sábado, 12 de janeiro de 2019

O futebol sem riscos é uma chatice e sem ética uma vergonha

Vi o jogo contra o Porto, ouvi as conferências de imprensa do Marcel Keizer e do Sérgio Conceição e, sem estar à espera, ouvi o discurso do Rui Rio em resposta ao desafio à liderança do PSD de Luís Montenegro. É bastante mais divertido disputar um jogo contra um adversário do que qualquer disputa interna. Como concluiu Rui Rio, citando o inevitável Sá Carneiro, “a política sem risco é uma chatice e sem ética uma vergonha”. Substituindo o sujeito, o futebol deste jogo também deve ser analisado pelo lado do risco e pelo lado da ética. 

O Marcel Keizer colocou a equipa a jogar à Jorge Jesus. Um pouco mais recuada, a jogar longo na frente para a cabeça do Bas Dost, e com o meio-campo a subir nesses momentos para procurar ganhar a segunda bola, ou no Diaby, condicionando o jogo pelo lado esquerdo do Porto, onde o Alex Telles não se viu na primeira parte. Esta forma de jogar não deu resultados ofensivos por duas razões: foi quase sempre marcada falta nas bolas divididas ganhas pelos jogadores do Sporting e o Diaby nos lances de perigo que construiu definiu sempre mal, como agora se diz. Defensivamente, a primeira parte foi um passeio. O Porto não fez um remate à baliza. O Porto é uma equipa que joga em pressão permanente sobre os adversários, procurando tirar proveito dos erros que tal atitude possa originar. O jogo mais direto do Sporting impediu essa pressão e com a bola disponível para construir jogadas de ataque revelou todas as suas deficiências, não criando um lance de perigo nem estando sequer perto disso. 

Na segunda parte, o Sérgio Conceição tentou meter o Alex Telles no jogo. Colocou o Brahimi mais por dentro e esticou o Alex Telles no lado esquerdo, apostando e colocando mais em jogo os dois jogadores que constituem os principais pontos fortes da equipa. Criou assim dois efeitos- surpresa, ganhando profundidade na esquerda e um apoio central aos avançados. O Sporting ficou perdido durante quinze a vinte minutos, tendo muita dificuldade em perceber o que lhe estava a acontecer. Terminado o efeito surpresa o jogo equilibrou-se por si sem que o Marcel Keizer tenha procurado mexer na equipa como se esperava, sobretudo com a entrada do Raphinha para acabar de vez com as brincadeiras no lado direito da equipa, dado que o Diaby andava perdido em campo. Com as duas equipas de rastos, os últimos minutos foram de doidos: perdas de bola de um lado e do outro, seguidas de contra-ataques de um lado e outro também. Com o apito final o árbitro impediu que alguns deles ainda acabassem por explodir em campo tal era a dificuldade que tinham em respirar depois das correrias. 

Na primeira parte, o Sporting construiu duas jogadas de perigo, a primeira com o Nani a rematar quase na pequena área e a bola a embater nas pernas de um defesa por mero acaso, a segunda com o Bas Dost a fazer um passe ao Casillas quando estava isolado à entrada da área, e o Porto nenhuma. Na segunda parte, o Porto tem duas jogadas de perigo, a primeira com o Soares a procurar rematar com o pé direito, batendo-lhe a bola no joelho da perna esquerda para boa defesa do Renan Ribeiro, e a segunda com o Marega a rematar dentro da área do lado direito para as nuvens, e o Sporting quatro, a primeira com um centro do Nani que o Militão cortou com o joelho sem saber bem como quando o Bas Dost se preparava para empurrar a bola, a segunda com um bom remate do Bruno Fernandes que o Casillas defendeu, a terceira com outro bom remate do Gudlej que o Cassilas voltou a defender, e a quarta com o Bas Dost completamente isolado a cabecear ao lado. 

No futebol não se ganha ou se perde com estatísticas, táticas ou intenções. Ganha-se com golos que constituem o objetivo do jogo. Quem marca mais golos merece sempre ganhar porque ganhar e merecer ganhar são uma e a mesma coisa. Os treinadores desenharam estratégias potenciando pontos fortes das suas equipas e aproveitando os pontos fracos do adversário. Os jogadores fizeram por cumprir o que lhes foi pedido e deram o que tinham para dar e um pouco mais. Quem viu o jogo não deu o tempo por mal empregue e, por isso, não houve chatice porque houve risco, calculado, mas houve. 

Aos dez minutos o Herrera viu amarelo depois da quarta falta, três delas sem sequer disputar a bola. Pelo critério que o árbitro adotou relativamente ao Jéfferson por muito menos um pouco mais tarde, o Herrera devia estar com três amarelos mal o jogo se tinha iniciado. As duas primeiras faltas dos jogadores do Sporting resultam de duas disputas de bola em que nenhum dos jogadores dispõe do seu controlo e ganha aquele que é mais forte (veja-se, por comparação, o inicio da jogada que dá origem à mais relevante jogada de perigo do Porto que originou a defesa do Renan Ribeiro). A primeira parte tem diversas situações destas. O Sporting, que apostava no jogo em profundidade e na disputa da segunda bola, viu assim impedida a sua estratégia. A equipa do Porto, muitas vezes mal posicionada, pôde cortar lances sem disputar a bola, nada acontecendo em termos disciplinares aos seus jogadores e não os condicionando na disputa de lances futuros. A cereja em cima do bolo nem sequer foi o referido amarelo do Jéfferson. Numa disputa do lado direito, o Bruno Gaspar chega primeiro e o Soares acaba por entrar a destempo, acertando-lhe, sendo marcada a falta sem qualquer sanção disciplinar. No outro lado do campo, o Corona chega primeiro à bola, o Bruno Fernandes entra a destempo também e acerta-lhe (?), sendo marcada a falta e punido o jogador do Sporting com amarelo. Ao fim da primeira parte, os jogadores das duas equipas tinham o mesmo número de amarelos e a estratégia do Sporting tinha sido condicionada pelas faltas nas disputas das segundas bolas e pelas faltas sem bola dos jogadores do Porto. 

Esta arbitragem não foi como a do Tondela. Foi mais insidiosa. Condicionou o jogo e o seu resultado sem o determinar diretamente. Aparentemente, são aplicadas as regras do basquetebol na disputa dos lances à equipa do Sporting e às outras equipas as regras do “rugby”. No futebol português, nem ética nem vergonha. Por isso não vale a pena esperar nada desse lado. Agora, do nosso lado, convém termos noção dessa falta de ética e de vergonha. É que quando as regras são diferentes não faz sentido andarmos sempre a falar da atitude ou da falta dela, como se só o Sporting é que tivesse azar na escolha dos jogadores. A propaganda vive da semântica. Expressões como combativo, raçudo ou violento rimam melhor com certas camisolas do que com outras. Como referi inicialmente, é preferível sempre qualquer disputa com os adversários a qualquer disputa interna.

Correu bem


Ainda bem que não precisávamos de ganhar...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Self-fulfilling prophecy

Vá-se saber porquê (é um simples exercício de retórica porque todos sabemos) instituiu-se que o Marcel Keizer estava sob escrutínio em todos os jogos tendo como referência o “Treinador Português”, essa figura mítica só equiparável à do Adamastor. Esse escrutínio funciona só para um dos lados. Quando ganha e o adversário leva para casa um cabaz conclui-se que não se pode concluir porque o teste não era para levar a sério. Quando perde, nesse caso sim, existem todas as condições para se afirmar que o “Treinador Português” é dado a elucubrações táticas que não estão ao alcance de um holandês na crise da meia-idade, como se nota pela sua evidente insuficiência capilar (daqui até se afirmar que o “Treinador Português” é produto da melhor escola tática do Mundo vai um passo que se dá logo em seguida). Como nenhum treinador ganha sempre, constrói-se com toda a facilidade uma profecia autorrealizável (o conceito de “self-fulfilling prophecy” que origina o título deste “post”). 

O Marcel Keizer foi ganhando jogos atrás de jogos e enfiando cabazadas atrás de cabazadas. Se não era do dito cujo era das calças e, portanto, nada se podia concluir, havendo sempre um sinal de alerta, que tanto podia ser um golo sofrido como o excesso de golos marcados, que nos devia deixar de sobreaviso para a próxima. No jogo de Guimarães começou-se a cumprir a profecia, mas como o Luís Castro tem ar de quem toma banho todos os dias e as suas equipas jogam futebol não constitui propriamente o protótipo do “Treinador Português”. O jogo contra o Tondela foi o teste do algodão: um treinador patusco e uma equipa que defende com se estivesse em causa a sua própria vida e não houvesse amanhã e a jogar no Portugal profundo inventado pelo António Ferro, que constitui o repositório das virtudes nacionais, profusamente divulgadas nos meus livros da escola primária. 

Vai-se assistindo ao jogo enquanto se escutam os sábios comentários da SporTv. Tudo o que se vê tem um propósito e obedece a uma lógica que não está ao alcance dos espetadores que não percebem porque não estudaram o suficiente obras fundamentais como “A Bola”, “Record” e “O Jogo”. Uma biqueirada para a frente sem nexo rapidamente se transforma num modelo de jogo que privilegia a profundidade e o espaço concedido nas costas da defesa. Uma série de sarrafadas e de faltas é-nos explicada como elevada intensidade de jogo. A colocação de um pino na frente resulta de uma aposta na fixação dos centrais e na criação de dificuldades na transição ofensiva do adversário. São-nos enumeradas qualidades de jogadores de quem nunca se ouviu falar, embora por vezes se troquem os nomes e as posições porque a cábula não estava bem feita. Esta narrativa só precisa do resultado para se legitimar. Se os pernetas ganham, está encontrada a explicação para a vitória que nos foi sendo contada durante o jogo (não é por acaso que se regista uma enorme consternação nos comentadores quando acontece qualquer reviravolta no resultado). 

