quarta-feira, 18 de setembro de 2019

É de cortar as veias!

Vi o jogo do Benfica contra o Leipzig. Pagar 20 milhões de euros por um nabo espanhol delambido, que nem sequer anda rodeado de raparigas simpáticas, tatuadas e decoradas com “piercings” nem canta “reggaeton”, é de cortar as veias para um qualquer benfiquista. O Varandas não acerta no futebol, mas não erra em tudo. Depois de um curso rápido de cativações com Mário Centeno, ainda fica uma ou outra rotunda ou um ou outro pavilhão multiusos, mas, pelo menos, procura não nos deixar o Aeroporto de Beja ou o Centro Cultural de Belém.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A mão invisível

“Se me perguntarem se prefiro o Sporting 18 anos sem ganhar um campeonato ou um Sporting a ganhar com um bom investidor, confesso que prefiro a última” 
Henrique Monteiro, “A Bola” de 12 de setembro de 2019 

Ontem, quando estava a ver o jogo contra o Boavista, veio-me à cabeça esta tirada do Henrique Monteiro. Talvez precisemos mesmo de um investidor, mas não de um investidor qualquer, de um investidor que queira simplesmente investir por falta de melhor altrnativa. Precisamos de um investidor que queira mesmo o seu dinheiro de volta acrescido de adequada remuneração e esteja disposto a tudo para que assim seja. 

O Henrique Monteiro acredita na metáfora da mão invisível do Adam Smith. Não precisamos da benevolência de um investidor, mas do seu interesse próprio. Não apelamos ao seu humanitarismo mas à sua autoestima. Se assim for, em seu benefício, conduzir-nos-á a todos (os sportinguistas) à felicidade eterna como se houvesse uma mão invisível. 

Quando o Bruno de Carvalho se candidatou à presidência do Sporting pela primeira vez, anunciou que trazia com ele investidores russos. Nada melhor do que investidores russos para defenderem o seu interesse próprio. Têm-no feito com todas as mãos disponíveis, invisíveis porque ou alguém fica sem elas ou nunca se chega a saber de quem são. 

Imagino uma mão invisível do Samuel L. Jackson a recitar Ezequiel 25:17 na sua versão muito própria: “The path of the righteous man is beset on all sides by the inequities of the selfish and the tyranny of evil men. Blessed is he who, in the name of charity and good will, shepherds the weak through the valley of darkness, for he is truly his brother's keeper and the finder of lost children. And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy my brothers. And you will know my name is the Lord when I lay my vengeance upon thee”.

sábado, 14 de setembro de 2019

Ilicitude lícita ou ilícita licitude?

O caso do Benfica é emblemático. A SAD não irá a julgamento no caso E-toupeira e não é por não existirem provas para o crime, um crime aliás gravíssimo. Existem, diz o tribunal, e "o crime é cometido em nome da Benfica SAD e no interesse da Benfica SAD": Só que "a Benfica SAD não pode ser responsabilizada criminalmente se não se determinar que estava a par, quis e pretendeu, por acção ou omissão, as condutas de Paulo Gonçalves". Portanto, há crime, beneficiou o Benfica, foi feito em nome do benfica, mas Paulo Gonçalves agiu como um lobo solitário porque, conclui o tribunal,o Ministério Público não apresenta provas sustentadas sobre o envolvimento da SAD, baseando-se "em 'parece que', 'suponhamos', ou é 'da experiência comum', pois tal não leva a nenhuma verdade processualmente satisfatória". Maior sova no ministério público não poderia o juiz dar. 
Pedro Santos Guerreiro (Expresso)


Não existe uma moral desta história.  Existe crime mas foi mal provado ou mal sustentado. Logo não existe crime. Quer dizer, existe mas apenas para alguns dos intervenientes. Os outros não sabiam de nada. Quer dizer, até podiam saber, mas não se fica bem a saber se sabiam. A partir de agora já sabemos. Basta um ou dois bodes expiatórios que o ministério público (supostamente) faz o resto.  Talvez seja a tal história da ilicitude lícita ou da ilícita licitude. Temos muito que aprender. 

