quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O(s) pícaro(s) sem filtro

Li o “Sem filtro”, do Bruno de Carvalho (deve ser a este tipo de leituras que se chama responsabilidade social de um “blogger” do Sporting). O livro não passa de umas tantas transcrições mal-amanhadas de outras tantas gravações. A parte que interessa, interessa pouco. É um disco riscado. Ninguém é o que pensa. É as escolhas que faz: a vida não deixa de ser uma somatório de escolhas. Bruno de Carvalho fez escolhas, de pessoas, de amigos, de inimigos e de táticas. Acabou por se derrotar pelas escolhas que fez. A moral da história, verdadeira ou falsa, de nada interessa se não se aprende o que se é a partir das escolhas feitas em consciência. Não vale a pena dizer que as escolhas foram erradas se não se tiver consciência desses erros e de que esses erros têm consequências. Na vida, ou se aprende com os erros ou está-se sempre a recomeçar, uma e outra vez, cumprindo o Mito de Sísifo. 

A parte que menos interessa, interessa mais. Não por ter algo que não saibamos, mas por reproduzir por quem esteve por dentro o que qualquer um de nós só vislumbra de fora. Há o jogo, o que interessa, e há tudo o que o envolve, recheado de personagens pícaras, ao jeito da Crónica dos Bons Malandros, do Mário Zambujal. As fragilidades do Jorge Jesus, prisioneiro da sua visão de si mesmo e da sua egomania; o Octávio Machado, sem funções atribuídas, que sobrevive porque se espera que saiba o que diz que nós sabemos que ele sabe; o consultor motivacional que foi à sua vida e era o “Lexotan” do treinador e da equipa; o Teo que, independentemente do valor do contrato, queria que lhe pagassem umas contas, nem que fossem da água e da luz; os jogadores, os seus pais e agentes, e seus representantes (?), constituindo umas Matrioscas que vão saído dentro umas das outras, procurando cada uma delas ganhar o seu; a mulher que não casou com o homem mas com o presidente e o homem foi o último a saber quando deixou de ser presidente; a banca, os bancários e os banqueiros, as empresas e as suas administrações e os políticos, todos, envolvidos em negócios em nome do interesse público e do altruísmo, que cada um reivindica para si em quantidades maiores do que os outros. Aparentemente, tudo gira em torno de Bruno de Carvalho, como se a Terra precisasse do seu umbigo para o movimento de rotação e a noite se suceder ao dia e o dia à noite, que se define menos pelo que diz de si próprio mas pelo que não diz ou diz dos outros.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Ajustar as velas em função do vento

“É preciso ajustar as velas em função do vento”, disse o Abel Silva, treinador do Braga, no final do jogo de ontem. As alegorias nem sempre se percebem. Nem sempre são alegorias sequer, recordando o “Bem-vindo Mister Chance” e a interpretação de Peter Sellers. O sentido metafórico apela mais ao recetor do que ao emissor. Poderá querer dizer que os treinadores, os bons, precisam do vento para navegar. O problema é que nem sempre se sabe de que lado sopra o vento antes de se começar a jogar e o vento muda de direção e sentido durante o jogo. O bom treinador talvez seja aquele que saiba jogar contra o vento, que seja capaz de navegar à bolina. O bom treinador não é, nem pode ser um cata-vento. É esta necessidade de antecipar de que lado sopra o vento que me vem preocupando no Marcel Keizer. A equipa vai sendo ajustada tacitamente de jogo para jogo, em função do adversário e daquilo que dele se espera. 

Ontem, contra o Braga, aconteceu mais uma vez. Em posse de bola, a equipa jogava com três jogadores recuados: Coates, Ilori e Borja, com os dois últimos a jogar pelo lado de fora, em cobertura às laterais. Não se pode dizer que a equipa jogou com três centrais, porque se é verdade que o Ristovski recuava quando se defendia para a sua posição de lateral, não acontecia exatamente o mesmo com o Acuña. Na primeira parte, a linha defensiva era formada por quatro jogadores, passando por vezes para cinco, na segunda parte, por força da colocação do Wilson Eduardo e da necessidade de o Acuña fechar mais o lado esquerdo da defesa. Esta tática permitiu à defesa jogar mais confortável contra os dois avançados do Braga e não sinalizar à partida o jogador pelo qual passaria predominantemente a construção de jogo. O Gudelj não precisou de jogar tão recuado como de costume, competindo a esses três jogadores a saída da bola, ou pelas laterais ou pela zona central. Com o Ristovski mais projetado na lateral, o Diaby podia partir do lado direito para o meio, encostando ao Bas Dost e apoiando-o, de forma alternada com o Bruno Fernandes. 

O Braga nunca atinou com esta forma de jogar. A imprevisibilidade da saída de bola deixou o Wendell sistematicamente liberto do lado esquerdo para conduzir o jogo ofensivo, onde o Esgaio não sabia se devia encostar ao Borja, marcar o Acuña ou jogar mais por dentro para impedir que o Wendell recebesse a bola e ganhasse superioridade numérica. Do outro lado, o defesa esquerdo nem sempre percebia se devia acompanhar as movimentações do Diaby ou tapar as investidas do Ristovki. As táticas ajudam os jogadores a ganhar jogos mas são sempre os jogadores que os ganham. Livre à entrada da área bastante descaído para o lado direito do ataque e circunstância ideal para se assistir a um momento Balakov às avessas, também designado momento Bruno Fernandes. O guarda-redes pressentiu o que iria acontecer e meteu cinco jogadores na barreira, ao qual se juntou um sexto quando o Ristovski lhe tentou tapar a visão do lado de dentro, com pelo menos um deles a tapar um metro para além do poste, convidando assim o Acuña a rematar. O Bruno Fernandes é que não estava para brincadeiras e meteu a bola por onde não parecia possível que ela entrasse, fazendo-a descrever uma parábola, passando por cima da barreira e caindo em seguida praticamente junto ao ângulo inferior direito da baliza. 