As estatísticas do jogo do Sporting contra o Tondela são absolutamente extraordinárias e mais ainda no que respeita à equipa visitada: 179 passes, com 56,0% de eficácia, 24 faltas (e outras tantas por marcar) e 28,0% de tempo de posse de bola. Os dados são esclarecedores: a cada dois passes o Tondela perde a bola, o número de passes é cerca de metade de qualquer outra das piores equipas nesta jornada, há jogadores que acertaram mais vezes no adversário do que na bola (relativamente ao jogador que foi expulso, o segundo amarelo resultou da sua sexta falta em pouco mais de vinte minutos de futebol corrido.). Aparentemente é a isto que se chama uma tática à “Treinador Português”. Não houve tática nenhuma nem sequer futebol. O que se assistiu foi a uma batalha campal com a complacência do árbitro em que a bola só serviu para sinalizar o adversário a quem se iria arrear em seguida. 

Nada disto retira responsabilidades à equipa do Sporting e aos seus jogadores e treinador. Tinham obrigação de saber o que os esperava. Era um daqueles jogos em que não se pode entrar mal e, pior ainda, permitir de forma desleixada o primeiro golo do adversário, dando ânimo e agravando as condições difíceis de partida. É preciso saber reagir em conformidade e não desistir. É duro, percebo bem. Levar, voltar a levar e levantar-se uma e outra vez, não valendo a pena protestar porque a quem se podem dirigir os protestos não está para os ouvir. Imagino que seja quase cruel para um Coates assistir a tudo isto e a saber que não pode responder na mesma moeda. As alterações táticas do Marcel Keizer mais não revelaram do que lucidez ao verificar o que se passava à sua frente: quando não se joga futebol, não se pode querer ganhar a jogar futebol porque o jogo não é esse. Também não vale a pena fazer o contrafactual na constituição da equipa e nas substituições, sob o risco de se elogiarem qualidades de jogadores que não vimos jogar e se discutir se é preferível jogar com um coxo ou um cego. 

O que me está a preocupar no Marcel Keizer não são os resultados. O que me está a preocupar é que há indícios de se estar a aculturar e de se querer transformar no “Treinador Português”. Espero que o Marcel Keizer não passe a ter medo de ser o Marcel Keizer. A bola parece sair cada vez mais pelas laterais, pelos defesas ou em passes destes para os extremos diretamente, quando nos primeiros jogos a lateralização servia simplesmente para abrir o jogo e fazer voltar a bola ao meio por onde deve andar. Os extremos estão mais abertos, jogando menos por dentro e estando mais longe quando se perde a bola, reduzindo a sua capacidade de recuperação em pouco tempo. Também por isso, a pressão à saída da bola do adversário começa a ser insuficiente e a defesa, na dúvida, joga mais atrás, deixando mais espaço ainda que o meio-campo e, especialmente, o Gudelj preenchem mal. Ninguém no seu perfeito juízo pede mais ao Marcel Keizer do que bom futebol e o crescimento de alguns jogadores que possam constituir uma boa equipa para os anos que vêm. Não há que ter medo, ainda para mais no Sporting onde nem sequer há medo de se ser feliz porque, no fim, quase sempre se é infeliz, como provaram (na própria pele) vários treinadores como o Mirko Jozić, vítima de árbitros plenos de azia e do tal “Treinador Português”.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

A derrota contra as hordas lideradas pelo Shaka Zulu das Beiras

Este fim-de-semana vi uma pequena reportagem sobre o Estrela da Amadora x Belenenses para os campeonatos distritais: estádio cheio e alegria de quem vai para uma festa com os seus, os que vestem a mesma camisola e constituem por isso a sua comunidade. Lembrei-me dos meus fins-de-semanas há uns anos em Cabeceiras de Basto quando ia ver os jogos do São Nicolau, onde jogavam os meus sobrinhos. As pessoas aglomeravam-se à volta do campo, não havendo bancada. Cada fiscal de linha ficava a um sopro dos espetadores. O jogo iniciava-se e iniciava-se um ritual que envolvia muita biqueirada para o ar, caneladas sempre que possível e insultos, muitos insultos ao árbitro e aos fiscais de linha, enquanto dois GNR passeavam a sua autoridade. Ao intervalo o café, cujo dono era o presidente do clube, enchia-se para as cervejolas da ordem, ficando muitos espetadores a ver a segunda parte das janelas ou da varanda.  

A equipa era patrocinada por um primo, empresário bem-sucedido, que vivia em Braga e se deslocava também aos fins-de-semana para ver estas partidas. Ao fim dos jogos, era frequente os árbitros irem para uma das casas da família comer umas chouriças assadas e beber umas malgas de vinho verde tinto ou de vinho maduro, para os mais finos. Era um momento extraordinário. Contavam-se as histórias mais mirabolantes dos jogos e das arbitragens. Ao princípio, a minha cabeça cosmopolita não percebia o interesse desse primo em patrocinar a equipa e os jogos. A pouco e pouco fui percebendo que o interesse era o ritual: o regresso à terra onde se nasceu, o convívio com os amigos, as conversas infindáveis sobre jogos dos sobrinhos e deles quando tinham a mesma idade. Os campeonatos distritais servem para a preservação de identidades e a construção de comunidades de destino, permitindo que o encontro com o outro e a festividade sejam um fim em si mesmo. 

Sou de Viseu e conheço bem Tondela. Faz parte de uma rede de pequenos centros urbanos que rodeiam a capital de distrito, como São Pedro do Sul, Nelas, Mangualde, Castro Daire, Sátão ou Penalva do Castelo. O clube local constitui uma das muitas improbabilidades de que o campeonato está repleto. Hoje o Tondela, o Aves, o Moreirense ou o Feirense. Ontem o Leça, o Trofense, o Arouca, o Vizela ou o Fafe. São clubes que tanto podem estar nos distritais, e até desaparecer, como a jogar com os grandes de Portugal. Num país sem descentralização política e de tradição municipalista, assiste-se à descentralização desportiva e ao municipalismo futebolístico. O que caracteriza estes clubes é o mesmo que caracterizava do São Nicolau de tempos passados: o espírito dos distritais. 

Ontem, o Sporting foi jogar a Tondela com a mesma arrogância dos meus primeiros jogos do São Nicolau. A nossa equipa tinha uma tática e um modelo de jogo. A convocatória foi a afirmação dessa matriz tecnocrática do Marcel Keizer e, procurando pensar pela cabeça de um holandês, fazia todo o sentido. Ia-se jogar um jogo e quem jogasse melhor ganharia. Mas o Sporting não ia jogar um jogo. Ia, isso sim, desafiar o sentido de pertença e de comunidade materializado numa equipa de futebol, à qual lhe é indiferente jogar os distritais ou o campeonato nacional. Nunca percebi o interesse dos treinadores portugueses em congeminar táticas para bloquearem a forma de jogar do Sporting de Marcel Keizer. Bastava continuarem a ser como são. A tática é a do “abaixo do pescoço é canela” combinada com a da “bola para o mato que o jogo é de campeonato”. Os jogadores do Tondela fizeram por merecer todas as faltas que fizeram, marcadas ou não, e todos os amarelos que lhes foram mostrados (ou não). Liderados pelo atual Shaka Zulu das Beiras, o inigualável Ricardo Costa, e armados com paus, pedras, arcos e flexas e mocas, devastaram a defesa e o meio-campo adversário. Os meninos do Sporting e o Marcel Keizer só tarde e a más horas perceberam que não estavam a jogar um jogo mas a enfrentar uma guerra de guerrilha em cada centímetro do campo. Nestes jogos há árbitros e GNR mas é como se não houvesse. 

Também é verdade que tudo o que podia correr bem para o Tondela e tudo o que podia correr mal para o Sporting, correu. É injusto afirmar-se que, no primeiro golo, era preferível um pino ao Bruno Gaspar. Um pino ocupa pouco espaço e cai ao primeiro toque. A comparação adequada é com um bidão. Se em vez de estar o Bruno Gaspar estivesse um bidão na lateral direita, o jogador do Tondela teria chocado com ele e perdido a bola. No segundo golo e apesar da reincidência, se o jogador do Tondela soubesse fazer o que fez talvez estivesse num clube começado por tê, mas não seria o Tondela, seria Tottenham. E também é verdade que o modelo Keizer está a emperrar na disponibilidade física dos avançados. Para a defesa jogar mais adiantada, é necessário que os avançados e os jogadores de meio-campo reajam mais depressa à perda da bola e a recuperam mais depressa e o mais próximo possível da área adversária, que não está a acontecer desde o jogo de Guimarães. A recuperação relâmpago do Wendell tinha o objetivo de suprir esta deficiência. Mas é preciso mais do que isso. É preciso um seis que não se pareça com o Bruno Caires, como li ontem algures. 

O Marcel Keizer às páginas tantas percebeu o que estava a acontecer à frente do seu nariz, o que revela inteligência. A tentativa de colocar os centrais dentro da área é o reconhecimento de que não bastava a tática. Era preciso coração e o tal espírito de distrital. Só não se compreendeu bem a substituição do Nani que, naquela altura, parecia o mais lúcido e o mais experiente para ajudar a virar um jogo como aquele (porventura, terá sido mais uma questão física do que qualquer outra a determiná-la). Este reconhecimento do Marcel Keizer é sinal de inteligência. Mas mais inteligente seria mandá-lo dar umas voltas por este Portugal profundo para perceber os tondelas que lhe vão sair em sorte. 

