domingo, 20 de janeiro de 2019

Por milímetros!

Gosto de futebol. Gosto do Sporting. Mas tanto futebol e tanto Sporting cansa. Fui almoçar com um grande amigo e compadre e a minha afilhada. O almoço, tardio, alongou-se no tempo com as conversas que importam: a vida, a nossa vida, os filhos, a política e os livros. A conversa continuou em minha casa, aonde nos dirigimos para lhe emprestar um livro que lhe tinha sido referenciado. Celebrada a amizade, ainda fui ao Flávio a tempo de ver a segunda parte do jogo contra o Moreirense. O jogo servia para me entreter um bom bocado e prolongar a sensação bem descrita por uma grande filósofa dos costumes nacionais de que “estar morto é o contrário de estar vivo e vice-versa”. 

Esta visão da existência tem uma certa razão de ser, mas estar vivo também implica uma série de aborrecimentos como ver um jogo como o do Sporting x Moreirense. Como no circo, é importante que nos avisem quando o urso está constipado ou o trapezista partiu um braço. Mesmo que não cancelem o espetáculo, sabemos de antemão ao que vamos. Podemos querer ver somente os palhaços. Há quem goste e não os perca por nada desta vida, avisando também que vão atuar os irmãos Dalton acompanhados por um qualquer Rantanplan. É que, se fosse avisado, teria preferido rever a votação de braço no ar do Conselho Nacional do PSD para se saber se a moção de confiança devia ser votada de braço no ar ou por voto secreto. Foi um jogo muito mais bem disputado e envolvia, também, regras e árbitros. 

Os jogadores do Sporting iam trocando a bola atrás na expetativa do adiantamento dos do Moreirense para os pressionar, mas eles moita-carrasco, continuando a pressionar a saída da bola sem se aproximarem muito e mantendo-se unidos venceremos atrás. Sem movimentação dos médios, o jogo acabava invariavelmente por se esticar para um dos extremos, onde ou o Nani parava o jogo ou o Diaby tropeçava na bola. Recuperada a bola, os do Moreirense esqueciam-se da baliza e, durante quarenta e cinco minutos, por junto e por grosso, fizeram um único remate que resultou de uma biqueirada à toa cuja intenção era a de realizar um centro para a área, na melhor das hipóteses. 

Como não havia bola para ver, tive que me entreter com a arbitragem e com os comentários na SporTv. Mal comecei a ver o jogo, o Diaby foi derrubado à entrada da área. O árbitro não marcou falta e, apesar da repetição, não se ouviu qualquer comentário da SporTv. A seguir, o Nani faz uma cueca ao defesa direito e é derrubado, o árbitro não marca nada e na SporTv comenta-se que não podemos estar sempre a dizer que são marcadas faltas a mais e depois criticar o árbitro por não marcar aquela, assumindo que tinha existido. Pensei que a partir desse momento, mantivessem o mesmo tipo de análise. No entanto, nunca mais ouvi nenhum comentário coerente com a análise anterior. O comentário mais interessante foi mesmo o de uma entrada por trás às pernas do Raphinha de um jogador do Moreirense para parar um contra-ataque perigoso. Explicaram-nos que assim é que é e que assim é que deve ser e não vale a pena protestar, esquecendo-se que nestas circunstâncias, quando se faz um “tackle” por trás sem disputa da bola e para se acertar no adversário, o cartão a mostrar tem a cor da camisola do Benfica. 

O ponto alto desta rábula em que se transformou este jogo aconteceu aos oitenta minutos, quando, depois de uma biqueirada do Coates, o Raphinha se isolou, fintou o guarda-redes e marcou o terceiro golo. Não o tendo conseguido no jogo contra o Feirense, o árbitro embrulhou-se com o fiscal-de-linha e o VAR até conseguir o momento Lucílio Baptista por que todos anseiam. Nada que não estejamos habituados e, por isso, não se estanha. Na SporTv seguiu-se um momento Al-Qaeda do comentário futebolístico. O relatador gritava histérico: “O procolo! O protocolo!”. O comentador, um pouco mais distanciado, acabou por admitir que, por ele, não estava fora-de-jogo, contrariado de imediato pelo outro que gritava: “Os pés, são os pés! O tronco inclinado, é o tronco inclinado! Os braços, são os braços!”, embrulhando esta descrição de todas as extremidades anatómicas como o inevitável apelo ao protocolo. Se não tivesse respeito pelos leitores, explicar-lhe-ia qual foi a extremidade anatómica do Raphinha que ele viu em fora-de-jogo. Não sei se se tratou de um momento Al-Qaeda ou algo mais. Não sei se o VAR ouve aquela algaraviada e se se deixa condicionar na sua decisão. O que sei é que condiciona a opinião pública e, sobretudo, daqueles que estão a assistir à transmissão televisiva. 

Como não vi a primeira parte, decidi ver o resumo na SporTv+. Passado algum tempo e voltada a compostura, pensei que sobre aquele lance nos dissessem, pelo menos, que não se podia concluir nada. Afinal, não: o árbitro tinha decidido bem, embora o jornalista cheio de certezas nos dissesse também que “talvez os pés estejam ligeiramente adiantados”. O recurso ao advérbio é um hino ao jornalismo. Embora não seja dado às teorias da conspiração, reconheço que no futebol nacional o sistema se protege de múltiplas formas e segue uma sequência previsível. Hoje, n’ “A Bola”, um ex-árbitro, penso que aquele que se pegou à pancada com o Rui Patrício em Alvalade, diz-nos que o fiscal-de-linha, o árbitro e o VAR procederam corretamente, “apesar de termos visto duas imagens – nenhuma totalmente esclarecedora, porque ambas ligeiramente distintas -, a verdade é que ficámos com a sensação que o brasileiro estaria milimetricamente adiantado: se não pelo pé, pela inclinação do seu tronco no momento em que arrancou para a baliza adversária”. Ficámos a conhecer, assim, a sua milimétrica sensibilidade, uma sensibilidade que consegue alcançar menos de um centímetro à distância se não de uma pelo menos de outra qualquer extremidade anatómica e que se transforma em certeza no momento seguinte. 

