terça-feira, 27 de outubro de 2020

Para não esquecer

Há coisas que é importante dizê-las antes que passe a oportunidade e não se aproveite para aprender alguma coisa. No Sporting, Jorge Jesus foi a pior contratação de sempre. Não nos lembrávamos mas ele, ontem, recordou-nos. Numa conferência de imprensa, como treinador principal da equipa de futebol, decidiu participar na campanha eleitoral para os órgãos sociais do Benfica. Fê-lo com o apoiante mais fanático da atual direção, de forma desembestada e destratando um adepto e sócio do Benfica. Destratou-o não só como adepto e sócio mas também na qualidade de jogador e profissional de futebol, como se essa qualidade estivesse em causa (o Bernardo Silva foi, repito, foi jogador do Benfica e não, não foi jogador deste ou de qualquer outro presidente do Benfica). 

Não sei se o Bernardo Silva tem ou não razão, nem me interessa. Não é essa razão que defendo. O que defendo é o seu direito a exprimi-la com liberdade sem ameaças e revelações de um qualquer funcionário de uma instituição associativa com estatuto de utilidade pública da qual ele é adepto ou sócio. Estas coisas precisam de ser bem explicadas para ver se se percebe. Admitamos que um cidadão, um deputado, um político da oposição faz uma crítica política ao atual ou de outro qualquer governo. Acharíamos normal que um Diretor-geral do Estado português nas instalações do seu serviço e do Estado português fizesse uma intervenção naquele tom e com aquele conteúdo em resposta a essa crítica? Como as coisas vão, um dia também acharemos normal que as democracias e o estado de direito democrático funcionem assim, sobretudo quando se tem uma imprensa que não cumpre a sua função e também acha tudo normal. 

A revelação de conversas diz-nos mais de quem as revela do que das conversas propriamente ditas. A calhandrice esconde sempre o contexto da conversa e esse contexto é fundamental para se compreender plenamente o que foi dito. Naquela altura, Jorge Jesus era o treinador principal da equipa do Benfica e Bernardo Silva um ex-júnior recém-chegado à equipa sénior. A assimetria de poder, pela idade e pela hierarquia, permite-nos perceber a inverosimilhança se não da conversa pelo menos do seu tom. A conversa decorreu naquele tom? Num género “quero ser titular ou vou-me embora ganhar mais dinheiro”? A conversa também revela bem as legítimas opções do Jorge Jesus. Entre o Sálvio daquele presente e o Bernardo Silva do futuro naquele momento e do atual presente, um dos melhores jogadores do mundo, preferiu o Sálvio. Estamos conversados quanto ao perfil de treinador e à sua capacidade para trabalhar com a formação dos clubes por onde passa. 

No Sporting, não foi diferente. Considerou-se sempre maior do que o clube que devia servir e era pago e bem pago para servir, como se nos estivesse a fazer um favor; e sim, também participou na campanha eleitoral. Para aqueles que criticam a atual equipa e o Rúben Amorim, relembro a equipa titular da malfadada última época: Rui Patrício, Piccini, Mathieu, Coates, Fábio Coentrão, William Carvalho, Battaglia, Bruno Fernandes, Gelson Martins, Acuña e Bas Dost; todos internacionais pelas seleções dos seus países. Uma equipa que se arrastou durante uma época, sem honra nem glória, jogando um futebol empastelado, sofrível, que desabou com estrondo no famoso jogo contra o Marítimo da última jornada, levando quase à refundação do nosso clube. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Um campo de cânhamo cercado por dois irredutíveis gauleses

Há dias vi (e ouvi) uma reportagem sobre o cânhamo, nas suas diferentes variedades e utilizações, com mais ou menos canabidiol (CBD) ou tetra-hidrocanabinol (THC). Desde a cosmética à farmacêutica ou ao têxtil, há um conjunto de indústrias que cada vez mais recorre ao cânhamo. A relação do cânhamo com o jogo de sábado contra o Santa Clara não é evidente para os menos atentos ou distraídos. Também não a compreendi de imediato. Havia um campo com ervas, muitas ervas. Podiam ser alfaces, beterrabas ou até couves-galegas ou tronchudas. O disparate do Coates, a meias com o Adán, levantou suspeitas. As alfaces, as beterrabas ou as couves não produzem aquele efeito. Quando o guarda-redes do Santa Clara saiu desembestado e se enfaixou contra o defesa central, permitindo o segundo golo do Pedro Gonçalves, a relação encontrava-se definitivamente estabelecida. 

Jogar num campo de cânhamo não parece nada fácil, sobretudo quando não está devidamente licenciado, tal o nível de THC que, aparentemente, libertava. Não sei o que é que o Rúben Amorim sabe de cânhamo e das suas aplicações, mas pareceu bem informado. Contrariando os táticos, os que falam sobre táticas e saídas de bola e assim, colocou a dupla Palhinha-Matheus Nunes no meio-campo. Foi um regalo vê-los a jogar, principalmente na primeira parte. Sitiaram os de Santa Clara e não havia forma de saírem da ilha onde eles os meteram. Nunca dois pareceram tantos, fazendo lembrar a dupla Astérix-Obélix ou Vidigal-Duscher. O Pedro Gonçalves marcou o primeiro golo e esperava-se outro a qualquer momento quando o Coates e o Adán foram envolvidos por uma nuvem de THC. A nuvem era de tal dimensão que eu mesmo fiquei tonto. 

Na segunda parte, depois de lavrado o campo de cânhamo, as coisas começaram a complicar-se. A bola ganhava vida própria e não havia quem a segurasse. Entrou o João Mário e a bola, por respeito, deixou de andar aos trambolhões como se fosse um paralelepípedo. Houve oportunidade para ver o Sporar aliviar uma bola a meio metro da baliza e a ficar transparente quando uma outra bola passou por ele sem nele embater sequer. Tudo acabou bem quando o Mathieu encarnou no Feddal e uma biqueirada para a frente levantou outra nuvem de THC, permitindo o segundo golo do Pedro Gonçalves. 

Não há muito a acrescentar. A equipa está bem e recomenda-se. O lado direito da defesa deixa-nos sempre em sobressalto. Percebe-se a importância do Neto na equipa, pela sua liderança e capacidade de mobilização de muitos jogadores jovens. Não resisto ao trocadilho: não se percebe é a razão de se chamar Neto a quem joga com colegas que têm idade para ser seus netos. Não digo que se deixe de o chamar pelo nome próprio, mas pelo menos avó Neto seria mais carinhoso e adequado. Quanto ao árbitro e aos comentadores da SporTv, nada de novo. As faltas sobre os nossos jogadores têm sempre direito a qualificativo ou explicação. A falta nunca é falta e tão-só. É falta mas sem intensão ou intenção, conforme os casos. Para nós, a regra passou a ser a seguinte: é falta mas não para livre ou “penalty”, é uma coisa em forma de assim. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

E assim acontece

De fininho, como quem não quer a coisa, lá vai à sua vida a última das grandes contratações da dupla Frederico/Viana. Não sei se Vietto deixará grandes saudades ou grandes recordações. É mais um que sai, menos um avançado disponível, embora tristonho, que fica. Está tudo planeado.

Mais interessantes são os contornos metafísicos desta venda. Parece que o Sporting recebe 8 milhões de Euros por 75% do passe, embora apenas detenha 50% do dito pelo qual pagou cerca de 7 milhões. Confesso que estas engenharias financeiras, que envolvem terceiros, neste caso o Atlético de Madrid, me fascinam. É tudo tão claro que não necessitará de qualquer explicação. Sempre se poupa em salários. E assim acontece…

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Divide et impera

O Presidente do Porto teceu algumas considerações sobre Frederico Varandas e o Sporting. Dividir para reinar, seria o objetivo, dissimulando, obviamente, a sua preocupação pelo facto de o Sporting se poder assumir como candidato, e limpando para debaixo do tapete a arbitragem do jogo, incluindo os bastidores que o corroem. Estes senhores não andam a ler livros, reescrevem-nos a seu belo prazer. Em tempo de Covid, chega a ser grotesca esta luta pérfida pelo poder. Presumo que, após o jogo com o Manchester City, a sua percepção da arbitragem (assim como a do ordeiro Conceição) tenha sofrido uma nova manifestação de sabores, algo muito próximo da azia.

Varandas, pois claro, tirou o curso de pôr-se a jeito. Sob o lema de “unir o Sporting” dividiu internamente para tentar reinar. Os factos são conhecidos, as roupagens mediáticas também. Os impérios, mesmo os de fancaria, acabam sempre por seguir o curso habitual: a queda. Mas a história não é para aqui chamada. Temos outras preocupações em mente.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

License to kill

A descoberta da pólvora por parte dos dirigentes do Sporting é de louvar. Num tempo de mísseis balísticos de longo alcance, drones teleguiados, possíveis viagens de cruzeiro a Marte, ou apenas o envio de alguns emails, Frederico Varandas reivindica uma patente que muito nos orgulharia, não fosse o seu anacronismo, ou o facto insólito e surpreendente, de muitos o andarem a reclamar há vários anos: o Sporting é um peso pluma do futebol português, uma lateralidade permitida desde que não se intrometa onde não é chamada. O paternalismo de uns, a condescendência de outros, a bonomia dos próprios, é tristemente plasmada nos resultados. 

O jogo deste fim-de-semana foi apenas mais um exemplo da nossa irrelevância. A essa dita irrelevância no contexto do mundo minado da bola em Portugal, será preciso acrescentar algumas notas importantes. Por acaso, até tivemos oportunidades suficientes para obtermos outro resultado, sofremos golos dignos de uma comédia musical (daquelas que apenas se veem de ressaca ao domingo à tarde) e, vivemos, mais uma vez, de ideias (o plural é da minha responsabilidade), sem que se vislumbre o substancial, para além do abstrato. E para isso faltam, pelo menos, mais um central a sério e um avançado móvel que se dê bem com o Amorim.

Temos jogadores: Pote (em grande) e Porro, Mendes e Matheus, Santos e Palhinha. Durante o seu longo aquecimento, João Mário acertou mais passes que o Neto durante todo o jogo. O Neto daria um bom speaker de cenários motivacionais com pronúncia do Norte, ou um bom administrativo na área da confiança e da dinâmica de grupo. Ao Sporar ainda lhe faltam (supostamente) algumas leituras sobre o mundo das ideias de Platão. À consideração de Amorim.

O resto são peanuts e muito gelo nas pernas dos jogadores do Sporting. Uma license to kill não se vende na net…pois não?

Cão é que não!

O jogo, de sábado, contra o Porto e os comentários e análises que lhe seguiram foram extraordinários. O extraordinário está fora do ordinário, do normal. Não se pode ver e analisar o que está fora do ordinário, do normal, como se se estivesse a ver o próprio ordinário, o normal. Os conhecimentos de aerodinâmica atuais que nos permitem apreciar o voo de um avião não nos permitirão compreender um ovni quando o virmos, se alguma vez o virmos. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, mesmo que ambas as coisas voem. 

