quinta-feira, 2 de julho de 2020

Tática do pentágono

“Espero que o Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, Cardeal Ângelo Becciu, e o Papa Francisco estejam atento ao jogo de hoje porque o irmão Amorim se prepara para fazer mais um milagre!”. Esta mensagem de um amigo despertou a minha curiosidade. Mas um sportinguista que se preze sabe que o jogo, qualquer jogo, vai correr mal e preocupa-se mais com os suplentes (que terão de entrar, dê por onde der) do que com os titulares. Procuro saber da lista dos suplentes e descubro que, para o ataque, temos o Joelson Fernandes e o Tiago Tomás. Espanta-me não tanto os jogadores mas o facto de ainda estarem acordados aquela hora (fiquei o jogo todo à espera de ver uma das mães entrar pelo campo a mandá-lo para cama, levando-o por uma orelha para casa). 

Há tantas táticas quantas as cabeças. Há as lineares, as que apelam a figuras geométricas e as que as combinam. A que mais me fascinou sempre foi o 4x4x2 losango do Paulo Bento (o losango constituía referência para o posicionamento dos quatro jogadores do meio-campo), por ter o precedente histórico de Aljubarrota e de D. Nuno Álvares Pereira, Santo Condestável. O Amorim é radicalmente inovador e opta pelo 5x2x3 pentágono, constituindo a figura geométrica referência para o posicionamento dos três centrais e dos dois médios. Atente-se que um losango pode ser um quadrado, bastando que os quatros ângulos sejam retos, enquanto um pentágono nunca o pode ser. Um quadrado é um polígono, um losango é um polígono e um pentágono é um polígono e, como se demonstrou, nem todos os polígonos são iguais e uns são mais iguais do que outros. 

Esta aposta pentagonal inédita dispõe de uma grande virtude: deixa o Coates no vértice mais recuado e mais próximo do guarda-redes com um enorme raio de ação e sem sobreposição com o raio de ação do Eduardo Quaresma e do Borja. Este círculo transforma-se assim num buraco negro onde os adversários vão sendo sugados e desparecendo conforme dele se aproximam. No passado, com o Mathieu, havia respeito e compreensão mútua. O Coates cortava umas bolas, abafava uns adversários mas sentia-se obrigado a deixar fugir uma ou outra peça de caça para o seu companheiro do lado. Agora, não tem dúvidas, é tudo dele até onde a vista alcança. Por isso ou porque a equipa reage bem à perda de bola e pressiona de imediato o adversário, mesmo que tenha de recorrer à falta nos locais do campo onde devem ser efetuadas, a verdade é que existe mais consistência na defesa. 

A defesa está melhor e recomenda-se (mais um boa exibição do Max que começa a comparar com vantagem com o Rui Patrício para o mesmo estrato etário), mas o ataque é o que sobra, o que resta, não constituindo uma função autónoma. O primeiro golo é o resultado de se ter recuperado a bola e tão-só, tendo a bola se encarregado de fazer o resto. A bola procurou fugir o mais que pôde mas acabou sem sorte nenhuma. Fugiu ao Ristovski, fugiu da biqueira das botas do Plata, fugiu das canelas de um defesa do Gil Vicente, voltou a fugir do Plata, fugiu de outro defesa do Gil Vicente até ser apanhada em cheio pelo pontapé do Wendell. Esta falta de autonomização do ataque é que explica o atraso de calcanhar do Plata quando se encontrava completamente isolado, autolimitando-se em função do jogo (defensivo) de equipa. 

Na segunda parte, tudo parecia diferente. O Wendell isolou-se, procurou dominar a bola com todo o cuidado e encaminhar-se para o guarda-redes sem que restassem dúvidas sobre as suas intenções: atirar-lhe a bola à ventas com quantas forças tivesse. O guarda-redes ainda se tentou desviar, mas não teve tempo e não conseguiu. Logo a seguir, o defesa direito do Gil Vicente desmarcou o Plata para este dominar a bola e a encostar para o segundo golo (tentem imaginar que em vez do Plata era o Jesé). Foi uma prenda de anos, uma prenda dos 114 anos do Sporting. Fiquei à espera que, no final do jogo, os jogadores adversários fizessem uma rodinha e nos cantassem os parabéns também. A partir daquele momento, o único motivo de interesse era ver jogar o Tiago Tomás e o Joelson Fernandes. No entanto, 0 Doumbia ainda tentou estragar tudo, demonstrando cabeça de iniciado, mas era tarde de mais. 

Desde o desconfinamento futebolístico, registámos mais três pontos do que o Porto, mais oito do que o Benfica e mais nove do que o Braga. O Vítor Oliveira diz que não chega, é pouco. O Vítor Oliveira ganhou o estatuto de senador dos pobres, dos sobe-e-desce. Subiu de divisão uma série de clubes ao longo de várias épocas e tem o seu mérito. Contrariamente ao que se diz, no início da sua carreira teve as suas oportunidades. Andou pelo Braga e pelo Guimarães, de onde saiu pichado de alcatrão e penas. Percebe-se o ressentimento: podia ter sido um Peseiro, um Rui Vitória ou um Lage em mais barato. Não havia necessidade, sinceramente!

terça-feira, 30 de junho de 2020

Déca(lage)...


Depois de Mourinho (O Verdadeiro) começaram a despontar com regularidade novos Mourinhos (normalmente falsos). O próprio Mourinho (O Verdadeiro) após algumas derrapagens surge, a espaços, como o novo Mourinho, emergindo das trevas. O mais recente entre os tais novos Mourinhos era (o tempo verbal é mesmo esse) Bruno Lage. No final da época passada o jornal A Bola considerou fazer uma edição no seu formato anterior (standard ou broadsheet), aquele formato grande que aparecia na série Duarte e Companhia, para melhor destacar o advento do novo Mourinho.

Quem conhece o mundo das Repúblicas de Coimbra sabe que cada ano vale por cem. Cada comemoração de aniversário é apelidada de centenário. No futebol português, a passagem do tempo obedece a uma calendarização muito própria, condicionada por matizes nem sempre observáveis a olho nu. Assim, no espaço de pouco meses, novos Mourinhos desgastam-se tão rapidamente que se confundem com a poeira da ausência de memória. Ao desgaste da memória, junta-se um processo de mumificação de alguns jogadores, processo esse que nos faz duvidar que estes alguma vez tenham sido profissionais de futebol.

A escala do tempo geológico, caracterizada por diferentes tipos de unidades e períodos de tempo indefinidos, divididos em muitas eras, é assim subvertida por uma rapidez de processos que permite a fossilização rápida de alguns organismos recentemente reconhecidos pela sua genialidade. É daqui que vem a tal frase do futebolês : o que é hoje verdade amanhã é mentira.

Parte significativa (a que realmente importa) do nosso futebol é decidida fora das quatro linhas. E esse futebol merece os seus estádios vazios. Entretanto, um novo Mourinho estará na forja…

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Jovane Witt Nureyev Cabral

É insólito ver jogar o Sporting num campo que mais parecia o campo de treinos do Estádio do Fontelo, em Viseu, da minha infância e adolescência. Mais insólito ainda é começar por sofrer um golo do Belenenses SAD que tinha anunciado estar em “layoff”; e o golo foi marcado nem mais nem menos do que pelo Licá, jogador que se encontra reformado há um par de anos. Não se pode pedir aos jogadores do Sporting para também estarem atentos a uma situação que se encontra na esfera de competências da Autoridade para as Condições de Trabalho. Mas a equipa recompôs-se rapidamente porque era dia de homenagear o Mathieu e o primeiro golo foi uma lembrança, uma simpatia do Coates, seu colega de sempre. 

Não se pode descrever o segundo golo no mesmo parágrafo do primeiro. Não se mistura o género humano com Manuel Germano ou a beira da estrada com a Estrada da Beira. O Jovane Cabral marca depois de um movimento que ainda hoje não foi possível levar à prática nem na patinagem artística, nem no ballet, apesar das tentativas, quer de Katarina Witt, quer de Rudolf Nureyev, no século passado. O terceiro do Jovane Cabral na marcação de uma grande penalidade acaba por ter uma história curiosa [fico na dúvida se não devia mudar de parágrafo também]. Na primeira tentativa, ainda antes do remate, o guarda-redes sai da baliza, simulando para a sua direita mas acabando por se lançar para a esquerda, e defende com a ponta dos dedos a bola entretanto rematada. Como o guarda-redes se adiantou antes do remate, o árbitro manda repetir e, à segunda, o Jovane Cabral não perdoa. A curiosidade, a surpresa não é suscitada nem pelo “penalty”, nem pelo remate, nem pelo golo: cinquenta anos de sportinguismo depois, vejo um árbitro mandar repetir um “penalty” a favor do Sporting depois de uma primeira tentativa falhada. 

Não sei se estou preparado para viver com a aplicação das regras nos nossos jogos. Deixa de ser bingo e passa a ser futebol e abre-se um admirável mundo novo, em que não somos a equipa do campeonato com mais amarelos ou o Coates deixa de saltar sem dois ou três jogadores adversários às cavalitas. Muita coisa me passou pela cabeça: jogar contra dez ou nove jogo atrás de jogo; dispor de uma dezena de minutos de desconto sempre que conveniente; ver o Acuña a vociferar e a aviar adversários sem levar cartões; ouvir os comentadores da arbitragem explicar o inexplicável; ler n “A Bola” hossanas e hossanas à visão, engenho e capacidade de gestão de qualquer presidente com bigode. 

Ao intervalo, parecia que queríamos tornar este jogo ainda mais épico ao trocar o Jovane Cabral pelo Francisco Geraldes. Como adepto sportinguista, desconfi(n)ado por natureza, imaginei a transformação do milagre em tragédia, com títulos do El Pais e relatórios da Organização Mundial de Saúde a falar de “disaster recovery”. Mas, ao passarem minutos atrás de minutos sem ver ninguém a estrebuchar, moribundo, com uma das chuteiras de um jogador treinado pelo Petit atravessada na carótida, compreendi melhor o que se passou (passou-se?): negociámos um armistício que permitiu concluir o jogo-treino com o Borja, o Doumbia, o Battaglia, e o Ilori ao mesmo tempo em campo, como contrapartida a deixar o Jovane Cabral no banco. 

Temos a melhor equipa desconfinada da Europa e o melhor jogador desconfinado do Mundo. Os progressos são incríveis e vêem-se à vista desarmada em momentos de jogo tão simples como no olhar penetrante do Borja na sua habitual marcação com os olhos ou na troca de bola de pé para pé durante dois minutos dos referidos Borja, Doumbia, Battaglia e Ilori. O Amorim demonstrou que as aulas presenciais e o ensino formal mais não servem do que para destruir as competências das pessoas. Queremos continuar desconfinados mas sem início de ano letivo!

terça-feira, 23 de junho de 2020

Ato falhado

Um dos acontecimentos mais surpreendentes do futebol português registou-se no jogo do Sporting contra o Paços de Ferreira. O árbitro marca “penalty” contra o Sporting, que não existe, e mostra amarelo ao Coates, que se encontrava a uns largos metros do local onde a suposta falta se realizou, confundindo-o com o Borja. A confusão entre os dois jogadores é uma impossibilidade có(s)mica. Para além da distância, um é muito, muito alto relativamente ao demais e ao outro também; um é branco e o outro é negro; um é calvo e o outro guedelhudo; um tem barba e o outro tem a cara impecavelmente escanhoada. É quase impossível confundir dois jogadores tão distintos, um uruguaio e um colombiano, cujo único elemento em comum é a camisola. 