Está na altura de a Direção do Sporting, admitindo que exista, ter um conversa muito séria com a SporTv. As pessoas, sportinguistas, benfiquistas e portistas, assinam aquele canal e pagam pelo serviço. Se querem comentários daqueles têm alternativas mais baratas e que ninguém tem dúvidas sobre a sua linha editorial, como a BenficaTv, o Porto Canal ou a SportingTv. A SportTv pode não fazer comentários sobre arbitragens durante os jogos, fazendo-o de forma autónoma e detalhada noutro programa qualquer. Se os faz, então deve fazer de todos os lances e, em particular, da coerência da arbitragem nas decisões que envolvem interpretação por alguém que perceba do assunto. No café onde vejo os jogos do Sporting, encontram-se três ou quatro sportinguistas, cerca de uma dezena de benfiquistas e um número idêntico de adeptos do Braga e do Porto. Não ouço desses adeptos das equipas adversárias o que ouço na SporTv, havendo um acordo tácito entre nós, que mal nos conhecemos, sobre a civilidade como nos relacionamos enquanto vemos os jogos dos nossos clubes ou dos clubes adversários. Essa civilidade está sempre em risco quando ouvimos o que ouvimos na SporTv. Gostaria de continuar a assistir tranquilamente aos jogos com os meus vizinhos sportinguistas, benfiquistas, portistas e “braguistas”. 


(N’ “A Bola”, o referido ex-árbitro afirma que há razões para marcar “penalty” contra o Sporting por falta do Acuña. Estou de acordo com ele. É pena que não esteja completamente de acordo noutro lance, para além ainda daquele que refiro no corpo do texto. Afirma que houve falta sobre o Bas Dost embora fora da área no lance que antecede o golo do Moreirense. Estou disposto a concordar com ele, apesar de nos andarem sempre a explicar que as faltas devem ser marcadas no local onde se concluem e não onde se iniciam. Só não estou de acordo completamente, porque estranhamente se esqueceu de referir que se era falta então devia ser marcado o correspondente livre e o defesa devia ser expulso. Detalhes e nada mais)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Atitude, alucinação e coerência

A equipa começa a apresentar sinais físicos de desagaste com tantos jogos seguidos e eu também. A equipa chegou atrasada ao jogo contra o Tondela e eu, ontem, também. Como de costume, entrei com o pé direito no Flávio e foi logo golo do Bas Dost, fazendo um duplo pé direito, mas afinal não tinha valido. O árbitro marcou falta, bem, falta de (deixa cá ver…) atitude. Sou favorável ao controlo anti-doping da arbitragem. É verdade, fumei coisas maradas quando era mais miúdo. Fumei mas não inalei, eu e outras pessoas especialmente recomendáveis como o Bill Clinton. Não é por isso que deixo de conhecer bem os sintomas. Uma vez, uma amiga minha, muito bonita por sinal, chegou-me a dizer que era um homem belo ao mesmo tempo que gritava para fugirmos que vinha a correr atrás de nós uma aranha gigante com a cabeça do Álvaro Cunhal adornada com o bigode do Chalana. Na ausência de VAR, percebe-se a intenção da Federação Portuguesa de Futebol de escolher um árbitro cujo nome comece por vê. É o mais parecido que se consegue arranjar. No entanto, esta boa ideia pode ser debalde se o árbitro estiver sempre a ver espécies da família dos aracnídeos com cabeça de políticos, de quem o país está mesmo a precisar para se acabar com a rebaldaria, disfarçada com excrescências capilares faciais de jogadores de futebol dos anos setenta e oitenta. Não foi somente neste lance que o árbitro marcou falta de atitude, sobretudo aos jogadores do Feirense. Para o árbitro, os jogadores, embora enfiando as suas caneladas, estiveram muito aquém do desejável, não merecendo qualquer cartão amarelo e gerando, desta forma, elevados custos reputacionais para um Aly Ghazal, por exemplo. 

Na segunda parte, o cerco apertou-se e os jogadores do Feirense foram-se amontoando em trinta metros do seu meio-campo, saindo em transições diretas para fora, para os defesas do Sporting e, com mais profundidade ainda, para o próprio Salin. O cerco tardava a dar resultados devido a um campo eletromagnético que se situava próximo da baliza, fazendo suspeitar que o Fernando Santos tivesse andado por ali com as suas mezinhas. Foi ele o responsável por desviar remates do Bas Dost, quando tudo levaria a crer que até o Castaignos marcaria golo, do Nani ou do Bruno Fernandes. Os golos do Sporting só se conseguem explicar por algum curto-circuito. O Wendell recebeu a bola do lado direito do ataque próximo da grande área, simulou que rodava para fora, rodou para dentro, enquadrou-se e meteu a bola na gaveta. Logo a seguir, depois de um canto, a bola sobrou para a entrada da grande área onde apareceu o Bruno Fernandes a fazer um remate furioso que o guarda-redes procurou defender depois de a bola ter saído da baliza. Em qualquer dos casos, houve falta de atitude não assinalada pelo árbitro, dado que o Bas Dost se encontrava às cavalitas dos defesas a abanar os braços como se estivesse num concerto dos Guns N' Roses ou dos AC/DC. 

Depois do dois a zero e estando há cerca de meia hora a aboborar na sua área, o Salin pediu ao Marcel Keizer e à sua defesa maior sentido de compromisso com a equipa (adversária, claro está). O treinador fez as substituições que se impunham para esse efeito e os defesas passaram a colaborar ativamente nas jogadas de ataque do Feirense. Com a saída do Mathieu e a entrada do André Pinto, o Coates sentiu-se em muito melhor companhia e foi o mais esclarecido, fazendo de imediato o que tinha de ser feito. Para não se perder tempo, passou a bola a um adversário à entrada da área, o adversário fez-se rogado e tirou-lha para a entregar a outro, o outro não se mostrou afoito também e tirou-lha para a entregar a outro, o segundo outro fez cerimónia e tirou-lha para dar ainda a um terceiro outro, que, para o evitar, finalmente rematou para defesa do Salin. Até acabar o jogo, o Salin fez mais um par de boas defesas correspondendo assim a excelentes iniciativas atacantes dos jogadores do Feirense e da sua defesa em conjunto. 

