quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Bom ano com o Scrooge e tudo!

Ganhámos, ganhámos e voltámos a ganhar e alguns sportinguistas, não satisfeitos, parecem embalados na conversa dos comentadores oficiais do regime. Aproximam-se tempos tenebrosos, de jogos atrás de jogos, de dificuldades e mais dificuldades. O horror, a frustração, o desânimo estão ao virar da esquina! O que vai fazer o Ruben Amorim? Como é que irá reagir um Nuno Mendes, um Tiago Tomás ou um Bragança a estas exigências? E os amarelos? E o avançado que tanto vem como não vem? E o central, não precisamos de um central, vamos continuar com o Neto? 

Este Natal foi um belo exemplo de que há coisas que interessam mais, muito mais. Este Natal foi chocho, muito chocho. A pandemia não dá tréguas e as mensagens foram poucas e pouco animadoras. Irritado, enviei uma série de mensagens de bom Natal com umas imagens parvas que para aí andam, com o Pai Natal vestido de verde e apelos ao exemplo do Sporting de isolamento e distanciamento. As respostas foram às pazadas de sportinguistas, de portistas, e de benfiquistas. De repente, estava a responder a um mar de gente. Um amigo de longa data, com o qual não converso há anos, liga-me e conta-me as histórias do filho mais novo, miúdo, do seu orgulho em ir à escola para demonstrar aos seus colegas benfiquistas e portistas com quantos paus se faz uma canoa. 

Não, não estamos a perceber nada do que está a acontecer. A disputa do campeonato pouco importa. É mais, muito mais do que isso. Estamos a redimir-nos, a reconciliarmo-nos connosco próprios e com os outros. Já ganhámos, não custa assim tanto perceber. Devemos isso ao Ruben Amorim, ao Tiago Tomás, ao Coates, ao Neto [sim, ao Neto também!], ao Pedro Gonçalves, ao Nuno Santos, ao Sporar [também ao Sporar, sim senhor, ou não nos lembramos do penalty à Panenka no último minuto?!] e por aí fora. Há as sombras do costume e esta jornada foi pródiga nelas, no jogo do Porto e no do Benfica. Mas até os Contos de Natal do Charles Dickens não vivem sem o odiento Scrooge, que até ele se redime [se um dia houver juízo, talvez o futebol português aproveite esta oportunidade para se aproximar da redenção]. 

Nada do que possa acontecer nos retira o que já ganhámos, o que os nossos já ganharam com a nossa camisola. Não há ninguém, nem o Scrooge, que faça o tempo andar para trás. Não tendo desejado um bom Natal, desejo um excelente ano de 2021 aos rapazes da nossa equipa e, através deles, a todos os sportinguistas.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Não há cérebro sem corpo, embora possa existir corpo sem cérebro

Não bastava jogar contra uma equipa com nome de laranjada ou refresco [prefiro 7-Up a estas bebidas isotónicas, para que conste]; não bastava jogar num campo e num estádio sem dono [no PREC chegou a ser uma Unidade Coletiva de Produção e, ao que dizem, passou a zona de caça turística gerida pela FPF com uns dinheiros do Cristiano Ronaldo à mistura]; como disse o Rúben Amorim, era preciso ainda preparar taticamente pior a equipa do que prepararia o Petit, prepará-la para menos do que nada. Em conclusão, para se estar preparado para tudo é preciso preparar-se para tudo ou para nada. 

Quando se refere tudo é tudo mesmo, incluindo um novo fenómeno Lucílio Baptista. Este fenómeno caracteriza-se por se ver o que não se vê e não se viu, não sendo propriamente uma forma de adivinhar. Trata-se de um erro de paralaxe de uma pessoa, mas que altera a realidade de todas as outras ao seu redor. Já me aconteceu. Um dia, a passear de carro no Alentejo fui surpreendido por uma vaca a voar, apontando: “Olha, olha uma vaca a bater as asas, a voar!”. Ao meu lado, a minha mulher não disse nada, cumprindo à risca o protocolo do VAR. Essa situação foi analisada por um ex-árbitro na SIC. Que não, não era uma vaca. Que sim, era um mamífero. Que talvez fosse um veado. Que a afirmação correta devia ter sido: “Olha, olha um veado a bater as asas, a voar!”

A análise do lance do suposto “penalty” do Adan foi clara quanto ao erro de paralaxe e ao processo estranho de alteração da realidade. O tal ex-árbitro jura a pés juntos que o avançado não toca na bola, mas que precisava de uma imagem de demonstrasse que tinha sido o guarda-redes a tocar-lhe. Não se aplica o habitual se não é boi é vaca ou se não é galo é galinha. Sem visualização da genitália, se não é boi pode ser andorinha ou se não é galo pode ser rinoceronte. No “penalty” a nosso favor fez o favor de explicar que se o defesa se limitasse a espetar uma faca nas costas do avançado havia razões para mostrar o vermelho. Se ao mesmo tempo lhe enfiar um balázio na mona, então deve-se mostrar o simples amarelo. 

Ando a ler “Sentir & Saber”, do António Damásio [não confundir com Manuel Damásio, se faz favor], e encontro-me especialmente preparado para compreender estas análises. Chama-se inteligência ou competência não explícita, resultado da evolução de processos bioquímicos que permitem detetar sem sentir, sem compreender, sem saber. Os seres unicelulares, como as bactérias, dispõem-se exclusivamente desta competência. Os homens, dispondo de sistema nervoso, combinam formas não explícitas e explícitas para a sua sobrevivência e nenhuma substitui a outra. Não tem mal, mas saber pressupõe sentir e compreender o que se sente: não há cérebro sem corpo, embora possa existir corpo sem cérebro. 

Continua a ladainha que todas as equipas já compreenderam o sistema tático do Rúben Amorim. Umas porque estacionam o autocarro e não dão espaços nas costas da defesa, outras porque marcam a saída da bola pelos centrais e fecham as laterais, impedindo as subidas de Pedro Porro e de Nuno Mendes. As equipas vão perdendo, uma atrás da outra, mas estão a compreender, a saber. A única que compreendeu, que soube de facto, foi a equipa do Luís Godinho e, ainda assim, precisou da compreensão, da sabedoria da equipa do VAR. Os adversários não precisam de compreender o sistema tático do Rúben Amorim, mas tão-só de aprender com quem sabe sem saber, através de um longo processo de evolução da espécie que determinou o equilíbrio homeostático do futebol português. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Je suis Charlie!

Fui jantar a casa de uns amigos, não vendo o jogo em direto. A confiança era total. Não vacilei, nos queijos, na sapateira ou no robalo. Ataquei com o que tinha mais à mão. Não perdi um tópico de conversa. Do meu lado esquerdo, ao fundo da sala, passava o jogo. Dei uma ou outra olhadela, de esguelha, de soslaio, tranquilo, muito tranquilo. Como disse, confiança total: a vitória era nossa assim ou assado, como o robalo.

Cheguei a casa e vi o jogo em diferido. Um exercício mais ou menos burocrático, como verificar se as vacinas estão em dia ou a data de validade do Cartão de Cidadão ou da Carta de Condução. Sabemos de antemão que está tudo bem. Queremos é tomar nota mental da necessidade mais ou menos urgente de passar pela Loja do Cidadão. Estava tudo em dia, como esperava. Em janeiro, talvez não fosse má ideia passar pela Loja do Cidadão para trazer um calmeirão para o ataque, um Bas Dost por um oitavo do preço anterior.

Há um ano, qualquer equipa que jogasse contra o Sporting entrava de peito feito à procura da vitória. Agora entram para perder por poucos. O Farense esteve impecável. Entrou para perder por um e o mais tarde que pudesse ser. Só perdeu por um no final do jogo e assim podem voltar para casa com a consciência do dever cumprido e com a confiança em alta. Não sou do Farense, mas, se fosse, estava orgulhoso daqueles bravos rapazes. Entre eles e o árbitro, com os do Sporting à mistura, conseguiram arranjar 44 faltas, mais ou menos uma por minuto de jogo útil. É bom, muito bom. É obra! 

O Sporar marcou de “penalty” à Panenka. Pouco se falou desse feito, dessa impossibilidade có(s)mica, de um eslovenos marcar como um checo. Falou-se de artes marciais mistas ou MMA. Há opiniões para todos os gostos. Vale mais pontos o direto do guarda-redes nas fuças do Feddal ou o mata-leão aplicado no pescoço do Coates? Na conferência de imprensa o Rúben Amorim foi ambíguo. Por um lado, prefere o mata-leão mas, por outro, confessa que um direto é mais contundente. Também não sei dizer. Foram dois bons golpes que apanharam os adversários desprevenidos. Conclui-se o jogo e uma horda de muçulmanos do último reduto do Algarbe Alandalus, armada de cimitarras, desatou a perseguir campo fora o Charlie Hebdo. O árbitro não foi de modas e, solidário, mostrou um cartão onde se lia em letras garrafais “Je suis Charlie!”.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Um Natal alternativo

 

O jogo começou com zero a zero. O jornalista da SportTv estranhou. O Sporting ainda não tinha marcado. Seria desta? Já no aquecimento se notava qualquer coisa. O Vidigal não se deixou logo levar por estas evidências um tanto ou quanto esotéricas. No entanto, a equipa do Sporting mordeu o isco, deixando-se levar por uma certa melancolia pré-natalícia, enredando-se numa teia dinâmica a dar para o autocarro de passageiros com vídeo e wi-fi, onde se lia por fora: Sporting Clube de Farense. O Farense estava de volta dezanove anos depois e o Sporting podia chegar ao Natal em primeiro lugar dezanove anos depois. Estas coisas pesam no subconsciente da malta.

Ao intervalo não houve golos.

O início da segunda parte começou com zero a zero. O Jornalista da SportTv salientava a organização defensiva do autocarro que poderia a qualquer momento transformar-se num Tuk-Tuk a descer perigosamente uma ribanceira. Vidigal torcia o nariz (embora isso não se pudesse observar em directo) àquilo que normalmente se denomina de um jogo menos conseguido do Sporting e já toda a gente aguardava mais uma conferência de imprensa de Jorge Jesus.

Cerca dos noventa minutos de jogo o resultado estava zero a zero. Como no aquecimento, aliás. Numa jogada na área do Farense, Coates sofre um penálti prontamente não assinalado. Em sequência da jogada, o guarda-redes do Farense esmurra um Feddal mal colocado (não deveria estar ali e assim não seria esmurrado, ou quem deveria estar era o Coates e assim não seria penálti), confundindo o árbitro ao ponto deste assinalar uma grande penalidade óbvia porque não cometida sobre o Coates. Um estupefacto Sporar marcou mais um golo sem sequer suar a camisola. Chegamos ao Natal em primeiro. Como não estava previsto, ficámos a aguardar a conferência de imprensa de sua excelência o Pai Natal, e da comissão de festas da Federação Portuguesa de Futebol. .

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Lições de gestão e Rúben Amorim

Ao longo da minha vida profissional não fiz outra coisa do que gerir equipas de trabalho. Dei também aulas de gestão, embora sempre considerasse que a gestão não é uma ciência, quanto muito, um ofício, que se aprende fazendo. Não há nenhum livro, nenhuma teoria que habilite ninguém a tratar com uma pessoa em particular. Os livros ajudam a construir grelhas de leitura para melhor se lidar com pessoas, mas não nos ensinam a tratar com todas e cada uma e é sempre de pessoas que trata a gestão. 

