quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Pior do que fumar

Acabámos de ganhar a Taça da Liga. No próximo fim-de-semana jogamos contra o Benfica. Ficávamos com uma semana para nos prepararmos para o “derby” enquanto enfiávamos uma outra alfinetada aos portistas e benfiquistas. Era mesmo necessário este jogo contra o Setúbal? Esta não era a semana perfeita para ficarmos refastelados em casa a ver o Barão Negro sem mais esta maçada? São questões que deixo para discussão, embora tenha a minha opinião formada, parecendo-me que os jogadores do Sporting têm a mesma. 

Sofremos um golo na primeira parte o que pode parecer um hábito mas não é: nos jogos fora de casa, há vinte e uma jornadas que sofremos pelo menos um golo e, portanto, não é um hábito, é um vício, como fumar. Faz mal mas não conseguimos parar, é compulsivo, é mais forte do que os jogadores e o Marcel Keizer (como antes o Jorge Jesus e o Peseiro). Este vício não afeta todos da mesma maneira. Para nós, adeptos, é pior sofrer um golo em todos os jogos fora do que fumar. Para os jogadores não é bem assim, sendo preferível para a sua saúde que não fumem mesmo que sofram uns golos aqui e acolá. 

Comecei a ver o jogo na segunda parte. O Doumbia ganhou uma bola ao Rúben Michael e leva uma trancada sem bola. O Raphinha ganha nas costas de cabeça de um defesa, a bola bate-lhe na mão (involuntariamente) e, na dúvida, o árbitro marca falta contra o Sporting e mostra uma amarelo ao Rúben Michael, pela falta anterior sobre o Doumbia imagina-se, e outro ao Bruno Fernandes, porque sim, porque tem poucos. Logo a seguir um jogador do Setúbal enfia uma cotovelada na cabeça do Ristovski, que lhe fez crescer um galo pica no chão de imediato, e o árbitro expulsa o jogador do Sporting (por palavras, em macedónio, presume-se, presumindo-se ainda que lhe tenha pedido para chamar o Varandas e como o Varandas não queria vir e não queria também ser assistido fora do campo, o árbitro o tenha expulsado por razões humanitárias). Era sobre isto que falaram o Luís Filipe Vieira, o Abel e o Salvador? Se houver também algum avençado envolvido neste jogo não se esqueçam de nos avisar para o despedirmos. 

O Marcel Keizer meteu o Nani e o Bruno Gaspar e tirou o Raphinha e o Doumbia. Mais tarde, meteu o Luiz Phellype e tirou o Petrovic. O jogo, bem, o jogo continuou, isto é, de um lado dez, do outro lado onze, servindo a bola de pretexto para o apito. Um tal de Mikel fez falta para segundo amarelo sobre o Nani e os comentadores sublinharam que ele arrisca muito, quando não arrisca nada, porque bate mas não fala em macedónio com a camisola errada e um alto na cabeça. Os jogadores do Sporting ainda levaram mais uns amarelos para aprenderem (o do Luiz Phellype só pode ser para rir). O árbitro fez tudo e mais um par de botas, chegando a suspender no tempo dois lances de perigo, um por fora de jogo que ninguém viu quando o trapalhão do guarda-redes saiu da baliza aos papéis e o Diaby ficou com a baliza aberta e outro por jogo perigoso (para o Setúbal, admite-se) do Luiz Phellype, quando a bola sobrou para a entrada da área onde estava isolado um jogador do Sporting pronto a rematar. Pelo caminho, o Bas Dost marcou um golo. 

Este jogo serviu exatamente para quê? Para vermos futebol? Para os jogadores disputarem um jogo? Serve de pretexto para o árbitro ter um emprego? A SportTv consegue que alguém lhe pague para ver isto ou as transmissões servem para criar conteúdos para o canal do Inácio? Sei as respostas todas. As perguntas são um simples exercício de retórica. Não nos venham é falar da falta de atitude dos jogadores do Sporting e da técnico-tática do holandês como se tudo fosse normal. Ver o Sporting é um vício. Faz mal mas nós, adeptos, não conseguimos parar. Um dia, aplicaremos uns adesivos, e vai-nos passar. Será um momento de libertação para nós e para o futebol português.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Há VAR e BAR, há ir e voltar


A chegada de Keiser despertou as luminárias da bola, todas elas versadas em futebol holandês e croissants amanteigados. Com as primeiras vitórias o desassossego instalou-se (Bernardo Soares escreveu sobre isso), e tiveram que se arranjar duas ou três explicações para o fenómeno enquanto se entrevistava Jorge Jesus algures no médio oriente. Após as primeiras derrotas, um dos analistas avançou com um ou dois pensamentos que fizeram escola no liceu de Carrazeda de Ansiães: nas vitórias os oponentes eram fracos, nas derrotas os oponentes eram consideravelmente superiores. Por exemplo, o Tondela. Do lado dos fracos ficava o Rio-Ave, a mesma equipa que o analista havia elogiado pouco tempo atrás como grande candidata ao quinto lugar. Em Carrazeda, duas teses de finalistas explicam em dezoito páginas esta linha avançada de pensamento.

Entretanto, uma convenção de treinadores portugueses reunia-se para discutir o calendário do cozido à portuguesa nos estágios e a importância das chicotadas psicológicas num curriculum vitae que se preze. José Mota foi um dos oradores mais aplaudidos. Lito Vidigal e Jorge Simão terão sido vistos a trocar papelinhos suspeitos. Conceição dissertou sobre bipolaridade: uma coisa é quando se ganha, outra quando se perde. Aplausos. Este debate foi seguido com muita atenção por todo o país.

Mais ou menos por essa altura, talvez um pouco antes, um conhecido dirigente terá visto a luz. Primeiro ainda se pensou que este iria a caminho do estádio com o mesmo nome, mas não, estávamos apenas a entrar num território bem conhecido do futebol português: o espiritismo. Quem diz espiritismo diz mezinhas, bruxaria, capelinhas, ou apenas feelings. Talvez seja por isso que o treinador contratado de seguida pelo dirigente que viu a luz, seja um expert em feelings. Tudo coisas que um treinador holandês, não possui, nem nunca possuirá, obviamente. A associação de treinadores portugueses que vão para os jogos de motorizada, aplaudiu com agrado.

Se possível fazer golos. Foi mais ou menos assim que Abel Ferreira lançou o jogo da meia-final da taça da liga contra o Sporting. Ainda não se descobriu outra forma de ganhar jogos, mas Abel, ainda assim acrescentou: e se possível não sofrer. Diz isto em todos os jogos, e apostamos que nas convenções de treinadores portugueses também, mas é sempre bom escutar estes pensamentos. Como já se sabia que o Braga ia à final, embora tivesse que marcar mais golos que o adversário, ficava apenas em suspenso quem seria o oponente. Salvador, lá no íntimo (como muitos bracarenses) preferia o Benfica, mas a conduta do dirigente que tinha visto a luz ao ir buscar dois jogadores ao Leixões com quem o Braga tinha (supostamente) acordo, deixou Salvador triste. Embora traído reagiu com elevação, à imagem do ano passado quando a altercação era com BdC e o Sporting.

Depois aconteceu aquilo: o VAR foi ao BAR, ou ao contrário, existem várias versões. Registe-se a conduta digna, urbana e elevada dos dirigentes mesmo na derrota. Um dos árbitros decidiu até auto suspender-se por se achar indigno de acompanhar tão ilustres personagens. Entregou-se a taça ao Porto, com o jogo da final a servir apenas de consagração. Sérgio Conceição apelou (sem se rir) ao desportivismo e contenção relativamente aos árbitros. As favas contadas chegaram a uns colegas meus de trabalho. Antes do jogo já estava três a zero. Chegou o dia e foi o que se viu e se poderá ler na excelente posta anterior do Rui. No final, destaque-se, mais uma vez,  a conduta digna e elevada, tanto de treinadores como de dirigentes do Porto. A nova modalidade de lançamento de medalhas avançará inexoravelmente rumo às olimpíadas. Está tudo na nova dissertação de Conceição aos peixinhos, perdão, aos treinadores portugueses. O mestre Madureira, da claque, também estará presente. Por via das dúvidas.  

domingo, 27 de janeiro de 2019

Keizerismo-Leninismo

Contra o Braga foi assim e contra o Porto ainda havia mais razões para assim ser: o jogo era uma formalidade. Os primeiros cinco minutos pareciam confirmar essa profecia. O Porto pressionou, pressionou, ganhou bolas atrás de bolas e parecia que não havia maneira de algum jogador do Sporting por cobro aquele vendaval e deixar a equipa respirar melhor. Mas foi o primeiro milho. Os pardais aproveitaram o que puderam, e puderam pouco, e depois, bem, depois foi mais pardais ao ninho. 