Acabado o jogo, regressei a casa ainda a tempo de ouvir os comentários da RTP3. Estava um senhor de meia-idade, a atirar para o forte, com barba grisalha aparada e cabelo castanho-avermelhado, mais ou menos da mesma cor de uma tinta de zircão que utilizei para dar uma primeira demão num portão da casa de Bucos, em Cabeceiras de Basto, a criticar o Marcel Keizer pelo jogo contra o Porto. Não estranhei. À sua maneira, o que estava era a elogiar o jogo contra o Feirense. Foi bom ouvir esse elogio ao nosso treinador no mesmo dia em que o seu desempenho foi equiparado ao do grande e inigualável José Peseiro. Está na altura de se comparar o seu desempenho com o do Del Neri no Porto, despedido quando se encontrava com os mesmos pontos do primeiro. Na época de 2004/2005, projetando-se os resultados até então obtidos, se não o tivessem despedido, o Porto teria sido campeão. Seria campeão “ex aequo” com as restantes equipas, mas, mesmo assim, campeão. Os erros pagam-se caro e o Benfica acabou por ser campeão nessa época. Corremos sérios riscos ao despedir o José Peseiro. Ainda bem que contratámos outro treinador que é tão bom como ele. 

Com estes elogios todos, os comentadores não encontraram razões neste jogo para criticar o Marcel Keizer. Não estiveram bem. Não se pode aceitar que um treinador diga que prefere ganhar três a dois a um a zero e, depois, ganhe dois a zero sem sequer uma palavrinha para nos explicar porque é que preferiu este resultado ao seis a quatro que impõe a sua própria filosofia de jogo. Exige-se coerência aos treinadores entre o discurso e a sua prática.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Expetativas, realidades e perceções

Há o jogo, o pré-jogo e o pós-jogo. A forma como vemos o jogo é determinado pelas expetativas que se constroem antes de acontecer em debates e noutras discussões. A forma como avaliamos o resultado do jogo é determinado pela narrativa durante o jogo e pelos seus comentários finais, em conferências de imprensa e nas mais diversas análises. Quase nunca nos damos conta da forma como somos condicionados e é condicionada a opinião pública em geral. O jogo contra o Porto foi um destes casos de condicionamento. 

[Oops, afinal éramos candidatos ao título e não nos tinham avisado] 
Se fosse pelo pré-jogo nem era necessário o jogo. O Porto vinha de dezoito vitórias consecutivas. O Porto é o campeão em título e o principal candidato esta época. O Porto vai à frente destacado e nada nem nenhuma outra equipa se lhe pode chegar. O Porto tem muito melhores jogadores. Não existe ninguém que igualhe o Sérgio Conceição no campeonato nacional, podendo optar por diferentes estratégias todas elas vencedoras, jogando mais na expetativa e explorando as costas da defesa, pressionando mais à frente ou massacrando em ataque continuado. Acabado o jogo verificamos que o Sporting é que perdeu dois pontos, apesar de continuar aos mesmos pontos de distância do Porto. Afinal, o Sporting era candidato ao título antes do jogo e deixou de o ser depois. O Porto nem sequer viu o Benfica aproximar-se na pontuação, nem desaproveitou a oportunidade para deixar o Sporting a onze e o Braga a oito pontos. 

[Oops, afinal o “Treinador Português” é estrangeiro] 
O Marcel Keizer é um menino perante o “Treinador Português” que sabe como ninguém condicionar os jogos dos adversários e em particular dos estrangeiros. O Sérgio Conceição tinha uma estratégia de condicionamento do jogo de Marcel Keizer. Antecipando, o Marcel Keizer fez de “Treinador Português” e o Sérgio Conceição andou aos papéis durante a primeira parte, dado que vive do condicionamento do jogo do adversário à procura dos seus erros e não da imposição do seu jogo ofensivo em ataque continuado. Afinal, sempre é verdade que o que é verdade hoje é mentira amanhã e vice-versa, tendo-se concluído o óbvio que quem procura condicionar o jogo do adversário acaba por condicionar o seu jogo ao mesmo tempo. [Aqui para nós, ao Marcel Keizer só lhe faltou o arrojo de voltar a ser o Marcel Keizer na segunda parte, metendo dois extremos (Raphinha e Jovane), quando o Sérgio Conceição adiantou os laterais, voltando a deixá-lo aos papéis] 

[Oops, afinal não contam os golos o que conta é a atitude] 
O Sporting jogou para não perder e o Porto para ganhar. O Marcel Keizer pensou em si próprio e não no interesse da equipa. O Sporting criou seis oportunidades de perigo e o Porto duas. Verdadeiramente, só houve uma oportunidade de golo quando o Bas Dost completamente isolado e enquadrado com a baliza cabeceou ao lado. O Sporting rematou mais vezes à baliza. O Sporting fez mais remates enquadrados, como agora se diz (durante noventa minutos o Porto só fez um e com a rótula do Soares). O Sporting teve mais cantos. As equipas equilibraram a posse de bola e o número de passes. Mas o que conta, o que conta mesmo é a atitude, vá-se lá saber o que isso é. Isso e estar quase a definir bem, como afirmou o Sérgio Conceição, enquanto nós nos íamos lembrando do Diaby ao mesmo tempo que desejávamos que fosse para o Porto onde, pelos vistos, as suas qualidades são muito apreciadas. 

[Oops, afinal a fruta é nossa] 
Na arbitragem, há erros de facto (foras-de-jogo, bolas que passam as linhas de jogo ou de baliza) e erros de interpretação (genericamente, as faltas). Em Portugal, analisam-se os segundos como se fossem os primeiros. Os segundos têm sempre uma forte componente de subjetividade por definição (uma interpretação é uma interpretação), a maior ou menor intensidade, o jogou a bola ou não, o cortou lance de perigo, a negligência ou a imprevidência e por aí fora. Se dispõem dessas características, deve, então, ser analisada a coerência do árbitro na sua análise durante o jogo, e não caso a caso, para se concluir sobre parcialidade. O Bruno Fernandes cortou um ataque do Herrera e devia ter levado amarelo. Devia ter sido expulso? Não. Aos dez minutos o Herrera levou amarelo depois da sua quarta falta, três delas sem bola. Se fosse aplicada ao Herrera a mesma interpretação que foi aplicada ao Jéfferson na sua primeira falta, então não estaria em campo quando o Bruno Fernandes fez a falta e, portanto, não a faria ou, pelo menos, não a faria sobre o Herrera. Vamos mesmo assim admitir a segunda hipótese. Se, no primeiro amarelo, aplicasse ao Bruno Fernandes a mesma interpretação que aplicou ao Soares num lance semelhante, então não veria depois o segundo amarelo mas o primeiro. Há um pormenor: o Herrera não foi expulso na segunda parte, depois de uma chapada ao Bruno Fernandes, aparentemente por compensação. De acordo com o que veio nos jornais, fomos gamados mas ainda devemos estar agradecidos, é isso, não é?!

domingo, 13 de janeiro de 2019

E agora algo completamente diferente (será?)