Houve bola, jogadores, treinadores e árbitros e, assim, mentes menos avisadas veem um avião e analisam o seu voo como se de um avião se tratasse. Mas bola, jogadores, treinadores e árbitros também fazem um ovni; e é um ovni que devemos ver e é o seu voo que devemos analisar. O que vimos tem um passado e um contexto conhecido aos quais o sistema de justiça vai chamando nomes (“apitos”, “malas” e por aí adiante). Repeti-los (e repetir-nos) não ajuda à compreensão porque, começando por nos parecer esdrúxulos, logo já nos habituamos a eles até passarem a ser normais, nada extraordinários, portanto. 

Para se compreender o jogo de sábado e o nosso campeonato, o extraordinário, em síntese, temos que recorrer à guerra fria e à Cortina de Ferro. Nesse tempo, na Europa Oriental, os países tinham clubes do regime. Uns tinham sido criados pelo exército, outros pela polícia e outros ainda pelos serviços secretos. Os exemplos são vários. Retenho um dos mais extraordinários (lá está, fora do ordinário, do normal): o Steaua de Bucareste. A história encontra-se disponível no ciberespaço e não a vou repetir. Retenho um dos fragmentos: entre 1986 e 1989, permaneceu invicto durante 104 jogos consecutivos disputados no campeonato, série que se concluiu abruptamente após a execução do ditador Nicolae Ceausescu mas que, ainda hoje, constitui recorde europeu. 

O Zaidu devia ter sido expulso pela entrada sobre o Pedro Porro? O Zaidu devia ter sido expulso pelo “penalty” sobre o Pedro Gonçalves? O árbitro e o vídeo árbitro erraram ao não marcar “penalty”? O Corona fez falta para mais um amarelo? E o Otávio e o Uribe? Se o Rúben Amorim foi expulso, o Sérgio Conceição também o devia ser? O tempo de desconto não foi adequado? Sim, sim, sim, sim, sim, sim e sim? Não! O sim aplica-se ao ordinário, ao normal, não ao extraordinário. 

A claque do Steaua de Bucareste tinha o seguinte cântico: “Tu podes ser um cão ou tu podes ser um adepto do Steaua”. A mensagem é simples, ou és do clube do regime ou és um cão. Seria delicado informarem-nos qual o clube dos militares e qual o clube dos serviços secretos. Que não temos clube, já sabíamos. O que ainda não sabemos é de que clube devemos ser. Cão é que não!

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Coisas da seleção

Nesta semana e meia, à falta de drogas duras tivemos que nos contentar com metadona: sem campeonato, restou-nos a seleção e os jogos amigáveis da Liga das Nações. Por muito maus que sejam, um Feddal ou um Vietto sempre são melhores do que um Félix ou um Rúben Dias. Não, não se refere às qualidades futebolísticas, ou à falta delas, e ao jogo propriamente dito, mas à cor das camisolas e à importância do que se joga. Cada jogo da seleção constitui desafio intelectual. O emaranhado de pernas é de tal forma que nem o Vasco da Gama da bola consegue encontrar o caminho marítimo para onde quer que seja. Os adversários vão insistindo, insistindo até desistirem e se conformarem com o destino. O destino está escrito nas estrelas: o empate sempre que possível ou a vitória por exclusão de partes. 

Retenho alguns momentos, algumas imagens e sons. António Tadeia: “Grande passe, grande classe do João Félix! Ah, afinal era o Bruno Fernandes”. O Fernando Santos a franzir o sobrolho, preocupado, ao ver a equipa em quinze minutos ultrapassar mais vezes o meio-campo do que na final do Campeonato da Europa. Ver o Bruno Fernandes levar um pontapé na cabeça e ficar estendido no chão e o Mbappé a hesitar se enfrentava o Pepe ou não, acabando por decidir atirar a bola fora com grande “fair play”. O Pepe é como o Papa por portas travessas, consegue reconciliar as nações e construir a paz. Por falar em Papa, foi à Divina Providência que o Fernando Santos apelou a subida da defesa da França, impedindo o golo do Pepe. Imagino o Fernando Santos a dizer ao apóstolo Pepe: “Em verdade, em verdade vos digo, não marcarás na baliza do próximo”. O génio do Fernando Santos ao substituir o Cristiano Ronaldo pelo Victor Lindelöf [as melhoras para o Cristiano Ronaldo, que ganhou Covid-19 e o Jorge Mendes a respetiva comissão]. 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Aberto até de madrugada

Passei o dia a ouvir falar do Paulinho. Pensei: lá vai o nosso querido roupeiro. Não devem faltar propostas para este nosso símbolo. Fiquei triste, os símbolos não estão à venda. Mas nunca se sabe.

Tive, algures no tempo, uma chefe que ao dar indicações apontava com a mão numa direcção e olhava para a outra. A escolha, não sendo a chefe estrábica, decorria da nossa forma de perceber as prioridades. Temos uma direcção (e agora arrisco aqui o meu pescoço de atormentador) que aponta para um lado olhando para outro, ao mesmo temo que assobia. Não é fácil. Mas o colaborador (como agora se diz) tem de saber discernir prioridades e executar.

O treinador Amorim tem uma ideia. Que não seja ideiafix é o que esperamos. No Sporting importa ter um plano b e uma saída de emergência, pelo menos. O resto nós aguentamos.

Parece que o mercado continua aberto (ainda mais um pouco). Essa é a ideia fundamental dos mercados. A nós compete-nos perceber a direcção que nos interessa seguir.  

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

É a nossa hora!

Há momentos mágicos. São raros, muito raros. Depois de receção atabalhoada de um defesa do Portimonense, o Nuno Mendes rouba-lhe a bola e passa-o por dentro, passa a bola por um lado e vai buscá-la pelo outro ao defesa seguinte, desequilibra-se, parece que se vai estatelar, recupera e enfia-lhe um toque de calcanhar que deixa o terceiro defesa com um torcicolo e encosta-a para a baliza com o seu pior pé, deixando o guarda-redes de cócoras. Depois de ver isto, se um adepto do Sporting ainda continuar a falar que o Matheus qualquer coisa, o Coates não sei o quê, ou o Vietto não sei que mais, então não sabe o que vê e não merece ver o que viu com a camisola do seu clube. 

O Rúben Amorim disse o que tinha a dizer nas conferências de imprensa, quer depois do jogo com o Lask Linz, quer na que antecedeu este do Portimonense. Imaginem se fosse o Jorge Jesus, o Peseiro ou o Silas? Temos treinador e uma equipa, repito, uma equipa. Percebe-se a mobilização dos jogadores nos momentos que antecedem o jogo, nos festejos dos golos, na forma como apoiam o colega depois de um carrinho desesperado ou de um desarme. A única dúvida é se estamos com a equipa e com eles ou não. Não, não há cá Varandas, nem Vianas ou salvadores da pátria. O Sporting somos nós e mais ninguém. Esta é uma coisa que temos de resolver connosco mesmos. 

O jogo de ontem foi mais um belo exemplo do que nos espera. Marcámos o primeiro, o segundo e preparava-se uma cabazada. Não aconteceu por nenhuma mudança tática. Não aconteceu pelas razões do costume. Passou a valer tudo: cotoveladas, entradas por trás, faltas atrás de faltas, agarrões. Amarelos? Nem vê-los! Do outro lado, qualquer toque, qualquer encosto, falta. Foi assim que o Portimonense equilibrou o jogo e o seu treinador ainda tem a distinta lata de falar em perdas de tempo. Vamos deixar que batam impunemente nos nossos, no Nuno Mendes, no Tiago Tomás, no Matheus Nunes, no Pedro Gonçalves, no Porro, no Nuno Santos, no Vietto? A resposta é nossa e vamo-nos deixar de tretas: somos do Sporting ou não somos, apoiamos e protegemos os nossos ou preferimos o cinismo nas redes sociais.

sábado, 3 de outubro de 2020

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Sem rir

Não sei como é que hei de escrever isto sem me rir. Mal comecei e quase não resisti quando percebi que, com o novo acordo ortográfico, deixam-se de ligar-se com hífen as formas verbais monossilábicas do presente do indicativo do verbo “haver” à preposição “de”. 

O jogo de ontem faz parte da nossa galeria de jogos contra equipas austríacas. Temos o quadro do Casino Salzburg. Um belíssimo três a zero. Na altura, o Costinha sujeitou-se a diversos exames oftalmológicos, suspeitando-se que fosse vesgo, mas acabou-se por culpar o Bobby Robson. Temos o quadro do Rapid de Viena. Um belíssimo quatro a zero. Na altura, culpou-se o Dani porque se queria vir embora mais cedo por coisas de discotecas, miúdas e assim, porque o Carlos Queiroz nunca teve culpa de nada. Ontem, colocámos o quadro do Lask Linz. Um não menos belo quatro a um. A diferença, a única diferença é que ainda não sabemos de quem foi a culpa para colocar como autor. 

Este fim-de-semana, o meu sobrinho contou-me uma história extraordinária. No primeiro dia de escola, uma faneca senta-se na carteira ao lado de um robalo. Conversa puxa conversa, até que a faneca pergunta ao robalo: “O que é que faz o teu pai?”. “Nada”, responde o robalo. Parece que esta história não tem qualquer relação com o jogo de ontem, mas tem, acreditem que tem. É que me imagino numa carteira com o Varandas e a perguntar-lhe: “O que é que me tens a dizer sobre o jogo de ontem?” Sim, imaginam a resposta, fácil, fácil. 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Ácido desoxirribonucleico

 Não gostei. Quero dizer, gostei à maneira do Rui. Ainda assim, na corda bamba entre o Leonardo Jardim e o Paulo Bento, espero sinceramente que o Rúben Amorim tenha o ADN (é assim que se diz agora não é?) do Leonardo. O que em Leonardo é (e era no Sporting) rasgo e visão centrípeta, onde gravita todo o resto, no Paulo Bento era (e deve continuar a ser) a conexão do medo com o recurso ao divino, passando pelos golos do levezinho. Embora o divino pouco ou nada possa com as arbitragens e assim se foi um campeonato perdido num golo com a mão. Posto isto, temos (ainda) alguns sonhos.

