quarta-feira, 18 de setembro de 2019

É de cortar as veias!

Vi o jogo do Benfica contra o Leipzig. Pagar 20 milhões de euros por um nabo espanhol delambido, que nem sequer anda rodeado de raparigas simpáticas, tatuadas e decoradas com “piercings” nem canta “reggaeton”, é de cortar as veias para um qualquer benfiquista. O Varandas não acerta no futebol, mas não erra em tudo. Depois de um curso rápido de cativações com Mário Centeno, ainda fica uma ou outra rotunda ou um ou outro pavilhão multiusos, mas, pelo menos, procura não nos deixar o Aeroporto de Beja ou o Centro Cultural de Belém.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A mão invisível

“Se me perguntarem se prefiro o Sporting 18 anos sem ganhar um campeonato ou um Sporting a ganhar com um bom investidor, confesso que prefiro a última” 
Henrique Monteiro, “A Bola” de 12 de setembro de 2019 

Ontem, quando estava a ver o jogo contra o Boavista, veio-me à cabeça esta tirada do Henrique Monteiro. Talvez precisemos mesmo de um investidor, mas não de um investidor qualquer, de um investidor que queira simplesmente investir por falta de melhor altrnativa. Precisamos de um investidor que queira mesmo o seu dinheiro de volta acrescido de adequada remuneração e esteja disposto a tudo para que assim seja. 

O Henrique Monteiro acredita na metáfora da mão invisível do Adam Smith. Não precisamos da benevolência de um investidor, mas do seu interesse próprio. Não apelamos ao seu humanitarismo mas à sua autoestima. Se assim for, em seu benefício, conduzir-nos-á a todos (os sportinguistas) à felicidade eterna como se houvesse uma mão invisível. 

Quando o Bruno de Carvalho se candidatou à presidência do Sporting pela primeira vez, anunciou que trazia com ele investidores russos. Nada melhor do que investidores russos para defenderem o seu interesse próprio. Têm-no feito com todas as mãos disponíveis, invisíveis porque ou alguém fica sem elas ou nunca se chega a saber de quem são. 

Imagino uma mão invisível do Samuel L. Jackson a recitar Ezequiel 25:17 na sua versão muito própria: “The path of the righteous man is beset on all sides by the inequities of the selfish and the tyranny of evil men. Blessed is he who, in the name of charity and good will, shepherds the weak through the valley of darkness, for he is truly his brother's keeper and the finder of lost children. And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy my brothers. And you will know my name is the Lord when I lay my vengeance upon thee”.

sábado, 14 de setembro de 2019

Ilicitude lícita ou ilícita licitude?

O caso do Benfica é emblemático. A SAD não irá a julgamento no caso E-toupeira e não é por não existirem provas para o crime, um crime aliás gravíssimo. Existem, diz o tribunal, e "o crime é cometido em nome da Benfica SAD e no interesse da Benfica SAD": Só que "a Benfica SAD não pode ser responsabilizada criminalmente se não se determinar que estava a par, quis e pretendeu, por acção ou omissão, as condutas de Paulo Gonçalves". Portanto, há crime, beneficiou o Benfica, foi feito em nome do benfica, mas Paulo Gonçalves agiu como um lobo solitário porque, conclui o tribunal,o Ministério Público não apresenta provas sustentadas sobre o envolvimento da SAD, baseando-se "em 'parece que', 'suponhamos', ou é 'da experiência comum', pois tal não leva a nenhuma verdade processualmente satisfatória". Maior sova no ministério público não poderia o juiz dar. 
Pedro Santos Guerreiro (Expresso)


Não existe uma moral desta história.  Existe crime mas foi mal provado ou mal sustentado. Logo não existe crime. Quer dizer, existe mas apenas para alguns dos intervenientes. Os outros não sabiam de nada. Quer dizer, até podiam saber, mas não se fica bem a saber se sabiam. A partir de agora já sabemos. Basta um ou dois bodes expiatórios que o ministério público (supostamente) faz o resto.  Talvez seja a tal história da ilicitude lícita ou da ilícita licitude. Temos muito que aprender. 

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Silogismos

[Silogismo aristotélico] 
 Os gatos têm quatro patas? Têm. O Marcolino é um gato? É. O Marcolino tem quatro patas? Tem.

[Silogismo pós-aristotélico] 
O homem era dirigente da organização? Era. O homem respondia hierarquicamente à direção da organização? Respondia. Há indícios da prática de crimes? Há. Nesses eventuais crimes recorreu a recursos da organização? Recorreu. Esses eventuais crimes beneficiavam a organização? Beneficiavam. A organização é responsável? Não.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Atentamente

Não me admira que o senhor do Porto não esteja admirado. Não admira, o apito dourado teve o seu tempo de admiração. Aliás, não me admira que o e-toupeira não admire ninguém. Tudo somado vai dar à rua do costume que ninguém conhece. Não admira. O que me admira, a mim, é o Sporting ser tão solicito a admirar-se com os seus. Sejam estes quais forem. Temos uma história da admiração para escrever, em vários volumes. Em casa tudo bem. O resto fica alinhavado num comunicado. Temos por aqui várias ideias para comunicar que antecedam esse comunicado. Nas entrevistas recentes do (nosso) presidente, ou nos seus arredores, nada nos indica um caminho nesse sentido. Não estou admirado. Tudo o resto é uma soma de não admirações. Não se admirem com o resultado. Será sempre o mesmo. Obrigado. 

domingo, 8 de setembro de 2019

Uma varanda para a outra margem?


Sou do tempo em que as marquises começaram a confundir-se com as varandas e a fazerem parte das nossas vidas. Uma varanda com marquise era mais uma assoalhada a não desdenhar, um aproveitamento do espaço que se fazia à revelia de qualquer sentido estético e sem qualquer (até dada altura) fiscalização das autoridades competentes. Mas uma varanda com marquise não deixava de ser uma varanda, só que com marquise.

Sou um tipo com memória, daqueles chatos que ainda vai lendo umas coisas, daqueles que passou anos a coleccionar revistas, suplementos, a recortar crónicas e a guardá-las como trevos em livros. Nesse sentido, a internet até passou a facilitar-nos a vida, no entanto, com as redes sociais tudo arde mais depressa, inclusive a memória. Mas isso não implica que as coisas (e as palavras) deixem de existir, sucede apenas que ficam por aí, algures.

A entrevista do presidente do Sporting ao canal do clube (passei algum tempo a revê-la e a lê-la), é um desses momentos encenados (todas as entrevistas o são de alguma forma) cuja impreparação de todos os intervenientes roça o amadorismo. Para além de tudo ou quase tudo ser refutável e comprovadamente (lá está a memória e o algures) desmontável, perdeu-se uma oportunidade de luxo para uma demarcação clara do clube no contexto do futebol português. A visão do inimigo interno (qual é a novidade?) foi condescendentemente aplaudida pelo sr. Rui Pedro Brás, perdão, pelo sr. Luís Filipe Vieira. As palmadinhas nas costas de Pinto da Costa já são um clássico.

Dizer o contrário daquilo que dissemos ontem, ou anteontem, não é sinónimo de tontaria, já sabemos o blá blá do futebol, mas dizê-lo confiando que ninguém se recorda daquilo que foi dito, ou agindo como se nada tivesse sido dito, ou pior, fazendo-o como se estivesse a palitar os cérebros dos outros com uma linha condutora perfeitamente definida, não é apenas tontice, mas de uma inabilidade que roça a inaptidão.

Não me ia sequer debruçar sobre essa varanda, mas o Expresso de ontem, lá para a página 35 faz bem essa desmontagem e em poucas linhas. Qualquer subcontratado das pesquisas avulso faria o mesmo. Por exemplo, a contradição sobre a contratação de keizer, alicerçada nos famosos 4 parâmetros definidos pela direcção, supostamente obedecendo a uma busca exaustiva, afinal, foi assim: Keiser aceitou entrar em Alvalade quando nenhum outro treinador queria. Parece que não foi despedido no final da época por que ninguém despede um treinador que ganha duas taças. Para não ser aborrecido podem ler o texto aqui.

Mas o mais importante das entrevistas não foi o que foi dito mas aquilo que (também) foi omisso ou esquecido. Que o futebol cá do burgo tem uma direção bicéfala, não havendo lugar para mais ninguém (muito menos para o Sporting como se tem visto). Nenhuma palavra para o jogo com o Rio-Ave, o último de Keizer, onde a equipa esteve mal, é certo, mas foi muito bem secundada pelo árbitro. Ou alguém acredita que aquilo fosse possível na Luz ou no Dragão? Nada, nem uma palavra.

O facto de termos construído uma marquise a engalanar a varanda não esconde essa mesma varanda. Se calhar, é a mesma varanda de sempre. Até nisso é chato um tipo ter alguma memória.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Keizer: uma boa escolha

Contrariamente a muito boa gente, continuo a considerar que o Marcel Keizer foi uma boa escolha. Por defeito de ofício, começo sempre por analisar resultados e só depois é que passo à sua explicação. A época passada tinha tudo para ser um desastre. Com o Peseiro, a profecia tinha tudo para se cumprir. Não eram só as suas qualidades técnicas e táticas como treinador, das quais desconfio e muito, face aos resultados ao longo da sua carreira e, em particular, nos tempos mais recentes, no Porto ou no Guimarães. Era pela completa desconfiança no seu trabalho, que ia dos jogadores até aos porteiros de Alvalade. 

O Marcel Keizer era uma incógnita mas uma incógnita holandesa, sempre superior a uma incógnita portuguesa, por definição. Para além de dispor do benefício da dúvida, coisa que ninguém se lembraria de conceder ao Peseiro, começou por ser uma lufada de ar fresco e deu-nos ânimo. Depois tudo começou a piorar mas ainda ganhou duas taças. Uma época condenada ao desatino acabou por ser bastante razoável para o padrão do Sporting. 

Como costuma dizer o Pedro Azevedo, do Castigo Máximo, a gestão comprou tempo. O problema é que parece não ter feito grande coisa com ele, não resolvendo os problemas que tinha para resolver e não planeando adequadamente a época nas atuais circunstâncias (sobretudo, económico-financeiras). A equipa não dava mostras de evoluir e os jogadores pareciam não acreditar. Um treinador é sempre primeiro despedido pelos jogadores e só depois pela direção. O tempo que se ganhou esgotou-se e assim o tempo de Marcel Keizer também. Nada de novo. O Paulo Bento fez um feito destes mas em maior. Com umas equipas horríveis, ganhou quatro anos à direção, até passar de “forever” a “never” em menos de um fósforo. 

Como no futuro todo o passado nos parece melhor e como no futuro ninguém se lembrará como se jogava tão mal e se lembrará dos resultados e das duas taças, estamos condenados a acabar por ter saudades dele. Nada de novo, mais uma vez.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Fácil, fácil!...