O campeonato português (não confundir com futebol português) é uma criação artificial para os três grandes poderem competir.  Cada década – digamos assim –  lá vai tendo um quarto grande, mas o restante é para encher. Como geógrafo (de formação) poderia avançar várias razões que sustentam essa centralização primordial, mas não é esse o ponto principal deste texto. Deixo, no entanto, dois exemplos que credenciam a competição do campeonato português: recentemente o Aves recebeu o Feirense com cerca de 800 adeptos nas bancadas; o Belenenses SAD (é assim que se chama?) costuma jogar no Jamor acompanhado de alguns observadores de pássaros e dois ou três reformados da segurança social. A primeira liga é isso.

Isso, e a luta pelo poder. Nos anos oitenta do século XX, com a democracia ainda a braços com a instrução primária, o FCP foi o primeiro a ver mais longe as possibilidades de um profissionalismo a reboque da cacicagem que por todo o lado proliferava, de mão estendida e sem rei nem roque. Um tipo lê o Eça e o Camilo e consegue perceber bem o ninho disto tudo. Ainda hoje os Super Dragões fazem algumas visitas sociais a estabelecimentos comerciais de árbitros (e não só) para recordar esses velhos tempos. Foi nessa altura que a dieta mediterrânea se projetou definitivamente através do consumo generalizado de fruta.

O Sporting foi o primeiro a pagar as favas do consumo exagerado de frutas (e algumas leguminosas), indo a banhos, sujeitando-se a alguns internamentos para tratamento do fígado e da coluna vertebral, maleitas que ainda hoje lhe causam náuseas e dores de cabeça. O Benfica chegou mais tarde ao buffet, apercebendo-se que não era apenas desafiado como também derrotado. Perigosamente derrotado. Depois foi ainda mais longe no conhecimento do “pensamento” português, criando uma rede de esgotos que desagua (depois de tudo) apenas no leito de Paulo Gonçalves. O homem tem costados largos.

No meio disto tudo, o Sporting, além das maleitas e internamentos, divertia-se em querelas internas, entre viscondes, salvadores, visionários, e seus seguidores. Tudo gente de bem. Ou Quase. Com as toupeiras e emails, o vento mudou de feição, mais uma vez não nos calhando em sorte. O resto são cantigas.

Basta atentar no jogo de ontem. Para além do nosso treinador ter mudado o chip, o que até confundiu o herdeiro de Aécio, perdão, o herdeiro do mestre JJ da táctica, Sérgio Conceição, percebendo-se que o nível de exigência esbarra sempre numa desculpa qualquer, o que também saltou à vista desarmada foi a dualidade de critérios que condicionou imediatamente o jogo, perpetrada por um tipo do apito absolutamente medíocre, como se impõe. As sarrafadas são sempre vistas em perspetiva dinâmica consoante as cores que os jogadores vestem. A quantidade de vezes que o jogo é interrompido ao ritmo das faltas assinaladas deverá constituir motivo de estudo e reflexão, principalmente nas casas de pasto de referência.   

Parafraseando (com algum exagero) um amigo meu que ontem citei nos comentários: o Porto é um Tondela mais técnico e com melhor mercearia. Sérgio Conceição é uma mistura entre Pepa e o Jaime Pacheco, mas com outra pinta. É exagero, mas a escola do Paulinho Santos e arredores ainda dá cartas, através da intensidade criteriosa, entre outros eufemismos, imposta pelo seu (herdeiro do mestre da tácita) treinador. Ele que vá treinar o Sporting para perceber o que é intensidade. Aposto que era logo campeão. E sem contratações, como o ano passado fez no fêcêpê.

sábado, 12 de janeiro de 2019

O futebol sem riscos é uma chatice e sem ética uma vergonha

Vi o jogo contra o Porto, ouvi as conferências de imprensa do Marcel Keizer e do Sérgio Conceição e, sem estar à espera, ouvi o discurso do Rui Rio em resposta ao desafio à liderança do PSD de Luís Montenegro. É bastante mais divertido disputar um jogo contra um adversário do que qualquer disputa interna. Como concluiu Rui Rio, citando o inevitável Sá Carneiro, “a política sem risco é uma chatice e sem ética uma vergonha”. Substituindo o sujeito, o futebol deste jogo também deve ser analisado pelo lado do risco e pelo lado da ética. 

O Marcel Keizer colocou a equipa a jogar à Jorge Jesus. Um pouco mais recuada, a jogar longo na frente para a cabeça do Bas Dost, e com o meio-campo a subir nesses momentos para procurar ganhar a segunda bola, ou no Diaby, condicionando o jogo pelo lado esquerdo do Porto, onde o Alex Telles não se viu na primeira parte. Esta forma de jogar não deu resultados ofensivos por duas razões: foi quase sempre marcada falta nas bolas divididas ganhas pelos jogadores do Sporting e o Diaby nos lances de perigo que construiu definiu sempre mal, como agora se diz. Defensivamente, a primeira parte foi um passeio. O Porto não fez um remate à baliza. O Porto é uma equipa que joga em pressão permanente sobre os adversários, procurando tirar proveito dos erros que tal atitude possa originar. O jogo mais direto do Sporting impediu essa pressão e com a bola disponível para construir jogadas de ataque revelou todas as suas deficiências, não criando um lance de perigo nem estando sequer perto disso. 

Na segunda parte, o Sérgio Conceição tentou meter o Alex Telles no jogo. Colocou o Brahimi mais por dentro e esticou o Alex Telles no lado esquerdo, apostando e colocando mais em jogo os dois jogadores que constituem os principais pontos fortes da equipa. Criou assim dois efeitos- surpresa, ganhando profundidade na esquerda e um apoio central aos avançados. O Sporting ficou perdido durante quinze a vinte minutos, tendo muita dificuldade em perceber o que lhe estava a acontecer. Terminado o efeito surpresa o jogo equilibrou-se por si sem que o Marcel Keizer tenha procurado mexer na equipa como se esperava, sobretudo com a entrada do Raphinha para acabar de vez com as brincadeiras no lado direito da equipa, dado que o Diaby andava perdido em campo. Com as duas equipas de rastos, os últimos minutos foram de doidos: perdas de bola de um lado e do outro, seguidas de contra-ataques de um lado e outro também. Com o apito final o árbitro impediu que alguns deles ainda acabassem por explodir em campo tal era a dificuldade que tinham em respirar depois das correrias. 