Não sei se o Rúben Amorim alguma vez estudou gestão. Porventura, não estudou e, por isso, é que se trata de um bom gestor. Na prática de gestão aprende-se que uma organização que não faz bem o básico, o banal, o habitual está sempre condenada ao insucesso. O sucesso começa no dia-a-dia, no trivial, naquilo que ocorre e acontece bem que nem nos damos conta que ocorreu e aconteceu bem. No futebol, esse dia-a-dia, o banal, o trivial, é a defesa. É a defesa no duplo sentido. É defender bem coletiva e individualmente e, tratando-se de um jogo, ser capaz de neutralizar os pontos fortes do adversário. O Rúben Amorim começou por aí e tem sido a partir daí que a equipa tem evoluído. 

O que conta, o que verdadeiramente conta, é o método. O meu pai tinha uma expressão que reproduzia até à náusea, que não sei se era da cabeça dele ou a tinha encontrado em algum lado: “O método é o caminho lógico para a descoberta de verdade”. O esquema tático do Rúben Amorim está estabelecido e os jogadores conhecem-no como ninguém. Quando o método é bem conhecido e interiorizado por todos, a flexibilidade aumenta, parecendo que não. Quando todos conhecem o método, o lateral esquerdo pode jogar à direita ou no meio-campo. Quem geriu equipas sabe que assim é e é assim que tem de ser. Os recursos são sempre escassos e a flexibilidade e a adaptação são virtudes. O sistema de três defesas tem várias alternativas, podendo ser protagonizados por vários jogadores e com posicionamentos relativos entre si diferentes, conforme as circunstâncias do jogo. Já vimos vários jogadores a fazer o trio de defesas, mesmo durante o decorrer do jogo, conforme se pretenda um balanceamento mais ofensivo ou defensivo. A tática dos três defesas é que nunca muda.

As duas premissas são condição necessária mas não suficiente. Há uma parte que está no acreditar. Uma das coisas mais importantes que aprendi na vida é que as expetativas são autorrealizáveis. Pela negativa é que não há dúvidas nenhumas. Se não acreditarmos, não vamos fazer e não fazer alimenta a descrença e a descrença leva-nos a confirmar que sempre tivemos razão para não acreditar. É um círculo vicioso que se autoalimenta e não há forma de o quebrar. Pela positiva, as coisas são mais difíceis mas o círculo virtuoso também acontece. Se acreditarmos, vamos fazer e, ao fazer, se fazemos acontecer reforça-se a crença. Acreditar não é fé. É tentar que todos compreendam que é possível chegar a um objetivo, a um resultado, que transcende cada um. Há quem lhe chame visão, embora o enunciado das visões que se veem por aí seja de chorar às lágrimas. A liderança tem neste contexto um papel fundamental. Acreditamos se acreditarmos em quem lidera. É isso que nos faz melhor, que faz com que cada um se sinta parte, que um avançado recue mais depressa para ajudar um defesa, que um defesa guarde as costas do avançados. E conforme se fazem as coisas acontecer maior é a crença e quanto maior a crença mais se faz acontecer. É o que se está a ver com Rúben Amorim.

A gestão não é uma ciência e, portanto, nada nos garante que se se fizer o que é suposto fazer-se os resultados vão sempre acontecer. A gestão não é física: a maçã às vezes cai, outras não, cai com a aceleração da gravidade, outras não, não cai e fica a planar. O desempenho de gestão não envolve exclusivamente os recursos internos. Depende da envolvente externa que não se controla, as ameaças e as oportunidades que a famosas análises SWOT sempre sublinham. O problema do Rúben Amorim está nessa envolvente externa: sobram ameaças e faltam oportunidades. Quando assim é, por muito bom gestor que se seja, nem sempre se consegue. Quando não se consegue, nem sempre a culpa é do gestor. Como costumava dizer o nosso ex-primeiro-ministro e atual Secretário-geral da ONU: é a vida!         

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

“Memento mori”

No regresso a Roma depois de campanhas militares vitoriosas, os generais romanos tinham a mania de levar atrás de si uma escravo que lhes repetia permanentemente ao ouvido: “Respice post te. Hominem te esse memento. Memento mori”. O Rúben Amorim tentou a mesma coisa com o Ferro, mas, ou porque não sabe latim ou porque só decorou a cassete das “flash interview”, desistiu. Tentou de outra forma, com o Neto, o Borja ou o Sporar, especialmente com o Sporar, como vimos hoje no jogo contra o Mafra, não aos cochichos mas dentro campo. E assim: “Olha ao seu redor. Não se esquece que é apenas mais um treinador do Sporting. Lembra-se de que um dia vai perder”. 

O jogo contra o Mafra foi isto e pouco mais. Se houver um toupeira em campo, o Sporar mais depressa lhe acerta do que na bola [“sim, eu sei, ele também não acerta na toupeira, é só uma forma de dizer; aliás, no golo, a bola ressalta, notando-se que foi uma toupeira a fazer-lha embater na canela, quando nos preparávamos para lhe ver o taco espirrar mais uma vez”]. Está na sucessão de uma linhagem de grandes pontas-de-lança, onde se incluem um Eskilsson, um Peter Houtman, um Purovic, um Missé-Missé ou, mais recentemente, um Castaignos. Depois de o ver jogar, se um treinador não se reconduz à sua mais simples condição humana, então, é porque se trata de Jorge Jesus.  

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Prà rua ou prò c@&@#$o

Ligo a televisão na TVI para ver o jogo do Sporting contra o Paços de Ferreira, o grande Paços de Ferreira que fez tremer o gigante Benfica, treinador pelo não menos gigante Jesus ao ponto de necessitar de um cabeceamento do árbitro para ganhar no último minuto. Começa o jogo e começo a ouvir os comentários do Dani. Fazia o mesmo sentido aquilo que dizia como fazia se estivesse a passar um documentário do Discovery Channel. Aliás, as semelhanças dele com o David Attenborough são incríveis: nenhum deles percebe nada de bola, com exceção do David Attenborough. 

O Sporting começa por insistir, insistir no ataque. Moita-carrasco, o Paços de Ferreira não respondia. E, pouco a pouco, o Sporting parecia ter desistido. Os jogadores do Paços de Ferreira foram arrebitando, conforme iam ouvindo o Dani, ou vice-versa, não sei bem. De repente, com três toques apenas se escreve a palavra mãe, das palavras pequenas a maior que o mundo tem: Coates lança em profundidade, o Nuno Santos desvia de cabeça e o Tiago Tomás de primeira enfia a bola ao ângulo. 

O Tabata [dão-se alvíssaras a quem me explicar que jogador é este, de onde vem, para onde vai e se vai e leva uma muda de roupa] corre pelo lado direito e sozinho, junto á área, enfia uma biqueirada para a bancada. Mensagem de WhatsApp recebida: “Este Tabata está a gozar comigo”. Resposta imediata: “É um brinca na areia, é o que é”. Golo, Tabata! Correção, correção: “Não é um brinca na areia, nada disso, peço desculpa”. Jogada incrível do Sporting: troca de bolas entre o Palhinha e o Porro, lançamento de bola para a diagonal do Tiago Tomás que a segura, deita uma e outra vez o defesa enquanto espera para a passar ao Tabata que a ajeita para o pé esquerdo e a enfia ao ângulo outra vez. 

Não, não estou preparado psicologicamente para ver o Sporting jogar tanto. Vale-nos o Neto [“desculpa Neto!”] porque, sem ele, era um cabo dos trabalhos e uma discussão sem fim para se encontrar um ponto fraco da equipa. Começo a acreditar que os três centrais são para isso mesmo, para jogar o Neto e não perdermos muito tempo a apontar o patinho feito. De outra forma, ou se recorria a uma análise do Instituto Ricardo Jorge ou nada feito.

A segunda parte foi mais do mesmo. Entusiasmo do Dani com as transições do Paços de Ferreira, com os seus ataques vertiginosos e os seus defesas laterais transformados numa dupla-dupla, numa dupla mesmo dupla, melhor dizendo. “Falharam na finalização, não tem mal, há que treinar mais, mas os princípios de jogo estão lá”, diz o Dani, enquanto me lembrava da rosca do Neto para a própria baliza e a única defesa do Adan. Os nossos estavam com os princípios todos e com os finalmentes também e marcámos mais um, deixando mais três ou quatro para quem os apanhar. Por via das dúvidas, marcou o Palhinha para não se inventar mais uma falta do Coates. 

O árbitro Pinheiro fez um bom jogo, um jogo como deve ser. Não foi por ele que o adversário ganhou. E amarelo para o Palhinha. E amarelo para o Nuno Santos. E amarelo para o Ferro que também não parece de ferro [“eu sei, eu sei, foi ao Vital, mas não se pode perder este trocadilho da treta”]. Esperava ansiosamente que seja mostrado o amarelo ao Paulo Cintrão, debalde. Lembro-me de uma mensagem de WhatsApp inicial de um amigo que estava a ver o jogo na Sporttv:”Eu ponho-te na rua, c@&@#$o!, diz o árbitro a um jogador do Paços de Ferreira”.

Finalmente percebe-se, percebe-se tudo: a forma educada como se trata os jogadores do Sporting. O árbitro está disposto a mandar um jogador do Sporting para a rua, mas nunca para o c@&@#$o, para o c@&@#$o só os adversários. Sei bem o que isso pode representar para o crescimento de um jovem e para a sua autoestima. Fui um pouco “nerd” na adolescência, mas, durante o ciclo preparatório, tinha a mania de ser engraçadinho [achava que assim impressionava um miúda pela qual esperei como esperei pelo amarelo ao Paulo Cintrão]. Os professores mandaram-me várias vezes para a rua e saí sempre feliz. Não sei o que teria sido de mim se me tivessem mandado para o c@&@#$o.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Notas de rodapé

 

O Sporting fez um grande jogo, com momentos (e golos) capazes de levantar um estádio vazio. Está provado que é possível. A páginas tantas, eu só pensava: o tridente da frente (é assim que se diz?) é composto por um gajo que jogava no Portimonense, outro no Rio-Ave e outro ainda que jogava nos sub qualquer coisa 21 ou 23 do Sporting, já não sei. E quando descíamos o olhar continuávamos surpreendidos com a qualidade da equipa, onde, por vezes, até o Neto engana. A coisa tem mão, antebraço, cotovelo e braço do treinador. Arriscaria dizer até que tem clavícula e omoplata do técnico. A distribuição anatómica do treinador no jogo da equipa chega ao ponto de o cérebro conseguir faiscar várias sinapses, causando alguma surpresa até nos comentadores do jogo na TVI.

O Paços de Ferreira é uma boa equipa, com bons jogadores, e visitou Alvalade para jogar futebol. Não sei se será conveniente entronizar já o Pepa no olimpo dos treinadores, mas os resultados e as exibições recentes da equipa são um excelente cartão de visitas. Posto isto, vencemo-los duas vezes, marcando cinco golos sem sofrer nenhum. Um pormenor apenas.

Assim de cabeça, o árbitro do jogo conseguiu mostrar quatro cartões amarelos, três dos quais (adivinharam) mostrados a jogadores do Sporting (Porro, Palhinha, Nuno Santos). Amarelar é um verbo transitivo muito bem conjugado pelos árbitros que apitam o Sporting. Quem pode, pode…

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

"Onde se quebrou o pote, aí é que se procura a rodilha."

Bastaria a celeridade com que o conselho de arbitragem se manifestou após o Famalicão-Sporting para percebermos, não apenas o que está em jogo, mas igualmente que não fazemos parte desse jogo. Não entramos na equação. Não estava (nem está) previsto qualquer desvio. Note-se: o dito conselho de arbitragem que, pelos vistos se reúne apressadamente ao sábado à noite através do Zoom (presume-se), e rapidamente se apressa a defender a ordem (pré)estabelecida, aplaudindo a decisão de arbitragem (a segunda, presume-se) e do VAR sobre o golo anulado a Coates, não faz qualquer comentário, não reclama nem mais um aplauso, nem uma vaia sequer, para o resto do jogo, e teria material suficiente para escrever um novo código de conduta para árbitros submissos ao sistema. Nesse sentido, terá perdido uma oportunidade. 