O Sporting não me apetece ou não me tem apetecido. Não vi os dois primeiros jogos do campeonato. Vi o terceiro e o quarto por desfastio. Voltei a ver o costume com as explicações do costume. Vi uma jogada de ataque do Sporting que acaba com a bola recuperada pelo jogadores do Portimonense, vi-os perder a bola, vi uma falta, vi marcar livre, vi marcar “penalty”, vi marcar uma falta que não vi e vi marcar um livre pela falta que não vi. Vi marcar um “penalty”, vi marcar outro “penalty”, vi marcar outro “penalty” ainda e vi o que nunca tinha visto e o que nunca se tinha visto. Tudo me foi explicado minuciosamente como se não tivesse visto o que vi ou não compreendesse o que vi, como se fosse cego ou estúpido. Não sou cego, mas estúpido, por ainda continuar a ver o que vejo. 

A culpa é do treinador, deste, do anterior e do anterior do anterior. A culpa é dos jogadores, destes, dos anteriores e dos anteriores dos anteriores. A culpa é da direção, desta, da anterior e da anterior da anteriores, pelo menos. Fácil, fácil!... 

O Pinto da Costa confidenciou que se enganou no nome do treinador anunciado e, como não queria voltar com a palavra atrás, veio o Carlos Alberto Silva em vez do Carlos Alberto Parreira. Ficámos a conhecer duas das suas facetas: era muito religioso e aceitava de bom grado as substituições propostas pelo Pinto da Costa. Esteve duas épocas e ganhou dois campeonatos. Fácil, fácil!... 

O Jesus era o Rei da Tática, o maior entre os maiores e depois não era porque era treinador do Sporting. O Rui Vitória conduzia Ferraris, batia recordes, fazia pisca-pisca à noite quando o Luís Filipe Viera tinha insónias e depois queria-se desfazer do João Félix. O Bruno Lage bateu novos recordes, deu novos mundos ao Mundo, tocou no João Félix e ele levantou-se e andou. Fácil, fácil!...

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Todos pela Amazónia


(...) para seu espanto, percebia que, na verdade, não eram dadas ordens nenhumas e que o príncipe Bagration apenas fazia de conta que tudo o que era feito por necessidade, por acaso ou por vontade deste ou daquele comandante acontecia, se não por ordem dele, pelo menos de acordo com as suas intenções. 

Guerra e Paz, Lev Tolstói 

Estivesse eu com o bom humor em alta e faria referência ao hat-trick do Coates, mas deixo isso para a imprensa desportiva sempre atenta ao Sporting quando as coisas correm de feição. O Coates, já o disse aqui, ainda está de férias, e culpa tem quem o mete a jogar fora dos areais.

Posto isto, temos que abordar o tema referente à família Pinaceae, a dos pinheiros. Neste caso, não se trata (ainda) do avançado que um antigo treinador do Sporting queria como referência estática atacante, não, mas do Sr.Pinheiro, ilustre dignatário da arbitragem que nos foi oferecida este sábado passado.

Três pontapés de grande penalidade em Alvalade? Acho pouco. Ficou a faltar um sobre o Raphinha, mas esse, como o seu autor vai a caminho do Rennes relançar a carreira, o árbitro achou por bem não ver. Mais uma vez o VAR tinha ido ao BAR. É claro que o segundo penálti assinalado contra o Sporting é digno de um devaneio místico, apenas compreendido à luz de um consumo exacerbado de substâncias psicotrópicas, muito comuns em rituais perpetrados por algumas tribos indígenas, nomeadamente em festivais de música e em cangostas do Gerês.

Todavia, as visões místicas muito em voga em jogos do Sporting, não explicam tudo. Não explicam – embora o consumo de algumas dessas substâncias nos pudesse ajudar artificialmente em alguns momentos – o facto de, mais uma vez, a equipa dar a sensação que se tenha conhecido no dia anterior numa discoteca e marcado uma peladinha para as 19 h de sábado. Tudo ressacado obviamente.

O problema não é apenas a defesa, embora o Coates esteja ao nível do meu sobrinho que fez agora um ano, em termos de corridas de gatas. Qualquer treinador adversário percebe que este Sporting, entre linhas, depois das linhas, ao lado das linhas, seja em transições seja em memorandos para o mestre Fernandes, não sabe com que linhas (estejam elas onde estiverem) se cose. A minha avó era costureira, sei do que falo.

Sabe o treinador adversário, mas não sabe o nosso. Não sabe, mesmo depois de um estágio de quase um ano em pipas do melhor carvalho português. Não gostará da pinga? Gosta, mas não é especialista. Talvez fosse um bom funcionário público que em tempos treinou o Ajax jovem nas horas vagas e que, faltando melhor, treinou o Ajax menos jovem durante quinze dias. Depois foi para o Médio Oriente. O Rui Vitória tem por lá grande sucesso, tudo é possível.

Agora, é preciso ter olho para escolher um bom funcionário público exilado no Médio Oriente. Foi isso que fizemos. Não queremos cá especialistas. A começar pelos dirigentes. 

Todos pela Amazónia. Todos pelo Sporting.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

São Renan e o apóstolo Fernandes


Estou convencido que tudo não passa de uma estratégia para adormecer os nossos rivais e depois dar a estocada final. A venda do Bas Dost em fim-de-semana de jogo (daquela forma profissional) revela um amadurecimento da estrutura tão rápido que não tarda cai de podre. Keizer estará a par desse amadurecimento apenas se ler esta posta.

Sobre o jogo? Entramos a jogar contra o Braguinha, uma sucursal domingueira dos nossos rivais. Esse jogo durou 15 minutos. Depois entrou o Arsenal em campo para nos desvairar. Como é que o Arsenal entrou em campo? Faz parte da estratégia. O Apostolo Fernandes ainda se chegou à frente a ver se na próxima janela de transferências se atira com toda a convicção borda fora. Entretanto, São Renan, mesmo saindo dos postes com a convicção de uma laje de granito, lá foi chegando para todas as encomendas, destacando ainda mais a estratégia de enrolar os nossos adversários em permanentes brindes e outras minudências.

Isto de treinar para dar a entender aos outros que não se treina não é nada fácil, é mesmo tão difícil como gerir um clube dando a entender que não se gere mas gerindo pela calada, mesmo sem dar a entender que se gere. Faz tudo parte de uma estratégia. A coisa é tão perfeita que os jogadores das equipas adversárias falham golos com a convicção de que os iam marcar. Keizer ainda os enrola mais num novelo táctico cujo vértice é um Neto de avós desconhecidos e um Vietto que entra em campo para sofrer faltas. Nem que para isso tenha que esperar pelos adversários. Ainda gritamos pelo Krpan mas não fomos ouvidos. Faz tudo parte de uma estratégia genial.

Bem, ganhámos, diverti-me muito, mas agora vou descansar uns dias. Não aguento tamanha dose de genialidade.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

De ideias anda o mundo cheio


Numa música dos Mão Morta, banda de Braga, podemos escutar no refrão: tenho uma ideia, tenho uma ideia, vamos fugir. Talvez este refrão assente como uma luva sonora na alma sportinguista da atualidade. Mas fugir para onde? É uma boa questão.

Ter uma ideia não basta. Muito menos se for apenas uma. Já aqui escrevi que até eu sou capaz de ter duas ou mesmo três ideias numa semana. Ou até num espaço de tempo mais curto. Sem grande esforço. Jorge Jesus tinha uma ideia de jogo. Tinha igualmente um compartimento muito reservado no seu cérebro onde se idolatrava essa ideia, com velinhas e tudo. A sua ideia aos poucos transformou-se num ícone, e como todos os ícones, com velinhas e incenso à mistura, ultrapassou o próprio criador pela esquerda. Isto começou ainda no Benfica e passou por osmose para o Sporting. Na primeira época (lembro-me bem) aquilo quase que resultava por KO técnico, não fosse a fanfarronice do costume, desta vez não acompanhada pela máquina de propaganda bem oleada do Benfica, nem toupeiras que lhe valessem. Em Alvalade os animais são outros e nem sequer precisamos de inimigos. Bom, essa ideia que cristalizou num ícone foi depois o que se viu e continua a ver agora no ninho do Urubu.

Peseiro não tem bem uma ideia, faz uma pequena ideia de ter tido (algures no tempo) uma ideia aqui, outra ali, sendo que ambas não germinaram. Peseiro quase que ganhou uma vez. Mesmo sem ideias. Assim continuou. E agora verificamos que, às vezes, não fazer uma pequena ideia das coisas pelo menos não confunde os outros. Principalmente os jogadores. Sousa Cintra confunde-se com Sousa Cintra e isso diz tudo.

Quando o Keizer veio tinha uma ideia (talvez atá mais do que uma), não fazendo, no entanto, a mais pequena ideia de onde se ia meter. Talvez por isso lá foi ganhando despreocupadamente. Assim que as coisas (com alguma naturalidade diga-se) esmoreceram, leia-se, alguns resultados, Keiser caiu no erro de se aculturar rapidamente em vez de se adaptar. Keizer até tinha a ventura de não conhecer a língua, de não saber quem eram o Varandas, o Pinto, o Vieira, o Rui Santos, os emails, as toupeiras e os beija mãos. Teve aí uma oportunidade única de se estampar com grande pompa e circunstância e assim ficar nas nossas memórias à imagem de outros que se estamparam em grande sem nada ganhar, ficando para sempre nos nossos corações.

Mas não, Keizer, escutando vozes vindo não se sabe bem de onde, vozes melífluas, Keiser aculturou-se rapidamente, começou nele a medrar uma outra ideia, algo que se ouvia por aí em nome do pragmatismo, algo plantado para o agarrar à mediocridade de um jogo que entre nós se joga em todo o lado, inclusive no campo. Keiser perdeu-se nesse emaranhado de vozes difusas, perdendo-se com ele a identidade da equipa. A ideia nova não difere das velhas que todos conhecemos. Keizer foi aceite. Quase todos aplaudiram.

No defeso não se defendeu, não falou, não percebeu que nada estava a acontecer e que ninguém sabia, nem ninguém sabe ainda, como o plantel vai estar no final de Agosto. Keizer quando falou, disse que Vietto e Bruno não fazem sentido em campo. Que sobre Matteus Pereira o melhor é falarem com o diretor. Que devíamos jogar melhor. Não sei se keizer reparou que ninguém falou sobre ele, sobre o seu trabalho, que ninguém aparecia na fotografia a seu lado. Keizer nisso ainda não é tuga o suficiente. Ainda não percebeu. Mas já dever ter uma pequena ideia.

domingo, 11 de agosto de 2019

É aborrecido


Gosto particularmente de falar de futebol com um amigo meu, fiel Gilista. Sempre que reafirmo a minha desconfiança sobre a exigência (e a falta dela) no futebol do Sporting, ele contrapõe o fenómeno da desresponsabilização, processo com alguns anos que, no seu entender, levará inevitavelmente à inimputabilidade do plantel (e da estrutura) e à indiferença dos adeptos, no seu estádio último, claro, mesmo que estes continuem fieis.