O Abel Silva percebeu o problema que tinha do lado direito da defesa e fez a substituição que se impunha no início da segunda parte. No entanto, só tarde de mais é que percebeu que tinha problema idêntico do outro lado da defesa também. O Diaby recebeu uma bola do lado direito, tropeçou nela e num adversário, tropeçou nela outra vez e noutro adversário e, quando se isolava, dois adversários tropeçaram nele esquecendo-se de tropeçar na bola ao mesmo tempo. “Penalty” e Bas Dost a avançar para a bola enquanto olhava para o guarda-redes, rematando para o lado contrário onde este se lançou. Lançamento de linha lateral do lado direito, Bruno Fernandes a receber a bola e a demonstrar ao Diaby que existem formas esteticamente mais consentâneas com o estatuto de jogador de futebol de nela tropeçar e nos adversários, dando-lhe um ligeiro toque de calcanhar (?) para a frente, tirando o defesa do caminho e metendo de primeira para o Bas Dost encostar, perante a incredulidade dos defesas quanto à forma como tudo aconteceu. 

A perder por três a zero, os jogadores do Braga resolveram dar um festival de mau perder, perante um árbitro que achava que a cor dos cartões só combinava com as das camisolas do Sporting, nada que não se esperasse, sobretudo depois da forma como acabou a primeira parte connosco a atacar e vários jogadores dentro da área à espera de um passe. A marcação das faltas também seguiu um padrão hilariante, especialmente quando o defesa esquerdo se decidia espraiar-se no relvado sempre que sentia nas costas o bafo do Acuña. Com o jogo a concluir-se, o árbitro deu-o como perdido e a contragosto foi mostrando um ou outro amarelo aos do Braga que, assim, conseguiram concluí-lo com onze jogadores. 

Várias dúvidas e perplexidades nos deixa este jogo. Esta tática é para continuar? Serviu contra o Braga e serve contra outros adversários, em particular quando são mais modestos? Hipotecam-se tantos jogadores na construção do ataque quando os adversários jogarem com um só avançado, equilibrarem o meio-campo e recuarem mais? A equipa do Sporting dispõe de um portfólio de táticas que treina e ao qual pode recorrer nos jogos ou estas táticas são coladas com cuspe nos treinos que lhes antecedem? Uma certeza existe: o Marcel Keizer não é um Peseiro qualquer e sabe o que faz. O que não sabemos é se é o medo de perder que o move ou a vontade de ganhar. Talvez valha a pena mostrar-lhe a ele e aos jogadores o último “time out” do Nuno Dias no jogo de futsal contra o Benfica, perguntando aos seus jogadores se queriam virar o resultado da primeira volta. Quando se esperava que a equipa procurasse neutralizar melhor o 5x4 do adversário, foi ela própria que lhe impôs esse 5x4, enfiando-lhe mais dois golos num minuto e forçando o seu destino.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Manual de desistência

Há uns pares de anos que a minha filha saiu de casa para estudar. Conforme vai avançando vai ficando cada vez mais longe. Liga-me, pouco, mas liga, como seria de esperar. Liga-me antes de qualquer momento de maior tensão. As circunstâncias mudam e as palavras também. O diálogo conclui-se sempre da mesma maneira: não morremos de véspera e não nos arrependemos de falhar por tentarmos, o que nos arrependemos é de falhar por nem sequer termos tentado (sobretudo por medo de falhar). O jogo de ontem, contra o Villarreal, constitui um manual de desistência. 

Começou-se por perder de véspera. A conferência de imprensa que antecedeu o jogo é a de um treinador que se derrota a si próprio e à sua equipa. O jogo não contava. Não tínhamos obrigação de o ganhar. A vida são dois dias. Cristo morreu, Marx também e a própria equipa conheceu melhores dias. A equipa não é Bruno Fernandes e mais dez. A equipa é o Gudelj. Só há Bruno Fernandes porque há Gudelj e o resto é paisagem. E o Gudelj diz que sim, esquecendo-se de nos explicar a razão para estar sequer sentado naquele local àquela hora para dizer o que disse. Quem é que o escolheu para estar ali? É com discursos destes e jogadores destes que se mobilizam os adeptos para irem ao jogo? 

A equipa entrou na expetativa, na expetativa do que o adversário ia fazer para que a expetativa se cumprisse e se transformasse em fatalidade. Biqueirada do guarda-redes para aliviar a bola, Petrovic a fazer-se mal ao lance e a enfiar-lhe uma carecada e isolar um avançado furioso que avançou até à área para se desfazer dela de qualquer maneira, transformando uma combinação cósmica numa combinação cómica de defesas atrapalhados que, à beira de um ataque de nervos, permitem a um jogador adversário marcar um “penalty” em corrida. A expetativa cumpria-se como fatalidade perante um adversário também ele na expetativa e que pretendia simplesmente esperar. Pretendia esperar e continuou à espera, agora da reação do Sporting, não mais se atrevendo a procurar criar qualquer lance de perigo. Mas nós continuámos à espera também e assistiu-se a um jogo de duas equipas à espera uma da outra, sem ninguém avisar os da casa que se encontravam a perder e o tempo estava a contar. Sem tempo, quem espera desespera, instalando-se a desesperança, dentro e fora do campo. 