O Marcel Keizer voltou a surpreender o Sérgio Conceição. Quando pensava que se ia repetir mesma tática do jogo de Alvalade e, assim, nos podia cair em cima sem nos dar tempo de respirar, apanhou com uma defesa mais subida e uma pressão mais intensa sobre os defesas à saída do seu meio-campo. Com a defesa pressionada, o Oliver e o Herrera bem vigiados pelos jogadores do meio-campo do Sporting e o Rapnhinha e o Ristovsky a tirarem do jogo o Brahimi e o Alex Telles, restava aos do Porto jogar na profundidade, que corresponde “ao bola na frente e fé no Marega”. O posicionamento da defesa do Sporting concedia espaço nas suas costas mas não o suficiente, pois o Marega precisa sempre de mais dez metros do que qualquer outro avançado para se isolar, que é o espaço necessário para ter tempo de dominar a bola, enquanto vai tropeçando nela uma e outra vez. 

Os defesas do Sporting aguentaram bem o Marega, enquanto eu me via em palpos de aranha para aguentar o Manuel Queiroz a comentar na TVI. Os comentários sobre o excesso de faltas marcadas só aconteciam quando eram marcadas contra o Porto, não havendo nenhuma referência à dualidade de critérios na amostragem de amarelos, tudo culminado em modo vídeo-árbitro instantâneo, gritando: “O Raphinha não se dirigia para a baliza! O Raphinha não se dirigia para a baliza!”, quando o jogador do Sporting foi abalroado pelo Feilpe. Vivo em Braga e conheço bem o local onde se situa o estádio, encontrando-me em boas condições para confirmar a análise do Manuel Queiroz. O Raphinha, com efeito, não se dirigia para a baliza mas para uma loja da Decathlon, que fica perto. Não tenho nenhum problema que o jogo seja comentado por um adepto do Porto. Convém, no entanto, reforçar-lhe o superego, para que as pulsões subterrâneas do id não se manifestem de forma histriónica, pelo menos. É perguntar-lhe se é adepto do Porto umas tantas vezes antes do jogo e verificar se a agulha do polígrafo se mexe quando o procurar negar outras tantas. 

A primeira parte acabou por ser um passeio. O Porto construiu uma jogada de perigo e o Sporting cinco. Na segunda parte, o jogo mudou de figura. Condicionando por um amarelo, o Acuña foi substituído pelo Jéfferson. Compreendo os cuidados do Marcel Keizer, mas tenho as mais sérias dúvidas sobre os efeitos, dado que o Jéfferson costuma contar para o lado do adversário. A equipa fica na mesma a jogar com dez e vê o adversário superiorizar-se em número não numa mas em duas unidades. Como disse o Sérgio Conceição na conferência de imprensa, os jogadores do Sporting quebraram o ritmo de jogo. Esqueceu-se foi de explicar que quebraram o ritmo do jogo ao mesmo ritmo que os jogadores do Porto lhes iam quebrando a cana do nariz, transformando os primeiros vinte minutos numa episódio da Anatomia de Grey. Esta parte do jogo foi a mais apreciada pelo Frederico Varandas, como se notou pela forma empolgada como nos descreveu detalhadamente as alterações anatómicas das fossas nasais do André Pinto e do Petrovic, no final do jogo. 

Passados esses vinte minutos, então, sim, o Porto pegou no jogo ou, dizendo de outra forma, adiantou mais o Alex Telles e passou sempre a entregar a bola ao Brahimi para lhe fazer o que entendesse, porque ele entende como nenhum outro jogador dentro de campo o que se deve fazer com ela. Nessa altura, valeram-nos mais os jogadores do Porto do que os do Sporting. Percebeu-se que estava à espera que os segundos o atrapalhassem, mas ficou surpreendido por o atrapalharem os primeiros também. Num desses momentos de atrapalhação atacante, depois de um remate do Herrera, a bola ressaltou num tufo de relva, ressaltou no peito do Renan Ribeiro, ressaltou no pé do Marega, ressaltou na perna do Renan Ribeiro, ressaltou no pé do Fernando Andrade e entrou na baliza. O golo e os minutos que se lhe seguiram pareciam confirmar que o jogo estava decidido, apesar de duas substituições de sentido contrário: entrou o Diaby e saiu o Gudlej, no Sporting, e entrou o Danilo e saiu o Corona, no Porto. Os jogadores do Porto retinham a bola no meio-campo do Sporting e continuaram a insistir no ataque. 

De repente, tudo mudou: o Bruno Fernandes recebe a bola e de imediato faz um passe de trinta metros a rasgar a defesa do Porto e a desmarcar o Nani, que parte uma e outra vez os rins aos Militão, por quem nunca tinha passado no resto do jogo, e centra para um cabeceamento do Bas Dost em basculação ao lado. Os do Sporting acreditaram e os do Porto recearam e recuaram. O Jéfferson desmarca-se do lado esquerdo e centra (mal), safando o guarda-redes em cima da linha de baliza para canto. O canto sai mal mas a bola continua viva. O Jéfferson centra outra vez (mal) a bola bate num defesa e o Militão vai à linha de fundo evitar novo canto e alivia de cabeça para a entrada da área onde o Herrera ganha a bola para o Óliver que, à beira de um ataque de ansiedade, tenta-se ver livre dela de qualquer maneira e enfia uma biqueirada no Diaby. O árbitro, que estava a receber o troco das compras na loja da Decathlon, onde tinha ido com o Raphinha ainda na primeira parte, não vê, esquecendo-se, no entanto, que o “Big Brother was watching him”. “Penalty”, Bas Dost a olhar para o chão, remate para o meio da baliza com o guarda-redes a atirar-se para a esquerda e golo do empate. Logo a seguir o Bruno Fernandes faz um passe extraordinário sobre a defesa do Porto, desmarcando o Raphinha que, na cara do guarda-redes, não lhe consegue desviar a bola, batendo-lhe no tronco e saindo pela linha de fundo (para canto que o árbitro, livre do “Big Brother”, não assinalou). 

Nos “penalties”, o Porto teve a sua oportunidade de passar para a frente, mas o Militão optou por um golo de Super Bock. O Bruno Fernandes marcou a seguir como só ele sabe, entregando ao Renan Ribeiro e à sua dança o destino do Porto. O Renan Ribeiro defendeu o remate do Hernâni e, quando o Nani marcou a seguir, o Felipe foi para a marca de “penalty” com mais medo de falhar do que vontade de marcar. Tentou colocar a bola ao ângulo superior direito com tal precisão que, como acontece nestas circunstâncias, acabou por acertar na barra. 

Afinal o jogo não tinha sido uma formalidade e era necessário encontrar desculpas. Vieram em catadupa dos comentadores e do Sérgio Conceição: a sorte, o azar, o domínio, a atitude, explicando que o “penalty” nos caiu do Céu e, por oposição, o golo do Porto de um lance estudado e recheado de pormenores de elevada craveira técnica (que deve ter caído do Inferno!). O Sérgio Conceição está habituado a impor o seu jogo, porque as equipas contra as quais se bate são quase sempre muito fracas. Quando o adversário se equivale mais em termos físicos, técnicos e táticos é preciso conhecê-lo melhor, porque, quando não se conhece como se conhece a sua equipa, ganha-se mas também se perde. Contrariamente às minhas expetativas, o treinador do Sporting parece ter lido a “Arte da Guerra”, de Sun Tzu. A sua equipa pareceu sempre conhecer-se tão bem a si própria como ao adversário, nas suas fraquezas e nas suas forças, estando assim mais próxima de ganhar sempre. 

“É verdade que com frequência, em política, se aprende com o inimigo” (Lenine). Esta tem sido a orientação de Marcel Keizer no Sporting, que se poderá designar por Keizerismo-Leninismo. A continuar assim transformar-se-á no melhor “Treinador Português”, apesar de os comentadores serem defensores, e bem, que esta Denominação de Origem Protegida (DOP) só possa ser atribuída à produção nacional. A contrariedade foi tanta, deles e dos nossos adversários, que, uma competição sempre desvalorizada, parece transformada na Liga dos Campeões.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O Poema das Coisas Belas

“Estou a ver o jogo na SPORTTV. Parece que estou a ver o jogo do Sporting contra o CSKA transmitido por um canal russo”; foi a mensagem que recebi de um amigo mal o jogo se tinha iniciado, quando ia a meio da A1 de regresso a casa. O Sporting tinha perdido o jogo antes de se iniciar e o primeiro golo serviu para cumprir a profecia de que “seríamos goleados” do Joaquim Rita. A narrativa, como agora se diz, tinha sido preparada com antecedência e o jogo servia para a densificar com pseudo-pormenores técnico-táticos até ao corolário dos comentadores atuais: “estão a ver que não precisamos de jogadores e de bola e que nos bastamos a nós próprios!”. 

O futebol e, muito menos, o futebol português não merece o Poema das Coisas Belas, do António Gedeão, mas não me ocorre muito mais. O poema é muito melhor do que vou dizer. As coisas só são belas quando as atendemos como tal. Não são os olhos mas a cabeça que vê o que se vê e, por isso, não gostamos do que não entendemos, por preguiça ou preconceito. Por ter praticado algum desporto e por gostar de desporto, não percebo as pessoas que veem um jogo de futebol para ter razão. O jogo vê-se para ser apreciado. Nem os treinadores nem os jogadores veem o que vemos. Para nós, o Douro é uma excelente paisagem, enquanto para um agricultor são vinhas. É preciso distanciamento para ver a paisagem onde estão vinhas e tão só. 