A mim parece-me uma análise a não descurar, juntamente com a falta de exigência, estando ambas interligadas. Mas acrescento uma política de comunicação extremamente fraca e um descuido de linguagem (e conhecimento) brutais. Veja-se a utilização da palavra “chato”. Chato poderá ser um parasita, um indivíduo desagradável, ou um adjetivo que nos remeta para algo inconveniente, ou mesmo maçador. No Sporting, o adjetivo chato assume várias gradações, na minha opinião todas erradas. Para um ex. presidente, uma invasão (é disso que se trata) de uma academia de futebol era algo chato. Para outro, mais recentemente, uma derrota por cinco a zero era algo para um tipo ficar chateado.

Não percebo a razão da chatice. Mas percebo que poderá existir alguma inquietação nas derrotas. Estar preocupado implica questionar as razões da inquietação. Tentar perceber se existe algum problema. Não é uma preocupação de maior estar preocupado com o seu trabalho, seja ele qual for. Não revela idiotia, questionar se existe algum problema de saúde em alguma situação desconfortável de alguém com o seu corpo. Numa empresa, quem dirige preocupa-se em fazer mais e melhor e em recuperar resultados menos positivos.

A não preocupação tem uma hierarquia que poderá redundar em desleixo. Uma derrota, mesmo por cinco não é o fim do mundo, mas não se traduz apenas (supostamente) numa semana má (pois não senhor Keizer?). Uma semana má é o prato do dia de quem trabalha. E mesmo quem não trabalha tem as suas semanas más. Recentemente experimentei jogar uma raspadinha, não saiu nada, fiquei chateado, mas não preocupado. Deveria?

Os resultados do Sporting (incluindo o de hoje com um golo sofrido de bradar aos céus) são reveladores. Entre oficiais e oficiosos e a feijões que seja, nada escapa, desde a época passada que não ganhamos um jogo. Não é caso para ficarmos preocupados? Bem, pelo menos, aborrecidos. Mas posso arranjar outros sinónimos. A sério que posso. Estou aborrecido. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Por outros cantos (do Morais)

O Pedro Azevedo, simpaticamente, lembrou-se de mim para escrever um texto, em jeito de testemunho, depoimento, sobre as nossas relações de afetividade com o Sporting. O “post” tem uma componente mais pessoal e intimista, mas também procura ser o retrato de um tempo, do tempo que me foi dado viver e à minha geração. Existem umas referências históricas e culturais. Enviei “link” a vários amigos e amigas e foi muito divertido obter respostas sobre a música e o que ela significava e ainda significa para nós. 

Podem lê-lo aqui. Não sei se mereço, mas o Pedro Azevedo merece seguramente.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Keizerismo - Peseirismo

Rasgar as vestes ou o cartão e culpar o Varandas ou o Keizer desopila mas não gera qualquer entendimento útil sobre o que ontem se passou. Sem esse entendimento, estamos condenados ao Mito de Sísifo e a carregar o sportinguismo montanha acima para o ver despencar-se uma e outra vez. Vou lendo e ouvindo que os jogadores do Benfica são muito melhores. Arrisco-me a dizer que se se trocassem as camisolas, estaríamos a dizer o mesmo. O Coates é muito pior do que o Ferro, o Mathieu do que o Rúben Dias e o Acuña do que o Grimaldo? 

A fanfarronice do Bruno Lage ia-lhe saindo cara. Não sei se previu ou não previu, mas o sistema dos três centrais surpreendeu-o num primeiro momento e não se viu a perder por sorte (e competência do seu guarda-redes). Mas o que também foi evidente é que o nosso plano era o de surpreender o adversário e, acabada a surpresa, não havia muito mais. Este sistema de três centrais não é igual ao da época passada, pois os jogadores não são exatamente os mesmos. É diferente jogar com o Borja do lado esquerdo ou com o Mathieu. Tirou-se do meio o jogador mais inteligente e mais capaz de dobrar os seus colegas e de sair a jogar ao mesmo tempo que se o obrigava a estar com um olho no burro e outro no Acuña, acautelando as suas subidas. Para equilibrar a equipa, o Bruno Fernandes tem de se posicionar mais à esquerda, com responsabilidades defensivas acrescidas e ficando distante dos locais onde pode fazer a diferença, nomeadamente aproveitando um ressalto ou saindo a jogar com mais opções de passe. 

Mal os jogadores do Benfica deixaram de pressionar à maluca os centrais, o Sporting teve as habituais dificuldades de saída da bola para o ataque. Com três centrais sem especial pressão, esperava-se que saíssem mais a jogar, de forma a surpreender o adversário. De outra forma, os médios ficam em inferioridade para receber a bola e a passar ou sair a jogar. Em contrapartida, a equipa continua a não pressionar alto ou a fazê-lo de forma desconfiada e a desistir à primeira. Jogando nas transições ou no erro do adversário, o Bas Dost é um jogador a mais. Não se lhe pode pedir que seja um pino na frente porque o que ele dá à equipa são movimentações de ataque à bola para finalização e nisso é muito bom, como todos sabemos. 

Na primeira parte, o Sporting controlou os acontecimentos, teve mais oportunidades de golo mas acabou por ficar em desvantagem, num lance revelador das suas fragilidades defensivas, dispondo de cinco defesas e de dois médios à sua frente. O Wendell deu todo o espaço e tempo necessários ao Pizzi para meter a bola nas costas da defesa, o Neto não encostou ao Seferovic, o Thierry Correia calculou mal a trajetória e tentou fechar por dentro, o Renan Ribeiro não deu um passo em frente para encurtar o ângulo e o Rafa acertou de primeira com a canela e colocou o Benfica na frente. 

No início da segunda parte, ainda parecia que podíamos dar a volta, mas, a partir do momento em que o Bruno Fernandes levou uma pancada e passou a coxear, era uma questão de tempo até tudo se desmoronar. Não consigo dizer que no segundo golo a culpa é do Mathieu, dado que o Coates não aliviou e foi-se embrulhar com ele, deixando-lhe a bola sem querer e com ele parado à espera de tudo menos daquilo. O terceiro começa numa falta escusada do Coates seguida de um remate em que o Renan Ribeiro parece mal batido. O quarto é revelador do estoiro da equipa, sem ninguém a acompanhar o Pizzi que em movimento e de frente para a baliza fez o que quis. O quinto não aconteceu antes por acaso e demonstrou a excelente capacidade de reação do Borja. 

Há jogos como este, acontecem. Mas temos de analisar o que aconteceu em perspetiva, no tempo longo. Há anos que o Sporting não revela andamento para os noventa minutos quando joga com equipas melhores. Vem pelo menos do tempo do Jorge Jesus. As razões podem ser de vária ordem, táticas, físicas ou de qualidade dos jogadores, mas o que impressiona é andarmos nisto há anos. Os jogadores parecem estar sempre muito distantes uns dos outros. O meio-campo acaba sempre em desvantagem e os adversários aparecem de frente para a defesa com esta às arrecuas. A partir de certa altura, há uns jogadores que deixam ou de recuar ou de avançar, partindo-se a equipa. Não se consegue jogar em ataque continuado ou quando acontece é mais permitido do que conquistado. Os jogadores são sempre os mesmos e jogam até cair para o lado, não se compreendendo as contratações enquanto efetivas alternativas para o treinador. Os golos resultam de acasos e do virtuosismo dos melhores jogadores e muito pouco do envolvimento coletivo. 

Contrariamente ao que afirmou Frederico Varandas, há razões para desconfiar da estrutura e do que anda a fazer. O resultado de ontem tem uma componente que pode ser explicada pelo acaso que um jogo sempre envolve. No entanto, nada do diagnóstico do jogo é, propriamente, novidade. A equipa e o seu modelo de jogo não dão sinais de melhoria. Os jogadores são sempre os mesmos. A aposta é nos jovens e no “scouting” e depois essa aposta não tem reflexos na equipa principal. O treinador foi escolhido porque dispunha de perfil necessário para dar resposta a estas apostas e melhorar o nosso jogo. Quem conhece o futebol português e os seus contornos, não espera títulos, a não ser muito esporádicos. O que legitimamente se espera é valorização de jovens jogadores e bom futebol. Se não se corresponde a essa expetativa, então o Peseiro servia, desde que devidamente equipado com uma pata de coelho.

terça-feira, 30 de julho de 2019

“O Golas”

Vi o jogo contra o Valência, na apresentação da equipa do Sporting aos adeptos e sócios, disputando o Troféu dos Cinco Violinos. Repetiu-se a tática contra o Liverpool com alterações pontuais de alguns jogadores: jogou o Bas Dost em vez do Luiz Phellype, o Coates em vez do Neto e o Thierry Correia em vez do Ilori. As alterações justificam-se pela maior qualidade relativa dos, agora, titulares. Continuou, assim, a aposta no Bruno Fernandes do lado esquerdo, esperando-se que estivesse no local certo sempre que necessário, independente de ser à direita, ao meio, à esquerda, atrás ou à frente, enquanto se procurava encaixar o Vietto no meio. À falta de melhores alternativas, o Bruno Fernandes tem a prorrogativa de fazer passes de trinta metros, sobrevoando a defesa contrária à procura do Raphinha e foi assim que se chegou ao golo, concluindo-se este movimento com um remate de primeira de Bas Dost que nem hipóteses de reação permitiu ao guarda-redes. 

O avanço do Doumbia, quando dispúnhamos da posse de bola, originou bons momentos de controlo de bola no ataque, que foi sempre muito móvel, mas que não dispõe no Bas Dost o jogador ideal para este efeito, dado nem sempre recuar para tabelar entrelinhas ou se deslocar em desmarcações para abrir espaço para entrada de trás. Os seus movimentos são na linha de fora-de-jogo, na tentativa de estar no sítio certo à hora certa para finalizar. O resultado foi uma boa primeira parte mas em que nos limitámos a fazer cócegas em vários períodos de tempo. A defender, não estivemos mal, com exceção das bolas paradas, repetindo-se os sustos do jogo contra o Liverpool. Cada bola metida ao segundo poste originava um “Nossa Senhora nos acuda”, com a equipa do Sporting em desvantagem numérica e sem o Borja perceber que deve fazer como os adversários e saltar para cabecear. Levámos um golo como se estivéssemos numa peladinha e não aconteceram mais desgraças por mero acaso e falta de pontaria dos calmeirões do Valência. 

A organização deste jogo tinha como objetivo preparar a equipa do Sporting. Aparentemente, também tinha como objetivo preparar os árbitros para o campeonato que está a chegar. Foi evidente que os árbitros estão numa fase mais avançada de preparação da temporada do que a equipa do Sporting. Na primeira parte, o livre à entrada da área por suposta falta do Doumbia constituiu o primeiro aviso. Na segunda parte, o árbitro não foi de modas e assinalou “penalty” por outra suposta falta do Mathieu, quando, na melhor das hipóteses, o Coates terá chocado com o jogador do Valência. O Renan Ribeiro defendeu e assim se perpetua o mito que faz com que entremos no jogo da Supertaça sem necessidade de ganhar durante o tempo normal. Na tropa, a uma organização destas, chama-se treino com fogo real. Este contexto real acentuou-se com as repetições da SporTv, ignorando-se olimpicamente os lances mais controversos a nosso favor e não sendo esclarecedoras nos lances a favor do adversário. 