Um deles é que o Sr. Varandas vá à sua vida. Sem ressentimentos. Temo que o ADN Varandas seja mais Soares Franco e, por osmose, Paulo bento e, por osmose bem portuguesa, aquela coisa do mal o menos. As manobras de marketing/propaganda vertidas em catadupa nas últimas duas semanas, com homenagens ad hoc a figuraras do Sporting, imortalizadas como nomes de campos e por aí fora, deixaram-nos enternecidos, principalmente aquela do Futre, um tipo que saiu do Sporting alegando problemas psicológicos, algo de que ainda parece padecer. As manobras tinham o objectivo mais ou menos oculto de todas as manobras, isto é, conduzir os olhares, desviando-os do ponto principal: a assembleia geral do dia 26 de Setembro. O recurso a Tabata no último dia revelou-se infrutífero. Os resultados estão à vista. O ADN do Sporting também.

domingo, 27 de setembro de 2020

Gostei

Esta época, vi pela primeira vez um jogo do Sporting como deve ser visto, com atenção. Gostei do que vi, mas gostar é mais não gostar do que gostar. Não sei se me consigo fazer explicar. Como qualquer sportinguista, há um dos cinco violinos em mim que espera sempre nota artística. Esse violino é o contrário do grilo falante. É o que nos engana, o que nos faz acreditar no Bobby Robson ou no Mirko Jozić. O verdadeiro grito falante, aquele que nos diz o que nem sempre queremos ouvir e nos dá bons conselhos, é o Paulo Bento ou, nos seus melhores dias, o Leonardo Jardim. Diz-nos coisas simples: não sofrer golos dê por onde der; treinar, treinar muito as bolas paradas e apostar em centrais altos; na dúvida, a saída de bola deve ser fazê-la sair seja para onde for, incluindo do campo ou do estádio. Estes conselhos foram seguidos à risca através de princípios de jogo cumpridos ao milímetro 

Primeiro princípio de jogo cumprido: anular o adversário seja como for até o levar à desesperança, à desistência, à rendição pura e simples. O Paços de Ferreira não teve uma oportunidade de golo para amostra e nem sequer acertou na nossa baliza. A meio da segunda parte os únicos que ainda acreditavam no Paço de Ferreira eram os comentadores da SportTV [até tu, Tonel?]. 

Segundo princípio de jogo cumprido: os jogos no futebol português não se ganham como na “playstation”. Viu-se trabalho tático nas bolas paradas, como agora se costuma dizer. Um dos cantos acabou em “penalty” e no primeiro golo; outro concluiu-se com o segundo, após jogada entre os nossos dois centrais calmeirões, Coates e Feddal, que não desistiram enquanto não conseguiram o “touchdown” [gosto da cara deste rapaz Feddal, faz-me lembrar a do Naybet, sempre com um ar de quem joga de alfange nos calções] 

Terceiro princípio de jogo cumprido: o que importa é ganhar e, ganhando, o resultado de pouco ou nada serve. Se estás a ganhar, então não precisas de marcar mais nenhum golo e se, porventura, o marcares, não precisas de marcar outro e assim sucessivamente. Todas as táticas são válidas depois de estares a ganhar. Atrasa a bola, passa-a para o lado, garante que não a perdes ou se a perdes, perde-a longe da tua baliza. 

Quarto princípio de jogo cumprido: acabar o jogo com seis amarelos em doze faltas [um amarelo por cada duas faltas] contra dois amarelos em dezoito faltas [um amarelo por cada nove faltas] sem tentar um mata-leão no árbitro. Como o cão é o melhor amigo do homem, assim o árbitro é o melhor amigo da equipa adversária. Os conceitos de calcadela, empurrão, pontapé ou entrada variam com as cores das camisolas e é preciso aguentar com cara alegre. 

Precisamos de nos ver livres do Neto. É bom rapaz, amigo do seu amigo, deve fazer bom balneário; na época passada, disse umas coisas acertadas em nossa defesa enquanto a direção estava em parte incerta, mas não dá, não combina com a nossa linha de “safeties” ou “defensive backs”. Diz-se que queremos contratar o Lyanco, do Torino, um rapaz de quase um metro e noventa e cara de poucos amigos. Com este e com um avançado do campeonato italiano em idade de reforma, um Fabio Quagliarella ou um Goran Pandev, e tínhamos equipa para cumprir estes princípios jogo atrás de jogo. Posso estar enganado, mas estamos de regresso aos bons e velhos tempos do Paulo Bento. Não vai ser fácil ganhar mas será ainda mais difícil ganhar-nos. O Sérgio Conceição leva dois títulos em três campeonatos assim [sim, eu sei, não sou ingénuo, os nossos árbitros não são os mesmos que arbitram os jogos do Porto]. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Máscaras ou comprimidos?

De quantas pré-épocas mais precisa o Sporting para começar a jogar a sério? Tantas quantas as vidas de um gato? Não chega de jogos-treinos? Era necessário jogar com este PAOK de “kilt” também? Não cheguei a esclarecer estas dúvidas porque recebi umas das habituais mensagens de “WhatsApp”: “Hoje temos de ver o jogo com máscara ou basta-nos pôr um comprimido de baixo da língua depois dos setenta minutos?” Esta dúvida mais ontológica absorveu-me o tempo todo. A consciência do ser ou não ser deixa-nos sempre com dores de cabeça.

O Tiago Tomás marcou no início do jogo e o jogo acabou. Sim, houve bola para cá a para lá, houve jogadores a correr para a frente e para trás, mas jogo não foi com certeza. Ou estamos a ficar cínicos ou outra coisa qualquer e valia a pena os treinadores e os jogadores verem o seu próprio jogo para nos informarem se há razões para ficarmos preocupados. Não, não estou apreensivo, estou preparado para tudo. Preciso é que me digam se devo ver o próximo jogo de máscara ou se basta pôr um comprimido de baixo da língua depois dos setenta minutos. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Apalpar melões

Na terça-feira jantava com amigos. Saio do trabalho ao fim da tarde e ouço o final do relato da primeira parte do Benfica contra o PAOK, enquanto me desloco até casa. Quem ouvisse pensava que o Benfica estava a jogar contra o Cascalheira de Baixo para a taça do presunto local. “O Jorge Jesus melhorou o jogo posicional”. “O Jorge Jesus é hoje melhor treinador do que era (se tal ainda é possível, digo eu)”. “O Jorge Jesus regressou para afirmar a dimensão europeia do Benfica”. Estava zero a zero ao intervalo mas a segunda parte serviria para cumprir o destino que estava escrito à partida. 

Esperando pelo jantar, beberico um Martini com os amigos e pelo canto do olho vejo num ecrã de televisão festejos de uns jogadores com camisolas às listas pretas e brancas. Recebo uma primeira mensagem de WhatsApp: “Depois do Novo Banco, só nos faltava o buraco na defesa do Benfica também”. Um pouco mais tarde recebo outra: “Vai ser preciso financiar o Cebolinha, o Pedrinho, o Darwin, o Vertonghen e o Waldschmidt pelo Mecanismo de Recuperação e Resiliência da União Europeia”. 

Regresso a casa tarde e a más horas. Não tenho sono. Não resisto à tentação de rever os comentários desportivos. É como ir ao supermercado escolher melões. Fico-me pela SIC Notícias. Ouço a conferência de imprensa final do Jorge Jesus. Queixava-se (e bem) das regras da Liga dos Campões. O objetivo era passar a fase de grupos (que seria “peanuts”) e, de eliminatória em eliminatória, chegar à final. Não fazia qualquer sentido começar da frente para trás, disputar uma competição de pernas para o ar, começando por jogar a final. A equipa ainda não estava preparada para tanto. Faltava um avançado. Imaginei que fosse o Cavani. Aparentemente não. O Benfica acabara de gastar cerca de 50 milhões de euros com o avançado do PAOK, um tal de Zivkovic (bom pé esquerdo o deste rapaz!). 

Os melões estavam maduros. O Joaquim Rita estava um belíssimo Casca de Carvalho, com o picante no ponto, malhando no Jorge Jesus. O David Borges estava mais Melão de Almeirim, mais doce, falando de injustiças. Deito-me e adormeço, não sem antes ler mais um pouco de “Uma História de Espanha”, de Artur Pérez-Reverte. Às páginas tantas, o autor interroga-se por que razão Filipe II não transferiu a capital para Lisboa, mantendo-se entrincheirado no centro da península, no seu mosteiro-residência do Escorial. Não sei se seria a sorte dos espanhóis, mas seria a dos nossos comentadores seguramente. As narrativas seriam as mesmas, mas sempre teriam um Real Madrid ou um Barcelona para as legitimar.

Milagres da casa não fazem santos

 

1)               1) Mais uma moedinha, mais uma voltinha:

Lembram-se certamente de Thierry Correia? Terá sido, no meu modesto entendimento, a transferência mais sensacional do consulado Varandas, vendido por mais de 12 milhões de euros ao Valência (tinha de ser), após meia dúzia de minutos (e alguns segundos) grandiosos a virar frangos ao serviço do Sporting.

João (Ronaldo) Félix, vendido em ajuste directo (quanto?) ao Atlético de Madrid, com contrapartidas ainda insondáveis (a vinda do mágico RDT ainda nos assalta em sonhos), apenas visíveis ao microscópio eletrónico de transmissão (MET), obra de visionários japoneses.

Fábia Silva, vendido enquanto penteava o seu famoso risco ao meio, cumprindo assim um sonho de menino (temos informação fidedigna nesse sentido) de jogar nos Wolves, uma equipa albergue de guerreiros lusitanos com tendências trânsfugas. As comissões (declaradas) afiguram-se um verdadeiro tratado de gestão internacional de activos (e passivos, já agora).

São inúmeras as deslocações de capital em forma de jogadores, quero dizer, de activos, grande parte delas praticamente desconhecidas e com vista apenas para o banco e a bancada. E assim continua.

2)               2) Menos uma moedinha, menos uma voltinha:

Mudam-se os tempos, mantêm-se as vontades. As receitas diminuem a olhos vistos: bilheteira, publicidade, merchandising, patrocinadores, as televisões a puxarem a brasa à sua sardinha, o futebol sem o glamour do público. Tudo isto põe a nu as fragilidades crónicas do nosso (e não só) futebol e da sua tão propalada indústria, que mais se assemelha a um fogo-fátuo. A metamorfose dos clubes em entrepostos (em curso) de jogadores e a sua submissão ao poder dos intermediários e dos “investidores” será cada vez mais o quotidiano de um jogo cuja bola a nossa memória já não alcança.

3)               3) Menina não paga, mas também não anda:

O Sporting continua o seu trajecto rumo à modernidade e à irrelevância. O silêncio (extremamente ruidoso) que paira em Alvalade não augura nada de bom. Começar a época com um jogo adiado (alguém percebe quais são as regras disto tudo?), numa temporada com vista para a liga dos calmeirões, necessita apenas de mais uma cereja em cima do bolo: vender o único ponta-de-lança no último minuto do último dia de mercado.

Parece que a Assembleia Geral seguirá o modelo das Assembleias Gerais Eleitorais, ou seja, terá lugar apenas a votação, sem que haja lugar a discussão prévia. O silêncio extremamente ruidoso poderá um dia desaguar (como diria Bohumil Hrabal), numa solidão demasiado ruidosa, ou ruinosa. Tentar remeter-nos ao silêncio é um erro. Fatal?

 

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Mais é mais e não menos

Anda-se a jogar um género de campeonato de jogos-treino de seleções. Nesse campeonato do Mundo e da Europa, em particular, após o jogo contra a Croácia, afirmava-se que a seleção nacional era mais do que o Cristiano Ronaldo. Contra a Suécia, ontem, tive a oportunidade de o confirmar. Vi o Cristiano Ronaldo e vi mais uns tantos: mais dez pelas minhas contas. Sim, é verdade, a seleção nacional é mais do que o Cristiano Ronaldo enquanto o Cristiano Ronaldo estiver na seleção nacional. 