O acaso não explica este acontecimento, este fenómeno. Está-se em presença de um ato falhado. Havia uma intenção inconsciente, subliminar. Pode-se pensar que essa intenção seria a de mostrar o amarelo ao Coates ou a de marcar um “penalty” quaisquer que fossem as circunstâncias. Não tenho a certeza que assim seja ou que assim tenha sido. O ato falhado é outro. O árbitro marcou “penalty” sem certeza, sem completa consciência de a sua decisão estar correta, tendo tratado de encontrar um subterfúgio que a permitisse reverter, tal a evidência da troca de jogadores. Conscientemente marcou “penalty” mas inconscientemente tratou de arranjar forma de o anular.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Prontos para apresentação aos sócios!

Estamos em pré-época e a minha disponibilidade para compreender as experiências do Ferro e do seu novo treinador-adjunto é naturalmente generosa. Mais dois jogos destes e a equipa está em condições de ser apresentada aos sócios. Está na altura de nos apresentarem um francês entradote que tem um pé esquerdo que passa a bola sempre redondinha para os seus colegas; um uruguaio alto e espadaúdo que limpa de cabeça todas as bolas por alto; um puto que joga a central com alma até Almeida e um cabedal que impõe respeito e permite ganhar uma e outra vez o corpo a corpo com os adversários; um puto brasileiro no meio-campo que tem um pulmão que não acaba, está em todo o lado ao mesmo tempo e ganha bolas atrás de bolas, embora ainda um pouco faltoso; um outro puto que se parece com o que saiu para o Manchester United (Jovane Fernandes Cabral, será?). Há mais uns putos interessantes, como o lateral esquerdo e o guarda-redes, que, como os restantes, são desconhecidos de todos nós. 

Neste jogo contra o Tondela, registaram-se evoluções relativamente aos dois anteriores, contra o Guimarães e Paços de Ferreira, embora ainda continuem presentes as dificuldades mas também as virtudes do modelo de jogo adotado. A evolução esteve na pressão mais alta sobre a saída de bola do adversário e numa maior facilidade em a ganhar em terrenos mais adiantados se não à primeira pelo menos à segunda. Num ou noutro contra-ataque, a equipa também se reorganizou para defender. Na segunda parte, a defender, a equipa esteve sólida, compacta e sem dar abébias ao adversário. No ataque, ao se jogar com três centrais, privilegia-se em demasia o jogo exterior, sem movimentos interiores com a frequência desejada dos extremos e apoio dos médios, existindo uma só referência na área e inferioridade numérica no meio. O ataque parece viver da irrequietude dos putos e, em especial, da insolência do referido Jovane Fernandes Cabral (será?). As oportunidades foram poucas mas aproveitadas com enorme avidez, permitindo a vitória por dois a zero. 

A arbitragem não precisa de apresentação ou reapresentação. Houve trezentos e vinte e oito “penalties” a favor do Sporting. Em todas as situações, vimos marcar por muito menos. Um empurrão não se basta e é preciso recorrer à cinemática e à mecânica para se saber se é falta ou não, fazendo-me recordar os conceitos de torsor e de momento (o momento é a força vezes o braço ou a distância). Bola na mão ou mão na bola também depende de análises profundíssimas sobre a relação entre volumetria e movimento dos braços. Com mais ou menos ciência, não parece adequado é não penalizar a placagem do “arrière” da equipa de rugby do País de Gales ao alto e espadaúdo uruguaio. Como todos sabemos, no rugby, uma placagem sem bola origina uma penalidade e a possibilidade de, na sua conversão, se somar (mais) três pontos.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Ao longe


Ouvi dizer que o Silas Amorim vale bem um estádio Eu Sou. São portas fechadas, segredos por revelar, são coisas do mundo, só se podem ver… ao longe (como diriam os Heróis do Mar). Os jogos são patuscos, rodeados de sombras e imagens projectadas pelos nossos sonhos; das bancadas exala um odor a compadrio misturado com publicidade enganosa. O Belenenses SAD está nas suas sete quintas, habituado a rumores de catástrofes anunciadas, há muito que treina e joga à porta fechada. Os comentadores fazem gáudio da sua importância sociológica e televisiva, ruminando impressões, discutindo vitupérios, anunciando novos mundos com amanhãs cantantes. Os jogos - vamos lá ver isso - são panaceias violentas que escondem o verdadeiro jogo, onde os peões se escondem do rei e do papa, conforme a religião. Treinadores afirmam-se surpreendidos, adeptos procuram, nem sempre em vão, o melhor viaduto para arremessar as suas tristezas, outros sobem a árvores e a prédios para justificar a sua função humanitária. Os jornais voltaram à normalidade possível, dentro da impossibilidade de outra. Fazem-se capas marcantes. Outras distantes. Os festejos são efusivos. Com ou sem máscara. Tudo a céu aberto. A liga dos calmeirões aterrará em Lisboa. Estamos preparados. A aposta na formação acompanha as dívidas e as dúvidas dos mais inconformados. São coisas do mundo, só se podem ver… ao longe.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

#viettolivesmatter

O Rúben Amorim dispõe de toda a minha tolerância e boa vontade. A expetativa de voltar a ver jogar o Mattheus Oliveira é de tal forma que estou disponível para continuar a assistir ao desespero do guarda-redes, de três centrais e de dois médios para levarem uma e outra vez a bola para o ataque. A tática é a do Silas mas parece mais bem estudada e treinada, atendendo ao posicionamento mais avançado dos dois alas. 

Esta tática deixa a equipa sempre em desequilíbrio numérico atrás, ao meio e na frente, conforme a dinâmica de jogo. Hipotecam-se três defesas em vez de dois quando a equipa está a atacar. Quando não se tem a bola, deixam-se dois médios a ocupar o meio-campo e a lutar contra três ou quatro adversários. Os três da frente ou estão condenados a comportar-se como um grupo de paraquedistas ou de outra tropa especial qualquer junto à linha do inimigo ou se recuam, para receber a bola entrelinhas, correm o risco de trazer adversários com eles e assim congestionarem ainda mais o espaço da saída de bola para o ataque. Mas, tratando-se de jogos de pré-época, precisamos de tempo para se tirar conclusões definitivas antes de se arranjar mais um treinador-adjunto para o Ferro. 

A primeira parte foi um desespero. Desesperava pela substituição do Vietto quando este, só para me chatear, desmarcou primorosamente o Sporar que foi indo como se nada fosse até nada ter sido. Para me deixar na dúvida, o Vietto lesionou-se logo a seguir. O Vietto é aquele jogador tão falho de intensidade que desejamos sempre ver outro no seu lugar; desejamos até o vermos e, quando o vemos, nos lembrarmos que o Vietto tem sempre a possibilidade de tirar um coelho da cartola; quando o voltamos a ver num qualquer jogo a seguir voltamos ao mesmo e assim sucessivamente até ao fim dos tempos. A primeira parte foi isto e mais umas tantas traulitadas dos jogadores do Paços de Ferreira liderados pelo grande Pêpa, essa gente indómita sempre disposta a talhar madeira alheia. 

A segunda parte foi um desespero, mas um desespero diferente do da primeira, um desespero de outra maneira e por outros meios. Parecia que podia ser diferente quando o Jovane Cabral enfiou um balázio ao ângulo na conversão de um livre direto, fazendo o primeiro golo. Depois, o Matheus Nunes levou um amarelo ridículo e vimos entrar o Eduardo para o seu lugar (sim o Eduardo!), quando tínhamos o Mattheus Oliveira no banco. O Paços de Ferreira encheu-se de brios e tentou fazer pela vida, aproveitando os seus jogadores toda e qualquer oportunidade ou oportunidade nenhuma para se atirar para o chão. Mas o Eduardo Quaresma estava seguro, o Coates limpava tudo o que havia para limpar nas bolas aéreas e o Max tratava do resto; o Camacho transformava a bola numa rã sempre que lhe tocava; o Plata aquecia, coisa que nunca deixou de fazer desde que substituiu o Vietto; o Sporar desaparecia em combate e foi abatido ao efetivo; o Borja continuava a ser o Borja; o Acuña estava melhor, embora os cinco quilos a mais prejudiquem o seu futebol; o Francisco Geraldes prometia ler o Memorial do Convento e, se lhe pedissem muito, também o Manual de Pintura e Caligrafia ou o Levantado do Chão. Sobrava o Jovane Cabral, que continuou a demonstrar estar em melhor forma do que todos os outros juntos. 

O jogo não foi um desespero, apesar de quer a primeira, quer a segunda parte, o terem sido. Pelas duas equipas teria sido, mas um árbitro serve para isso mesmo: para transformar o desespero em farsa e a farsa em normalidade. Não viu um agarrão ao Jovane Cabral, que existiu, e viu um empurrão do Coates a um jogador do Paços de Ferreira, que não existiu. Vídeo-árbitro para a frente, vídeo-árbitro para trás, e tudo voltou ao (a)normal: fomos gamados, como se não tivéssemos sido; o Paços de Ferreira foi beneficiado, como se não tivesse sido. Tudo normal, tudo farsa, tudo desespero e vice-versa.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Silas 10.0 num jogo escanifobético (*)

Meses à espera de Godot e sai-nos uma versão do Silas. Nada contra, barretes há muitos, mas também os há em barato ou em caro. O Silas 2.0 seria só mais um. O Silas 10.0 não é mais um, é único. Amorim tem os mesmos “powerpoints”. Tem uma ideia de jogo, um sistema tático também. Apesar de tudo, mudou alguma coisa. Entrou o Eduardo Quaresma e o Matheus Nunes e colocou o Camacho a jogar na ala direita e um lutador de sumo na ala esquerda (mais tarde vim a saber que era o Acuña; penso que entretanto lhe explicarão que só abaixo dos cem quilos se conseguem fazer certas jogadas no futebol). 

Nos primeiros minutos, pensei que o júnior fosse um rapaz alto e loiro que jogava do lado esquerdo da defesa, um tal de Mathieu, pois parecia o mais novo. Nesses minutos iniciais, a cada dois passes perdia-se a bola. Os três centrais pareciam três tristes tigres: bola para um, bola para outro, bola para o guarda-redes, com o guarda-redes a ter a responsabilidade de virar o sentido do jogo, fosse com o pé direito fosse com o esquerdo (o seu pior). Pouco a pouco, a defesa do Guimarães foi-se demostrando um buraco a jogar adiantada. Cada bola nas costas era um ai Jesus, Nossa Senhora de Fátima nos acudam! Numa dessas circunstâncias, o guarda-redes teve de sair da área para enfiar uma peitada na bola, permitindo ao Sporar tirar-lha, agradecendo a delicadeza enquanto esperava que ela se aquietasse para a empurrar para a baliza. 

