sexta-feira, 13 de julho de 2018

Do dilema dos jogadores e do Bruno de Carvalho ao equilíbrio de Sousa Cintra

Entre ontem e hoje, conversas e leitura improváveis levaram-me à teoria dos jogos e à história da vida de John Nash (magnificamente interpretado por Russell Crowe no filme “Uma Mente Brilhante”). Quando acontecem coisas improváveis o Sporting acaba por estar sempre envolvido. Por isso, entre as conversas e as leituras misturou-se o processo de rescisão dos jogadores do Sporting.

Existe um “dilema do prisioneiro” sempre que os agentes ao privilegiarem os seus interesses próprios não conseguem o melhor resultado possível nas suas interações. Vamos admitir que os jogadores do Sporting têm o firme propósito de não negociar, incentivados pelo Mendes e pelo Sindicato no contexto das embrulhadas que tanto caraterizam o futebol português e pelo dinheiro que vão ganhar em outros clubes entre salários e prémios de assinatura (muito superior ao que seria se se tratasse de uma transferência). Do outro lado estava o Bruno de Carvalho no estilo “quantos são?!” que caracterizava o Valentim Loureiro, disponível a levar estes processos até às últimas consequências, esmifrando os jogadores e os clubes que os contratassem até ao último cêntimo para resgatar a honra sportinguista. O jogo pode ser sistematizado no quadro abaixo.

SCP/Jogadores
Negociar
Não negociar
Negociar
(100, 100)
(0,150)
Não negociar
(150,0)
(0,0)

O resultado seria o de todos os envolvidos rejeitarem a negociação, perdendo todos. O Sporting veria arrastar a situação nos tribunais sem fim à vista, com prejuízos na sua situação patrimonial e financeira e na liquidez no curto e médio prazos e na constituição de uma equipa competitiva para disputar o campeonato. Os jogadores, por sua vez, apanhariam com os Sérvulos Correias desta vida que não brincam às “minutas” e ficariam sempre com uma espada sobre o pescoço que os poderia levar à suspensão da atividade e ao pagamento de elevadas indemnizações. Este seria o “equilíbrio de Nash” ou, mais concretamente, o “equilíbrio de Bruno de Carvalho”.

Vamos admitir, agora, que os jogadores estavam de boa-fé e que a rescisão resultava exclusivamente de se sentirem vítimas de assédio moral do Bruno de Carvalho e de violência dos encapuçados e das claques. Sabiam que, saindo o Bruno de Carvalho, tinham todas as razões para negociar com o Sporting. Mesmo que o Sporting não quisesse negociar ficaria clara a sua boa-fé e a sua razão para a rescisão e em qualquer tribunal ser-lhe-ia reconhecida efetiva justa causa. Admite-se que o Sporting estava de boa-fé também e que, com a saída do Bruno de Carvalho, estava disposto a garantir a segurança dos jogadores e a eliminar comportamentos de assédio moral. Também sabiam que ao se disponibilizar para assegurar estas condições, os jogadores estariam em muito más condições para vencerem o contencioso que não seria do seu interesse. Nestes termos, o jogo pode ser sistematizado no quadro abaixo.

SCP/Jogadores
Negociar
Não negociar
Negociar
(100, 100)
(0,0)
Não negociar
(0,0)
(0,0)

O resultado agora seria a cooperação entre os agentes e o estabelecimento de um acordo que assegurasse a resolução do potencial contencioso jurídico, ganhando ambos os lados. Os jogadores poderiam seguir a sua carreira no Sporting ou noutro clube tranquilamente e o Sporting com esses jogadores ou com os recursos das suas vendas asseguraria uma equipa competitiva para disputar o campeonato. Este seria o novo “equilíbrio de Nash” ou, mais concretamente, o “equilíbrio de Sousa Cintra”.

