sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Alexandra Solnado a falar em Código Morse

Ontem, contra o Belenenses, era o jogo de todos os perigos. Regularmente, jogamos sem defesa esquerdo. Já jogámos também sem o Nani, o Wendell ou o Bas Dost. Íamos, agora, experimentar jogar sem o Bruno Fernandes. Encontrávamo-nos na situação do puto que mostra ao pai como se anda de bicicleta, primeiro, sem pés, depois, sem mãos, e, por fim, sem nariz. A expetativa de nos estamparmos e ficarmos sem nariz era tudo menos negligenciável. Não sei se por essa razão ou pela referência do Silas, treinador da equipa adversária, ao trabalho (?) do José Peseiro, mas o pé do dito assombrou-nos o jogo todo. 

O início dos jogos em Alvalade começa a constituir um clássico. O treinador (português) da equipa adversária congemina uma tática que ou nos surpreende ou surpreende a sua própria equipa, transformando os primeiros quinze minutos numa autêntica montanha russa. Ninguém se admirou, assim, que as três primeiras jogadas de perigo fossem do Belenenses. Até que o Nani ganha uma bola mal atrasada de um defesa de cabeça, vai à linha de fundo e passa-a ao Acuña que remata com o pé que tinha mais á mão (o direito) para defesa impossível do guarda-redes. Um pouco mais tarde, depois de um lançamento longo, o Diaby tropeça na bola, tropeça em si próprio e nos seus pensamentos, tropeça num defesa, até tropeçar no guarda-redes quando se encontrava isolado. Quando o Sporting tinha começado a controlar o jogo e a empurrar o adversário para trás, esperando-se o primeiro golo, o Acuña teve uma súbita paragem cerebral e num passe suicida para o meio isola um avançado do Belenenses que vai numa correria louca com o Coates no encalce até se desintegrar e chutar contra o poste, depois do Renan Ribeiro simular a saída, hesitar, escorregar, levantar-se e voltar a atirar-se para o chão a fingir que se fazia à bola para não fazer má figura. Para demonstrarmos que não precisávamos de ajuda de ninguém para o mesmo efeito, respondemos de imediato com uma triangulação notável entre o Diaby, o Nani e o Wendell, concluída com remate do segundo ao poste.

O 3x5x2 do Belenenses que se tinha vindo a transformar num autocarro, estacionou de vez na segunda parte, não se registando nenhuma saída para o ataque ou contra-ataque em condições. O Sporting tentava pressionar alto, mas os jogadores do Belenenses conseguiram sempre, com maior ou menor dificuldade, não perder nenhuma bola próximo da sua área. A insistência era inversamente proporcional à imaginação pelo meio e aos desequilíbrios nas laterais e, assim, o Bas Dost nem a bola cheirava, entalado como estava entre três centrais. Mas, há sempre um mas, por uma vez o Gudelj decide fazer um passe para a frente, o Nani recebe a bola e passa-a de primeira para o Diaby que, à entrada da área, a segura enquanto vai chamando pelo Bruno Gaspar. Chamou uma, chamou duas, até que à terceira lhe enviou uma mensagem por WhatsApp: “Bruno, não te importas de te desmarcar pelo lado direito para te passar a bola. Era um favor que me fazias. Atenciosamente, Diaby”. Por educação, o Bruno Gaspar correspondeu ao pedido e concluiu a jogada, seguindo as orientações que lhe tinham sido transmitidas na primeira parte pelo treinador quando o chamou ao banco de suplentes para lhe dizer: “se não sabes fazer um centro ou um remate, então faz um centro-remate” (o André Almeida tem vindo a desenvolver esta técnica com resultados assinaláveis, valendo-lhe candidatura para Prémio Puskas). Como se viu em “slow motion”, a forma hábil como pontapeou a bola por baixo e do seu lado direito permitiu que ganhasse um tal efeito que tanto se podia considerar um passe para a barriga do Miguel Luís ou a cabeça do Bas Dost, que estavam mais à frente, como um remate dirigido à cabeça do defesa para nela a bola tabelar e entrar junto ao poste mais longe. 