Na primeira parte, o Sporting construiu duas jogadas de perigo, a primeira com o Nani a rematar quase na pequena área e a bola a embater nas pernas de um defesa por mero acaso, a segunda com o Bas Dost a fazer um passe ao Casillas quando estava isolado à entrada da área, e o Porto nenhuma. Na segunda parte, o Porto tem duas jogadas de perigo, a primeira com o Soares a procurar rematar com o pé direito, batendo-lhe a bola no joelho da perna esquerda para boa defesa do Renan Ribeiro, e a segunda com o Marega a rematar dentro da área do lado direito para as nuvens, e o Sporting quatro, a primeira com um centro do Nani que o Militão cortou com o joelho sem saber bem como quando o Bas Dost se preparava para empurrar a bola, a segunda com um bom remate do Bruno Fernandes que o Casillas defendeu, a terceira com outro bom remate do Gudlej que o Cassilas voltou a defender, e a quarta com o Bas Dost completamente isolado a cabecear ao lado. 

No futebol não se ganha ou se perde com estatísticas, táticas ou intenções. Ganha-se com golos que constituem o objetivo do jogo. Quem marca mais golos merece sempre ganhar porque ganhar e merecer ganhar são uma e a mesma coisa. Os treinadores desenharam estratégias potenciando pontos fortes das suas equipas e aproveitando os pontos fracos do adversário. Os jogadores fizeram por cumprir o que lhes foi pedido e deram o que tinham para dar e um pouco mais. Quem viu o jogo não deu o tempo por mal empregue e, por isso, não houve chatice porque houve risco, calculado, mas houve. 

Aos dez minutos o Herrera viu amarelo depois da quarta falta, três delas sem sequer disputar a bola. Pelo critério que o árbitro adotou relativamente ao Jéfferson por muito menos um pouco mais tarde, o Herrera devia estar com três amarelos mal o jogo se tinha iniciado. As duas primeiras faltas dos jogadores do Sporting resultam de duas disputas de bola em que nenhum dos jogadores dispõe do seu controlo e ganha aquele que é mais forte (veja-se, por comparação, o inicio da jogada que dá origem à mais relevante jogada de perigo do Porto que originou a defesa do Renan Ribeiro). A primeira parte tem diversas situações destas. O Sporting, que apostava no jogo em profundidade e na disputa da segunda bola, viu assim impedida a sua estratégia. A equipa do Porto, muitas vezes mal posicionada, pôde cortar lances sem disputar a bola, nada acontecendo em termos disciplinares aos seus jogadores e não os condicionando na disputa de lances futuros. A cereja em cima do bolo nem sequer foi o referido amarelo do Jéfferson. Numa disputa do lado direito, o Bruno Gaspar chega primeiro e o Soares acaba por entrar a destempo, acertando-lhe, sendo marcada a falta sem qualquer sanção disciplinar. No outro lado do campo, o Corona chega primeiro à bola, o Bruno Fernandes entra a destempo também e acerta-lhe (?), sendo marcada a falta e punido o jogador do Sporting com amarelo. Ao fim da primeira parte, os jogadores das duas equipas tinham o mesmo número de amarelos e a estratégia do Sporting tinha sido condicionada pelas faltas nas disputas das segundas bolas e pelas faltas sem bola dos jogadores do Porto. 

Esta arbitragem não foi como a do Tondela. Foi mais insidiosa. Condicionou o jogo e o seu resultado sem o determinar diretamente. Aparentemente, são aplicadas as regras do basquetebol na disputa dos lances à equipa do Sporting e às outras equipas as regras do “rugby”. No futebol português, nem ética nem vergonha. Por isso não vale a pena esperar nada desse lado. Agora, do nosso lado, convém termos noção dessa falta de ética e de vergonha. É que quando as regras são diferentes não faz sentido andarmos sempre a falar da atitude ou da falta dela, como se só o Sporting é que tivesse azar na escolha dos jogadores. A propaganda vive da semântica. Expressões como combativo, raçudo ou violento rimam melhor com certas camisolas do que com outras. Como referi inicialmente, é preferível sempre qualquer disputa com os adversários a qualquer disputa interna.

Correu bem


Ainda bem que não precisávamos de ganhar...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Self-fulfilling prophecy

Vá-se saber porquê (é um simples exercício de retórica porque todos sabemos) instituiu-se que o Marcel Keizer estava sob escrutínio em todos os jogos tendo como referência o “Treinador Português”, essa figura mítica só equiparável à do Adamastor. Esse escrutínio funciona só para um dos lados. Quando ganha e o adversário leva para casa um cabaz conclui-se que não se pode concluir porque o teste não era para levar a sério. Quando perde, nesse caso sim, existem todas as condições para se afirmar que o “Treinador Português” é dado a elucubrações táticas que não estão ao alcance de um holandês na crise da meia-idade, como se nota pela sua evidente insuficiência capilar (daqui até se afirmar que o “Treinador Português” é produto da melhor escola tática do Mundo vai um passo que se dá logo em seguida). Como nenhum treinador ganha sempre, constrói-se com toda a facilidade uma profecia autorrealizável (o conceito de “self-fulfilling prophecy” que origina o título deste “post”). 

O Marcel Keizer foi ganhando jogos atrás de jogos e enfiando cabazadas atrás de cabazadas. Se não era do dito cujo era das calças e, portanto, nada se podia concluir, havendo sempre um sinal de alerta, que tanto podia ser um golo sofrido como o excesso de golos marcados, que nos devia deixar de sobreaviso para a próxima. No jogo de Guimarães começou-se a cumprir a profecia, mas como o Luís Castro tem ar de quem toma banho todos os dias e as suas equipas jogam futebol não constitui propriamente o protótipo do “Treinador Português”. O jogo contra o Tondela foi o teste do algodão: um treinador patusco e uma equipa que defende com se estivesse em causa a sua própria vida e não houvesse amanhã e a jogar no Portugal profundo inventado pelo António Ferro, que constitui o repositório das virtudes nacionais, profusamente divulgadas nos meus livros da escola primária. 

