sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

É desta que acaba o futebol para totós?

Num prazo de seis dias, a equipa do Sporting faz a pior e a melhor exibição da época. Várias explicações são possíveis. A primeira que nos vem à cabeça é que a equipa turca do Basaksehir só pode ser má, muito má ou péssima; também é possível que o Silas tenha feito de sábado para quinta-feira um Curso de Educação e Formação (CEF) ou um Curso de Especialização Tecnológica (CET) com equivalência a treinador de nível IV; ou que esta equivalência tenha sido obtida através de um processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) após dezena e meia de jogos como treinador do Sporting. Mas a explicação, a verdadeira explicação é outra. Não quero parecer imodesto, mas tenho como certo que o Silas leu e refletiu sobre o que vinha escrevendo. 

Deixámos de assistir à habitual saída de bola para o ataque, envolvendo o ensarilhamento de meia dúzia de jogadores que vão evoluindo da ansiedade ao desespero até perderem a bola e deixarem a defesa exposta. As reposições de bola pelo guarda-redes passaram a ser feitas através de pontapé para a frente. Os centrais deixaram de passar bolas sem fim entre si e com os médios, saindo-se para o ataque pelos laterais e com passes verticais para os extremos ou para o Sporar, quando descaia para esse lado para proporcionar essa linha de passe. De repente, em dois, três passes rápidos, a equipa do Sporting encontrava-se a jogar no meio-campo do adversário. Não é Guardiola quem quer, não é Iniesta nem Xavi quem quer também e houve uma só equipa como essa do Barcelona, a do Barcelona e nesse concreto tempo histórico. 

Os jogadores afinal não eram os piores do mundo, o sistema tático é que não era o mais adequado ou confortável para eles jogarem. Ainda houve duas inovações táticas, porque o Silas não resiste e desta vez não se saiu mal. A equipa passou a jogar num 4x4x2 ou num 4x2x3x1, conforme se defendia ou atacava, com o Vietto no meio, em apoio ao Sporar, e o Jovane Cabral e o Bolasie nas laterais. O Vietto passou a dispor de um raio de ação maior e o Jovane Cabral e o Bolasie foram especialmente contundentes no ataque. O Sporar passou a estar mais apoiado e, com mais bola, revelou que sabe desmarcar-se para proporcionar linhas de passe, sabe recuar para apoio à progressão dos médios, sabe decidir o melhor momento de chegada à área e, finalmente, sabe fazer golos. Mas a principal alteração tática, aquela que baralhou completamente os turcos, foi ver-se o treinador-adjunto (Silas) de pé junto à linha lateral e o treinador principal (Ferro) sentado no banco. 

Ajudou, ajudou muito começar a ganhar, para tranquilizar a equipa, mas a primeira parte foi um festival de oportunidades perdidas. O árbitro anulou-nos (bem) um golo por fora-de-jogo e aparentemente não viu uma calcadela no Battaglia que devia ter originado “penalty”. O VAR não assinalou nada também e fica-se na dúvida se existe uma orientação da UEFA qualquer, como algumas que nos vão explicando os nossos ex-árbitros e atuais comentadores de arbitragem, que impede a marcação deste tipo de “penalty” a não ser que a falta envolva serrar o tornozelo com uma motosserra. O segundo golo foi de manual, com a bola a sair do lado direito do ataque para o meio, onde o Bolasie desmarca o Ristovski do lado esquerdo para este centrar de primeira e o Sporar encostar. Fomos para o intervalo a ganhar por dois a zero, mas se tivéssemos marcado mais dois teria sido mais adequado ao que uma e outra equipa jogaram e às oportunidades criadas. 

Voltámos bem na segunda parte e rapidamente chegámos ao terceiro golo, com o Vietto a marcar. Em seguida, o Jovane Cabral isolou-se, chegou primeiro do que o guarda-redes à bola, que entretanto se tinha saído, e foi abalroado. “Penalty” clássico, de manual e, mais uma vez, nem o árbitro nem o VAR marcam nada. Ainda se pode compreender a decisão do árbitro devido à rapidez do lance e à distância entre ele e o local da falta, mas a (não) decisão do VAR só se pode dever ao facto de se tratar um bar manhoso, uma taberna das antigas onde ainda se bebe vinho a martelo. 

Por volta dos sessenta minutos arrebentámos, recuámos, a equipa do Basaksehir passou a jogar no nosso meio-campo e o Silas borregou. A primeira substituição, com a entrada do Pedro Mendes, ainda se compreende, admitindo-se que o Sporar tinha estoirado, mas a segunda foi à treinador português, a apostar na retranca para defender o resultado. Não estando de boa saúde, a substituição do Jovane Cabral é explicável. O que não explicável é a entrada do Doumbia para posição incerta, obrigando o Vietto a fechar do lado esquerdo até se compreender que não tinha vida para isso e voltar-se a trocar e a colocar nessa posição o Wendell. O Sporting só voltou a equilibrar o jogo e a colocar os turcos à defesa com a entrada a quatro minutos do fim do Plata, ficando evidente que devia ter entrado mais cedo, em vez do Doumbia; o Doumbia, a entrar, teria de ser sempre para o lugar do Wendell, dado que não se muda de tática certa para outra incerta ou razoavelmente indefinida, existindo as mais sérias reservas de que alguma vez tenha sido sequer treinada. 

Para se ter um jogo à Sporting, era preciso conclui-lo à Sporting com um golo sofrido à Sporting: bola ao segundo poste, o Ristovski a perder o duelo de cabeça, o Coates a olhar para ontem, o Neto a compensar e a encostar ao avançado que aproveita a oportunidade para enfiar um mortal encarpado e o árbitro a marcar “penalty”. Podíamos ter resolvido a eliminatória mas se a resolvêssemos não éramos o Sporting. O pior pode não ser perder o segundo jogo e a eliminatória. O pior pode ser passá-la e viver a angústia de não se saber se o Silas volta a ler este blogue ou outro material didático equivalente, mandando o José Pedro, o verdadeiro treinador-adjunto, atirar para o lixo os fascículos de uma coleção sobre futebol para totós  editada pela Planeta DeAgostini que lhe andou a comprar.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Um otimista e um psiquiatra falando sobre poços e lâmpadas

O Silas constitui um personagem singular e essa singularidade interpela-me. Não está em causa a pessoa, nem sequer o treinador, está em causa o personagem e a sua representação. A sua impassibilidade é digna de um indiano. Por exemplo, na conferência de imprensa depois do jogo contra o Rio Ave, constata que se tratou de pior exibição da época e fica-se pela constatação, mantendo a serenidade e a candura de quem acaba de descobrir o movimento de translação da Terra e sobre ele nada pudesse fazer. Anda completamente aos papéis, mas mantém a mesma serenidade de discurso, ficando a dúvida se não tem consciência ou se disfarça melhor do que ninguém. 

O discurso que mais tem repetido é o da necessidade de olhar para cima por contraponto a olhar para baixo. Quando se está em quarto persegue-se o terceiro e quando se está em terceiro persegue-se o segundo, não interessando as posições relativas nem as distâncias absolutas, como se fosse idêntico estar em terceiro ou em quarto ou estar a dez ou vinte pontos de distância do primeiro. O Woody Allen considera que enquanto um pessimista afirma que se atingiu o fundo do poço, o otimista tem esperança que a queda ainda vá a meio. Não se percebe se o Silas é um otimista ou um pessimista. Ao olhar sistematicamente para cima, parece que está convencido que se encontra no fundo do poço e só se pode subir, sendo um pessimista. A não consideração das posições e distâncias, fá-lo parecer um otimista pois espera continuar a cair nem que seja para talvez um dia, quem sabe, voltar a subir. 

É necessário mudar, embora, neste caso, mudar seja deixar de mudar (de tática e de posição dos jogadores). Mas para mudar é preciso consciência dessa necessidade e vontade. Um só psiquiatra é capaz de mudar uma lâmpada mas se e só se a lâmpada também estiver disposta a mudar. É que se não muda, muda-se.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Percebido?