Vistas as coisas deste modo, é preferível o “equilíbrio de Sousa Cintra” ao “equilíbrio de Bruno de Carvalho”. No entanto, o que se dispensa é um “equilíbrio de Jorge Mendes”, em que ficamos atolados em pernetas que só geram prejuízos. Se é para ser assim, é preferível deixar sair o Gelson Martins a custo zero a ter de ficar com uns tantos Andrés Moreiras para a troca. É que esse tipo de teoria de jogos é tão complexo que nem o John Nash seria capaz de formular um qualquer equilíbrio em condições.

terça-feira, 10 de julho de 2018

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Em exclusivo


Jornalistas em Turim. Directos de Turim. Jornalistas em Madrid. Em directo. Jornalistas na Suíça (chega o Sporting). Em directo. Jornalistas em Tróia (não confundir com a antiguidade clássica). Directos. Jornalistas na Rússia (ainda mexe). Directos e diferidos. Jornalistas na Tailândia (por skype – digo eu). Jornalistas no canal história reconstroem a nossa saudade. Programas da bola e sem bola (atacar sem bola é uma arte). Onde andará o Presidente da República que ninguém o vê?

E o resto? Não temos directos disso…

domingo, 8 de julho de 2018

O caminho marítimo para Alvalade...


De importantes encaixes rumina a actualidade. E a actualidade, bem o sabemos, caminha para a velhice a cada passo televisivo. Faz parte do espectáculo envelhecer precocemente. Ainda ontem (por aí…) era necessária, imperiosa mesmo, uma comissão de gestão, votada televisivamente por todos os comentadores (vamos assim chamar-lhes) e, já agora, por mais de 70% dos sócios que foram à assembleia geral, assembleia essa, não tarda nada, longínqua, tão longínqua como as nossas intrépidas descobertas (parece que não é de bom tom assim as denominar na actualidade líquida).

Veio a comissão foi-se um treinador. E bem, assim seja. Veio outro treinador a reboque do possível nestes casos. Entretanto, perfilam-se milhares de candidatos ao lugar que (supostamente) ninguém deveria querer, o de Capitão, estando por lá uma comissão ao agrado de todos, embora de passagem e sem bilhete para a tormenta. Prometem-nos já, esses (novos) candidatos de minúcias tranquilas, novas andanças, com a nau já a dobrar outras tormentas em doca seca. Mais treinadores aguardarão no porão, junto com as - desculpem lá - ratazanas.

Tudo a bem da renegociação, da revisão, do planeamento, da estratégia vindoura. Certo como chegarmos a uma nova Índia sem sairmos de Sagres. Com este arranjo musical, não será difícil afastar, não apenas, os desavindos em rescisão, como dificultar novas contratações para o navio. Avistam-se os velhos de Alvalade, por assim dizer. Do Restelo já não rezam as crónicas.

Melhor equipa mundial


sábado, 7 de julho de 2018

Viva o Mundial!

Com o começo do mundial tenho andado entretido a ver o melhor do futebol - os jogos - aproveitando para tentar passar ao lado do pior - o que os seus interveniente e os que os rodeiam fazem e dizem fora de campo. E confesso que não me estou a dar mal com esta opção!

Este mundial tem sido fantástico, com muitos golos e muita incerteza. Ele são campeões a perder na fase de grupos, tomba gigantes que falam Russo ou Sueco, vedetas que não ganham nada, campeões dos seus continentes que nem se apuram e de outros continentes que se apuram depois de sofrerem a bem sofrer com 'gigantescos' Iranianos...

E com isto dei comigo a pensar na Champions League e na sua falta de imprevisibilidade. Não sou de papar estatísticas, mas gostava de saber quando foi a última vez (se é que alguma) em que o campeão em título perdeu na fase de grupos. Nessa fase de grupos em que é raro equipa do Pote 1 e 2 não se qualificar (nos últimos anos das 16 que passam a fase de grupos normalmente vêm umas 13 ou 14 desses dois potes, ficando para perceber que raio de prova de 'eliminatórias' é esta!). Ainda assim, aproveitei que estes dias já há menos jogos e olhei para os últimos 4 anos - desde o último Mundial - e (se não meti os pés pelas mãos no wikipedia) observei que tirando um 'caso estranho' Francês à dois anos apenas temos clubes Espanhóis, Italianos, Alemães e Ingleses nas meias finais (i.e. 16 equipas, uma excepção); se alargarmos aos quartos de final, em 4 anos aparecem três casos estranhos, os ditos Franceses e os "feitos" de Benfica e Porto. Três vezes. Quatro anos - 32 equipas nos 'quartos' - 3 excepções, menos de 10%!