[No primeiro golo, o António Tadeia concluiu que o remate do Cristiano Ronaldo não tinha sido nem especialmente bem colocado nem especialmente forte. Foi evidente o seu desfastio na marcação desse golo e do seguinte. Imagino-o a falar consigo próprio: “Vou só por a bola lá dentro e mais nada: nem com especial precisão, nem com especial força. Quando até o Félix marca um golo, isto passou a ser para qualquer um e não dá pica nenhuma!”]. 

domingo, 6 de setembro de 2020

Jogar à defeso com toda a confiança


Enquanto o novo Cavani nos faz esquecer Cavani, sem que para isso necessite de dar um chuto na bola, a sua palavra basta, assegurando que vem para fazer história; Ricardo Quaresma viaja entre o Bessa e o Castelo, com passagem pelo Algarve numa peladinha de praia. A nós, que ninguém nos ouve, parece-nos (sem grande margem para erro) que o cigano poderia contribuir com uns vinte minutos finais em alguns jogos de paredão alto, mais não fosse para chatear o Ventura.

O Porto, com fair play (financeiro?), lá vai comprando alguns jogadores enquanto aguarda umas benesses do santo Mendes. As coisas com o Valência não corriam, mas o carrocel é dinâmico: a venda de Fábio Silva ao Wolverhampton por 40 milhões de euros (diz que sim) é uma prova da irmandade do fair play financeiro da UEFA, cuja religiosidade se alicerça no santo Mendes, entre outros beatos. Ámen.

Acuña continua a dar cartas nos treinos à porta fechada. O seu recolhimento é-nos demonstrado nas redes sociais (e em algumas mais subterrâneas), demonstrando que a estratégia é absolutamente inovadora: não tarda é integrado como o Palhinha, ficando os últimos dias da época de transferências guardados para nosso divertimento e futuras mutilações.  

Amorim continua a treinar o Sporting apesar de questões de IVA, juros e outras minudências. Há quem diga que está tudo acordado desde o início. Outros afirmam, com alguma propriedade, que anda tudo a dormir desde sempre.  

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Jogar à defeso com transições rápidas


A frase de um amigo com uma atitude excepcional perante a vida: queres ver que ainda vamos ter de vender o Sporar e o Jovane no último dia de mercado. O desabafo que soa a interrogação metafísica transporta-nos para o limbo de uma realidade recente. Percebemos a sua inquietude, talvez enraizada no vislumbre de mais uma golpada estratégica com o refundir de Palhinha e Acuña a treinarem à parte, para melhor serem empacotados no paquete de sonhos de milhões. Palhinha já terá sido (mais ou menos) incorporado, enquanto Acuña aguarda a incorporação forçada, uma ilusão que encerra a estratégia no domínio das equações abstratas, algo que a arte contemporânea bem conhece.

Não veio Cavani, veio o novo Cavani. Engenhoso. Os milhões do novo Cavani, o facto de este também ser uruguaio e avançado (como aqui avançamos em primeira mão), um trabalho esforçadíssimo da estrutura benfiquista e da imprensa de sucedâneos de papel, demonstra a versatilidade engenhosa destes visionários do futebol a caminho da liga dos calmeirões. Está provado. 

O Pote é que foi caro. Embora eles não saibam que se encontra lá no fim do arco-íris, repleto de tesouros. Será que um dia também terá o seu momento zen de treinar à parte, entre vinhas e pomares de fruta? Não sabemos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

O sonhador e o realista

 Depois de várias semanas de pré-pré época e de umas mini-férias, a pré-época 'oficial' do Sporting decorre a bom ritmo, já com um par de jogos à porta aberta para nos permitir imaginar o que aí vem. 

Assim, já é possível comparar a imaginação do Sportinguista optimista e a do Sportinguista pessimista.

O Sportinguista optimista olha para o plantel e imagina Max, Nuno Mendes, Wendel, Pedro Gonçalves ou Jovane a fazer uma grande época, bem apoiados por Eduardo Quaresma, Bragança ou até Tiago Tomás. Quer acreditar que Porro e Feddal não são novas versões do Bolasie, Rosier, Jesé ou Eduardo e que talvez acabem por não conseguir vender o Acunã ou o Palhinha. É um sonhador.

O Sportinguista pessimista vê uma equipa com demasiados jogadores jovens, com vários jogadores que já mostraram o que não valem, orientados por um treinador inexperiente e sem qualificações para o cargo, liderados por uma direção composta por jovens aprendizes que a única vez que prepararam uma época desportiva conseguiram o pior desempenho de sempre da história do clube. Será um realista ?

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Jogar à defeso

Enquanto o Messi não é oferecido ao Boavista, ou recebe alguma proposta indecente do Benfica, divertimo-nos com o rumor (curiosamente sem eco na imprensa) da volta de Paulo Gonçalves às lides, como se este alguma vez as tivesse deixado. As missas continuam com os seus devotos fiéis, embora sem grandes resultados para alguns mais submissos.

Aqui há uns anos não foi fácil dar com o famoso Palito que andou a monte (literalmente) mais de um mês, apenas demovido pelo cansaço e pelo frenesim mediático que lhe incomodava as noites. Este ano temos o Henrique Carvalho, o fugitivo de Lamego, e Cavani, o fugitivo de Ibiza, que já se terá tentado entregar às autoridades, sem resultado, segundo o jornal A Bola, porque já não seria desejado (risos).

Entretanto, continuamos todos os dias a receber informação importantíssima sobre os excelentes métodos que JJ utiliza nos treinos e que os jogadores adoram, como se JJ cá estivesse pela primeira vez a vender gelados. Darwin Núñez, um jogador que todos conhecemos, e pelo qual o Benfica oferece quase 25 milhões (nada de especial, segundo a imprensa especializada em bitaites e cerimónias religiosas), estará muito próximo de provocar um terramoto na mente de Cavani, por ser ele o escolhido. O facto de ser Uruguaio e avançado demonstram um grande trabalho de scouting da estrutura.

As interessantes imagens do treino de Acuña em casa, na senda das de Cavani aqui há uns tempos, a correr entre vinhas, leva-nos a pensar em que ilha este desaparecerá proximamente. O afastamento da equipa e do estágio, treinando em casa ou na academia, é demostrativo da estratégia genial da direcção para vender o jogador. A posição em que esta fica nas negociações é a do apeado que acredita vencer a cavalaria em tempo de armas nucleares. Ousado, para não dizer outra coisa.

PS: após conversa com Pinto da Costa, Zaidu, a nova contratação portista, afirmou: vamos ganhar tudo. O campeonato português já está mais ou menos decidido à partida. Até o Zaidu sabe disso.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Politiquices

A modorra não tem descanso na temporada idiota. Outrora, um candidato a presidente de um partido político, terá feito uma viagem à linda Figueira da Foz para rodar o carro, acabando por ganhar o congresso. Acontece. Mais ou menos na roda destas estórias anda a imprensa desejosa: A caminho do Algarve, Ricardo Quaresma, soube que afinal iria para o Bessa. Haverá lá congresso, terá perguntado? A imprensa dizia que sim. Uma passagem por Alvalade ainda daria para umas entradas gloriosas de abre-latas, naqueles jogos de difícil habilidade contra autocarros e porta-aviões mal estacionados. Com tantas conferências e congressos, passando por encontros, não teremos por alvalade lugar para um congressista? Em actualização. 

Entretanto, Cavani terá sido visto em Ibiza. Não sabemos (ainda) se por lá haverá congresso. Um avião terá rumado àquele local formoso para indagar se haveriam bilhetes disponíveis para a festa. As notícias são promissoras. 

Não sabemos se por Ibiza andará também o João Mário, mas seria, igualmente, um bom regresso ao palácio dos congressos de Alvalade. Conto com a imprensa para divulgar esta rodagem. Até já.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Boa Economia para Tempos Difíceis

Vive-se a acalmia que antecede a tempestade. A economia encontra-se congelada pelos regimes de “lay off” e pelas moratórias de crédito. Ninguém sabe verdadeiramente o que vai acontecer depois das férias, quando regressar o Outono e se iniciar o próximo ano letivo. Só o futebol continua como dantes, como se nada estivesse a acontecer. Fiquei a saber que contratámos um rapaz do Famalicão por uns milhões de euros. Foi a revelação da época passado, ao que se diz. Deve ter sido uma revelação idêntica à de Francisco Geraldes há umas épocas e de tantos outros de quem ninguém se lembra mais. 

“Boa Economia para Tempos Difíceis”, de Abhijit Banerjee e Esther Duflo, Prémios Nobel da Economia, constituiu a minha primeira leitura de férias. Às páginas tantas, afirma-se que na Europa as sociedades são mais egualitárias do que a dos EUA, com rendimentos brutos menos desiguais, carga fiscal mais elevada e maior progressividade dos impostos. Existe uma só exceção: os atletas de alta competição. Na Major League Baseball, na NFL, na NBA e na Major League Soccer existem tetos salariais, enquanto nas competições da UEFA não. Para se ter uma ideia desta aberração, basta referir que, em 2018, o Messi recebeu o equivalente a metade do teto salarial total de qualquer equipa da NBA. 

Existem razões para o controlo salarial das principais competições desportivas profissionais nos EUA. A mais repetida, respeita ao nivelamento competitivo das equipas e, assim, à possibilidade de todas elas disporem de condições para, tarde ou cedo, ganharem as competições em que participam, tornando-as mais interessantes. Mas a principal é outra: controlo dos custos pelas empresas que dispõem das concessões. Está-se em presença de um cartel de proprietários que, ao limitar os salários dos jogadores, aumentam a rentabilidade dos seus investimentos e dos seus negócios. 

Os jogadores profissionais dos EUA têm organizado inúmeras formas de protesto para acabar com os tetos salariais. Os argumentos não faltam. No entanto, o único argumento a que nunca se recorre é que os jogadores jogariam com mais empenho e melhores resultados se os salários fossem mais elevados. Todos concordam que a vontade de ser o melhor constitui incentivo bastante. Como afirmou Vince Lombardi, treinador lendário de futebol americano e primeiro campeão da Super Bowl, “ganhar não é tudo, é a única coisa”. 

Reduzir os encargos com contratos milionários dos jogadores de futebol não teria qualquer efeito no seu (des)empenho. Em contrapartida, os clubes seriam mais rentáveis. Em Portugal, tratando-se de instituições de utilidade pública, esta maior rentabilidade permitiria que mobilizassem mais recursos para muitas das suas principais funções de sociais de apoio à prática desportiva e ao desporto em geral. A competitividade do futebol não se ressentiria e teríamos melhores atletas em muitas outras modalidades e mais títulos olímpicos em modalidades como o atletismo, o judo ou o remo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Carrocel mágico


No melhor registo esotérico, oracular da temporada idiota, temos a saga Cavani a entreter-nos os dias. Confesso que até eu (já) desejo que o homem venha, para termos algum sossego, e não seja necessária a intervenção do Presidente da República. A saga Cavani acompanha no tempo a saga Feddal. A saga Feddal é uma saga mais pequena em importância que a saga Cavani, na verdade, ninguém quer saber grande coisa da saga Feddal e, não tivesse esta se arrastado indefinidamente, não estaríamos aqui a confundir as coisas.