O ridículo, felizmente, não mata. Escrevemos aqui milhares de vezes que a bipolarização do bolo do futebol português não admite outros cozinheiros (ou chefes em crescimento, já agora). É para fazer de conta que existe uma competição. No final, ganha uma das faces da velha moeda. A proteção da moeda, cara ou coroa, decide o futuro dos intervenientes no (suposto) jogo. É assim com os árbitros. É sabido: "onde se come, ficam migalhas."

sábado, 5 de dezembro de 2020

Relato e análise ao jogo Famalicão x Sporting

Relato:

“Início do jogo e Artur Soares Dias passa para Luís Godinho. Artur Soares Dias dá indicações para Luís Godinho avançar no terreno e Luís Godinho avança. Artur Soares Dias dá indicações para Luís Godinho recuar e Luís Godinho recua. Espera, espera, está um jogador do Sporting a impedir a jogada de Luís Godinho. Luís Godinho afasta-o, bem, muito bem Luís Godinho! Artur Soares Dias dá indicações para Luís Godinho desmarcar e Luís Godinho desmarca. Bem, muito bem Artur Soares Dias e ainda melhor Luís Godinho!” 

Análise ao jogo:

“O árbitro esteve muito bem. Vê-se que apitou para o início do jogo exatamente no momento em que o jogo se iniciou. É um lance de muito, muito difícil decisão. O jogo inicia-se com o apito e ao iniciar-se é porque houve o apito? Está-se em presença da dialética entre o ovo e a galinha. No início do jogo, no contexto desta dialética, a FIFA determina que se deixe jogar. Nem sempre os espetadores se encontram familiarizados com a dialética hegeliana e a sua oposição ao kantianismo e à dialética transcendental e é preciso esclarecê-los. No final da primeira parte, volta-se outra vez à dialética hegeliana e à forma como a FIFA a interpreta e, ao interpretá-la, determina a sua aplicação. A primeira parte acaba porque o árbitro apitou ou porque acabou a primeira parte é que o árbitro apita? A ação [de apitar] determina a inação [fim da primeira parte] ou é a inação [o não jogar] que determina a ação [o apitar]? A FIFA manda jogar, desculpe, não jogar, neste caso. O início da segunda parte e o seu final também não estão isentos de dificuldades interpretativas, mas a discussão reconduz-se ao início da primeira parte e ao seu final. A FIFA manda jogar ou não jogar, conforme os casos, dada a impossibilidade de determinar o início da relação de causalidade entre o ovo e a galinha, de acordo com a dialética hegeliana ou outra dialética qualquer. De mais simples análise é o sopro, o sopro no apito, em todos estes momentos. As imagens são claras. Nota-se nitidamente que o árbitro inspira primeiro, cumprindo as leis da FIFA. Menos informados, os espetadores tendem a estabelecer uma relação de permanente sequência entre inspirar e espirar, impedindo que se conclua também o que determina o quê. A FIFA interpreta essa relação como uma relação que, embora sequencial, se inicia com a ação de inspirar. Num primeiro momento, espirar é uma consequência de inspirar, e não o contrário, e só depois é que as relações de causalidade se sucedem, mas sem necessidade de apito. Luís Godinho e Artur Soares Dias estiveram muito bem, aplicando muito bem as leis e as suas interpretações da FIFA. As imagens são claras e os espetadores encontram-se esclarecidos. Não, de nada, não precisam de agradecer, estamos aqui para esclarecer.”

[O relato e a análise ao jogo são acompanhados de Missa Cantada, em fundo, de acordo com os livros litúrgicos e as melhores práticas litúrgicas]

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Filhos de um deus menor

 

O jogo para a liga dos calmeirões entre o Moreirense e o Sporting, perdão, entre o Porto e o City, foi extremamente interessante do ponto de vista sociológico/futebolístico, permitindo-nos, finalmente, perceber a expressão: o rico, come; o pobre, alimenta-se. A grande diferença entre o Porto-City e o Sporting-Moreirense é que o Porto jogou em casa. O Porto é mais rico que o Moreirense e o City é mais rico que o Sporting, sendo que as diferenças de orçamentos entre Porto/City e Sporting/Moreirense são igualmente brutais, embora o Porto seja um cliente habitual da calmeirões e, por isso mesmo, segundo os próprios, um membro do clube.  

Todavia, quando assistimos a ambos os jogos, reconhecemos parecenças interessantes: tanto o Porto como o Moreirense (e aqui talvez mais o Porto), pouco ou nada fizeram para ganhar o jogo, estando largos períodos sem sequer se aproximar da baliza adversária, quanto mais fazer um remate enquadrado com a dita cuja. City e Sporting, por outro lado, para além do domínio territorial e da posse de bola, jogaram uma espécie de tiki-taka maníaco compulsivo, com sucessivas trocas de bola para o lado e para trás, ora verificando se a torneira estaria fechada, ora se o gás teria sido desligado. Sei o que isso é, vou muitas vezes atrás para ver se fechei a porta do carro.

Entretanto, mesmo assim e, apesar disso, construíram várias oportunidades para golo, sendo que o Sporting conseguiu ganhar (sem espinhas) o jogo. Os comentadores, por seu turno, salientaram o grande jogo defensivo (não poderia ser outro, obviamente), tanto do Moreirense como do Porto, acrescentando, no caso do Porto, o enorme pragmatismo dos 60 milhões em fundo. Uma luz ao fundo do túnel.

Reza a nossa história alternativa que Lito Vidigal se terá deliciado ao assistir ao pragmatismo (deixem passar) de Sérgio Conceição (em tudo semelhante ao do Marítimo quando enfiou três batatas no Dragão), muito próximo do pragmatismo do Marítimo no recente jogo com o Benfica. Jorge Jesus, que aprecia a relativização da verdade, consoante a andança do vento, terá vislumbrado em Conceição uma força inequívoca de futebol com pouca nota artística, bem próximo do (supostamente) defendido por Lito Vidigal. Não fosse aquela falta marcada ao contrário que resultou no segundo golo do Benfica, e ainda estaríamos a discutir se voltava o professor de ginástica ou o senhor Lage. Consoante a luz divina surgisse na noite de Vieira.

Como parentes pobres que somos disto tudo, resta-nos jogar jogo a jogo. Mesmo com pouca luz. 


segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Jogo a jogo, caixa a caixa de Sedoxil

Não é fácil comentar o jogo de sábado contra o Moreirense. Não é fácil porque ainda estou a sofrer dos efeitos de uma caixa de Sedoxil que mamei durante o jogo ["Varandas, pá, quando voltar a haver público, não esquecer de distribuir mexazolan à rapaziada, percebido?!"]. A mania de ir para o ataque, criar vantagem numa ala, estar em condições de meter na área, voltar para trás e para trás até chegar ao guarda-redes e começar tudo de novo transforma qualquer um num “serial killer”. Encontrar-se um jogador à entrada da área com tempo e espaço para rematar e vê-lo passar para o lado e ensaiar uma tabelinha leva a querer cortar os pulsos. Assistir à incapacidade do Sporar de reagir a tempo, de antecipar o lance, de chegar primeiro deixa-nos com uma enorme dor de cabeça depois de a enfiarmos uma e outra vez contra a esquina da parede. A interpretação do Lago dos Cisnes pelo nosso João Nureyev Mário no meio campo deixa-nos com vontade de enfiar o gato pela sanita abaixo ["Desculpa Ana, o gato é teu, mas esteve quase, quase; não, não sou um anormal e prometo que isto nunca mais me volta a passar pela cabeça, mas esconde o gato, por favor, esconde o gato"].

Só de escrever isto voltei a ficar à beira de mais um ataque de ansiedade [um momento, um momento para ir à casa de banho enfiar mais um Sedoxil e gritar ao espelho: “Ganhámos, Ganhámos!"]. Já passou, já estou melhor e escrevo já [“Ganhámos, porra, ganhámos! Toma César Peixoto, vai buscar! Palhinha, grande Palhinha!"]. Estava a dizer exatamente o quê? Sim, qualquer coisa sobre o jogo do Moreirense. Talvez sobre os comentários ao primeiro golo do Sporting. Há quem diga que houve cotovelo do “Pote”. Acho é que há dor de cotovelo de quem gosta de meter a mão no pote, sem aspas e caixa baixa. 

Fico-me pela “flash interview” e pela conferência de imprensa porque, de outra forma, torno a ventilar. O Pedro Gonçalves voltou a receber o prémio de melhor em campo e voltou a falar de equipa, equipa e mais equipa, sem o eu, nunca o eu. O Ferro falou, falou e falou, independentemente da pergunta, sempre com o processo, processo para aqui, processo para ali. O Rúben Amorim foi genial. É jogo a jogo, diz ele, e nós acreditamos, acreditamos que não há campeonato [esperemos que os do costume também se vão distraindo com essa de que não há campeonato, que não estamos a jogar campeonato nenhum, que estamos a jogar um jogo e depois outro, tão-só]. Fala do jogo a jogo e faz-me lembrar a minha infância, em Viseu, na Escola do Magistério Primário. Jogávamos contra os da Escola da Avenida. Jogávamos contra os da Escola de Massorim [os betos da altura]. Jogo a jogo, sem nenhum campeonato, pelo prazer de jogar, por uma vontade de ganhar maior, muito maior do que o medo de perder. 

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Tempos modernos e difíceis ou a eterna vitória do capital contra o trabalho

Ver o jogo do Sporting contra o Sacavenense para a Taça de Portugal na TVI, na televisão da Cristina Ferreira, gerava expetativa, muita expetativa. Esperei, esperei e nada. Nem o António Costa, nem o Marcelo Rebelo de Sousa, nem o Luís Filipe Vieira entraram em campo para fazer umas pataniscas de bacalhau ou uma simples entremeada na brasa. Em vez disso, parecia que estava a ouvir os Tempos Difíceis, de Charles Dickens, ou o Manifesto do Partido Comunista, de Friedrich Engels e Karl Marx. Os do Sporting representavam a burguesia, a classe dominante, os proprietários dos meios de produção, enquanto os do Sacavenense representavam o povo, os oprimidos e o proletariado. Parecia que o Sporting se encontrava a jogar contra o Fabril quando o Fabril tinha jogado contra o Porto. Segundo os comentadores, os do Sacavenense tinham acabado de deixar o Charles Chaplin sozinho na linha de montagem de Tempos Modernos, sem sequer mudar o fato de macaco. 

Mal o jogo se tinha iniciado e já o Nuno Santos tinha molhado o bico. Os comentadores tentaram transformá-lo num novo milagre mariano ao afirmar que o passe tinha sido do Borja. Por falar em Borja, gostei de o ver jogar no lado direito. Sendo canhoto, anda sempre à procura do pé esquerdo quando a bola lhe vai para o direito e essa dessintonia entre o pé que está mais à mão e o pé que está mais ao pé [da bola, entenda-se], constitui uma revienga imparável. Como centra tão mal com o pé esquerdo como com o direito, o resultado é o mesmo, mas passa por dispor de um estilo enleante e azougado. O Coates marcou o dois a zero passado um pouco. O Rui Veloso cantou uma coisa sobre voar sobre os centrais mas com o Coates não é bem assim, é voar contra os centrais, contra a bola, contra o guarda-redes, contra a baliza. O Jovane marcou o terceiro, apesar dos comentadores jurarem a pé juntos que não, não havia “penalty” nenhum. Como todos sabemos, quem mais jura mais mente, acabando por pedir desculpa.