Fiquei com uma única dúvida depois do jogo se concluir e do amarelo mostrado ao Acuña (num jogo em valeu tudo e mais um par de botas). Depois de acabar o jogo, onde é que os árbitros terão ido comer a chouriça assada e beber uns copos de Dão? O número de cartões amarelos e vermelhos mostrados ao Maxi Pereira constitui um indicador avançado das inclinações arbitrais. No Benfica, conseguia ter menos amarelos do que o nosso Rui Patrício. No Porto, começou por levar amarelos e vermelhos em barda, mas, atualmente, encontra-se com o registo idêntico ao de outros tempos. A outra explicação é o Benfica ter desistido definitivamente de lutar pelo título, concentrando as suas atenções no apuramento para a Liga dos Campeões.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Alexandra Solnado a falar em Código Morse

Ontem, contra o Belenenses, era o jogo de todos os perigos. Regularmente, jogamos sem defesa esquerdo. Já jogámos também sem o Nani, o Wendell ou o Bas Dost. Íamos, agora, experimentar jogar sem o Bruno Fernandes. Encontrávamo-nos na situação do puto que mostra ao pai como se anda de bicicleta, primeiro, sem pés, depois, sem mãos, e, por fim, sem nariz. A expetativa de nos estamparmos e ficarmos sem nariz era tudo menos negligenciável. Não sei se por essa razão ou pela referência do Silas, treinador da equipa adversária, ao trabalho (?) do José Peseiro, mas o pé do dito assombrou-nos o jogo todo. 

O início dos jogos em Alvalade começa a constituir um clássico. O treinador (português) da equipa adversária congemina uma tática que ou nos surpreende ou surpreende a sua própria equipa, transformando os primeiros quinze minutos numa autêntica montanha russa. Ninguém se admirou, assim, que as três primeiras jogadas de perigo fossem do Belenenses. Até que o Nani ganha uma bola mal atrasada de um defesa de cabeça, vai à linha de fundo e passa-a ao Acuña que remata com o pé que tinha mais á mão (o direito) para defesa impossível do guarda-redes. Um pouco mais tarde, depois de um lançamento longo, o Diaby tropeça na bola, tropeça em si próprio e nos seus pensamentos, tropeça num defesa, até tropeçar no guarda-redes quando se encontrava isolado. Quando o Sporting tinha começado a controlar o jogo e a empurrar o adversário para trás, esperando-se o primeiro golo, o Acuña teve uma súbita paragem cerebral e num passe suicida para o meio isola um avançado do Belenenses que vai numa correria louca com o Coates no encalce até se desintegrar e chutar contra o poste, depois do Renan Ribeiro simular a saída, hesitar, escorregar, levantar-se e voltar a atirar-se para o chão a fingir que se fazia à bola para não fazer má figura. Para demonstrar que não precisávamos de ajuda de ninguém para o mesmo efeito, respondemos de imediato com uma triangulação notável entre o Diaby, o Nani e o Wendell, concluída com remate do segundo ao poste.

O 3x5x2 do Belenenses que se tinha vindo a transformar num autocarro, estacionou de vez na segunda parte, não se registando nenhuma saída para o ataque ou contra-ataque em condições. O Sporting tentava pressionar alto, mas os jogadores do Belenenses conseguiram sempre, com maior ou menor dificuldade, não perder nenhuma bola próximo da sua área. A insistência era inversamente proporcional à imaginação pelo meio e aos desequilíbrios nas laterais e, assim, o Bas Dost nem a bola cheirava, entalado como estava entre três centrais. Mas, há sempre um mas, por uma vez o Gudelj decide fazer um passe para a frente, o Nani recebe a bola e passa-a de primeira para o Diaby que, à entrada da área, a segura enquanto vai chamando pelo Bruno Gaspar. Chamou uma, chamou duas, até que à terceira lhe enviou uma mensagem por WhatsApp: “Bruno, não te importas de te desmarcar pelo lado direito para te passar a bola. Era um favor que me fazias. Atenciosamente, Diaby”. Por educação, o Bruno Gaspar correspondeu ao pedido e concluiu a jogada, seguindo as orientações que lhe tinham sido transmitidas na primeira parte pelo treinador quando o chamou ao banco de suplentes para lhe dizer: “se não sabes fazer um centro ou um remate, então faz um centro-remate” (o André Almeida tem vindo a desenvolver esta técnica com resultados assinaláveis, valendo-lhe candidatura para Prémio Puskas). Como se viu em “slow motion”, a forma hábil como pontapeou a bola por baixo e do seu lado direito permitiu que ganhasse um tal efeito que tanto se podia considerar um passe para a barriga do Miguel Luís ou a cabeça do Bas Dost, que estavam mais à frente, como um remate dirigido à cabeça do defesa para nela a bola tabelar e entrar junto ao poste mais longe. 

Depois do um a zero e das obrigatórias substituições do Nani e do Wendell, que se encontravam por um fio, o Marcel Keizer resolveu aproveitar o trabalho do José Peseiro, como tinha vaticinado o Silas. A equipa ficou como um tolo no meio da ponte: não sabia se devia atacar e fechar o resultado ou defender o um a zero. O público de Alvalade, experiente, sabendo que o perigo estava ao virar da esquina, insistia para que se continuasse a atacar. Tanto insistiu que, depois de receber a bola à entrada da área e da cerimónia da defesa do Belenenses, o Miguel Luís enfiou-lhe uma pantufada que só parou dentro da baliza, deixando o seu avô lavado em lágrimas, como se soube mais tarde. O dois a zero é um resultado perigoso e mais perigoso é quando se trata do Sporting. O Gudlej continuava a perder bolas e a marcar os adversários com o olhar (ao menos que faça como o Jonas e lhes atire os atacadores das chuteiras às fuças, como relatou a SporTv no jogo do Benfica contra o Portimonense). Sem pressão, os defesas e os médios do Belenenses tinham todo o tempo e espaço do mundo para meter a bola nas costas da defesa para as diagonais dos avançado e, num desses lançamentos, o Licá ficou isolado do lado esquerdo. O Coates ainda correu para a defesa mas, vendo que se tratava deste internacional português e que o Mathieu se encontrava por perto, desistiu e quando acordou para a vida era tarde. O Licá, depois de se atrapalhar, acabou por passar a bola para dois ciclistas que vinham a toda a brida, o primeiro rematou para defesa do Renan Ribeiro, acabando o segundo por fazer a recarga para o dois a um, cumprindo a máxima do nosso treinador: o jogo não é jogo se não sofrermos pelo menos um golo.

Tudo está bem quando acaba bem, seria este o final deste jogo e desta crónica. Mas eles andam por todo o lado. Infiltram-se onde menos se espera. Saindo debaixo da terra, como de costume, um deles perguntou ao Marcel Keizer na conferência de imprensa se o despedimento do Rui Vitória podia produzir o mesmo efeito do despedimento do José Peseiro. O homem, em vez de responder com o correspondente: “O que é que tenho a ver com essa m****?!”; disse umas coisas que nem ele próprio percebeu, enquanto se esquivava de uma insistência por palavras ínvias. 

O Benfica, sempre o Benfica. Na televisão, o despedimento do Rui Vitória foi analisado como se tratasse da votação no parlamento inglês do acordo do Reino Unido com a União Europeia para o Brexit. Depois de uma noite de insónia, o Luís Filipe Vieira viu uma luz e prometeu ao Rui Vitória que não o despediria. Foi a fé que o iluminou. As religiões foram construídas a partir deste tipo de enigmas (ou de milagres, na linguagem mais canónica). Os textos sagrados estão repletos de relatos como este (quem não se lembra da epopeia de Melchior, Baltasar e Gaspar sem ajuda do Google Maps). A fé não se explica. Ou se tem ou não se tem, ou se é racional ou se tem fé (ainda se pode admitir que depois de atos racionais sem sucesso se possa ter que confiar na fé, mas nunca o contrário). Não se pode vir um dia metaforicamente afirmar que se falou com Deus para dias depois se corrigir, fazendo de conta que tudo não passou de um simples engano e a luz se tratava da Alexandra Solnado com uma lanterna a tentar comunicar em Código Morse. Espera-se adequado comunicado da Santa Sé ou, pelo menos, do Patriarcado de Lisboa. Da Associação Nacional de Treinadores espera-se tanto ou mais. Depois de uma promessa destas, não se compreende que se despeça um treinador à falsa fé.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Averell e Joe Dalton

O jogo de ontem, contra o Feirense, começou muito depressa. O Bruno Fernandes mete a bola no lado direito para o Raphinha que avança com ela até fazer uma revienga à entrada da área a dois adversários e rematar em arco para o poste mais longe, fazendo o um a zero. Passado mais um quarto de hora, um passe em profundidade do Coates (noutros tempos a este passe chamava-se um alívio do Polga) o Bruno Fernandes a deixar bater a bola à sua frente e a enfiar-lhe um vólei por cima da cabeça do guarda-redes para fazer o dois a zero. As crónicas dos jogos do Sporting tornam-se assim muito mais difíceis de escrever. Não há tempo para perceber a tática das equipas, o modelo de jogo, as intenções e outras questões que levam tanta gente a ver jogos em Portugal e tantos e tantos a querer analisá-los, antes, durante e depois de se realizarem. 

Mal tinha passado um minuto depois do segundo golo, o Coates domina mal uma bola que fica a pinchar à entrada da área, o Petrovic salta com um adversário e o árbitro marca “penalty”. Finalmente os treinadores portugueses tinham percebido a melhor forma de ultrapassar o Keizer, recorrendo à mesma fórmula dos tempos do Jozić: meter um deles a arbitrar os jogos. Ao princípio pensei que fosse o José Mota, mas uma análise mais atenta permitiu-me perceber que se tratava do Averell, o mais alto dos irmãos Dalton. Na SportTv um comentador explicou-nos que a intensidade que não tinha levado o Averell a marcar “penalty” numa falta sobre o Raphinha era diferente da intensidade que o tinha levado a marcar este. Fiquei esclarecido e percebi imediatamente por onde andava o Joe, o mais baixo dos irmãos Dalton. Tinha desconfiado quando no único lance de perigo até então dos da casa, ninguém tivesse reparado que nasce de uma falta que não existe e de um jogador que se faz à bola e atrapalha o Salin que se encontrava meio metro fora-de-jogo. Em alternativa, explicaram-nos que o Feirense era uma equipa muito forte nas bolas paradas. Ao longo do jogo percebi quão verdade era esta asserção: com a bola parada era para os seus jogadores muito mais fácil de lhe acertar do que quando se encontrava a rolar, acertando com mais frequências nas canelas ou em qualquer outro elemento anatómico dos adversários que estivesse à mão de semear. 