Os do Villarreal limitavam-se a jogar à rabia com os do Sporting que, feitos tontos e sem avanço da linha defensiva, se limitavam a correrias sem nexo e desesperantes elas próprias. A cada correria sem propósito perdia-se convicção para a próxima, numa espiral descendente. Os extremos completamente abertos e sem apoio, estavam condenados a receber a bola em dificuldades e a jogar contra o resto do mundo entregues a si próprios. A meio da primeira parte sofre-se mais um golpe de incompetência: o Bruno Gaspar sai com uma lesão muscular, que, por não se tratar da primeira vez, nos deixa perplexos sobre a utilidade do gabinete de alta “performance”, a principal bandeira de campanha do Varandas. Nos últimos minutos, os extremos trocam de posição, passando a jogar com o pé dominante pelo lado de dentro e ficando assim mais próximos do Bas Dost e do Bruno Fernandes e deixando a linha para os laterais. As melhorias fizeram-se notar (é quase criminoso deixar um jogador como o Raphinha com golo na ponta das chuteiras a centrar bolas do lado esquerdo do ataque). 

Nestas alturas agarramo-nos sempre a qualquer coisa para termos esperança. A troca dos extremos, como coisa que é, era a qualquer coisa a que nos iríamos agarrar como tábua de salvação para vermos a segunda parte. Mas até essa tábua de salvação a que nos queríamos agarrar nos tiraram. Os extremos voltaram às posições iniciais e o Jovane Cabral ficou condenado a fazer o que todos esperam, inclusivamente os defesas. O jogo da rabia dos do Villarreal aprimorou-se, enquanto esperavam, continuando os do Sporting completamente incapazes de jogar no meio campo contrário de forma continuada. A meio da segunda parte, o Petrovic começou a avançar um pouco mais, procurando dar apoio a quem tinha a bola na zona de ataque. A equipa melhorou um poucochinho pequenino. Com os espetadores exasperados, o Marcel Keizer fez uma dupla substituição, metendo o Luiz Phellype e o Wendell, saindo o Petrovic e o Jovane Cabral. Com o Miguel Luís mais atrás, a equipa ganhou mais critério na troca de bola e ficou mais compacta. Parecia que ainda era possível, mas o Acuña resolveu suicidar-se, enfiando um soco no estômago de uma equipa que, a partir desse momento, parecia um conjunto de mortos-vivos à procura da razão de ser do limbo onde se encontrava.

A fleuma do Marcel Keizer foi chão que deu uvas. A expressão corporal trai-o, durante os jogos e nas conferências de imprensa, que começam a ser cada vez mais penosas. Há ansiedade, inquietação e nervosismo de toda a ordem. Ele sabe, como a minha filha sabe. A minha filha liga-me sabendo, espera é que seja eu a dizer-lho. Quem é que diz ao Marcel Keizer o que ele sabe mas precisa de alguém para lho dizer?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Sem filtro?


A páginas tantas dei por mim a temperar a pescada em filetes. Pensei que dava para tudo: fazer o jantar e ver o Sporting namorando como se fosse um dia qualquer. Qualquer dia é bom para namorar, não sendo necessário um evento para nos recordar. Quando dei por mim já estávamos a estagiar em cascos de carvalho com um golo a tiracolo. Talvez demasiado cedo? Pensei que não. Nem sempre a virtude vem do cedo erguer, e os pardais fazem parte da história por isso mesmo. Garfei o que pude, acompanhado de um tinto do Douro que não ficará para a memória. Fui ver do jogo, com a convicção dos maduros disto tudo que não vacilam perante qualquer evidência.

Tenho na memória uma primeira parte inexistente. Lembrei-me do filme Balbúrdia no Oeste, do Mel Brooks e, um outro, que me recordava umas exéquias. O toque a finados era manifestamente exagerado. Na segunda parte, passamos a jogar num misto zona homem a homem, mas sempre com os nossos em vista. O Gabriel Alves ainda tentou aparecer para nos recordar os velhos tempos, mas era demasiado tarde. O Keiser já tinha vestido um impermeável de rendas que não lhe permitia ver qualquer forma de vida inteligente no horizonte. Farto de novelas, Marcos Acuña decidiu comprar um bilhete para São Petersburgo. E nós? Nós fomos fumar um cigarro. Sem filtro?  

Se perguntarem, fui ao bar


Joana latino, comentadora de fait-divers da SIC, hoje em reportagem no exterior no estádio de Alvalade, poucas horas antes do jogo. Pergunta a expert:

Isto às vezes discute-se muito a arbitragem, acha que isso vai ser um fator? – o português é arcaico mas ainda assim percetível.
Não, o VAR agora resolve tudo - responde um dos tipos.
O VAR é o Varandas? – sugere a jornalista, preparadíssima para estas andanças.
Não… o vídeo-árbitro
Ai o vídeo-árbitro, desculpe lá, estava aqui completamente  - diz a entrevistadora, sem grande convicção relativamente ao planeta onde se encontra. 
– A senhora tem que se modernizar, tem que ir à formação… tem que ir à formação.

O entrevistado dizia tem que ir à formação, com cara de dizer tem que ir ao castigo. Todos sorrimos com esta rábula que encaixa perfeitamente na rábula do futebol entretenimento, mas sem bola. Que é todo o futebol português.  


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Não?!...

Lê-se e não se acredita: o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol interditou o Estádio da Luz por quatro jogos, após uma queixa apresentada pelo Sporting, que acusou o Benfica de apoiar claques não legalizadas em vários jogos da época 2016/17. O que não se acredita é que depois de tanto tempo o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol admita que existam claques não legalizadas, quando se sabe que existem, isso sim, grupos organizados de adeptos que levam tarjas e bandeiras para o Estádio da Luz do tamanho do tolde do Circo Cardinali no bolso de trás das calças. Só falta dizer que esse grupo tem o nome “No Name”!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Um razoável Bruno Fernandes na escala de Bruno Fernandes a fazer de Bruno Fernandes

Estou farto de ver jogar o Sporting. Mas estou ainda mais farto de ver jogar (ver jogar é uma forma de dizer) os nossos adversários. Em cerca de um mês, com o jogo de ontem, foi a terceira vez que vi jogar o Feirense, uma equipa cujo melhor jogador (de futebol) não só tem pinta como constitui também o seu melhor praticante das “Mixed Martial Arts”. A tática do Feirense assenta muito neste jogador e nessa mistura, não de artes marcais, mas de modalidades, de futebol com artes marciais e vice-versa. Na primeira parte, o futebol jogado como artes marciais e as artes marciais praticadas com bola constituíram os modelos de jogo que levaram a melhor. 