Mal se iniciou a segunda parte e já estava outra vez o Nuno Santos a fazer das suas, das dele, salvo seja, e o Coates só teve de empurrar para o quarto golo. O Jovane ainda foi a tempo de fazer de central, tornando a jogada mais real, mais próxima de um jogo contra o Fabril ou o Paredes, essas grandes equipas de jogadores profissionais, treinados e bem treinados. Sem o efeito surpresa do Borja do lado direito, os do Sacavenense perceberam que o Borja era o Borja e ala que se faz tarde pelo lado esquerdo da nossa defesa. Um operário marcou um golo e, subitamente, um operário era um jogador de futebol, com chuteira, calções e camisola. Estava tudo em modos de assim, até que entrou mais um puto, o Pedro Marques. O puto queria marcar golos à viva força. Atacava a bola de cabeça, não dava uma bola por perdida, tentava e marcava, e voltava a pedir a bola, queria mais, sempre mais. Tudo acabou com o último golo de outro puto, Gonçalo Inácio, impedindo o Coates de fazer “hat-trick” [se fosse comigo, tinha-lhe enfiado uma galheta]. 

Começo a suspeitar que não esteja a ver jogar o Sporting ou que o esteja a ver mas na RTP Memória. Onde anda aquela equipa que transformou o Alverca e o Loures em colossos do futebol nacional? O que tem a dizer o Ministério da Coesão Territorial sobre isto? Foi para isto que se criou o Ministério da Coesão Territorial? Ao menos que mandem entrar em campo alguém do ministério para fazer umas pataniscas de bacalhau ou uma entremeada na brasa.  

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Quarenta e quatro passos, doze toques na bola de canhota e dez segundos e seis décimos

Há uma idade para ídolos e os ídolos não se mudam, porque nunca se volta a essa idade, a idade dos ídolos. O meu ídolo foi e é o Maradona. Tudo o que possa dizer sobre o Maradona tresanda a redundância e falta de imaginação. Sei é que quarenta e quatro passos, doze toques na bola de canhota e dez segundos e seis décimos mudaram o Mundo

domingo, 22 de novembro de 2020

Entretanto...

Estava ao acaso a ver os resumos da bola deste fim-de-semana e dei comigo a pensar com os meus botões: já imaginaram a nossa defesa com Eric Dier (Tottenham e seleção Inglesa), e aquele tipo com nome de medicamento, Demiral (titular da Juventus e seleção turca)? Ambos vendidos ao desbarato, sendo que o Demiral foi literalmente despachado para o Alanyaspor com uma opção de compra absolutamente confrangedora. As suas histórias são diferentes, convergindo, no entanto, na costumeira dissipação de recursos e numa estratégia errática de automutilação sem paralelo no futebol mundial e arredores. Não há uma vacina que nos valha?

domingo, 15 de novembro de 2020

Tudo ao molho e muita fé

 

Fernando Santos a fazer de Fernando Santos, com aquele tique do pescoço e tudo. Fernando Santos a escalonar e a montar (deixem passar) uma equipa à Fernando Santos, mas sem sorte ou Providência que lhe valha. E sem o Éder, que é um tipo bem relacionado. Assim a equipa entrou à espera de um rame-rame confinado que apenas existia na sua mente. A outra equipa, por outro lado, entrou com vontade de ganhar o jogo e surpreender uns desequilibrados tugas. O politicamente correcto de Santos, lançando quem deveria lançar, isto é, quem é suposto lançar no jogo, mostrou, desde o início, um conjunto de jogadores perdidos na sua vaidade de jogadores que jogam em grandes equipas e valem muito dinheiro. A estratégia de jogar para o lado (ou para trás) e deixar passar o tempo não resulta quando a outra equipa chega sempre primeiro a cada bola. Não tarda, o Pedro Gonçalves vai valer um pote de ouro. E ai será mais uma opção para juntar ao molho.

 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Resgatar a alegria


Para isso não precisam de ir a um endireita (no Minho acontece muito). Talvez apenas a vida, em toda a sua plenitude a vislumbre. O futebol de pouco importa, quando as contas nos subjugam, quando o tempo nos esmaga perdidos no trânsito, quando a família fica longe de um olhar. Mas, quando, em tempo de pandemia, não conseguimos sequer pensar em viver normalmente, nem vislumbrar um sentido para tudo isto, o futebol ainda se enterra mais, num lodo indefinível que caminha para o vazio. Como tudo o resto.

De onde brotará então a alegria? De uma conversa, de melhores notícias, de um abraço inesperado sem remorsos. De um livro. As vitórias do Sporting funcionam como um bálsamo para uma pequena e ligeira alegria. Apenas isso. Estamos em jogo. Deixem-nos sonhar.


segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Make Sporting Great Again

Guimarães constitui um “swing state”. Nada está decidido à partida, tanto se ganha como se perde e perder ou ganhar decide campeonatos. Quando se perde, perde-se o campeonato. Quando se ganha, não é certo que se ganhe o campeonato. Mas sem se ganhar, não se ganha o campeonato, como demonstram os últimos ganhados pelo Sporting. Para se ganhar um “swing state” não se pode facilitar à Hillary Clinton. É ir para cima deles desde o início, interessando pouco se são hispânicos, afroamericanos ou "white anglo-saxon protestants" (WASP). 

Era para ir e fomos. Ainda estavam os de Guimarães a ajeitar as meias e os calções, quando o Sporar se deixa antecipar pelo guarda-redes e o João Mário enfia uma bojarda à barra. Logo a seguir, o Sporar fica isolado do lado direito do ataque e volta a fazer-nos lembrar o Krpan, embora, talvez, com um pouco menos de velocidade. Bola recuperada pelo Pedro Gonçalves, tabela com o Sporar, corrida desenfreada até à área, passe para o Nuno Santos, que fica à procura do pé que tinha mais à mão até o descobrir e enfiar um remate rasteiro com o pé esquerdo, fazendo o primeiro golo. 

A ganhar por um a zero, o Sporting acalma e o Guimarães passa a trocar a bola de trás para a frente, de frente para trás e vice-versa [não é indiferente a ordem, mas não sei bem como explicar: começa-se atrás e só se pode passar para a frente e só chegada a bola à frente é que se pode passá-la para trás; também se pode passar para o lado, mas acho que dá para perceber a ideia, a dinâmica da coisa]. Aparece o Quaresma e foi enternecedor o seu duelo com o Neto. Dois homens entradotes, mostrando boa disposição e fazendo-nos lembrar que o envelhecimento ativo e saudável deve ser prioridade das políticas públicas. Ainda esperei vê-los a jogar uma bela partida de dominó, mas não foi possível, porque, entretanto, o Neto ia fazendo de Otamendi, não fosse o Adán estar atento [passada a pandemia, lembrar de voltar a levar o Neto ao lar]. 

Os de Guimarães começaram a ficar empolgados, liderados pelo Quaresma montado num alazão branco, gritando: “Bora, bora que já estão cagados!”. Ou porque não estavam ou porque estavam e precisavam de ir mais descansados para o intervalo fazer o que tinha de ser feito, os do Sporting encheram-se de brios. O João Mário ganha a bola à entrada da área, enfia uma cueca num adversário e vai pelo campo fora até desmarcar o Sporar, no lado direito, que volta para trás, passa para o Pedro Porro, tabela entre os dois, passe atrasado e balázio do Pedro Gonçalves para o dois a zero. Este rapaz talvez ainda não seja um Darwin, mas não deixa de corresponder a uma boa evolução da espécie. 

Os de Guimarães entram na segunda parte com a faca na liga. O André André não leva o segundo amarelo por agarrar o Pedro Gonçalves, ficando evidente que se está em presença de dinastia protegida pelo “establishment”, um género de mistura de “Clynton's family” e de Wall Street. Não levou e fez-nos perder tempo com o VAR e as suas habituais mariquices do fora-de-jogo. O Adán molha o dedo para ver de onde vem o vento, calcula o movimento na vertical, uniformemente (des)acelerado em função do pontapé e da gravidade, e na horizontal, uniforme na ausência de atrito, e coloca a bola no Pedro Gonçalves que a domina e faz o três a zero. O rapaz talvez seja mesmo a evolução final da espécie, sendo necessário uns milénios ainda para o Darwin descer da árvore e se transformar num primata assim. O resto, bem, o resto interessa pouco. O Rúben Amorim fez as substituições que se impunham e o Matheus Nunes parte o resto da loiça que estava por partir e os do Guimarães passam a ter medo de sair do seu meio campo, tal o receio de o verem à desfilada. 

A “flash interview” começa bem com o Neto, parecia um senador do Minnesota ou assim. Piora com o nosso treinador principal Ferro. Ainda não lhe deram outra cassete e ele continua a debitar a anterior. Quando se ganha por um, faz sentido dizer que se deviam ter marcado mais uns tantos e que se criaram oportunidades para tal. Quando se ganha por quatro e se diz o mesmo, é falta de respeito pelo adversário. Na conferência de imprensa, o Rúben Amorim comporta-se como um verdadeiro Joe Biden. O Sporting é candidato ao título? Cada jogo são três pontos e é preciso contar até ao fim. O Sporting é a equipa que pratica o melhor futebol? Cada jogo são três pontos e é preciso contar até ao fim. O Sporting é beneficiado por não jogar as competições europeias? Cada jogo são três pontos e é preciso contar até ao fim. Quem não suporta este discurso é um ressabiado benfiquista, que, a propósito da pandemia, só nos quer deixar festejar no Marquês pela manhã com uma meia de leite e umas tostas no bucho. 

domingo, 8 de novembro de 2020

O jogo seguinte

De falhar, falhar sempre, falhar cada vez melhor (talvez empolgados pelos comentários dos especialistas em epidemiologia futeboleira), passamos para um registo mais simples: ganhar um jogo, ganhar o jogo seguinte, ganhar o jogo seguinte ao jogo anterior… ganhar. Os factos, mesmo os mais destratados na narrativa vigente, mostram um Sporting em primeiro lugar no campeonato, ainda que apenas até ao jogo seguinte, ou talvez até ao jogo seguinte a esse, ou ao jogo seguinte ao anterior que precede o outro. Há sempre uma forma, estatística ou esotérica, de isolar cada vitória leonina num manto enigmático de eventos que deformam cada triunfo como se este fosse um acontecimento cósmico altamente improvável, ainda que possível.

E possível como? Claro está, porque a outra equipa falhou, ou esteve muito abaixo do normal. Porque o Sporting teve sorte. Porque o vento era-lhe favorável. Porque talvez o árbitro não tenha lido a cartilha de forma aceitável. Talvez a missa, em tempos de pandemia, tenha menos súbditos. A impossibilidade de cada vitória, torna possível, sem grandes encargos de dispêndio de inteligência, uma vitória seguinte, ainda que apenas de um jogo. Esse é o caminho, o único possível.  Como dizia um dos comentadores ontem. Tão cedo ninguém apanha um Vitória assim. O Vitória não sei, a vitória apanhou-a o Sporting. Limpinha.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Um amigo, uma frase batida

Vou falar de um amigo. É difícil falar de coisas simples sem parecer piroso. Vêm-nos à memória frases batidas. O Sérgio Godinho inventou-as e a minha geração descobriu-as com as suas canções, percebendo, assim, o que sempre esteve à sua frente. 

O Agostinho é um amigo, dos pouco, muito poucos que a vida me proporcionou. Conhecemo-nos em Lisboa, no Instituto Superior de Agronomia. Eu estudava agronomia e ele arquitetura paisagista. Anos depois, reencontramo-nos em Braga, onde passámos a viver. Sou padrinho da sua filha do meio, a Carolina, a melhor amiga da minha filha Ana. 

Agora vemo-nos menos. Foi viver para Chaves, a sua terra natal. Encontramo-nos para um almoço ou um jantar e telefonamo-nos uma ou outra vez. Como sempre acontece com os amigos, cada reencontro é o regresso a uma conversa inacabada. Costumo enviar-lhe as minhas crónicas, mas raramente falamos sobre elas. O futebol interessa-lhe mas não muito. Há dias enviou-me um breve texto sobre essas crónicas. Não o conseguia fazer no blogue. Pediu-me para o fazer. É esse texto que vos deixo. Este texto é o texto de um amigo. Diz mais sobre a amizade do que sobre as crónicas. 