Sem saber ler nem escrever, estávamos a ganhar. No entanto, continuámos como se nada fosse a trocar a bola atrás entre os centrais, os médios e o guarda-redes, porque o a ideia de jogo e o sistema tático são para cumprir. Aumentada a pressão dos jogadores adversários, os do Sporting começaram a atrasar ainda mais bolas para o Max e cada vez mais à queima e para cima da linha de baliza, enquanto este continuava a manter a responsabilidade de a fazer rodar para o lado contrário com o melhor ou o pior pé. Tantas vezes o cântaro vai à fonte até que amor com amor se paga e o Max com a delicadeza do Sporar devolveu a delicadeza do guarda-redes do Guimarães. Assim se permitiu o empate sem se abdicar da ideia de jogo e do sistema tático. Até ao final da primeira parte, o Jovane Cabral teve oportunidade de dinamitar a defesa do Guimarães e o Vietto de demonstrar que é um Postiga com sotaque. 

Na segunda parte entrámos a jogar melhor. O Camacho começou a perceber melhor o seu posicionamento e o Eduardo Quaresma desinibiu-se, apesar do Battaglia continuar a tropeçar em si mesmo e nos adversários sempre que pretendia levar a bola para o ataque. O Jovane Cabral continuava indomável (pareceu o único a não se limitar a comer “fast food” durante o confinamento) e, partindo a defesa adversária, isolou o Sporar para este com toda a sua comprovada delicadeza deitar o guarda-redes e empurrar a bola para a baliza. O bandeirinha ainda marcou falta de distanciamento social (faltava esta!), sem se dar conta que o Sporar estava com um daqueles chapéus em forma de helicóptero que as crianças de Arcos de Valdevez usam. A perder novamente, os jogadores do Guimarães foram porfiando e, como se sabe, quem porfia sempre alcança, para descanso de todas as partes envolvidas, como se viu em seguida. O Jovane Cabral descansou-nos e descansou o treinador quando, voltando a fazer das suas, expulsou um jogador adversário, permitindo que a equipa assumisse definitivamente a sua ideia de jogo e o seu sistema tático sem mais excitações ou eventuais riscos de marcar mais um golo que fosse. 

Por mim, matadas as saudades, parava-se o campeonato mais três meses e voltávamos todos aos emocionantes “briefings” diários da Graça Freitas. Não sei quem é que convenceu o António Costa desta ideia de se retomar o campeonato, embora tivesse o bom senso de perceber que isto não é coisa que se possa ver ao vivo. Mas, sem público, o futebol desnuda-se, deixa de ser competição e passa a ser jogo exclusivamente e, no jogo, nada mudou em Portugal: houve o vinte e cinco de abril de setenta e quatro, a adesão à Comunidade Económica Europeia, o fim da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, a criação da moeda única, o Euro, a ascensão da China na economia mundial, o onze de setembro e o atentado às Torres Gémeas, a crise financeira internacional e das dívidas soberanas na Europa e, finalmente, a pandemia do Covid-19 e nada se criou, nada se perdeu, nada se transformou. Cinquenta anos de acelerado tempo histórico que para o futebol português foram um único momento. Dantes dizíamos que não se conseguiam ver os jogos do campeonato nacional, agora dizemos que também não se conseguem ouvir. 

(*) Resgatei este adjetivo da recente releitura dos “Casos do Beco das Sardinheiras”, de Mário de Carvalho.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

É pelas virtudes que se é melhor castigado*


A história é conhecida. O veredicto fora dado antes de qualquer julgamento. A praça pública, outrora um espaço de liberdade da cidade, é hoje um largo com esplanadas em forma de tenazes onde se depreda, à vista de todos, a vida de alguns cidadãos.

Um ex. Presidente do Sporting Clube de Portugal foi ilibado (e não foi o único) de todas as acusações que sobre si recaíam em tribunal. Por outras palavras: declarado inocente. É claro que ainda não transitou em julgado, mas atendendo à tristeza de alguns semblantes, o luto será longo e difícil de ultrapassar. Não esperava grande coisa de alguns comentadores e jornaleiros a soldo, nem dos rivais de sempre que não apreciam qualquer prova de força da nossa parte, mas acreditava que a Instituição Sporting, ou alguém em seu nome, se regozijasse com esta decisão sobre um seu ex. Presidente. Ponto. Já agora, este (o site do Sporting estava indisponível) comunicado oficial é, no mínimo, embaraçoso. E é isso que traz água no bico.

A análise da imprensa de hoje, mesmo para um observador desatento, remete-nos para a incredulidade dos ingénuos. Ou tomam-nos por imbecis. É como se não se tivesse passado nada. A matilha de pasquins do costume, sempre pronta para alinhavar um bom membro decepado expondo-o num plinto ao sol, para ser devidamente servido aos abutres, passa pelos acontecimentos como cão por vinha vindimada. O CM, sempre tão solícito em servir bons repastos, faz uma minúscula chamada de capa, anunciando, sem se rir muito, o “agressor de Bas Dost com pena suspensa”, o melhor que conseguiram para aconchegar o terror que os trespassou. O Record e A Bola dão um destaque mínimo na capa ao veredicto do tribunal, depois de terem feito, juntamente com o CM, mais de trezentas mil capas antecipando o veredicto e aspergindo a fogueira com combustível.  A imprensa dita séria, enredada num jornalismo de tarefeiros e sem qualquer capacidade para fazer investigação e reportagem, fica-se pela notícia e os lugares comuns do costume.

Como diz o Vítor Oliveira, que já não precisa disto para nada, o que vai começar agora é o futebol negócio. Eu diria recomeçar. Há muito que o jogo não interessa para nada se não vier devidamente embalado em comissões, altos patrocínios e respectivas alvíssaras.


(*Nietzsche)

A sorte só protege o acaso

O sorteio e o futebol português têm uma longa história em comum. Houve bolas quentes e bolas frias no sorteio dos árbitros. Houve sorteio dos árbitros tão, mas tão condicionado que o resultado nem precisava de ser anunciado. O único sorteio que tem resistido ao tempo é o do simples cara ou coroa no início de cada jogo para escolha de bola ou campo. 

No sábado, li no Expresso que se realizou sorteio para distribuição de testes positivos e negativos à COVID-19 pelos jogadores das diferentes equipas do campeonato nacional. Os onze testes positivos calharam todos a duas das dezoito equipas, sendo nove falsos positivos. Por outras palavras, o sorteio estava condicionado ou metia bolas quentes e bolas frias. Fica-se sem saber se a empresa responsável por este sorteio também foi escolhida por sorteio e, a ter sido, por que tipo de sorteio. É caso para desejar que o sorteio dos testes e o sorteio da empresa que sorteia os testes sejam feitos por estrangeiros, parafraseando o Presidente do Benfica.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Adepto desconfi(n)ado de água fria tem medo (*)

Cada dia que passa, estou a confinar e a desconfinar pior. Confinei bem quando só se podia confinar. Admito que também deconfinaria bem se se desconfinasse de vez. Dantes, estava em casa e saía quando me apetecia. Agora, estou em casa confinado e, se saio, desconfino-me para, no regresso, me voltar a confinar. Estar em casa é estar preso. Sair é gozar a precária do dia. 

Ontem, desconfinei-me para ir à livraria. À entrada, besuntei as mãos com álcool-gel. A sensação foi a de as meter num alguidar de azeite. Nestas condições, ninguém se arrisca a pegar num livro, não vá deixar-lhe uma nódoa de gordura ou escorregar-se-lhe entre as mãos. O ritual de pegar nos livros, ler-lhes a badana e folheá-los ficou seriamente comprometido. Procurei concluir as compras rapidamente antes que a máscara me deixasse com os óculos completamente embaciados. Comprei “Um Cemitério para Lunáticos”, de Ray Bradbury, autor de um dos livros de referência da minha filha, a distopia “Fahrenheit 451”, e “O Doente de Molière”, do recém-falecido Rubem Fonseca, como homenagem a um dos meus autores de culto.

Estava para me vir embora, quando dei com “Um tempo sem idades”, de Maria João Valente Rosa. Trata-se de um ensaio sobre o envelhecimento populacional. Nem o tema nem a autora são do meu especial interesse, mas a estética das edições da Tinta da China é irresistível e qualquer razão é uma boa razão para se comprar mais um livro. [Se o leitor conseguiu chegar até este parágrafo sem desistir, deve-se estar a perguntar porque razão continuou a ler até aqui. Talvez ainda tenha a expetativa de uma revelação. Nada de mais errado. Eu próprio cheguei até aqui sem saber bem como e ainda menos o que vou escrever daqui para a frente.

O livro da Maria João Valente Rosa começa com três citações quase de enfiada, uma de Cícero, outra de Darwin e outra ainda de Einstein. Esta última é a bem conhecida: “Não podemos resolver os nossos problemas com o mesmo modo de pensar que usámos quando os criámos”. [Neste momento, faço uma pausa para pensar como é que vou meter o futebol nesta balbúrdia de palavras e na sequência deste aforismo. “Força, vamos, tu consegues!”

Não precisamos de Einstein para saber que quando vimos uma tartaruga empoleirada num plátano é sinal de que alguém que a lá pôs. [Sim, é verdade, as tartarugas não trepam.] Quando vimos Pedro Proença, Luís Duque, Mário Figueiredo ou Fernando Gomes a Presidente da Liga também percebemos que alguém os lá pôs. Para abreviar, quem os pôs foram os mesmos de sempre que pretendem que tudo continue como sempre. Pelos vistos, há problemas na Liga e esses mesmos querem arrear o Pedro Proença, faltando saber a tartaruga que se segue ou se deitam a árvore abaixo. Nesta altura percebe-se melhor o aforismo de Einstein e a razão subliminar que me levou a comprar o livro. [Foi difícil mas acabou, para meu alívio e do leitor que teve a paciência de chegar até ao fim.]

(*) Estes títulos acontecem-nos quando não temos nada para dizer e nos dói a cabeça. O Blogger devia ter uma funcionalidade que impedisse os trocadilhos ou só os autorizasse em situações excecionais, como nas prolixas reflexões de Fernando Gomes.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Nada se parece tanto com a sabedoria como a imprecisão*


Ontem, numa das televisões que nos fazem acreditar que a loucura é um meio de comunicação em voga, um jornalista (?) comentador exultava com a volta do futebol (a sério?) e dos (sobretudo estes) programas sobre o dito. Na verdade, como nunca se fala de futebol nesses programas, o enchimento de chouriços até tem sido possível, através de algumas ligações via Skype ou zoom. Foi precisamente através de uma dessas plataformas de comunicação que o debate sobre o sexo dos anjos (ontem) decorreu, com a participação de um ex-jogador de futebol, que dissertava enquanto se debatia com uma praga de mosquitos, e uma jornalista mediadora a tentar incendiar a coisa, sem grandes resultados. Estaria mais gente mas não consegui aguentar a pressão.