Depois do um a zero e das obrigatórias substituições do Nani e do Wendell, que se encontravam por um fio, o Marcel Keizer resolveu aproveitar o trabalho do José Peseiro, como tinha vaticinado o Silas. A equipa ficou como um tolo no meio da ponte: não sabia se devia atacar e fechar o resultado ou defender o um a zero. O público de Alvalade, experiente, sabendo que o perigo estava ao virar da esquina, insistia para que se continuasse a atacar. Tanto insistiu que, depois de receber a bola à entrada da área e da cerimónia da defesa do Belenenses, o Miguel Luís enfiou-lhe uma pantufada que só parou dentro da baliza, deixando o seu avô lavado em lágrimas, como se soube mais tarde. O dois a zero é um resultado perigoso e mais perigoso é quando se trata do Sporting. O Gudlej continuava a perder bolas e a marcar os adversários com o olhar (ao menos que faça como o Jonas e lhes atire os atacadores das chuteiras às fuças, como relatou a SporTv no jogo do Benfica contra o Portimonense). Sem pressão, os defesas e os médios do Belenenses tinham todo o tempo e espaço do mundo para meter a bola nas costas da defesa para as diagonais dos avançado e, num desses lançamentos, o Licá ficou isolado do lado esquerdo. O Coates ainda correu para a defesa mas, vendo que se tratava deste internacional português e que o Mathieu se encontrava por perto, desistiu e quando acordou para a vida era tarde. O Licá, depois de se atrapalhar, acabou por passar a bola para dois ciclistas que vinham a toda a brida, o primeiro rematou para defesa do Renan Ribeiro, acabando o segundo por fazer a recarga para o dois a um, cumprindo a máxima do nosso treinador: o jogo não é jogo se não sofrermos pelo menos um golo.

Tudo está bem quando acaba bem, seria este o final deste jogo e desta crónica. Mas eles andam por todo o lado. Infiltram-se onde menos se espera. Saindo debaixo da terra, como de costume, um deles perguntou ao Marcel Keizer na conferência de imprensa se o despedimento do Rui Vitória podia produzir o mesmo efeito do despedimento do José Peseiro. O homem, em vez de responder com o correspondente: “O que é que tenho a ver com essa m****?!”; disse umas coisas que nem ele próprio percebeu, enquanto se esquivava de uma insistência por palavras ínvias. 

O Benfica, sempre o Benfica. Na televisão, o despedimento do Rui Vitória foi analisado como se tratasse da votação no parlamento inglês do acordo do Reino Unido com a União Europeia para o Brexit. Depois de uma noite de insónia, o Luís Filipe Vieira viu uma luz e prometeu ao Rui Vitória que não o despediria. Foi a fé que o iluminou. As religiões foram construídas a partir deste tipo de enigmas (ou de milagres, na linguagem mais canónica). Os textos sagrados estão repletos de relatos como este (quem não se lembra da epopeia de Melchior, Baltasar e Gaspar sem ajuda do Google Maps). A fé não se explica. Ou se tem ou não se tem, ou se é racional ou se tem fé (ainda se pode admitir que depois de atos racionais sem sucesso se possa ter que confiar na fé, mas nunca o contrário). Não se pode vir um dia metaforicamente afirmar que se falou com Deus para dias depois se corrigir, fazendo de conta que tudo não passou de um simples engano e a luz se tratava da Alexandra Solnado com uma lanterna a tentar comunicar em Código Morse. Espera-se adequado comunicado da Santa Sé ou, pelo menos, do Patriarcado de Lisboa. Da Associação Nacional de Treinadores espera-se tanto ou mais. Depois de uma promessa destas, não se compreende que se despeça um treinador à falsa fé.

17 comentários:

  1. Caro Rui,

    Absolutamente brilhante. Depois de umas quantas gargalhadas desejo-lhe um excelente 2019.

    De facto Silas é um visionário e se houve jogo com dedo do Peseiro foi este. Valeu o golo do Miguel Luís e a sua descrição do golo do Bruno Gaspar.

    Quanto ao que se passa do lado de lá da estrada nada a dizer. Boa sorte para eles com os milagres e as luzes, agora que Deus os livre de contratar um treinador estrangeiro... aqui em Portugal o futebol tem uma espécie estranha de xenofobia seletiva, apenas aplicável a treinadores!

    SL

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    1. Caso venha um treinador estrangeiro para o c@rnide, isso dos treinadores portugueses prestarem para alguma coisa passa a mito. Logo.

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    2. Obrigado João e bom ano de 2019!

      Acho que a primeira parte não foi tão má quanto isso. O Belenenses deu boa réplica nesse período. O jogo foi emotivo. Na segunda, passou-se ao autocarro e depois do um a zero a equipa começou a duvidar. Aí sim estivemos no nível Peseiro.