Pelo resumo, o jogo de ontem foi uma chatice. Aparentemente, o Braga teve mais bola, mas as oportunidades de golo não se viram. O Braga tem o golo, uma oportunidade logo a seguir e um cabeceamento à barra, na segunda parte. O Sporting tem o golo e duas oportunidades do Raphinha que o antecederam. Para noventa minutos de duas das melhores equipas portuguesas é pouco, muito pouco. Salvaram-se os “penalties” e os anti-heróis, o Renan, o Ristovski e o Jéfferson. 

O que faltou em futebol sobrou em berraria. Sempre conhecemos esta competição como a Taça Lucílio Baptista. Sem VAR, assistiu-se a um dos maiores esbulhos do futebol português. Com VAR, os erros pagam-se mais caro. Ontem, o erro, o maior erro, foi o do árbitro não ter assinalado de imediato a falta sobre o Acuña. O erro seguinte em dimensão foi o do “penalty” não assinalado por agarrão ao Coates. Estes erros seguem um padrão: na primeira instância, o árbitro, por ação ou omissão, decide sempre contra o Sporting, sendo obrigado, em parte, a corrigir o erro por intervenção do VAR. Este padrão também existiu na “final four” da época passada (lembrem-se do “penalty” marcado contra o Setúbal na final e do “penalty” não marcado depois de falta do Danilo sobre o Bas Dost na meia-final). O que nos disseram ontem o treinador do Braga e o seu presidente, como no dia anterior o treinador do Benfica e o seu presidente, é que devemos voltar ao tempo do Lucílio Baptista. O que nos dizem os comentadores do costume é que fomos gamados mas ainda devemos ficar agradecidos, porque nesses tempos, quando as profecias se realizavam, é que era bom e teria sido bem pior ainda.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Contratos no gavetão das meias

Há muito tempo que não lia um romance de aventuras. Acabei de ler o último episódio da saga de Lorenzo Falcó, espião falangista, escrito pelo Arturo Pérez-Reverte. Os republicanos procuram transportar num cargueiro ouro do Banco de Espanha para pagamento de despesas de guerra aos russos, seus aliados. O cargueiro é interceptado por um contratorpedeiro da marinha aliada do General Franco, conseguindo fugir e refugiando-se em Tânger, sob jurisdição internacional. Há ação, muita ação, ninguém é o que parece, havendo espiões duplos em cada canto esquina, não faltando uma espia russa, que dá o título ao livro (“Eva”). Os personagens vão-se revelando ao longo do livro. Há heroísmo e cobardia onde menos se espera, há honra e respeito entre contendores, há inteligência a rodos, há amor impossível, tudo combinado em doses perfeitas de personagens densas. 

Passando dos anos trinta e da Guerra Civil de Espanha para a atualidade, leio que a mãe de um dirigente do Desportivo das Aves terá escondido uns contratos desse clube com o Benfica. Quando era miúdo, a minha mãe escondia, de mim e da minha irmã, bolachas e chocolates para que não os comêssemos de uma vez só. Bastava pensar como a minha mãe para descobrir o esconderijo, de onde ia subtraindo umas partes mas deixando sempre as embalagens incólumes para disfarçar. É esta minha experiência que me permite saber onde a mãe do dirigente do Aves escondeu os contratos. Não tenho dúvidas que os escondeu na cômoda do seu quarto, no gavetão das peúgas. As meias, verdades e mentiras, são o forte do Benfica. Isso sem heroísmo, honra e inteligência, passados quase cem anos da Guerra Civil de Espanha. Como diz um amigo meu, estas coisas só acontecem num país em forma de caixão, onde, digo eu, nem uma guerra civil em condições permitiu que tivéssemos o nosso Guernica.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Por milímetros!

Gosto de futebol. Gosto do Sporting. Mas tanto futebol e tanto Sporting cansa. Fui almoçar com um grande amigo e compadre e a minha afilhada. O almoço, tardio, alongou-se no tempo com as conversas que importam: a vida, a nossa vida, os filhos, a política e os livros. A conversa continuou em minha casa, aonde nos dirigimos para lhe emprestar um livro que lhe tinha sido referenciado. Celebrada a amizade, ainda fui ao Flávio a tempo de ver a segunda parte do jogo contra o Moreirense. O jogo servia para me entreter um bom bocado e prolongar a sensação bem descrita por uma grande filósofa dos costumes nacionais de que “estar morto é o contrário de estar vivo e vice-versa”. 

Esta visão da existência tem uma certa razão de ser, mas estar vivo também implica uma série de aborrecimentos como ver um jogo como o do Sporting x Moreirense. Como no circo, é importante que nos avisem quando o urso está constipado ou o trapezista partiu um braço. Mesmo que não cancelem o espetáculo, sabemos de antemão ao que vamos. Podemos querer ver somente os palhaços. Há quem goste e não os perca por nada desta vida, avisando também que vão atuar os irmãos Dalton acompanhados por um qualquer Rantanplan. É que, se fosse avisado, teria preferido rever a votação de braço no ar do Conselho Nacional do PSD para se saber se a moção de confiança devia ser votada de braço no ar ou por voto secreto. Foi um jogo muito mais bem disputado e envolvia, também, regras e árbitros. 

Os jogadores do Sporting iam trocando a bola atrás na expetativa do adiantamento dos do Moreirense para os pressionar, mas eles moita-carrasco, continuando a pressionar a saída da bola sem se aproximarem muito e mantendo-se unidos venceremos atrás. Sem movimentação dos médios, o jogo acabava invariavelmente por se esticar para um dos extremos, onde ou o Nani parava o jogo ou o Diaby tropeçava na bola. Recuperada a bola, os do Moreirense esqueciam-se da baliza e, durante quarenta e cinco minutos, por junto e por grosso, fizeram um único remate que resultou de uma biqueirada à toa cuja intenção era a de realizar um centro para a área, na melhor das hipóteses. 

Como não havia bola para ver, tive que me entreter com a arbitragem e com os comentários na SporTv. Mal comecei a ver o jogo, o Diaby foi derrubado à entrada da área. O árbitro não marcou falta e, apesar da repetição, não se ouviu qualquer comentário da SporTv. A seguir, o Nani faz uma cueca ao defesa direito e é derrubado, o árbitro não marca nada e na SporTv comenta-se que não podemos estar sempre a dizer que são marcadas faltas a mais e depois criticar o árbitro por não marcar aquela, assumindo que tinha existido. Pensei que a partir desse momento, mantivessem o mesmo tipo de análise. No entanto, nunca mais ouvi nenhum comentário coerente com a análise anterior. O comentário mais interessante foi mesmo o de uma entrada por trás às pernas do Raphinha de um jogador do Moreirense para parar um contra-ataque perigoso. Explicaram-nos que assim é que é e que assim é que deve ser e não vale a pena protestar, esquecendo-se que nestas circunstâncias, quando se faz um “tackle” por trás sem disputa da bola e para se acertar no adversário, o cartão a mostrar tem a cor da camisola do Benfica. 

O ponto alto desta rábula em que se transformou este jogo aconteceu aos oitenta minutos, quando, depois de uma biqueirada do Coates, o Raphinha se isolou, fintou o guarda-redes e marcou o terceiro golo. Não o tendo conseguido no jogo contra o Feirense, o árbitro embrulhou-se com o fiscal-de-linha e o VAR até conseguir o momento Lucílio Baptista por que todos anseiam. Nada que não estejamos habituados e, por isso, não se estanha. Na SporTv seguiu-se um momento Al-Qaeda do comentário futebolístico. O relatador gritava histérico: “O procolo! O protocolo!”. O comentador, um pouco mais distanciado, acabou por admitir que, por ele, não estava fora-de-jogo, contrariado de imediato pelo outro que gritava: “Os pés, são os pés! O tronco inclinado, é o tronco inclinado! Os braços, são os braços!”, embrulhando esta descrição de todas as extremidades anatómicas como o inevitável apelo ao protocolo. Se não tivesse respeito pelos leitores, explicar-lhe-ia qual foi a extremidade anatómica do Raphinha que ele viu em fora-de-jogo. Não sei se se tratou de um momento Al-Qaeda ou algo mais. Não sei se o VAR ouve aquela algaraviada e se se deixa condicionar na sua decisão. O que sei é que condiciona a opinião pública e, sobretudo, daqueles que estão a assistir à transmissão televisiva. 