Há treinadores com boas ideias. Há treinadores com más ideias. Há treinadores com ideias assim-assim. Há treinadores com as mais variadas proporções de ideias boas, más e assim-assim. Há ainda treinadores que não têm ideia nenhuma. Há uma enorme variedade de treinadores, para todos os gostos e feitios, e há o Silas, que não faz a mínima ideia. 

As (supostas) táticas vão variando em função de um objetivo que está sempre presente: sair a jogar pela zona central, embora sem se ter grande consciência do que fazer à bola em seguida. Este objetivo, esta obsessão, melhor dizendo, parece treinada sem consideração pelos adversários e a sua reação. Nos treinos pode-se recorrer aos pinos, mas, nos jogos, os pinos mexem-se, reagem, jogam também. A saída para o ataque começa invariavelmente num central que devagar, devagarinho passa a bola a outro, enquanto a pressão dos adversários sobre o jogador com bola e as supostas linhas de passe aumentam. Os laterais vão subindo e ao mesmo tempo, conforme a pressão aumenta, os médios baixam em apoio, trazendo consigo os médios adversários que procedem à respetiva marcação. O número de jogadores de uma e outra equipa no primeiro terço do terreno vai aumentando e, consequentemente, o espaço de circulação da bola com segurança vai diminuindo. Enquanto se vão atulhando jogadores na grande área e na sua proximidade, os avançados vão ficando mais distantes. O risco de perda de bola e de o adversário ficar numa situação privilegiada para marcar aumentam, aumentando a ansiedade dos jogadores até chegarem ao ponto de se quererem ver livres da bola e com poucas probabilidades de a colocarem nos avançados.

Jogo após jogo, com três centrais, com dois centrais e um médio a recuar para terceiro central, com dois centrais e um trinco, com dois centrais e um duplo pivô, a história repete-se. É provável que o Silas tenha visto jogos das equipa treinadas pelo Guardiola e gostasse que as suas jogassem da mesma forma. Mas não é Guardiola quem quer; e também não se pode ter uma equipa a jogar como as do Guardiola com os atuais jogadores do Sporting. Com eles, com o Borja, o Doumbia, o Ristovski, o Bolasie, por exemplo, mesmo o Guardiola não seria o Guardiola e a equipa não jogaria como jogam as equipas do Guardiola. Talvez não fosse má ideia começar a tentar sair a jogar de forma mais simples, pelas laterais, fazendo o que fazem todas as equipas, atraindo os adversários a um dos lados para com troca de bola rápida sair pelo lado contrário. No limite, no limite, sempre se pode sair com pontapés para a frente do guarda-redes, dando alguma utilidade ao Bolasie, por exemplo. Tudo é preferível ao mesmo (mau) filme visto e revisto todas as semanas. 

Contra o Rio Ave aconteceu tudo isto com a diferença em relação a outros adversários de os seus jogadores saberem trocar a bola entre si, não a perdendo por qualquer razão ou razão nenhuma como os do Sporting. Sem o Acuña, o Mathieu e o Vietto, porventura o Sporting terá jogado com uma das piores equipas das últimas décadas. Tentei encontrar uma equipa que se equiparasse. Procurei, procurei e não encontrei propriamente uma, embora tenha encontrado referências nos anos oitenta a algumas com o Vital a guarda-redes, o Duílio a central, o Valtinho a médio, o Lima a extremo ou o Peter Houtman a ponta-de-lança. Aconteceu também o costume: a expulsão de um jogador do Sporting, neste caso do Coates. Depois das duas faltas que vi e de no jornal “A Bola” ter lido o habitual comentador de arbitragem e ex-árbitro explicar que “Rúben Dias reagiu com frustração excessiva, correndo o risco de ver cartão vermelho direto”, num lance em que agride à descarada um adversário, porventura os dois amarelos ao Coates devem-se a um nível de frustração bastante insuficiente. 

Este jogo contra o Rio Ave não tem muito mais que se lhe diga e, para concluir, volto ao princípio e ao Silas e sua singularidade, recorrendo ao livro “O Que Fazer dos Estúpidos?”, de Maxime Rovere, filósofo e professor na Universidade do Rio de Janeiro, que li este fim-de-semana, para devido enquadramento da análise. Não fazer ideia é não dispor de consciência de si, confundindo a representação de si consigo mesmo. É pior do que não existir, é a ausência de consciência da sua não existência, é um jogo de espelhos em que o ser se toma pela sua projeção, pela sua imagem, como se fossem o mesmo ou uma só coisa. Nos outros, as ideias precedem o ser, o ser treinador. No Silas, as (supostas) ideias antecedem o ser, mas, sem ser, as ideias também não o podem ser, porque pressupõem a prévia existência do ser para serem (ideias) dele. Em síntese, o Silas precisava de ser treinador para que avaliássemos as suas ideias enquanto tal. 

Esta inconsciência de si mesmo não o afeta exclusivamente. Afeta-nos a todos que confundimos também a sua projeção com a sua (não) existência enquanto treinador. Esse erro de perspetiva, o de se confundir o sujeito com a sua imagem, leva-nos ao exercício de procurar explicar-lhe como deve fazer, como o que aqui desenvolvi. É energia perdida, pois uma imagem não muda, de nada valendo os sermões. É uma estupidez (o ato), não devendo ser confundido neste caso com um estúpido (o sujeito). Percebido? Se não, então está como eu relativamente ao Silas, o que não faz de mim mais inteligente do que ele.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

A vitória está reservada para aqueles que estão dispostos a pagar o preço


Jorge Jesus, por exemplo, tinha uma ideia. Silas parece ter várias, mas não tem nenhuma. Cheguei a confrontar, mentalmente, claro, a ideia de JJ, mas percebia-se que esta tinha ramificações, sempre a partir do tronco principal. Silas parece ter ideias para dar e vender, mais ou menos como o adepto comum as tem. A única diferença é que o adepto comum é inimputável pelas suas (quase) ideias futebolísticas, ideias essas que oscilam entre a tasca e o especialista em canalização convidado para os programas televisivos. O adepto comum, assim como o comentador televisivo, tem ideias sobre tudo, fazendo uma vaga ideia de quase nada.

Escreveu um dia Sun Tzu que “há momentos em que a sabedoria é parecer não saber nada”. Isso Silas tem, apenas lhe faltando a sabedoria para o saber. E para o utilizar. O plantel é globalmente fraco e desequilibrado, mas com tantas roupagens Silas descose-o e volta a cosê-lo até ele se tornar uma manta de retalhos a oscilar ao vento. Foi assim que ontem entrou em campo e por lá continuou, pelo menos durante o tempo em que estive com atenção ao jogo. A sensação com que ficamos é que aquela equipa nunca jogou em conjunto e ainda por cima não gosta nem sabe jogar junta. Sem o capitão e voz de comando, com jogadores medianos e outros a caminho de pernetas, chega a ser penoso ver o arrastamento banal da manta.

Empatámos. Para Silas foi o pior jogo desde que chegou. A isso chama-se evolução. Não há razões para preocupação.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Olha para mim! Olha para mim!

Aproveitando a balbúrdia arbitral desta semana, o Sporting de Braga também se veio queixar que tem sido prejudicado. Não vejo qualquer problema que o Sporting de Braga se queixe como se queixou o Benfica ou se poderia ter queixado outro clube qualquer. É um pouco estranho que esteja tudo bem até à semana passada e esteja tudo mal nesta, mas, mais clube, menos clube, é o que se vai passando semana sim, semana sim. Concluir que o Sporting foi, em contrapartida, beneficiado constitui um estilo “Olha para mim! Olha para mim!” que não me parece exaltar o clube e a cidade que representa.