O futebol volta (se voltar) porque nesta etapa de desconfinamento ( é assim que se diz?) precisamos de um pouco de circo e de entretenimento para as massas, sem esquecer a tal “indústria” que carece de uma mãozinha para conseguir pagar as contas. Os três clubes grandes juntos a uma mesma mesa quer dizer muita coisa. E futebol sem público é algo a que muitos estão habituados.

Uma mãozinha e parte de um pernil é o que o jornal Record vai dando a esta direção do Sporting. Hoje ficamos a conhecer o plano (mais um) Varandas. É uma bola altura para conhecermos (mais) um plano. Ficamos a saber que se a pandemia fosse o ano passado teria sido o colapso. Foi o tal ano preparado ao pormenor e cujos frutos estávamos a colher, absolutamente maravilhados. Ficamos a saber de mais um relatório interno que arrasa a herança das anteriores direcções (que originalidade!). E ficamos a saber que, não sabendo dos inúmeros imponderáveis, que podem ou não acontecer, não necessariamente por esta ordem, o plano poderá, eventualmente, ter de sofrer alterações, ou mesmo ser totalmente reformulado. Ninguém faz a mais pequena ideia do mundo que vamos encontrar amanhã. Ou depois. Mas é bom saber que temos (mais) um plano.

(*algures num texto de De Santis, "O Enigma de Paris")

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Sergio Moro a Presidente da Federação Portuguesa de Futebol!

Ouvi há dias, na Globo News, uma entrevista de Ciro Gomes, eterno candidato a Presidente da República do Brasil, sobre a recente demissão do Ministro da Justiça, Sergio Moro, do governo presidido por Bolsonaro. Trata-se de um ministro com imensa popularidade resultante do seu papel como juiz no megaprocesso Lava Jato que levou à prisão, inclusivamente do ex-Presidente Lula. Na sua demissão, Moro fez uma série de acusações a Bolsonaro de interferência na Polícia Federal e em processos judiciais em curso que o envolvem e aos seus filhos. 

A este propósito, Ciro Gomes construiu uma alegoria muito divertida. Disse qualquer coisa como isto: “Moro vivia numa penumbra entrecortada pela luz diáfana de uns candeeiros vermelhos e lilases, onde passeavam à sua volta senhoras com pouca roupa e de taças de champanhe barato na mão, e demorou dezassete meses a perceber que se travava de um prostíbulo”. Na segunda-feira, quando comecei a ler o Público e dei com um artigo de opinião de duas páginas de Fernando Gomes, Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, veio-me à cabeça essa alegoria. 

Fernando Gomes é Presidente da Federação Portuguesa de Futebol desde 2012. Foi Presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional de 2010 a 2012. Antes disso e desde 1994, exerceu vários cargos de direção no Futebol Clube do Porto e na sua Sociedade Anónima Desportiva. Fernando Gomes demorou vinte e seis anos a perceber que: “não se pode permitir que se vendam ilusões aos jovens”, “os orçamentos dos grandes clubes não podem estar dependentes das participações nas competições europeias”, “[se deseja] um jogo com mais qualidade técnica, menos faltas, mais respeito pelas arbitragens e mais respeito entre pares”, “os clubes têm de aceitar que as regras precisam de ser duras, apertadas e para cumprir”, “[é preciso] terminar este ciclo de violência física e verbal que nada tem a ver com o futebol”. 

Fernando Gomes é dado a epifanias. Já em 22 de setembro de 2017, numa outras crónica no Público tinha descoberto que: “é necessário que os clubes saibam encontrar pontes de diálogo naquilo que os une e deixem de permitir que os seus símbolos, a sua história e a sua força sejam capturados para a apologia do ódio”, “o clima que se vive no futebol profissional português é inimigo do crescimento e da afirmação da indústria e também um péssimo exemplo para os mais jovens”, “as críticas [às arbitragens], que muitas vezes são inspiradas em dirigentes com as mais altas responsabilidades, potenciam o ódio e a violência”, “o clima de ódio tem tido reflexo também entre os adeptos”, “existem sinais de alarme no futebol português”. 

Aparentemente, o puro e simples proselitismo rende e tem boa imprensa. Ninguém pede e muito menos exige responsabilidades. Hipocrisia por hipocrisia sempre prefiro a de Sergio Moro: as suas revelações necessitam de menos tempo e sempre é consequente com elas.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Logo agora que éramos os nórdicos do sul da Europa!...

O título e o subtítulo da recente reportagem do New York Times não podiam ser mais inquietantes. O Benfica é comparado a um estado soberano e os jornalistas interrogam-se sobre a (im)parcialidade dos seus adeptos quando se constituem simultaneamente como procuradores ou juízes dos processos judiciais que o envolvem. Este artigo diz mais do que somos como estado de direito democrático do que do Benfica como clube ou equipa de futebol. Parece de propósito, logo agora que nos consideravam os nórdicos do sul da Europa ou a sétima democracia mais avançada do Mundo. 

Este confinamento permitiu-me retomar a leitura de alguns livros que por uma ou outra razão tinha deixado a meio. Um deles foi “Porque Falham as Nações”, de Daron Acemoglu e James A. Robinson. É um ensaio histórico que procura explicar a relação entre a natureza das instituições – inclusivas ou extrativas – e a sustentabilidade do desenvolvimento económico e da prosperidade dos países. Aparecem figuras (figurões, melhor dizendo) como Mugabe, no Zimbabué, Kabila e Mobutu, no Zaire, Siaka Stevens e Joseph Momoh, na Serra Leoa, Karimov, no Usbequistão, ou Mubarak, no Egipto.

De acordo com os autores, o progressivo afastamento dos países mais e menos desenvolvidos não se deve a diferenças na qualidade e quantidade dos fatores de produção, no acesso à tecnologia, mas à evolução das suas instituições como resultado da sua interação com conjunturas críticas, desde a Peste Negra, à (des)colonização ou ao desmantelamento da União Soviética. Pequenas diferenças institucionais à partida determinam evoluções diferenciadas após essas conjunturas em instituições como o direito de propriedade, a representação popular ou a independência da justiça. Depois da Revolução Gloriosa, na Inglaterra, ou da Revolução Francesa, na França e Europa ocidental, assistiu-se à transformação das suas instituições, tornando-se mais (e mais) inclusivas. Em contrapartida, por exemplo, as instituições extrativas do colonialismo espanhol, português, britânico, francês ou holandês foram simplesmente apropriadas pelas novas elites políticas e económicas para seu benefício após a descolonização. 

À falta de algo melhor em que pensar, entretive-me a analisar a evolução do futebol português a partir de idêntica perspetiva institucional da sua história recente e, em particular, das suas conjunturas críticas. Talvez a primeira conjuntura crítica dos tempos mais recentes tenha sido a constituição da Liga Portuguesa de Futebol Profissional como organismo autónomo da Federação Portuguesa de Futebol responsável pela organização das competições profissionais, associada à criação das Sociedades Anónimas Desportivas. Pareciam existir condições para um tempo novo, com os clubes transformados em empresas cotadas em bolsa e o futebol em indústria regulada que permitisse a atração de investimento e investidores. Rapidamente o “establishment” se recompôs e tivemos Valentim Loureiro como Presidente da Liga praticamente de 1992 a 2005, com o interregno de 1994-95, com Manuel Damásio e Pinto da Costa.

A segunda conjuntura crítica surge exatamente no fim desse ciclo, com o Apito Dourado, mas as mesmas instituições extrativas e os seus representantes continuaram a resistir sem grandes mazelas, com os dirigentes a manter-se e os árbitros também. No entanto, envolvidos nesse escândalo, Valentim Loureiro desaparece e Pinto da Costa perde influência, emergindo o Benfica e Luís Filipe Vieira. A sua afirmação de que são mais importantes lugares na Liga do que contratações de bons jogadores, em resposta à contratação de Jankauskas (ex-jogador do Benfica) pelo Porto, era o prenúncio da necessidade de tudo mudar para que tudo ficasse na mesma, parafraseando Lampedusa. Da colonização passou-se à descolonização e nada mudou, com exceção da hegemonia. 

A terceira conjuntura crítica foi a sucessão de casos com nomes extravagantes (“mala ciao”, “e-toupeira”, “vouchers”, “emails”, etc.) envolvendo o Benfica, mas não houve pressão da opinião pública para que se mudassem as instituições. Ficou a denúncia, mas não foi aproveitada para a mobilização da opinião pública para essa mudança necessária. Nessa conjuntura crítica, Bruno de Carvalho e Pinto da Costa tiveram a oportunidade de obrigar o poder político a intervir, recusando-se pura e simplesmente a continuar a participar no campeonato. Cada um à sua maneira, mais Pinto da Costa do que Bruno de Carvalho, procuraram tirar benefícios de curto prazo mas sem a apresentação de plano radical de alteração das instituições assente na mobilização dos seus milhões de adeptos. Como sempre, no Sporting, não se consegue compreender a grandeza histórica e a dimensão do clube e muito menos transformá-las em poder de influência efetivo. 

E chegámos ao ponto de os mesmos dirigentes do futebol que nos envergonham como povo se sentarem à mesa com os nossos representantes eleitos democraticamente para negociarem um estado de exceção no contexto da pandemia do Covid-19, sem qualquer condição ou contrapartida de reforma institucional. Num mar de dificuldades onde se encontram os portugueses, cancelam-se competições, concluem-se as temporadas das restantes modalidades, deixando em dificuldades financeiras atletas de enormes méritos, e permite-se que no futebol profissional tudo possa continuar para que continue a roda dos milhões sem origem nem destino conhecidos. Voltam os velhos tempos, calando-se os profissionais qualificados de quem a nossa vida e a vida dos nossos concidadãos dependeu e depende para se ouvirem os cartilheiros do costume. Tenham vergonha e não nos envergonhem!

terça-feira, 28 de abril de 2020

Onde está o Wally?

(clicar na imagem para aumentar)

A pergunta é pertinente: existe alguém nos tribunais sem ligações ao Benfica? Existe: quem se senta no banco dos réus. É a história da juíza-adjunta cliente do tal advogado, o juiz benfiquista e a sua avó desalmada, são os casos (de quem ninguém faz caso) dos vouchers, emails, Lex e e-toupeira, já para não falar da propaganda benfiquista nas televisões e jornais. Recentemente até o The New York Times publicou uma reportagem sobre o clube da luz referindo-se-lhe como um estado dentro do estado: ou o próprio estado (das coisas) soberano. Por falar em propaganda, hoje no jornal A Bola, Fernando Guerra, na sua rubrica Vamos Conversar, publica um verdadeiro panegírico à direcção do Benfica e à sua gestão, deliciosamente intitulado: só o Benfica resiste. Nem uma palavra, uma alusão, um roçar de pensamento, sobre quaisquer dos casos acima referidos, ou sobre a (honrosa) reportagem do New York Times. Deixo outra pergunta para finalizar: e se invés dos juízes (árbitros) de futebol estrangeiros arranjássemos juízes de outros países para os nossos tribunais? Estava a brincar, deixem o Wally em paz... 

quinta-feira, 23 de abril de 2020

A incrível e triste história do juiz benfiquista (e da sua avó desalmada)

Pode um juiz benfiquista julgar um caso que envolva o Benfica? É uma pergunta simples que remete para uma resposta também simples não sem que antes nos vejamos em palpos de aranha para a encontrar. 