Eduardo Lourenço escreveu: «A cultura não tem outra realidade que a do diálogo que os atores dela - os poetas em sentido largo - travam entre si». 

Atrevo- me a proclamar que aquilo que designamos por cultura, pode ser um veículo transmissor do que contribui para dilatar o nosso espaço de vida e que concorre para poder acontecer nalgum sítio de nós, um mundo onde dantes não existia nada. 

De facto, a cultura não é só o passear de uma biblioteca debaixo do braço, ela é constituída fundamentalmente por um conjunto de ferramentas e códigos que nos permitem ler e compreender o outro e o mundo que nos rodeia, compreensão essa onde os livros desempenham um papel fundamental. 

Sobram os dedos das mãos para contar as vezes que fui a um estádio de futebol, embora vibre com os golos da equipa Portuguesa e com alguns do Porto.

Essencialmente, para mim, o futebol não era muito mais que o diálogo quase sempre anedótico e repetitivo, às vezes aviltante, que os seus protagonistas estabelecem entre si. Considerava-o, fundamentalmente, uma atividade mercantil muito lucrativa para alguns e manipulada em função do lucro. Que era pouco mais que a invasão do espaço radio-televisivo com horas e horas de cansativos e intermináveis enredos. 

Descobri um admirável mundo novo através das crónicas do Rui Monteiro. Descobri que o futebol era alguma coisa. Que a minha visão sobre o assunto era profundamente redutora e limitada. Que no fim de contas, existe uma narrativa aglutinadora e um conteúdo lógico que explica essa coisa. Que afinal e embora sendo um jogo, a sua componente estética pode extravasar a sua dimensão terrena e que a sua componente estratégica se pode assemelhar à demonstração de um teorema. Que não podemos ficar reduzidos a ver só a parte negativa da coisa. Que é preciso aprender a ler antes de fazer juízos. 

Descobri que afinal o futebol tem potencial para quase poder ter alguns dos atributos da poesia e da música. Descobri que se pode escrever sobre ele utilizando o conhecimento doutros contextos. Descobri que até faz sentido incluir na escrita sobre o futebol, informação e conhecimento de outros saberes que quase transformam esta literatura sobre o futebol numa atividade “cultural”. Descobri que se pode escrever sobre futebol como quem escreve um ensaio. Nesse sentido, posso assegurar que sou hoje menos ignorante e portanto mais culto, porque compreendo agora um bocadinho daquilo que não sabia sequer que existia. 

Claro que há quem continue a pensar que o futebol não deixa de ser o “outro” futebol, só porque o Rui escreve sobre ele com uma linguagem poderosa, rica, esteticamente sedutora e apelativa. Mas, mesmo esse outro lado, também é descrito, nas suas crónicas.

Este texto serve também para celebrar um daqueles números redondos dos blogues, dos milhões de leituras e visualizações. Lembra-nos que esses milhões de pouco servem se não se tiver um amigo de carne e osso, que não se troca esse amigo por milhões, quaisquer milhões. Que me dizem?

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Contas à moda do Porto

A equipa do Porto perdeu quatro a um contra o Lask Linz da Capital do Móvel. Por sua vez, a equipa de arbitragem ganhou dois a zero ao Lask Linz da Capital do Móvel. O resultado consolidado foi de três a dois a favor do Lask Linz da Capital do Móvel. Como é possível tal coisa? O resultado da equipa de arbitragem são números irracionais. Não se está em falar de número enquanto representação e de irracional enquanto exercício ilógico, absurdo, nada disso. Não, não se está em nenhum momento a afirmar que a equipa de arbitragem efetua representações irracionais. As representações são racionais, os números é que são irracionais ou números decimais, infinitos e não-periódicos. 

A equipa do Benfica perdeu três a zero contra o Lask Linz do Porto. O Jorge Jesus queixou-se de os jogadores do Boavista terem na primeira parte acertado trinta vezes nas canelas dos do Benfica. Fui consultar as estatísticas. Não vem nada sobre pontapés nas canelas, mas admito como boa a informação ou não soubéssemos nós, sportinguistas, o que a casa gasta, mas vem sobre pontapés à baliza. O Boavista fez onze e o Benfica um. Em quarenta e cinco minutos os do Boavista enfiaram cerca de quarenta pontapés, ora à baliza ora nas canelas, enquanto os do Benfica pouco ou nada, nem de uns nem de outros. 

Dito isto, o que é que une o Benfica e o Porto? O facto de jogarem contra o Lask Linz, dirão aqueles que tiveram a santa paciência de ler até aqui. Não, nada disso: o que une é que cada um à sua maneira desbaratou mais de cem milhões de euros para fazer este lindo serviço [peço desculpa pelo recurso a conceitos económico-financeiros pouco próprios, quando devia referir resultados líquidos transitados, investimento e amortizações, passivos e ativos e coiso e tal]. 

O Sporting enfiou quatro batatas no Lask Linz de Tondela. O Rúben Amorim cumpriu condição necessária e suficiente para se fazer um bom jogo. Condição necessária, ao assegurar que o adversário não jogasse a ponta de um corno e não tivesse uma oportunidade de golo para amostra; condição suficiente, porque a equipa marcou quatro golos, embora o jogo devesse ter sido de muda aos cinco acaba aos dez. A tática foi um primor: um 3x4x3, que se desdobra num 5x2x3, num 5x4x1, num 3x2x5 ou em várias combinações e arranjos cujo somatório de jogadores de campo não ultrapasse os dez. Há quem diga que tudo se deve à inclusão de um ponta-de-lança. Seria uma explicação plausível se o Sporar fosse um ponta-de-lança. O Sporar não é um mas dois, apresenta a capacidade de desmarcação para as laterais de um Wolfswinkel e a acutilância na finalização digna de um Krpan. 

Mas é de contas que se deve falar. Os jogadores do Sporting fizeram catorze faltas e levaram três amarelos, enquanto os do Tondela fizeram vinte e levaram dois. Em Guimarães espera-nos o Artur Soares Dias ou o Fábio Veríssimo que se segue. Enquanto não jogamos, sempre podemos comparar os pontos fortes e pontos fracos do plantel do Sporting relativamente aos dos rivais Benfica e Porto, como há dias li algures. O do Sporting tem mais pontos: mais um do que o do Benfica e mais seis do que o Porto. Há sportinguistas que dizem que se trata de pontos fracos. Não sei, sei é que são pontos e isso basta. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Agraciados com a ordem do comentador

 

A inveja alheia começava a mordê-lo, sinal de glória.

Vitor Hugo, “Os Miseráveis”


Num jogo em que o passar a fronteira dos concelhos foi feito sem qualquer espécie de pudor, o dia de finados transformou-se numa ode ao Outono. Compreendemos, finalmente, que a “ideia” é um princípio orientador e não um fim em si mesma (deixem passar), interiorizada pela equipa de forma solidária e executada com mestria.

Para alegrar ainda mais a festa, nada como uns bons comediantes: os comentadores de serviço. O nível do comentário permite-nos afirmar, sem qualquer dúvida, que vamos no bom caminho. Não será necessário atingirem o IV nível. O parque de estacionamento serve perfeitamente. Vê-se bem daí, e é junto ao BAR. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Leis gerais, bosão de Higgs e vitórias com o coração

Não vi o jogo de ontem, contra o Gil Vicente. Como sempre costumo dizer, não ver um jogo deixa-nos muito mais à vontade para falar sobre ele, sem as limitações da factualidade, da realidade nua e crua. Há sempre quem diga, quem pergunte: como é que se pode falar de uma realidade que se desconhece? O bosão de Higgs foi observado em 2015, mas a sua existência e características tinham sido antecipadas há muitos, muitos anos, pelo tal de Higgs. Há leis gerais que regem o universo, na física como no futebol. É necessário estar atento e compreender os padrões para dele se obterem leis gerais que nos permitam compreender o universo. 

Os jogos do Sporting seguem um padrão. Não há uma única equipa que tenha jogado bem contra nós. Ou porque se preocupam de mais connosco ou porque nós nos preocupamos de mais com eles, a verdade é que ninguém joga nada, raspas, contra nós. Não, não estou a dizer que jogamos bem; estou a dizer que asseguramos sempre que os outros jogam mal. Ontem, o Gil Vicente marcou um golo no único remate que fez à nossa baliza. Há uma componente de “karma” que obedece a qualquer coisa errada que fizemos no passado e se reflete sempre no presente. Há também a componente que obedece a uma lei geral: não permitimos oportunidades de golo ao adversário. Podemos dizer que isso não é necessariamente jogar bem. Para o Rúben Amorim também não é condição suficiente, mas é condição necessária. 

A compreensão desta lei geral permitiu-me continuar calmo e tranquilo a bebericar um brandy quando um dos meus amigos de jantar me anunciava que estávamos a perder por um a zero a dez minutos do fim. Disse-lhe para estar tranquilo que íamos ganhar. Como é que sabia? Não jogar com nenhum avançado fixo obriga os centrais a andar a correr de um lado para o outro à procura das marcações. Os centrais do nosso campeonato não têm vida para isso e, tarde ou cedo, dão o berro. Os golos do Sporting são resultado desse estoiro com direito a pirotecnia e tudo. Alguém acredita que no início do jogo a triangulação na lateral que dá o primeiro golo acontecia? Alguém acredita que no início do jogo o Sporar ganhava a bola dividida com o central depois de uma correria que dá o segundo golo? Alguém acredita que no início do jogo o jogador do Gil Vicente recebia mal a bola e não tinha pernas para a recuperar ou impedir a progressão e o central deixava fazer o que deixou ao Pedro Gonçalves no terceiro golo? 

O Rúben Amorim assegurou o que sempre assegura, que os adversários poucas ou nenhumas oportunidades conseguem. Assegurou o que também assegura sempre que necessário, que no final muda tudo como se tudo ficasse na mesma e vamos a eles como tarzões. Os jogos, aqueles que nos enchem a alma e nunca nos esquecemos, ganham-se com o coração e coração é coisa que não nos falta. O problema, o verdadeiro problema é que existe uma lei geral que nos impede de, no fim, vencer. O Sporting é a equipa do campeonato que menos faltas faz e a que tem mais cartões amarelos. Esta lei não é sequer como o bosão de Higgs, observamo-la desde sempre e ano após anos, quaisquer que sejam os presidentes, os treinadores ou os jogadores. Contra esta lei geral é que o Rúben Amorim, como antes o Paulo Bento ou o Leonardo Jardim, nada pode. 

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Para não esquecer

Há coisas que é importante dizê-las antes que passe a oportunidade e não se aproveite para aprender alguma coisa. No Sporting, Jorge Jesus foi a pior contratação de sempre. Não nos lembrávamos mas ele, ontem, recordou-nos. Numa conferência de imprensa, como treinador principal da equipa de futebol, decidiu participar na campanha eleitoral para os órgãos sociais do Benfica. Fê-lo com o apoiante mais fanático da atual direção, de forma desembestada e destratando um adepto e sócio do Benfica. Destratou-o não só como adepto e sócio mas também na qualidade de jogador e profissional de futebol, como se essa qualidade estivesse em causa (o Bernardo Silva foi, repito, foi jogador do Benfica e não, não foi jogador deste ou de qualquer outro presidente do Benfica). 