Vivo em Braga há mais de duas décadas. É um cidade que foi mudando e se tornando cada vez mais cosmopolita e vibrante, muito por força da afirmação da Universidade do Minho e de projetos como o Theatro Circo, que, dirigido pela Cláudia Leite, tem vindo a diversificar e a popularizar a oferta cultural. No desporto, a cidade também se afirma em modalidades tão diversas como a natação, o atletismo, o andebol e, naturalmente, o futebol. Por estas e mais outras (boas) razões, Braga reforçou o seu papel de terceira cidade do país, sendo elemento constitutivo de um sistema urbano responsável pelo desenvolvimento dos territórios do Cávado e do Ave, dispondo de mais de oitocentos mil habitantes e o maior volume de exportações de mercadorias do país. Assim, o Sporting de Braga é um grande clube português e é ou deve aspirar a ser tão grande como os maiores e não o primeiro dos últimos, o último dos primeiros ou o campeão regional. 

Nas últimas cinco épocas, em nove jogos, o Sporting de Braga perdeu os nove contra o Benfica, sofrendo trinta e um golos (média de quase três golos e meio por jogo) e marcando sete golos (média de menos um golo por jogo). O Sporting de Braga empatou na última jornada, foi ultrapassado no terceiro lugar e na próxima vai jogar contra o Benfica. Com este enquadramento, mais parece que estas queixas são meramente táticas e preventivas, antecipando o que tem sido normal e a eventual ultrapassagem do Famalicão e a aproximação do Guimarães.

A missão deste próximo fim-de-semana não parece nada fácil. Pelo que se viu nos últimos dois jogos contra o Porto e o Guimarães, os jogadores do Benfica não estão em condições de ajudar e, assim, os do Sporting de Braga vão ter de perder sozinhos. Há outras medidas de recurso, como decretar uma virose, metendo máscara nos que sobrarem e levando para o campo uma galinha preta, ou, aproveitando este pedido de árbitros estrangeiros, arranjar um chinês muito constipado para fazer de George Sousa mas sem deixar pontas soltas (perdoem-me o humor negro!).

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O estado das coisas


Num dia o presidente do Benfica desata a disparar em todas as direções, sempre para fora. Vários alvos foram atingidos e outros ainda andarão por aí a brincar aos tontos, ou escondidos. No dia seguinte o presidente do Sporting dava uma entrevista à TVI. Estávamos todos à espera de uma estratégia para este ano e os próximos, uma linha de conduta que nos fizesse acreditar em algo. O presidente conseguiu falar durante vários minutos e sempre para dentro. O assunto do costume. Aqui ao lado o Braga que, por acaso, até joga com o Benfica esta semana, reage à investida de Vieira para fora é à investida de Varandas para dentro com a sua própria investida: O Sporting, como é óbvio. Nem uma palavra sobre os dislates de Viera que o respeito é muito bonito. Entretanto Pinto da Costa lá se vai aguentando até que caia da cadeira, sempre falando para fora. Os ratos e os papagaios são (apenas) para consumo interno. Aquela coreografia grotesca de um árbitro e um jogador do Benfica 'pendurados' no viaduto da Alameda do Dragão foi uma brincadeira. É de gente que sabe receber.  

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Falar para não se falar enquanto se fala

Em Portugal, a arbitragem é um dos elementos fundamentais para explicação dos resultados e das classificações. Conhecemos demasiado bem os árbitros, os seus truques e manhas, para pensarmos de outra forma. Depois de se reformarem, esses árbitros vão para observadores, comentadores e dirigentes de arbitragem e voltamos a reconhecer os mesmo truques e manhas nas novas profissões, ajudando a construir uma narrativa desculpabilizante que privilegia conceitos como o “controlo do jogo” em contrapartida à aplicação das regras e à coerência de critérios em juízos que implicam interpretação. 

Esta introdução vem a propósito da arbitragem do Porto vs Benfica e de tudo o lhe sucedeu. Quem conhece os tais truques e manhas, percebe que o árbitro ficou condicionado quando não mostrou o segundo amarelo ao Taarabt por cortar a bola com o braço, evitando, assim, um cruzamento da equipa do Porto. Tenho as mais sérias reservas que o árbitro tivesse marcado “penalty” no lance exatamente a seguir se não fosse esse erro manifesto: o defesa do Benfica foi desequilibrado quando saltava para a bola por um ligeiro empurrão do avançado do Porto. No entanto, a partir do momento que essa (suposta) falta não é considerada, o “penalty” não podia deixar de ser marcado, de acordo com o que vamos vendo e as interpretações que nos vão impingindo. Voluntaria ou involuntariamente, o defesa desloca o braço e intercepta a bola cabeceada em direção à baliza. 

Anteontem assisti a um exercício de contorcionismo absolutamente delirante de um comentador de arbitragem e ex-árbitro. Jura ele, há uma lei ou uma orientação da FIFA, da UEFA, da UNICEF, não se sabe bem, que impede explicitamente a amostragem de amarelo nestes lances como o do Taarabt. Às páginas tantas, começou-se a enrodilhar na explicação e, embora continuasse a afirmar que é assim, o árbitro também devia considerar quantos jogadores de uma e outra equipa estavam dentro da área, aplicando-se esta lei ou orientação só a este tipo de lance (não percebi se era mesmo a este lance em concreto), não se generalizando para quaisquer outros em que os jogadores cortem a bola com o braço. Esta explicação fez-me lembrar uma outra muito conveniente há uns anos atrás, quando o árbitro marcou livre indireto contra o Sporting num jogo contra o Porto num lance em que o Polga corta a bola e o guarda-redes, o Stojković, a agarra. Nessa altura, explicaram-nos que não importava se se tratava de um passe ou de um corte, de um lance voluntário ou involuntário, o que relevava é se a bola se dirigia para a linha de baliza. Depois desse jogo nunca mais ninguém ouviu falar dessa lei ou orientação, exatamente o que acontecerá a esta da FIFA, da UEFA ou da UNICEF. 

Em amena cavaqueira com os jornalistas, o Luís Filipe Vieira, Presidente do Benfica, disse tudo com a sagacidade habitual através da seguinte pergunta retórica: “Se o penalty fosse contra o Porto acham que a pastelaria do Soares Dias estaria aberta?”. Quem ainda não estava esclarecido, não tem razões para continuar a não estar. O problema deste exercício de retórica é que circunscreve o problema à indústria da panificação e a certas latitudes. Assim de repente, lembro-me de um árbitro que ficou sem a arcada dentária no Centro Comercial Colombo onde não dispõe de nenhuma pastelaria e que, tanto quanto se sabe, não fica Rua de Santa Catarina. 

Ontem, Pedro Adão e Silva também tem uma crónica no Record bastante esclarecedora do estado de espírito benfiquista, com o título: “(Não) Falemos de Arbitragem”. O título e o seu conteúdo são muito divertidos: fala-se de arbitragem como se não se falasse e se quisesse falar de outra coisa. Para explicar a razão para não se falar da dita cuja, começa por afirmar, sem mais, que a “arbitragem do Soares Dias foi desastrosa”. Em seguida, gasta metade da crónica a acusar o Porto de pressionar os árbitros e afirma que essa pressão produziu resultados no último jogo. Para quem não quer falar, fala pelos cotovelos e imagina-se o que seria se quisesse falar. Em seguida, procura explicar as debilidades do lado esquerdo da defesa do Benfica, embora conclua em tom apologético que, ultrapassadas essas dificuldades, “com a bola no pé e Taarabt aos comandos, o Benfica regressou à sua identidade, apresentou um futebol associativo e reentrou no jogo”. 