Vai-se assistindo ao jogo enquanto se escutam os sábios comentários da SporTv. Tudo o que se vê tem um propósito e obedece a uma lógica que não está ao alcance dos espetadores que não percebem porque não estudaram o suficiente obras fundamentais como “A Bola”, “Record” e “O Jogo”. Uma biqueirada para a frente sem nexo rapidamente se transforma num modelo de jogo que privilegia a profundidade e o espaço concedido nas costas da defesa. Uma série de sarrafadas e de faltas é-nos explicada como elevada intensidade de jogo. A colocação de um pino na frente resulta de uma aposta na fixação dos centrais e na criação de dificuldades na transição ofensiva do adversário. São-nos enumeradas qualidades de jogadores de quem nunca se ouviu falar, embora por vezes se troquem os nomes e as posições porque a cábula não estava bem feita. Esta narrativa só precisa do resultado para se legitimar. Se os pernetas ganham, está encontrada a explicação para a vitória que nos foi sendo contada durante o jogo (não é por acaso que se regista uma enorme consternação nos comentadores quando acontece qualquer reviravolta no resultado). 

As estatísticas do jogo do Sporting contra o Tondela são absolutamente extraordinárias e mais ainda no que respeita à equipa visitada: 179 passes, com 56,0% de eficácia, 24 faltas (e outras tantas por marcar) e 28,0% de tempo de posse de bola. Os dados são esclarecedores: a cada dois passes o Tondela perde a bola, o número de passes é cerca de metade de qualquer outra das piores equipas nesta jornada, há jogadores que acertaram mais vezes no adversário do que na bola (relativamente ao jogador que foi expulso, o segundo amarelo resultou da sua sexta falta em pouco mais de vinte minutos de futebol corrido.). Aparentemente é a isto que se chama uma tática à “Treinador Português”. Não houve tática nenhuma nem sequer futebol. O que se assistiu foi a uma batalha campal com a complacência do árbitro em que a bola só serviu para sinalizar o adversário a quem se iria arrear em seguida. 

Nada disto retira responsabilidades à equipa do Sporting e aos seus jogadores e treinador. Tinham obrigação de saber o que os esperava. Era um daqueles jogos em que não se pode entrar mal e, pior ainda, permitir de forma desleixada o primeiro golo do adversário, dando ânimo e agravando as condições difíceis de partida. É preciso saber reagir em conformidade e não desistir. É duro, percebo bem. Levar, voltar a levar e levantar-se uma e outra vez, não valendo a pena protestar porque a quem se podem dirigir os protestos não está para os ouvir. Imagino que seja quase cruel para um Coates assistir a tudo isto e a saber que não pode responder na mesma moeda. As alterações táticas do Marcel Keizer mais não revelaram do que lucidez ao verificar o que se passava à sua frente: quando não se joga futebol, não se pode querer ganhar a jogar futebol porque o jogo não é esse. Também não vale a pena fazer o contrafactual na constituição da equipa e nas substituições, sob o risco de se elogiarem qualidades de jogadores que não vimos jogar e se discutir se é preferível jogar com um coxo ou um cego. 

O que me está a preocupar no Marcel Keizer não são os resultados. O que me está a preocupar é que há indícios de se estar a aculturar e de se querer transformar no “Treinador Português”. Espero que o Marcel Keizer não passe a ter medo de ser o Marcel Keizer. A bola parece sair cada vez mais pelas laterais, pelos defesas ou em passes destes para os extremos diretamente, quando nos primeiros jogos a lateralização servia simplesmente para abrir o jogo e fazer voltar a bola ao meio por onde deve andar. Os extremos estão mais abertos, jogando menos por dentro e estando mais longe quando se perde a bola, reduzindo a sua capacidade de recuperação em pouco tempo. Também por isso, a pressão à saída da bola do adversário começa a ser insuficiente e a defesa, na dúvida, joga mais atrás, deixando mais espaço ainda que o meio-campo e, especialmente, o Gudelj preenchem mal. Ninguém no seu perfeito juízo pede mais ao Marcel Keizer do que bom futebol e o crescimento de alguns jogadores que possam constituir uma boa equipa para os anos que vêm. Não há que ter medo, ainda para mais no Sporting onde nem sequer há medo de se ser feliz porque, no fim, quase sempre se é infeliz, como provaram (na própria pele) vários treinadores como o Mirko Jozić, vítima de árbitros plenos de azia e do tal “Treinador Português”.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

A derrota contra as hordas lideradas pelo Shaka Zulu das Beiras

Este fim-de-semana vi uma pequena reportagem sobre o Estrela da Amadora x Belenenses para os campeonatos distritais: estádio cheio e alegria de quem vai para uma festa com os seus, os que vestem a mesma camisola e constituem por isso a sua comunidade. Lembrei-me dos meus fins-de-semanas há uns anos em Cabeceiras de Basto quando ia ver os jogos do São Nicolau, onde jogavam os meus sobrinhos. As pessoas aglomeravam-se à volta do campo, não havendo bancada. Cada fiscal de linha ficava a um sopro dos espetadores. O jogo iniciava-se e iniciava-se um ritual que envolvia muita biqueirada para o ar, caneladas sempre que possível e insultos, muitos insultos ao árbitro e aos fiscais de linha, enquanto dois GNR passeavam a sua autoridade. Ao intervalo o café, cujo dono era o presidente do clube, enchia-se para as cervejolas da ordem, ficando muitos espetadores a ver a segunda parte das janelas ou da varanda.  

A equipa era patrocinada por um primo, empresário bem-sucedido, que vivia em Braga e se deslocava também aos fins-de-semana para ver estas partidas. Ao fim dos jogos, era frequente os árbitros irem para uma das casas da família comer umas chouriças assadas e beber umas malgas de vinho verde tinto ou de vinho maduro, para os mais finos. Era um momento extraordinário. Contavam-se as histórias mais mirabolantes dos jogos e das arbitragens. Ao princípio, a minha cabeça cosmopolita não percebia o interesse desse primo em patrocinar a equipa e os jogos. A pouco e pouco fui percebendo que o interesse era o ritual: o regresso à terra onde se nasceu, o convívio com os amigos, as conversas infindáveis sobre jogos dos sobrinhos e deles quando tinham a mesma idade. Os campeonatos distritais servem para a preservação de identidades e a construção de comunidades de destino, permitindo que o encontro com o outro e a festividade sejam um fim em si mesmo. 