Não sei se o Bernardo Silva tem ou não razão, nem me interessa. Não é essa razão que defendo. O que defendo é o seu direito a exprimi-la com liberdade sem ameaças e revelações de um qualquer funcionário de uma instituição associativa com estatuto de utilidade pública da qual ele é adepto ou sócio. Estas coisas precisam de ser bem explicadas para ver se se percebe. Admitamos que um cidadão, um deputado, um político da oposição faz uma crítica política ao atual ou de outro qualquer governo. Acharíamos normal que um Diretor-geral do Estado português nas instalações do seu serviço e do Estado português fizesse uma intervenção naquele tom e com aquele conteúdo em resposta a essa crítica? Como as coisas vão, um dia também acharemos normal que as democracias e o estado de direito democrático funcionem assim, sobretudo quando se tem uma imprensa que não cumpre a sua função e também acha tudo normal. 

A revelação de conversas diz-nos mais de quem as revela do que das conversas propriamente ditas. A calhandrice esconde sempre o contexto da conversa e esse contexto é fundamental para se compreender plenamente o que foi dito. Naquela altura, Jorge Jesus era o treinador principal da equipa do Benfica e Bernardo Silva um ex-júnior recém-chegado à equipa sénior. A assimetria de poder, pela idade e pela hierarquia, permite-nos perceber a inverosimilhança se não da conversa pelo menos do seu tom. A conversa decorreu naquele tom? Num género “quero ser titular ou vou-me embora ganhar mais dinheiro”? A conversa também revela bem as legítimas opções do Jorge Jesus. Entre o Sálvio daquele presente e o Bernardo Silva do futuro naquele momento e do atual presente, um dos melhores jogadores do mundo, preferiu o Sálvio. Estamos conversados quanto ao perfil de treinador e à sua capacidade para trabalhar com a formação dos clubes por onde passa. 

No Sporting, não foi diferente. Considerou-se sempre maior do que o clube que devia servir e era pago e bem pago para servir, como se nos estivesse a fazer um favor; e sim, também participou na campanha eleitoral. Para aqueles que criticam a atual equipa e o Rúben Amorim, relembro a equipa titular da malfadada última época: Rui Patrício, Piccini, Mathieu, Coates, Fábio Coentrão, William Carvalho, Battaglia, Bruno Fernandes, Gelson Martins, Acuña e Bas Dost; todos internacionais pelas seleções dos seus países. Uma equipa que se arrastou durante uma época, sem honra nem glória, jogando um futebol empastelado, sofrível, que desabou com estrondo no famoso jogo contra o Marítimo da última jornada, levando quase à refundação do nosso clube. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Um campo de cânhamo cercado por dois irredutíveis gauleses

Há dias vi (e ouvi) uma reportagem sobre o cânhamo, nas suas diferentes variedades e utilizações, com mais ou menos canabidiol (CBD) ou tetra-hidrocanabinol (THC). Desde a cosmética à farmacêutica ou ao têxtil, há um conjunto de indústrias que cada vez mais recorre ao cânhamo. A relação do cânhamo com o jogo de sábado contra o Santa Clara não é evidente para os menos atentos ou distraídos. Também não a compreendi de imediato. Havia um campo com ervas, muitas ervas. Podiam ser alfaces, beterrabas ou até couves-galegas ou tronchudas. O disparate do Coates, a meias com o Adán, levantou suspeitas. As alfaces, as beterrabas ou as couves não produzem aquele efeito. Quando o guarda-redes do Santa Clara saiu desembestado e se enfaixou contra o defesa central, permitindo o segundo golo do Pedro Gonçalves, a relação encontrava-se definitivamente estabelecida. 

Jogar num campo de cânhamo não parece nada fácil, sobretudo quando não está devidamente licenciado, tal o nível de THC que, aparentemente, libertava. Não sei o que é que o Rúben Amorim sabe de cânhamo e das suas aplicações, mas pareceu bem informado. Contrariando os táticos, os que falam sobre táticas e saídas de bola e assim, colocou a dupla Palhinha-Matheus Nunes no meio-campo. Foi um regalo vê-los a jogar, principalmente na primeira parte. Sitiaram os de Santa Clara e não havia forma de saírem da ilha onde eles os meteram. Nunca dois pareceram tantos, fazendo lembrar a dupla Astérix-Obélix ou Vidigal-Duscher. O Pedro Gonçalves marcou o primeiro golo e esperava-se outro a qualquer momento quando o Coates e o Adán foram envolvidos por uma nuvem de THC. A nuvem era de tal dimensão que eu mesmo fiquei tonto. 

Na segunda parte, depois de lavrado o campo de cânhamo, as coisas começaram a complicar-se. A bola ganhava vida própria e não havia quem a segurasse. Entrou o João Mário e a bola, por respeito, deixou de andar aos trambolhões como se fosse um paralelepípedo. Houve oportunidade para ver o Sporar aliviar uma bola a meio metro da baliza e a ficar transparente quando uma outra bola passou por ele sem nele embater sequer. Tudo acabou bem quando o Mathieu encarnou no Feddal e uma biqueirada para a frente levantou outra nuvem de THC, permitindo o segundo golo do Pedro Gonçalves. 

Não há muito a acrescentar. A equipa está bem e recomenda-se. O lado direito da defesa deixa-nos sempre em sobressalto. Percebe-se a importância do Neto na equipa, pela sua liderança e capacidade de mobilização de muitos jogadores jovens. Não resisto ao trocadilho: não se percebe é a razão de se chamar Neto a quem joga com colegas que têm idade para ser seus netos. Não digo que se deixe de o chamar pelo nome próprio, mas pelo menos avó Neto seria mais carinhoso e adequado. Quanto ao árbitro e aos comentadores da SporTv, nada de novo. As faltas sobre os nossos jogadores têm sempre direito a qualificativo ou explicação. A falta nunca é falta e tão-só. É falta mas sem intensão ou intenção, conforme os casos. Para nós, a regra passou a ser a seguinte: é falta mas não para livre ou “penalty”, é uma coisa em forma de assim. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

E assim acontece

De fininho, como quem não quer a coisa, lá vai à sua vida a última das grandes contratações da dupla Frederico/Viana. Não sei se Vietto deixará grandes saudades ou grandes recordações. É mais um que sai, menos um avançado disponível, embora tristonho, que fica. Está tudo planeado.

Mais interessantes são os contornos metafísicos desta venda. Parece que o Sporting recebe 8 milhões de Euros por 75% do passe, embora apenas detenha 50% do dito pelo qual pagou cerca de 7 milhões. Confesso que estas engenharias financeiras, que envolvem terceiros, neste caso o Atlético de Madrid, me fascinam. É tudo tão claro que não necessitará de qualquer explicação. Sempre se poupa em salários. E assim acontece…

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Divide et impera

O Presidente do Porto teceu algumas considerações sobre Frederico Varandas e o Sporting. Dividir para reinar, seria o objetivo, dissimulando, obviamente, a sua preocupação pelo facto de o Sporting se poder assumir como candidato, e limpando para debaixo do tapete a arbitragem do jogo, incluindo os bastidores que o corroem. Estes senhores não andam a ler livros, reescrevem-nos a seu belo prazer. Em tempo de Covid, chega a ser grotesca esta luta pérfida pelo poder. Presumo que, após o jogo com o Manchester City, a sua percepção da arbitragem (assim como a do ordeiro Conceição) tenha sofrido uma nova manifestação de sabores, algo muito próximo da azia.

Varandas, pois claro, tirou o curso de pôr-se a jeito. Sob o lema de “unir o Sporting” dividiu internamente para tentar reinar. Os factos são conhecidos, as roupagens mediáticas também. Os impérios, mesmo os de fancaria, acabam sempre por seguir o curso habitual: a queda. Mas a história não é para aqui chamada. Temos outras preocupações em mente.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

License to kill

A descoberta da pólvora por parte dos dirigentes do Sporting é de louvar. Num tempo de mísseis balísticos de longo alcance, drones teleguiados, possíveis viagens de cruzeiro a Marte, ou apenas o envio de alguns emails, Frederico Varandas reivindica uma patente que muito nos orgulharia, não fosse o seu anacronismo, ou o facto insólito e surpreendente, de muitos o andarem a reclamar há vários anos: o Sporting é um peso pluma do futebol português, uma lateralidade permitida desde que não se intrometa onde não é chamada. O paternalismo de uns, a condescendência de outros, a bonomia dos próprios, é tristemente plasmada nos resultados. 

O jogo deste fim-de-semana foi apenas mais um exemplo da nossa irrelevância. A essa dita irrelevância no contexto do mundo minado da bola em Portugal, será preciso acrescentar algumas notas importantes. Por acaso, até tivemos oportunidades suficientes para obtermos outro resultado, sofremos golos dignos de uma comédia musical (daquelas que apenas se veem de ressaca ao domingo à tarde) e, vivemos, mais uma vez, de ideias (o plural é da minha responsabilidade), sem que se vislumbre o substancial, para além do abstrato. E para isso faltam, pelo menos, mais um central a sério e um avançado móvel que se dê bem com o Amorim.

Temos jogadores: Pote (em grande) e Porro, Mendes e Matheus, Santos e Palhinha. Durante o seu longo aquecimento, João Mário acertou mais passes que o Neto durante todo o jogo. O Neto daria um bom speaker de cenários motivacionais com pronúncia do Norte, ou um bom administrativo na área da confiança e da dinâmica de grupo. Ao Sporar ainda lhe faltam (supostamente) algumas leituras sobre o mundo das ideias de Platão. À consideração de Amorim.

O resto são peanuts e muito gelo nas pernas dos jogadores do Sporting. Uma license to kill não se vende na net…pois não?

Cão é que não!

O jogo, de sábado, contra o Porto e os comentários e análises que lhe seguiram foram extraordinários. O extraordinário está fora do ordinário, do normal. Não se pode ver e analisar o que está fora do ordinário, do normal, como se se estivesse a ver o próprio ordinário, o normal. Os conhecimentos de aerodinâmica atuais que nos permitem apreciar o voo de um avião não nos permitirão compreender um ovni quando o virmos, se alguma vez o virmos. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, mesmo que ambas as coisas voem. 

Houve bola, jogadores, treinadores e árbitros e, assim, mentes menos avisadas veem um avião e analisam o seu voo como se de um avião se tratasse. Mas bola, jogadores, treinadores e árbitros também fazem um ovni; e é um ovni que devemos ver e é o seu voo que devemos analisar. O que vimos tem um passado e um contexto conhecido aos quais o sistema de justiça vai chamando nomes (“apitos”, “malas” e por aí adiante). Repeti-los (e repetir-nos) não ajuda à compreensão porque, começando por nos parecer esdrúxulos, logo já nos habituamos a eles até passarem a ser normais, nada extraordinários, portanto. 

Para se compreender o jogo de sábado e o nosso campeonato, o extraordinário, em síntese, temos que recorrer à guerra fria e à Cortina de Ferro. Nesse tempo, na Europa Oriental, os países tinham clubes do regime. Uns tinham sido criados pelo exército, outros pela polícia e outros ainda pelos serviços secretos. Os exemplos são vários. Retenho um dos mais extraordinários (lá está, fora do ordinário, do normal): o Steaua de Bucareste. A história encontra-se disponível no ciberespaço e não a vou repetir. Retenho um dos fragmentos: entre 1986 e 1989, permaneceu invicto durante 104 jogos consecutivos disputados no campeonato, série que se concluiu abruptamente após a execução do ditador Nicolae Ceausescu mas que, ainda hoje, constitui recorde europeu. 

O Zaidu devia ter sido expulso pela entrada sobre o Pedro Porro? O Zaidu devia ter sido expulso pelo “penalty” sobre o Pedro Gonçalves? O árbitro e o vídeo árbitro erraram ao não marcar “penalty”? O Corona fez falta para mais um amarelo? E o Otávio e o Uribe? Se o Rúben Amorim foi expulso, o Sérgio Conceição também o devia ser? O tempo de desconto não foi adequado? Sim, sim, sim, sim, sim, sim e sim? Não! O sim aplica-se ao ordinário, ao normal, não ao extraordinário. 