A propaganda tem um tal potencial que ilude os próprios benfiquistas de mente mais analítica. O que este jogo revelou foi uma equipa do Benfica sofrível, com uma defesa que é um buraco (o Porto tem mais quatro oportunidades de golo cantado, duas pelo Pepe junto à pequena área – uma na primeira parte, outra na segunda – e duas do Luís Diaz, a acabar o jogo, que conclui, primeiro, com remate para grande defesa do guarda-redes do Benfica e, em seguida, a fintar-se a si próprio e a rematar contra as pernas de um defesa) e que, noutros tempos, com um Jackson Martinez, um Falcão, ou um Hulk, tinha regressado a casa com a mala cheia. Espremido, espremido, o ataque resumiu-se a dois remates à baliza que resultaram em dois golos, com o primeiro a constituir um frango absurdo do guarda-redes do Porto que não consegue sacudir a bola por cima da barra. Também ficou evidente que o Beckenbauer de Dortmund afinal é o Weigl, um jogador que já não tinha lugar a titular na sua equipa e foi despachado por vinte milhões de euros, que, muito provavelmente, são para abater numa outra conta qualquer.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Com elevação


Perdi alguns minutos da minha vida a escutar o presidente do Benfica a falar sem rede aos jornalistas, sem papel à frente, entenda-se. Ninguém ficou admirado com a receção do Porto ao Benfica: o Porto desde o saudoso guarda Abel que é conhecido pela forma particularmente delicada de receber os adversários. Nem Vieira se surpreendeu assim tanto, que ele é do outro tempo. O que escorre desta entrevista é um aviso à navegação: aos árbitros, aos líderes da APAF, à liga, à FPF e ao governo. Hoje é dia de taça e ninguém quer surpresas. Para o resto do campeonato também convinha a coisa fiar fino. Este discurso, esboçado em jeito de desabafo combinado com os jornalistas, na boca de outros seria considerado incendiário, intimidatório, queixinhas ou de mau perdedor. É com estes players (Benfica e Porto e...Braga) que lidamos todos os dias. É com estes que temos de competir (ou mudar de Liga). Educadamente, claro. Somos o Sporting. Sem rir, por favor.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Mais um jogo, mais uma tática

“Mais uma corrida, mais uma viagem”, era o pregão dos carrinhos de choque que ouvia na Feira de São Mateus, em Viseu, quando era miúdo. No Sporting, o pregão é “mais um jogo, mais uma tática”. Temos um treinador sem qualificações, que se encontra a fazer o propedêutico, recorrendo em cada jogo a um fascículo de uma coleção editada pela Planeta DeAgostini. Cada semana de trabalho é um novo começo, com os coletes a serem trocados entre uns e outros jogadores e os mecos a serem colocados em locais distintos. Os coletes calharam em simultâneo ao Coates, ao Luís Neto e ao Mathieu e assim se construiu uma defesa com três centrais. A constituição desta defesa com estes três centrais foi exatamente igual a uma outra contra o Belenenses, jogando o Coates e o Luís Neto nas posições inversas. O resultado também foi exatamente o mesmo: ao intervalo o Luís Neto não voltou do balneário. 

Jogar com três centrais não é o mesmo do que jogar com cinco defesas. É suposto que os laterais joguem de forma diferente do que quando os centrais são somente dois, acabando por se transformar em alas e atacando os alas por dentro. De outra forma, jogando-se com cinco defesas, fica-se com menos jogadores para atacar e defender daí para a frente, dificultando a pressão mais alta sobre a saída da bola do adversário e o equilíbrio do meio-campo. Também não se pode jogar assim, como se o Ristovski fosse como o Acuña. O Acuña é um extremo adaptado a lateral esquerdo e, assim, sabe subir com a bola, jogar no um-contra-um e meter a bola na área. O Ristovski é um defesa direito potente e rápido, que transporta bem a bola para o ataque mas, depois de chegado, não sabe o que lhe fazer, a não ser passar a alguém que se encontre em apoio (normalmente o Bruno Fernandes, seu grande amigo e que o livrava de muitos sarilhos). Se esta era a tática, então devia ter jogado o Rafael Camacho do lado direito. Quando se dispõe da bola, com três centrais, tem que se sair para o ataque com rapidez ou, de outra forma, hipotecam-se nesse processo ainda mais dois médios, quando recuam para receber a bola, quase sempre de frente para a sua própria baliza, e não avançam suficientemente para assegurar adequada  cobertura dos laterais, que têm sempre de subir no terreno.

Os primeiros quarenta e cinco minutos foram muito maus, assustadoramente maus. Sem pressão na defesa e no meio-campo, os jogadores do Portimonense trocavam a bola como queriam e como se não houvesse adversário. Quando o Sporting recuperava a bola, a saída para o ataque começava numa troca de passes entediante até o angustiado Coates se enervar e ir meio-campo dentro ou enfiar uma biqueirada para a frente, a fazer-nos lembrar os bons velhos tempos do Polga. Num primeiro momento, este desconchavo e esta incapacidade de criação de um ataque que se visse, permitiu que muitos dos espetadores descansassem um pouco, depois de terem acabado de ver o electrizante jogo de futsal contra o Benfica. Mas, com o tempo a passar e a perder por um a zero, com um golo marcado por um avançado a jogar ao pé-coxinho, começaram a andar mosquitos por cordas em campo e, se não fosse um livre marcado de forma absolutamente extraordinária pelo Mathieu, era capaz de ser necessário realizar eleições antecipadas ainda durante o intervalo. 

Na segunda parte, com menos um defesa, mais um avançado, o Jovane Cabral, e o Battaglia em modo “take no prisoners”, sem o Wendell ao lado a atrapalhar, passámos a fazer o que era esperado, em particular pelo Portimonense, carregando no ataque, sobretudo após a entrada do Plata. O Vietto teve o seu momento habitual, quando, isolado, fechou os olhos e rematou para onde estava virado, acertando no peito do guarda-redes. Estranhamente, decidiu marcar um livre com os mesmos resultados das restantes demandas, fazendo-nos lembrar os tempos do Paulo Bento quando, em desespero, o próprio Polga também os marcava. Estranhamente porque, nesses tempos, não havia um único jogador que soubesse marcar um livre, contrariamente ao que acontece atualmente, como o Mathieu demonstrou na primeira parte. O segundo golo acabou por acontecer num cruzamento às avessas do Acuña, fazendo a bola sobrevoar a defesa para o Jovane Cabral ao segundo poste a cabecear para o meio onde um defesa trapalhão a empurrou para a sua própria baliza, só para chatear o Sporar e assim o impedir de marcar pela primeira vez com a camisola do Sporting. Com este golo e a lesão do Mathieu, acabámos por não ver o Jesé entrar para cumprimento dos minutos de jogo previstos no contrato e, assim, o Silas meter a entremeada toda no assador.

“Last but not least”, uma última análise sobre a arbitragem. Contra o Sporting, os árbitros têm por hábito admoestar oralmente os jogadores adversários quando cometem faltas graves, mas sem lhes mostrar qualquer cartão. O trapalhão que marcou o autogolo foi humilhado publicamente com duas destas admoestações, mas a verdade, a verdade é que não levou nenhum amarelo. Várias questões me suscita esta técnica de arbitragem, à falta de melhor expressão. Ou se admoesta ou se mostra cartão? No jogo anterior, contra o Sporting de Braga, o árbitro errou quando mostrou amarelo ao Coates e o admoestou oralmente ao mesmo tempo? Estas admoestações são registadas no relatório do árbitro e depois publicadas em Diário da República? Mais tarde, os jogadores não se podem candidatar à GNR ou a fiscal de obras numa câmara do interior? Para nossa sorte, desta vez, o Jovane Cabral revelou especial cinismo no aproveitamento destes erros da arbitragem.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Não consigo

Não consigo é um bom slogan. Frederico já não está perdido numa encruzilhada. Frederico é a encruzilhada. Ontem ouvi parte da sua entrevista ao Record num canal qualquer. Frederico perora sobre o seu trabalho invisível, as obras na academia o (re)negociamento da dívida (curiosamente, Carlos Barbosa, poucas horas antes declarando-se seu apoiante falava de um clube sem dinheiro para mandar cantar um cego e que devíamos vender 50% do capital da SAD), o blá blá da aposta na formação (sem se rir), e quanto ao resto ele simplesmente não consegue

Fatia considerável desse resto fazia parte do seu putativo domínio do conhecimento do futebol, do balneário, das contratações cirúrgicas, para usar um termo que lhe deve ser caro. De engano em engano, com sucessivos tiros no pé e noutras partes anatómicas, atropelado pelas evidências, Frederico lá vai reconhecendo alguns erros. Meses de atraso medeiam uma ou outras dessas pequenas epifanias que lhe permitem ver (e contradizer-se) com espanto a realidade.