Nem começámos muito mal. No entanto, a mistura de que falava impôs-se rapidamente e o(a)s menino(a)s do Sporting começaram a chamar pelo pai. O pai não lhes acudiu, ficando-se por um ou outro cartão amarelo. Compreendo-o. O que não compreendo é que seja, ao mesmo tempo, defensor de que o “futebol não é para menino(a)s” e permita um ritual de acasalamento desse melhor jogador do Feirense ao Bas Dost durante a marcação de um canto, tendo marcado falta ao Bas Dost por não ter correspondido ao assédio. Se calhar até o compreendo, não o compreendendo. Há uns anos atrás, quando era miúdo, andei atrás de uma rapariga da mesma forma, embora tenha demorado menos tempo e a rapariga tenha fugido num espaço mais curto até aparecer o pai dela e marcar falta, não a ela mas a mim. Ontem, senti-me resgatado, redimido, fosse o pai dela este pai e o meu futuro teria sido outro. 

Esta mistura de modalidades e de artes marciais deu origem a uma mistura de equipas. Os jogadores do Sporting participavam nas jogadas dos do Feirense e os do Feirense participavam nas dos do Sporting. Praticou-se assim um género de Caldo Verde à moda do Minho: uns trouxeram as couves e a panela, os outros o chouriço e a broa. Umas das melhores malgas desse caldo verde acabou com a bola dentro da nossa baliza. O Ristovski passa a bola a um jogador do Feirense, que a passa ao Ilori, que a passa a outro jogador do Feirense, que a passa ao Coates, que chuta contra ele e o Renan Ribeiro cede canto quando a bola ia para fora. Canto marcado, bola ao primeiro poste, cabeceamento de um jogador do Feirense e o Renan Ribeiro embrulhar-se com um adversário e a meter-se dentro da baliza com a bola, protagonizando um “momento Vítor Baía”, mais recentemente reclassificado de “momento Svilar”. Não é propriamente um “momento Svilar” pelo facto de o árbitro não ter cortado o mal ou o bem, dependendo das perspetivas, pela raiz, recorrendo ao VAR, concluindo-se, assim, que até a roubar os nossos adversários somos roubados. A acabar a primeira parte, os jogadores do Feirense resolveram participar num jogada dos do Sporting, revelando elevados níveis de reciprocidade. O Wendell passa ao Bruno Fernandes, o Bruno Fernandes passa ao Acuña, o Acuña segura a bola um pouco até o Borja se desmarcar pelo lado esquerdo para um centro ao primeiro poste e uma carecada no Wendell, com um jogador do Feirense a meter a mão à bola e a metê-la na sua baliza, corrigindo uma má finalização do jogador do Sporting e demonstrando que amor com amor se paga. 

A segunda parte não tem história ou tem a história dos golos, porque nem sequer me apetece escrever mais sobre este jogo. O Ristovski desatou numa correria pelo lado direito sem que ninguém lhe aparecesse ao caminho, chegado à entrada da área passou a bola ao Diaby e desmarcou-se para a receber mais à frente, o Diaby não lhe fez a vontade e virou para dentro e centrou para a cabeça do Bas Dost que não lhe chegou, permitindo uma cabeceamento em salto de peixe do Bruno Fernandes. Livre à entrada da área do adversário, grande sarrabulho (ou caldo verde, como se quiser) entre os jogadores do Sporting e os do Feirense para ver quem é que metia mais gente na barreira para tapar a visão do guarda-redes, remate do Bruno Fernandes e a bola a entrar sem que ele se mexesse, evitando fazer a triste figura do Svilar. À saída da área do Feirense, biqueirada até à entrada da área do Sporting, onde o Borja e o Ilori em vez de meterem água resolveram aprimorar e fazer um número de natação sincronizada para isolar um avançado búlgaro que marca. Pior do que sofrer um golo do Feirense é sofrer um golo de um avançado búlgaro do Feirense. Estranhamente, os jogadores do Feirense em vez de enfiarem mais uns tantos biqueiros na bola para dentro da nossa área, meteram um jogador bom de bola, que acabaram de contratar ao Leixões, passando a dispor de uma ideia de jogo e deixando sem sobressaltos a nossa defesa. 

Na sexta-feira, fui ver o “Correio da Droga” do Clint Eastwood. É um filme razoável na escala Clint Eastwood, com o Clint Eastwood a fazer de Clint Eastwood, como de costume, e a representar a América de Clint Eastwood. No final, redimem-se todos: o Clint Eastwood, os bons não são tão bons assim e reconhecem o mau que há neles, os maus não são tão maus assim também e reconhecem o seu lado bom, sobrando a honra e o prazer das coisas simples, a família, as flores e as sandes de carne assada. Neste jogo, tivemos o Bruno Fernandes a fazer de Bruno Fernandes, atingindo um nível razoável na escala de Bruno Fernandes, correspondendo a um estratosférico na escala de qualquer outro jogador. No final, redimem-se todos também: o Bruno Fernandes consigo próprio, o Marcel Keizer das suas hesitações e contradições e, até, o Gudlej da sua pose Roger Moore que, após qualquer zaragata a meio do campo, sai sempre de “smoking” sem uma ruga ou uma ponta de pó em direção ao casino mais próximo onde engatará a miúda mais enigmática e gira que trabalha para os maus e se converte à salvação da humanidade.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Pre-matcht