Pouco, muito pouco. A Champions é hoje a antítese do Mundial: uma competição com uma fase de grupos quase sem surpresas, e em que apenas clubes dos 4 grandes campeonatos têm verdadeiras hipóteses de ganhar. Até se descobrir quem desses países vai às meias finais andam todos os outros muito excitados a fingir que futebol não é ganhar títulos mas sim dinheiro.

Será que a UEFA está preocupada? Sabemos que alterou as regras de distribuição de receitas mas para beneficiar... os incumbentes! Palpita-me que o Mundial vai deixar saudades...

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Declarações de amor e lágrimas de crocodilo

O Rui Patrício escreveu aos sócios e adeptos do Sporting uma mensagem de despedida. Verteu umas tantas lágrimas (de crocodilo?), pediu compreensão e declarou-se sportinguista até que a voz lhe doa. Nesta era da comunicação e das redes sociais, não se consegue avalizar a autenticidade. Prefiro acreditar. É mais conveniente acreditar para não ficar com o sentimento de perda.

Sabemos somente uma coisa: depois do “post” relativo ao jogo contra o Atlético de Madrid e do levantamento de rancho dos jogadores, o Rui Patrício e o William Carvalho foram os jogadores mais visados pelo Presidente do Sporting e pelos adeptos e sócios a ele mais afectos. Ouviu-se e leu-se de tudo e mais um par de botas. De repente, os mesmos que o elegeram como alvo consideraram-se traídos com a rescisão. Eles amavam-no e ele traiu-os.

Estas declarações de amor soam mais a falso do que as eventuais lágrimas de crocodilo. Nunca amamos verdadeiramente os jogadores enquanto pessoas. Só amamos aqueles que são bons jogadores. Amámos o Rui Patrício porque ele era bom guarda-redes e tão só. Quando a espuma dos dias passar, continuaremos a amá-lo na mesma enquanto pela nossa memória passar, por exemplo, a defesa ao cabeceamento do Higuaín no último jogo contra a Juventus. Os ídolos são assim, têm a capacidade de se libertar da pessoa que são pelo menos na nossa cabeça.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Eu também sou candidato e prometo falhar


Em pouco mais de um mês passamos do fim do mundo para a circulação de bo(r)la. Com gosto, continuamos a marcar na própria baliza: proponho uma escola de formação em auto-golos. Com gosto, continuamos a escancarar as portas de casa, uns era no faice, outros é a dar a outra face em qualquer ecrã por perto: proponho uma casa dos segredos à vista de todos. Com gosto, continuamos a negociar com a imprensa, com a praça pública, com os comentadeiros a soldo da justiça (dizem-nos): proponho uma residência artística para trabalharmos estas temáticas ainda mais em conjunto. Com gosto, e requinte, negociamos com esses empreendedores que representam os jogadores que por eles são (supostamente) representados, ou familiares que representam jogadores por eles paridos, não necessariamente por esta ordem: proponho contratos de palavra dada, almoçaradas entre gente de bem, e quando alguém se sentir afrontado poderá livremente seguir o seu caminho.