Como não vi a primeira parte, decidi ver o resumo na SporTv+. Passado algum tempo e voltada a compostura, pensei que sobre aquele lance nos dissessem, pelo menos, que não se podia concluir nada. Afinal, não: o árbitro tinha decidido bem, embora o jornalista cheio de certezas nos dissesse também que “talvez os pés estejam ligeiramente adiantados”. O recurso ao advérbio é um hino ao jornalismo. Embora não seja dado às teorias da conspiração, reconheço que no futebol nacional o sistema se protege de múltiplas formas e segue uma sequência previsível. Hoje, n’ “A Bola”, um ex-árbitro, penso que aquele que se pegou à pancada com o Rui Patrício em Alvalade, diz-nos que o fiscal-de-linha, o árbitro e o VAR procederam corretamente, “apesar de termos visto duas imagens – nenhuma totalmente esclarecedora, porque ambas ligeiramente distintas -, a verdade é que ficámos com a sensação que o brasileiro estaria milimetricamente adiantado: se não pelo pé, pela inclinação do seu tronco no momento em que arrancou para a baliza adversária”. Ficámos a conhecer, assim, a sua milimétrica sensibilidade, uma sensibilidade que consegue alcançar menos de um centímetro à distância se não de uma pelo menos de outra qualquer extremidade anatómica e que se transforma em certeza no momento seguinte. 

Está na altura de a Direção do Sporting, admitindo que exista, ter um conversa muito séria com a SporTv. As pessoas, sportinguistas, benfiquistas e portistas, assinam aquele canal e pagam pelo serviço. Se querem comentários daqueles têm alternativas mais baratas e que ninguém tem dúvidas sobre a sua linha editorial, como a BenficaTv, o Porto Canal ou a SportingTv. A SportTv pode não fazer comentários sobre arbitragens durante os jogos, fazendo-o de forma autónoma e detalhada noutro programa qualquer. Se os faz, então deve fazer de todos os lances e, em particular, da coerência da arbitragem nas decisões que envolvem interpretação por alguém que perceba do assunto. No café onde vejo os jogos do Sporting, encontram-se três ou quatro sportinguistas, cerca de uma dezena de benfiquistas e um número idêntico de adeptos do Braga e do Porto. Não ouço desses adeptos das equipas adversárias o que ouço na SporTv, havendo um acordo tácito entre nós, que mal nos conhecemos, sobre a civilidade como nos relacionamos enquanto vemos os jogos dos nossos clubes ou dos clubes adversários. Essa civilidade está sempre em risco quando ouvimos o que ouvimos na SporTv. Gostaria de continuar a assistir tranquilamente aos jogos com os meus vizinhos sportinguistas, benfiquistas, portistas e “braguistas”. 


(N’ “A Bola”, o referido ex-árbitro afirma que há razões para marcar “penalty” contra o Sporting por falta do Acuña. Estou de acordo com ele. É pena que não esteja completamente de acordo noutro lance, para além ainda daquele que refiro no corpo do texto. Afirma que houve falta sobre o Bas Dost embora fora da área no lance que antecede o golo do Moreirense. Estou disposto a concordar com ele, apesar de nos andarem sempre a explicar que as faltas devem ser marcadas no local onde se concluem e não onde se iniciam. Só não estou de acordo completamente, porque estranhamente se esqueceu de referir que se era falta então devia ser marcado o correspondente livre e o defesa devia ser expulso. Detalhes e nada mais)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Atitude, alucinação e coerência

A equipa começa a apresentar sinais físicos de desagaste com tantos jogos seguidos e eu também. A equipa chegou atrasada ao jogo contra o Tondela e eu, ontem, também. Como de costume, entrei com o pé direito no Flávio e foi logo golo do Bas Dost, fazendo um duplo pé direito, mas afinal não tinha valido. O árbitro marcou falta, bem, falta de (deixa cá ver…) atitude. Sou favorável ao controlo anti-doping da arbitragem. É verdade, fumei coisas maradas quando era mais miúdo. Fumei mas não inalei, eu e outras pessoas especialmente recomendáveis como o Bill Clinton. Não é por isso que deixo de conhecer bem os sintomas. Uma vez, uma amiga minha, muito bonita por sinal, chegou-me a dizer que era um homem belo ao mesmo tempo que gritava para fugirmos que vinha a correr atrás de nós uma aranha gigante com a cabeça do Álvaro Cunhal adornada com o bigode do Chalana. Na ausência de VAR, percebe-se a intenção da Federação Portuguesa de Futebol de escolher um árbitro cujo nome comece por vê. É o mais parecido que se consegue arranjar. No entanto, esta boa ideia pode ser debalde se o árbitro estiver sempre a ver espécies da família dos aracnídeos com cabeça de políticos, de quem o país está mesmo a precisar para se acabar com a rebaldaria, disfarçada com excrescências capilares faciais de jogadores de futebol dos anos setenta e oitenta. Não foi somente neste lance que o árbitro marcou falta de atitude, sobretudo aos jogadores do Feirense. Para o árbitro, os jogadores, embora enfiando as suas caneladas, estiveram muito aquém do desejável, não merecendo qualquer cartão amarelo e gerando, desta forma, elevados custos reputacionais para um Aly Ghazal, por exemplo. 

Na segunda parte, o cerco apertou-se e os jogadores do Feirense foram-se amontoando em trinta metros do seu meio-campo, saindo em transições diretas para fora, para os defesas do Sporting e, com mais profundidade ainda, para o próprio Salin. O cerco tardava a dar resultados devido a um campo eletromagnético que se situava próximo da baliza, fazendo suspeitar que o Fernando Santos tivesse andado por ali com as suas mezinhas. Foi ele o responsável por desviar remates do Bas Dost, quando tudo levaria a crer que até o Castaignos marcaria golo, do Nani ou do Bruno Fernandes. Os golos do Sporting só se conseguem explicar por algum curto-circuito. O Wendell recebeu a bola do lado direito do ataque próximo da grande área, simulou que rodava para fora, rodou para dentro, enquadrou-se e meteu a bola na gaveta. Logo a seguir, depois de um canto, a bola sobrou para a entrada da grande área onde apareceu o Bruno Fernandes a fazer um remate furioso que o guarda-redes procurou defender depois de a bola ter saído da baliza. Em qualquer dos casos, houve falta de atitude não assinalada pelo árbitro, dado que o Bas Dost se encontrava às cavalitas dos defesas a abanar os braços como se estivesse num concerto dos Guns N' Roses ou dos AC/DC. 

Depois do dois a zero e estando há cerca de meia hora a aboborar na sua área, o Salin pediu ao Marcel Keizer e à sua defesa maior sentido de compromisso com a equipa (adversária, claro está). O treinador fez as substituições que se impunham para esse efeito e os defesas passaram a colaborar ativamente nas jogadas de ataque do Feirense. Com a saída do Mathieu e a entrada do André Pinto, o Coates sentiu-se em muito melhor companhia e foi o mais esclarecido, fazendo de imediato o que tinha de ser feito. Para não se perder tempo, passou a bola a um adversário à entrada da área, o adversário fez-se rogado e tirou-lha para a entregar a outro, o outro não se mostrou afoito também e tirou-lha para a entregar a outro, o segundo outro fez cerimónia e tirou-lha para dar ainda a um terceiro outro, que, para o evitar, finalmente rematou para defesa do Salin. Até acabar o jogo, o Salin fez mais um par de boas defesas correspondendo assim a excelentes iniciativas atacantes dos jogadores do Feirense e da sua defesa em conjunto. 

Acabado o jogo, regressei a casa ainda a tempo de ouvir os comentários da RTP3. Estava um senhor de meia-idade, a atirar para o forte, com barba grisalha aparada e cabelo castanho-avermelhado, mais ou menos da mesma cor de uma tinta de zircão que utilizei para dar uma primeira demão num portão da casa de Bucos, em Cabeceiras de Basto, a criticar o Marcel Keizer pelo jogo contra o Porto. Não estranhei. À sua maneira, o que estava era a elogiar o jogo contra o Feirense. Foi bom ouvir esse elogio ao nosso treinador no mesmo dia em que o seu desempenho foi equiparado ao do grande e inigualável José Peseiro. Está na altura de se comparar o seu desempenho com o do Del Neri no Porto, despedido quando se encontrava com os mesmos pontos do primeiro. Na época de 2004/2005, projetando-se os resultados até então obtidos, se não o tivessem despedido, o Porto teria sido campeão. Seria campeão “ex aequo” com as restantes equipas, mas, mesmo assim, campeão. Os erros pagam-se caro e o Benfica acabou por ser campeão nessa época. Corremos sérios riscos ao despedir o José Peseiro. Ainda bem que contratámos outro treinador que é tão bom como ele. 

Com estes elogios todos, os comentadores não encontraram razões neste jogo para criticar o Marcel Keizer. Não estiveram bem. Não se pode aceitar que um treinador diga que prefere ganhar três a dois a um a zero e, depois, ganhe dois a zero sem sequer uma palavrinha para nos explicar porque é que preferiu este resultado ao seis a quatro que impõe a sua própria filosofia de jogo. Exige-se coerência aos treinadores entre o discurso e a sua prática.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Expetativas, realidades e perceções

Há o jogo, o pré-jogo e o pós-jogo. A forma como vemos o jogo é determinado pelas expetativas que se constroem antes de acontecer em debates e noutras discussões. A forma como avaliamos o resultado do jogo é determinado pela narrativa durante o jogo e pelos seus comentários finais, em conferências de imprensa e nas mais diversas análises. Quase nunca nos damos conta da forma como somos condicionados e é condicionada a opinião pública em geral. O jogo contra o Porto foi um destes casos de condicionamento. 