Eu não consigo, seria um mote muito interessante para um candidato a eleições, pelo menos ficávamos logo a saber com o que contar. Assim, o não consigo, revela-se não apenas como um exercício penoso, mas irremediavelmente tardio, a reboque das circunstâncias, dos resultados, aflorando de uma epiderme visivelmente desgastada por constantes retoques.

Não consigo poderia igualmente entrar para os anais da literatura light de supermercado. Está ao nível do Prometo Falhar e Prometo Perder de Pedro Chagas Freitas, ou do Não Há Coincidências de Margarida Rebelo Pinto. Muito longe do preferia não o fazer, personalizado por Bartleby, no clássico de Melville, Bartleby o Escrivão.

Recentemente, no Aleixo FM, programa de Bruno Aleixo na Antena 3, dizia-se que o futebol português é uma porcaria lenta e que as porcarias lentas são sempre (consideradas) muito estratégicas. E quando não são lentas estão paradas. Assim é o jogo e assim é governado o futebol que supostamente o gere. Sobre isto as palavras voaram alto. Relativamente à lentidão de processos estamos conversados.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Coisas que acontecem por dificuldades na sintaxe

Leio no Record a notícia com o título: “Beto expulso por bate-boca”. Este título não bate (e não, não é na boca) com o seu conteúdo. Houve um bate-boca entre Rui Casaca, do Sporting de Braga, e Beto Severo, do Sporting, durante o intervalo do jogo deste fim-de-semana, quando se deslocavam através do túnel de acesso aos balneários. Um bate-boca pressupõe duas bocas e duas bocas determinam dois sujeitos das ditas (bocas) e dois sujeitos no título da notícia. 

Rui Casaca terá interpelado Beto Severo, dizendo: “O que é que tu queres, c******? Vai-te f****!”. Beto Severo terá retorquido: “O que é que queres, pá? És um palhaço!”. O árbitro, Jorge Sousa, viu e ouviu tudo e expulsou os dois, tendo descrito a ocorrência no seu relatório. Beto Severo e Rui Casaca foram punidos com multas de, respetivamente, de 306€ e 261€. Ficámos a saber que um “c******” e um “f****” são 45€ moralmente menos ofensivos do que um “pá” e um “palhaço”. Sem mais, não se compreende esta hierarquia da ofensa; mas talvez não seja um problema de mais ou menos vernáculo e de mais ou menos ofensa, existindo outra explicação. Porventura, espera-se do Beto Severo o que não se espera do Rui Casaca, até pela ordem do diálogo e pela sintaxe de um e de outro. 

O que aparentemente se espera é que, interpelado nos exatos termos em que o foi, Beto Severo responda: “V.Exª pretende conversar com o meu aparelho genital o que não me parece apropriado, atentas as suas funções. Importa-se de me identificar um outro órgão mais adequado para esse efeito ou desejavelmente a mim próprio como sujeito do diálogo? V. Ex.ª também recorre a uma segunda frase constituída tão-somente por um verbo auxiliar reflexivo e um verbo principal que não remetem para ação realizável em si mesma, realizando-se com. Agradeço, assim, que me indique a quem devo dirigir-me para realização do ato sexual exigido.” Esta incapacidade de (re)estabelecer um diálogo conclusivo após uma interpelação intempestiva e com sérios problemas de sintaxe, merece seguramente uma punição adicional de mais 45€.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Todos iguais, todos diferentes e uns mais diferentes e iguais do que outros

Bruno Fernandes, Bruno de Carvalho, Bruno Lage e Bruno Paixão, todos iguais, todos Brunos, todos diferentes, um jogador, um dirigente, um treinador e um árbitro. Quem é mais decisivo na conquista de um campeonato: um jogador, um dirigente, um treinador ou um árbitro? Assim, de repente, lembro-me do jogo da época passada do Benfica contra Feirense quando, em vez da primeira equipa ir para o intervalo a perder por dois a zero, foi a ganhar por dois a um. 

Esta reflexão surgiu-me a propósito de uma frase sobre do Sporting de Sérgio Krithinas, Diretor Adjunto do Record: “É um facto que nenhuma equipa na Liga vê amarelos ao fim de tão poucas faltas, mas há mais explicações para este dado do que a malvadez dos homens do apito (sendo obrigada tantas vezes a lutar para recuperar de resultados negativos, também se expõe mais a contra-ataques)”. A sério? O Sporting vê mais amarelos não por “malvadez dos árbitros” mas por se “expor mais aos contra-ataques”? 

O Sporting é a equipa que tem mais amarelos no campeonato, a par do Paços de Ferreira, e a que apresenta menor número de faltas por cada amarelo. Para além disso, nos seus jogos, o Sporting tem sensivelmente as mesmas faltas por amarelo do que os adversários, enquanto os adversários do Benfica e do Porto têm cerca de menos duas faltas. Na época passada aconteceu exatamente o mesmo e só não posso afirmar o mesmo das época anteriores porque não disponho dos dados. Perante um padrão absolutamente evidente, consegue-se explicar estas estatísticas pela “maior exposição ao contra-ataque”? 

Embora se viva habitualmente à boa maneira portuguesa, cada vez que lemos os nomes dos árbitros, de observadores, de dirigentes, de comentadores, vêm sempre à memória o Apito Dourado e os emails. Uma coisa é a justiça, baseada nos princípios da presunção da inocência e do “in dubio pro reo”, outra coisa bem diferente é fazermos de conta que não ouvimos o que ouvimos ou não lemos o que lemos. As coisas são como são e como todos sabemos que são e não, não é uma questão de “malvadez”, não se trata de qualquer juízo intrínseco sobre a bondade ou a maldade do árbitro enquanto pessoa. É assim porque é assim, porque no campeonato português não pode ser de outra maneira. 

Não é possível fazer o exercício contrafactual, mas não tenho nenhuma dúvida que o Benfica com os jogadores do Sporting e o Silas era campeão. Era campeão, aliás, com qualquer plantel e treinador do campeonato. O Sporting não deve, nem precisa de fazer ruído. Deve recolher evidência e proceder à sua análise. Há excelentes universidades e centros de investigação por esse mundo fora que, por uma fração do preço do Sporar, se encarregam de desvendar as eventuais causalidades que os dados possam evidenciar. À Direção do Sporting, para início de conversa, recomendo a leitura de “O Livro do porquê. A nova ciência da causa e do efeito”, de Judea Pearl e Dana Mackenzie. Como dizem os autores, há muito que a causalidade foi matematizada e permite-nos saber mais sobre nós mesmos, o que significa pensar racionalmente causa e efeito, intenção e responsabilidade. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Bo(m)bos e zés-pereiras a interpretar Duke Ellington

Vi o jogo do Sporting contra o Braga e não percebi o que vi, a modalidade praticada e as suas regras. Não, não foi um jogo de futebol. Neste fim-de-semana, também vi um pouco do jogo contra o Benfica em basquetebol, do jogo contra o Setúbal em andebol e do jogo contra a Oliveirense em hóquei em patins e, ainda, a Super Bowl, entre os San Francisco 49ers e os Kansas City Chiefs. Também não foi um jogo de basquetebol, andebol, hóquei em patins ou futebol americano ou talvez só em parte: não tenho dúvidas que aos jogadores do Sporting lhes aplicaram as regras do basquetebol. 