      Quanto ao treinador e respondendo também ao conana, aparentemente os negócios não são feitos na City de Londres e, portanto, quanto muito pode ser brasileiro para o LVF se entender com ele.

      SL

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  2. ahahahahaha, gostei bastante desta pérola.

    Um bom ano para si

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    1. Meu caro,

      Temos de nos rir, dos nossos e dos outros. Faz bem. Desopila como dizia a minha avó.

      Bom ano de 2019!

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  3. Hesito em dizer que foi o Belenenses que fez um bom jogo ou o Sporting que fez um jogo medíocre+ (ou suficiente-). A ausência de Bruno Fernandes, o nosso melhor jogador, não pode explicar a exibição titubeante. Bem sei que Nani e Wendel vinham de lesão e que continuamos a jogar sem laterais, um, o Bruno Gaspar, consistentemente medíocre e o outro, Acuna, alternando as boas jogadas com disparates. Valeu o resultado e o golo de Miguel Luís que nos faz acreditar que, afinal, em Alcochete há mais talento para além de Jovane. Para quando um programa da Tvi acerca das promessas do Sporting como fizeram (e repetiram, pelo menos uma vez)para os craques (to be) dos encarnados? Bem, para isso seria, porventura, necessário pagar a esses mercenários. Ou então é uma questão dos atacadores, embora aí me pareça que os tontos da Sport Tv não sejam avençados do Slb, são apenas idiotas.

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    1. Meu caro,

      Acho que o Belenenses fez uma boa primeira parte. Com o meio-campo bem protegido e sobretudo a parte frontal, eram precisos laterais que se desequilibrassem mais. O Bruno Gaspar não é desses apesar do golo ainda agora não sabe como é que o marcou.

      Também tenho a mesma impressão da SporTv, com excepção de um outro caso clínico. Noutras TV, trata-se de linha editorial, bem como nos jornais do costume. aliás, nem disfarçam.

      SL

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  4. Primeiro, os votos sinceros de um bom ano; depois, concordando com a generalidade do seu post, já não posso concordar com as referências ao Vieira.

    Que temos nós a ver com o Vieira dar à luz? Foi ele disse, bem sei, mas é problema dele! Que dê à luz quantas vezes quiser, é problema dele, ora essa!

    Bem sei que não é o pai das toupeiras pois, até ver, são de pai incógnito, embora já conste por aí que o Paulinho (o Gonçalves) ia assumir a paternidade - o que não surpreende, o homem habituou-se ao xadrês do Boavista, agora deve querer experimentar o xadrês aí do Sul. Gostos!...

    Olhe, mais uma ves, bom ano para si e para A insustentável Leveza do Liedson.
    E também para todos os que por aqui passam.
    E para os sportinguistas em geral.
    Acima de tudo e todos, para o nosso Sporting Clube de Portugal.
    SL

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    1. Esqueci, a sério que esqueci uma pergunta:: desde quando é que os pasteis, seja em nossa casa, seja na deles, não são ressessos?
      A ideia que eu tenho é que só muito raramente nos aparecem frescos e, vá lá, ao menos isso, raras vezes estão intragáveis.

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    2. Meu caro,

      Eles é que vão às nossas conferências de imprensa falar deles. Isso e só por isso é que nos leva a falar deles.

      Bom ano de 2019!

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  5. Outro texto impagável, caro Rui Monteiro.

    Saudações Leoninas e um Excelente 2019!
    JHC

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  6. Adorei seu texto.
    Obrigada
    Saudações

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  7. Sabe bem, num sabado, ler o Expresso e as crónicas do Rui Monteiro. Extraordinário. Fez mais do que Picasso, "pintou" o jogo.
    O golo de Gaspar foi às duas tabelas por falta do 3º para tabelar. Que continue a não jogar pívia mas a marcar e na proxima segunda feira dia de Reis , terá nova oportunidade.
    Bom Ano

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    1. Disseram-me, cá em casa, que o dia de Reis é amanhã. Que Baltazar, queria dizer Gaspar não se empanturre amanhã e que continue a marcar, as 2,3,4,4, n tabelas. Desde que entre!!!!

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    2. Meu caro.

      Obrigado. O Gaspar queria tabelar no poste também. Faltou um pouco de precisão como se notou.

      SL

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