior chamar “mono” a um jogador adversário do que lhe chamar “maricones”. Para estes, se se chamar “maricones”, ganha-se, se se chamar “mono”, perde-se e vice-versa. Há quem ache exatamente o contrário e para estes, se se chamar “mono”, ganha-se, se se chamar “maricones”, perde-se. Mas cada um atribui o sentido que entender à expressão “melhor” ou à expressão “pior”: para alguns, quanto pior, melhor; para outros, quanto melhor, pior. É melhor ser racista ou homofóbico? É pior ser racista ou homofóbico? Não sei, ninguém sabe.

Acho [não me recordo de recorrer ao verbo achar, mas está-me a saber bem, muito bem mesmo] que se devia promover um dois em um. Há dias fui a uma loja de marca e obtive um grande desconto na compra da segunda camisola. Saí da loja muito satisfeito com este negócio [embora mais tarde tenha ficado a pensar se a segunda camisola, a mais barata, teria grande utilidade]. Quem é racista também deve ser homofóbico para facilitar a constituição das equipas, escolher as camisolas e decidir o lado da baliza do adversário. De um lado, jogam os racistas e homofóbicos, do outro, os que não são racistas nem homofóbicos. Assim, sim, é possível chegar a um resultado, embora os segundos tenham [sempre] tendência para perder, pois têm menos “likes”, são mais sensaborões, aborrecidos.   

Mas quem ache [outra vez o verbo achar] que os problemas identificados se encontram resolvidos, está muito enganado. É que há quem ache que quem esconde as bolas quando está a ganhar e gama as toalhas do guarda-redes adversário é moralmente superior a quem chama “maricones” ou “mono” ao adversário, embora os que chamem nomes também digam que têm amigos negros e homossexuais. Com esta é que ninguém estava a pensar, com esta não há solução possível. De um lado, jogam os racistas e homofóbicos e, do outro, os que escondem as bolas e roubam as toalhas? E os que não são nem uma coisa nem outra, jogam contra quem? Jogam contra todos? É possível jogar contra todos? Ao mesmo tempo? Temos de confiar na FIFA e na UEFA para resolver problemas como este, pois um comum mortal, como eu e outros, não consegue por muito que pense, por muito que dê voltas à cabeça. 

Estava a esquecer-me: o Sporting ganhou ao Moreirense por três a zero. A teoria da fezada sofre um grande abalo. Fezada e três a zero não rima. Fezada e três a zero a jogar bem rima muito menos, mesmo que a afilhada do Rui Borges esteja a ver o jogo. Na época passada, achei que o Rui Borges foi muito sensato ao seguir as orientações técnico-táticas que o Morten Hjulmand lhe ia transmitindo [aparentemente, terá ficado com o Moleskine do Ruben Amorim]. Será que o Rui Borges nos enganou? Será que a afilhada não está relacionada com a fezada do último jogo? Será que ela é que tem o curso de treinador(a)? No Sporting, não seria a primeira, nem a segunda vez.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Fezadas e temas conexos

Os treinadores portugueses ou o treinador português, melhor dizendo, devia constituir-se como uma Denominação de Origem Protegida (DOP), uma Indicação Geográfica Protegida (IGP) ou uma Especialidade Tradicional Garantida (ETG). A afirmação "I think I'm a special one" do José Mourinho não passa de uma forma hiperbólica de reclamar este estatuto no contexto europeu. Há uma característica inimitável do treinador português que não é devidamente reconhecida, a fezada e a sua transformação em princípios tecno-táticos fundamentais do futebol moderno. O conceito é simples, mas de difícil aplicação bem-sucedida, ter uma fezada é ter confiança em algo sem que exista evidência [analítica ou empírica] que a sustente. 

O Rui Borges tem elevado a fezada [enquanto tecno-tática futebolística] à quinta potência. De memória, lembro-me dos jogos contra o Marselha, o Paris Saint-Germain ou o Atlético de Bilbau, por exemplo: cada um destes jogos não atava nem desatava e no seu finzinho o Rui Borges mete o Allison Santos, um rapaz do Leiria, e foi tiro e queda. Foi uma, foi duas, foi três vezes e a situação deixou de ser sustentável. Se a fezada resulta com [esta] frequência deixa de o ser, isto é, passa a existir evidência [empírica] e a fezada deixa de ser o que é, uma fezada. Deixando de ser útil para o Sporting enquanto fezada, a transferência para o Nápoles era inevitável e não, não se transferiu o Allison Santos, um rapaz do Leiria, o que se transferiu, aquilo que verdadeiramente vale o que o Nápoles pagou, foi esta fezada, uma fezada de créditos firmados na Liga dos Campeões. 