Um juiz é titular de um dos três órgão se soberania numa democracia plena: o poder judicial. Contrariamente aos outros dois – poder legislativo e poder executivo – estes titulares não são eleitos pelo povo, não se encontram submetidos ao escrutínio popular. Poder, muito poder, e escrutínio exclusivamente pelos pares. O poder (e a sua legitimidade) anda a par da responsabilidade e quanto maior o poder, maior a responsabilidade. 

A nossa identidade é plural ou, melhor dizendo, dispomos de múltiplas identidades. Somos homens ou mulheres, casados ou solteiros, portugueses ou naturais de outro país, do norte ou do sul, do este ou do oeste, da cidade ou do campo, de um clube ou de outro. Somos tudo isto e somos o que fazemos. As identidades complementam-se. Têm um tempo e um espaço e, por isso, no seu tempo e no seu espaço uma não sobreleva outra. Quando uma se sobrepõe a todas as outras estamos mais próximos da barbárie, como nos explica Amartya Sen em “Identidade e Violência”. 

O benfiquista Registo dispõe de uma página de Facebook. O benfiquista Registo expõe publicamente o seu benfiquismo e, como benfiquista fanático, escreve e partilha umas alarvidades sobre futebol, julgando adversários, árbitros e Rui Pinto. Calhando-lhe em sorteio julgar o processo "Football Leaks", o juiz Registo apagou das redes sociais o benfiquista Registo, como se dessa forma deixasse de ser também o benfiquista Registo. O juiz Registo pediu escusa do processo ao Tribunal da Relação de Lisboa. O juiz Registo entende que deve ser um tribunal superior a decidir se tem ou não condições para julgar o caso de Rui Pinto, “tendo em conta o que saiu na comunicação social”. O juiz Registo não desmentiu nada do que “saiu na comunicação social”. 

Em teoria, nada impede que o juiz Registo julgue este caso. O juiz Registo é uma das suas identidades e o benfiquista Registo outra. Quem considera que está impedido de o julgar é o juiz Registo. Se considerasse que o benfiquista Registo é independente do juiz Registo, o juiz Registo não teria apagado o benfiquista Registo das redes sociais. Não, não precisa de ser um tribunal superior a decidir quando ele já decidiu. Não, não precisa de se justificar com o que “saiu na comunicação social”, quando justificou a si próprio a sua renúncia ao renunciar ao benfiquista Registo. 

Pode um juiz benfiquista julgar um caso que envolva o Benfica? Pode, como pode um juiz sportinguista ou portista julgar casos que envolvam o Sporting ou o Porto. Ser de um clube é uma parte do que se é e essa parte não necessita de interferir com o resto do que se é também. O caso particular do juiz Registo é diferente. É o próprio juiz Registo que considera que o benfiquista Registo interfere com a sua função de fazer justiça. Mas o problema não é o juiz Registo; o problema são os assintomáticos.

terça-feira, 21 de abril de 2020

A normalidade (im)possível


Dito de cor, não precisamos de olhar lá para fora para percebermos que a cidade está vazia (já esteve mais). A “normalidade” é agora uma noção anómala sujeita a variadíssimas oscilações. Como era? Como vai ser? A normalidade nunca é igual para todos, em dado momento. O futebol não é um mundo à parte mas comporta-se como tal. Vivendo muito acima das suas reais possibilidades (não apenas em Portugal, mas em todo o lado), assemelha-se a um balão inchado, extremamente dependente de quem lhe sopra as golfadas necessárias à sobrevivência (publicidade, televisão, mecenas bem e mal intencionados, maquinaria de lavagem de dinheiro, apostas), devidamente municiado pelas instâncias internacionais a seguir os bons exemplos: UEFA e FIFA. Alguém acredita nisso?

Também o futebol vai precisar de ventiladores e de passar algum tempo nos cuidados intensivos. Também o futebol será alvo de incontáveis metáforas. A sua indústria, como alguns gostam de lhe chamar, é um artifício meramente especulativo. Onde se encaixam os adeptos, os associados, nestas andanças? Perguntem aos ansiosos comentadores dos intermináveis programas da normalidade passada, uma lateralidade história (e histérica) que gravita, hoje em dia, algures, entre o FIFA 20 e o canal história. O programa mais transferências, apenas terá mudado de nome para menos (ou nenhumas) transferências. A vida não pára. 

A competição vai voltar, anuncia o jornal A Bola. Não se sabe (apenas) em que moldes. O Record mostra os jogadores do Sporting trajados de vida caseira, separados por não sei quantos metros ou campos, o bastante para umas fotografias. A normalidade (im)possível. Quando era puto havia o jogo da bola invisível, nunca pensei ser possível o jogo com jogadores invisíveis e adeptos inexistentes. Fica só a bola. Dá para matar o bicho, para quem tem fé.

Nota: A aragem financeira para os lados de Alvalade não corre de feição. Até aí, a normalidade não descamba. Todavia, o lay-off imposto à generalidade dos funcionários mostra, à evidência, que as notícias da negociação recente de um treinador por valores que rondavam os dez milhões de euros, só poderiam ser manifestamente exageradas. Caso contrário, lá teríamos que ferrar o cão.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Ferrar o cão

Há notícias de que não pagámos os 10 milhões de euros pelo Rúben Amorim ao Braga. Estranhamente, muitos dos que criticaram por pagarmos 10 milhões de euros pelo Rúben Amorim ao Braga são os mesmos que agora criticam por não pagarmos 10 milhões de euros pelo Rúben Amorim ao Braga. A única coisa que se sabe de ciência certa é que não há evidência empírica de que pagámos 10 milhões de euros pelo Rúben Amorim ao Braga. Concluindo, as notícias de que pagámos 10 milhões de euros pelo Rúben Amorim ao Braga eram manifestamente exageradas.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Futebol faz de conta

O futebol como organização constitui um imenso faz de conta. Faz de conta que tem leis e justiça própria. Faz de conta que as regras se cumprem e não há concorrência desleal. Faz de conta que se trata de um Estado dentro de cada Estado. Este faz de conta é de tal forma convincente que os seus protagonistas acreditam que assim é e fazem acreditar os outros também. A convicção é de tal forma que nem a pandemia do Covid-19 os demove de continuarem essa representação. 

Sem espanto, assiste-se a uma discussão entre a FIFA, a UEFA, as federações e as ligas sobre a conclusão dos campeonatos, como se essa decisão lhes coubesse. Aparentemente, não lhes passa pela cabeça que só haverá jogos à porta aberta ou fechada quando os governos dos diferentes países assim o decidirem (e ponto final) e que essa decisão não se encontra propriamente no topo das suas prioridades. 

Em Portugal, a Federação, a Liga e o Sindicato vão se entretendo a discutir redução de salários e eventual “layoff”. A discussão anda entre os trinta e os cinquenta por cento de redução dos salários e os clubes acordaram não efetuar qualquer contratação de um jogador que rescinda o seu contrato com justa causa. Pelo caminho, jogadores do Aves vão rescindindo, alegando o não pagamento (de todo) dos salários. Será que eles são completamente estúpidos para não perceberem que é preferível receber setenta ou cinquenta por cento de nada do que nada mesmo?

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Inconsolavelmente fiel


Estive a rever (uma grande parte) o AZ Alkmaar– Sporting no canal 11. O isolamento social dá para tudo, inclusive para isso. Durante o prolongamento (isto é verdade), o de hoje claro, não revivi os momentos em que vi na altura o jogo, perto de uma taquicardia arrítmica (não sei se isso existe, mas lá que parecia, parecia), segundo consta, mas vivi-o estranhamente, como se fosse a primeira vez, e eu fosse uma espécie de vidente, ou tivesse consultado um oráculo e soubesse que ia correr tudo bem. Deve ser por ver isso escrito hoje em dia nas janelas e elevadores: vai correr tudo bem ou vamos todos ficar bem, eu sabia, eu sabia. E depois no final do final de tudo o Tello marca o canto, uf, estava a ver que não, o Garcia marca golo e toda a equipa marca golo, toda a equipa festeja, cada um a correr desvairadamente para o seu lado (como quando se corta a cabeça a uma galinha e esta desata a correr), até que alguns jogadores se encontram, incrédulos, como nós nos encontramos até hoje. Foi a última vez que o Peseiro teve uns gramas de sorte. A última. A partir daí não reza a história. Obrigado na mesma.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Entre filmes, livros e saladas de atum

Os acontecimentos sucederam-se a uma velocidade tal que o jogo contra o Aves parece ter ocorrido há uma eternidade. Mas, ao acelerar dos tempos, seguiu-se a sua suspensão. A força gravitacional da pandemia sugou-nos para o seu buraco negro, não parecendo existir forma de escapar à sua atração. Escrever sobre o último jogo do Sporting é como escrever sobre o Canto do Morais: foi há tanto, mas tanto tempo que não passa de uma memória imprecisa. Noutras circunstâncias, a este jogo seguir-se-ia outro e mais outro e relembrá-lo agora seria um desperdício de tempo e energia. Não faltando tempo e energia, recupero a crónica que costumo escrever, e não escrevi, para ser lida em quarentena, quando acabámos de ver um par de filmes e de ler um par de livros e estamos na dúvida se devemos insistir em mais uma salada com o atum que comprámos por atacado. 

O Rúben Amorim (RA) operou tão profunda revolução tática que se pode afirmar a existência de um antes (a.RA) e de um depois (d.RA). Um jogador do Aves pretendeu amolgar a tíbia e o perónio de uma das pernas do Wendell e foi expulso, apesar do árbitro ainda ter titubeado com o cartão amarelo, sendo corrigido de imediato pelo vídeo-árbitro. Logo a seguir, outro jogador tirou com inusitada delicadeza os calções do Wendell, procurando colocar a nu os seus expressivos penduricalhos técnicos na saída para o contra-ataque, e foi expulso por acumulação de amarelos. Em cerca de vinte minutos, uma equipa habituada a jogar com dez, viu-se confrontada com a necessidade de jogar contra dez e depois contra nove. Prisioneira do Síndrome de Estocolmo, a equipa não se encontrava preparada para jogar com as regras do futebol. Voltar a jogar com essas regras, com as mesmas regras dos adversários, não foi um processo de adaptação nada fácil. 

De imediato, o RA decidiu meter o Jovane Cabral e tirar o Ristovski, que foi para o balneário amuado. O mais aconselhável talvez fosse tirar um dos centrais, mas o treinador é dos da nova geração, dos que têm ideias e princípios de jogo dos quais não abdicam até abdicarem quando caminham para o desespero. Percebeu-se a intenção: montar o cerco ao adversário, projetando ainda mais os laterais e obrigando o Vietto e o Plata a deslocarem-se das alas para o interior da área. Montou-se o cerco, os sitiados mantiveram-se firmes e hirtos e a nossa circulação de bola a passo de caracol não abria nenhuma brecha. No final, no finalzinho da primeira parte, um género de ataque (?) do Aves deixou os seus jogadores fora da sua posição habitual, o Acuña recuperou a bola e partiu com ela à desfilada, seguido de perto pelo Mathieu a quem a entregou a meio do meio-campo do adversário para a passar ao Vietto e este a rematar à barra. 