Já disse há algum tempo o que pensava de Feddal, ainda a saga era uma mini série de cinco episódios, com a chancela da TVI, entre outras séries mais ou menos interessantes, curiosamente, todas elas, misteriosamente públicas, revelando-se assim o magnifico trato destes assuntos por parte dos nossos dirigentes, cujo lema é: o segredo é a alma do negócio, ou chamamos o Sr. Mendes.

Por falar no sr. Mendes, embora grande parte dos eventos e espetáculos estejam condicionados pela pandemia, incluindo os circos, constatamos com agrado que o seu carrocel continua a circular livremente por várias cidades, alargando cada vez mais o seu leque de dependências desportivo/culturais, com voltas dadas em vários países. Já sabemos o seu lema: mais uma moedinha mais um voltinha, clube (lindo) não paga, mas também não anda. E há muitas formas de pagar. Até o Sporting pode dar uma voltinha que tudo se resolve.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Benfica, felicidade e moeda

Há dias ouvi uma conferência muito interessante de André Lara Resende, que concebeu o Plano Real, na Universidade de Oxford, explicando a evolução da política monetária. Após a estagflação dos anos 70, o monetarismo ou a teoria da quantitativa da moeda passou a ser hegemónica no pensamento e nas políticas económicas. A inflação seria única e exclusivamente um fenómeno monetário e as crises, inflacionárias ou deflacionárias, deviam-se à incapacidade dos bancos centrais de contrair ou expandir a base monetária. Esta teoria foi levada à prática de forma brutal por Fernando Collor de Mello para combater a hiperinflação no Brasil, procurando esterilizar a moeda através do congelamento das contas bancárias dos depositantes. A recessão não foi menos brutal e acabou no seu “impeachment” por portas travessas.

Pouco a pouco, os economistas foram compreendendo que o sistema de crédito fazia expandir a base monetária, sem que os bancos centrais a conseguissem impedir. Sem grandes explicações teóricas, a partir dos anos 90, os bancos centrais passaram a tentar controlar a inflação através da simples manipulação da taxa de juro, aquecendo ou arrefecendo a economia em função da sua evolução e do seu ciclo. Na prática, não existe nenhuma fórmula, assume-se que a inflação simplesmente não se encontra ancorada e recorre-se quase a uma simples heurística: se a inflação sobe, então a taxa de juro deve subir também e se a inflação desce, então a taxa de juro deve descer também.

Com a crise financeira internacional de 2008 e as taxas de juro nulas ou praticamente, os bancos centrais viram-se na necessidade de recorrer a políticas não convencionais, como o “Quantitative Easing”, desatando a comprar tudo o que é ações e obrigações, expandindo loucamente os seus balanços. Estas políticas estão a ser ampliadas com a atual crise decorrente da pandemia da Covid-19. A inflação continua a não se ver, apesar da expansão monetária sem precedentes. Conclui Lara Resende que, provavelmente, a inflação resulta de expetativas dos agentes económicos, tendendo a manter-se alta quando é alta e baixa quando é baixa. A inflação seria mais resiliente e determinada por contextos históricos: há períodos em que é persistentemente baixa e outros persistentemente alta.

O Benfica vive o seu “Quantitative Easing”, o seu momento “bazuca”. Nunca se viu tal expansão monetária em nenhum clube português. A ideia é excelente no atual contexto económico e financeiro. Por muito que paguem ao Jorge Jesus ou ao Cavani (nove milhões de euros por ano, é o que se vai dizendo), as suas condições para aumentar o consumo de batatas fritas e hambúrgueres são limitadas (se estivéssemos a falar do Taarabt a conversa seria outra), assim como os potenciais efeitos inflacionários. No fundo, está a seguir Millôr Fernandes, quando afirma que “O dinheiro não traz a felicidade, manda-a vir”. O Luís Filipe Vieira está a mandar vir toda a felicidade que (não) pode. A felicidade dos benfiquistas é a sua felicidade (e vice-versa) e ninguém os quer ver infelizes para o resto da vida sem ele, a presidente, naturalmente.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Toxicidade e hipocrisia

De repente, a SIC e a TVI tiveram uma epifania: os programas de comentários com adeptos são tóxicos e tem de se acabar com eles. Mais vale tarde do que nunca, mas fica-se com a impressão de que a decisão releva mais das audiências e da conveniência do que de qualquer sentido de justiça ou de moral. Até parece que esses comentadores foram às estações de televisão de livre e espontânea vontade, ali se sentando à mesa e debatendo entre si os assuntos que lhes passavam pela cabeça, não havendo responsabilidades editoriais. 

Envolto num discurso (falsamente) moralista, os responsáveis destes canais de televisão confundem consequências com causas. Estes programas são a consequência, a consequência de um futebol tóxico, na forma como se organiza e escolhe os seus responsáveis, dos clubes, à Liga e à Federação Portuguesa de Portugal. O entorno mediático decorre desta organização à qual se associa a falta de jornalistas desportivos, enquanto profissionais responsáveis pela mediação isenta e independente. O mercado é curto, a hegemonia de certos clubes é grande e ninguém quer aborrecimentos que coloquem em causa o negócio. A informação jornalística é, com frequência, uma correia de transmissão de interesses, uns mais legítimos, outros mais obscuros e inconfessáveis, e envolve “fake news” atrás de “fake news”.
 
Esta distopia reflete-se no jogo jogado. A Final da Taça de Portugal, entre o Porto e o Benfica, constitui um belíssimo exemplo. O jogo foi uma porcaria do princípio ao fim, uma coisa indescritível de mal jogado. Nunca interessou a bola nem os jogadores. O que interessou foi o árbitro, o quarto árbitro e as suas decisões. Para eles, foi um momento de glória. Um profissional da pastelaria e outro das carnes transformados nas pessoas mais importantes do país, com uns milhões dos seus concidadãos a vê-los e direito a cotovelada do Presidente da República.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Já acabou?


Voltamos à casa da partida. Planeamento, trabalho invisível, inclusive, a existência de planos de acção, tudo se esboroou por entre os dedos como areia fina da praia da Claridade (quanto não está muito vento). Tudo perdido por obra de um inexplicável acaso, de uma perseguição inabalável (sempre inimigos internos, entenda-se), de problemas oftalmológicos graves (que não permitem ver o trabalho invisível), de oscilações do mercado absolutamente imprevisíveis, da falta de palavra do Jesé que terá afirmado ser o mesmo que há uns anos jogava futebol no Madrid. Em suma, do Covid -19. O que rima funestamente com a nossa ausência de títulos-19 (campeonatos, leia-se).

Ora, vamos a factos para que se possam esgrimir argumentos e alimentar polémicas desnecessárias:

Logo a despropósito, o Sporting fica fora do pódio, pela primeira vez, desde aquela magnifica época, igualmente dotada de um planeamento genial de Godinho Lopes: estávamos então em 2012 e ficamos num razoável sétimo lugar, fora das competições europeias. Mas sem Covid, dirão alguns, sempre atentos, amigos do embaraço.

Derrotas em todos os clássicos (não, meus amigos, com o Belenenses já não conta), uma, duas, três, quatro derrotas (sem contar com a supertaça, já lá vamos). Coisa nada vulgar, ora investiguem lá, por favor, para ver quantas vezes aconteceu.

Dezassete derrotas numa época é obra. É recorde. Dos nossos. Cerca de 52% de vitórias, é obra. Está à vista. Ali pertinho do meio-meio, dos cinquenta por cento, pertinho de equipas como o Fama e o Rio-Ave, elas também parte do carrocel do Mendes.

(JÁ AGORA, QUANTOS TREINADORES COM O PERFIL DESEJADO FIZERAM PARTE DO PROJECTO?)

Eliminados da taça pelo poderoso Alverca (equipa do terceiro escalão), fizemos jus ao lema: aconteceu taça. Olhe que não, olhe que não. Não é assim tão vulgar uma equipa candidata ao título (a sério?), ser eliminada da taça por uma equipa do terceiro escalão. Ora, pesquisem lá, por favor. 

Acrescentando os cinco que levamos no corpo na final da supertaça contra o segundo classificado da liga (resultado volumoso, mas seguindo uma tradição recente de bombos da festa), o restante foi globalmente positivo. Não acham?

Adiantar o IVA ao Braga

A crónica de um jogo é sempre uma narrativa. Não deixa de ser uma reconstrução que tem como objetivo legitimar o resultado final, que encerra os factos, todos os factos. As coisas não são como são. Obedecem sempre a uma lógica que as determina e lhes dá sentido. A sorte ou o azar têm detalhe técnico [nem que seja o da famosa eficácia], não são sorte ou azar, ponto. A crónica só precisa assim do resultado final e de plausibilidade. 

Perdemos por dois a um contra o Benfica e ficámos em quarto lugar no campeonato. Estes são os resultados e, por isso, os factos, todos os factos. Como se sabe, o Sporting ferrou o cão ao Braga. Mas há ferrar o cão e ferrar o cão. Há formas de ferrar o cão que são contra os Direitos Humanos. O pagamento do IVA ou do Imposto sobre o Valor Acrescentado ao Estado é da responsabilidade do vendedor, a partir do momento que se dá o movimento económica mas não, necessariamente, o financeiro, isto é, a partir da faturação. Como se verifica, o resultado de ontem serviu para adiantar o IVA ao Braga. 

Dantes, estes assuntos eram tratados por departamentos especializados dos clubes ou por empresas de contabilidade. Como se costuma dizer, hoje o futebol é uma indústria e estes movimentos passaram a ser intermediados por profissionais muito qualificados que trabalham em empresas de gestão de carreiras. Os movimentos são sobretudo em espécie: hoje um resultado, amanhã a transferência de uma jovem promessa, depois um encontro de contas. 

Tinha visto vários jogos na Benfica TV, mas nunca tinha ouvido, os narradores e os comentadores. Imagino que as transmissões da Pyongyang TV sejam do mesmo género. Ouvir referência ao Jorge Jesus durante a transmissão constituiu o momento "Big Brother is watching you". O Benfica, enquanto clube, e os benfiquistas, enquanto adeptos, estão transformados no benfiquismo, um fanatismo, uma ideologia com bigodes. 