[Oops, afinal éramos candidatos ao título e não nos tinham avisado] 
Se fosse pelo pré-jogo nem era necessário o jogo. O Porto vinha de dezoito vitórias consecutivas. O Porto é o campeão em título e o principal candidato esta época. O Porto vai à frente destacado e nada nem nenhuma outra equipa se lhe pode chegar. O Porto tem muito melhores jogadores. Não existe ninguém que igualhe o Sérgio Conceição no campeonato nacional, podendo optar por diferentes estratégias todas elas vencedoras, jogando mais na expetativa e explorando as costas da defesa, pressionando mais à frente ou massacrando em ataque continuado. Acabado o jogo verificamos que o Sporting é que perdeu dois pontos, apesar de continuar aos mesmos pontos de distância do Porto. Afinal, o Sporting era candidato ao título antes do jogo e deixou de o ser depois. O Porto nem sequer viu o Benfica aproximar-se na pontuação, nem desaproveitou a oportunidade para deixar o Sporting a onze e o Braga a oito pontos. 

[Oops, afinal o “Treinador Português” é estrangeiro] 
O Marcel Keizer é um menino perante o “Treinador Português” que sabe como ninguém condicionar os jogos dos adversários e em particular dos estrangeiros. O Sérgio Conceição tinha uma estratégia de condicionamento do jogo de Marcel Keizer. Antecipando, o Marcel Keizer fez de “Treinador Português” e o Sérgio Conceição andou aos papéis durante a primeira parte, dado que vive do condicionamento do jogo do adversário à procura dos seus erros e não da imposição do seu jogo ofensivo em ataque continuado. Afinal, sempre é verdade que o que é verdade hoje é mentira amanhã e vice-versa, tendo-se concluído o óbvio que quem procura condicionar o jogo do adversário acaba por condicionar o seu jogo ao mesmo tempo. [Aqui para nós, ao Marcel Keizer só lhe faltou o arrojo de voltar a ser o Marcel Keizer na segunda parte, metendo dois extremos (Raphinha e Jovane), quando o Sérgio Conceição adiantou os laterais, voltando a deixá-lo aos papéis] 

[Oops, afinal não contam os golos o que conta é a atitude] 
O Sporting jogou para não perder e o Porto para ganhar. O Marcel Keizer pensou em si próprio e não no interesse da equipa. O Sporting criou seis oportunidades de perigo e o Porto duas. Verdadeiramente, só houve uma oportunidade de golo quando o Bas Dost completamente isolado e enquadrado com a baliza cabeceou ao lado. O Sporting rematou mais vezes à baliza. O Sporting fez mais remates enquadrados, como agora se diz (durante noventa minutos o Porto só fez um e com a rótula da perna esquerda do Soares). O Sporting teve mais cantos. As equipas equilibraram a posse de bola e o número de passes. Mas o que conta, o que conta mesmo é a atitude, vá-se lá saber o que isso é. Isso e estar quase a definir bem, como afirmou o Sérgio Conceição, enquanto nós nos íamos lembrando do Diaby ao mesmo tempo que desejávamos que fosse para o Porto onde, pelos vistos, as suas qualidades são muito apreciadas. 

[Oops, afinal a fruta é nossa] 
Na arbitragem, há erros de facto (foras-de-jogo, bolas que passam as linhas de jogo ou de baliza) e erros de interpretação (genericamente, as faltas). Em Portugal, analisam-se os segundos como se fossem os primeiros. Os segundos têm sempre uma forte componente de subjetividade por definição (uma interpretação é uma interpretação), a maior ou menor intensidade, o jogou a bola ou não, o cortou lance de perigo, a negligência ou a imprevidência e por aí fora. Se dispõem dessas características, deve, então, ser analisada a coerência do árbitro na sua análise durante o jogo, e não caso a caso, para se concluir sobre parcialidade. O Bruno Fernandes cortou um ataque do Herrera e devia ter levado amarelo. Devia ter sido expulso? Não. Aos dez minutos o Herrera levou amarelo depois da sua quarta falta, três delas sem bola. Se fosse aplicada ao Herrera a mesma interpretação que foi aplicada ao Jéfferson na sua primeira falta, então não estaria em campo quando o Bruno Fernandes fez a falta e, portanto, não a faria ou, pelo menos, não a faria sobre o Herrera. Vamos mesmo assim admitir a segunda hipótese. Se, no primeiro amarelo, aplicasse ao Bruno Fernandes a mesma interpretação que aplicou ao Soares num lance semelhante, então não veria depois o segundo amarelo mas o primeiro. Há um pormenor: o Herrera não foi expulso na segunda parte, depois de uma chapada ao Bruno Fernandes, aparentemente por compensação. De acordo com o que veio nos jornais, fomos gamados mas ainda devemos estar agradecidos, é isso, não é?!

domingo, 13 de janeiro de 2019

E agora algo completamente diferente (será?)


O campeonato português (não confundir com futebol português) é uma criação artificial para os três grandes poderem competir.  Cada década – digamos assim –  lá vai tendo um quarto grande, mas o restante é para encher. Como geógrafo (de formação) poderia avançar várias razões que sustentam essa centralização primordial, mas não é esse o ponto principal deste texto. Deixo, no entanto, dois exemplos que credenciam a competição do campeonato português: recentemente o Aves recebeu o Feirense com cerca de 800 adeptos nas bancadas; o Belenenses SAD (é assim que se chama?) costuma jogar no Jamor acompanhado de alguns observadores de pássaros e dois ou três reformados da segurança social. A primeira liga é isso.

Isso, e a luta pelo poder. Nos anos oitenta do século XX, com a democracia ainda a braços com a instrução primária, o FCP foi o primeiro a ver mais longe as possibilidades de um profissionalismo a reboque da cacicagem que por todo o lado proliferava, de mão estendida e sem rei nem roque. Um tipo lê o Eça e o Camilo e consegue perceber bem o ninho disto tudo. Ainda hoje os Super Dragões fazem algumas visitas sociais a estabelecimentos comerciais de árbitros (e não só) para recordar esses velhos tempos. Foi nessa altura que a dieta mediterrânea se projetou definitivamente através do consumo generalizado de fruta.

O Sporting foi o primeiro a pagar as favas do consumo exagerado de frutas (e algumas leguminosas), indo a banhos, sujeitando-se a alguns internamentos para tratamento do fígado e da coluna vertebral, maleitas que ainda hoje lhe causam náuseas e dores de cabeça. O Benfica chegou mais tarde ao buffet, apercebendo-se que não era apenas desafiado como também derrotado. Perigosamente derrotado. Depois foi ainda mais longe no conhecimento do “pensamento” português, criando uma rede de esgotos que desagua (depois de tudo) apenas no leito de Paulo Gonçalves. O homem tem costados largos.

No meio disto tudo, o Sporting, além das maleitas e internamentos, divertia-se em querelas internas, entre viscondes, salvadores, visionários, e seus seguidores. Tudo gente de bem. Ou Quase. Com as toupeiras e emails, o vento mudou de feição, mais uma vez não nos calhando em sorte. O resto são cantigas.

Basta atentar no jogo de ontem. Para além do nosso treinador ter mudado o chip, o que até confundiu o herdeiro de Aécio, perdão, o herdeiro do mestre JJ da táctica, Sérgio Conceição, percebendo-se que o nível de exigência esbarra sempre numa desculpa qualquer, o que também saltou à vista desarmada foi a dualidade de critérios que condicionou imediatamente o jogo, perpetrada por um tipo do apito absolutamente medíocre, como se impõe. As sarrafadas são sempre vistas em perspetiva dinâmica consoante as cores que os jogadores vestem. A quantidade de vezes que o jogo é interrompido ao ritmo das faltas assinaladas deverá constituir motivo de estudo e reflexão, principalmente nas casas de pasto de referência.   

Parafraseando (com algum exagero) um amigo meu que ontem citei nos comentários: o Porto é um Tondela mais técnico e com melhor mercearia. Sérgio Conceição é uma mistura entre Pepa e o Jaime Pacheco, mas com outra pinta. É exagero, mas a escola do Paulinho Santos e arredores ainda dá cartas, através da intensidade criteriosa, entre outros eufemismos, imposta pelo seu (herdeiro do mestre da tácita) treinador. Ele que vá treinar o Sporting para perceber o que é intensidade. Aposto que era logo campeão. E sem contratações, como o ano passado fez no fêcêpê.

sábado, 12 de janeiro de 2019

O futebol sem riscos é uma chatice e sem ética uma vergonha

Vi o jogo contra o Porto, ouvi as conferências de imprensa do Marcel Keizer e do Sérgio Conceição e, sem estar à espera, ouvi o discurso do Rui Rio em resposta ao desafio à liderança do PSD de Luís Montenegro. É bastante mais divertido disputar um jogo contra um adversário do que qualquer disputa interna. Como concluiu Rui Rio, citando o inevitável Sá Carneiro, “a política sem risco é uma chatice e sem ética uma vergonha”. Substituindo o sujeito, o futebol deste jogo também deve ser analisado pelo lado do risco e pelo lado da ética. 