E o Valência acabou por chegar ao dois a um, num lance em que o Coates sai a jogar à Beckenbauer e perde a posição, o lançamento do Bruno Fernandes é intercetado pelo adversário que de imediato mete a bola nas costas da defesa, onde aparece um avançado a passar para o meio para outro encostar. As repetições não permitiram verificar se o primeiro jogador estava em fora-de-jogo, mas, seja como for, em situação de fogo real o Mathieu teria chegado a tempo, não permitindo que a bola entrasse no meio. Entretanto, começaram as substituições. Percebemos que existem os primeiros, os segundos e os terceiros substitutos. Os primeiros são o Acuña, o Luis Neto, o Luiz Phellype e o Diaby. Os segundos são o Tiago Ilori e o Eduardo. Os terceiros são o Miguel Luís, o Eduardo Quaresma, o Daniel Bragança e o Gonzalo Plata. 

Estamos habituados a tudo e a todos os resultados (há uns anos atrás, com o Domingos, levámos três do Valência na apresentação da equipa). Mas, como inteligentes que somos, gostamos de perceber o que nos é dado observar. Por muita reflexão que possamos fazer, ninguém compreende a posição ocupada pelo Diaby na hierarquia da equipa. Ficámos a saber que umas golas de proteção contra incêndios afinal são inflamáveis. Porventura, não são golas com esse fim, mas destinadas promover a saúde pública, reduzindo-se o número de fumadores e combatendo-se o tabagismo. É sempre possível encontrar uma explicação para o que aparentemente não tem. Por mais criativa que seja, é importante que nos encontrem a razão para o Diaby continuar não só na equipa como a constituir uma das principais alternativas aos titulares, em detrimento do Camacho, do Gonzalo Plata ou do Jovane. Ou o Marcel Keizer arranja uma explicação ou passará a ser mais um das golas.

domingo, 28 de julho de 2019

Alguns violinos e muito bombo


Estes jogos valem o que valem, o mesmo quer dizer que um chavão vale um chavão. Podíamos, sem esforço, reforçar o chavão das bolas paradas, a emperrada dinâmica (é assim que se diz) defensiva, com jogadores ainda a banhos (Coates) e outros que dificilmente serão os titulares. Borja vale o que vale, Correia valerá o que se verá (e espera-se muito), Acuña ainda vai valer muito dinheiro (este ano?), Ristovski ainda está em banho-maria, assim como a grande esperança Rosier (quando joga afinal?). Doumbia é um seis muito jeitoso (como se diz na minha terra), Eduardo ainda está a mudar o equipamento de azul para verde (não é mesma coisa, pois não?), Battaglia continua a sua batalha para debelar a lesão, lá longe, provavelmente aguardando mais um aumento por serviços prestados à comunidade.

O problema é que hoje em dia tudo é visto e revisto, os jogos passam todos em directo e a cores, entre transferências e outras miudezas devidamente dissecadas nas tascas e arredores. Não é como anos atrás quando eu e o meu pai deixávamos a praia para ver o único jogo televisionado do defeso. As coisas eram mais imaginadas e vividas no descanso das férias, o defeso eram uns jornais e a alegre cavaqueira das sardinhadas. Tudo isso hoje se esfumou num defeso ditado pelo mercado, longo e apropriado ao mister da indústria que nele se sustenta e vive.

Entramos bem, a tratar a bola com o carinho que merece, com jogadas fluídas e um grande golo. Perdão, uma grande jogada mais uma vez com o pé do Bruno Fernandes, assistência do Raphinha (podes fazer muito mais, meu caro) e um grande golo do Bas Dost. Um golo com cheirinho a Fernandes, cheirinho esse que habita o campo todo, confundindo-se com a própria equipa que tanto dele depende. Será? Basta observar como O Wendel se sente bem ao inalar esse aroma a Fernandes, contagiando até o Vietto que só não marcou por estar dele demasiado inebriado. Sofremos um golo de bola parada mas já com ela em andamento. Mas não para nós.  

Na segunda parte com ou sem penálti, as equipas começaram a juntar os trapos todos, umas vezes bem outras assim assim. Sofremos um golo num momento que vale o que vale: uma transição ofensiva deles que foi obsequiada pela nossa dinâmica defensiva. O Fernandes tentou o golo umas cinquenta vezes e merecia-o. Os outros talvez não merecessem tanto. Não estava lá o Peyroteo. Ele sabia como se fazia. Os outros violinos também. Tudo isto vale o que vale. 

sexta-feira, 26 de julho de 2019

O tocador de trompa

Como a minha vida não tem nenhum sentido ou, na melhor das hipóteses, um só, plantei-me na madrugada de quarta-feira a ver o jogo do Sporting contra o Liverpool. Finalmente, consegui racionalizar uma impressão, uma sensação: um estádio de futebol não é um estádio de basebol ou uma coisa do Souto de Moura onde joga o Sporting de Braga. Cheguei a jogar à bola ao pé de minha casa numa calçada com mais de 15% de inclinação, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. 

O jogo mal se tinha iniciado e já estávamos a ganhar por um a zero. Há quem pense que se tratou de um frango do Mignolet. Quem tem um Renan Ribeiro ou um Luís Maximiano na baliza sabe que assim não é. Aquilo chama-se um remate de Bruno Fernandes ou um pacto com a bola para que ganhe vida própria e encontre o caminho mais adequado. Se o caminho era o de descrever uma parábola, embater no joelho e passar por entre as mãos dos guarda-redes só o Bruno Fernandes e a bola é que o podem dizer, dado se tratar de um combinação que ninguém mais conhece. 

A pedido de várias famílias, finalmente o Keizer colocou o Vietto no meio, em apoio ao Luiz Phellype, deslocando o Bruno Fernandes para a esquerda e tirando partido da sua omnipresença em todo o campo. Quanto ao resto, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes: mais um exibição do Ilori a defesa direito para mais tarde esquecer. Nunca seria fácil jogar contra os calmeirões do Liverpool, mas fazê-lo com um defesa direito assim é necessário descaramento. O Liverpool foi carregando e os comentadores da SporTv foram revelando também uma excelente forma para uma fase tão inicial da época. De um lado, tudo era visto pela positiva, do outro, sempre pela negativa. Para além do Ilori, os dois jogadores mais perigosos do Liverpool eram o Borja e o Virgil van Dijk, um autêntico Abominável Homem das Neves, mas em negro. Sempre que se aproximava, o Luiz Phellype, o Neto ou o Mathieu logo se disponibilizavam para o deixar ficar com a bola, enquanto respeitosamente abanavam a cabeça, dizendo: “Sim, senhor van Dijk! Com certeza senhor van Dijk!” Apesar dos esforços do Renan Ribeiro, o Ilori não perdoou e o Liverpool foi para o intervalo a ganhar por dois a um.

Na segunda parte, saiu o Borja e entrou o Thierry Correia para o seu lugar. A diferença foi por de mais evidente. A diferença não se circunscreve ao facto de um ser canhoto e o outro destro. A diferença é mais profunda e releva do sentido da vida de um e do outro, com o Borja a revelar mais empatia e sentido de compaixão relativamente aos adversários. A partir de um individualismo neoliberal especialmente narcísico, evidenciado por um vaso de majerico colocado na cabeça, o Thierry Correia, compreendendo a natureza esférica da bola, os limites espaciais do campo, a capacidade de os adversários se deslocarem e a relação entre a cor da sua camisola e a de outros jogadores, desatou a jogar como deve ser. A coisa foi de tal forma que inventou com o Wendell e o Bruno Fernandes uma jogada espetacular que originou o nosso segundo golo. 

A partir daí, iniciaram-se as substituições para que a canalha se pudesse mostrar. O Miguel Luís vive uma crise de confiança. O Gonzalo Plata ia matando de ataque cardíaco o lateral esquerdo mais entradote do Liverpool. O Eduardo Quaresma é craque. É deixá-lo crescer, sem precipitações e sem cagaços peseiros por um prato de lentilhas. O Eduardo, o que era do Belenenses, entrou sem tibiezas e assumindo o jogo de meio-campo. O Daniel Bragança porfiou mas inconseguiu. O Nuno Mendes mostrou-nos, a nós e ao treinador, que também é dado à compreensão e ao discernimento. O Bas Dost é que continua desconfiado de si próprio. Tenho para mim, é uma simples suspeita, que o Luiz Phellype ultrapassou o seu nível de competência no final de época passada. 

Da equipa titular fui dizendo alguma coisa de um ou de outro. Para não me repetir, o Renan Ribeiro tem reflexos incríveis, mas decidiu com o Nélson que nunca, mas mesmo nunca voltará a sair a um cruzamento. O Mathieu e o Neto estiveram bem, mais o primeiro do que o segundo. O Doumbia ainda se desorienta algumas vezes, mas é uma força da natureza e procura dar sempre linhas de passe na saída da bola. O Wendell talvez tenha feito o seu melhor jogo no Sporting. O Luiz Phellype esteve acabrunhado e paradote, mas os matulões adversários não eram para brincadeiras. 

Sobra o Vietto, dado que o Buno Fernandes é o Bruno Fernandes e não é preciso dizer mais nada, passando-se à frente. O Vietto é uma aposta desta direção e, porventura, do Keizer. Vão-no tentando encaixar num lado ou no outro do ataque a ver se pega, porque demonstrou ser um excelente jogador no Vilarreal. Este fim-de-semana, o Expresso trazia um artigo de Arthur C. Brooks, professor de Havard, onde confidenciava que a sua aspiração era ser o maior tocador de trompa do mundo. Deixou a universidade para se dedicar a tempo inteiro à música. Com o tempo foi piorando. Peças que tinham sido fáceis tornaram-se difíceis e peças antes difíceis tornaram-se impossíveis, até desistir. Espero que o Vietto não se tenha dedicado a tocar trompa também.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Quem nunca erra e raramente tem dúvidas que levante o dedo

Ainda nem começámos a jogar a sério e já sentenciámos o destino da equipa. Nunca acertamos numa contratação e os jovens da formação são bons até ao momento em que os vimos a jogar pela equipa principal. Oscilamos entre a responsabilidade da direção e a do treinador. Como estamos habituadíssimos a ganhar com diferentes treinadores e direções, estranhamos que só se ganhem duas taças em meia-época com estes. Quando se avança com este argumento, aparece sempre o do Bruno Fernandes contra o resto do mundo, como se o Real Madrid não tivesse dependido do Ronaldo e o Barcelona do Messi. Ninguém se recorda da época que vinha fazendo com o Peseiro, como se o Keizer não tivesse mérito no seu desempenho posterior. 