Para a segunda parte, não regressou o Mathieu, entrando o Francisco Geraldes e recuando o Battaglia para a linha defensiva. A ideia terá sido a de manter mais dentro e em linha com a defesa o Vietto e o Plata em apoio ao Sporar, deixando à inteligência do Geraldes a capacidade de descobrir uma aberta, de fazer um último passe que permitisse a desmarcação no tempo certo dos avançados. O resultado foi inconclusivo, pois o primeiro golo surgiu a partir do imprevisto, do que menos se espera, do que não se treina. Numa arroubo, a equipa do Aves desenvolveu um arremedo de ataque, perdendo a bola, e os nossos jogadores tiveram um pouco mais de espaço, não remontando o cerco, passando a bola com rapidez até chegar ao Wendell, que, do lado esquerdo, a centrou para o Sporar a cabecear, à Bas Dost, e a encostar para a baliza. Logo a seguir, o Jovane Cabral centrou do lado direito e um defesa tocou a bola com o braço, fazendo “penalty”, que o árbitro prontamente assinalou. O Vietto armou-se em Bruno Fernandes e fez “game, set and match”, não rezando para a história o restante tempo de jogo. 

Os adeptos do Sporting são profundos especialistas em economia e direito, devido à complexidade dos problemas e questões patrimoniais e financeiras e de direito civil e direito comercial que sempre envolvem o seu clube. Mas a sua maior especialidade é a pré-época, ciência futebolística ao alcance de muito poucos. Não há clube nenhum que tenha adeptos como nós, que compreendam de imediato, nos primeiros minutos de um jogo de preparação e pelo simples franzir de sobrolho do treinador, o que esperar da época ou do que dela resta. Este jogo de pré-época foi absolutamente conclusivo. Quando se joga com as regras do futebol e os árbitros mostram os amarelos e vermelhos e assinalam os “penalties” que devem, é mais simples vencer qualquer jogo, mesmo jogando assim-assim. De outra forma, de pouco serve a tática, os jogadores e o salário e a competência dos treinadores. Se com o RA também vêm as regras de futebol, então os 10 milhões de euros são uma pechincha.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Soltas da semana (o pensamento em quarentena)


O Sporting ganhou ao Aves na estreia do novo treinador milhões. Parece que jogou contra nove a partir dos vinte minutos. Alguns especialistas disseram que é mais difícil jogar contra nove jogadores ou mesmo contra dez. A partir de agora o Aves e outros sucedâneos entrarão em campo apenas com dez, ou com nove jogadores de campo, dependendo da dificuldade do jogo. A coisa poderá chegar aos oito, mas apenas com a autorização da direção nacional dos jogos difíceis.

O presidente do Braga decretou uma norma onde se proíbe falar de arbitragens com efeitos imediatos, quem sabe se para assim se defender melhor do COVID-19, vulgo Corona vírus.  Esta norma vem substituir uma outra do clube que determinava ser o Sporting mais favorecido pelas arbitragens, ultrapassando o COVID-19, o Benfica, o Porto e o Limianos.

Os próximos jogos da liga serão à porta fechada, quer dizer, sem público. Temos para nós que alguns clubes continuarão a sentir-se em casa.

Os Super-Dragões decidiram apoiar o Porto no jogo com o Famalicão do lado de fora do estádio. Ficamos a saber que do lado de fora dos estádios não há jogos à porta fechada, desde que a malta lave as mãos.

A Juventude Leonina está igualmente a estudar medidas de apoio ao Sporting do lado de fora dos estádios. Frederico Varandas já se mostrou indisponível para qualquer apoio à claque nessas circunstâncias. Não sabemos se o público não terá que tirar os sapatos (ou outras peças de roupa) no exterior do estádio, durante os jogos do Sporting em casa (em estudo). 

Rui Santos continuará a comentar estes e outros casos, mesmo em quarentena.

domingo, 8 de março de 2020

Vamos precisar de muita ajuda


O anúncio de mais um treinador para a equipa de futebol do Sporting sita no nosso cérebro naquela zona das banalidades avulsas. O Sporting nos últimos dezoito meses (historicamente somos, aliás, uma referencia mundial) teve quase tantos treinadores como projetos, sendo estes apenas ultrapassados na linha da recta pela quantidade absurda de balázios autoinfligidos.

As únicas novidades acopladas a este anúncio são do domínio do mundo bancário/empresarial, onde se podem prosseguir diversas estratégias de investimento, ajustadas ao perfil de risco e objetivos de cada cliente. Se começarmos a inglesar a coisa talvez esta ganhe contornos de performance para enganar meninos. Sorry.  

A partir de determinado valor sabemos estar na presença de algo esotérico digno de uma capa da Forbes, qualquer coisa impalpável merecedora de ser discutida no tasco entre duas minis e um prato de tremoços, onde invariavelmente surge a questão: o que farias com dez milhões de euros? A resposta é óbvia: comprava um treinador.

Esse ar de resposta óbvia era o ar que trajava o presidente do Sporting na apresentação do novo treinador. A esse ar juntava-se um outro, mais agressivo, um ar de animal feroz estrábico perdido no supermercado. Quando o animal feroz estrábico perdido no supermercado começa a falar o encanto perde-se e as palavras fluem como paralelepípedos às cambalhotas encosta abaixo. O choque (mais uma vez) é inesquecível.

No dia anterior àquele momento único de apresentação do treinador milhões, um golpe de asa cujo génio está longe de qualquer explicação racional, um homem trajado de verde sentava-se para nos dar a sua última conferência de imprensa como treinador do Sporting. Esse homem tinha o ar cansado de treinador do Sporting prestes a libertar-se do jugo de tamanha empresa. A solenidade do momento exigia uma nota artística consequente com a genialidade do golpe de asa presidencial, um golpe tão bem escondido de todos que certamente fará parte dos anais de jogar às escondidas nas escolas primárias do país.  

O treinador cessante, como quem não quer a coisa, anuncia o treinador que o vai substituir. Este acto (pensado, não duvideis) é o equivalente à bofetada de luva branca que nos reconforta em prato frio. E ainda deixou uma pequena nota para o sucessor: vai precisar de muita ajuda. É ele e nós.    

Agora vamos lá ganhar esse primeiro jogo do resto das nossas vidas. 

quarta-feira, 4 de março de 2020

Não nos damos com os das roulottes e das bifanas

Ainda antes de começar, o jogo contra o Famalicão já não interessava nada. Demorei um pouco mais a descer de casa para o café onde costumo ver futebol e, quando cheguei, estávamos a perder por dois a zero. Comecei a trocar umas mensagens com alguns amigos. Estávamos todos a ver o jogo e ninguém o estava a ver de facto. Em cima do intervalo, o Coates reduz a desvantagem e envio mais uma mensagem: “Porque é que não se treinam estas bolas para o Coates de manhã até à noite?”. “Porque é que não jogamos com o Coates a avançado depois da saída do Bas Dost? Em Portugal, mais de metade dos jogos ganham-se com um avançado assim”, respondem-me. 

Ao intervalo, o Coates ainda procurou dar algum ânimo e orientações aos seus colegas, mas, mal se iniciou a segunda parte, a modorra apoderou-se deles. Insistia-se pelo meio, com dois jogadores rápidos e visionários, o Battaglia e o Eduardo, a trocarem a bola entre si a passo de tartaruga e com os restantes jogadores a assistir. O Vietto invejoso com este protagonismo intrometeu-se numa dessas jogadas, perdendo a bola e permitindo o respetivo contra-ataque do adversário que originou o terceiro golo, com um avançado a atravessar todo o nosso meio-campo como cão por vinha vindimada e a passar pelo Neto como se de um pino se tratasse. 

Ainda preocupados com a possibilidade de não nos conseguirmos derrotar, o árbitro e o vídeo-árbitro resolveram ajudar. A ajuda foi preciosa, evitando a marcação de dois “penalties” que, nunca fiando, ainda poderiam permitir a reviravolta no resultado. Os jogadores têm regras, códigos de conduta tácitos, não escritos, que cumpre respeitar. Bater no Acuña não conta, podendo-se ainda receber de brinde a sua expulsão. No entanto, quando se quer dar porrada sistematicamente num jogador adversário, deve-se variar de caceteiro: uma vez dá um, outra vez dá outro e assim sucessivamente. Compreende-se, assim, que o Acuña tenha levado meia dúzia de mocadas e o árbitro acabasse por lhe mostrar o habitual cartão amarelo, não se compreendendo é que tenha sido o mesmo jogador do Famalicão a dar-lhas. 

O Silas despediu-se com dignidade. Não se queixou de nada nem de ninguém. Disse que não conseguiu e ponto final. Aproveitou também a oportunidade para apresentar aos sócios e adeptos o novo treinador do Sporting. Em qualquer clube, costuma ser o Presidente a fazê-lo. Também neste contexto a nossa gestão revelou que está muito à frente: em Harvard é assim que se está a ensinar há um par de anos. Sim, no Sporting lê-se todos os dias a “Harvard Business Review”, somos chiques, não nos damos com os das roulottes e das bifanas.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

As crianças não choram

Um verdadeiro sportinguista, um sportinguista que se preze, sofreu a bom sofrer trágicas eliminatórias europeias. Mas as tragédias não são todas iguais, umas são mais iguais do que outras. Por exemplo, as tragédias contra o Barcelona, em 1986, ou o Real Madrid, em 1994, não são da mesma natureza das tragédias contra o Rapid de Viena, em 1995, ou o Basaksehir, ontem. Nas primeiras, à enorme desilusão associa-se o reconhecimento de bom desempenho dos jogadores e da equipa; nas segundas, nem sequer desilusão existe, existindo, isso sim, raiva, muita raiva a nascer-nos nos dentes.

Esta eliminatória, contra o Basaksehir, constitui um manual da arte de cavalgar a toda a sela do Portugal dos pequeninos, do cada um que se desenrasque, da incompetência e falta de planeamento. Depois de estarmos a ganhar por três a zero na primeira mão, resolvemos dar a bola ao adversário, recuar e meter o Doumbia, para jogarmos na retranca, tática portuguesa que consiste em colocar os mais altos e fortes em posições razoavelmente indefinidas no meio campo e na defesa, esperando que atrapalhem os adversários. Podia-se ter aprendido alguma coisa, mas, para se errar melhor, é preciso errar sempre. 

Ontem, a equipa do Sporting iniciou o jogo recheada de táticas, muitas táticas. As táticas foram tantas que ainda agora não se sabe se o Sporar jogou a ponta-de-lança e qual a posição do Bolasie no campo. Plano, estratégia de jogo é que não existia ou, então, tratou-se do habitual deixa andar, deixa o tempo correr na expetativa de que o adversário esteja disposto a fazer o mesmo. Sem objetivos, sem saberem se e quando era para atacar ou defender, os jogadores não sabiam muito bem o que fazer, não conseguindo trocar a bola entre si e sucedendo-se ressaltos, passes mal feitos e constantes perdas de bola. Como diria o O'Neill, o Sporting era uma coisa em forma de assim. 