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Silogismos

[Silogismo aristotélico] 
 Os gatos têm quatro patas? Têm. O Marcolino é um gato? É. O Marcolino tem quatro patas? Tem.

[Silogismo pós-aristotélico] 
O homem era dirigente da organização? Era. O homem respondia hierarquicamente à direção da organização? Respondia. Há indícios da prática de crimes? Há. Nesses eventuais crimes recorreu a recursos da organização? Recorreu. Esses eventuais crimes beneficiavam a organização? Beneficiavam. A organização é responsável? Não.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Atentamente

Não me admira que o senhor do Porto não esteja admirado. Não admira, o apito dourado teve o seu tempo de admiração. Aliás, não me admira que o e-toupeira não admire ninguém. Tudo somado vai dar à rua do costume que ninguém conhece. Não admira. O que me admira, a mim, é o Sporting ser tão solicito a admirar-se com os seus. Sejam estes quais forem. Temos uma história da admiração para escrever, em vários volumes. Em casa tudo bem. O resto fica alinhavado num comunicado. Temos por aqui várias ideias para comunicar que antecedam esse comunicado. Nas entrevistas recentes do (nosso) presidente, ou nos seus arredores, nada nos indica um caminho nesse sentido. Não estou admirado. Tudo o resto é uma soma de não admirações. Não se admirem com o resultado. Será sempre o mesmo. Obrigado. 

domingo, 8 de setembro de 2019

Uma varanda para a outra margem?


Sou do tempo em que as marquises começaram a confundir-se com as varandas e a fazerem parte das nossas vidas. Uma varanda com marquise era mais uma assoalhada a não desdenhar, um aproveitamento do espaço que se fazia à revelia de qualquer sentido estético e sem qualquer (até dada altura) fiscalização das autoridades competentes. Mas uma varanda com marquise não deixava de ser uma varanda, só que com marquise.

Sou um tipo com memória, daqueles chatos que ainda vai lendo umas coisas, daqueles que passou anos a coleccionar revistas, suplementos, a recortar crónicas e a guardá-las como trevos em livros. Nesse sentido, a internet até passou a facilitar-nos a vida, no entanto, com as redes sociais tudo arde mais depressa, inclusive a memória. Mas isso não implica que as coisas (e as palavras) deixem de existir, sucede apenas que ficam por aí, algures.

A entrevista do presidente do Sporting ao canal do clube (passei algum tempo a revê-la e a lê-la), é um desses momentos encenados (todas as entrevistas o são de alguma forma) cuja impreparação de todos os intervenientes roça o amadorismo. Para além de tudo ou quase tudo ser refutável e comprovadamente (lá está a memória e o algures) desmontável, perdeu-se uma oportunidade de luxo para uma demarcação clara do clube no contexto do futebol português. A visão do inimigo interno (qual é a novidade?) foi condescendentemente aplaudida pelo sr. Rui Pedro Brás, perdão, pelo sr. Luís Filipe Vieira. As palmadinhas nas costas de Pinto da Costa já são um clássico.

Dizer o contrário daquilo que dissemos ontem, ou anteontem, não é sinónimo de tontaria, já sabemos o blá blá do futebol, mas dizê-lo confiando que ninguém se recorda daquilo que foi dito, ou agindo como se nada tivesse sido dito, ou pior, fazendo-o como se estivesse a palitar os cérebros dos outros com uma linha condutora perfeitamente definida, não é apenas tontice, mas de uma inabilidade que roça a inaptidão.

Não me ia sequer debruçar sobre essa varanda, mas o Expresso de ontem, lá para a página 35 faz bem essa desmontagem e em poucas linhas. Qualquer subcontratado das pesquisas avulso faria o mesmo. Por exemplo, a contradição sobre a contratação de keizer, alicerçada nos famosos 4 parâmetros definidos pela direcção, supostamente obedecendo a uma busca exaustiva, afinal, foi assim: Keiser aceitou entrar em Alvalade quando nenhum outro treinador queria. Parece que não foi despedido no final da época por que ninguém despede um treinador que ganha duas taças. Para não ser aborrecido podem ler o texto aqui.