O “flop” do ano é o Vietto. O destino está traçado e o decreto passado. O Keizer tem-no colocado a jogar do lado esquerdo, não sendo extremo e jogando, ainda para mais, com o pé trocado, como o Raphinha. Quem critica esta opção parece defender o regresso ao “cruza-bola” do Jorge Jesus, com o Bas Dost a fazer de poste no qual a bola possa tabelar. Também ninguém se parece lembrar da fase inicial do Keizer no Sporting, como se as goleadas não tivessem resultado de um modelo de jogo que procurava a supremacia na zona central exatamente por se dispor de extremos que procuravam jogar por dentro (o Nani era o Vietto daquele momento) e, assim, fornecer linhas de passe e abrindo caminho à progressão dos laterais, que jogavam mais projetados. O Bas Dost fartou-se de marcar, bem como o Nani e o Bruno Fernandes, apesar de ter passado a ser mais do que um mero poste. 

O que tenho visto nos jogos de pré-epoca é uma tentativa de reencontrar esse modelo de jogo. Só que não é possível implementá-lo sem dois laterais que deem profundidade. O Ristovski e o Rosier ainda não jogaram e nem o Thierry Correia, nem, muito menos, o Ilori são laterais desse tipo. Do outro lado, o Abdu Conté não é o Acuña. Acredito que com laterais mais projetados, o sistema de jogo que está a ser treinado possa resultar. O Sporting precisa de mais jogadores que cheguem nos momentos certos à área para finalizar. O problema não está no ataque. O problema está no meio-campo, onde se continua a emperrar na saída de bola. Porventura, jogar com três centrais ou com dois e mais o Borja a disfarçar quando se dispõe da bola, possa ajudar a resolver este problema, adiantando os médios, deixando mais espaço entrelinhas e obrigando os adversários a não marcar tão alto ou a pagar o preço de deixar espaço entre os avançados e os médios. 

Não sei, ninguém sabe, se tudo isto vai resultar. A ver vamos com disse o cego. Não parece é útil deixar de recorrer à cabeça para se procurar entender o que pode estar a ser treinado, através da análise dos jogos da pré-época. A alternativa é afirmar que a Direção só compra barretes, o treinador é uma anedota e os jogadores são todos pernetas. Essa atitude é muito comum e só tem vantagens. Se correr mal, podemos sempre dizer que tínhamos razão. Se correr bem, sempre podemos dizer ainda que avisámos a tempo. Quem assim procede, nunca se engana e raramente tem dúvidas. Sou dos que acredita no modelo da tentativa e erro como forma de progresso científico e do nosso bem-estar coletivo.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Verbos, mas também artigos, pronomes, preposições, conjunções, adjetivos e advérbios

Devo ao hóquei em patins os primórdios da minha consciência de ser português. A identidade gera-se também por oposição, isto é, pela consciência do que não somos. Os jogos de hóquei em patins entre Portugal e Espanha dos tempos da minha infância a adolescência eram as Batalhas de Aljubarrota por outros meios (pacíficos) e, por isso, perduram na minha memória. Não são tanto os jogos, mas os relatos, frenéticos e com os gritos dos golos de Portugal nos Campeonatos do Mundo e da Europa. Lembro-me da ansiedade que me assaltava quando acordava sem saber os resultados de Portugal num Campeonato do Mundo disputado no Chile e que só passava depois de o meu pai me narrar as incidências de cada jogo ouvidas na rádio de madrugada. 

Em plena “silly season”, a RTP por uma vez resolveu oferecer-nos serviço público com a transmissão dos jogos da nossa seleção no Campeonato do Mundo. O primeiro jogo que vi foi contra a Itália, na passada quinta-feira. O jogo foi muito sofrido para os nossos. Nunca conseguimos passar para a frente do resultado e em momentos críticos, nos livres diretos e nos “penalties”, apareceu o Ângelo Girão, que começou a escrever a história também na primeira pessoa do singular. O jogo seguinte, contra a Espanha, foi um pouco melhor. Nos mesmos momentos decisivos, continuou a aparecer o Ângelo Girão e fomos servindo doses de cinismo no contra-ataque. Na final, contra a Argentina, ainda equilibrámos um pouco na primeira parte. Depois, os argentinos foram arrasadores. Fisicamente os nossos jogadores não podiam com uma gata pelo rabo e não dispúnhamos de um banco como o do adversário recheado de tantos e tão bons jogadores que permitisse a sua mais frequente rotação. Valeu o estoicismo de todo eles, a capacidade de conviver sem frustração e sem quebrar com a superioridade dos outros. E havia o Ângelo Girão. Pouco a pouco, fomos compreendendo que se estava a construir história à frente dos nossos olhos. Quando o Rafa foi bater o “penalty”, pensei para mim mesmo que seria uma injustiça se o marcasse. A vitória devia ser consumado com uma última defesa de Ângelo Girão e assim aconteceu. 

Por muitos e bons anos que qualquer um de nós viva, dificilmente assistirá de novo a algo de parecido e dificilmente o esquecerá. Fomos uns privilegiados. Diremos aos nossos filhos e aos nossos netos que vimos esta final e a melhor exibição de sempre de um guarda-redes. Diremos também que esse guarda-redes não quis ser transformado em herói porque sabia muito bem que por muitos golos hipotéticos que tivesse defendido, nada se teria ganhado se não houvesse colegas como o João Rodrigues, o Hélder Nunes, o Gonçalo Alves ou o Jorge Silva que os tivessem marcado aos adversários. Diremos que tínhamos o melhor capitão de equipa de sempre que, pela sua simplicidade e simpatia (que diferença para os heróis de papel do futebol!), nos conquistou a todos e fez da vitória deles a nossa vitória. Diremos isto e muito mais, recorrendo aos verbos exclamados do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, mas também a artigos, a pronomes, a preposições, a conjunções, a adjetivos ou a advérbios.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Quem nunca acreditou, que atire a primeira pedra!

A pré-época é a melhor fase do campeonato. É verdade que ainda não ganhámos, mas também ainda não perdemos nem empatámos. Estamos à frente e todos os sonhos são possíveis. Quem nunca acreditou num Waseige e num Missé-Missé ou num Paulo Sérgio e num Maniche, que atire a primeira pedra. Acredito no Keizer e no Camacho, no Vietto, no Neto, no Eduardo e no Rosier porque sim, porque é suposto ser assim, porque terei toda uma temporada para não acreditar. 

Vi o jogo contra o St. Gallen. Entrámos bem, marcámos dois golos e, depois, bem, depois resolvemos embaralharmo-nos com a bola e o adversário. A saída de bola para o ataque não apresenta melhorias. O Eduardo fez de Gudlej e os resultados não foram muito diferentes. Pede-se-lhe para ser mais posicional a defender e que avance depois de recuperada a bola, enquanto recua o Wendell para a receber e sair com ela naquele tricotar que irrita qualquer um. Pelas laterais, as coisas não correram melhor. O Ilori é um jogador constante e regular em qualquer das posições onde jogue, tal a constância e regularidade da tremedeira. Com ele a lateral direito, sobrou do outro lado o Abdu Conté. O rapaz parece uma força da natureza, mas também parece estar sempre a olhar para a bola enquanto corre. É verdade que a ajuda do Camacho a atacar e a defender foi quase inexistente. 

O Neto esteve sereno e não parece que seja pelo centro da defesa que este ano passaremos por dificuldades. Na primeira parte, se se excetuar a insegurança do Ilori, a defesa esteve praticamente de férias. O golo do St. Gallen resulta de um passe com a canela para um adversário do Eduardo, quando pretendia dominar a bola. No ataque, praticamente tudo se resumiu ao Bruno Fernandes e ao Raphinha, dado que o Luiz Phellype ainda está emperrado. O facto de tudo se resumir a dois jogadores não quer dizer nada, dado que o Bruno Fernandes joga por três e, assim sendo, está sempre garantida a superioridade no ataque (em número e armamento). 

Na segunda parte, com as substituições tudo se embaralhou e a confusão foi de tal ordem que não permitiu qualquer compreensão sobre o que se passava em campo e a qualidade dos jogadores. Ficaram impressões, umas mais fracas, outras mais fortes, mas não deixam de ser impressões. Depois de vermos o Ilori na primeira parte, o Thierry Correia parecia mesmo um bom lateral direito. O lateral esquerdo, o miúdo Nuno Mendes, esteve bem. O Gonzalo Plata de vez em quando acordava e quando acordava mexia com o jogo até inexoravelmente perder a bola. O Vietto teve boas movimentações, deixando o Bruno Fernandes isolado no contra-ataque, mas sem ainda compreender a dinâmica da equipa (admitindo que tal coisa exista). O Matheus Pereira voltou com os seus tiques de vedeta, sem intensidade e mais parecendo que estava numa peladinha ou num jogo de futsal com os amigos (depois digam que a culpa é dos treinadores que não dão oportunidades aos nossos melhores talentos da academia!). Quem impressionou e impressionou muito foi o Luís Maximiano. Parece um autêntico monstro das balizas. 

É difícil fazer um balanço deste jogo-treino. Os pontos fortes continuam: Mathieu, Bruno Fernandes e Raphinha. Faltam alguns dos outros pontos fortes da equipa, como o Coates e o Acuña. As aquisições são promissoras, mas não é possível afirmar desde já que se vão transformar em titulares indiscutíveis ou em substitutos de idêntico nível dos titulares. Se o Bruno Fernandes não sair, seguramente que a equipa não está mais fraca do que na época passada. No entanto, também não se consegue afirmar perentoriamente que esteja mais forte e isso não deixa de ser um ponto fraco à partida, dado o persistente diagnóstico de falta de "banco" e de alternativas Se o Bruno Fernandes sair, então, nesse caso, estamos como o Ristovski disse que ficaríamos após a vitória na final da Taça de Portugal.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

A culpa é das farmacêuticas


Lembram-se daquele jogador (central) do Sporting com nome de medicamento, o Demiral? Pois o jogador com nome de medicamento assinou pela Juventus. Dezoito milhões de Euros meus senhores, com os nossos bolsos a encaixarem (por conta do mecanismo de solidariedade, neste caso é mesmo disso que se trata) cento e oitenta mil. Uns trocos. A história é fácil de contar: o jogador com nome de medicamento foi emprestado pela comissão de gestão (era assim que se chamava?) de Sousa Cintra ao Alanyaspor da Turquia que rapidamente exerceu o direito de opção por uns míseros 3,5 milhões (já que era para ser emprestado com cláusula podíamos ter colocado uma maior ou defendermo-nos de outra forma, não acham?). O jogador com nome de medicamento, Demiral 3,5 miligramas, rapidamente passou a Demiral 9 miligramas, perdão, 9 milhões com a venda ao Sassuolo. O jogador com nome de medicamento agora Demiral 9 mg foi entretanto vendido à Juventus tornando-se o Demiral 18 mg, uma gramagem já bem forte e que se deve tomar com cuidado. E tudo isto no espaço de um ano.