Não sei se já repararam, se o meu sangue não me engana, se tivéssemos ganho ao Tondela e ao Setúbal,  mesmo encaixando a cabazada contra o Benfica e o empate contra o Porto, em caso de vitória hoje ficaríamos a quatro pontos do Porto e a três do Benfica (em caso de vitória deste). E depois ainda recebíamos o Braga. Certo? Eis o se...porting. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Seja Félix


O Gedson Fernandes (apenas na primeira metade da época) foi vendido vinte vezes. Mais uma pérola da formação benfiquista –  podia-se ler nos escaparates das papelarias, nos muros e mesmo em publicidade nas avionetas. Os pretendentes entupiam as nossas fronteiras (inclusive as marítimas). Agora é o piscinas Félix, capa de jornal, revista, fanzine, disputado por meio mundo, ainda mais disputado pelo outro meio, a fronteira mais uma vez absolutamente assoberbada de pretendentes, televisões de todo mundo fazem a cobertura dos seus jogos, milhões se batem por pagar a sua cláusula, mais uma pérola acoplada às avionetas que sobrevoam as nossas praias. Pais mudam o nome dos seus filhos para Félix, novos cortes de cabelo à Félix povoam os crânios dos portugueses (e nem todos são de rapazes). Mas nem toda a gente pensa assim. Um ou dois seres humanos acham que o Bruno Fernandes foi o melhor jogador dos dois dérbis. Talvez o melhor jogador do campeonato. Não queremos ser chatos mas, já agora: quando vale o Fernandes?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A tropa não é para menino(a)s

“Não, não vais rematar daí?! É estúpido, nem o Ronaldo ou o João Félix, não sei bem como é que se chama. Se marcasses, valias o total das imparidades da Caixa Geral de Depósitos!” 

Dia comprido e feliz. Reunião em Leiria, com almoço no Carloto, metros à frente do Regimento de Artilharia de Leiria, onde cumpri grande parte do Serviço Militar Obrigatório (SMO). À mesa, descubro, do meu lado direito, um camarada de armas, que cumpriu o SMO um ano antes e fez a recruta em Vendas Novas como eu. Contamos histórias desses tempos, ele mais bem informado e documentado, descobrindo que ambos fazíamos parte da Brigada de Aquisição de Objetivos, constituída pelos mais corajosos, aqueles que, durante a Guerra do Vietname, tinha uma esperança de vida que não chegava a dez minutos depois de iniciado o fogo de artilharia (porque o inimigo sabe que estes homens são os olhos da artilharia e constituem os primeiro alvos ou porque são vítimas de fogo amigo quando a mira está mal apontada ou os da balística não fazem os cálculos como deve ser). Descubro que o meu comandante de Vendas Novas era o atual General Rovisco Duarte, ex-Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Percebi melhor como é que foi temperada a coragem e o sentido de liderança de que sou feito. 

Regresso a casa embalado por um relato onde se fazia coro com os benfiquistas que estavam no Estádio da Luz: “[qualquer coisa] João Félix”, “João Félix para a esquerda”, João Félix para a direita”, “João Félix a ler o último romance de Rodrigo Guedes de Carvalho”, “João Félix a jogar PlayStation”, “João Félix beija a namorada enquanto sub-repticiamente faz deslizar a mão direita por baixo da sua camisola”. Nem quando da criação do Universo, Deus esteve em tanto lugar ao mesmo tempo a fazer tantas e tantas coisas. 

“Espera lá: a trinta metros da baliza e o guarda-redes está a construir a barreira com seis jogadores! Chatice, saiu um. Espera, espera, o guarda-redes está encostado ao outro lado da barreira para tentar ver a bola. Já lá mora!”. Continuo a ver o jogo a partir deste exato momento de regresso a casa. Está a acabar. “Golo! Golo! Bem me parecia, foi um momento Vítor Baia”, lembrando-me dos tempos dourados do Canal Caveira, do Calor da Noite, da fruta e do apito, quando se considerava que o seu ponto forte era o espaço aéreo, como hoje se diz, até ir para Barcelona e vermos os catalães a cantar em sua memória: “foi um toiro que o matou, num dia de infelicidade”. Os comentadores apressaram-se a explicar-nos que não se tratou de um golo anulado porque o árbitro apitou antes de a bola entrar, detalhe absolutamente decisivo para se compreender o que se tinha passado e o que não se poderia passar a seguir, atendendo à entrada de carrinho do árbitro sobre o VAR, cortando o lance pela raiz. A esta explicação acrescentaram outra logo a seguir, sobre a necessidade do VAR verificar se o Coates tinha agarrado uma camisola fora ou dentro da área, ou fora da área mas continuando dentro da área ou na Zara do Colombo, saindo sem pagar. Acabado o jogo, rebobino a cassete melhor do que um Sargento de Dia em Tancos. 

Relativamente ao jogo anterior, passámos a jogar com mais um e o Benfica com menos um (o Sálvio), apesar de se manter a desvantagem numérica, dado continuarem o Gudelj e o Bruno Gaspar. O Marecl Keizer alterou o posicionamento da defesa na saída da bola, abrindo mais os centrais e não permitindo que um só jogador do Benfica pressionasse dois ou três de uma vez só. No entanto, o Gudelj teve de recuar mais e o Bruno Fernandes também para preencherem melhor a zona central que, com o afastamento dos centrais, se podia transformar no Deserto de Atacama. Obrigado a jogar mais recuado o meio-campo por esta razão, o Wendell ficou entregue à sua sorte, enquanto tentava pressionar sozinho ou mal acompanhado cerca de meia equipa do Benfica quando tinha a bola. 