Sem esta fezada, os jogos continuaram a decidir-se nos últimos minutos, agora, pelo Luís Suárez. É difícil transformar o Luís Suárez numa fezada, atendendo a que não corre como se não houvesse amanhã, não mete os olhos no chão e [até] passa a bolas aos seus colegas. A controvérsia instalou-se, mas por pouco tempo, pois, no Domingo, no jogo contra o Famalicão, o Luís Suárez não podia jogar. Os jogadores estavam com a sua habitual modorra e o jogo foi-se arrastando, arrastando até se chegar aos últimos minutos e, como habitualmente também, lá se marcou o golo do costume. O marcador foi o Bragança, de cabeça, a saltar ao primeiro poste, a dar de raspão na bola e a enfiá-la no outro lado da baliza. 

Como ele próprio confessou, nunca tinha marcado um golo de cabeça e, assim sendo, concluo eu, também não sabia bem o que estava a fazer ao primeiro poste e, muito menos, porque carga de água resolveu saltar e cabecear a bola como a cabeceou. Para os mais apressados, estava encontrada a nova fezada, tanto mais que o Bragança começou como suplente e só entrou em campo na parte final do jogo. É nestes momentos que o Rui Borges nos surpreende, nos expõe os seus pensamentos mais disruptivos. O golo, o resultado, não se devia ao Bragança ou ao Bragança como fezada, mas à fezada de trazer a afilhada para ver o jogo. Se têm dúvidas, vejam o que aconteceu ao Benfica anteontem contra o Real Madrid porque [e só porque] a afilhada do Rui Borges e a afilhada do Trubin já estavam a dormir.

O Porto, o Porto clube, protestou, protestou muito. Não havia direito, o Sporting faz o que lhe apetece e ainda lhe sobra tempo, não respeita nada nem ninguém, não cumpre as regras da UEFA e da FIFA, não retira as bolas, os pinos e os apanha-bolas quando se vê a ganhar, nem sequer arranja um larápio de toalhas de guarda-redes. O Frederico Varandas reagiu com veemência, com alguma brutalidade até: não está em causa o roubo das toalhas durante o jogo, mas a sua não devolução depois de ele acabar e, assim, enquanto não lhe devolverem as toalhas, o Sporting também não as vai roubar a ninguém. Sobre as bolas, os pinos e os apanha-bolas foi mais evasivo, mas não podia ser de outra forma, dada a delicadeza do assunto. O Sporting não consegue rivalizar com o Porto e ninguém se surpreende quando não arregimenta miúdos de educação esmerada, miúdos do Colégio Valsassina, do Colégio de São João de Brito ou assim.

O Famalicão também protestou e muito. Esmiuçaram o que havia para esmiuçar no golo que lhes foi anulado e as suas razões ficaram muito, mas muito bem explicadinhas. Sabem que depois de um golo, o videoárbitro deve verificar se houve alguma irregularidade que não foi devidamente sancionada pelo árbitro e, se assim for, então, deve ser anulado. Mas o que o treinador e um outro senhor que manda no Famalicão também sabem é que a FIFA e a UEFA sim senhora, mas rever não é ver, é ver de esguelha na melhor das hipóteses, é ver com recurso ao Braille [à ponta dos dedos], é ver enquanto se come uma sandes de courato e se bebe uma mini. Quanto a isto não se tem muito a dizer e compreendo o silêncio comprometido do Frederico Varandas. Sempre que me falam da UEFA e da FIFA, destas duas ONG, até me vêm lágrimas aos olhos ao lembrar-me do Michel Platini e do Joseph Blatter apanhados quando carregavam comida e mais comida às costas para um campo de refugiados no Botswana.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Coisas e mais coisas

Nesta segunda-feira, no clássico Porto – Sporting, passaram-se, como é que hei de dizer, coisas, sim, coisas, é a melhor definição para estas coisas em si mesmas, não sei se me faço entender. Quando o jogo se aproximava do final, uns miúdos arrumaram as bolas e não havia bolas para ninguém. Muitos e muitos sportinguistas rasgaram as vestes, porque sim, porque não há direito, porque o Villas-Boas até se escreve com dois éles e um hífen como o beto da Foz que é e sempre foi, porque é anacrónico [não estamos no tempo da fruta, do apito ou do guarda Abel nem os jogadores têm bigode], porque o Farioli até fala estrangeiro e tudo, etc., etc., etc.

Pedi ao meu sobrinho João, portista envelhecido em casca de carvalho, uma explicação, uma análise. A explicação é simples para quem sabe do que fala, para quem conhece o Porto como a palma das suas mãos, o Porto clube e o Porto cidade e a sua burguesia refinada no contato com os ingleses do Vinho do Porto. O jogo foi tarde, muito tarde. Não lembra a ninguém começar um jogo às 20.45h num dia da semana com aulas no dia seguinte. Um a um, cada miúdo foi trazido para casa por uma orelha não sem antes deixar tudo arrumado, muito bem arrumadinho, como deve ser, como mandam as mães. É a educação esmerada destes miúdos que lhes permite depois serem pais de miúdos com educação mais esmerada ainda, ontem no Colégio das Caldinhas, hoje no Colégio do Rosário. 