O Sporting continuou como se nada fosse e passado cinco minutos o Bruno Fernandes cabeceia para uma defesa impossível do guarda-redes. No entanto, o jogo começou a ficar mais partido. O Sporting procurava pressionar alto e recuperar a bola o mais próximo possível da área do adversário, mas os do Feirense não estavam para brincadeiras e desataram às biqueiradas para onde estavam virados, explicando-nos benevolentemente o comentador da SporTv que pretendiam explorar a profundidade e as costas da defesa. O jogo foi prosseguindo com canelada aqui, canelada ali, canelada acolá e faltas marcadas para uma e outra equipa de acordo com uma distribuição binomial com uma probabilidade de ocorrência diferenciada em função da cor das camisolas. Embora se tenha começado a salientar um tal de Philipe Sampaio, acabou por ser um outro, Diogo Almeida, a constituir-se como o praticante de artes marciais mais destacado ao tentar arrancar a rótula do Acuña (a falta foi grave, mas tão, tão grave que levou um amarelo para aprender a comportar-se). 

A segunda parte iniciou-se como se tinha concluído a primeira (onde é que já ouvi isto!). O Philipe Sampaio acabou por levar um amarelo pelo facto de ter efetuado três faltas, de acordo com a sinalética do árbitro com os dedos da mão (sempre tive a maior desconfiança na matemática de pessoas que contam pelos dedos). Seguramente aborrecido por esta falta de reconhecimento, o Philipe Sampaio aplicou um “ippon” ao Bas Dost dentro da área, vendo recompensado o seu esforço com um “penalty” (o Sporting tem uma excelente equipa de judo e é campeão europeu, mas um atleta como este não aparece todos os dias, deixando-se esta referência à melhor atenção do “scouting”). Alguém deve ter explicado, e bem, ao guarda-redes que a melhor maneira de defender um “penalty” do Bas Dost é manter-se de pé o mais tempo possível, embora se tenha esquecido de lhe dizer que se assim o fizesse provavelmente também não chegaria a tempo à bola, mesmo que ela fosse simplesmente passada para a baliza. O quatro a um veio logo a seguir, depois uma tabelinha entre o Miguel Luís e o Diaby, com o guarda-redes a defender a bola para a frente e um defesa do Feirense a metê-la na própria baliza só para evitar que fosse o Bas Dost a fazê-lo. 

O Tiago Silva, o Platini de Santa Maria da Feira, nas conhecedoras palavras do comentador da SporTv, envolveu-se num curioso diálogo filosófico com o árbitro sobre a existência de Deus na lógica cartesiana. Procurou-lhe explicar que a consciência do perfeito pelos homens, imperfeitos por definição, pressupõe a sua existência. O árbitro, percebendo incorretamente a referência à imperfeição, pensando que dizia respeito à sua arte do apito, expulsou-o injustamente. A partir do quatro a um e desta expulsão, o jogo praticamente acabou. Os jogadores do Sporting foram trocando a bola entre si para evitarem os “kamikazes” fogaceiros, embora o Jovane Cabral, menos industriado na tática do engonha, ainda tenha rematado ao poste, seguido de uma recarga do Diaby por cima da baliza quando a tinha completamente aberta à frente do nariz. O Keizer aproveitou para rodar a equipa sem ter, porém, resistido à tentação de arriscar tudo por tudo ao meter o Jéfferson ainda antes do tempo de descontos. Quem viu o jogo na televisão não deu, mesmo assim, o tempo por perdido. Desalentado, o comendador da SporTv foi-nos explicando que este resultado e a passagem à “final four” da Taça da Liga eram contra o interesse próprio do treinador e dos jogadores do Sporting. Elaborou um raciocínio longo e complexo que envolvia a necessidade de continuar a jogar futebol e de desgastar jogadores numa equipa desfalcada e os jogos decisivos que se aproximavam em janeiro. Como disse, o raciocínio é complexo e o facto de o não ter percebido não revela nenhuma falácia mas a minha pura e simples imperfeição como humano que sou. 

Este jogo merece duas notas finais. Assistimos ontem a algo que só tem paralelo no acontecimento de 13 de maio de 1917, na Cova da Iria, apesar da existência de alguns céticos, pelo simples facto de não haver televisão nessa altura e muito menos a CMTV. A transformação do Petrovic num jogador de futebol (para mim, o Gudelj já era) foi vista em direto e, por isso, ninguém pode ter dúvidas sobre este milagre. O Keizer ficou perplexo com a marcação do “penalty” a favor do Feirense, chegando quase a perder a fleuma quando falou com o quarto árbitro. Espero que continue sem perceber onde se meteu e o que o espera ainda. De outra forma, se se deixa condicionar e ao seu jogo pelas arbitragens, está entregue. A melhor forma de lidar com as arbitragens é procurar jogar futebol e marcar tantos golos quantos os possíveis para evitar danos. Com o Rei da Tática, o jogo de ontem estava suficientemente armadilhado para se transformar na sua fase final num “Nossa Senhora nos acuda”. Esperamos dele milagres como o do Petrovic. Não esperamos outros milagres, que não estão ao seu alcance, como transformar o futebol português num jogo em que ganha quem marcar mais golos e jogar melhor.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

E-estúpido

Não há democracia sem estado de direito. O estado de direito consiste num conjunto de regras que voluntariamente consentimos para que a vida em comunidade seja possível. Na boa tradição da “comon law” anglo-saxónica, serve para defesa da liberdade dos cidadãos do arbítrio, nomeadamente do estado. Estatutos e princípios como o “habeas corpus”, a presunção da inocência ou o “in dubio pro reo” servem para defesa da liberdade contra esse arbítrio e a tirania do estado. Sem querer parecer conservador, constituem as escolhas coletivas que vamos fazendo ao longo do tempo para construirmos uma sociedade decente de homens livres. É por isso que, por exemplo, preferimos sempre um culpado em liberdade a um inocente condenado. 

Dito isto, não deixa de ser controversa a decisão da juíza de instrução no caso e-toupeira. A acusação deste tipo de crimes vive sobretudo de prova indiciária. A acusação do José Sócrates está aí para o demonstrar. O Ministério Público presume que o dinheiro na conta do seu amigo lhe pertence. Presume que as transferências de dinheiro para essas contas foram para pagar benefícios indevidos. Presume que as pessoas que as efetuaram foram beneficiadas e que os benefícios foram ilegitimamente concedidos pelo ex-primeiro-ministro. Procura sustentar estas presunções em provas. No entanto, ainda não conhecemos nenhuma prova de que às tantas horas de um determinado dia o ex-primeiro-ministro combinou com o senhor x ou y este ou aquele benefício e que às tantas horas de outro dia tenha dado ordens ao ministro A, ao diretor-geral B ou ao funcionário público C para que executasse a decisão previamente combinada.  

No caso e-toupeira, não deixa de ser controversa a decisão da juíza de considerar como suficientemente provados os crimes e os seus autores diretos e, ao mesmo tempo, não pronunciar o Benfica também, a entidade que, putativamente, deles beneficiaria. É controversa mas não me custa a aceitar. Admito que as regras que constituem o nosso estado direito foram bem aplicadas. De acordo com essas regras, para a juíza, os presumíveis crimes e os seus presumíveis autores devem ser julgados, mas o Ministério Público não provou suficientemente que o Benfica neles estivesse envolvido e deles tivesse beneficiado, não devendo ser, assim, acusado.

Como disse, não me custa aceitar esta decisão. O que me custa é que se finja que não aconteceu rigorosamente nada e nos tomem a todos por parvos. Respeito a decisão da juíza de não pronunciar o Benfica, mas também respeito a sua decisão de pronunciar um funcionário judicial e o Paulo Gonçalves. Não se pode respeitar uma sem respeitar a outra e a segunda, por si só, é suficientemente grave. A justiça não é futebol, tenho muita pena. Vivemos bem, ou menos mal, sem futebol, mas não vivemos sem estado de direito. 

O Sporting, que se constituiu como assistente neste processo por se tratar de parte interessada, considera a decisão da juíza aparentemente incompreensível e admite recorrer. Um jornalista veio de imediato considerar que se tratava de uma declaração de guerra, nem mais nem menos, confundindo também futebol e golos com estado de direito e respeito pela justiça e suas instituições. O conjunto de regras que permite ao Benfica não ser pronunciado é exatamente o mesmo que permite ao Sporting e à sua Direção não concordar com essa decisão e admitir o respetivo recurso. Apreciei especialmente os termos do comunicado do Sporting. Em vez de vir para as televisões e para o “facebook” com as bravatas do costume fazer chicana, a Direção do Sporting irá recorrer às instituições, respeitando-as dessa forma. Não há guerra nenhuma. Há é uma grande diferença que só não vê quem não quer ver e desta vez não tem o Bruno de Carvalho como desculpa.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Bom Natal para si e para os seus

Em Braga, um sportinguista é um sportinguista, enquanto um adepto do Sporting de Braga é um benfiquista com complexo de culpa: no momento da verdade, num Benfica-Braga, o lampião bracarense trai o cidadão bracarense. No café onde vi o jogo, estavam os quatro sportinguistas da praxe e uma multidão de benfiquistas. Os benfiquistas ainda arriscaram uns comentários, mas depois de umas vagas referências às equipas B, ao “je suis Guimarães” e ao “cluster” local da construção civil e obras públicas, viram o jogo calados e vagamente constrangidos. Nunca tantos pareceram tão poucos. A nossa tristeza pela derrota do Braga e o desejo de derrota do Guimarães eram genuínos. Moralmente, ganhámos ainda antes de começar o jogo. 