Proponho o livre mercado desde que não prejudique os clubes rivais, apenas o nosso, se for caso disso. Proponho uma nova academia do quase, a criação de um falhódromo, uma SAD cuja abertura a CMVM distinga com um pontapé bem assente no nosso cu. Proponho um rugido mais baixo para não incomodar ninguém. Proponho uma tríade de treinadores que englobe o (tal) que já foi, o (tal) que aqui está e o outro que certamente virá no sorteio de Setembro. Proponho a redução do número de lugares disponíveis no estádio, para não termos que passar outra vez pela humilhação de ter uma média de espectadores superior à do campeão nacional. Proponho-me prometer uma cláusula de assistência às variantes psicológicas que possam, de alguma forma, perturbar o livre arbítrio dos profissionais do nosso clube, mas apenas no futebol. Aos outros digo: prometam falhar. Sem isso não se ganha.

A boataria e o palpite como principais desportos nacionais

O espaço público (desportivo) está transformado numa lixeira a céu aberto. Há mesmo um programa na TVI que se dedica dia após dia à boataria, sem que os seus intervenientes sinta o menor incómodo quando é desmentido na hora. Basta dizer que se têm “fontes” para se poder afirmar o que quer que seja, com um ar sério e grave. Que os próprios não tenham vergonha, não espanta ninguém. Que a Entidade Reguladora da Comunicação Social nada faça é que nos envergonha também e o caso fia mais fino.

Falar de bola é para todos, dado que todos veem jogos de futebol. Não os habilita a falar como especialistas (treinadores, jogadores, académicos, etc), mas habilita-os a falar como espectadores e adeptos. Não vem daqui nenhum mal ao mundo. O problema é que todos falam de assuntos sobre os quais o mero estatuto de espectador ou de adepto não os habilita. De repente, todos têm opinião sobre justas causas na rescisão de contratos de trabalho. De repente, todos estão habilitados a falar de estatutos e de procedimento administrativo. De repente, todos passaram a especialistas em análise económica e financeira de empresas. De repente, todos parecem “brokers” de Wall Street.

Quando estou doente, prefiro ir a um médico do que a um programa na TVI ou na CMTV. Começo a pensar que estou errado. Espero que a TSF faça um “fórum” sobre este tema. Se a maioria pender para os programas de televisão, por mim, o Serviço Nacional de Saúde tem os dias contados.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Quantos mais minutos de tédio teremos de suportar até se alterarem as regras?!

Há treinadores que exploram as regras do futebol até ao limite e, por essa razão, são considerados verdadeiros génios da modalidade. Num primeiro momento, a novidade produz resultados e gera adeptos e seguidores. Rapidamente aparecem as cópias, mais ou menos fidedignas, mas ou menos de contrafação. O futebol deixa de ser bola e baliza para passar a ser um emaranhado tático insuportável que só os Carlos Danieis e os Freitas Lobos desta vida apreciam, dado que só os génios do comentário podem perceber os génios da tática. Quase sempre, esses génios aproveitam as regras e montam dispositivos táticos para delas tirarem máximo partido e assim impedirem os adversários de jogar. Do desgaste físico e anímico dos adversários até à sua desmoralização completa vai um passo, restando depois dar-lhes tantas estocadas quanto as necessárias até à humilhação final.

O primeiro que me lembro foi o Arrigo Sacchi. A pressão do meio-campo e a movimentação da defesa orientada por Baresi deixavam sistematicamente os adversários em fora-de-jogo. Ou as desmarcações e os passes eram efetuados num “timing” perfeito ou havia sempre alguém que ficava em fora-de-jogo posicional, pelo menos. A esta forma de defender associava-se a exuberância atacante de extraordinários avançados como Gullit e Van Basten que ao reluzirem nos faziam pensar que estávamos em presença de ouro. As regras tiveram de ser alteradas, acabando-se com o fora-de-jogo posicional, para que o futebol não se transformasse num aborrecimento pegado.