Este fim-de-semana fui ouvir a Patricia Barber ao Theatro Circo. Estranhamente, ou talvez não, esse espetáculo permite compreender melhor o que se passou no jogo do Sporting contra o Braga. Como a Patricia Barber, os jogadores do Braga podem tocar como querem, na cabeça ou nas pernas dos adversários, e tantas vezes quantas querem. No entanto, a subversão das regras, contrariamente às performances de piano, do baixo ou da bateria, não geraram qualquer harmonia. Foi um género de zés-pereiras a interpretar Duke Ellington. Houve bombo, muito bombo e os jogadores do Sporting foram os bo(m)bos da festa. 

O Luís Neto disse o essencial: o que se passou revela total falta de respeito em relação aos jogadores do Sporting. Não, não nos venham com a conversa da falta de atitude, da pressão alta ou baixa, da maior ou menor intensidade de jogo. Quando uns podem fazer faltas e mais faltas sem quaisquer consequências e outros não, não há tática nem qualidade dos jogadores que expliquem os resultados. Cada falta era amarelo e cada amarelo era a promessa do vermelho para a próxima. Para que a farsa fosse evidente, fica a espantoso exibição do Galeno. Espantosa pelo espanto que gera a possibilidade da sua expulsão ter passado despercebida ao árbitro um par de vezes (uma delas, com o fiscal-de-linha a meio metro). 

Não sei o que se pode fazer. Talvez por isso seja mais favorável à aposta nos jovens e em nos deixarmos de ilusões. Alguém considera no seu juízo perfeito que isto se resolve com jogadores? Não vale a pena gastar dinheiro. Há coisas que só o tempo resolve. Talvez ajude a resolver treinadores mais comprometidos com o Sporting e os seus jogadores, como o Paulo Bento (depois do que se passou em campo e da intervenção do Luís Neto, as declarações do Silas são uma vergonha e, para mim, estava a caminho da rua). Talvez ajude uma direção que seja absolutamente intransigente na defesa do bom nome de uma instituição secular, que muito tem dado ao desporto português, e do bom nome dos seus praticantes. Como sócios e adeptos do Sporting não podemos continuar a ser os bo(m)bos deste corso carnavalesco em que se transformou o futebol português.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Entretanto

Parece que o mercado fechou e ficámos sem o Bruno Fernandes e com Luiz Phellype a marinar até novas andanças, meses, pelo menos. O Chico Geraldes está de volta às lides, será que é desta que se equipa? Diz que o Taremi era demasiado pesado para as nossas finanças, e eu ecredito. Eu próprio sou muito pesado para as minhas finanças, e nem quero pensar na possibilidade de o Sporting me contratar. O Viana que tente. Mas... e o Gelson Dala? Curiosamente no Dr. google ainda é jogador do Antalyaspor da Liga Turca, emprestado pelo Sporting. Então o que estava ele a fazer ontem equipado à Rio-Ave no jogo com o Famalicão? O que estava a fazer? Ora, mais ou menos ISTO!


quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Foi-se!

O Bruno Fernandes foi-se. A sensação de perda é enorme e é maior ainda quando os nossos adversários elogiam o negócio. Eles sabem que vamos ficar mais fracos. Foi um privilégio vê-lo jogar por nós, com a nossa camisola. Muito poucos estiveram ao seu nível, talvez o Balakov. Com ele em campo, tudo era possível, tudo era sempre possível: um remate indefensável, um passe de morte, um livre à maneira, uma arrancada imparável. Devemos-lhes várias vitórias e não mais nos esqueceremos da eliminatória da época passada contra o Benfica na Taça de Portugal: manteve-nos à tona na primeira mão e resolveu na segunda, quando só tínhamos olhos para ele e só dele esperávamos que fizesse o que era preciso fazer. 

Enfim, foi-se ou foram-se os dedos e ficaram os anéis. Os anéis ajudam a encontrar os respetivos dedos, mas nada nos garante que sejam os dedos certos, sobretudo quando estamos cansados de trocar dedos certos por anéis e anéis por dedos errados. Talvez seja melhor guardar os anéis e fazer o melhor possível com os dedos que ficam, embora não façam uma mão, uma mão cheia (de jogadores) que permita construir uma equipa, uma verdadeira equipa. A esperança, essa, com ou sem Bruno Fernandes, tem de seguir dentro de momentos e pode ser o Plata, o Camacho ou outro herói improvável qualquer, como o Bruno Fernandes quando chegou de Itália. É a vida, a vida dos clubes, e não há outra para viver.  

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

É preciso ter karma, muita karma


Jogar numa segunda-feira às 21h é tudo menos um convite para ir à bola. Com chuva melhor ainda. Mesmo tendo em conta estas condicionantes, ter pouco mais de doze mil espectadores nas bancadas é indigno de um clube como o Sporting. Trata-se mesmo de um record negativo de assistências em encontros da primeira liga. Mais importante que a contabilidade dos presentes será avaliar a abstenção dos ausentes. Ninguém está preocupado.

Karma is a bitch: Chega Sporar, seis meses de atraso que até lhe viraram as tripas do avesso. Vai para o banco com uma casa de banho portátil por perto, não vão as coisas descambar. Dezassete minutos e já está lá dentro a substituir Luiz Phellype, único ponta disponível, às vezes sem lança. Sabemos depois que Phellype tem para seis meses, mais ou menos, e ficamos na mesma. Apenas um ponta-de-lança mais o Jesé a meter música e água por todos os lados. Tudo menos golos. O único clube do mundo que se diz candidato a títulos sem ovos. Vamos outra vez ao mercado. Lá para Junho teremos novidades. Está tudo planeado.  

Diz que lá vai o Fernandes com o Bruno acoplado: saindo o Bruno saem pelo menos dois jogadores, segundo o Silas três ou quatro. Outros dizem que agora é que é: o sistema liberta-se. Outros que vamos ao fundo. Compram-se máscaras para o vírus corona e impermeáveis com botija de oxigénio para sobrevivermos às profundezas. Fazem-se contas ao dinheiro: que não chega nada ao Sporting, outros que chega mas não basta. Outros afirmam que desaparecerá num ápice. A todos sabe bem uma novela. Esta finalmente terá acabado. Vamos à próxima. O protagonista é sempre o mesmo: o Sporting!

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Rúben Dias wherever, forever

Regressado de umas curtas férias em Viena, na Áustria, arranjo uma gripe das antigas ou das modernas, como se quiser, com um vírus em mutação acelerada que apanhei num "streaming" a ver o jogo contra o Setúbal. Quando recupero, afinal nada se tinha passado. Até o Marques Mendes desconfiava que os dinheiros de Isabel dos Santos não resultavam de um projeto agropecuário bem-sucedido no Namibe, à base de ovos, galinhas e, por vezes, enchidos. O Rui Pinto tanto é um “hacker” como um “whistleblower”, conforme os “leaks”, que os há para todos os gostos. A Ana Gomes sabe sempre e os outros só sabem quando é conveniente, podendo convenientemente nem chegar a desconfiar. 

Foi com este estado de espírito de nada se passa, de absoluta normalidade que vi o jogo contra o Marítimo. Não desconfiei, nem estranhei quando vi a equipa adversária entrar em campo com pelo menos uma meia dúzia de Rúbens Dias. O Rúben Dias enfia uma trancada por trás no Bruno Fernandes e o árbitro vai-lhe explicar que assim não, assim não pode ser. Enfia uma cotovelada no Ristovski e o árbitro volta-lhe a explicar que não senhor, assim não pode ser. Sem sequer se dar ao trabalho de disputar a bola, calca o Doumbia e o árbitro já nem lhe diz nada, considerando-o um caso perdido, um caso sem recuperação, sem pedagogia que resulte, quanto mais um amarelo ou dois. 