Ao intervalo, o plano do deixa andar tinha cumprido o seu (habitual) destino. Esperavam-se mudanças, de jogadores, de atitude, de vontade, de táticas, de qualquer coisa, mas nada, voltando a paz dos cemitérios na segunda parte. Não dei o tempo por perdido, tendo continuado a ajudar o neto do dono do café onde vi o jogo a fazer os trabalhos de casa, tarefa a que me tinha dedicado após o segundo golo sofrido. Quase um quarto de hora depois, o Silas viu a luz e fez o óbvio ululante, tirando o Bolasie para meter o Plata, e o jogo mudou. Os jogadores passaram a dispor de um plano, marcar ao adversário. O Vietto levou tão a sério esse plano que marcou de cabeça, o que não deixa de ser uma contradição nos termos: Vietto, cabeçada e golo numa só frase não costuma fazer grande sentido, mesmo que se acrescente Acuña e centro. 

Por cima na eliminatória e emocionalmente, o Silas voltou a ser o Silas e voltou a mais um tática, à tática do vamos aguentar, que tão bons resultados tinha proporcionado na primeira mão, tirando o Jovane Cabral para meter o Doumbia. A partir desse momento, instalou-se o caos, ninguém mais sabia bem qual era a sua posição - no lado esquerdo passaram tantos jogadores que nem cheguei a perceber quem era suposto ocupar aquela posição -, se atacava, se defendia. Para arriscar e marcar o terceiro golo, não foi preciso a equipa do Basaksehir partir o jogo: o Sporting encarregou-se de o fazer. Antes do canto que origina esse golo, em contra-ataque – sim, perceberam bem, em contra-ataque -, os adversários ficaram em igualdade numérica com a nossa defesa e valeu São Coates. 

Antes do canto ainda, o Silas inventa mais uma tática, a tática do vamos meter mais um para a molhada, tirando o Wendell e entrando o Eduardo. Ainda há um primeiro cabeceamento a aliviar, mas a equipa não avança para pressionar a circulação da bola e obrigar a recuar os adversários e ela vai para o lado esquerdo do ataque, onde tinha ficado em desvantagem o Ristovski, para um adversário rematar pelo meio de duas dezenas de jogadores que se amontoavam na pequena área e suas imediações e à frente do Max. 

Depois deste soco no estômago, com vários jogadores estafados e três tristes trincos em campo, o prolongamento servia para selar o destino. Não se pode dizer que se tenha jogado pior do que o adversário durante esse período, mas a tremedeira, o nervoso miudinho perante qualquer ataque adversário constituía o seu prenúncio e, a um minuto do fim, mau alívio, Vietto no sítio errado, à hora errada, “penalty” e fim da crónica de uma derrota anunciada. 

Este jogo tinha contornos diplomáticos complexos no contexto da atual geoestratégia internacional. Pretender ganhar a eliminatória com o Ilori, o Bolasie ou Eduardo parecia exagerado e, sobretudo, desrespeitoso para com o adversário e, em particular, o Erdogan, seu adepto mais destacado. Mas talvez o que melhor explique este resultado seja esta anedota bem conhecida: “O pai leva a filha ao seu trabalho. Chegada, desata a chorar, perante a estupefação do pai e dos seus colegas. Filha, o que tens?!, pergunta-lhe o pai. Pai, onde é que estão os palhaços que dizias que trabalhavam contigo?”. No Sporting, pelo menos as crianças não têm razão para chorar.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Plata muda tudo de tal forma que até Ilori e Rosier passam a acreditar neles mesmos

No jogo de ontem, contra o Boavista, o Silas, não inventando taticamente, não resistiu à tentação de voltar a inventar. Encontrado o Santo Graal do 4x4x2 ou do 4x2x3x1, conforme a equipa defende ou ataca, respetivamente, o sistema tático não mudou. A defender os laterais encontram-se mais protegidos e a atacar os extremos dão outra verticalidade ao jogo. Infelizmente, voltámos aos princípios e ideias de jogo do Silas, segundo a novilíngua do futebolês nacional e internacional que ele pratica com afinco, continuando a saída lenta de bola pelos centrais e jogadores de meio-campo. Os jogadores do Boavista não pressionavam a nossa saída da bola, amontoando-se atrás à espera que os nossos chegassem e os nossos lentamente e aos trancos e barrancos sempre acabavam por chegar. Algures a meio da primeira parte, a insistência nestas ideias e princípios e as consequentes esperas fizeram-me passar pelas brasas. 

Rolasse a bola pelo lado direito ou pelo lado esquerdo, via-se sempre o Plata com o braço esticado a pedi-la: queria ter a bola porque, como se viu, sabia o que lhe fazer. O que impressionou não foram tanto os dribles, os passes ou os remates, mas a escolha dos momentos certos para fazer um ou outra coisa. O primeiro golo nasce de um livre resultante de falta sobre ele e com ele a meter a bola no sítio certo para Sporar encostar. O segundo segue-se a um passe do Jovane Cabral para a desmarcação do Borja, que avança com a bola e a centra para o primeiro poste onde aparece o Sporar a disputá-la com dois defesas, sobrando para a entrada da área e para o pé do Plata que, com a tranquilidade dos veteranos, faz um passe para a baliza, sem hipóteses de defesa do guarda-redes. Ainda fez mais um golo, anulado, depois de partir a defesa toda e passar a bola ao Vietto que, em vez de a rematar como deve ser, a resolveu passar a um defesa para este a devolver ao Plata e o Plata a empurrar para a baliza. 

A segunda parte resume-se a um escândalo. O Plata voltou a fazer das suas pelo lado esquerdo, passando um defesa do Boavista como se fosse um pino até sofrer uma entrada violenta do Ricardo Costa, talvez o maior caceteiro do campeonato nacional desde há umas épocas. O árbitro começou por fingir que não viu nada e, mesmo depois de o lance ter sido assinalado pelo VAR, continuou a fingir que nada se passou. Por magia ou talvez não, um “penalty” e um vermelho foram reciclados num pontapé de canto. Este árbitro foi exatamente o mesmo que expulsou o Bolasie no jogo contra o Sporting de Braga na meia-final da Taça da Liga num lance que, comparado com este, se pode considerar falta ofensiva. Em circunstâncias como esta não parece adequado o recurso ao VAR, devendo-se, isso sim, recorrer de imediato ao Ministério Público e à PSP ou à GNR. 

No final do jogo, o Silas disse que não disse o que disseram que disse, dizendo que não disse que o Bruno Fernandes andava distraído e que essa falta de atenção explicava os mais recentes resultados. Há uma parte de verdade neste disse-que-disse ou, melhor dizendo, disse-que-não disse: o facto de o Bruno Fernandes não estar com a cabeça no jogo contra o Rio Ave prejudicou a equipa do Sporting, como se viu. Não sei se o facto, também evidente, de não estar não só com a cabeça mas também com o tronco e os membros o poderá desculpar. Há uma outra verdade no que disse ou não disse o Silas, pouco importa. Sem o Bruno Fernandes, sem o principal elemento de emulação da equipa, os restantes jogadores passaram a comparar-se aos adversários e, inteligente ou estupidamente, conforme os casos, começaram a verificar que não são piores e a acreditar neles mesmos.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

É desta que acaba o futebol para totós?

Num prazo de seis dias, a equipa do Sporting faz a pior e a melhor exibição da época. Várias explicações são possíveis. A primeira que nos vem à cabeça é que a equipa turca do Basaksehir só pode ser má, muito má ou péssima; também é possível que o Silas tenha feito de sábado para quinta-feira um Curso de Educação e Formação (CEF) ou um Curso de Especialização Tecnológica (CET) com equivalência a treinador de nível IV; ou que esta equivalência tenha sido obtida através de um processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) após dezena e meia de jogos como treinador do Sporting. Mas a explicação, a verdadeira explicação é outra. Não quero parecer imodesto, mas tenho como certo que o Silas leu e refletiu sobre o que vinha escrevendo. 

Deixámos de assistir à habitual saída de bola para o ataque, envolvendo o ensarilhamento de meia dúzia de jogadores que vão evoluindo da ansiedade ao desespero até perderem a bola e deixarem a defesa exposta. As reposições de bola pelo guarda-redes passaram a ser feitas através de pontapé para a frente. Os centrais deixaram de passar bolas sem fim entre si e com os médios, saindo-se para o ataque pelos laterais e com passes verticais para os extremos ou para o Sporar, quando descaia para esse lado para proporcionar essa linha de passe. De repente, em dois, três passes rápidos, a equipa do Sporting encontrava-se a jogar no meio-campo do adversário. Não é Guardiola quem quer, não é Iniesta nem Xavi quem quer também e houve uma só equipa como essa do Barcelona, a do Barcelona e nesse concreto tempo histórico. 

Os jogadores afinal não eram os piores do mundo, o sistema tático é que não era o mais adequado ou confortável para eles jogarem. Ainda houve duas inovações táticas, porque o Silas não resiste e desta vez não se saiu mal. A equipa passou a jogar num 4x4x2 ou num 4x2x3x1, conforme se defendia ou atacava, com o Vietto no meio, em apoio ao Sporar, e o Jovane Cabral e o Bolasie nas laterais. O Vietto passou a dispor de um raio de ação maior e o Jovane Cabral e o Bolasie foram especialmente contundentes no ataque. O Sporar passou a estar mais apoiado e, com mais bola, revelou que sabe desmarcar-se para proporcionar linhas de passe, sabe recuar para apoio à progressão dos médios, sabe decidir o melhor momento de chegada à área e, finalmente, sabe fazer golos. Mas a principal alteração tática, aquela que baralhou completamente os turcos, foi ver-se o treinador-adjunto (Silas) de pé junto à linha lateral e o treinador principal (Ferro) sentado no banco. 

Ajudou, ajudou muito começar a ganhar, para tranquilizar a equipa, mas a primeira parte foi um festival de oportunidades perdidas. O árbitro anulou-nos (bem) um golo por fora-de-jogo e aparentemente não viu uma calcadela no Battaglia que devia ter originado “penalty”. O VAR não assinalou nada também e fica-se na dúvida se existe uma orientação da UEFA qualquer, como algumas que nos vão explicando os nossos ex-árbitros e atuais comentadores de arbitragem, que impede a marcação deste tipo de “penalty” a não ser que a falta envolva serrar o tornozelo com uma motosserra. O segundo golo foi de manual, com a bola a sair do lado direito do ataque para o meio, onde o Bolasie desmarca o Ristovski do lado esquerdo para este centrar de primeira e o Sporar encostar. Fomos para o intervalo a ganhar por dois a zero, mas se tivéssemos marcado mais dois teria sido mais adequado ao que uma e outra equipa jogaram e às oportunidades criadas. 