Sou de Viseu e conheço bem Tondela. Faz parte de uma rede de pequenos centros urbanos que rodeiam a capital de distrito, como São Pedro do Sul, Nelas, Mangualde, Castro Daire, Sátão ou Penalva do Castelo. O clube local constitui uma das muitas improbabilidades de que o campeonato está repleto. Hoje o Tondela, o Aves, o Moreirense ou o Feirense. Ontem o Leça, o Trofense, o Arouca, o Vizela ou o Fafe. São clubes que tanto podem estar nos distritais, e até desaparecer, como a jogar com os grandes de Portugal. Num país sem descentralização política e de tradição municipalista, assiste-se à descentralização desportiva e ao municipalismo futebolístico. O que caracteriza estes clubes é o mesmo que caracterizava do São Nicolau de tempos passados: o espírito dos distritais. 

Ontem, o Sporting foi jogar a Tondela com a mesma arrogância dos meus primeiros jogos do São Nicolau. A nossa equipa tinha uma tática e um modelo de jogo. A convocatória foi a afirmação dessa matriz tecnocrática do Marcel Keizer e, procurando pensar pela cabeça de um holandês, fazia todo o sentido. Ia-se jogar um jogo e quem jogasse melhor ganharia. Mas o Sporting não ia jogar um jogo. Ia, isso sim, desafiar o sentido de pertença e de comunidade materializado numa equipa de futebol, à qual lhe é indiferente jogar os distritais ou o campeonato nacional. Nunca percebi o interesse dos treinadores portugueses em congeminar táticas para bloquearem a forma de jogar do Sporting de Marcel Keizer. Bastava continuarem a ser como são. A tática é a do “abaixo do pescoço é canela” combinada com a da “bola para o mato que o jogo é de campeonato”. Os jogadores do Tondela fizeram por merecer todas as faltas que fizeram, marcadas ou não, e todos os amarelos que lhes foram mostrados (ou não). Liderados pelo atual Shaka Zulu das Beiras, o inigualável Ricardo Costa, e armados com paus, pedras, arcos e flexas e mocas, devastaram a defesa e o meio-campo adversário. Os meninos do Sporting e o Marcel Keizer só tarde e a más horas perceberam que não estavam a jogar um jogo mas a enfrentar uma guerra de guerrilha em cada centímetro do campo. Nestes jogos há árbitros e GNR mas é como se não houvesse. 

Também é verdade que tudo o que podia correr bem para o Tondela e tudo o que podia correr mal para o Sporting, correu. É injusto afirmar-se que, no primeiro golo, era preferível um pino ao Bruno Gaspar. Um pino ocupa pouco espaço e cai ao primeiro toque. A comparação adequada é com um bidão. Se em vez de estar o Bruno Gaspar estivesse um bidão na lateral direita, o jogador do Tondela teria chocado com ele e perdido a bola. No segundo golo e apesar da reincidência, se o jogador do Tondela soubesse fazer o que fez talvez estivesse num clube começado por tê, mas não seria o Tondela, seria Tottenham. E também é verdade que o modelo Keizer está a emperrar na disponibilidade física dos avançados. Para a defesa jogar mais adiantada, é necessário que os avançados e os jogadores de meio-campo reajam mais depressa à perda da bola e a recuperam mais depressa e o mais próximo possível da área adversária, que não está a acontecer desde o jogo de Guimarães. A recuperação relâmpago do Wendell tinha o objetivo de suprir esta deficiência. Mas é preciso mais do que isso. É preciso um seis que não se pareça com o Bruno Caires, como li ontem algures. 

O Marcel Keizer às páginas tantas percebeu o que estava a acontecer à frente do seu nariz, o que revela inteligência. A tentativa de colocar os centrais dentro da área é o reconhecimento de que não bastava a tática. Era preciso coração e o tal espírito de distrital. Só não se compreendeu bem a substituição do Nani que, naquela altura, parecia o mais lúcido e o mais experiente para ajudar a virar um jogo como aquele (porventura, terá sido mais uma questão física do que qualquer outra a determiná-la). Este reconhecimento do Marcel Keizer é sinal de inteligência. Mas mais inteligente seria mandá-lo dar umas voltas por este Portugal profundo para perceber os tondelas que lhe vão sair em sorte. 

Fiquei com uma única dúvida depois do jogo se concluir e do amarelo mostrado ao Acuña (num jogo em valeu tudo e mais um par de botas). Depois de acabar o jogo, onde é que os árbitros terão ido comer a chouriça assada e beber uns copos de Dão? O número de cartões amarelos e vermelhos mostrados ao Maxi Pereira constitui um indicador avançado das inclinações arbitrais. No Benfica, conseguia ter menos amarelos do que o nosso Rui Patrício. No Porto, começou por levar amarelos e vermelhos em barda, mas, atualmente, encontra-se com o registo idêntico ao de outros tempos. A outra explicação é o Benfica ter desistido definitivamente de lutar pelo título, concentrando as suas atenções no apuramento para a Liga dos Campeões.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Alexandra Solnado a falar em Código Morse

Ontem, contra o Belenenses, era o jogo de todos os perigos. Regularmente, jogamos sem defesa esquerdo. Já jogámos também sem o Nani, o Wendell ou o Bas Dost. Íamos, agora, experimentar jogar sem o Bruno Fernandes. Encontrávamo-nos na situação do puto que mostra ao pai como se anda de bicicleta, primeiro, sem pés, depois, sem mãos, e, por fim, sem nariz. A expetativa de nos estamparmos e ficarmos sem nariz era tudo menos negligenciável. Não sei se por essa razão ou pela referência do Silas, treinador da equipa adversária, ao trabalho (?) do José Peseiro, mas o pé do dito assombrou-nos o jogo todo. 