Mais recentemente apareceu o Guardiola e o “tiki-taka” do Barcelona. A estratégia é a mesma do Sacchi: impedir que o adversário jogue e fazê-lo de tal forma que o leve à desmoralização. A ideia é simples, embora necessite de bons executantes. Se a equipa tiver a bola todo o tempo, não resta outra alternativa ao adversário que não seja a de correr atrás dela até se desgastar física e psicologicamente. É andebol jogado com os pés, mas sem jogo passivo. Os jogadores vão passando a bola entre si, procurando rodear o adversário. Na dúvida, ninguém arrisca o um contra um; na dúvida, é preferível passar para trás do que perder a bola; na dúvida, só se arrisca quando se tem superioridade na zona onde a bola se disputa. Para marcar golo, espera-se uma desatenção do adversário ou coloca-se o Messi em condições e acelerar o jogo e desequilibrar a defesa. O Messi fazia a mesma alquimia do Gullit e do Van Basten.

Esta forma de jogar tem sido exportada para os diversos cantos do Mundo por onde o Guardiola vai passando. O estatuto que adquiriu no Barcelona permitiu-lhe escolher as equipas e os jogadores que quer treinar: um género de Jorge Jesus mas em melhor e mais caro. Tudo lhe é concedido e permitido, apesar dos resultados estarem muito longe daqueles que obteve com o Messi. Vemos alemães a trocar a bola entre si como se tivessem menos meio metro e menos trinta quilos do que têm ou o “kick and rush” inglês transformado num entusiasmante Karpov vs Kasparov permanente.

Em Espanha, pátria deste aborto futebolístico, decidiu-se refinar este modo de jogar mas sem o Messi. O resultado foi o fastidioso jogo contra a Rússia. Em duas horas de jogo, a seleção de Espanha teve a bola mais de noventa minutos, sem que tivesse conseguido melhor do que um autogolo, marcado com o calcanhar de um central que estava em queda agarrado ao Sérgio Ramos e de costas para a bola. Não tenho dúvidas, que o desconhecimento do lugar onde estão as balizas e do papel do guarda-redes adversários na sua defesa foram decisivos para a derrota nos “penalties”. Podemos deixar as coisas como estão e acreditar na justiça divina, que deve estar a ser aconselhada pelo Bobby Robson e pelo Johan Cruijff. O problema são os cento e vinte minutos de puro e simples tédio. Está na altura de alterar as regras outra vez: estabeleça-se um tempo máximo de ataque ou defina-se uma linha qualquer a partir da qual a bola não possa voltar para trás depois de a ultrapassar.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Ela dá pra qualquer um, Maldita Geni!

Há um amor não correspondido no futebol pós-capitalista. Quanto mais fanáticos são os adeptos, menos jogadores do clube existem. Tudo isto, porque ser rico é agora a aspiração natural de todo o jogador moderno, e ser fanático é o novo normal para os pobres deste colégio interno. Este amor incorrespondido dissimula-se nas vitórias, mas é uma sarjeta nas derrotas. 

As academias são já apenas aviários. Pais & Filhos esperam da engorda uma outra vida, que a puta da vida não lhes deu. Sociedades, como a Vieira & Mendes, esperam apenas embalar estropícios a 15 milhões,  couverts com coxas de Gonçalves ou asas de Varela.

O Sporting, por agora, tem apenas uma fábrica de embalar desilusões, onde toda a causa nos querem fazer crer como justa e toda a maçã parece nascer com bicho. Pelo caminho fica um rasto de desamor e traição.

Aurélio, o velho Aurélio, que  nem Gepeto, continua a fazer-nos sonhos. Não nos importamos de os vender, desde que fiquem bem colocados no campeonato dos vendidos e alimentem o nosso amor platónico, ronronando numa qualquer rede social. Não gostamos é que nos arranhem, que desapareçam, que fujam para casa da mãe, mesmo que lhes mandem pedras, porque eles são bons é de apanhar.

De todas as implicações deste desencontro, a financeira é a menos importante. Trata-se da morte da nossa identidade comum. Sem ídolos, ela não existe. Sem mitos, já nada temos a dar ao futuro. Explica-se, também por isso, a guerra fratricida que hoje grassa. Calou-se o grito em uníssono pelo “Rui” e já só se ouve um marulhar desavindo.  Perdemos o Olimpo e sem Olimpo, não somos Atenienses, nem Gregos. Somos cidadãos sem mundo, estranhos aos nossos comuns. Comuns, aos que nos deviam ser estranhos.