Na segunda parte, o Rúben Dias desata a atirar-se para o chão de cangalhas em toda e qualquer circunstância. O árbitro acha-lhe graça e vai-lhe fazendo as vontades, entretendo-nos com ele e marcando falta atrás de falta, pouco interessando se foi (ou não) ou se foi ao contrário. A pantomina é muito apreciada pelo locutor da SporTv, sempre sério e assertivo na análise das quedas de cangalhas sem se escangalhar. E também não se escangalha quando dá conta do frango do guarda-redes do Marítimo e do remate com o pé esquerdo do Rafael Camacho para o primeiro golo. Procurou, procurou e encontrou: onde é que já se viu um jogador marcar um golo com o pé? Que sentido terá a vida de um locutor se não for o de ajudar o árbitro e dobrar o VAR sempre que a oportunidade espreita? Mas essa vida esboroou-se-lhe entre os dedos das mãos quando viu o Borja marcar outro golo com o pé, desta vez sem ser anulado. 

Há quem diga que o Sporting jogou também, que houve futebol. Que o Bruno Fernandes fez mais um remate dos seus, levando a bola a embater na trave, sem quaisquer hipóteses de defesa. Que o Sporar parece estar vivo e de boa saúde, sem problemas de maior no trato gastrointestinal. Que o Jovane Cabral recuperou de lesão e voltou a jogar com golo nas botas. Que o Gonzalo Plata parece ser uma excelente alternativa. Que o Rafael Camacho continua a afirmar-se. Quem é que quer saber disso quando se tem à disposição uns tantos Rúbens Dias e árbitros e locutores a condizer? Palermas, se querem futebol, vão à ópera, ver e ouvir a Orquestra Filarmónica de Viena!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A encruzilhada


Frederico, o Invisível, emergiu ontem de um nevoeiro cerrado que durava há semanas (derrotas com Porto, Benfica e Braga) para apresentar o jogador Sporar. O jogador chega ligeiramente atrasado, cerca de seis meses, mais concretamente. Antes o nevoeiro tinha tragado o jogador Fernando, recambiado após umas curtas férias de seis meses, assomando também, por vezes, um tipo chamado Jey-M, conhecido como o jogador Jesé. Entretanto, o Paladino Frederico, sua alma gêmea, entretinha-se a gatinhar em algumas reuniões os problemas do futebol português, leia-se as claques do Sporting. De resto, as preocupações eram todas nossas, as de alguns adeptos inconformados com as derrotas envoltas em pele de cordeiro. Pelos vistos o trabalho invisível terá redundado em resultados bem visíveis. A encruzilhada afinal é nossa. Também essa é invisível aos olhos de Frederico.  

domingo, 19 de janeiro de 2020

Tapar a minha angústia com uma peneira


Meus amigos, continuamos em franca recuperação… dos nossos valores, formas de estar e espírito sportinguistas. Apesar de estarmos, no final da primeira volta, a dezanove pontos do primeiro lugar, doze do segundo, atrás do Famalicão e com o Braga a morder-nos os calcanhares, ninguém parece preocupado, aceita-se com naturalidade e razoabilidade e maturidade esta sina perdedora. A única preocupação razoável são as claques, as nossas, bem entendido. Terá Frederico falado sobre o assunto (respeitosamente) com Vieira na tribuna? Não é de crer que o tenha aborrecido com essa ou outras minudências.

O mais interessante é a passividade amorfa dos adeptos durante e depois dos jogos. Antes também. Voltamos à lengalenga da cultura desportiva, como se na indústria do futebol e quejandos alguém se preocupasse realmente com isso. Não se trata de ganhar a todo o custo mas sim de competir a todo o custo. São coisas deferentes. É preciso que os jogadores e o treinador percebam o que é competir com o Leão rompante ao peito.

Veja-se de soslaio este jogo com o nosso grande rival. Desta feita não foi a grande vitória moral como contra o Porto (já agora, o Braga não foi lá ganhar?), não, foi aceitação da superioridade do plantel, da equipa, dos jogadores (já agora, e da direção também, não?), dos roupeiros, dos olheiros, e do orçamento do rival, como se isso ganhasse jogos. Se isso ganhasse jogos tínhamos ganho ao Tondela, ao Gil Vicente, ao gigantesco Alverca, e por aí fora. Para ganhar é preciso conhecer o adversário, as suas qualidades e fraquezas, conhecer bem a nossa equipa e tentar surpreender. Competir é isso. Depois logo se vê.

Vivemos à sombra do ataque à Academia. Serve para tudo. Ninguém anda preocupado porque ninguém é responsabilizado. As claques servem como peneira (efémera) para tapar o sol e a minha angústia. Quanto ao resto, aconselha-se os jogadores e equipa técnica do Sporting a darem uma vista de olhos ao jogo da seleção de andebol contra a Suécia. Quando competimos olhos nos olhos também podemos ganhar. A qualquer um.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Estranha forma de vida


Frederico no seu labirinto continua a sua cruzada pela moralização do futebol português. Qual paladino, investe freneticamente, mas apenas em assuntos de claques e seus arredores. A dezasseis pontos do primeiro lugar e a doze do segundo, não encontra nada melhor para fazer do que cavaquear com alguns secretários de estado, curiosamente, sem nenhum dos seus congéneres a acompanhá-lo. Ao seu lado apenas os encontrará na tribuna presidencial, de resto, as opiniões dos seus congéneres relativamente ao assunto em questão são conhecidas: uns não reconhecem a existência de claques no seu clube, apenas grupos (des)organizados; outros ostentam com orgulho o símbolo da sua guarda pretoriana. No seu labirinto Frederico nem a si mesmo se encontra.

Curiosamente, ou talvez não, o paladino não investe na denúncia dos e-mails, padres, paróquias, ou frutas da época, o paladino não denuncia arbitragens condicionantes que por aqui o sempre atento Rui Monteiro desmascara, o paladino não quererá aborrecer secretários de estado com tamanhas minudências. As preocupações do paladino são outras. No início percebia-se, agora cheira a fait-divers ou a esqueletos em decomposição no armário.

Pacto Leonino

No Sporting, vivem-se tempos de chumbo (a expressão é um pouco exagerada mas não me ocorre de momento uma mais feliz). Testemunho atrás de testemunho, o tribunal vai esviscerando o antigo presidente. Do atual não se vislumbra um projeto, uma ideia, um rumo que mobilize os sócios e adeptos, enquanto se vão recolhendo assinaturas para promover a sua destituição. Com novas eleições, seria o regresso dos pavões habituais com uma ou outra alma bem-intencionada que, sendo eleita, rapidamente iria congestionar ainda mais o Inferno. De um saco de gatos, evoluiríamos para um circo de feras, continuando cada sportinguista na sua trincheira com a possibilidade de se recolher em mais algumas, enquanto continua o fogo de artilharia. 

Esta minha angustiante reflexão encontrou alívio numa sugestão de leitura do meu amigo Júlio Pereira. Sugeriu-me a leitura do conto “Democracia Eletrónica” do livro “Sonhos de Robô” do Isaac Asimov, talvez a maior referência da literatura de ficção científica. O conto futurista, escrito há mais de cinquenta anos, descreve as eleições norte-americanas controladas por um supercomputador, que, recolhendo informação de todos os cidadãos, seleciona um, o mediano, o eleitor-padrão para escolher o Presidente dos Estado Unidos da América. Assim se evitam campanhas eleitorais e o confronto entre grupos de cidadãos organizados em partidos políticos, garantindo-se ainda que as preferências dos eleitores são cientificamente respeitadas. 

No nosso caso, sem o supercomputador, será necessário encontrar um método equivalente, produzindo os mesmos resultados. Proponho, assim, que se peça ao Leonardo Jardim para escolher um novo presidente, um com quem esteja disposto a trabalhar. Não tenho dúvidas que o sócio mediano, o sócio e eleitor-padrão, qualquer que ele seja, gostava de ser um Leonardo Jardim com as quotas em dia. Ah, estava-me a esquecer: é preciso contratá-lo primeiro!