O Marcel Keizer organizou a equipa com todas as cautelas e caldos de galinha como qualquer José Mota com ou sem barrete enfiado, não sendo preciso assim que o Luís Castro demonstrasse a sageza do treinador português. As equipas começaram a jogar na expetativa, cada um delas à espera do erro do adversário. O Guimarães não pressionava tão à frente como o Aves, o Nacional ou o Rio Ave, o Sporting jogava com a defesa mais recuada e sem grande vontade de sair em tabelinhas pelo meio ou de pressionar alto. No jogo do engonha do futebol português, um treinador holandês ou de outra qualquer nacionalidade perde sempre para o autóctone. 

Notou-se que a equipa do Sporting não estava confortável com o modelo de jogo, por opção mas também por mérito do adversário. Os jogadores do Sporting pareciam ficar sempre a meio do caminho: nem avançavam como deviam, nem se fechavam em alternativa. A cada perda de bola, sucediam-se as investidas da cavalaria adversária que devastava o nosso meio-campo, obrigava a recuar os avançados e os laterais à desfilada e deixava os centrais em estado de pânico permanente. Se houvesse um golo, adivinhava-se que fosse do Guimarães e assim foi. Bola metida na molhada, mau alívio do André Pinto para a entrada da área, Joavne Cabral a acordar tarde para a vida e um baixote entroncado a enfiar uma bica com o pé esquerdo que fez tabelar a bola nos mecos à sua frente até entrar na baliza numa excelente jogada de “flippers”. No resto da primeira parte piorámos, se ainda era possível. O Sporting queria reagir e perdia mais bolas e os contra-ataques do Guimarães sucediam-se. 

Na segunda parte, com a entrada do Raphinha, o Sporting equilibrou o jogo e ameaçou ficar por cima. Parecia que nada ficaria como antes e se assistiria a mais um jogo frenético. Não foi assim que aconteceu. Por volta dos sessenta minutos, a equipa do Sporting deu literalmente o berro. Bastava o Guimarães jogar comprido para aparecer um avançado a antecipar-se à defesa, a ganhar a primeira bola de cabeça ou a ganhar a segunda. Os jogadores do Sporting não ganhavam uma bola, perdendo todos os duelos individuais (nestas circunstâncias sente-se mais a falta de jogadores como o Coates ou o Battaglia). Era preciso mexer na equipa. Com aqueles não íamos lá. Começamos a pensar que com a entrada do Petrovic para o lugar do Gudelj ou a colocação do Acuña no meio para entrada do Jéfferson em substituição do Gudelj é possível virar o jogo. Mais tarde, quando caímos em nós, é que percebemos que a esperança em Marcel Keizer é tanta que enlouquecemos de vez e passámos a acreditar em milagres. Entrou o Mané para o lugar do Miguel Luís e a equipa ainda se afundou mais, deixando de existir qualquer ligação entre a defesa, o meio-campo e o ataque. O Gudelj era sempre um jogador a menos quando tocava a defender e um jogador a mais quando se pretendia atacar, obrigando o Bruno Fernandes a recuar mais do que o desejado. A entrada do Petrovic para o seu lugar pareceu tardia, mas quando se colocam tantas fichas nele é porque estamos perdidos. Valeu-nos o Renan Ribeiro para salvar a honra do convento. 

Passei a escrever estas crónicas no dia seguinte aos jogos. Escrevo-as enquanto espero por um colega para o almoço. Esqueci-me que hoje não só não era dia de trabalho como era véspera de Natal. Natal é para dedicarmos tempo à família e ao que verdadeiramente importa. Percebemos que as coisas verdadeiramente importantes são a necessidade imperiosa de se comprar as gasosas para os miúdos ou ajudar a fazer rabanadas ou arroz doce, esperando que se tenha acertado no tamanho da saia, da blusa ou das sapatilhas da mãe, da irmã e do sobrinho. Andamos numa fona de um lado para o outro sem tempo para nada e perante olhares de quem nos vai fazer uma entrada de carrinho se voltamos a entornar o molho do pudim ou se provarmos o bolo-rei antes do tempo. Recebe-se mensagens que tanto podem ser sobre o Sporting ou de Boas-Festas, às quais respondo invariavelmente sem ler: “Bom Natal para si e para os seus”. 

Arranjei uns minutos para escrever esta crónica. Não foi bem para a escrever. Foi mais para desejar a todos e a cada leitor “Bom Natal para si e para os seus”, enquanto tenho tempo e ninguém se lembra que preciso de comprar canela, frutos secos, ananás ou qualquer outra destas coisas das quais a nossa vida hoje depende como se não houvesse amanhã. Esse desejo vai acompanhado de um excelente “cartoon” do A. Trindade, amigo e colega insustentável.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Uma grande pedrada

Não aprecio os jogos durante a semana. Baralham-me a logística. Em condições normais, não teria visto o jogo contra o Rio Ave. Tratando-se do sétimo teste à inteligência dos treinadores portugueses e à sua superioridade em relação ao Marcel Keizer, senti-me, no entanto, na obrigação de o ver. Ainda não percebi esse exame permanente. É que o exame é para os dois lados e, até agora, os treinadores portugueses não se têm saído nada bem. Como a inteligência e a competência não escolhem nacionalidade, considero estas comparações ridículas e de mau-gosto. Como gato escaldado até de água fria tem medo, só cheguei ao Flávio cerca da meia hora de jogo, mas a equipa do Sporting trocou-me as voltas, estando a ganhar por dois a zero. 

Cheguei tarde mas ainda a tempo de ver o Gelson Dala falhar isolado um golo que parecia fácil, depois de uma marcação cerrada com o olhar do Mathieu como quem diz: “se te atreves a marcar, enfiamos-vos uma mão cheia!” Pela ameaça ou por desfastio, acabámos mesmo por marcar o três a zero, em mais uma daquelas excelentes jogadas a que vamos ficando (mal) habituados. Parece tudo muito fácil. Tabela entre o Jovane Cabral e o Acuña, com este a desmarcar-se do lado esquerdo até entrar na área e, em vez de meter no meio para o Bas Dost, fazer um passe tenso para a entrada da área do lado contrário onde apareceu o Bruno Fernandes a dominar a bola com um toque, a deixá-la saltitar à sua frente para enfiar um balázio para o lado contrário sem quaisquer hipóteses de defesa. Em condições normais, o jogo teria acabado naquele instante. Nós passaríamos a engonhar e o Rio Ave a fazer de conta que fazia e acabava-se o jogo com a dignidade salvaguarda das duas equipas. A equipa do Rio Ave não quis assim e marcou-nos um golo às três tabelas ainda antes de acabar a primeira parte. 

Entrámos na segunda parte dispostos a não fazer nada para alterar o estado das coisas. Havíamos ganhado três a um em Vila do Conde e a repetição do resultado constituía um “win-win”. Até que um avançado do Rio Ave tropeçou no Mathieu, tropeçou no Coates, tropeçou no Renan Ribeiro e se preparava para marcar, valendo-nos ao Bruno Gaspar. “Ai é assim! Querem brincadeira! Então vão ver com quantos paus se faz uma canoa!”, foi o que ficou a remoer nas entranhas dos jogadores do Sporting. Falhámos logo três oportunidades seguidas só para os avisar. Não contentes, os jogadores do Rio Ave resolveram pressionar o Bruno Gaspar junto à linha de fundo quando a bola em vez de sair emperrou na bandeirola de canto. A resposta a esta falta de respeito foi um turbilhão de passes e desmarcações concluído com uma tapinha de cabeça do Bas Dost. A partir do quatro a um foi o dilúvio de ambas as partes. Passou-se a jogar à bola no recreio. As oportunidades sucediam-se com os do Sporting cheios de cerimónia: “Marca tu, Bas Dost”, “Obrigado Bruno Fernandes, mas faça o favor V. Ex.ª”. O Sporting marcou mais um pelo Diaby e o árbitro inventou um “penalty” para amenizar o resultado e arranjar mais um amarelo. 

Este ano, estive em Amesterdão com a minha filha, a minha mulher e um familiar um pouco mais velho: uma “soixante-huitard” da crise académica de sessenta e nove, um casal dos anos oitenta com rodagem no Jamaica e no Tóquio e uma “millennial” defensora dos direitos das mulheres e em transição para vegetariana (para não incomodar os animais). Três gerações alternativas e ninguém sabia enrolar. Acabámos por comprar uns chupa-chupas com “cannabis”. Sabia ao mesmo que um “Chupamix” (admitindo que sei qual é o seu sabor). Fisiologicamente, não se notou nada a não ser a língua esverdeada, mas fiquei muito bem-disposto. Este Sporting do Marcel Keizer faz-me lembrar esse chupa-chupa (nada de confundir com outras iguarias do “red light district”). Não sabemos o que contém, mas sabe bem. Também ficamos esverdeados e com sensação de euforia. Dá, sem dúvida, uma grande pedrada. Espera-se que a ressaca não seja má, porque origina efeitos aditivos.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O palavrão de um puto com ar de beto

No campeonato nacional, está instituído que os primeiros vinte cinco a trinta minutos do jogo são para estudo mútuo das equipas. Nos dez a quinze minutos seguintes pode-se tentar marcar golo, mas, passado esse tempo, os últimos cinco minutos da primeira parte são jogados em clima de armistício para que ao intervalo os treinadores dêem novas indicações. Ontem, o Nacional violou grosseiramente esta regra. Não tenho a certeza que tenha sido de propósito. O jogo começou e o Nacional foi trocando a bola a passo até se aproximar da nossa área. Ao chegar ao lado direito do ataque, a passo, o Jéfferson foi ultrapassado por um adversário que ficou solto e rematou para a primeira defesa do Renan Ribeiro. Aos vinte e dois segundos de jogo, o Nacional ia marcando quando ainda estava a estudar a equipa do Sporting. Quando se aprende tão depressa, fica-se com a ilusão que se sabe tudo. Trinta minutos depois, ainda estávamos a estudar a equipa do Nacional e o Nacional já nos tinha marcado por duas vezes e ameaçado marcar outras tantas. 