Sem tantas perdas de bola na zona central, o Benfica deixou de ter plano de jogo. Não tinha plano de jogo mas tinha o Gudelj do outro lado, que é uma outra forma de o ter não o tendo. O Gudelj abordou com a convicção do costume uma bola pinchona, tirando da jogada o Ilori que se preparava para a afastar e isolando o Salvio (não estou a brincar, estamos a falar do Salvio que todos conhecemos). O Salvio meteu a cabeça no chão e correu até aonde a vista alcançava e, ao esbarrar em alguém, passou a bola a um colega que estava à entrada da área para se atrapalhar com ela e o Bruno Gaspar, o inevitável Bruno Gaspar, e a passar para o lado onde apareceu um outro colega que se tinha começado a desmarcar pelo meio mas ainda a tempo de voltar para trás na rotunda da circular externa da defesa do Sporting, fazendo uma manobra perigosa, não originando por milagre uma colisão com o Jovane Cabral que vinha a travar prevendo o perigo. Passado o perigo de colisão, fechou os olhos aliviado e desfez-se da bola com força, numa atitude pouco correta que por pouco não ia acertando no Renan Ribeiro com consequências graves para a sua saúde. A primeira parte foi o desenlace deste súbito (des)congestionamento de trânsito e o João Félix. O João Félix invariavelmente recebia a bola, alçava ligeiramente o rabo, até o adversário lhe tocar, e efetuava um salto encarpado para a frente resultante do impulso da sua libido descontrolada, culminando, assim, com a sensualidade necessária o lance. O público assobiava os jogadores do Sporting, só apetecendo dizer: “vai lá tu fazer melhor!” (Imagino a sequência destas imagens que o Porto Canal irá fazer um dia destes até o rapaz, infelizmente, se transformar no Neymar de Carnide). 

Na segunda parte, entrámos um bocadinho (pequenino) melhor e quando estávamos na nossa melhor fase levámos um (auto)golo às três tabelas. Depois de se verificar que o golo não tinha sido do João Félix, mas autogolo do Ilori, o comentador não deixou de explicar que mesmo assim resultava do alcance estratégico da jogada. Ninguém se riu e o jogo continuou. Entraram uns do Sporting e outros do Benfica, saindo outros tantos do Sporting e do Benfica, e o resto todos sabem. No final, o Benfica marcou dois golos e teve mais duas oportunidades (cabeceamento do Rúben Dias e remate ao lado do Grimaldo) e o Sporting marcou dois golos e teve mais duas oportunidades (dois remates do Wendell ao lado) ou marcou um golo e teve mais três oportunidades, no entendimento do árbitro e dos comentadores. Em Alvalade há mais um dia destes.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A banalidade da derrota


A propósito da leitura de “A Ordem do dia” de Éric Vuillard, ocorreu-me aquela expressão criada por Hannah Arendt, depois transposta para livro com o mesmo nome: A banalidade do mal. Por portas travessas de um cérebro cujo humor se acantonou há muito tempo, dei um passo ao lado para associar uma outra expressão: a banalidade da derrota: eis o Sporting actual.

Há muito tempo que afirmo a inexistência de uma cultura de exigência. Não confundamos com uma cultura de vitória, para isso são necessárias vitórias e um caminho: a tal cultura de exigência. Vertida do topo até se entranhar em todos elementos da estrutura. Gestão, planeamento, comunicação, definição de objetivos claros para toda a gente.

As conferências de imprensa de lançamento do jogo de domingo são paradigmáticas. O treinador do nosso rival afirmou que o jogo se tratava de uma final. Para ambos. O treinador do Sporting disse que o jogo não era decisivo. Pois não, para o quarto lugar não era. Imagino-o a sair da conferência de imprensa, com as mãos nos bolsos, calmamente, chegar ao dia de jogo ainda com as mãos nos bolsos, começar o jogo com as mãos nos bolsos, e, de repente, não perceber o que lhe estava a acontecer. Não percebeu na hora porque não tinha percebido antes.

Primeiro pensei: é uma conspiração de equívocos. Não, não era uma conspiração, os equívocos fluíam dentro de campo com a personalidade de um dogma. O Rui na posta de análise ao jogo segue bem essa trajectória em que o cozido à portuguesa invade o “Stamppot”, cujo culminar foi o jogo de domingo. O cozido à portuguesa é pesado. Toda agente sabe disso. 

Não se trata apenas de uma questão de identidade. Cada jogo, cada oponente, cada situação implicam uma estratégia, uma visão, às vezes, até, uma ideia, nem que seja pequenina, que germine um caminho. Essa adaptação é contínua e versátil. Mas nada disto importa sem a tal cultura de exigência. Ao escutarmos alguns jogadores, o treinador, os dirigentes, parece que nada disso estará no topo do bolo. Devia. Sem isso, a banalidade da derrota será uma realidade. E isso nota-se. Não haverá, no fim, nem bolo, nem gente para cantar os parabéns.

Nota: não ouvi as conferências de imprensa de hoje (ontem).

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Futebol, populismo e democracia

A minha experiência a escrever neste blogue tem sido muito enriquecedora, para o melhor e para o pior. As boas experiências guardamo-las para nós, encontrando-se entre elas o reconhecimento, a solidariedade e, o que parecia inimaginável, a amizade, cibernética e contextualizada por essa tecnologia, mas uma forma de amizade que preanuncia as relações virtuais do futuro (que nalguns casos são presente também pela solidão de muitas pessoas). Mas, “as famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira” (célebre citação do Tolstoi no ainda mais célebre “Anna Karenina”), e por isso as más experiências são mais enriquecedoras na sua diversidade do que as boas. 