Também houve problemas com o aquecimento dos balneários. Quem nunca teve problemas com aquecimentos  em casa, aquecimentos com telhados de vidro, que atire a primeira pedra. Os jogadores do Sporting, queixinhas, vieram dizer que estava muito quente. Deviam viver em minha casa, onde para se poupar na conta do gás nunca se liga o aquecimento central. Deviam acordar com o pingo no nariz e deitar-se ainda com o pingo no nariz, dia após dia. O Porto explicou muito bem, são contra o centralismo, o centralismo de Lisboa, mas não veem qualquer problema no centralismo do aquecimento: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Ou se centraliza o aquecimento ou se descentraliza o aquecimento e não se sabe onde se para, cada jogador sua escalfeta, é isso que querem?

Houve mais coisas, coisas como o roubo de umas toalhas ao guarda-redes do Sporting que ele usava para limpar as luvas ou lá o que é. Mas quem é que se importa com toalhas? Vai-se à Feira de Espinho ou à Feira da Vandoma e traz-se uma dúzia delas, daquelas de turco, fofinhas, em tons de azul, por tuta e meia. Não duram muito, desbotam lavagem após lavagem, mas servem muito bem para limpar as luvas ou lá o que é. Por tuta e meia querem o quê? Toalhas de marca? Toalhas Buddemeyer em algodão egípcio ou Toalhas Trussardi Maggiore? Tenham juízo e não se armem em finos: limpem as luvas ou lá o que é nos calções, na camisola ou no que tiveram mais à mão. 

Na segunda-feira fui ao Theatro Circo ver o filme “Pai, Mãe, Irmã, Irmão”, realizado por Jim Jarmusch, com atores como o Tom Waits, a Charlotte Rampling ou a Cate Blanchett. Não vi o jogo, portanto. Valem-me os diferentes canais de televisão sempre a informarem coisas e mais coisas, coisas importantes, sem dúvida. Quanto é que ficou o jogo, alguém me sabe dizer? Agradecia. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

“O mínimo que se pode pedir a uma equipa é que ela não se mexa."*

 

Talvez conste da decoração do balneário quando o Sporting lá for outra vez: o primeiro penálti em muitos anos (acontecera alguma vez no dragon fruit?). É uma questão pertinente.

Salvaguardando o esforço e a dedicação, este jogo ficará para os anais do esquecimento, encadernado em carneira italiana, com a dedicatória: controlar o adversário para assim se controlar a si próprio (deixem passar). Passou-me pela cabeça: agarrem-me que eu ganho o jogo. O tempo, aborrecido, lá foi passando, com o Porto muito distante das cavalgadas da primeira volta, receoso que houvesse jogo a sério. 

Aquilo pareceu-me falta, já vi unicórnios bem piores, assinalados reverentemente. Algumas carambolas fizeram o resto, expondo que, para marcar golos, basta existirem alguns dispositivos corporais ainda vivos dentro de campo. A partir daí o Sporting deixou o agarrem-me e foi-se a eles, mostrando que o objetivo principal poderia ser alcançado: e foi. Por milagre do senhor dos penaltis extraviados no dragão, mas foi. O jogo acabou finalmente. Os jogos à segunda-feira já são um desconsolo emocional, com início às 20h45m tornam-se uma espécie de after, um roteiro para dançar madrugada dentro.

As contas são fáceis quando os dedos bastam: quatro para frente e três a olhar para trás. Aos cinco primeiros o Sporting não ganhou um jogo: empates com o Gil, Benfica e Porto fora. Derrota com o Porto e empate com o Braga em casa. A procissão já não vai no adro, e tem um novo elemento a aproximar-se do andor. Assim seja.



(* frase sacada a Salvador dali, substitua-se equipa por escultura)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Uma experiência subjetiva ou uma visão bizarra?

 

Do ponto de vista estritamente sociológico, o golo do Porto com o Santa Clara é um objecto interessante de estudo: um ser humano com várias opções escolhe a mais arriscada (ou a menos inteligente) e falha, entregando o ouro ao bandido. Se fosse com o Sporting tinha de ir ao VAR para análise. E, se calhar, teríamos direito a mais um comunicado e uma participação por ausência de um ecrã disponível com imagens em loop no balneário do árbitro.

Uma das coisas interessantes no nosso futebol, para além da sua extravagante e inalterável forma de vida, bem acima das suas (in)capacidades, é a possibilidade de nos mostrar em cada momento que é capaz de aperfeiçoar a sua habilidade para afastar ainda mais gente do jogo jogado ao vivo: isso mesmo fica provado no preço dos bilhetes para adeptos do Sporting no jogo de Barcelos. Um jogo que poderia ter ficado decidido com o dois a zero que esteve nos pés do Suaréz, o que, do ponto de vista sociológico, encerra uma temática ainda mais arriscada, ou mesmo humanamente possível, como qualquer erro…