A claque do Steaua de Bucareste tinha o seguinte cântico: “Tu podes ser um cão ou tu podes ser um adepto do Steaua”. A mensagem é simples, ou és do clube do regime ou és um cão. Seria delicado informarem-nos qual o clube dos militares e qual o clube dos serviços secretos. Que não temos clube, já sabíamos. O que ainda não sabemos é de que clube devemos ser. Cão é que não!

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Coisas da seleção

Nesta semana e meia, à falta de drogas duras tivemos que nos contentar com metadona: sem campeonato, restou-nos a seleção e os jogos amigáveis da Liga das Nações. Por muito maus que sejam, um Feddal ou um Vietto sempre são melhores do que um Félix ou um Rúben Dias. Não, não se refere às qualidades futebolísticas, ou à falta delas, e ao jogo propriamente dito, mas à cor das camisolas e à importância do que se joga. Cada jogo da seleção constitui desafio intelectual. O emaranhado de pernas é de tal forma que nem o Vasco da Gama da bola consegue encontrar o caminho marítimo para onde quer que seja. Os adversários vão insistindo, insistindo até desistirem e se conformarem com o destino. O destino está escrito nas estrelas: o empate sempre que possível ou a vitória por exclusão de partes. 

Retenho alguns momentos, algumas imagens e sons. António Tadeia: “Grande passe, grande classe do João Félix! Ah, afinal era o Bruno Fernandes”. O Fernando Santos a franzir o sobrolho, preocupado, ao ver a equipa em quinze minutos ultrapassar mais vezes o meio-campo do que na final do Campeonato da Europa. Ver o Bruno Fernandes levar um pontapé na cabeça e ficar estendido no chão e o Mbappé a hesitar se enfrentava o Pepe ou não, acabando por decidir atirar a bola fora com grande “fair play”. O Pepe é como o Papa por portas travessas, consegue reconciliar as nações e construir a paz. Por falar em Papa, foi à Divina Providência que o Fernando Santos apelou a subida da defesa da França, impedindo o golo do Pepe. Imagino o Fernando Santos a dizer ao apóstolo Pepe: “Em verdade, em verdade vos digo, não marcarás na baliza do próximo”. O génio do Fernando Santos ao substituir o Cristiano Ronaldo pelo Victor Lindelöf [as melhoras para o Cristiano Ronaldo, que ganhou Covid-19 e o Jorge Mendes a respetiva comissão]. 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Aberto até de madrugada

Passei o dia a ouvir falar do Paulinho. Pensei: lá vai o nosso querido roupeiro. Não devem faltar propostas para este nosso símbolo. Fiquei triste, os símbolos não estão à venda. Mas nunca se sabe.

Tive, algures no tempo, uma chefe que ao dar indicações apontava com a mão numa direcção e olhava para a outra. A escolha, não sendo a chefe estrábica, decorria da nossa forma de perceber as prioridades. Temos uma direcção (e agora arrisco aqui o meu pescoço de atormentador) que aponta para um lado olhando para outro, ao mesmo temo que assobia. Não é fácil. Mas o colaborador (como agora se diz) tem de saber discernir prioridades e executar.

O treinador Amorim tem uma ideia. Que não seja ideiafix é o que esperamos. No Sporting importa ter um plano b e uma saída de emergência, pelo menos. O resto nós aguentamos.

Parece que o mercado continua aberto (ainda mais um pouco). Essa é a ideia fundamental dos mercados. A nós compete-nos perceber a direcção que nos interessa seguir.  

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

É a nossa hora!

Há momentos mágicos. São raros, muito raros. Depois de receção atabalhoada de um defesa do Portimonense, o Nuno Mendes rouba-lhe a bola e passa-o por dentro, passa a bola por um lado e vai buscá-la pelo outro ao defesa seguinte, desequilibra-se, parece que se vai estatelar, recupera e enfia-lhe um toque de calcanhar que deixa o terceiro defesa com um torcicolo e encosta-a para a baliza com o seu pior pé, deixando o guarda-redes de cócoras. Depois de ver isto, se um adepto do Sporting ainda continuar a falar que o Matheus qualquer coisa, o Coates não sei o quê, ou o Vietto não sei que mais, então não sabe o que vê e não merece ver o que viu com a camisola do seu clube. 

O Rúben Amorim disse o que tinha a dizer nas conferências de imprensa, quer depois do jogo com o Lask Linz, quer na que antecedeu este do Portimonense. Imaginem se fosse o Jorge Jesus, o Peseiro ou o Silas? Temos treinador e uma equipa, repito, uma equipa. Percebe-se a mobilização dos jogadores nos momentos que antecedem o jogo, nos festejos dos golos, na forma como apoiam o colega depois de um carrinho desesperado ou de um desarme. A única dúvida é se estamos com a equipa e com eles ou não. Não, não há cá Varandas, nem Vianas ou salvadores da pátria. O Sporting somos nós e mais ninguém. Esta é uma coisa que temos de resolver connosco mesmos. 

O jogo de ontem foi mais um belo exemplo do que nos espera. Marcámos o primeiro, o segundo e preparava-se uma cabazada. Não aconteceu por nenhuma mudança tática. Não aconteceu pelas razões do costume. Passou a valer tudo: cotoveladas, entradas por trás, faltas atrás de faltas, agarrões. Amarelos? Nem vê-los! Do outro lado, qualquer toque, qualquer encosto, falta. Foi assim que o Portimonense equilibrou o jogo e o seu treinador ainda tem a distinta lata de falar em perdas de tempo. Vamos deixar que batam impunemente nos nossos, no Nuno Mendes, no Tiago Tomás, no Matheus Nunes, no Pedro Gonçalves, no Porro, no Nuno Santos, no Vietto? A resposta é nossa e vamo-nos deixar de tretas: somos do Sporting ou não somos, apoiamos e protegemos os nossos ou preferimos o cinismo nas redes sociais.

sábado, 3 de outubro de 2020

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Sem rir

Não sei como é que hei de escrever isto sem me rir. Mal comecei e quase não resisti quando percebi que, com o novo acordo ortográfico, deixam-se de ligar-se com hífen as formas verbais monossilábicas do presente do indicativo do verbo “haver” à preposição “de”. 

O jogo de ontem faz parte da nossa galeria de jogos contra equipas austríacas. Temos o quadro do Casino Salzburg. Um belíssimo três a zero. Na altura, o Costinha sujeitou-se a diversos exames oftalmológicos, suspeitando-se que fosse vesgo, mas acabou-se por culpar o Bobby Robson. Temos o quadro do Rapid de Viena. Um belíssimo quatro a zero. Na altura, culpou-se o Dani porque se queria vir embora mais cedo por coisas de discotecas, miúdas e assim, porque o Carlos Queiroz nunca teve culpa de nada. Ontem, colocámos o quadro do Lask Linz. Um não menos belo quatro a um. A diferença, a única diferença é que ainda não sabemos de quem foi a culpa para colocar como autor. 

Este fim-de-semana, o meu sobrinho contou-me uma história extraordinária. No primeiro dia de escola, uma faneca senta-se na carteira ao lado de um robalo. Conversa puxa conversa, até que a faneca pergunta ao robalo: “O que é que faz o teu pai?”. “Nada”, responde o robalo. Parece que esta história não tem qualquer relação com o jogo de ontem, mas tem, acreditem que tem. É que me imagino numa carteira com o Varandas e a perguntar-lhe: “O que é que me tens a dizer sobre o jogo de ontem?” Sim, imaginam a resposta, fácil, fácil. 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Ácido desoxirribonucleico

 Não gostei. Quero dizer, gostei à maneira do Rui. Ainda assim, na corda bamba entre o Leonardo Jardim e o Paulo Bento, espero sinceramente que o Rúben Amorim tenha o ADN (é assim que se diz agora não é?) do Leonardo. O que em Leonardo é (e era no Sporting) rasgo e visão centrípeta, onde gravita todo o resto, no Paulo Bento era (e deve continuar a ser) a conexão do medo com o recurso ao divino, passando pelos golos do levezinho. Embora o divino pouco ou nada possa com as arbitragens e assim se foi um campeonato perdido num golo com a mão. Posto isto, temos (ainda) alguns sonhos.

Um deles é que o Sr. Varandas vá à sua vida. Sem ressentimentos. Temo que o ADN Varandas seja mais Soares Franco e, por osmose, Paulo bento e, por osmose bem portuguesa, aquela coisa do mal o menos. As manobras de marketing/propaganda vertidas em catadupa nas últimas duas semanas, com homenagens ad hoc a figuraras do Sporting, imortalizadas como nomes de campos e por aí fora, deixaram-nos enternecidos, principalmente aquela do Futre, um tipo que saiu do Sporting alegando problemas psicológicos, algo de que ainda parece padecer. As manobras tinham o objectivo mais ou menos oculto de todas as manobras, isto é, conduzir os olhares, desviando-os do ponto principal: a assembleia geral do dia 26 de Setembro. O recurso a Tabata no último dia revelou-se infrutífero. Os resultados estão à vista. O ADN do Sporting também.

domingo, 27 de setembro de 2020

Gostei

Esta época, vi pela primeira vez um jogo do Sporting como deve ser visto, com atenção. Gostei do que vi, mas gostar é mais não gostar do que gostar. Não sei se me consigo fazer explicar. Como qualquer sportinguista, há um dos cinco violinos em mim que espera sempre nota artística. Esse violino é o contrário do grilo falante. É o que nos engana, o que nos faz acreditar no Bobby Robson ou no Mirko Jozić. O verdadeiro grito falante, aquele que nos diz o que nem sempre queremos ouvir e nos dá bons conselhos, é o Paulo Bento ou, nos seus melhores dias, o Leonardo Jardim. Diz-nos coisas simples: não sofrer golos dê por onde der; treinar, treinar muito as bolas paradas e apostar em centrais altos; na dúvida, a saída de bola deve ser fazê-la sair seja para onde for, incluindo do campo ou do estádio. Estes conselhos foram seguidos à risca através de princípios de jogo cumpridos ao milímetro 

Primeiro princípio de jogo cumprido: anular o adversário seja como for até o levar à desesperança, à desistência, à rendição pura e simples. O Paços de Ferreira não teve uma oportunidade de golo para amostra e nem sequer acertou na nossa baliza. A meio da segunda parte os únicos que ainda acreditavam no Paço de Ferreira eram os comentadores da SportTV [até tu, Tonel?]. 

Segundo princípio de jogo cumprido: os jogos no futebol português não se ganham como na “playstation”. Viu-se trabalho tático nas bolas paradas, como agora se costuma dizer. Um dos cantos acabou em “penalty” e no primeiro golo; outro concluiu-se com o segundo, após jogada entre os nossos dois centrais calmeirões, Coates e Feddal, que não desistiram enquanto não conseguiram o “touchdown” [gosto da cara deste rapaz Feddal, faz-me lembrar a do Naybet, sempre com um ar de quem joga de alfange nos calções] 

Terceiro princípio de jogo cumprido: o que importa é ganhar e, ganhando, o resultado de pouco ou nada serve. Se estás a ganhar, então não precisas de marcar mais nenhum golo e se, porventura, o marcares, não precisas de marcar outro e assim sucessivamente. Todas as táticas são válidas depois de estares a ganhar. Atrasa a bola, passa-a para o lado, garante que não a perdes ou se a perdes, perde-a longe da tua baliza. 

Quarto princípio de jogo cumprido: acabar o jogo com seis amarelos em doze faltas [um amarelo por cada duas faltas] contra dois amarelos em dezoito faltas [um amarelo por cada nove faltas] sem tentar um mata-leão no árbitro. Como o cão é o melhor amigo do homem, assim o árbitro é o melhor amigo da equipa adversária. Os conceitos de calcadela, empurrão, pontapé ou entrada variam com as cores das camisolas e é preciso aguentar com cara alegre. 