Em condições normais, acabada a época, seria necessário pensar o futuro. Nos tempos que correm, lê-se a "Visão Estratégica" de António Costa Silva. Parafraseando, o objetivo é transformar o Sporting numa potência média de “soft power”, ligando a diplomacia na Liga e na FPF, as missões de solidariedade com o Tondela, o Setúbal ou o Aves, a tecnologia do vídeo-árbitro e a necessidade de combater o antijogo, para abrir caminho à criação de plataformas colaborativas no âmbito da UEFA e da FIFA. No passado, pensaríamos que a contratação de um defesa central para emparelhar com o Coates, de um defesa direito parecido com um defesa direito e de um avançado que marcasse golos resolveria o nosso problema. Eram outros tempos, tempos de amadores.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Será que Jesus já regressou?

Ontem de manhã, enquanto tomava café, assisti a uma reportagem da CMTV a partir Aeroporto de Lisboa, da Portela ou Humberto Delgado, conforme os gostos e feitos. Uma repórter [é assim que se diz, não é?] informava-nos que Jesus estava de regresso, havendo dúvida se se encontrava ainda sobre o Oceano Atlântico ou se, entretanto, tinha atingido a costa do continente africano. 

“Será que Jesus já regressou?”; esta dúvida assolou-me de quando em vez o pensamento durante o resto do dia. 

O Sporting jogava contra o Setúbal. Vi entrar em campo os nossos jogadores acompanhados de onze separadores de autoestrada, em betão. Iniciado o jogo, ou a bola ou os nossos jogadores iam embatendo nos referidos separadores. Nem a bola nem os jogadores os ultrapassavam, embora tombassem sempre que a bola neles embatia ou os jogadores neles tropeçavam. Cada vez que tombavam, entrava a assistência rodoviária da Brisa para os voltar a pôr de pé. Ao intervalo, a equipa do Sporting dispunha de mais de 70% de tempo de posse de bola, concluindo-se, assim, que sempre que a bola saía do campo o tempo de (não) jogo contava para os separadores. 

“Será que Jesus já regressou?”; voltava-me ao pensamento enquanto esperava pela segunda parte. 

Os separadores de autoestrada voltaram e permanceram muito arrumadinhos a cumprir a sua função de separar. E assim se continuou o resto do tempo: de um lado, a baliza, do outro, a bola e os jogadores do Sporting. A bola continuou a embater nos separadores e os jogadores também. Os separadores continuaram a tombar, continuando a entrar também a assistência rodoviária da Brisa para os pôr de pé. Um ou outro separador foi ficando lascado de tanto tombo, sendo necessário substituí-lo, chegando a entrar um separador muito forte [na área da resistência dos materiais também se pode utilizar a expressão "gordo"?], um superseparador ou um separador em betão pré-esforçado, em linguagem técnica. No final, a equipa do Sporting dispôs de mais de 70% de posse de bola, contando como tempo de (não) jogo dos separadores as saídas de bola do campo. O jogo concluiu-se empatado, demonstrando-se a superior qualidade de construção dos separadores, apesar dos problemas de dimensionamento, com um centro de gravidade demasiado distante do chão, gerando problemas permanentes de estabilidade estática.  

Será que Jesus já regressou?

domingo, 19 de julho de 2020

Play it again Sam (II)


Sobre o trabalho invisível, já agora: 

Compras à patrão: Ilori (não para de nos esbofetear), Eduardo Henrique, Borja, V. Rosier e Doumbia (O Neto veio capitanear à borla);

Empréstimos bem enjorcados: Jesé, Bolasie e Fernando (risos);

Em banho-maria a ver se pega (até quando?): Phellype, Vietto (por um fio não se encontra nas compras à patrão), Camacho, Sporar (apesar de tudo) e Plata merecem a nossa paciência.

Potenciais reforços:

Antonio Adán: Quem? Deixa lá ver… um suplente profissional? Deve ser engano. Ou saldo.

Feddal: apesar do bom trabalho de alguns (recém criados) organismos de propaganda afectos à direcção (e da elogiosa opinião de Naybet que a estende a Taarabt – e ficamos conversados), na projecção da sua imagem como defesa central com um pé esquerdo único (esperemos que não seja literal), acreditamos que o seu potencial de Paulinho Santos da zaga se encaixaria melhor numa equipa em que sejam proibidas as expulsões, jogando, por exemplo, ao lado do Rúben Dias, ou como o novo cantinflas do Dragão. São mais as vezes que Feddal está lesionado ou de fora por castigo que as que joga.

Porro: se chega por empréstimo sem opção de compra é uma barriga de aluguer sem qualquer risco (bem pensado?): se jogar não fica e se não jogar não fica. Para um clube que quer ser campeão não está mal. O melhor é fumar outras coisas.

Parece que estão mais dois ou três reforços na panela de pressão das vendas e do mercado. Vamos andar na corda invisível até que rebente. É pena os putos…e o Sporting, já agora. 


sábado, 18 de julho de 2020

Play it again Sam


Catastroficamente, o ano não tem sido nada mau. Não fosse o covide tínhamos o 4º lugar garantido. Assim andamos na recta da meta a lutar pelo 3º lugar às costas dos putos. Um enfado. O planeamento foi quase perfeito, as contratações cirúrgicas, tão cirúrgicas que nunca as vimos. Dezasseis derrotas, quatro (ou cinco?) treinadores, não é nada de preocupante comparado com o trabalho desenvolvido de forma invisível, cujos resultados, de uma visibilidade inexistente, são frutos colhidos apenas ao olho nu do pensamento. O sonho mantém-se inabalável: a nova época já está em curso nesta recta final da pré-época, em verdade o seu planeamento virá da época anterior, fazendo parte de uma estratégia mais vasta pata ludibriar os nossos adversários ao mesmo tempo que se ludibria a si mesma. Ao alcance apenas de alguns eleitos. Temos fé, mas menos sócios.

Jesus vem a caminho da luz. Vieira viu a dita. Finalmente tudo faz sentido.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

O que é que é isto?!

Ontem, estive no Porto. Parecia Braga. Temperaturas elevadas, muito acima dos trinta graus. Regresso a casa por volta das 19.00h e ainda estavam trinta e quatro graus. À noite, vejo o jogo contra o Porto numa esplanada, continuando a temperatura acima dos trinta graus. O estádio estava sem público, despido, e uns tantos miúdos e outros tantos graúdos jogavam à bola. O esforço não era muito, sempre que envolvia a bola. Mas havia coreografia, muita coreografia, destacando-se Luis Díaz, jogador colombiano do Porto. O árbitro avaliava com nota artística elevada uma e outra das suas interpretações. Esperava que também fizesse o truque de magia habitual de serrar ao meio uma mulher metida num caixão, mantendo-se as perninhas a dar a dar. 

Esperava-se também que, ao intervalo, se negociasse o zero e zero e não voltasse nenhuma das equipas ou só voltasse o árbitro e o Seiva Trupe. Estranhamente, regressaram todos. O jogo continuava sem grande vontade. De repente, o Porto marcou um golo. Não compreendi. Na minha cabeça formava-se uma interrogação, uma perplexidade: “O que é que pretende o Porto assim a marcar golos?”. O Sporting estava a meter miúdos para os treinar e corriam o risco de num qualquer bambúrrio ainda levarem um golo de um ganapo da idade do meu sobrinho. E o Porto marcou outro golo. Na minha cabeça as interrogações adensavam-se: “Qual é o interesse disto, de andar a marcar golos? O que é que o Porto pretende com isto?”. 

Acabado o jogo, os jogadores do Porto desataram a festejar como se não houvesse amanhã. Não, não se compreendia. Marcam-se peladas e treinos para isto? Se fosse comigo, não jogávamos mais com eles. Depois começo a ver imagens de pessoas e pessoas nos Aliados e ao pé do estádio, na zona de Campanhã. Havia uma festa e ninguém nos disse nada? Pensando na pandemia e na necessidade de distanciamento social, finalmente compreendi: estava prevista uma manifestação pró-Bolsonaro, para contestar o Senado, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Será que não se pode fazer um “impeachment” e acabar com isto?

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Paulo Bento e Rúben Amorim e a geometria de Tex Winter e Phil Jackson

Jogávamos contra o Santa Clara que tinha enfiado quatro batatas ao Benfica de Bruno Lage, essa equipa enorme, tão grande quanto as maiores e, seguramente, demasiado grande para o futebol português, segundo Rui Santos. Uma equipa destas, com um ataque que passara como cão por vinha vindimada por galácticos como um Almeida, um Dias, um Ferro, um Grimaldo ou um Weigl, deixaria a ver navios pobres coitados como um Ristovski, um Quaresma, um Coates, um Acuña ou um Mendes. Respondemos a este desafio com uns violentos sessenta e sete por cento de posse de bola que nos valeram uns não menos violentos sessenta e sete por cento de cartões amarelos [o primeiro desses amarelos devia ter sido vermelho tal a violência do pisão na bola do Doumbia, mas ainda bem que o árbitro não interpretou assim porque não viu a bola queixar-se]. 

Nos jogos contra o Tondela e o Moreirense ficámos a conhecer a regra que permite agarrar o Coates sempre que ele pretende cabecear. Neste, ficámos a conhecer a regra que não permite que ele não se deixe agarrar. Temos assim os cantos e outras bolas paradas do ataque do Sporting transformadas no jogo da apanhada do Coates sem que o Coates possa fugir. Não compreendo o interesse de assim se jogar à apanhada se aquele que se pretende apanhar tem de ser sempre apanhado dê por onde der. Também não foi marcado mais um “penalty” a nosso favor, por falta sobre o Plata. No último jogo, contra o Moreirense, ficámos a conhecer a regra que permite dar dois “penalties” de avanço ao nosso adversário e, por isso, mais legítimo se torna só dar um, como foi o caso deste último jogo. 

Os árbitros têm-nos disponibilizado uma paleta (de combinações) de decisões que nos permite refletir sobre a perspetiva ontológica do sportinguismo. Preferimos ser roubados em dois “penalties” ou num “penalty” e num golo mal anulado? Preferimos ser roubados pelo árbitro e pelo vídeo-árbitro em conjunto ou por um só deles? A resposta a estas questões definir-nos-á sobre o ser do Sporting de todos e de cada um. Estas arbitragens têm-nos interpelado a uma reflexão sobre o nosso sentido coletivo mais profundo que, de outra forma, não se realizaria, perdida na espuma dos dias. 

O jogo, aquela coisa que envolve a bola e os jogadores, foi um aborrecimento de todo o tamanho. Salvou-se o espetacular golo do Jovane Cabral, depois de excelente movimento e melhor centro largo do Wendell ao segundo poste, e a entrada do Diogo Salomão para a equipa do Santa Clara na segunda parte. Por momentos, pensei que estava a ver a RTP Memória e vieram-me à cabeça nomes que constituem o nosso “Hall of Fame” dos anos oitenta e noventa, como Uchoa, Bukovac, Kikas, Hamilton, Bela Katzirz, Jason, Roger Wilde, Kaloga, Diallo, Fernando Cruz, Saucedo, Duílio, Forbes, McDonald, Peter Houtman, Rodolfo Rodriguez, Eskilsson, Ali Hassan, Miguel, Carlton Banze, Maside, Portela, Valtinho, Edel, Bozinowski, Guentchev, Tó-Zé, Barny, Carlos Jorge, Lemajic, Costinha, Luís Vasco, Afonso Martins, Mauro Soares, Ouattara, Skuhravy, Gil Baiano, Balajic, César Ramirez, Missé-Missé, Nenê, Didier Lang, Renato, Leão, Giménez, Ivo Damas, Kmet ou Krpan. Será que algum destes tinha lugar na nossa atual equipa? Talvez haja razões para a esperança. 