Para nós, Sporting, essa primeira meia hora não serviu para testar a defesa do Nacional mas a realização da SporTv. Tabelinha a desmarcar o Diaby do lado direito, centro atrasado e Bas Dost a marcar. O árbitro anulou o golo por suposto fora-de-jogo do Diaby, sem que a SporTv nos mostrasse outro ângulo do lance que não fosse o da câmara que está fora do estádio para acompanhar a chegada dos adeptos. Mais tarde, a SporTv informou-nos que houve uma avaria, fazendo-nos lembrar os gloriosos tempos da RTP quando a imagem da transmissão desaparecia, ficando somente símbolo da mira com a frase “o programa segue dentro de momentos”. A acabar a primeira parte, o Coates avança com a bola e vai sucessivamente tropeçando nela, nos colegas e nos adversário até ganhar a linha de fundo e fazer um centro que é desviado ao primeiro poste para aparecer o Bas Dost ao segundo ensarilhado num adversário. “Penalty”, Bas Dost simula com o olhar, guarda-redes de pernas para o ar e bola no meio da baliza. Renascia a esperança. O Bruno Fernandes isola-se do lado direito depois de um ressalto e, em vez de passar ao Bas Dost, remata ao lado, deixando-o completamente furioso a enfiar uns biqueiros na baliza e a gritar uns impropérios ao seu colega (pela primeira vez vi o Bas Dost zangado). 

No final do jogo, o Marcel Keizer informou-nos que ao intervalo não se passou nada. Os jogadores terão conversado entre eles e comunicado que iriam jogar melhor. Acredita quem quiser, mas fica-lhe bem. O que vimos foi uma coisa diferente. Saiu o Bruno César, entrou o Miguel Luís, que passou a jogar mais recuado, avançando o Bruno Fernandes. Com o Miguel Luís a ocupar melhor os espaços, sempre em apoio aos colegas da frente, quer oferecendo linhas de passe seguras, quer pressionando imediatamente o adversário depois da perda da bola, o Sporting definitivamente empurrou o Nacional para trás que não mais criou um lance de perigo. O jogo começou a ficar frenético mas por uma ou outra razão a bola não entrava, até que o Marcel Keizer tirou o Nani (ficou-lhe bem fazer de conta que lhe estava a doer uma virilha para manter a compostura) e meteu o Jovane Cabral, que, definitivamente, virou o jogo. 

Recuperou uma bola, meteu de primeira para o Bas Dost que, de tropeção em tropeção, se isolou e passou para o Bruno Fernandes a empurrar para o empate. Vão imediatamente os dois buscar a bola dentro da baliza e correm para o seu meio-campo para que o jogo pudesse recomeçar imediatamente. Alvalade ficou ao rubro e, a partir daquele momento, percebia-se que nada ficaria como dantes. O Gudelj tabela com um colega, atrapalha-se com a bola, ganha o ressalto com a cabeça e, quando se preparava para ficar isolado do lado direito, um central ao procurar sacudir-lhe a caspa do cabelo enfia-lhe uma biqueirada no toutiço com o calcanhar (coisa que diria impossível se não tivesse visto). Livre e Mathieu a enfiar um míssil ao ângulo, concluindo a remontada. A loucura apoderou-se dos jogadores e dos espetadores. Mas o Nacional e o Costinha não vieram a Alvalade para nos alegrar a festa. Entraram dois avançados, cada um maior do que o outro, e foram um par de minutos de ai Jesus na nossa área com o Bruno Gaspar a tirar uma ao segundo poste e o Renan Ribeiro a defender outra. O Bruno Fernandes ainda correu sessenta metros isolado mas, agarrado e sem força, permitiu a defesa do guarda-redes adversário. Começava a rezar pela entrada do André Pinto nem que fosse para se perder algum tempo na substituição. 

O Marcel Keizer manteve-se impassível e não me fez a vontade, com razão, como se viu. O Bruno Fernandes ficou encurralado do lado direito entre a linha lateral e a linha de fundo e, quando se esperava que perdesse a bola ou, na melhor das hipóteses, ganhasse um lançamento ou um canto, enfiou a bola pelo meio das pernas do defesa que estava à sua frente, desmarcando o Bruno Gaspar para centrar ao segundo poste onde aparecia o Bas Dost que em vez de empurrar a bola para dentro da baliza como de costume foi ele próprio empurrado para dentro da baliza. “Penalty”, remate do Bas Dost, guarda-redes a voar e a tocar a bola com a ponta dos dedos e a desviá-la para o poste onde tabelou antes de entrar. O árbitro disse que foi mal marcado, o Bas Dost pediu educadamente desculpa e voltou a marcar, agora como deve ser, deixando o guarda-redes de cócoras. O quinto golo foi uma delícia. O Diaby a correr em diagonal da direita para o centro, o Bruno Fernandes a deixar passar a bola por entre as pernas, a solicitação do Jovane Cabral do lado esquerdo para o centro ao segundo poste onde aparece o Miguel Luís a atrasar a bola para uma primeira cabeçada do Bruno Fernandes, que o guarda-redes defendeu por instinto, seguida de uma recarga com o pé esquerdo a fuzilar.

Ninguém consegue explicar muito bem o que se está a passar no Sporting. Se o Marcel Keizer é um génio ou um doido varrido. Não me parece que interesse muito. No futebol português perde-se mais tempo a explicar a tática e coisa e tal do que propriamente a ver e apreciar os jogos. O que interessa mesmo é o momento, como há dias alguém referia no comentário a outro “post”. É desfrutar cada momento e manter as expetativas que mantemos todas as épocas: poucas ou nenhumas. Este jogo deixou-me, assim, exausto e sem grande vontades de análise. Retirei uma única imagem dele: quando marcámos o três a dois, as câmaras da SporTv apanharam um puto com um ar de beto a dizer um palavrão de punho erguido e aos saltos com um amigo com ar de beto também. É um puto a aprender a ser homem, isto é, um homem como eu que que se comporta como um puto sempre que joga o Sporting.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Até tu, Petrovic?!

Vorskla Poltava não me fazia lembrar nada (até rima), até que um colega meu, homem culto, me falou da Batalha de Poltava e da sua importância no desfecho da Grande Guerra do Norte, no século XVIII, com os russos a barrarem os suecos. Íamos enfrentar gente rija, e não daquela que à primeira ameaça se mete nas caravelas e vai para o Brasil, como se viu durante o jogo. O Marcel Keizer não se intimidou e fez o que tinha a fazer com o desassombro do costume: mandou grande parte dos titulares para a bancada e fez uma mistura de titulares, suplentes e miúdos da equipa de sub-23. É o equivalente a uma invasão marítima em que se queimam os barcos à chegada. Era com aqueles que se tinha de chegar ao fim do jogo, não havendo volta atrás. 

Começou o jogo e começou o massacre. Praticamente, durante toda a primeira parte, os do Vorskla Poltava mal cheiraram a bola. Quando a recuperavam, eram cercados por uma praga de gafanhotos até a perderem ou se desfazerem dela a toda a sela. O Miguel Luís isola-se e acerta nas pernas do guarda-redes. O Jovane Cabral trabalha bem a bola do lado esquerdo, entorta dois adversários, mete-a no meio para o Montero a tentar dominar com o pé direito e a deixar sair pela linha de fundo, em vez de rematar de primeira. O Bruno Fernandes descai para o lado esquerdo, mete a bola de calcanhar para o Acuña, que a centra para o Mané a dominar mal, permitindo um corte com o joelho de um adversário que a leva direitinha para a cabeça do Montero a desviar para dentro da baliza. O Montero recua para receber uma bola que vinha aos trambolhões, domina-a e passa-a para o Coates avançar com ela até desmarcar o Mané do lado direito que a passa de primeira ao Bruno Fernandes, respeitando a sua desmarcação, que também de primeira a mete no meio para o Miguel Luís a empurrar para o segundo golo. O Ristovski sofre uma falta do lado esquerdo, marca-a rapidamente com um passe para o Bruno Fernandes, tabela com o Mané, receção da bola mais à frente e passe para a entrada do Montero, que, a meias com um central, faz o terceiro golo. “Game, set and match” ainda na primeira parte. 

A segunda parte foi um passeio. Os do Vorskla Poltava continuaram a jogar forte e feio até lesionarem o Montero, levando à sua substituição pelo miúdo Pedro Marques. O Sporting começou a gerir o jogo. O Marcel Keizer tirou o Ristovski e o Bruno Fernandes para meter os miúdos Thierry Correia e Bruno Paz. Os miúdos entraram com vontade de mostrar serviço, mas o resto da equipa já estava em modo deixa andar, apesar de uma ou outra exceção, como o Acuña, que mostrava vontade de brincar com os miúdos. O Thierry Correia isola-se depois de uma boa jogada do Bruno Paz, mas à frente do guarda-redes enfia uma trivela com efeito ao contrário e a bola sai ao lado. O Jovane Cabral, depois de um bom passe do Mané, acerta no guarda-redes. O árbitro faz vista grossa a um “penalty” sobre o Pedro Marques, quando se isolava pelo lado esquerdo. 