O futebol, e o futebol português em particular, constitui o reino da intolerância. Onde devia haver respeito entre iguais apesar da diferença, há ódio entre diferentes e ainda entre os que aparentemente são iguais, pertencendo ao mesmo clube. Essa intolerância e esse radicalismo é congénito, sendo determinado em primeiro lugar pelos dirigentes, passando pelos treinadores e adeptos, e alimentado por uma envolvente mediática doentia e não menos fanática. Apesar da sua crescente importância à escala global, não conheço outro país da mesma dimensão de Portugal onde existam tantos jornais desportivos, espaços desportivos nos jornais generalistas e tempo televisivo dedicado ao futebol. 

Está-se em presença de um mal social que contamina todo o espaço público e o degrada. Os efeitos colaterais em toda a vida pública são evidentes, no debate político, por exemplo. A discussão futebolística atrai todos, especialmente as moscas. Gera notoriedade, produzindo protagonistas que podem ser exportados para outros domínios da vida política, económica e cultural. Felizmente, na política, os partidos do sistema têm conseguido cooptar alguns desses protagonistas, institucionalizando-os (dificilmente se compreende a candidatura de certos comentadores às câmaras municipais sem essa notoriedade). O problema é saber até quando estes protagonistas e as suas réplicas podem ser contidos no espaço futebolístico ou a partir da sua institucionalização no “mainstream” partidário. 

Por portas travessas, o futebol tem prestado inestimáveis serviços à democracia portuguesa, onde não têm emergido partidos populistas e extremistas à esquerda e à direita. Para mim, não têm emergido porque não é preciso, o futebol e os clubes encarregam-se de representar esses potenciais eleitores, porque eles existem, ninguém tem dúvidas (a frustração e o ressentimento estão em todo o lado). A asfixia futebolística (parafraseando umas pessoas conhecidas) não deixa espaço nem tempo para manifestações do mesmo fenómeno no espectro político. Enquanto assim for, talvez valha a pena ver futebol e escrever sobre ele. Quando assim não for, então deve-se acabar com o futebol e os clubes em nome do bem-comum. É que não vale a pena pensar que o atual estado das coisas alguma vez possa mudar.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

“Stamppot” à portuguesa

Há quem esteja mais depressa disponível para errar pela cabeça dos outros do que pela sua. Pior ainda, há quem esteja disponível para errar pela cabeça dos outros do que para acertar pela sua. Ao longo da minha vida profissional, deparei-me vezes sem conta com a segunda situação. É uma mistura de medo, resignação e não fazer de desmancha-prazeres. Na psicologia designa-se comportamento de manada e é frequente quando da exuberância irracional nos mercados de capitais, os “animal spirits” referidos por Keynes ("Maria vai com as outras", na tradução portuguesa). 

O Marcel Keizer chegou ao Sporting com um modelo de jogo aliciante. Futebol ofensivo, com defesa adiantada, laterais projetados no terreno em simultâneo e extremos colocados por dentro, jogo predominante pela zona central e preocupação com rápida recuperação da bola (os tais cinco segundos da pressão alta). A preponderância da zona central, das movimentações interiores dos jogadores para dar linhas de passe e do jogo ao primeiro toque em tabelinhas e progressão permanente era a sua marca de água. Como qualquer outro, este modelo apresenta fragilidades: os laterais têm de andar acima e abaixo e não são bem protegidos pelos extremos e o trinco ou seis tem de ser pau para toda a colher e equilibrar a equipa sempre que se perde a bola e não se recupera de imediato. 

Os primeiros jogos constituíram excelentes exibições e concluíram-se com goleadas. Mas havia um mas: sofriam-se sempre uns tantos golos. Os pontos fracos assinalados eram aqueles onde dispúnhamos de jogadores mais fracos também, especialmente Bruno Gaspar, Jéfferson e Gudlej. A pouco e pouco o Marcel Keizer foi adaptando este modelo para expor menos esses pontos fracos. Os extremos passaram a ser mais extremos outra vez e a bola passou a sair mais pelas laterais, ficando o jogo interior entregue às permanentes correrias do Bruno Fernandes e do Wendell e o ataque aos cruzamentos para a cabeça do Bas Dost, mesmo quando não joga. Este modelo não é brilhante mas não funciona mal quando a equipa joga na expetativa, atrás da linha do meio-campo e a explorar o contra-ataque ou as transições ofensivas. Este modelo começou a ser anunciado na tibieza como foi encarado o jogo contra o Guimarães e nos jogos seguintes. Contra equipas que estão disponíveis para assumir o jogo, como o Porto, este modelo pode dar bons resultados. Contra equipas pequenas não dá resultado nenhum porque os jogadores adversários não saem do sítio, bastando estacionar o autocarro e marcar o Bas Dost. 

Ontem, contra o Benfica, o Marcel Keizer resolveu fazer uma mistura explosiva. Quis assumir o jogo, mas colocou os jogadores no mesmo modelo que vinha adotando. Queria a equipa a sair pelo meio, ao mesmo tempo que continuava com a defesa recuada e os extremos abertos e muito avançados. Em inferioridade no meio-campo, há formas mais inteligentes de suicídio, a não ser que o Gudlej fosse o Maradona com a bola nos pés e o Baresi sem ela. Os jogadores do Sporting não ligaram uma única jogada em condições e a equipa estava permanentemente exposta sempre que perdia a bola, sucedendo-se os sobressaltos e deixando o Nani e o Raphinha sem bola na primeira parte. Às asneiras coletivas somaram-se as individuais. O Gudelj comportou-se como a anedota que é, não recuperando uma bola, não a disputando em permanência e perdendo-a com frequência, e o Bruno Gaspar foi a cereja em cima do bolo, oferendo os dois primeiros golos, o primeiro deixando sair um cruzamento que nem a um júnior se admite e o segundo esquecendo-se de alinhar com os centrais e colocando em jogo o avançado do Benfica. Quando tudo parecia perdido ainda na primeira parte, o Samaris tentou fazer o que não sabe, o Wendell pressionou-o e recuperou a bola, o Nani fez um passe magnífico para o Bruno Fernandes fuzilar de primeira à entrada da área e desviado para o lado direito. 