Esta semana, entre umas idas e vindas à FIFA em defesa dos clubes formadores, vendemos um jogador (mais um central) da formação chamado Domingos Duarte por 3 milhões de euros ao Granada, ficando com 25% de uma futura venda (ou mais valia?). Alguns acharam os números interessantes, talvez se esquecendo dos milhões que pagamos para o Tiago Llori voltar. Os valores, diga-se, são irrisórios para o futebol de hoje, mas o que faz eco na minha cabecinha é a falta de oportunidades que estes jogadores (não) têm após alguns empréstimos.

Nem vou recordar o autocarro cheio de centrais de categoria inferior a Demiral 18 mg, ou mesmo a Domingos Duarte, que estacionaram em Alvalade para passear a sua mediocridade a expensas do clube. E foram muitos, e caros. Saliento apenas que, por vezes, algumas das soluções passam por jogadores da casa, jovens ou não, que com o tempo e algumas oportunidades poderão mostrar o seu valor. Com o Mathieu e o Coates estamos bem servidos, e tenho a certeza que os seus ensinamentos seriam importantes. Assim ficamos sem saber como seria. Não seria pior do que será. De certeza. Entretanto, consumam Demiral 18 mg com moderação, por favor.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

“Dura lex, sed lex”

A lei é dura, mas é a lei ou Deus perdoa, mas o Conselho de Disciplina (CD) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) não. Não interessa se se trata do clube da terra do João Félix ou do Secretário de Estado do Desporto. Hoje o Académico de Viseu, o clube da minha terra também, amanhã quem sabe… Se um clube tem dívidas e presta falsas declarações sobre o seu pagamento, fica suspenso das competições profissionais. 

Esta decisão também nos deixa tranquilos sobre a integridade das competições profissionais. Até hoje, nunca houve um clube com dívidas e que prestasse falsas declarações. Fico na dúvida, se o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol e a Associação Nacional de Treinadores são extremamente úteis, ameaçando denunciar os clubes ao CD da FPF na defesa dos seus trabalhadores, ou se são completamente inúteis, dada a forma como o CD da FPF assegura este zelo dos clubes no pagamento atempado dos seus compromissos. 

Esta tranquilidade ainda é maior quando se sabe que o CD da FPF tem prioridades no estabelecimento do seu perímetro de atuação. Quando existem indícios de tráfico de influências, de corrupção, de viciação de resultado ou de outras infrações menores, deixa as investigações para o Ministério Público e as decisões para os tribunais comuns. Quando existem crimes gravíssimos de falsas declarações de um qualquer Académico de Viseu ou de umas “bocas” de dirigentes, instaura processos e pune exemplarmente. Ainda bem que é assim, pois é assim que deve ser.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Entretanto...


Capa de hoje do jornal A Bola, perdão, O Benfica. A insustentável leveza de qualquer comentário revela-se absolutamente dispensável. As obras de arte são apenas para contemplar. 

segunda-feira, 8 de julho de 2019

O ovo e a galinha

Bruno de Carvalho foi apoiado pela esmagadora maioria dos sócios, tendo sido reeleito nas penúltimas eleições com noventa por cento dos votos. Não há, não pode haver maior reconhecimento pelo trabalho desenvolvido do que uma reeleição com esta expressão. Nessa altura, todos trazíamos à lapela o “Je Suis Bruno” como forma de dizer com orgulho “Je Suis Sporting”. O “anti-brunismo” era, assim, um fenómeno externo ao Sporting, servindo os próprios intentos de Bruno de Carvalho, que, eleitos os inimigos externos, se legitimava e relegitimava permanentemente (ao melhor estilo de Pinto da Costa). 

Chega o ano de 2018 e a reunião da Assembleia Geral para aprovação dos novos estatutos. Conforme se iam desvanecendo as expetativas de se ganhar o campeonato, Bruno de Carvalho entra em permanente desvario. Os conflitos deixam de ser externos e passam a ser internos. Cria-se o “anti-brunismo” (os “sportingados”) para se efetuar uma purga e (re)legitimar uma direção que precisava de tudo menos disso. O resto é conhecido e é escusado continuar a remexer na ferida e a bater mais no ceguinho. A destituição de Bruno de Carvalho e da sua direção em Assembleia Geral não resulta de nenhum movimento “anti”, mas da pura e simples conclusão de que não dispunham de condições para continuar a exercer as funções para as quais tinham sido eleitos pelos sócios. 

Este último ano serviu para confirmar a justeza dessa decisão. Bruno de Carvalho não poupou ninguém, nem os membros da sua direção. Não existiu um único momento de dúvida, de autorreflexão, de reconhecimento de responsabilidades próprias. Foram os outros, mesmo aqueles que ele escolheu. Ninguém foi poupado, especialmente os sócios e adeptos, e a atual direção foi um bombo de festa permanente. Esse ressentimento gerou um grupo de fiéis, reduzido mas muito ativo. O Bruno de Carvalho deixou de ser um símbolo do Sporting para ser o símbolo do “Brunismo” e o “Brunismo” gerou, finalmente, o “Anti-Brunismo”. 

Os sócios reconheceram o trabalho desenvolvido pelo Bruno de Carvalho. A sua destituição não resulta dessa falta de reconhecimento, mas do reconhecimento, a partir de um certo momento, de que não dispunha de condições para continuar a presidir ao Sporting, não existindo nenhum movimento “anti-brunista”, pelo menos com expressão. A destituição de Bruno de Carvalho e a sua incapacidade para compreender as razões que a determinaram gerou o “Brunismo” e, por sua vez, o “Brunismo” gerou o “Anti-Brunismo”, que se foi radicalizando. Hoje, o Sporting, encontra-se partido em duas fações radicalizadas, embora a maioria se esteja nas tintas e queira é ver a bola. É essa radicalização que também explica a sua expulsão como sócio na última reunião da Assembleia Geral.

As instituições estão para além das pessoas que circunstancialmente as dirigem. É sempre um privilégio presidir a uma instituição como o Sporting e isso basta. Fazer um bom trabalho enquanto se preside não necessita de qualquer reconhecimento. É a obrigação de quem preside e de quem representa. O reconhecimento vem com a história. Varandas e Bruno de Carvalho são duas figuras de papel quando comparadas com Winston Churchill e Clement Attlee. Não foi por falta de reconhecimento que os britânicos votaram no segundo em detrimento do primeiro no pós-segunda guerra mundial. As circunstâncias mudaram e o votos também. É a vida!...

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Assembleia geral


Falar de memória levar-nos-ia até aos coitados dos gregos que, como toda a gente sabe, eram do Sporting. Os gregos da antiguidade clássica e outras antiguidades menos clássicas. Assim como os deuses todos e mais alguns. Já na época medieval (longa que foi e nem sempre treva), o Sporting germinava, dava cartas, crescia. A época industrial chegou-nos de comboio, ou no paquete, como diria o Eça. Nasceu o Sporting que já por aí andaria em bolandas, à espera que os ingleses ultrapassassem os mongóis nos jogos de bola. Às vezes com cabeças. As dos inimigos. Basta de inimigos dentro do Sporting.  De fações, viragens, anátemas, vendetas de aviário. Basta de lavagem de roupa suja. Somos muitos e cabemos todos. Sem isso não há gregos nem deuses que nos valham.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Finalmente alguém nos explica a tática

Ontem, ao passear na Feira do Livro de Braga, tropecei numa pechincha do Vitorino Magalhães Godinho, um dos maiores historiadores portugueses do século XX. O livro custava três euros e ainda tinha um desconto de vinte por cento. A propósito de redes institucionais e organizacionais e das suas relações com a personalidade, o autor recorre a esta metáfora que se segue. 

“Numa equipa de futebol, as condutas são ditadas pelas posições em campo e pela definição das funções de cada jogador; mas é toda a personalidade dos jogadores que está em jogo; a amizade liga uns, a antipatia separa outros, acontece o ponta esquerda sentir que o avançado centro pretende ganhar os louros da jogada, e por isso passa a bola a outro não tão bem posicionado. Uns esforçar-se-ão no relvado por amor à camisola, outro precisa de brilhar para conseguir uma transferência milionária; há quem não acate bem a autoridade do treinador. Diríamos que na equipa há dois planos: o organizacional-social, que carateriza o coletivo, e o emocional, que é próprio do jogador; mas tal diversidade serve a unidade de objetivo – ganhar o jogo”. 

Anda uma pessoa anos a anos a ouvir o José Mota, o Petit, o Pepa, o Paulo Sérgio, o Fernando Santos, o Peseiro ou o Manuel José e acaba por descobrir que um historiador pode ser melhor treinador de futebol do que os treinadores de futebol. Pelo menos, descreve melhor a psicossociologia de qualquer equipa de futebol. 


Quem pretender compreender melhor a desterritorialização dos clubes e a sua transformação em marcas globais, encontra tudo muito bem explicado em: “A Era do Eu”. Simplesmente soberbo!

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Um herói

A bola não rola e as transferências não têm muito interesse, desde que deixaram de ser regadas com uns copos numas almoçaradas em forma de entrevista n’ “A Bola”. Também não sou do tempo em que as Assembleias Gerais dos clubes e os seus Relatórios e Contas fossem tema de conversa. Quem procura matar o tédio a escrever sobre futebol vê-se e deseja-se para arranjar tema. O de hoje é um tanto melancólico, de quem envelhece mas procura estar atento a uma qualquer ação que lhe permita continuar a ter esperança e sentido para a sua vida. Enquanto lerem, perdoem-me o moralismo: é da idade. 

Nasci em Viseu e aí vivi até aos dezoito anos. O regresso uma ou outra vez para rever amigos e familiares é sempre um pouco ao estilo Cinema Paraíso. Reconheço os espaços e as caras mas nada é como dantes. Nunca, mas nunca se volta ao passado porque deixou de ser habitável. Talvez se tenha maior consciência do que é ser viseense e do que é a cidade quando se vive fora, no confronto com outras identidades e outras cidades. Mantenho a imagem de que, em Viseu, era-se o que se nascia, apesar do dinamismo social de uma emergente classe média associada ao comércio e serviços, públicos e privados, nos anos setenta e oitenta. Mas o respeitinho ainda era muito bonito e “sim, senhor doutor!”, “com certeza, senhor engenheiro!” 

Há sinais de mudança, embora seja suspeito pela amizade que me liga a um dos vereadores da câmara municipal. Compreendo as suas dificuldades em transformar Viseu numa cidade capaz de se afirmar no contexto nacional como um dos principais polos de desenvolvimento da nossa interioridade (mais socioeconómica e demográfica do que geográfica). As oportunidades escasseiam e não se pode perder nenhuma. É preciso estar permanentemente a criá-las e recriá-las, como a Feira de S. Mateus, porque elas não caem do céu, como em Lisboa ou no Porto. Compreendo, por isso, que se tenha aproveitado a oportunidade de se associar o João Félix e a sua recente notoriedade à cidade de Viseu (a associação ao Viriato é historicamente mais duvidosa, a não ser que se pretenda distinguir um doce local em forma de vê e constituído por um género de massa doce recheada de coco, que fazia parte da merenda dos mais afortunados). No entanto, os heróis não são os que prometem fazer, são os que fazem. 