Quinta vitória consecutiva e vinte golos marcados depois, o Marcel Keizer continua sob escrutínio. O Lusitano de Vildemoinhos era da terceira divisão e contra o Qarabag é que se ia ver. O Qarabag não joga nada e contra o Rio Ave é que seria o grande teste. O Rio Ave joga o jogo pelo jogo e contra o autocarro de Aves é que seria o bom e o bonito. O Aves ganhou na tática de nada valendo os quatro que enfardou. O Wendel lesionou-se e ai Jesus, Nossa Senhora que agora é que vão ser elas. Entrou o Miguel Luís e não foram. Mas o que impressionou foi ver o Petrovic a jogar à bola. Sem a emulação do William Carvalho, não precisa de inventar, jogando ao primeiro e ao segundo toques, com passes curtos, e movimentando-se sistematicamente no apoio a quem tem a bola. Fez bem as coberturas, recuperando bolas e não deixando os centrais sozinhos contra o resto do Mundo. De repente, os espectadores renderam-se, com aplausos após um corte rapidíssimo (nada que se imaginasse ainda há bem pouco tempo). 

O Sporting não se preparou devidamente para lutar por qualquer título. Não tem plantel para isso. O que Marcel Keizer está a fazer é um milagre, mas é um milagre que nos está a fazer muito bem, não só a nós como ao futebol português também. O futebol é um desporto simples e não precisa de uns palavrosos para ser explicado. Como todas as atividades, o que verdadeiramente conta são as pessoas, neste caso os jogadores. Quando estão bem, quando estão confiantes, a tática aparece sem necessidade de berrarias de treinadores de risco ao meio com egos que não cabem num Antonov. Nem sempre se vai ganhar, nem sempre se vai jogar bem. É assim, é sempre assim. Não há mal que sempre dure, nem bem que se não acabe, como diz o provérbio, que corresponde estatisticamente à convergência para a média (embora o jogo do Sporting não tenha nada de aleatório). Vamos ver como é que a equipa reage quando as coisas correrem mal. Sobretudo vamos ver como os adeptos reagem quando assim acontecer. Os do costume estão preparados e a afiar a faca: “bem dizia, eu sabia!”

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Bem-vindo ao sul, parte 2

O jogo contra o Aves narrado e comentado pela SporTv foi hilariante, mas a conferência de imprensa que se lhe seguiu não o foi menos. O contexto cultural conta muito e se nos distanciarmos para observar o que foi perguntado e respondido e a interação entre treinadores e jornalistas temos motivos de sobra para juntarmos a gravação ao “Monty Python's Flying Circus”.

O José Mota iniciou as hostilidades e teve o seu momento Zézé Camarinha. Com ele e outros como ele, a “estranja” é anulada. Por ele, não teria havido Invasões Francesas, sendo recambiados Junot e as suas tropas por não terem os cartões de vacinas em ordem. Estava de parabéns e os seus jogadores. A infelicidade do resultado deveu-se à eficácia (onde é que já ouvi isto) e ao árbitro. Ninguém lhe fez nenhuma pergunta incómoda. Aparentemente, se se for superior ao adversário durante os primeiros trinta minutos é-se por definição superior durante a hora e meia de jogo, não contando o resultado para nada. Ninguém lhe perguntou como é que se deixou não só anular como superar jogando com mais um jogador, tendo levado mais um golo e estado a centímetros de levar mais dois (basta lembrar-nos do fora de jogo milimétrico ao Bruno Fernandes que ia ficar isolado com o Bas Dost ou do passe do Bruno Gaspar para as costas do Bas Dost quanto estavam os dois isolados). Ninguém se lembrou também de lhe perguntar como é que se pode anular o treinador contrário e, ao mesmo tempo, não se anular, por exemplo, o Bas Dost e o Bruno Fernandes, que fizeram gato-sapato da defesa, como se uma coisa fosse diferente da outra. Uma primeira parte da conferência de imprensa em modo de convívio da Confraria dos Jornalistas e Treinadores do Futebol Português.

A primeira parte foi boa mas a segunda não lhe ficou atrás. As primeiras perguntas começaram da mesma forma: “Mr José Mota said”, seguindo-se uma algaraviada em linguagem de engate das “camones” saída diretamente do Google Translator. O Marcel Keizer manteve-se impassível, respondendo ao lado sem se desmanchar por um momento que fosse. Apresenta enormes parecenças com o Leonardo Jardim (o seu inglês chega a ser parecido com o francês dele). Admito que na cabeça de alguém como ele, acabado de aterrar em Portugal, lhe passem pensamentos como: “será este José Mota autor da sebenta do curso de treinadores da FIFA ou do Memorial do Convento?”. A parte mais cómica foi mesmo quando lhe perguntaram pelo contributo do Peseiro para o desempenho da equipa do Sporting. Em Portugal, os treinadores conhecem-se todos e são todos amigos. Sai um para entrar outro hoje, sucedendo-se o contrário amanhã. Não sabendo o dia de amanhã, nenhum pode correr o risco de não ser elogioso para com o seu antecessor, de acordo com as orientações da Associação Nacional de Treinadores de Futebol. O Marcel Keizer misturou esta pergunta com outra e respondeu como se lhe tivessem continuado a falar do José Mota. Não adivinho que se passou na sua cabeça, mas sei o que se passou na minha. O contributo do Peseiro para o desempenho de qualquer equipa (que o digam o Sporting, o Porto, o Braga ou o Guimarães) pode ser dado pela seguinte função C(p):


A expressão é um pouco estapafúrdia mas dispõe de um potencial enorme para dela se retirarem conclusões gerais, isto é, teoremas e leis. Os versados em trigonometria identificam no denominador a sua fórmula fundamental. O numerador constitui, assim, também uma fórmula fundamental: o contributo de Peseiro para o desempenho de qualquer equipa é independente da quantidade (p), medida em tempo ou dinheiro, sendo essa constante igual a zero, dado que uma volta de 360⁰ (ou 2π) corresponde à repetição da asneira. Chama-se Fórmula Fundamental de Peseiro ou Pé Zero, para os mais entendidos em futebol. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Bem-vindo ao sul

Quem foi ao estádio empregou mal o seu tempo quando comparado com aqueles que viram o jogo pela SporTv. Sem os comentários e o relato do Rui Pedro Rocha, o jogo não é o mesmo, sendo incomensuravelmente menores os seus motivos de interesse. Para além do que se vê no estádio, existe um conjunto de dimensões transcendentais que só com a sua conhecedora ajuda somos capazes de vislumbrar, como o dolo sem intenção ou a dialética entre a competitividade e a eficácia. 

O estado de espírito antes do jogo se iniciar era o da cesteira que faz um cesto faz um cento, isto é, se atropelámos os adversários anteriores não existia razão nenhuma para não se atropelar o Aves também. Porém, mal o jogo se iniciou, começou a pairar a maldição do Peseiro. O Aves marcava bem o trio do meio-campo, os centrais não tinham linhas de passe e, proibidos que estão de enfiar umas bicas para a cabeça do Bas Dost e explorar as costas da defesa e as corridas do Diaby, as perdas de bola sucediam-se. O nervoso miudinho começou apoderar-se dos jogadores com medo cénico de jogarem em casa perante os adeptos plenos de expetativas. O jogo estava mal parado e pior ficou quando, na sequência de um livre, um central do Aves conseguiu meter a cabeça nos dez centímetros que distavam entre a cabeça do Bas Dost e a do Coates para fazer o primeiro golo. 

O Aves, que estava melhor no jogo, ficou numa situação ainda mais confortável. Era só esperar pelas perdas de bola e pelo desespero para lançarem o contra-ataque, aproveitando um ciclista que jogava na frente. O dois a zero esteve para acontecer quando, depois de uma perda de bola à entrada da área do Aves, ficou aberta uma ciclovia de oitenta metros que foi explorada em dois toques até à desmarcação do ciclista que correu meio-campo até se isolar e esbarrar no Renan Ribeiro. 

Estava o jogo neste preparo quando um jogador do Aves se decidiu pelo suicídio. Embalado pela canção infantil do “olha a bola Manel, olha a bola Manel, foi-se embora, fugiu”, entrou fora de tempo e enfiou uma biqueirada no Diaby. O árbitro teve de recorrer à Multiópticas para ver o óbvio ululante. Acabou por marcar o correspondente “penalty”, mas sem deixar de demonstrar dualidade de critérios. Uma entrada fora de tempo como aquela dá origem a cartão amarelo, como se viu mais tarde na expulsão do Acuña. Mas o pior não foi essa falta do amarelo. O pior foi a expulsão do José Mota por protestos. O Rui Pedro Rocha protestou muito mais e nem amarelo para amostra. Disse de tudo: que era injusto, que foi sem intenção, que a bola já nem estava lá, porque se estivesse era outra coisa bem diferente. Ao intervalo, um trio de benfiquistas que ouvi quando vim fumar um cigarro à porta do café onde estava a ver o jogo, fizeram a mesma análise com a diferença de um deles não ter a certeza se o Diaby tinha tocado a bola com a cabeça ou com o pé, embora estivesse certo que não tinha sido “penalty”. A discussão embaralhou-se com este pormenor anatómico até um deles concluir com o clássico do desabafo português: “É sempre a mesma coisa! Gostava de ver o árbitro marcar aquele “penalty” na área contrária!” 

O Bas Dost marcou da mesma maneira mas com resultados totalmente diferentes: o guarda-redes ficou deitado no chão mas, desta vez, não ficou a ver a bola entrar do outro lado, tendo-se limitado a pensar que mais valia ter ficado quieto. Mal tinha desligado o “pacemaker”, como diria o meu amigo Gabriel Pedro, estava o Nani a enfiar uma bojarda com o pé esquerdo que fez a bola raspar na caneleira de um adversário e desenhar uma parábola até passar por cima do guarda-redes. 