O Marcel Keizer colocou a equipa a jogar à Jorge Jesus. Um pouco mais recuada, a jogar longo na frente para a cabeça do Bas Dost, e com o meio-campo a subir nesses momentos para procurar ganhar a segunda bola, ou no Diaby, condicionando o jogo pelo lado esquerdo do Porto, onde o Alex Telles não se viu na primeira parte. Esta forma de jogar não deu resultados ofensivos por duas razões: foi quase sempre marcada falta nas bolas divididas ganhas pelos jogadores do Sporting e o Diaby nos lances de perigo que construiu definiu sempre mal, como agora se diz. Defensivamente, a primeira parte foi um passeio. O Porto não fez um remate à baliza. O Porto é uma equipa que joga em pressão permanente sobre os adversários, procurando tirar proveito dos erros que tal atitude possa originar. O jogo mais direto do Sporting impediu essa pressão e com a bola disponível para construir jogadas de ataque revelou todas as suas deficiências, não criando um lance de perigo nem estando sequer perto disso. 

Na segunda parte, o Sérgio Conceição tentou meter o Alex Telles no jogo. Colocou o Brahimi mais por dentro e esticou o Alex Telles no lado esquerdo, apostando e colocando mais em jogo os dois jogadores que constituem os principais pontos fortes da equipa. Criou assim dois efeitos- surpresa, ganhando profundidade na esquerda e um apoio central aos avançados. O Sporting ficou perdido durante quinze a vinte minutos, tendo muita dificuldade em perceber o que lhe estava a acontecer. Terminado o efeito surpresa o jogo equilibrou-se por si sem que o Marcel Keizer tenha procurado mexer na equipa como se esperava, sobretudo com a entrada do Raphinha para acabar de vez com as brincadeiras no lado direito da equipa, dado que o Diaby andava perdido em campo. Com as duas equipas de rastos, os últimos minutos foram de doidos: perdas de bola de um lado e do outro, seguidas de contra-ataques de um lado e outro também. Com o apito final o árbitro impediu que alguns deles ainda acabassem por explodir em campo tal era a dificuldade que tinham em respirar depois das correrias. 

Na primeira parte, o Sporting construiu duas jogadas de perigo, a primeira com o Nani a rematar quase na pequena área e a bola a embater nas pernas de um defesa por mero acaso, a segunda com o Bas Dost a fazer um passe ao Casillas quando estava isolado à entrada da área, e o Porto nenhuma. Na segunda parte, o Porto tem duas jogadas de perigo, a primeira com o Soares a procurar rematar com o pé direito, batendo-lhe a bola no joelho da perna esquerda para boa defesa do Renan Ribeiro, e a segunda com o Marega a rematar dentro da área do lado direito para as nuvens, e o Sporting quatro, a primeira com um centro do Nani que o Militão cortou com o joelho sem saber bem como quando o Bas Dost se preparava para empurrar a bola, a segunda com um bom remate do Bruno Fernandes que o Casillas defendeu, a terceira com outro bom remate do Gudlej que o Cassilas voltou a defender, e a quarta com o Bas Dost completamente isolado a cabecear ao lado. 

No futebol não se ganha ou se perde com estatísticas, táticas ou intenções. Ganha-se com golos que constituem o objetivo do jogo. Quem marca mais golos merece sempre ganhar porque ganhar e merecer ganhar são uma e a mesma coisa. Os treinadores desenharam estratégias potenciando pontos fortes das suas equipas e aproveitando os pontos fracos do adversário. Os jogadores fizeram por cumprir o que lhes foi pedido e deram o que tinham para dar e um pouco mais. Quem viu o jogo não deu o tempo por mal empregue e, por isso, não houve chatice porque houve risco, calculado, mas houve. 

Aos dez minutos o Herrera viu amarelo depois da quarta falta, três delas sem sequer disputar a bola. Pelo critério que o árbitro adotou relativamente ao Jéfferson por muito menos um pouco mais tarde, o Herrera devia estar com três amarelos mal o jogo se tinha iniciado. As duas primeiras faltas dos jogadores do Sporting resultam de duas disputas de bola em que nenhum dos jogadores dispõe do seu controlo e ganha aquele que é mais forte (veja-se, por comparação, o inicio da jogada que dá origem à mais relevante jogada de perigo do Porto que originou a defesa do Renan Ribeiro). A primeira parte tem diversas situações destas. O Sporting, que apostava no jogo em profundidade e na disputa da segunda bola, viu assim impedida a sua estratégia. A equipa do Porto, muitas vezes mal posicionada, pôde cortar lances sem disputar a bola, nada acontecendo em termos disciplinares aos seus jogadores e não os condicionando na disputa de lances futuros. A cereja em cima do bolo nem sequer foi o referido amarelo do Jéfferson. Numa disputa do lado direito, o Bruno Gaspar chega primeiro e o Soares acaba por entrar a destempo, acertando-lhe, sendo marcada a falta sem qualquer sanção disciplinar. No outro lado do campo, o Corona chega primeiro à bola, o Bruno Fernandes entra a destempo também e acerta-lhe (?), sendo marcada a falta e punido o jogador do Sporting com amarelo. Ao fim da primeira parte, os jogadores das duas equipas tinham o mesmo número de amarelos e a estratégia do Sporting tinha sido condicionada pelas faltas nas disputas das segundas bolas e pelas faltas sem bola dos jogadores do Porto. 

Esta arbitragem não foi como a do Tondela. Foi mais insidiosa. Condicionou o jogo e o seu resultado sem o determinar diretamente. Aparentemente, são aplicadas as regras do basquetebol na disputa dos lances à equipa do Sporting e às outras equipas as regras do “rugby”. No futebol português, nem ética nem vergonha. Por isso não vale a pena esperar nada desse lado. Agora, do nosso lado, convém termos noção dessa falta de ética e de vergonha. É que quando as regras são diferentes não faz sentido andarmos sempre a falar da atitude ou da falta dela, como se só o Sporting é que tivesse azar na escolha dos jogadores. A propaganda vive da semântica. Expressões como combativo, raçudo ou violento rimam melhor com certas camisolas do que com outras. Como referi inicialmente, é preferível sempre qualquer disputa com os adversários a qualquer disputa interna.

Correu bem


Ainda bem que não precisávamos de ganhar...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Self-fulfilling prophecy

Vá-se saber porquê (é um simples exercício de retórica porque todos sabemos) instituiu-se que o Marcel Keizer estava sob escrutínio em todos os jogos tendo como referência o “Treinador Português”, essa figura mítica só equiparável à do Adamastor. Esse escrutínio funciona só para um dos lados. Quando ganha e o adversário leva para casa um cabaz conclui-se que não se pode concluir porque o teste não era para levar a sério. Quando perde, nesse caso sim, existem todas as condições para se afirmar que o “Treinador Português” é dado a elucubrações táticas que não estão ao alcance de um holandês na crise da meia-idade, como se nota pela sua evidente insuficiência capilar (daqui até se afirmar que o “Treinador Português” é produto da melhor escola tática do Mundo vai um passo que se dá logo em seguida). Como nenhum treinador ganha sempre, constrói-se com toda a facilidade uma profecia autorrealizável (o conceito de “self-fulfilling prophecy” que origina o título deste “post”). 

O Marcel Keizer foi ganhando jogos atrás de jogos e enfiando cabazadas atrás de cabazadas. Se não era do dito cujo era das calças e, portanto, nada se podia concluir, havendo sempre um sinal de alerta, que tanto podia ser um golo sofrido como o excesso de golos marcados, que nos devia deixar de sobreaviso para a próxima. No jogo de Guimarães começou-se a cumprir a profecia, mas como o Luís Castro tem ar de quem toma banho todos os dias e as suas equipas jogam futebol não constitui propriamente o protótipo do “Treinador Português”. O jogo contra o Tondela foi o teste do algodão: um treinador patusco e uma equipa que defende com se estivesse em causa a sua própria vida e não houvesse amanhã e a jogar no Portugal profundo inventado pelo António Ferro, que constitui o repositório das virtudes nacionais, profusamente divulgadas nos meus livros da escola primária. 

Vai-se assistindo ao jogo enquanto se escutam os sábios comentários da SporTv. Tudo o que se vê tem um propósito e obedece a uma lógica que não está ao alcance dos espetadores que não percebem porque não estudaram o suficiente obras fundamentais como “A Bola”, “Record” e “O Jogo”. Uma biqueirada para a frente sem nexo rapidamente se transforma num modelo de jogo que privilegia a profundidade e o espaço concedido nas costas da defesa. Uma série de sarrafadas e de faltas é-nos explicada como elevada intensidade de jogo. A colocação de um pino na frente resulta de uma aposta na fixação dos centrais e na criação de dificuldades na transição ofensiva do adversário. São-nos enumeradas qualidades de jogadores de quem nunca se ouviu falar, embora por vezes se troquem os nomes e as posições porque a cábula não estava bem feita. Esta narrativa só precisa do resultado para se legitimar. Se os pernetas ganham, está encontrada a explicação para a vitória que nos foi sendo contada durante o jogo (não é por acaso que se regista uma enorme consternação nos comentadores quando acontece qualquer reviravolta no resultado). 