Palavra puxa palavra e uma ideia arrasta outra. “The Last Dance”, recente série da Netflix sobre carreira de Michael Jordan e dos Chicago Bulls nos anos noventa, deu-nos a conhecer Tex Winter, treinador-assistente de Phil Jackson, e o seu triângulo ofensivo. Entre 1989 e 2010, esta tática permitiu vencer onze títulos da NBA, seis pelos Chigaco Bulls e cinco pelos Los Angeles Lakers. Fascinam-me estas táticas que apelam a figuras geométricas, como, no futebol, o 4x4x2 losango do Paulo Bento ou, mais recentemente, o 5x2x3 pentágono do Rúben Amorim. O losango e o pentágono podem ser descompostos em múltiplos triângulos. 

O Paulo Bento fez milagres, dispondo da nossa formação, de um Caneira aqui e ali e de um ou outro estropiado de guerra, como o Romagnoli ou o Derley. Dispunha também do nosso Michael Jordan ou Kobe Bryant: Liedson, o insustentável levezinho. O Sporting era uma equipa chata, muito chata para qualquer adversário. Era difícil derrotá-la e vencia de goleada por um a zero, jogo após jogo. Em pleno Apito Dourado, o Paulo Bento manteve-nos a esperança durante quatro épocas. O Rúben Amorim parece pretender o mesmo: uma equipa que muito raramente se encontra descomepensada a defender e difícil de derrotar. Falta o insustentável levezinho. Por agora temos o Jovane Cabral. Repetindo: talvez haja razões para a esperança, mas será que chega?

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Acerca da pré-época do Sporting

Por via das limitações a viagens impostas pela pandemia de COVID-19, temos observado uma pré-época atípica. Ainda assim, não sei se por mérito do treinador, da gestão do futebol ou se por pura sorte, parece-me ser a mais bem planeada pré-época dos últimos anos.

Ao invés de viajar milhares de quilómetros até uma Suíça qualquer para jogar com uns nabos da 3a divisão local e receber banhos de multidão, optámos por uma versão mais barata, em que continuamos a jogar com (sobretudo) nabos, mas a pouca distância de casa e em estádios com muitas cadeiras vazias. Ao jogarmos com equipas treinadas por Pepas, Petits e afins, podemos afinar a nossa estratégia para lidar com a realidade do campeonato Português, ou seja, muita paulada, anti-jogo com fartura e autocarros de jogadores nos 30 metros em frente à sua baliza.

Sinto que esta abordagem vem permitir aos jovens estar mais preparados para o que aí vem, e perceber quais os mais velhos com os quais não vale a pena contar. Também se nota trabalho nas bolas paradas, que devem decidir uns 95% dos jogos aqui no campeonato cá do burgo.

Qual cereja no topo do bolo ainda se vai testando a resposta da equipa aos "contratempos" com as arbitragens. Quase parece a sério. Não fosse um espectador mais atento notar as 5 substituições por jogo e poderia pensar que as arbitragens eram de jogos mesmo a contar para o campeonato.

Até ao momento as coisas têm corrido bem. Depois de um empate em Guimarães, que acaba por ter a desculpa de ter sido no primeiro jogo da pré-época, foi sempre a ganhar, tendo apenas cedido um empate contra o Tiago Martins. Pelo caminho tem dado para ver muitos jogadores jovens, restando apenas saber qual deles vai ser o primeiro a ignorar as juras de amor que agora vai fazendo para trocar o Sporting por um clube qualquer do campeonato Grego ou que jogue para o meio da tabela de Espanha, França ou Inglaterra. Também se vai percebendo que existem uns quantos jogadores do Sporting que nem lugar no Belenenses de Lisboa tinham (quanto mais na SAD de Oeiras) .

Posto mais de um mês disto, estamos prontos. Vamos fechar em beleza fazendo uma festa de campeonato a um qualquer clube do Norte, e a festa de despedida do treinador de um clube de um bairro de Lisboa (ou a festa de boas vindas do treinador que não teve a devida festa de despedida - ou melhor teve uma despedida em tribunal). Faz sentido. Tanto se fala de pacificar o futebol Português, nada como alinhar nas festas dos rivais, desde que mantendo o distanciamento, claro está. E sempre com máscara, não vá alguém pensar que o Carnaval do nosso futebol é a sério.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Quim Barreiros e terceira república

Preparo-me para ver jogar o Sporting contra o Moreirense. Em Braga, às nove e um quarto da noite, estão mais de trinta graus. Procuro saber a temperatura em Moreira de Cónegos, aqui ao lado. Estão também mais de trinta graus [e não, nesta altura do dia ou da noite, não há sombra que valha aos jogadores!]. Não sei quem marca estes jogos para estas horas de segunda-feira e não para o horário tradicional de domingo ao princípio da tarde, pela fresquinha. Não deve ser ninguém que tenha lido “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”, de Orlando Ribeiro. Se é para continuar a jogar futebol durante este mês e no próximo, então os jogos deveriam ser todos marcados para a Apúlia, Ofir, Moledo, Vila Praia de Âncora ou Mindelo, aproveitando a influência atlântica e a não menos famosa nortada, desde que cada jogador esteja protegido pelo seu tapa-vento. 

Entretanto vi o jogo. 

A rapaziada estava há muito confinada e por isso [ou por outra razão qualquer, não interessa, nunca interessa] acabaria por desconfinar e iniciar-se-ia a ramboia do costume. No domingo, na habitual conferência de imprensa, o Amorim afirmou o seguinte: “Um dia perderemos, mas esse dia ainda não é na próxima semana”. Se repetida, semana após semana, esta afirmação encerra um paradoxo. Mas para se tratar de um paradoxo implica considerar desconhecido o futuro. Se assim não for, o que o Amorim nos afirmou é que simplesmente conhece os resultados antes dos jogos se realizarem [e sabia que hoje não perderíamos, mas que também não ganharíamos ou, de outra forma, está nesta altura a cortar os pulsos]. 

Mesmo na pré-época, os jogos do Sporting são verdadeiramente picarescos [ver a claque do Moreirense apinhada num género de varanda de um prédio que sobreleva o estádio foi um desses momentos picarescos]. Desde o treinador aos jogadores adversários, aos bandeirinhas, ao árbitro, ao vídeo-árbitro e aos comentadores da televisão, participam em exclusivo personagens patuscas, burlescas. Fossem realizados durante o salazarismo e o António Ferro tinha-se borrifado no Galo de Barcelos e nos ranchos folclóricos e transformado o Sporting e os seus jogos em símbolos da identidade nacional [do antigo regime, pensaria ele].

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Tática do pentágono

“Espero que o Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, Cardeal Ângelo Becciu, e o Papa Francisco estejam atento ao jogo de hoje porque o irmão Amorim se prepara para fazer mais um milagre!”. Esta mensagem de um amigo despertou a minha curiosidade. Mas um sportinguista que se preze sabe que o jogo, qualquer jogo, vai correr mal e preocupa-se mais com os suplentes (que terão de entrar, dê por onde der) do que com os titulares. Procuro saber da lista dos suplentes e descubro que, para o ataque, temos o Joelson Fernandes e o Tiago Tomás. Espanta-me não tanto os jogadores mas o facto de ainda estarem acordados aquela hora (fiquei o jogo todo à espera de ver uma das mães entrar pelo campo a mandá-lo para cama, levando-o por uma orelha para casa). 

Há tantas táticas quantas as cabeças. Há as lineares, as que apelam a figuras geométricas e as que as combinam. A que mais me fascinou sempre foi o 4x4x2 losango do Paulo Bento (o losango constituía referência para o posicionamento dos quatro jogadores do meio-campo), por ter o precedente histórico de Aljubarrota e de D. Nuno Álvares Pereira, Santo Condestável. O Amorim é radicalmente inovador e opta pelo 5x2x3 pentágono, constituindo a figura geométrica referência para o posicionamento dos três centrais e dos dois médios. Atente-se que um losango pode ser um quadrado, bastando que os quatros ângulos sejam retos, enquanto um pentágono nunca o pode ser. Um quadrado é um polígono, um losango é um polígono e um pentágono é um polígono e, como se demonstrou, nem todos os polígonos são iguais e uns são mais iguais do que outros. 

Esta aposta pentagonal inédita dispõe de uma grande virtude: deixa o Coates no vértice mais recuado e mais próximo do guarda-redes com um enorme raio de ação e sem sobreposição com o raio de ação do Eduardo Quaresma e do Borja. Este círculo transforma-se assim num buraco negro onde os adversários vão sendo sugados e desparecendo conforme dele se aproximam. No passado, com o Mathieu, havia respeito e compreensão mútua. O Coates cortava umas bolas, abafava uns adversários mas sentia-se obrigado a deixar fugir uma ou outra peça de caça para o seu companheiro do lado. Agora, não tem dúvidas, é tudo dele até onde a vista alcança. Por isso ou porque a equipa reage bem à perda de bola e pressiona de imediato o adversário, mesmo que tenha de recorrer à falta nos locais do campo onde devem ser efetuadas, a verdade é que existe mais consistência na defesa. 

A defesa está melhor e recomenda-se (mais um boa exibição do Max que começa a comparar com vantagem com o Rui Patrício para o mesmo estrato etário), mas o ataque é o que sobra, o que resta, não constituindo uma função autónoma. O primeiro golo é o resultado de se ter recuperado a bola e tão-só, tendo a bola se encarregado de fazer o resto. A bola procurou fugir o mais que pôde mas acabou sem sorte nenhuma. Fugiu ao Ristovski, fugiu da biqueira das botas do Plata, fugiu das canelas de um defesa do Gil Vicente, voltou a fugir do Plata, fugiu de outro defesa do Gil Vicente até ser apanhada em cheio pelo pontapé do Wendell. Esta falta de autonomização do ataque é que explica o atraso de calcanhar do Plata quando se encontrava completamente isolado, autolimitando-se em função do jogo (defensivo) de equipa. 

Na segunda parte, tudo parecia diferente. O Wendell isolou-se, procurou dominar a bola com todo o cuidado e encaminhar-se para o guarda-redes sem que restassem dúvidas sobre as suas intenções: atirar-lhe a bola à ventas com quantas forças tivesse. O guarda-redes ainda se tentou desviar, mas não teve tempo e não conseguiu. Logo a seguir, o defesa direito do Gil Vicente desmarcou o Plata para este dominar a bola e a encostar para o segundo golo (tentem imaginar que em vez do Plata era o Jesé). Foi uma prenda de anos, uma prenda dos 114 anos do Sporting. Fiquei à espera que, no final do jogo, os jogadores adversários fizessem uma rodinha e nos cantassem os parabéns também. A partir daquele momento, o único motivo de interesse era ver jogar o Tiago Tomás e o Joelson Fernandes. No entanto, 0 Doumbia ainda tentou estragar tudo, demonstrando cabeça de iniciado, mas era tarde de mais. 