Precisamos de nos ver livres do Neto. É bom rapaz, amigo do seu amigo, deve fazer bom balneário; na época passada, disse umas coisas acertadas em nossa defesa enquanto a direção estava em parte incerta, mas não dá, não combina com a nossa linha de “safeties” ou “defensive backs”. Diz-se que queremos contratar o Lyanco, do Torino, um rapaz de quase um metro e noventa e cara de poucos amigos. Com este e com um avançado do campeonato italiano em idade de reforma, um Fabio Quagliarella ou um Goran Pandev, e tínhamos equipa para cumprir estes princípios jogo atrás de jogo. Posso estar enganado, mas estamos de regresso aos bons e velhos tempos do Paulo Bento. Não vai ser fácil ganhar mas será ainda mais difícil ganhar-nos. O Sérgio Conceição leva dois títulos em três campeonatos assim [sim, eu sei, não sou ingénuo, os nossos árbitros não são os mesmos que arbitram os jogos do Porto]. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Máscaras ou comprimidos?

De quantas pré-épocas mais precisa o Sporting para começar a jogar a sério? Tantas quantas as vidas de um gato? Não chega de jogos-treinos? Era necessário jogar com este PAOK de “kilt” também? Não cheguei a esclarecer estas dúvidas porque recebi umas das habituais mensagens de “WhatsApp”: “Hoje temos de ver o jogo com máscara ou basta-nos pôr um comprimido de baixo da língua depois dos setenta minutos?” Esta dúvida mais ontológica absorveu-me o tempo todo. A consciência do ser ou não ser deixa-nos sempre com dores de cabeça.

O Tiago Tomás marcou no início do jogo e o jogo acabou. Sim, houve bola para cá a para lá, houve jogadores a correr para a frente e para trás, mas jogo não foi com certeza. Ou estamos a ficar cínicos ou outra coisa qualquer e valia a pena os treinadores e os jogadores verem o seu próprio jogo para nos informarem se há razões para ficarmos preocupados. Não, não estou apreensivo, estou preparado para tudo. Preciso é que me digam se devo ver o próximo jogo de máscara ou se basta pôr um comprimido de baixo da língua depois dos setenta minutos. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Apalpar melões

Na terça-feira jantava com amigos. Saio do trabalho ao fim da tarde e ouço o final do relato da primeira parte do Benfica contra o PAOK, enquanto me desloco até casa. Quem ouvisse pensava que o Benfica estava a jogar contra o Cascalheira de Baixo para a taça do presunto local. “O Jorge Jesus melhorou o jogo posicional”. “O Jorge Jesus é hoje melhor treinador do que era (se tal ainda é possível, digo eu)”. “O Jorge Jesus regressou para afirmar a dimensão europeia do Benfica”. Estava zero a zero ao intervalo mas a segunda parte serviria para cumprir o destino que estava escrito à partida. 

Esperando pelo jantar, beberico um Martini com os amigos e pelo canto do olho vejo num ecrã de televisão festejos de uns jogadores com camisolas às listas pretas e brancas. Recebo uma primeira mensagem de WhatsApp: “Depois do Novo Banco, só nos faltava o buraco na defesa do Benfica também”. Um pouco mais tarde recebo outra: “Vai ser preciso financiar o Cebolinha, o Pedrinho, o Darwin, o Vertonghen e o Waldschmidt pelo Mecanismo de Recuperação e Resiliência da União Europeia”. 

Regresso a casa tarde e a más horas. Não tenho sono. Não resisto à tentação de rever os comentários desportivos. É como ir ao supermercado escolher melões. Fico-me pela SIC Notícias. Ouço a conferência de imprensa final do Jorge Jesus. Queixava-se (e bem) das regras da Liga dos Campões. O objetivo era passar a fase de grupos (que seria “peanuts”) e, de eliminatória em eliminatória, chegar à final. Não fazia qualquer sentido começar da frente para trás, disputar uma competição de pernas para o ar, começando por jogar a final. A equipa ainda não estava preparada para tanto. Faltava um avançado. Imaginei que fosse o Cavani. Aparentemente não. O Benfica acabara de gastar cerca de 50 milhões de euros com o avançado do PAOK, um tal de Zivkovic (bom pé esquerdo o deste rapaz!). 

Os melões estavam maduros. O Joaquim Rita estava um belíssimo Casca de Carvalho, com o picante no ponto, malhando no Jorge Jesus. O David Borges estava mais Melão de Almeirim, mais doce, falando de injustiças. Deito-me e adormeço, não sem antes ler mais um pouco de “Uma História de Espanha”, de Artur Pérez-Reverte. Às páginas tantas, o autor interroga-se por que razão Filipe II não transferiu a capital para Lisboa, mantendo-se entrincheirado no centro da península, no seu mosteiro-residência do Escorial. Não sei se seria a sorte dos espanhóis, mas seria a dos nossos comentadores seguramente. As narrativas seriam as mesmas, mas sempre teriam um Real Madrid ou um Barcelona para as legitimar.

Milagres da casa não fazem santos

 

1)               1) Mais uma moedinha, mais uma voltinha:

Lembram-se certamente de Thierry Correia? Terá sido, no meu modesto entendimento, a transferência mais sensacional do consulado Varandas, vendido por mais de 12 milhões de euros ao Valência (tinha de ser), após meia dúzia de minutos (e alguns segundos) grandiosos a virar frangos ao serviço do Sporting.

João (Ronaldo) Félix, vendido em ajuste directo (quanto?) ao Atlético de Madrid, com contrapartidas ainda insondáveis (a vinda do mágico RDT ainda nos assalta em sonhos), apenas visíveis ao microscópio eletrónico de transmissão (MET), obra de visionários japoneses.

Fábia Silva, vendido enquanto penteava o seu famoso risco ao meio, cumprindo assim um sonho de menino (temos informação fidedigna nesse sentido) de jogar nos Wolves, uma equipa albergue de guerreiros lusitanos com tendências trânsfugas. As comissões (declaradas) afiguram-se um verdadeiro tratado de gestão internacional de activos (e passivos, já agora).

São inúmeras as deslocações de capital em forma de jogadores, quero dizer, de activos, grande parte delas praticamente desconhecidas e com vista apenas para o banco e a bancada. E assim continua.

2)               2) Menos uma moedinha, menos uma voltinha:

Mudam-se os tempos, mantêm-se as vontades. As receitas diminuem a olhos vistos: bilheteira, publicidade, merchandising, patrocinadores, as televisões a puxarem a brasa à sua sardinha, o futebol sem o glamour do público. Tudo isto põe a nu as fragilidades crónicas do nosso (e não só) futebol e da sua tão propalada indústria, que mais se assemelha a um fogo-fátuo. A metamorfose dos clubes em entrepostos (em curso) de jogadores e a sua submissão ao poder dos intermediários e dos “investidores” será cada vez mais o quotidiano de um jogo cuja bola a nossa memória já não alcança.

3)               3) Menina não paga, mas também não anda:

O Sporting continua o seu trajecto rumo à modernidade e à irrelevância. O silêncio (extremamente ruidoso) que paira em Alvalade não augura nada de bom. Começar a época com um jogo adiado (alguém percebe quais são as regras disto tudo?), numa temporada com vista para a liga dos calmeirões, necessita apenas de mais uma cereja em cima do bolo: vender o único ponta-de-lança no último minuto do último dia de mercado.

Parece que a Assembleia Geral seguirá o modelo das Assembleias Gerais Eleitorais, ou seja, terá lugar apenas a votação, sem que haja lugar a discussão prévia. O silêncio extremamente ruidoso poderá um dia desaguar (como diria Bohumil Hrabal), numa solidão demasiado ruidosa, ou ruinosa. Tentar remeter-nos ao silêncio é um erro. Fatal?

 

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Mais é mais e não menos

Anda-se a jogar um género de campeonato de jogos-treino de seleções. Nesse campeonato do Mundo e da Europa, em particular, após o jogo contra a Croácia, afirmava-se que a seleção nacional era mais do que o Cristiano Ronaldo. Contra a Suécia, ontem, tive a oportunidade de o confirmar. Vi o Cristiano Ronaldo e vi mais uns tantos: mais dez pelas minhas contas. Sim, é verdade, a seleção nacional é mais do que o Cristiano Ronaldo enquanto o Cristiano Ronaldo estiver na seleção nacional. 


[No primeiro golo, o António Tadeia concluiu que o remate do Cristiano Ronaldo não tinha sido nem especialmente bem colocado nem especialmente forte. Foi evidente o seu desfastio na marcação desse golo e do seguinte. Imagino-o a falar consigo próprio: “Vou só por a bola lá dentro e mais nada: nem com especial precisão, nem com especial força. Quando até o Félix marca um golo, isto passou a ser para qualquer um e não dá pica nenhuma!”]. 

domingo, 6 de setembro de 2020

Jogar à defeso com toda a confiança


Enquanto o novo Cavani nos faz esquecer Cavani, sem que para isso necessite de dar um chuto na bola, a sua palavra basta, assegurando que vem para fazer história; Ricardo Quaresma viaja entre o Bessa e o Castelo, com passagem pelo Algarve numa peladinha de praia. A nós, que ninguém nos ouve, parece-nos (sem grande margem para erro) que o cigano poderia contribuir com uns vinte minutos finais em alguns jogos de paredão alto, mais não fosse para chatear o Ventura.

O Porto, com fair play (financeiro?), lá vai comprando alguns jogadores enquanto aguarda umas benesses do santo Mendes. As coisas com o Valência não corriam, mas o carrocel é dinâmico: a venda de Fábio Silva ao Wolverhampton por 40 milhões de euros (diz que sim) é uma prova da irmandade do fair play financeiro da UEFA, cuja religiosidade se alicerça no santo Mendes, entre outros beatos. Ámen.

Acuña continua a dar cartas nos treinos à porta fechada. O seu recolhimento é-nos demonstrado nas redes sociais (e em algumas mais subterrâneas), demonstrando que a estratégia é absolutamente inovadora: não tarda é integrado como o Palhinha, ficando os últimos dias da época de transferências guardados para nosso divertimento e futuras mutilações.  

Amorim continua a treinar o Sporting apesar de questões de IVA, juros e outras minudências. Há quem diga que está tudo acordado desde o início. Outros afirmam, com alguma propriedade, que anda tudo a dormir desde sempre.  

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Jogar à defeso com transições rápidas


A frase de um amigo com uma atitude excepcional perante a vida: queres ver que ainda vamos ter de vender o Sporar e o Jovane no último dia de mercado. O desabafo que soa a interrogação metafísica transporta-nos para o limbo de uma realidade recente. Percebemos a sua inquietude, talvez enraizada no vislumbre de mais uma golpada estratégica com o refundir de Palhinha e Acuña a treinarem à parte, para melhor serem empacotados no paquete de sonhos de milhões. Palhinha já terá sido (mais ou menos) incorporado, enquanto Acuña aguarda a incorporação forçada, uma ilusão que encerra a estratégia no domínio das equações abstratas, algo que a arte contemporânea bem conhece.

Não veio Cavani, veio o novo Cavani. Engenhoso. Os milhões do novo Cavani, o facto de este também ser uruguaio e avançado (como aqui avançamos em primeira mão), um trabalho esforçadíssimo da estrutura benfiquista e da imprensa de sucedâneos de papel, demonstra a versatilidade engenhosa destes visionários do futebol a caminho da liga dos calmeirões. Está provado. 

O Pote é que foi caro. Embora eles não saibam que se encontra lá no fim do arco-íris, repleto de tesouros. Será que um dia também terá o seu momento zen de treinar à parte, entre vinhas e pomares de fruta? Não sabemos.