Voltámos bem na segunda parte e rapidamente chegámos ao terceiro golo, com o Vietto a marcar. Em seguida, o Jovane Cabral isolou-se, chegou primeiro do que o guarda-redes à bola, que entretanto se tinha saído, e foi abalroado. “Penalty” clássico, de manual e, mais uma vez, nem o árbitro nem o VAR marcam nada. Ainda se pode compreender a decisão do árbitro devido à rapidez do lance e à distância entre ele e o local da falta, mas a (não) decisão do VAR só se pode dever ao facto de se tratar um bar manhoso, uma taberna das antigas onde ainda se bebe vinho a martelo. 

Por volta dos sessenta minutos arrebentámos, recuámos, a equipa do Basaksehir passou a jogar no nosso meio-campo e o Silas borregou. A primeira substituição, com a entrada do Pedro Mendes, ainda se compreende, admitindo-se que o Sporar tinha estoirado, mas a segunda foi à treinador português, a apostar na retranca para defender o resultado. Não estando de boa saúde, a substituição do Jovane Cabral é explicável. O que não explicável é a entrada do Doumbia para posição incerta, obrigando o Vietto a fechar do lado esquerdo até se compreender que não tinha vida para isso e voltar-se a trocar e a colocar nessa posição o Wendell. O Sporting só voltou a equilibrar o jogo e a colocar os turcos à defesa com a entrada a quatro minutos do fim do Plata, ficando evidente que devia ter entrado mais cedo, em vez do Doumbia; o Doumbia, a entrar, teria de ser sempre para o lugar do Wendell, dado que não se muda de tática certa para outra incerta ou razoavelmente indefinida, existindo as mais sérias reservas de que alguma vez tenha sido sequer treinada. 

Para se ter um jogo à Sporting, era preciso conclui-lo à Sporting com um golo sofrido à Sporting: bola ao segundo poste, o Ristovski a perder o duelo de cabeça, o Coates a olhar para ontem, o Neto a compensar e a encostar ao avançado que aproveita a oportunidade para enfiar um mortal encarpado e o árbitro a marcar “penalty”. Podíamos ter resolvido a eliminatória mas se a resolvêssemos não éramos o Sporting. O pior pode não ser perder o segundo jogo e a eliminatória. O pior pode ser passá-la e viver a angústia de não se saber se o Silas volta a ler este blogue ou outro material didático equivalente, mandando o José Pedro, o verdadeiro treinador-adjunto, atirar para o lixo os fascículos de uma coleção sobre futebol para totós  editada pela Planeta DeAgostini que lhe andou a comprar.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Um otimista e um psiquiatra falando sobre poços e lâmpadas

O Silas constitui um personagem singular e essa singularidade interpela-me. Não está em causa a pessoa, nem sequer o treinador, está em causa o personagem e a sua representação. A sua impassibilidade é digna de um indiano. Por exemplo, na conferência de imprensa depois do jogo contra o Rio Ave, constata que se tratou de pior exibição da época e fica-se pela constatação, mantendo a serenidade e a candura de quem acaba de descobrir o movimento de translação da Terra e sobre ele nada pudesse fazer. Anda completamente aos papéis, mas mantém a mesma serenidade de discurso, ficando a dúvida se não tem consciência ou se disfarça melhor do que ninguém. 

O discurso que mais tem repetido é o da necessidade de olhar para cima por contraponto a olhar para baixo. Quando se está em quarto persegue-se o terceiro e quando se está em terceiro persegue-se o segundo, não interessando as posições relativas nem as distâncias absolutas, como se fosse idêntico estar em terceiro ou em quarto ou estar a dez ou vinte pontos de distância do primeiro. O Woody Allen considera que enquanto um pessimista afirma que se atingiu o fundo do poço, o otimista tem esperança que a queda ainda vá a meio. Não se percebe se o Silas é um otimista ou um pessimista. Ao olhar sistematicamente para cima, parece que está convencido que se encontra no fundo do poço e só se pode subir, sendo um pessimista. A não consideração das posições e distâncias, fá-lo parecer um otimista pois espera continuar a cair nem que seja para talvez um dia, quem sabe, voltar a subir. 

É necessário mudar, embora, neste caso, mudar seja deixar de mudar (de tática e de posição dos jogadores). Mas para mudar é preciso consciência dessa necessidade e vontade. Um só psiquiatra é capaz de mudar uma lâmpada mas se e só se a lâmpada também estiver disposta a mudar. É que se não muda, muda-se.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Percebido?

Há treinadores com boas ideias. Há treinadores com más ideias. Há treinadores com ideias assim-assim. Há treinadores com as mais variadas proporções de ideias boas, más e assim-assim. Há ainda treinadores que não têm ideia nenhuma. Há uma enorme variedade de treinadores, para todos os gostos e feitios, e há o Silas, que não faz a mínima ideia. 

As (supostas) táticas vão variando em função de um objetivo que está sempre presente: sair a jogar pela zona central, embora sem se ter grande consciência do que fazer à bola em seguida. Este objetivo, esta obsessão, melhor dizendo, parece treinada sem consideração pelos adversários e a sua reação. Nos treinos pode-se recorrer aos pinos, mas, nos jogos, os pinos mexem-se, reagem, jogam também. A saída para o ataque começa invariavelmente num central que devagar, devagarinho passa a bola a outro, enquanto a pressão dos adversários sobre o jogador com bola e as supostas linhas de passe aumentam. Os laterais vão subindo e ao mesmo tempo, conforme a pressão aumenta, os médios baixam em apoio, trazendo consigo os médios adversários que procedem à respetiva marcação. O número de jogadores de uma e outra equipa no primeiro terço do terreno vai aumentando e, consequentemente, o espaço de circulação da bola com segurança vai diminuindo. Enquanto se vão atulhando jogadores na grande área e na sua proximidade, os avançados vão ficando mais distantes. O risco de perda de bola e de o adversário ficar numa situação privilegiada para marcar aumentam, aumentando a ansiedade dos jogadores até chegarem ao ponto de se quererem ver livres da bola e com poucas probabilidades de a colocarem nos avançados.

Jogo após jogo, com três centrais, com dois centrais e um médio a recuar para terceiro central, com dois centrais e um trinco, com dois centrais e um duplo pivô, a história repete-se. É provável que o Silas tenha visto jogos das equipa treinadas pelo Guardiola e gostasse que as suas jogassem da mesma forma. Mas não é Guardiola quem quer; e também não se pode ter uma equipa a jogar como as do Guardiola com os atuais jogadores do Sporting. Com eles, com o Borja, o Doumbia, o Ristovski, o Bolasie, por exemplo, mesmo o Guardiola não seria o Guardiola e a equipa não jogaria como jogam as equipas do Guardiola. Talvez não fosse má ideia começar a tentar sair a jogar de forma mais simples, pelas laterais, fazendo o que fazem todas as equipas, atraindo os adversários a um dos lados para com troca de bola rápida sair pelo lado contrário. No limite, no limite, sempre se pode sair com pontapés para a frente do guarda-redes, dando alguma utilidade ao Bolasie, por exemplo. Tudo é preferível ao mesmo (mau) filme visto e revisto todas as semanas. 

Contra o Rio Ave aconteceu tudo isto com a diferença em relação a outros adversários de os seus jogadores saberem trocar a bola entre si, não a perdendo por qualquer razão ou razão nenhuma como os do Sporting. Sem o Acuña, o Mathieu e o Vietto, porventura o Sporting terá jogado com uma das piores equipas das últimas décadas. Tentei encontrar uma equipa que se equiparasse. Procurei, procurei e não encontrei propriamente uma, embora tenha encontrado referências nos anos oitenta a algumas com o Vital a guarda-redes, o Duílio a central, o Valtinho a médio, o Lima a extremo ou o Peter Houtman a ponta-de-lança. Aconteceu também o costume: a expulsão de um jogador do Sporting, neste caso do Coates. Depois das duas faltas que vi e de no jornal “A Bola” ter lido o habitual comentador de arbitragem e ex-árbitro explicar que “Rúben Dias reagiu com frustração excessiva, correndo o risco de ver cartão vermelho direto”, num lance em que agride à descarada um adversário, porventura os dois amarelos ao Coates devem-se a um nível de frustração bastante insuficiente. 

Este jogo contra o Rio Ave não tem muito mais que se lhe diga e, para concluir, volto ao princípio e ao Silas e sua singularidade, recorrendo ao livro “O Que Fazer dos Estúpidos?”, de Maxime Rovere, filósofo e professor na Universidade do Rio de Janeiro, que li este fim-de-semana, para devido enquadramento da análise. Não fazer ideia é não dispor de consciência de si, confundindo a representação de si consigo mesmo. É pior do que não existir, é a ausência de consciência da sua não existência, é um jogo de espelhos em que o ser se toma pela sua projeção, pela sua imagem, como se fossem o mesmo ou uma só coisa. Nos outros, as ideias precedem o ser, o ser treinador. No Silas, as (supostas) ideias antecedem o ser, mas, sem ser, as ideias também não o podem ser, porque pressupõem a prévia existência do ser para serem (ideias) dele. Em síntese, o Silas precisava de ser treinador para que avaliássemos as suas ideias enquanto tal. 

Esta inconsciência de si mesmo não o afeta exclusivamente. Afeta-nos a todos que confundimos também a sua projeção com a sua (não) existência enquanto treinador. Esse erro de perspetiva, o de se confundir o sujeito com a sua imagem, leva-nos ao exercício de procurar explicar-lhe como deve fazer, como o que aqui desenvolvi. É energia perdida, pois uma imagem não muda, de nada valendo os sermões. É uma estupidez (o ato), não devendo ser confundido neste caso com um estúpido (o sujeito). Percebido? Se não, então está como eu relativamente ao Silas, o que não faz de mim mais inteligente do que ele.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

A vitória está reservada para aqueles que estão dispostos a pagar o preço


Jorge Jesus, por exemplo, tinha uma ideia. Silas parece ter várias, mas não tem nenhuma. Cheguei a confrontar, mentalmente, claro, a ideia de JJ, mas percebia-se que esta tinha ramificações, sempre a partir do tronco principal. Silas parece ter ideias para dar e vender, mais ou menos como o adepto comum as tem. A única diferença é que o adepto comum é inimputável pelas suas (quase) ideias futebolísticas, ideias essas que oscilam entre a tasca e o especialista em canalização convidado para os programas televisivos. O adepto comum, assim como o comentador televisivo, tem ideias sobre tudo, fazendo uma vaga ideia de quase nada.

Escreveu um dia Sun Tzu que “há momentos em que a sabedoria é parecer não saber nada”. Isso Silas tem, apenas lhe faltando a sabedoria para o saber. E para o utilizar. O plantel é globalmente fraco e desequilibrado, mas com tantas roupagens Silas descose-o e volta a cosê-lo até ele se tornar uma manta de retalhos a oscilar ao vento. Foi assim que ontem entrou em campo e por lá continuou, pelo menos durante o tempo em que estive com atenção ao jogo. A sensação com que ficamos é que aquela equipa nunca jogou em conjunto e ainda por cima não gosta nem sabe jogar junta. Sem o capitão e voz de comando, com jogadores medianos e outros a caminho de pernetas, chega a ser penoso ver o arrastamento banal da manta.

Empatámos. Para Silas foi o pior jogo desde que chegou. A isso chama-se evolução. Não há razões para preocupação.