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Mais fluoxetina para melhorar a autoestima sportinguista

Não sei se a autoestima dos sportinguistas anda pelas ruas da amargura ou se é congénita, isto é, se ser-se do Sporting implica baixa autoestima. Acabado o jogo contra o Porto, regresso a casa ainda a tempo de ver um adepto a dizer que a equipa tem um problema de atitude. A partir daí foi um chorrilho de autocrítica sobre a eficácia, a qualidade dos jogadores e, inevitavelmente, o Varandas e a preparação da época. A autoestima é tão baixa que aceitamos todas as narrativas sobre o jogo como se nem o tivéssemos visto. Deixo cinco notas que permitem a um sportinguista com adequada autoestima aguentar este resultado e preparar-se para o jogo contra o Benfica. 

[O conceito de arriscar demasiado] 
No sábado à noite, no meio de mais um “zapping”, ouço um senhor comentador com o cabelo pintado de cor de ferrugem a analisar o triplo ou o quádruplo “penalty” do Ruben Dias num só lance, afirmando que se trata de um jogador que arrisca muito e que naquele lance tinha arriscado demasiado. Se bem percebo a semântica, o Ruben Dias é como aquele condutor que excede sempre os limites legais de velocidade na expetativa de não ser apanhado pelo radar ou pela própria polícia de trânsito. No futebol não é aleatória a presença de radar ou de polícia de trânsito: não há jogo se não houver essas condições. O Ruben Dias não arrisca nem deixa de arriscar, infringe a regras de jogo perante a complacência dos árbitros que veem o que todos vemos e fazem de conta que não estão no estádio mas, por azar, escondidos na berma da Estrada Nacional Nº2. 

[Quem não arrisca não petisca e o petisco sai sempre aos mesmos] 
Não se petisca se não se arrisca e não há domingo sem sábado. Havendo risco e petisco no sábado, também haveria no domingo, estava bom de ver, quando se tem o mesmo árbitro que ainda há uns meses validou um golo com a mão ao Porto na Final da Taça de Portugal. Como também não há segunda sem domingo, li a análise efetuada por um ex-árbitro n’ “A Bola” a dois lances do Alex Telles, um que deveria ter originado um “penalty” e outro o segundo amarelo e consequente expulsão. Na análise recorre-se outra vez não às regras de jogo mas ao Código de Estrada: o Alex Telles arriscou demasiado também. Se continuo a perceber a semântica, os jogadores deixaram de fazer faltas e passaram a arriscar. Vamos admitir por um só momento que a situação era exatamente a inversa: o Acuña arriscava demasiado duas vezes e no final o Sporting ganhava dois a um. Alguém estaria a falar noutra coisa se não nisso e isso ainda seria qualificado como "arriscar"? É verdade que a situação é hipotética. O Acuña mesmo sem arriscar nada levou um amarelo, não fosse pensar que podia arriscar alguma coisa. 

[A eficácia de uns e a falta de eficácia de outros] 
Os resultados no futebol não encerram nenhum dilema moral. Quem ganha merece ganhar porque, de outra forma, não se tratava de futebol mas de patinagem artística. Outra coisa bem diferente é encontrar explicações “a posteriori” para os resultados. A explicação encontrada foi a da famosa eficácia e da sua relação com a qualidade dos jogadores. O Soares foi eficaz e o Acuña também. Quanto ao Marega, este sim, encerra em si mesmo um dilema que deixa perplexos os adversários e mais ainda os seus colegas de equipa: nunca se sabe para que lado ele não vai conseguir dominar a bola e se para esse (não) efeito recorre ao fémur, à tíbia ou ao perónio da perna esquerda ou direita. O Marega mais uma vez não conseguiu dominar a bola, perdeu-a e, com isso, acabou por a meter dentro da baliza. Nos manuais das melhores universidades e no Canal 11, da Federação Portuguesa de Futebol, qualifica-se este tipo de situação como “piço do caraças”. Em conclusão, o Sporting e o Porto foram igualmente eficazes só que o segundo teve um “piço do caraças”. 

[A ironia do Sérgio Conceição] 
O Pinto da Costa sempre teve sentido de ironia e as suas declarações marcaram o estilo do Porto até hoje. Ninguém se esquece da sua resposta, quando interpelado por um jornalista para análise de um lance em que o velho João Pinto aliviou a bola contra a barra da sua própria baliza, que ele assim terá procedido para evitar ceder canto. É neste registo irónico que compreendo a afirmação do Sérgio Conceição de que o primeiro golo do Porto resultou de um lance estudado. Admito que lhe tenham perguntado como é que explicava o facto de o Marega não conseguir dominar uma bola e, às vezes, ao perdê-la acabar por marcar golo. Sem o registo irónico, a afirmação é desprovida de sentido. Se o Marega treinasse afincadamente a receção de bola, deixaria de ser imprevisível e não mais conseguiria marcar golos ao perdê-la, depois de lhe tocar com a extremidade anatómica mais improvável. 

[A tática, sempre a tática] 
O treinador da equipa que ganha tem sempre razão. Outra coisa bem diferente é encontrar razão (racionalidade) no que faz como forma de explicar o resultado. O Porto não ganhou o jogo porque entrou o Luiz Dias. O Porto ganhou o jogo porque o Soares marcou o segundo golo, depois de um canto bem marcado pelo Alex Telles que encontrou o Doumbia a dormir. O Sporting entrou muito bem na segunda parte e dominou durante vinte a vinte cinco minutos, criando diversas oportunidades de golo. Não marcando, quando a pilha se esgotou, o Porto equilibrou o jogo e num lance de bola parada marcou (nestas circunstâncias foi eficaz). Depois do segundo golo, o jogo nunca mais foi o mesmo. Não se pode analisar o que se passou a seguir com a mesma grelha de leitura do que se passou antes. Os lances criados pelo Luiz Dias foram depois do segundo golo e não antes. O Silas não reagiu mal. Perdido por cem, perdido por mil, desmontou a equipa e apostou em partir o jogo, arriscando os contra-ataque do Porto, mas tentando numa ou noutra situação apanhar o adversário desequilibrado e em desvantagem numérica. A intenção tinha a sua razão de ser: o Porto tem muitas dificuldades em controlar o jogo com bola. Esqueceu-se foi que para esse efeito estava lá o árbitro. Depois desse golo, foram marcadas mais faltas do que no resto do tempo e, assim, o jogo não se partiu, embora o Sporting ficasse mais exposto defensivamente.

domingo, 5 de janeiro de 2020

A minha angústia a apanhar sol


Meus amigos peço desculpa pela minha loucura, mas gosto de ler nas entrelinhas. Anos atrás, no consulado de Godinho, o presidente do Porto desejava um Sporting mais forte. Era um desejo com o bafo do moribundo, bem o sabemos. O treinador do Porto, no final deste jogo, faz mais ou menos o mesmo, mas com menos flores: era uma injustiça termos marcado mais - dizia ele - porque o Sporting esteve bem, e até terá sido um jogo difícil. É assim que se fazem os enterros e respetivas despedidas de alguns conhecidos rivais. A solenidade do momento não deve tolher o nosso raciocínio: o que interessa é não contarmos para as contas finais.

O jogo foi o que se viu. E olha que fizémos um bom jogo. Aos cinco minutos já estávamos a passar para a próxima passagem de ano futeboleira. As contas eram fáceis: treze pontos para o primeiro, nove para o segundo. Era o jogo de uma época. Mas ninguém estava preocupado. No final passamos para dezasseis e doze pontos para o primeiro e segundo, respetivamente. Segundo o treinador ainda estamos com um olho no segundo e outro, se calhar, no cigano. Atrás de nós já se sente um ou outro olho com a mesma convicção ocular. Andamos nisto com a dedicação de um adolescente a quem proíbem o exagero da consola. Ele sabe que o pai também gosta de jogar.

Em breve, esmiuçaremos a época à procura de nenúfares. Será tudo previamente planeado ao pormenor. Não fosse o movimento de rotação e translação da terra e ainda estaríamos no centro do universo. Mas assim é o sol que terá de fazer o seu trabalho: brilhar para nós. Desculpem-me a angústia.