O Miguel Duarte era aluno de doutoramento em matemática no Instituto Superior Técnico. Decidiu juntar-se a uma ONG para salvar vidas no Mediterrâneo. Está acusado pela justiça italiana a uma pena que pode chegar aos vinte anos de cadeia. Não o conhecia, ninguém o conhecia, à exceção dos seus familiares e amigos, que devem estar numa aflição. Como ele próprio disse: “As pessoas estavam a morrer afogadas e nós impedimos que elas morressem. Era só isso que fazíamos”. Ele (só) fez o que estava certo. Faz muita diferença fazer o que está certo. Existem heróis, heróis verdadeiros e não de papel. O Miguel Duarte é um herói, é um dos meus heróis e tenho orgulho em ser seu concidadão, porque nasci em Viseu, no mesmo país onde ele nasceu.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

No news is good news

No capitalismo faz de conta nacional, as especulações sobre a transação de um jogador podem ser promovidas pelos envolvidos no negócios na praça pública, mesmo que à mistura se encontrem empresas cotadas em bolsa, sem qualquer intervenção da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. Nada que não estejamos habituados depois de até hoje ninguém ter sido responsabilizado pelo “insider trading” na resolução do BES. 

Explicam-nos todos os dias a importância dos empresários nestes negócios e a razão para cobrarem comissões por serviços prestados aos clubes sem produzirem qualquer valor e alimentando o rentismo. Quem não conhecesse a história do futebol, até seria levado a pensar que o mercado de compra e venda de direitos desportivos foi inventado por esses empresários. Com o Acórdão Bosman, anunciava-se a liberdade dos jogadores de futebol, que deixavam de ser propriedade dos clubes de futebol. Agora, são propriedade de empresários e de fundos de investimento. Por detrás de cada transferência glamorosa de um Ronaldo, encontram-se negócios de emigração ilegal e de autêntico tráfico, enquanto os clubes se transformam em empresas e passam a ser detidos por dinheiros de “sheiks” e de outros oligarcas de diferentes nacionalidades. É o mercado, sem se procurar compreender os seus limites morais, como nos explica Michael J. Sandel. 

Acabada a alienação a propósito do João Félix, anuncia-se outra a propósito do Bruno Fernandes. Todo o santo o dia nos informam da novidade de não haver novidade nenhuma. Não é só uma contradição nos termos, não haver novidade é o normal. Daqui a aproximadamente um mês, disputamos o primeiro título da época: a supertaça. Mantendo-se o Renan Ribeiro e o Nelson, está meio-caminho andado para o conquistarmos. Mantendo-se ainda o Bruno Fernandes, o restante está praticamente percorrido. Prefiro esse título a todos os títulos dos jornais desportivos.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

O Ministério da Verdade

Para compreender as histórias e narrativas que nos rodeiam e não enlouquecer, é sempre bom regressar um e outra vez ao George Orwell e ao seu 1984. O personagem trabalha na permanente reescrita da história. Se o Ministério da Riqueza estima a produção de 145 milhões de pares de botas e só se produzem 62 milhões, é necessário reduzir a estimativa inicial para 57 milhões para que a habitual narrativa da superação dos objetivos possa continuar. Esta reescrita pressupõe uma reedição do jornal oficial, sendo retirados e destruídos os exemplares da edição inicial. Em nome da verdade, essa reescrita distancia a verdade, estando tão próximos dela os 57, os 62 ou os 145 milhões. No papel, produzem-se milhões e milhões de pares de botas apesar da população continuar descalça. 

A história produz naturalmente os seus mitos, reais e, sobretudo, imaginários. Anunciou-se que foi atribuída uma ordem de mérito a um camarada do partido que, mais tarde, caíra em desgraça por razões que se desconhecem, que tanto pode ser corrupção, incompetência, popularidade ou heresia, embora a hipótese mais plausível tenha sido a necessidade da purga como mecanismo indispensável da governação. A reescrita pura e simples obriga a um trabalho insano, envolvendo reedições e destruição de edições anteriores e de arquivos. A forma mais simples de apagar a história acaba por ser a criação de um novo herói perecido em combate ao qual se exaltam a pureza e a coerência da sua vida, toda dedicada ao cumprimento do seu dever de derrotar o inimigo e perseguir os espiões e sabotadores, sendo abstémio, não fumador e celibatário. 

Na comunicação social, em geral, e na desportiva, em particular, o processo não é, hoje, muito diferente. Não sendo possível reeditar o passado e destruir as versões originais, constrói-se e reconstrói-se o presente e o futuro de forma a assegurar a sua coerência com esse passado.

Recentemente, o Benfica renovou com o Sálvio e o Jonas, prolongando os tempos de contrato e aumentando os salários diretos e indiretos (incluindo, eventuais prémios de assinatura e outros). Por uma razão ou por outra, estes jogadores pouco contam para o Bruno Lage e para a forma como pretende que jogue a sua equipa. Nada que não aconteça a todos. Muito recentemente, o Sporting dispensou o Nani e o Montero que eram dois dos principais ídolos dos adeptos. Mas no Benfica estas coisas não podem ser tão simples assim. Se assim fossem, ter-se-ia que admitir que as renovações não foram decisões adequadas. 

A reescrita da história pressupõe um sem número de personagens picarescas. A mãe do Sálvio que chora baba e ranho para que o seu filho represente o Boca Juniors e a mulher que se desnuda para despedida dos portugueses (com muita pena minha, esta afirmação é de ouvir dizer). O Sálvio afinal regressa porque quer acabar a sua carreira no Benfica, constituindo um reforço (?) como disse um comentador habitual. Noticia-se que o Jonas quer acabar a carreira porque lhe doem as costas, como se as costas não lhe doessem quando renovou o contrato e passou a ser o jogador mais bem pago. O Jonas não disse nada, mas juram-nos que está a chegar para nos comunicar essa sua decisão, preparando-se o clima emocional para a despedida dos benfiquistas. O Jonas, presciente do seu fim, liderou o balneário no apoio ao Bruno Lage e ao João Félix, abraçando o miúdo e incentivando-o a fazer mais e melhor. 

Ontem, ouvi estas histórias a um jornalista da TVI. O à vontade como as contava e o orgulho que manifestava por partilhar estas (in)confidências com os maiores da futebolândia nacional contrastam com a progressiva consciencialização do personagem do Orwell. Este totalitarismo tem efeitos. Tem efeitos nos adeptos das equipas adversários, que, por emulação, também gostavam de dispor de uma direção Big Brother que tudo controla e nunca se engana e raramente tem dúvidas. Mas os principais efeitos são nos adeptos do Benfica, como se comprova nos comentários aos nossos “post”. O ser humano é dado a histórias (com agá minúsculo), não sendo por acaso que o “marketing” recorre cada vez mais a elas para nos convencer e para nos identificarmos. As notícias como narrativas dispensam-nos de pensar pela própria cabeça e procurar outras narrativas que se contraponham à narrativa oficial. Winston, personagem do Orwell, não teve um final feliz, como terá, de uma forma ou de outra, o Jonas ou o Sálvio (ou como amanhã terão outros), porque “Big Brother was watching him”.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Defendam-se do defeso


A memória é curta, mas não de peixe. Todos os anos é a mesma coisa, com a exceção do anterior, que ainda foi pior, tornando o defeso do Sporting num penálti à PanenKa convertido na própria baliza. Ali pelo final do campeonato, acolá pela final da taça, começam os anúncios (formais, informais, quase oficiais, oficiosos) de transferências, hipotéticas, encenadas, surreais, factuais, não tarda nada factuais, assim-assim, tudo bem embrulhado para a venda de jornais e programas televisivos que funcionam como verdadeiros centros de emprego para (a)gentes do futebol. Tudo somado: bola, como diria JJ.

Ainda a festa andava na rua e já se vislumbravam vendas e compras. No final da taça, ficaria tudo definido para Bruno Fernandes, no final da liga das nações, o mais tardar, antes de ir de férias, não faltava mais nada, depois das férias, o seu destino será obviamente conhecido. Do Félix, nem tanto, a coisa estava planeada para acontecer mesmo não acontecendo, ou acontecendo à priori de ter acontecido, uma transferência envolta naquele nevoeiro tão querido a D. Sebastião. Outras transferências vão acontecendo às pinguinhas, diariamente relatadas como se de golos se tratassem, dissecadas na sua inexistência cruel.

O defeso, assim chamado por desplante, dura um terço de um campeonato, estende-se, distende-se, alarga-se, e a procissão ainda nem chegou ao adro. Os Ingleses ainda nem sequer começaram as hostilidades e ninguém sabe bem como que linhas se coserá lá para Setembro. Slimani deixou-nos assim num final de Agosto. Até lá tudo é possível. Inclusivamente o Félix ir para o Atlético de Massamá. Não há nenhum? Bom, se há um real deve existir um atlético qualquer em Massamá.  

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Ele que se adapte!

Vi jogar o João Félix quatro vezes. Em Alvalade, para o campeonato, fez um bom jogo, mas o Benfica coletivamente foi-nos superior e o que nos surpreendeu não foi este ou aquele jogador em particular. Para a Taça de Portugal, na Luz, a exibição não foi tão bem conseguida e sobrou o que o foi caracterizando durante esta época: os tiques de vedeta e a forma desleal como procurava rebolar-se pelo campo ao mais pequeno toque. Em Alvalade, na segunda mão, não esteve bem, como a restantes equipa, tendo sido substituído pelo Jonas na fase decisiva do jogo. Mais recentemente, pela seleção, chegou ser penoso vê-lo jogar contra a Suíça. Pareceu-me um bom jogador, mas com muito para aprender e desenvolver, em termos táticos e físicos. 

Quando despontou o Renato Sanches, fiquei com idêntica impressão. Muita força, muita vontade, mas também muitas faltas e muitos lapsos táticos. O rapaz rapidamente se transformou no melhor do mundo e arredores e acabou por ser convocado para a seleção e contratado pelo Bayern de Munique. Passou as últimas três épocas sem “calçar”, como se costuma dizer. 

Enquanto tomava café no Flávio, li um artigo de um jornalista de “A Bola”. Afirmava que o Bruno Fernandes dispunha de condições para ser titular em qualquer uma das equipas que, aparentemente, o pretende contratar. Quanto ao João Félix, as dúvidas adensavam-se. Não estava em causa a superior capacidade do jogador e o seu valor de 120 milhões de euros. É tudo um problema de adaptação e, em particular, de adaptação ao Simeone que prefere homens de barba rija. Na sua cabeça, há bons que se adaptam e há bons que não se adaptam. Não lhe passou pela cabeça perguntar-se se o jogador é assim tão bom como o pintaram, porque razão é que não se irá adaptar? Não é condição para se ser tão bom assim a capacidade de se adaptar? 

