Vi o jogo contra o Porto, ouvi as conferências de imprensa do Marcel Keizer e do Sérgio Conceição e, sem estar à espera, ouvi o discurso do Rui Rio em resposta ao desafio à liderança do PSD de Luís Montenegro. É bastante mais divertido disputar um jogo contra um adversário do que qualquer disputa interna. Como concluiu Rui Rio, citando o inevitável Sá Carneiro, “a política sem risco é uma chatice e sem ética uma vergonha”. Substituindo o sujeito, o futebol deste jogo também deve ser analisado pelo lado do risco e pelo lado da ética.
O Marcel Keizer colocou a equipa a jogar à Jorge Jesus. Um pouco mais recuada, a jogar longo na frente para a cabeça do Bas Dost, e com o meio-campo a subir nesses momentos para procurar ganhar a segunda bola, ou no Diaby, condicionando o jogo pelo lado esquerdo do Porto, onde o Alex Telles não se viu na primeira parte. Esta forma de jogar não deu resultados ofensivos por duas razões: foi quase sempre marcada falta nas bolas divididas ganhas pelos jogadores do Sporting e o Diaby nos lances de perigo que construiu definiu sempre mal, como agora se diz. Defensivamente, a primeira parte foi um passeio. O Porto não fez um remate à baliza. O Porto é uma equipa que joga em pressão permanente sobre os adversários, procurando tirar proveito dos erros que tal atitude possa originar. O jogo mais direto do Sporting impediu essa pressão e com a bola disponível para construir jogadas de ataque revelou todas as suas deficiências, não criando um lance de perigo nem estando sequer perto disso.
Na segunda parte, o Sérgio Conceição tentou meter o Alex Telles no jogo. Colocou o Brahimi mais por dentro e esticou o Alex Telles no lado esquerdo, apostando e colocando mais em jogo os dois jogadores que constituem os principais pontos fortes da equipa. Criou assim dois efeitos- surpresa, ganhando profundidade na esquerda e um apoio central aos avançados. O Sporting ficou perdido durante quinze a vinte minutos, tendo muita dificuldade em perceber o que lhe estava a acontecer. Terminado o efeito surpresa o jogo equilibrou-se por si sem que o Marcel Keizer tenha procurado mexer na equipa como se esperava, sobretudo com a entrada do Raphinha para acabar de vez com as brincadeiras no lado direito da equipa, dado que o Diaby andava perdido em campo. Com as duas equipas de rastos, os últimos minutos foram de doidos: perdas de bola de um lado e do outro, seguidas de contra-ataques de um lado e outro também. Com o apito final o árbitro impediu que alguns deles ainda acabassem por explodir em campo tal era a dificuldade que tinham em respirar depois das correrias.
Na primeira parte, o Sporting construiu duas jogadas de perigo, a primeira com o Nani a rematar quase na pequena área e a bola a embater nas pernas de um defesa por mero acaso, a segunda com o Bas Dost a fazer um passe ao Casillas quando estava isolado à entrada da área, e o Porto nenhuma. Na segunda parte, o Porto tem duas jogadas de perigo, a primeira com o Soares a procurar rematar com o pé direito, batendo-lhe a bola no joelho da perna esquerda para boa defesa do Renan Ribeiro, e a segunda com o Marega a rematar dentro da área do lado direito para as nuvens, e o Sporting quatro, a primeira com um centro do Nani que o Militão cortou com o joelho sem saber bem como quando o Bas Dost se preparava para empurrar a bola, a segunda com um bom remate do Bruno Fernandes que o Casillas defendeu, a terceira com outro bom remate do Gudlej que o Cassilas voltou a defender, e a quarta com o Bas Dost completamente isolado a cabecear ao lado.
No futebol não se ganha ou se perde com estatísticas, táticas ou intenções. Ganha-se com golos que constituem o objetivo do jogo. Quem marca mais golos merece sempre ganhar porque ganhar e merecer ganhar são uma e a mesma coisa. Os treinadores desenharam estratégias potenciando pontos fortes das suas equipas e aproveitando os pontos fracos do adversário. Os jogadores fizeram por cumprir o que lhes foi pedido e deram o que tinham para dar e um pouco mais. Quem viu o jogo não deu o tempo por mal empregue e, por isso, não houve chatice porque houve risco, calculado, mas houve.
Aos dez minutos o Herrera viu amarelo depois da quarta falta, três delas sem sequer disputar a bola. Pelo critério que o árbitro adotou relativamente ao Jéfferson por muito menos um pouco mais tarde, o Herrera devia estar com três amarelos mal o jogo se tinha iniciado. As duas primeiras faltas dos jogadores do Sporting resultam de duas disputas de bola em que nenhum dos jogadores dispõe do seu controlo e ganha aquele que é mais forte (veja-se, por comparação, o inicio da jogada que dá origem à mais relevante jogada de perigo do Porto que originou a defesa do Renan Ribeiro). A primeira parte tem diversas situações destas. O Sporting, que apostava no jogo em profundidade e na disputa da segunda bola, viu assim impedida a sua estratégia. A equipa do Porto, muitas vezes mal posicionada, pôde cortar lances sem disputar a bola, nada acontecendo em termos disciplinares aos seus jogadores e não os condicionando na disputa de lances futuros. A cereja em cima do bolo nem sequer foi o referido amarelo do Jéfferson. Numa disputa do lado direito, o Bruno Gaspar chega primeiro e o Soares acaba por entrar a destempo, acertando-lhe, sendo marcada a falta sem qualquer sanção disciplinar. No outro lado do campo, o Corona chega primeiro à bola, o Bruno Fernandes entra a destempo também e acerta-lhe (?), sendo marcada a falta e punido o jogador do Sporting com amarelo. Ao fim da primeira parte, os jogadores das duas equipas tinham o mesmo número de amarelos e a estratégia do Sporting tinha sido condicionada pelas faltas nas disputas das segundas bolas e pelas faltas sem bola dos jogadores do Porto.
Esta arbitragem não foi como a do Tondela. Foi mais insidiosa. Condicionou o jogo e o seu resultado sem o determinar diretamente. Aparentemente, são aplicadas as regras do basquetebol na disputa dos lances à equipa do Sporting e às outras equipas as regras do “rugby”. No futebol português, nem ética nem vergonha. Por isso não vale a pena esperar nada desse lado. Agora, do nosso lado, convém termos noção dessa falta de ética e de vergonha. É que quando as regras são diferentes não faz sentido andarmos sempre a falar da atitude ou da falta dela, como se só o Sporting é que tivesse azar na escolha dos jogadores. A propaganda vive da semântica. Expressões como combativo, raçudo ou violento rimam melhor com certas camisolas do que com outras. Como referi inicialmente, é preferível sempre qualquer disputa com os adversários a qualquer disputa interna.