As estatísticas do jogo do Sporting contra o Tondela são absolutamente extraordinárias e mais ainda no que respeita à equipa visitada: 179 passes, com 56,0% de eficácia, 24 faltas (e outras tantas por marcar) e 28,0% de tempo de posse de bola. Os dados são esclarecedores: a cada dois passes o Tondela perde a bola, o número de passes é cerca de metade de qualquer outra das piores equipas nesta jornada, há jogadores que acertaram mais vezes no adversário do que na bola (relativamente ao jogador que foi expulso, o segundo amarelo resultou da sua sexta falta em pouco mais de vinte minutos de futebol corrido.). Aparentemente é a isto que se chama uma tática à “Treinador Português”. Não houve tática nenhuma nem sequer futebol. O que se assistiu foi a uma batalha campal com a complacência do árbitro em que a bola só serviu para sinalizar o adversário a quem se iria arrear em seguida. 

Nada disto retira responsabilidades à equipa do Sporting e aos seus jogadores e treinador. Tinham obrigação de saber o que os esperava. Era um daqueles jogos em que não se pode entrar mal e, pior ainda, permitir de forma desleixada o primeiro golo do adversário, dando ânimo e agravando as condições difíceis de partida. É preciso saber reagir em conformidade e não desistir. É duro, percebo bem. Levar, voltar a levar e levantar-se uma e outra vez, não valendo a pena protestar porque a quem se podem dirigir os protestos não está para os ouvir. Imagino que seja quase cruel para um Coates assistir a tudo isto e a saber que não pode responder na mesma moeda. As alterações táticas do Marcel Keizer mais não revelaram do que lucidez ao verificar o que se passava à sua frente: quando não se joga futebol, não se pode querer ganhar a jogar futebol porque o jogo não é esse. Também não vale a pena fazer o contrafactual na constituição da equipa e nas substituições, sob o risco de se elogiarem qualidades de jogadores que não vimos jogar e se discutir se é preferível jogar com um coxo ou um cego. 

O que me está a preocupar no Marcel Keizer não são os resultados. O que me está a preocupar é que há indícios de se estar a aculturar e de se querer transformar no “Treinador Português”. Espero que o Marcel Keizer não passe a ter medo de ser o Marcel Keizer. A bola parece sair cada vez mais pelas laterais, pelos defesas ou em passes destes para os extremos diretamente, quando nos primeiros jogos a lateralização servia simplesmente para abrir o jogo e fazer voltar a bola ao meio por onde deve andar. Os extremos estão mais abertos, jogando menos por dentro e estando mais longe quando se perde a bola, reduzindo a sua capacidade de recuperação em pouco tempo. Também por isso, a pressão à saída da bola do adversário começa a ser insuficiente e a defesa, na dúvida, joga mais atrás, deixando mais espaço ainda que o meio-campo e, especialmente, o Gudelj preenchem mal. Ninguém no seu perfeito juízo pede mais ao Marcel Keizer do que bom futebol e o crescimento de alguns jogadores que possam constituir uma boa equipa para os anos que vêm. Não há que ter medo, ainda para mais no Sporting onde nem sequer há medo de se ser feliz porque, no fim, quase sempre se é infeliz, como provaram (na própria pele) vários treinadores como o Mirko Jozić, vítima de árbitros plenos de azia e do tal “Treinador Português”.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

A derrota contra as hordas lideradas pelo Shaka Zulu das Beiras

Este fim-de-semana vi uma pequena reportagem sobre o Estrela da Amadora x Belenenses para os campeonatos distritais: estádio cheio e alegria de quem vai para uma festa com os seus, os que vestem a mesma camisola e constituem por isso a sua comunidade. Lembrei-me dos meus fins-de-semanas há uns anos em Cabeceiras de Basto quando ia ver os jogos do São Nicolau, onde jogavam os meus sobrinhos. As pessoas aglomeravam-se à volta do campo, não havendo bancada. Cada fiscal de linha ficava a um sopro dos espetadores. O jogo iniciava-se e iniciava-se um ritual que envolvia muita biqueirada para o ar, caneladas sempre que possível e insultos, muitos insultos ao árbitro e aos fiscais de linha, enquanto dois GNR passeavam a sua autoridade. Ao intervalo o café, cujo dono era o presidente do clube, enchia-se para as cervejolas da ordem, ficando muitos espetadores a ver a segunda parte das janelas ou da varanda.  

A equipa era patrocinada por um primo, empresário bem-sucedido, que vivia em Braga e se deslocava também aos fins-de-semana para ver estas partidas. Ao fim dos jogos, era frequente os árbitros irem para uma das casas da família comer umas chouriças assadas e beber umas malgas de vinho verde tinto ou de vinho maduro, para os mais finos. Era um momento extraordinário. Contavam-se as histórias mais mirabolantes dos jogos e das arbitragens. Ao princípio, a minha cabeça cosmopolita não percebia o interesse desse primo em patrocinar a equipa e os jogos. A pouco e pouco fui percebendo que o interesse era o ritual: o regresso à terra onde se nasceu, o convívio com os amigos, as conversas infindáveis sobre jogos dos sobrinhos e deles quando tinham a mesma idade. Os campeonatos distritais servem para a preservação de identidades e a construção de comunidades de destino, permitindo que o encontro com o outro e a festividade sejam um fim em si mesmo. 

Sou de Viseu e conheço bem Tondela. Faz parte de uma rede de pequenos centros urbanos que rodeiam a capital de distrito, como São Pedro do Sul, Nelas, Mangualde, Castro Daire, Sátão ou Penalva do Castelo. O clube local constitui uma das muitas improbabilidades de que o campeonato está repleto. Hoje o Tondela, o Aves, o Moreirense ou o Feirense. Ontem o Leça, o Trofense, o Arouca, o Vizela ou o Fafe. São clubes que tanto podem estar nos distritais, e até desaparecer, como a jogar com os grandes de Portugal. Num país sem descentralização política e de tradição municipalista, assiste-se à descentralização desportiva e ao municipalismo futebolístico. O que caracteriza estes clubes é o mesmo que caracterizava do São Nicolau de tempos passados: o espírito dos distritais. 

Ontem, o Sporting foi jogar a Tondela com a mesma arrogância dos meus primeiros jogos do São Nicolau. A nossa equipa tinha uma tática e um modelo de jogo. A convocatória foi a afirmação dessa matriz tecnocrática do Marcel Keizer e, procurando pensar pela cabeça de um holandês, fazia todo o sentido. Ia-se jogar um jogo e quem jogasse melhor ganharia. Mas o Sporting não ia jogar um jogo. Ia, isso sim, desafiar o sentido de pertença e de comunidade materializado numa equipa de futebol, à qual lhe é indiferente jogar os distritais ou o campeonato nacional. Nunca percebi o interesse dos treinadores portugueses em congeminar táticas para bloquearem a forma de jogar do Sporting de Marcel Keizer. Bastava continuarem a ser como são. A tática é a do “abaixo do pescoço é canela” combinada com a da “bola para o mato que o jogo é de campeonato”. Os jogadores do Tondela fizeram por merecer todas as faltas que fizeram, marcadas ou não, e todos os amarelos que lhes foram mostrados (ou não). Liderados pelo atual Shaka Zulu das Beiras, o inigualável Ricardo Costa, e armados com paus, pedras, arcos e flexas e mocas, devastaram a defesa e o meio-campo adversário. Os meninos do Sporting e o Marcel Keizer só tarde e a más horas perceberam que não estavam a jogar um jogo mas a enfrentar uma guerra de guerrilha em cada centímetro do campo. Nestes jogos há árbitros e GNR mas é como se não houvesse. 

Também é verdade que tudo o que podia correr bem para o Tondela e tudo o que podia correr mal para o Sporting, correu. É injusto afirmar-se que, no primeiro golo, era preferível um pino ao Bruno Gaspar. Um pino ocupa pouco espaço e cai ao primeiro toque. A comparação adequada é com um bidão. Se em vez de estar o Bruno Gaspar estivesse um bidão na lateral direita, o jogador do Tondela teria chocado com ele e perdido a bola. No segundo golo e apesar da reincidência, se o jogador do Tondela soubesse fazer o que fez talvez estivesse num clube começado por tê, mas não seria o Tondela, seria Tottenham. E também é verdade que o modelo Keizer está a emperrar na disponibilidade física dos avançados. Para a defesa jogar mais adiantada, é necessário que os avançados e os jogadores de meio-campo reajam mais depressa à perda da bola e a recuperam mais depressa e o mais próximo possível da área adversária, que não está a acontecer desde o jogo de Guimarães. A recuperação relâmpago do Wendell tinha o objetivo de suprir esta deficiência. Mas é preciso mais do que isso. É preciso um seis que não se pareça com o Bruno Caires, como li ontem algures. 