Desde o desconfinamento futebolístico, registámos mais três pontos do que o Porto, mais oito do que o Benfica e mais nove do que o Braga. O Vítor Oliveira diz que não chega, é pouco. O Vítor Oliveira ganhou o estatuto de senador dos pobres, dos sobe-e-desce. Subiu de divisão uma série de clubes ao longo de várias épocas e tem o seu mérito. Contrariamente ao que se diz, no início da sua carreira teve as suas oportunidades. Andou pelo Braga e pelo Guimarães, de onde saiu pichado de alcatrão e penas. Percebe-se o ressentimento: podia ter sido um Peseiro, um Rui Vitória ou um Lage em mais barato. Não havia necessidade, sinceramente!

terça-feira, 30 de junho de 2020

Déca(lage)...


Depois de Mourinho (O Verdadeiro) começaram a despontar com regularidade novos Mourinhos (normalmente falsos). O próprio Mourinho (O Verdadeiro) após algumas derrapagens surge, a espaços, como o novo Mourinho, emergindo das trevas. O mais recente entre os tais novos Mourinhos era (o tempo verbal é mesmo esse) Bruno Lage. No final da época passada o jornal A Bola considerou fazer uma edição no seu formato anterior (standard ou broadsheet), aquele formato grande que aparecia na série Duarte e Companhia, para melhor destacar o advento do novo Mourinho.

Quem conhece o mundo das Repúblicas de Coimbra sabe que cada ano vale por cem. Cada comemoração de aniversário é apelidada de centenário. No futebol português, a passagem do tempo obedece a uma calendarização muito própria, condicionada por matizes nem sempre observáveis a olho nu. Assim, no espaço de pouco meses, novos Mourinhos desgastam-se tão rapidamente que se confundem com a poeira da ausência de memória. Ao desgaste da memória, junta-se um processo de mumificação de alguns jogadores, processo esse que nos faz duvidar que estes alguma vez tenham sido profissionais de futebol.

A escala do tempo geológico, caracterizada por diferentes tipos de unidades e períodos de tempo indefinidos, divididos em muitas eras, é assim subvertida por uma rapidez de processos que permite a fossilização rápida de alguns organismos recentemente reconhecidos pela sua genialidade. É daqui que vem a tal frase do futebolês : o que é hoje verdade amanhã é mentira.

Parte significativa (a que realmente importa) do nosso futebol é decidida fora das quatro linhas. E esse futebol merece os seus estádios vazios. Entretanto, um novo Mourinho estará na forja…

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Jovane Witt Nureyev Cabral

É insólito ver jogar o Sporting num campo que mais parecia o campo de treinos do Estádio do Fontelo, em Viseu, da minha infância e adolescência. Mais insólito ainda é começar por sofrer um golo do Belenenses SAD que tinha anunciado estar em “layoff”; e o golo foi marcado nem mais nem menos do que pelo Licá, jogador que se encontra reformado há um par de anos. Não se pode pedir aos jogadores do Sporting para também estarem atentos a uma situação que se encontra na esfera de competências da Autoridade para as Condições de Trabalho. Mas a equipa recompôs-se rapidamente porque era dia de homenagear o Mathieu e o primeiro golo foi uma lembrança, uma simpatia do Coates, seu colega de sempre. 

Não se pode descrever o segundo golo no mesmo parágrafo do primeiro. Não se mistura o género humano com Manuel Germano ou a beira da estrada com a Estrada da Beira. O Jovane Cabral marca depois de um movimento que ainda hoje não foi possível levar à prática nem na patinagem artística, nem no ballet, apesar das tentativas, quer de Katarina Witt, quer de Rudolf Nureyev, no século passado. O terceiro do Jovane Cabral na marcação de uma grande penalidade acaba por ter uma história curiosa [fico na dúvida se não devia mudar de parágrafo também]. Na primeira tentativa, ainda antes do remate, o guarda-redes sai da baliza, simulando para a sua direita mas acabando por se lançar para a esquerda, e defende com a ponta dos dedos a bola entretanto rematada. Como o guarda-redes se adiantou antes do remate, o árbitro manda repetir e, à segunda, o Jovane Cabral não perdoa. A curiosidade, a surpresa não é suscitada nem pelo “penalty”, nem pelo remate, nem pelo golo: cinquenta anos de sportinguismo depois, vejo um árbitro mandar repetir um “penalty” a favor do Sporting depois de uma primeira tentativa falhada. 

Não sei se estou preparado para viver com a aplicação das regras nos nossos jogos. Deixa de ser bingo e passa a ser futebol e abre-se um admirável mundo novo, em que não somos a equipa do campeonato com mais amarelos ou o Coates deixa de saltar sem dois ou três jogadores adversários às cavalitas. Muita coisa me passou pela cabeça: jogar contra dez ou nove jogo atrás de jogo; dispor de uma dezena de minutos de desconto sempre que conveniente; ver o Acuña a vociferar e a aviar adversários sem levar cartões; ouvir os comentadores da arbitragem explicar o inexplicável; ler n “A Bola” hossanas e hossanas à visão, engenho e capacidade de gestão de qualquer presidente com bigode. 

Ao intervalo, parecia que queríamos tornar este jogo ainda mais épico ao trocar o Jovane Cabral pelo Francisco Geraldes. Como adepto sportinguista, desconfi(n)ado por natureza, imaginei a transformação do milagre em tragédia, com títulos do El Pais e relatórios da Organização Mundial de Saúde a falar de “disaster recovery”. Mas, ao passarem minutos atrás de minutos sem ver ninguém a estrebuchar, moribundo, com uma das chuteiras de um jogador treinado pelo Petit atravessada na carótida, compreendi melhor o que se passou (passou-se?): negociámos um armistício que permitiu concluir o jogo-treino com o Borja, o Doumbia, o Battaglia, e o Ilori ao mesmo tempo em campo, como contrapartida a deixar o Jovane Cabral no banco. 

Temos a melhor equipa desconfinada da Europa e o melhor jogador desconfinado do Mundo. Os progressos são incríveis e vêem-se à vista desarmada em momentos de jogo tão simples como no olhar penetrante do Borja na sua habitual marcação com os olhos ou na troca de bola de pé para pé durante dois minutos dos referidos Borja, Doumbia, Battaglia e Ilori. O Amorim demonstrou que as aulas presenciais e o ensino formal mais não servem do que para destruir as competências das pessoas. Queremos continuar desconfinados mas sem início de ano letivo!

terça-feira, 23 de junho de 2020

Ato falhado

Um dos acontecimentos mais surpreendentes do futebol português registou-se no jogo do Sporting contra o Paços de Ferreira. O árbitro marca “penalty” contra o Sporting, que não existe, e mostra amarelo ao Coates, que se encontrava a uns largos metros do local onde a suposta falta se realizou, confundindo-o com o Borja. A confusão entre os dois jogadores é uma impossibilidade có(s)mica. Para além da distância, um é muito, muito alto relativamente ao demais e ao outro também; um é branco e o outro é negro; um é calvo e o outro guedelhudo; um tem barba e o outro tem a cara impecavelmente escanhoada. É quase impossível confundir dois jogadores tão distintos, um uruguaio e um colombiano, cujo único elemento em comum é a camisola. 

O acaso não explica este acontecimento, este fenómeno. Está-se em presença de um ato falhado. Havia uma intenção inconsciente, subliminar. Pode-se pensar que essa intenção seria a de mostrar o amarelo ao Coates ou a de marcar um “penalty” quaisquer que fossem as circunstâncias. Não tenho a certeza que assim seja ou que assim tenha sido. O ato falhado é outro. O árbitro marcou “penalty” sem certeza, sem completa consciência de a sua decisão estar correta, tendo tratado de encontrar um subterfúgio que a permitisse reverter, tal a evidência da troca de jogadores. Conscientemente marcou “penalty” mas inconscientemente tratou de arranjar forma de o anular.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Prontos para apresentação aos sócios!

Estamos em pré-época e a minha disponibilidade para compreender as experiências do Ferro e do seu novo treinador-adjunto é naturalmente generosa. Mais dois jogos destes e a equipa está em condições de ser apresentada aos sócios. Está na altura de nos apresentarem um francês entradote que tem um pé esquerdo que passa a bola sempre redondinha para os seus colegas; um uruguaio alto e espadaúdo que limpa de cabeça todas as bolas por alto; um puto que joga a central com alma até Almeida e um cabedal que impõe respeito e permite ganhar uma e outra vez o corpo a corpo com os adversários; um puto brasileiro no meio-campo que tem um pulmão que não acaba, está em todo o lado ao mesmo tempo e ganha bolas atrás de bolas, embora ainda um pouco faltoso; um outro puto que se parece com o que saiu para o Manchester United (Jovane Fernandes Cabral, será?). Há mais uns putos interessantes, como o lateral esquerdo e o guarda-redes, que, como os restantes, são desconhecidos de todos nós. 

Neste jogo contra o Tondela, registaram-se evoluções relativamente aos dois anteriores, contra o Guimarães e Paços de Ferreira, embora ainda continuem presentes as dificuldades mas também as virtudes do modelo de jogo adotado. A evolução esteve na pressão mais alta sobre a saída de bola do adversário e numa maior facilidade em a ganhar em terrenos mais adiantados se não à primeira pelo menos à segunda. Num ou noutro contra-ataque, a equipa também se reorganizou para defender. Na segunda parte, a defender, a equipa esteve sólida, compacta e sem dar abébias ao adversário. No ataque, ao se jogar com três centrais, privilegia-se em demasia o jogo exterior, sem movimentos interiores com a frequência desejada dos extremos e apoio dos médios, existindo uma só referência na área e inferioridade numérica no meio. O ataque parece viver da irrequietude dos putos e, em especial, da insolência do referido Jovane Fernandes Cabral (será?). As oportunidades foram poucas mas aproveitadas com enorme avidez, permitindo a vitória por dois a zero. 

A arbitragem não precisa de apresentação ou reapresentação. Houve trezentos e vinte e oito “penalties” a favor do Sporting. Em todas as situações, vimos marcar por muito menos. Um empurrão não se basta e é preciso recorrer à cinemática e à mecânica para se saber se é falta ou não, fazendo-me recordar os conceitos de torsor e de momento (o momento é a força vezes o braço ou a distância). Bola na mão ou mão na bola também depende de análises profundíssimas sobre a relação entre volumetria e movimento dos braços. Com mais ou menos ciência, não parece adequado é não penalizar a placagem do “arrière” da equipa de rugby do País de Gales ao alto e espadaúdo uruguaio. Como todos sabemos, no rugby, uma placagem sem bola origina uma penalidade e a possibilidade de, na sua conversão, se somar (mais) três pontos.