Mas o mais importante das entrevistas não foi o que foi dito mas aquilo que (também) foi omisso ou esquecido. Que o futebol cá do burgo tem uma direção bicéfala, não havendo lugar para mais ninguém (muito menos para o Sporting como se tem visto). Nenhuma palavra para o jogo com o Rio-Ave, o último de Keizer, onde a equipa esteve mal, é certo, mas foi muito bem secundada pelo árbitro. Ou alguém acredita que aquilo fosse possível na Luz ou no Dragão? Nada, nem uma palavra.

O facto de termos construído uma marquise a engalanar a varanda não esconde essa mesma varanda. Se calhar, é a mesma varanda de sempre. Até nisso é chato um tipo ter alguma memória.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Keizer: uma boa escolha

Contrariamente a muito boa gente, continuo a considerar que o Marcel Keizer foi uma boa escolha. Por defeito de ofício, começo sempre por analisar resultados e só depois é que passo à sua explicação. A época passada tinha tudo para ser um desastre. Com o Peseiro, a profecia tinha tudo para se cumprir. Não eram só as suas qualidades técnicas e táticas como treinador, das quais desconfio e muito, face aos resultados ao longo da sua carreira e, em particular, nos tempos mais recentes, no Porto ou no Guimarães. Era pela completa desconfiança no seu trabalho, que ia dos jogadores até aos porteiros de Alvalade. 

O Marcel Keizer era uma incógnita mas uma incógnita holandesa, sempre superior a uma incógnita portuguesa, por definição. Para além de dispor do benefício da dúvida, coisa que ninguém se lembraria de conceder ao Peseiro, começou por ser uma lufada de ar fresco e deu-nos ânimo. Depois tudo começou a piorar mas ainda ganhou duas taças. Uma época condenada ao desatino acabou por ser bastante razoável para o padrão do Sporting. 

Como costuma dizer o Pedro Azevedo, do Castigo Máximo, a gestão comprou tempo. O problema é que parece não ter feito grande coisa com ele, não resolvendo os problemas que tinha para resolver e não planeando adequadamente a época nas atuais circunstâncias (sobretudo, económico-financeiras). A equipa não dava mostras de evoluir e os jogadores pareciam não acreditar. Um treinador é sempre primeiro despedido pelos jogadores e só depois pela direção. O tempo que se ganhou esgotou-se e assim o tempo de Marcel Keizer também. Nada de novo. O Paulo Bento fez um feito destes mas em maior. Com umas equipas horríveis, ganhou quatro anos à direção, até passar de “forever” a “never” em menos de um fósforo. 

Como no futuro todo o passado nos parece melhor e como no futuro ninguém se lembrará como se jogava tão mal e se lembrará dos resultados e das duas taças, estamos condenados a acabar por ter saudades dele. Nada de novo, mais uma vez.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Fácil, fácil!...

O Sporting não me apetece ou não me tem apetecido. Não vi os dois primeiros jogos do campeonato. Vi o terceiro e o quarto por desfastio. Voltei a ver o costume com as explicações do costume. Vi uma jogada de ataque do Sporting que acaba com a bola recuperada pelo jogadores do Portimonense, vi-os perder a bola, vi uma falta, vi marcar livre, vi marcar “penalty”, vi marcar uma falta que não vi e vi marcar um livre pela falta que não vi. Vi marcar um “penalty”, vi marcar outro “penalty”, vi marcar outro “penalty” ainda e vi o que nunca tinha visto e o que nunca se tinha visto. Tudo me foi explicado minuciosamente como se não tivesse visto o que vi ou não compreendesse o que vi, como se fosse cego ou estúpido. Não sou cego, mas estúpido, por ainda continuar a ver o que vejo. 

A culpa é do treinador, deste, do anterior e do anterior do anterior. A culpa é dos jogadores, destes, dos anteriores e dos anteriores dos anteriores. A culpa é da direção, desta, da anterior e da anterior da anteriores, pelo menos. Fácil, fácil!... 