Os que tecerem os mais rasgados elogios ao Renato Sanches continuam a dizer que se trata de um problema de adaptação a uma equipa e a um clube idiossincráticos. Com o João Félix começam a pôr as barbas de molho. O rapaz ainda não deu um pontapé na bola pelo Atlético de Madrid e já está com eventuais problemas de adaptação. Ainda estou para ver o dia em que um destes jornalistas admita que as suas afirmações sobre um qualquer jogador tenham sido manifestamente exageradas ou, pelo menos, não dispunha de elementos que lhe permitissem afirmar o que afirmou. Nunca se trata de um problema de rigor jornalístico ou de idolatraria. É sempre a adaptação, a malfadada adaptação.

terça-feira, 18 de junho de 2019

A economia política das transferências

Sempre procurei ensinar que as empresas como qualquer outro tipo de organização não têm se não um objetivo: satisfazer as necessidades atuais e potenciais dos seus clientes ou utentes. O lucro ou os resultados não são um fim em si mesmos, são uma pré-condição da existência e uma forma de medir a consecução desse objetivo maior. Não se sobrevive a acumular resultados líquidos negativos e quanto mais e melhor se satisfazem as necessidades mais lucrativas se tornam as atividades económicas. O que importa, sempre, é a função social de uma empresa ou de uma organização, isto é, o contributo para a sociedade no seu conjunto. Evidentemente, esta definição ou este entendimento não é meu, resultando de reflexão de Peter Drucker, que, aliás, passou uma parte importante da sua vida ao estudo das instituições sem fins lucrativos. 

Não me acompanha exclusivamente Peter Drucker. Citando o insuspeito economista Papa Bento XVI, na sua encíclica “Caridade na Verdade”, o lucro não é um fim em si mesmo. O lucro tem que ser legítimo e legitimado do ponto de vista social. Isto é, o lucro é um instrumento para o desenvolvimento, assumido numa perspetiva humanista como o desenvolvimento de todos e de cada um. Desse ponto de vista, devem existir múltiplos modelos jurídicos e económicos de empresas que permitam acabar com a separação, que cada vez tem menos sentido, entre as que visam o lucro e as que o não visam. Não se está a falar de terceiro sector. Está-se a constatar uma ampla e complexa realidade, que envolve o público e o privado e que não exclui o lucro, antes o considera como instrumento para realizar finalidades humanas e sociais.

Infelizmente, o Mundo não funciona assim. A transposição do axioma da maximização do lucro das empresas da síntese neoclássica para a realidade veio legitimar todas as práticas assentes no objetivo de criação de valor para os acionistas. Não nos espanta que as empresas comprem as suas próprias ações ou distribuam dividendos generosos pelos acionistas enquanto aumenta a sua alavancagem. O objetivo deixou de ser o que devia e passou a ser uma outra coisa qualquer. Se há lucro e acionistas bem remunerados pelo capital investido, o objetivo está cumprido e os meios pouco importam. 

Um clube de futebol serve para constituir equipas e disputar campeonatos, oferecendo aos seus sócios e adeptos espetáculos desportivos. Este é o seu objetivo e o que determina a função social que o legitima. Vender e comprar jogadores é instrumental, serve o propósito de constituir melhores e mais competitivas equipas que possam proporcionar melhores espetáculos e ganhar mais títulos. Hoje, vender e comprar jogadores transformou-se num fim em si mesmo. Os jogos e os títulos só servem para os valorizar. Os valores das transferências sobem ano após ano e o recorde de um ano serve o simples propósito de sinalizar este “mercado” quanto à referência a ultrapassar no ano seguinte. Existe, cada vez mais, uma desproporção entre estes valores e as expetativas de ganhos dos clubes de futebol na realização da sua função social. Constituiu-se um esquema de Ponzi que durará enquanto a circulação de dinheiro o permitir e não se inverterem as expetativas sobre o crescimento do valor dos jogadores. 

O fetichismo da mercadoria de Karl Marx assume novos contornos. A mercadoria, enquanto entidade, despareceu e o dinheiro transformou-se na própria mercadoria. O dinheiro deixou de ser uma forma de facilitar a troca. Não existe relação entre o dinheiro, a produção de mercadoria e a realização de dinheiro, num ciclo mais ou menos virtuoso que permite a sua autorreprodução. O dinheiro gera dinheiro e tão só. 

Os adeptos passaram a festejar transferências como quem festeja golos, vitórias e títulos. Continuando a armar-me em culto, o que nos diz Gilles Lipovetsky é que não são as marcas que procuram dar resposta às identidades, são as próprias pessoas que precisam das marcas para construírem as suas identidades, não as conseguindo construir por si próprias. A nossa marca, o nosso clube, somos nós, seja no que for. O nosso clube devia servir para nos identificar enquanto adepto ou sócio. Serve cada vez menos. Serve para nos dispensar de dispor de identidades em cada uma das nossas outras dimensões. Ser do Sporting, do Benfica ou do Porto, dispensa-nos de ser mais o que quer que seja. É a era do vazio.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Como um discurso do 10 de junho

Foi pena a final da Liga das Nações não se realizar no dia seguinte – 10 de junho – o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Dificilmente se arranjaria um outro evento que melhor evidenciasse a psicossociologia de povo português, admitindo que exista uma e distintiva da dos restantes povos. A portugalidade exalta-se pelo labirinto, da saudade, nas palavras de Eduardo Lourenço, ou das pernas e jogadores em todo o campo, na tática do Fernando Santos. O império ou as vitórias europeias são sempre obtidas pela forma como se procura acertar no alvo sem nunca se dar a ideia que se tem esse propósito ou, sequer, propósito algum (não confundir com despropósito). 

A Holanda até entrou em campo disposta a jogar futebol, mas a forma embaralhada como o Fernando Santos dispôs os jogadores no meio-campo rapidamente os desanimou. Uma primeira leitura da disposição dos jogadores em campo poderia levar-nos a considerar que estávamos a jogar em 4x3x3. Mas como o Guedes, embora extremo, passou mais tempo de olho no Raphael Guerreiro, também permitia vislumbrar um 4x4x2. Como o Danilo parecia mais fixo no meio, em alguns momentos parecia estar-se em presença de um 4x1x3x2. Como o Bernardo Silva recuava, também se passava para o 4x1x4x1. Se nós, portugueses, habituados como estamos a ver jogar a seleção nacional, não conseguimos compreender o que vemos e acreditamos pela fé, não é possível para os secularizados holandeses darem conta de um recado que o seu espírito não entende. 

Não se pode afirmar que o Fernando Santos não tenha uma tática, não tem é uma estratégia. A tática é a de jogar em função da necessidade de anular os pontos fortes do adversário, que tanto podem ser individuais como coletivos. Os jogadores são dispostos em campo, uns em marcações individuais, para impedir o jogo de um ou outro dos melhores da equipa contrária, outros em marcações à zona, para ocuparem um determinado espaço relevante para o adversário e darem uma ajuda à defesa, em especial aos laterais. Esta teia gera ensarilhamento de jogadores, de pernas e de ressaltos que leva à desistência de qualquer espírito analítico. 

O ataque não é uma função organizativa autónoma. É o que sobra deste ensarilhamento. Por vezes, recupera-se a bola e não se a perde em seguida. É o momento de avançar. Avançar pressupõe um pontapé para a frente ou uma corrida de alguém como se não houvesse amanhã. Cada um está entregue a si próprio e tem de se desenrascar, aquilo que o português faz melhor. O desenrascanço confunde-se com o acaso mas não é. É uma filosofia de vida que o Fernando Santos mobiliza, mobilizando em todos e cada um dos jogadores aquilo que é da sua natureza e da natureza dos portugueses. 

O desenrascanço parece improviso mas também não é. É filho do desespero, da solução de último recurso. É correr porque não se tem a quem passar. É chutar quando não se tem outro remédio. E o golo nasce da forma como o Bernardo se desfez da bola para acudir ao chamamento da mãe para lanchar e da incapacidade do Guedes de estabelecer a relação espaço-tempo de Einstein adequada ao necessário passe para o Ronaldo, vendo-se na contingência de rematar à baliza e surpreendendo o defesa e o guarda-redes. De repente, o Cillessen tinha-se transformado no Vlachodimos e estava encontrada mais uma razão para se fazer uma reportagem sobre o Benfica. 

Ganhámos e, no futebol, ganhar aos outros é tudo: o melhor é o que vence. Na vida, temos de nos vencer, na ignorância, no preconceito, na falta de responsabilidade. Derrotarmo-nos no que temos de pior é vencer. Mas não nos vencemos porque existem eles, os outros, os que não nos deixam. Enquanto isso sempre nos podemos considerar os melhores enquanto o futebol nos permitir essa ilusão.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Liga das nações do futsal


Não quero parecer bruto para não ser expulso desta crónica, mas o futsal começa a ter alguns pormenores dignos do mais fino quilate do futebol de onze, talvez porque o Sporting vai no tricampeonato e é campeão europeu. Será? O jogo de ontem foi mais uma demonstração da religiosidade que impera no desporto, onde a devoção ao senhor padre nos recorda que devemos, devotamente, rezar.  Ou enviar uns e-mails.

O Fernandinho fez toda a escola da provocação (parece que com um estágio de final de curso nas antigas Antas), Robinho para lá caminha e Miguel Ângelo já demonstrou todo o potencial do seu murro como cortesia a Cardinal (um alegado Super-Dragão) no jogo anterior. Este mundo anda louco. Ontem, Dieguinho (este inho é do Sporting), foi expulso por supostamente agredir com a respiração Robinho, após este ter-lhe acariciado o corpo com a sua benesse habitual. Dieguinho foi para a rua. Robinho ficou para melhorar o seu potencial de se atirar para a piscina após amputação de um ou de dois membros a sangue frio. Para o ano estará no City, certamente.

Logo no início do jogo percebemos que um grupo de sócios e adeptos organizados do Benfica não estava, como é normal, apenas atrás de uma das balizas, ocupando uma das laterais imediatas. Resultado? Para além dos cânticos do costume, paragens sistemáticas (bem calculadas) do jogo através do lançamento de objectos (os comentadores diziam que eram cartolinas) para a quadra. Não interessa aqui a manufactura e a qualidade dos materiais mas a interrupção constante do jogo com o beneplácito dos senhores do apito, reconhecendo-se, porém, a envergadura artística de alguns desses objectos.

Após o jogo parece que alguns adeptos não organizados do Benfica seguiram a comitiva sportinguista do Sporting até Alvalade, provavelmente para os aplaudir pela sua grande prestação neste e nos jogos anteriores. Fica aqui a nossa saudação. E seguimos todos para ver o Félix partir tudo na televisão. Como é habitual, aliás. Obrigado.