Parecia que tudo ainda era possível. Parecia mas não era. Não se percebeu a substituição do Nani, manifestamente aquele tipo de jogador para quem se olha nestes jogos e se espera que faça o que fez no primeiro golo, para entrar o trapalhão do Diaby. O que ainda se percebeu menos foi o terceiro golo logo a abrir, num lance que não se admite também a uma equipa de juniores. Livre do lado direito do ataque a meio do meio-campo, biqueirada para dentro da área e o Rúben Dias a saltar sozinho como se estivesse numa peladinha com os amigos. A partir do terceiro golo foi o destrambelhamento total. As perdas de bola sucediam-se, umas mais infantis do que as outras, e as oportunidades concedidas também, perante a permanente atrapalhação do guarda-redes, dos defesas e do Gudlej. O desgaste físico dos jogadores do Sporting era por demais evidente e o Marcel Keizer ia hesitando nas substituições (se era para deixar sem dono o meio-campo, mais valia ter partido o jogo e metido mais cedo o Luiz Phellype). O Benfica ainda marcou mais um e o Sporting outro, ambos de “penalty”. 

O Marcel Keizer procurou fazer uma mistura de “Stamppot” e de Cozido à Portuguesa. Quando se espera salchicha e puré de batata apanha-se com chouriço de sangue, pé e porco e batatas cozidas e vice-versa. Não sei se se deixa influenciar pela conversa técnico-tática nacional ou se é influenciado pelos elementos nacionais da sua equipa técnica versados nessa conversa. Não sei se o jogadores não se sentem confortáveis com o modelo de jogo inicial e o vêm adulterando. Mas há coisas que são incompreensíveis. Costumo dar o benefício da dúvida aos treinadores na escolha dos jogadores. Estou disposto a admitir que: o Lumor sofre de uma maleita qualquer que o impede de jogar futebol e melhor seria empandeirá-lo; o Francisco Geraldes vem de uma lesão e não se sabe se está em condições de ter o melhor rendimento; o Luiz Phellype ainda não conhecia bem a equipa no jogo contra o Tondela; o Doumbia não compreende ainda bem o que se lhe pede; o Jovane Cabral não está preparado para jogar certos jogos mais difíceis e mais exigentes taticamente. O que manifestamente não consigo compreender é o afastamento do Miguel Luís, quando jogou de forma regular e bem em diversos jogos consecutivos, a maior parte deles a titular, deixando o Bruno Fernandes e o Wendell esgotarem-se jogo após jogo. Não sei o que se passa na cabeça do Marcel Keizer, admitindo que passa por lá alguma coisa. Ninguém lhe pediu para ganhar nada. Pediu-se-lhe para colocar a equipa a jogar bom futebol, lançar novos jogadores e, assim, preparar a próxima época. Se era para jogar à Peseiro tínhamos o original e não andavam ao engano os jogadores e os adeptos. 

Artur Soares Dias, sempre ele e ao melhor nível. O melhor árbitro português. O melhor exemplo do que ao que tudo isto chegou. Na primeira parte, não consegue ver a uma metro de distância faltas continuadas do João Félix sobre o Wendell, precisando de consultar o VAR quando tudo acabou num golo do Benfica. Aceito a decisão do “penalty” a favor do Benfica. É verdade que o João Félix vai em queda ainda antes de tocar no Renan Ribeiro, é verdade que deixa o pé para nele embater, mas também é verdade que nestas circunstâncias o guarda-redes está sempre no local errado à hora errada. O que não aceito é que seja necessário recorrer ao VAR para marcar o “penalty” sobre o Bas Dost ainda mais evidente. O que não aceito de todo é que entre a falta e o golo tenham decorrido oito minutos (por única e exclusiva responsabilidade do árbitro) e se concedam sete minutos de desconto de tempo. O Benfica não precisava, como não precisou, dos favores do árbitro. O Benfica não merecia que os seus méritos, e foram muitos, fossem embaralhados com esses favores, como se verificará na discussão desta semana num qualquer canal perto de si como habitualmente.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Vinho e futebol, bom e mau

Não há como não gostar do Sérgio Conceição. Existe vontade e determinação a que se associa o sentido de compromisso e de solidariedade com os seus jogadores e a sua equipa. Não fala futebolês e, melhor ainda, não é sonso nem se faz de sonso. Mas ninguém é perfeito (eu próprio tenho os meus dias). Perdeu a final da Taça da Liga e teve “mau perder”. Se no calor do momento ainda se pode compreender, não pode haver compreensão nenhuma passado um dia. 

Reafirmou que tinha “mau perder” como se fosse uma virtude. Para ele, o “mau perder” opõe-se ao “bom perder”, quem tem “mau perder” não gosta de perder, admitindo-se que quem o não tem também não gosta de ganhar. Há pessoas que têm “mau vinho”. Depois de beberem ficam irascíveis, implicativas e conflituosas. A essas não se opõem as que têm “bom vinho”, isto é, depois de beberem, entaramela-se-lhes a língua, caminham aos esses e adormecem em qualquer canto e esquina. Aos que têm “mau vinho” opõem-se os que sabem beber, bebendo com conta peso e medida, de forma a apreciar o que bebem e a usufruírem do convívio com os outros. Da mesma forma, aos que têm “mau perder” opõem-se os que sabem perder, sendo essa a virtude.