O Pinto da Costa confidenciou que se enganou no nome do treinador anunciado e, como não queria voltar com a palavra atrás, veio o Carlos Alberto Silva em vez do Carlos Alberto Parreira. Ficámos a conhecer duas das suas facetas: era muito religioso e aceitava de bom grado as substituições propostas pelo Pinto da Costa. Esteve duas épocas e ganhou dois campeonatos. Fácil, fácil!... 

O Jesus era o Rei da Tática, o maior entre os maiores e depois não era porque era treinador do Sporting. O Rui Vitória conduzia Ferraris, batia recordes, fazia pisca-pisca à noite quando o Luís Filipe Viera tinha insónias e depois queria-se desfazer do João Félix. O Bruno Lage bateu novos recordes, deu novos mundos ao Mundo, tocou no João Félix e ele levantou-se e andou. Fácil, fácil!...

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Todos pela Amazónia


(...) para seu espanto, percebia que, na verdade, não eram dadas ordens nenhumas e que o príncipe Bagration apenas fazia de conta que tudo o que era feito por necessidade, por acaso ou por vontade deste ou daquele comandante acontecia, se não por ordem dele, pelo menos de acordo com as suas intenções. 

Guerra e Paz, Lev Tolstói 

Estivesse eu com o bom humor em alta e faria referência ao hat-trick do Coates, mas deixo isso para a imprensa desportiva sempre atenta ao Sporting quando as coisas correm de feição. O Coates, já o disse aqui, ainda está de férias, e culpa tem quem o mete a jogar fora dos areais.

Posto isto, temos que abordar o tema referente à família Pinaceae, a dos pinheiros. Neste caso, não se trata (ainda) do avançado que um antigo treinador do Sporting queria como referência estática atacante, não, mas do Sr.Pinheiro, ilustre dignatário da arbitragem que nos foi oferecida este sábado passado.

Três pontapés de grande penalidade em Alvalade? Acho pouco. Ficou a faltar um sobre o Raphinha, mas esse, como o seu autor vai a caminho do Rennes relançar a carreira, o árbitro achou por bem não ver. Mais uma vez o VAR tinha ido ao BAR. É claro que o segundo penálti assinalado contra o Sporting é digno de um devaneio místico, apenas compreendido à luz de um consumo exacerbado de substâncias psicotrópicas, muito comuns em rituais perpetrados por algumas tribos indígenas, nomeadamente em festivais de música e em cangostas do Gerês.

Todavia, as visões místicas muito em voga em jogos do Sporting, não explicam tudo. Não explicam – embora o consumo de algumas dessas substâncias nos pudesse ajudar artificialmente em alguns momentos – o facto de, mais uma vez, a equipa dar a sensação que se tenha conhecido no dia anterior numa discoteca e marcado uma peladinha para as 19 h de sábado. Tudo ressacado obviamente.

O problema não é apenas a defesa, embora o Coates esteja ao nível do meu sobrinho que fez agora um ano, em termos de corridas de gatas. Qualquer treinador adversário percebe que este Sporting, entre linhas, depois das linhas, ao lado das linhas, seja em transições seja em memorandos para o mestre Fernandes, não sabe com que linhas (estejam elas onde estiverem) se cose. A minha avó era costureira, sei do que falo.

Sabe o treinador adversário, mas não sabe o nosso. Não sabe, mesmo depois de um estágio de quase um ano em pipas do melhor carvalho português. Não gostará da pinga? Gosta, mas não é especialista. Talvez fosse um bom funcionário público que em tempos treinou o Ajax jovem nas horas vagas e que, faltando melhor, treinou o Ajax menos jovem durante quinze dias. Depois foi para o Médio Oriente. O Rui Vitória tem por lá grande sucesso, tudo é possível.

Agora, é preciso ter olho para escolher um bom funcionário público exilado no Médio Oriente. Foi isso que fizemos. Não queremos cá especialistas. A começar pelos dirigentes. 

Todos pela Amazónia. Todos pelo Sporting.