O Marcel Keizer às páginas tantas percebeu o que estava a acontecer à frente do seu nariz, o que revela inteligência. A tentativa de colocar os centrais dentro da área é o reconhecimento de que não bastava a tática. Era preciso coração e o tal espírito de distrital. Só não se compreendeu bem a substituição do Nani que, naquela altura, parecia o mais lúcido e o mais experiente para ajudar a virar um jogo como aquele (porventura, terá sido mais uma questão física do que qualquer outra a determiná-la). Este reconhecimento do Marcel Keizer é sinal de inteligência. Mas mais inteligente seria mandá-lo dar umas voltas por este Portugal profundo para perceber os tondelas que lhe vão sair em sorte. 

Fiquei com uma única dúvida depois do jogo se concluir e do amarelo mostrado ao Acuña (num jogo em valeu tudo e mais um par de botas). Depois de acabar o jogo, onde é que os árbitros terão ido comer a chouriça assada e beber uns copos de Dão? O número de cartões amarelos e vermelhos mostrados ao Maxi Pereira constitui um indicador avançado das inclinações arbitrais. No Benfica, conseguia ter menos amarelos do que o nosso Rui Patrício. No Porto, começou por levar amarelos e vermelhos em barda, mas, atualmente, encontra-se com o registo idêntico ao de outros tempos. A outra explicação é o Benfica ter desistido definitivamente de lutar pelo título, concentrando as suas atenções no apuramento para a Liga dos Campeões.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Alexandra Solnado a falar em Código Morse

Ontem, contra o Belenenses, era o jogo de todos os perigos. Regularmente, jogamos sem defesa esquerdo. Já jogámos também sem o Nani, o Wendell ou o Bas Dost. Íamos, agora, experimentar jogar sem o Bruno Fernandes. Encontrávamo-nos na situação do puto que mostra ao pai como se anda de bicicleta, primeiro, sem pés, depois, sem mãos, e, por fim, sem nariz. A expetativa de nos estamparmos e ficarmos sem nariz era tudo menos negligenciável. Não sei se por essa razão ou pela referência do Silas, treinador da equipa adversária, ao trabalho (?) do José Peseiro, mas o pé do dito assombrou-nos o jogo todo. 

O início dos jogos em Alvalade começa a constituir um clássico. O treinador (português) da equipa adversária congemina uma tática que ou nos surpreende ou surpreende a sua própria equipa, transformando os primeiros quinze minutos numa autêntica montanha russa. Ninguém se admirou, assim, que as três primeiras jogadas de perigo fossem do Belenenses. Até que o Nani ganha uma bola mal atrasada de um defesa de cabeça, vai à linha de fundo e passa-a ao Acuña que remata com o pé que tinha mais á mão (o direito) para defesa impossível do guarda-redes. Um pouco mais tarde, depois de um lançamento longo, o Diaby tropeça na bola, tropeça em si próprio e nos seus pensamentos, tropeça num defesa, até tropeçar no guarda-redes quando se encontrava isolado. Quando o Sporting tinha começado a controlar o jogo e a empurrar o adversário para trás, esperando-se o primeiro golo, o Acuña teve uma súbita paragem cerebral e num passe suicida para o meio isola um avançado do Belenenses que vai numa correria louca com o Coates no encalce até se desintegrar e chutar contra o poste, depois do Renan Ribeiro simular a saída, hesitar, escorregar, levantar-se e voltar a atirar-se para o chão a fingir que se fazia à bola para não fazer má figura. Para demonstrarmos que não precisávamos de ajuda de ninguém para o mesmo efeito, respondemos de imediato com uma triangulação notável entre o Diaby, o Nani e o Wendell, concluída com remate do segundo ao poste.

O 3x5x2 do Belenenses que se tinha vindo a transformar num autocarro, estacionou de vez na segunda parte, não se registando nenhuma saída para o ataque ou contra-ataque em condições. O Sporting tentava pressionar alto, mas os jogadores do Belenenses conseguiram sempre, com maior ou menor dificuldade, não perder nenhuma bola próximo da sua área. A insistência era inversamente proporcional à imaginação pelo meio e aos desequilíbrios nas laterais e, assim, o Bas Dost nem a bola cheirava, entalado como estava entre três centrais. Mas, há sempre um mas, por uma vez o Gudelj decide fazer um passe para a frente, o Nani recebe a bola e passa-a de primeira para o Diaby que, à entrada da área, a segura enquanto vai chamando pelo Bruno Gaspar. Chamou uma, chamou duas, até que à terceira lhe enviou uma mensagem por WhatsApp: “Bruno, não te importas de te desmarcar pelo lado direito para te passar a bola. Era um favor que me fazias. Atenciosamente, Diaby”. Por educação, o Bruno Gaspar correspondeu ao pedido e concluiu a jogada, seguindo as orientações que lhe tinham sido transmitidas na primeira parte pelo treinador quando o chamou ao banco de suplentes para lhe dizer: “se não sabes fazer um centro ou um remate, então faz um centro-remate” (o André Almeida tem vindo a desenvolver esta técnica com resultados assinaláveis, valendo-lhe candidatura para Prémio Puskas). Como se viu em “slow motion”, a forma hábil como pontapeou a bola por baixo e do seu lado direito permitiu que ganhasse um tal efeito que tanto se podia considerar um passe para a barriga do Miguel Luís ou a cabeça do Bas Dost, que estavam mais à frente, como um remate dirigido à cabeça do defesa para nela a bola tabelar e entrar junto ao poste mais longe. 

Depois do um a zero e das obrigatórias substituições do Nani e do Wendell, que se encontravam por um fio, o Marcel Keizer resolveu aproveitar o trabalho do José Peseiro, como tinha vaticinado o Silas. A equipa ficou como um tolo no meio da ponte: não sabia se devia atacar e fechar o resultado ou defender o um a zero. O público de Alvalade, experiente, sabendo que o perigo estava ao virar da esquina, insistia para que se continuasse a atacar. Tanto insistiu que, depois de receber a bola à entrada da área e da cerimónia da defesa do Belenenses, o Miguel Luís enfiou-lhe uma pantufada que só parou dentro da baliza, deixando o seu avô lavado em lágrimas, como se soube mais tarde. O dois a zero é um resultado perigoso e mais perigoso é quando se trata do Sporting. O Gudlej continuava a perder bolas e a marcar os adversários com o olhar (ao menos que faça como o Jonas e lhes atire os atacadores das chuteiras às fuças, como relatou a SporTv no jogo do Benfica contra o Portimonense). Sem pressão, os defesas e os médios do Belenenses tinham todo o tempo e espaço do mundo para meter a bola nas costas da defesa para as diagonais dos avançado e, num desses lançamentos, o Licá ficou isolado do lado esquerdo. O Coates ainda correu para a defesa mas, vendo que se tratava deste internacional português e que o Mathieu se encontrava por perto, desistiu e quando acordou para a vida era tarde. O Licá, depois de se atrapalhar, acabou por passar a bola para dois ciclistas que vinham a toda a brida, o primeiro rematou para defesa do Renan Ribeiro, acabando o segundo por fazer a recarga para o dois a um, cumprindo a máxima do nosso treinador: o jogo não é jogo se não sofrermos pelo menos um golo.

Tudo está bem quando acaba bem, seria este o final deste jogo e desta crónica. Mas eles andam por todo o lado. Infiltram-se onde menos se espera. Saindo debaixo da terra, como de costume, um deles perguntou ao Marcel Keizer na conferência de imprensa se o despedimento do Rui Vitória podia produzir o mesmo efeito do despedimento do José Peseiro. O homem, em vez de responder com o correspondente: “O que é que tenho a ver com essa m****?!”; disse umas coisas que nem ele próprio percebeu, enquanto se esquivava de uma insistência por palavras ínvias. 

O Benfica, sempre o Benfica. Na televisão, o despedimento do Rui Vitória foi analisado como se tratasse da votação no parlamento inglês do acordo do Reino Unido com a União Europeia para o Brexit. Depois de uma noite de insónia, o Luís Filipe Vieira viu uma luz e prometeu ao Rui Vitória que não o despediria. Foi a fé que o iluminou. As religiões foram construídas a partir deste tipo de enigmas (ou de milagres, na linguagem mais canónica). Os textos sagrados estão repletos de relatos como este (quem não se lembra da epopeia de Melchior, Baltasar e Gaspar sem ajuda do Google Maps). A fé não se explica. Ou se tem ou não se tem, ou se é racional ou se tem fé (ainda se pode admitir que depois de atos racionais sem sucesso se possa ter que confiar na fé, mas nunca o contrário). Não se pode vir um dia metaforicamente afirmar que se falou com Deus para dias depois se corrigir, fazendo de conta que tudo não passou de um simples engano e a luz se tratava da Alexandra Solnado com uma lanterna a tentar comunicar em Código Morse. Espera-se adequado comunicado da Santa Sé ou, pelo menos, do Patriarcado de Lisboa. Da Associação Nacional de Treinadores espera-se tanto ou mais. Depois de uma promessa destas, não se compreende que se despeça um treinador à falsa fé.