O dois a um ao intervalo dissipou a maldição do Peseiro, como se viu no início da segunda parte. Na sequência de um lançamento lateral, o Bruno Fernandes enfiou uma coxa num adversário, meteu-se numa cabina telefónica e de lá saiu calmamente para fazer um centro à meia-volta com o pé esquerdo que apanhou a cabeça do Bas Dost ao primeiro poste para o três a um. O debate na SporTv ficou intenso. “A eficácia!”, desabafava um. “A eficácia contraria a primeira lei da competitividade”, complementava o outro. Estava este par neste desalento, quando o Acuña fez o mesmo que o defesa do Aves no lance do “penalty” e levou competentemente o segundo amarelo. Na SporTv ninguém se compadeceu do rapaz, ficando tudo à conta do seu mau feitio e das suas origens geográficas. O Marcel Keizer não foi de modas, se era para jogar com dez, então melhor seria jogar com nove, tirando o entrapado do Wendel e metendo o Jéfferson. O jogo prometia ficar animado, mas o Bruno Fernandes, com uma trivela, desmarcou o Diaby no lado direito, que dominou a bola, enquadrou-se com a baliza e enfiou-a na gaveta, para grande consternação da SporTv. A eficácia voltava a dar cabo da competitividade. A partir do quarto golo, a bola ficou à disposição da equipa do Aves para fazer dela o que entendesse. Entendeu fazer que fazia até se esgotar o tempo de jogo. 

Ainda nos lembramos do Dijsselbloem, Presidente do Eurogrupo, a afirmar que no sul da Europa se tem a mania de gastar dinheiro em mulheres da vida e em vinho. O José Mota deu-lhe o devido troco. Sabia da existência de treinadores de futebol portugueses, isto é, de treinadores de futebol de nacionalidade portuguesa. Não conhecia era a Denominação de Origem Protegida “Treinador Português”, mas fiquei a compreender muito bem o seu caderno de especificações técnicas: (i) estuda muito bem o adversário; (ii) concentra-se em contrariar o seu jogo independentemente de estar a ganhar ou a perder; (iii) se perder, mesmo enfardando quatro, tudo se deve a uma cabala para eliminar o último sobrevivente de Auschwitz. O Rui Pedro Rocha prefere uma outra definição: o “Treinador Português” é mais dado à competitividade do que à eficácia. “Chapéus há muitos!”, dizia o Vasco Santana.

domingo, 9 de dezembro de 2018

O melhor é ouvir música


O tempo tem sido pouco e vontade nenhuma. Ao fazer um périplo pelas televisões fiquei sossegado: O Steven Seagel continua por aí, cada vez mais gordo, o Van Damme idem aspas, embora não acompanhando a adiposidade de Seagel; na FOX Movies, escreve-se coboiada em italiano e, na SIC, faltando liga Europa sempre temos os casados à primeira vista. Nem em Guantánamo se vai tão longe na tortura.  

Para tornar a coisa ainda mais maquiavélica, não bastando as (cada vez mais gastas) controvérsias futeboleiras, disponíveis em trezentos programas semanais, tivemos mais uma entrevista de Jorge Jesus. O homem faz jus ao nome: é omnipresente. Já me passou pela cabeça se tudo aquilo não passa de um cenário grosseiro, e as entrevistas, à imagem das reportagens de guerra do Albarran, são gravadas na Amadora, forradas a papel de parede com imagens do Golfo Pérsico. 

As (ditas) entrevistas são um interminável monólogo onde JJ disserta sobre finanças, futebol, física quântica e outras coisas onde a sua opinião e graça são importantíssimas. Desta vez até se insurgiu contra o despedimento de Peseiro. Foi aí que percebi que a vinda de JJ para o nosso rival poderia estar próxima: a manutenção do Peseiro no cargo tornaria tudo mais fácil. Foi pena o outro ter visto a luz em forma de cifrões: pagar a um para sair e outro para entrar representaria muito mais que apenas uma noite mal dormida.

Quem também anda por aí a manter os níveis da qualidade televisiva da SIC é o senhor ressabiado Ricciardi, perdão, José Maria Ricciardi, por momentos pensei que seria desta que o senhor nos daria o prazer de uma explicação para o desaparecimento do BES algures para o espaço sideral, mas também Ricciardi preferiu outras temáticas mais em conformidade com o seu recente resultado eleitoral: basicamente bater em tudo e todos, desde que sejam do Sporting, terminando sempre com um: eu avisei. Ficamos avisados acerca deste senhor.  Entretanto, fui ouvir música. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

O Sporting e a modernidade

O Sporting é campeão europeu de judo. É simplesmente extraordinário. É também extraordinário e não me qualificada nada bem como sportinguista que não soubesse da existência desta equipa. 

Há vitórias que, parecendo pequenas, são grandes vitórias para um país, como Portugal, que necessita de consolidar a sua recente conquista da modernidade. Por exemplo, a vitória do Carlos Lopes nos jogos olímpico foi mais do que uma vitória. Foi a demonstração de que passávamos a ser um país como os outros, que podia competir com os outros e que podia ganhar aos outros. Costumo dizer que seremos um país tão desenvolvido como os melhores quando tivermos o primeiro Prémio Nobel da Física (troco-o pelo do Sporting no campeonato esta época). 

O judo não é só uma modalidade olímpica. É uma das mais relevantes modalidades olímpicas, por ser das mais competitivas e de prática mais generalizada no mundo (há mais mundo para além do mundo do futebol). Esta vitória enobrece-nos e enobrece o país. Parabéns aos atletas, parabéns a esta e à anterior direção do Sporting, parabéns a todos nós que somos e fazemos o Sporting.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Angústia para o jantar

Ainda não tenho bem a certeza: se vi o jogo de ontem e foi como se não o tivesse isto ou se o não vi e foi como se o tivesse visto. Havia um jantar de trabalho que ao mesmo tempo era de despedida de um “controller” de uma organização internacional que nos inferniza a vida. Estacionei o carro e enquanto me dirigia para o restaurante consultei o telemóvel: estávamos a ganhar por um a zero. Entrei no restaurante com o Rio Ave a empatar. Na minha cabeça passou a Montanha Russa do jogo contra o Qarabag. 

Havia televisão. Sentei-me e dei uma de antissocial, não petiscando os pastéis de massa tenra, os rissóis e os croquetes, nem bebericando um Quinta da Pacheca. Entre os quinze e os vinte minutos criámos cinco oportunidades de golo, tantas como as da época passada em dois jogos contra o Rio Ave. O Bruno Gaspar centra do lado direito e o Bas Dost sem oposição falha um “penalty” (para ele) de cabeça. O Bruno Fernandes remata de fora da área ao canto inferior direito da baliza e, quando me preparava para gritar golo e me transformar num atrasado mental à frente de toda a gente, o guarda-redes defendeu milagrosamente. Canto, bola a sair da área, centro para a molhada, Coates a amortecer a bola para o Diaby enfiar uma cabeçada em salto de peixe que o guarda-redes voltou a defender. Novo canto e o Bas Dost a entrar ao primeiro poste e a cabecear ao lado. Wendel recupera a bola, deixa-a no Nani que corre com ela a olhar pelo retrovisor à espera que o Acuña o ultrapassasse pela esquerda para lhe fazer chegar a bola e de primeira a centrar ao primeiro poste onde estava o Bas Dost a encostar de cabeça para o dois a um. A jogada é magnífica e a movimentação do Bas Dost de matador, começa por se deixar ficar para trás para fugir à marcação e acelera no exato momento em que percebe que vai sair o centro do Acuña. 

Com o Sporting na frente, voltei-me para a mesa ainda a tempo de resgatar o último pastel de massa tenra. Recuperei a postura profissional e social, embora sem deixar de acompanhar pelo canto do olho o que se ia passando na televisão. Organizei-me, assim, num 4x3x3 à Marcel Keizer para conseguir responder também às exigências de um robalo, de um branco da Quinta da Pacheca e de uma conversa de circunstância. 

A segunda parte começou comigo neste preparo. O Bas Dost ainda marcou mas em fora-de-jogo. Começo a ficar ansioso quando vejo entrar o Jéfferson e o Renan Ribeiro a defender dois remates à queima na sequência de um livre, o primeiro com as mãos e o segundo com a cabeça (é o que dá ter um guarda-redes com a cabeça no lugar). Tiro o telemóvel do bolso com um ar preocupado, finjo que tenho de fazer uma chamada importante e saio do restaurante para fumar um cigarro. Consulto as estatísticas do jogo e verifico que temos vinte e três faltas contra cinco do Rio Ave. Nem as quotas da União Europeia têm o mesmo impacto no genocídio dos pescadores das Caxinas. Volto para o restaurante ainda a tempo de ver a repetição do golo do Jovane Cabral. Há entrada da área, sem balanço, o miúdo enfia uma rosca na bola com o pé esquerdo que a faz entrar no ângulo superior direito da baliza: o golo da época, para já. 

Descontraído, regresso à mesa para atacar umas “tranches” de vitela e uma fatia de pão de ló de Ovar. Pedem-me para fazer um discurso em homenagem ao “controller”. Faço-me desentendido. Insistem. Continuo a fazer de conta. O silêncio fica de cortar à faca. Percebo que ou digo qualquer coisa ou o homem não se reforma. Avanço, mas entro em falso, sem que o Xistra me mostre o correspondente cartão vermelho. Começo por dizer que um chato é um chato. Procuro recuperar dizendo que cada homem também é a sua circunstância e que um profissional da chatice tem de ser profissionalmente chato para ser competente. O ambiente não melhora. Jogo a minha última cartada afirmando que se pode ser chato e um senhor ao mesmo. O homem emociona-se e acaba tudo em bem com uma oferta de um par de cálices de Vinho do Porto do Siza Vieira. Despeço-me, dizendo-lhe para não levar muito a sério o que tinha dito e que a minha mulher dizia muito pior de mim. O homem não se ri e responde-me que a mulher é melhor do que eu. Fico contente (por ele também), porque não me ocorre casar comigo próprio. 

Regresso a casa por entre um nevoeiro cerrado. Perco-me na bruma e nos pensamentos sobre o jogo e o jantar enquanto vou ouvindo o rádio, até dar comigo a caminho de Guimarãres. Ouço o treinador do Rio Ave a dizer que a culpa da derrota é do árbitro que permitiu a marcação de uma falta no meio-campo sem apitar primeiro. Sempre prefiro um chato a um parvo