O início dos jogos em Alvalade começa a constituir um clássico. O treinador (português) da equipa adversária congemina uma tática que ou nos surpreende ou surpreende a sua própria equipa, transformando os primeiros quinze minutos numa autêntica montanha russa. Ninguém se admirou, assim, que as três primeiras jogadas de perigo fossem do Belenenses. Até que o Nani ganha uma bola mal atrasada de um defesa de cabeça, vai à linha de fundo e passa-a ao Acuña que remata com o pé que tinha mais á mão (o direito) para defesa impossível do guarda-redes. Um pouco mais tarde, depois de um lançamento longo, o Diaby tropeça na bola, tropeça em si próprio e nos seus pensamentos, tropeça num defesa, até tropeçar no guarda-redes quando se encontrava isolado. Quando o Sporting tinha começado a controlar o jogo e a empurrar o adversário para trás, esperando-se o primeiro golo, o Acuña teve uma súbita paragem cerebral e num passe suicida para o meio isola um avançado do Belenenses que vai numa correria louca com o Coates no encalce até se desintegrar e chutar contra o poste, depois do Renan Ribeiro simular a saída, hesitar, escorregar, levantar-se e voltar a atirar-se para o chão a fingir que se fazia à bola para não fazer má figura. Para demonstrarmos que não precisávamos de ajuda de ninguém para o mesmo efeito, respondemos de imediato com uma triangulação notável entre o Diaby, o Nani e o Wendell, concluída com remate do segundo ao poste.

O 3x5x2 do Belenenses que se tinha vindo a transformar num autocarro, estacionou de vez na segunda parte, não se registando nenhuma saída para o ataque ou contra-ataque em condições. O Sporting tentava pressionar alto, mas os jogadores do Belenenses conseguiram sempre, com maior ou menor dificuldade, não perder nenhuma bola próximo da sua área. A insistência era inversamente proporcional à imaginação pelo meio e aos desequilíbrios nas laterais e, assim, o Bas Dost nem a bola cheirava, entalado como estava entre três centrais. Mas, há sempre um mas, por uma vez o Gudelj decide fazer um passe para a frente, o Nani recebe a bola e passa-a de primeira para o Diaby que, à entrada da área, a segura enquanto vai chamando pelo Bruno Gaspar. Chamou uma, chamou duas, até que à terceira lhe enviou uma mensagem por WhatsApp: “Bruno, não te importas de te desmarcar pelo lado direito para te passar a bola. Era um favor que me fazias. Atenciosamente, Diaby”. Por educação, o Bruno Gaspar correspondeu ao pedido e concluiu a jogada, seguindo as orientações que lhe tinham sido transmitidas na primeira parte pelo treinador quando o chamou ao banco de suplentes para lhe dizer: “se não sabes fazer um centro ou um remate, então faz um centro-remate” (o André Almeida tem vindo a desenvolver esta técnica com resultados assinaláveis, valendo-lhe candidatura para Prémio Puskas). Como se viu em “slow motion”, a forma hábil como pontapeou a bola por baixo e do seu lado direito permitiu que ganhasse um tal efeito que tanto se podia considerar um passe para a barriga do Miguel Luís ou a cabeça do Bas Dost, que estavam mais à frente, como um remate dirigido à cabeça do defesa para nela a bola tabelar e entrar junto ao poste mais longe. 

Depois do um a zero e das obrigatórias substituições do Nani e do Wendell, que se encontravam por um fio, o Marcel Keizer resolveu aproveitar o trabalho do José Peseiro, como tinha vaticinado o Silas. A equipa ficou como um tolo no meio da ponte: não sabia se devia atacar e fechar o resultado ou defender o um a zero. O público de Alvalade, experiente, sabendo que o perigo estava ao virar da esquina, insistia para que se continuasse a atacar. Tanto insistiu que, depois de receber a bola à entrada da área e da cerimónia da defesa do Belenenses, o Miguel Luís enfiou-lhe uma pantufada que só parou dentro da baliza, deixando o seu avô lavado em lágrimas, como se soube mais tarde. O dois a zero é um resultado perigoso e mais perigoso é quando se trata do Sporting. O Gudlej continuava a perder bolas e a marcar os adversários com o olhar (ao menos que faça como o Jonas e lhes atire os atacadores das chuteiras às fuças, como relatou a SporTv no jogo do Benfica contra o Portimonense). Sem pressão, os defesas e os médios do Belenenses tinham todo o tempo e espaço do mundo para meter a bola nas costas da defesa para as diagonais dos avançado e, num desses lançamentos, o Licá ficou isolado do lado esquerdo. O Coates ainda correu para a defesa mas, vendo que se tratava deste internacional português e que o Mathieu se encontrava por perto, desistiu e quando acordou para a vida era tarde. O Licá, depois de se atrapalhar, acabou por passar a bola para dois ciclistas que vinham a toda a brida, o primeiro rematou para defesa do Renan Ribeiro, acabando o segundo por fazer a recarga para o dois a um, cumprindo a máxima do nosso treinador: o jogo não é jogo se não sofrermos pelo menos um golo.

Tudo está bem quando acaba bem, seria este o final deste jogo e desta crónica. Mas eles andam por todo o lado. Infiltram-se onde menos se espera. Saindo debaixo da terra, como de costume, um deles perguntou ao Marcel Keizer na conferência de imprensa se o despedimento do Rui Vitória podia produzir o mesmo efeito do despedimento do José Peseiro. O homem, em vez de responder com o correspondente: “O que é que tenho a ver com essa m****?!”; disse umas coisas que nem ele próprio percebeu, enquanto se esquivava de uma insistência por palavras ínvias. 

O Benfica, sempre o Benfica. Na televisão, o despedimento do Rui Vitória foi analisado como se tratasse da votação no parlamento inglês do acordo do Reino Unido com a União Europeia para o Brexit. Depois de uma noite de insónia, o Luís Filipe Vieira viu uma luz e prometeu ao Rui Vitória que não o despediria. Foi a fé que o iluminou. As religiões foram construídas a partir deste tipo de enigmas (ou de milagres, na linguagem mais canónica). Os textos sagrados estão repletos de relatos como este (quem não se lembra da epopeia de Melchior, Baltasar e Gaspar sem ajuda do Google Maps). A fé não se explica. Ou se tem ou não se tem, ou se é racional ou se tem fé (ainda se pode admitir que depois de atos racionais sem sucesso se possa ter que confiar na fé, mas nunca o contrário). Não se pode vir um dia metaforicamente afirmar que se falou com Deus para dias depois se corrigir, fazendo de conta que tudo não passou de um simples engano e a luz se tratava da Alexandra Solnado com uma lanterna a tentar comunicar em Código Morse. Espera-se adequado comunicado da Santa Sé ou, pelo menos, do Patriarcado de Lisboa. Da Associação Nacional de Treinadores espera-se tanto ou mais. Depois de uma promessa destas, não se compreende que se despeça um treinador à falsa fé.