Mas mesmo no futebol pós-capitalista o amor não cessa e também não aprende. Por cada Leão que partir, outro Matheus se levantará. Até que a incúria propicie uma nova deserção, ou o saber e a tenacidade permitam nova riqueza num outro leilão. Mas quando o Matheus se levantar, sei que seremos novamente Atenienses, independentemente de quem se sente na tribuna ou no banco. É o nosso destino coletivo, que renasce a toda a nova época e que nunca acabará.

domingo, 1 de julho de 2018

"Um bom ser humano"*

Sendo um ano de transição tínhamos que assegurar uma certa tranquilidade. Não podíamos correr riscos de ganhar. Nesse sentido, não sendo Carlos Queiroz ou Paulo Bento (J Jesus também servia), tinha que ser forçosamente Pé frio, quero dizer, Peseiro. A falhar é que nos entendemos.
(comentário meu na posta anterior)

*Sousa Cintra, hoje, na apresentação de José Peseiro.

Entretanto...

sábado, 30 de junho de 2018

O Mundial acabou: queríamos um Davy Crockett vs Buffalo Bill e ficámos com um Fernando Pessoa vs Homem Aranha

No Europeu, o Fernando Santos limitava-se a transmitir a mensagem do Senhor. A transmissão era simples direta e ninguém precisava de um teólogo para ficar a saber o que se ia passar. No Mundial, começou a falar como se fosse o Senhor ou o filho dele, o que é a mesma coisa. Começou a falar por parábolas. A parábola do neto não se percebeu. Não se percebeu se ele simplesmente estava com saudades do neto e o neto dele ou se a vinda dele era o anunciar de alguma coisa mais.

A intervenção do vídeo-árbitro no jogo contra o Irão e da Espanha contra Marrocos parecia uma coisa mas terrena, da FIFA, dos “vouchers”, dos emails. Mesmo assim, procurei ver mão divina a escrever direito por linhas tortas. A vitória da Argentina contra a Nigéria com um golo da Rojo a acabar o jogo parecia essa mão, a mesma mão que permitiu ao Maradona resgatar a honra perdida dos argentinos na guerra das Malvinas. Deus queria um Messi vs Ronaldo nos quartos-de-final. Queria Deus e queria o Mundo todo.

A meio da tarde, com a derrota da Argentina contra a França, percebi que de Deus não andava pela Rússia. A andar alguma coisa seria a FIFA ou agentes do ex-KGB. Não havia parábola, não havia nada. Só havia saudades que é o que nos distingue como povo. Estava conformado quando comecei a ver o jogo.

Começámos a perder, sobretudo a perder a sorte. A troca do Cédric pelo Ricardo Pereira deu azar. Cavani vira de flanco, Suárez domina a bola, vai para cima do Ricardo Pereira, sai pela direita e centra ao segundo poste para o Cavani com o peito, o ombro, o pescoço e o queixo a meter lá dentro. Não nos desmanchámos e continuámos a jogar como se nada fosse e tivéssemos até à eternidade para marcar um golo. Num livre, o Suárez ia-a metendo lá dentro outra vez, valendo-nos São Patrício. Procurei acreditar que pudesse haver mais intervenção divina à espreita.

Na segunda parte, continuámos na mesma como a lesma. Quem viu jogar o Sporting esta época sabe que aquele “tiki-taka” ou não leva a lado nenhum ou leva a um nervosos miudinho permanente até se chegar ao chuveirinho dos últimos minutos com a equipa toda dentro da área adversária à espera de um milagre. O milagre chegou mais cedo do que o previsto e sem necessidade de se entrar em modo de desespero. Canto do lado esquerdo, Raphael Guerreiro centra para a molhada, o Cristiano Ronaldo salta à bola, os dois centrais tentam abafá-lo, aparecendo o jovem Pepe nas costas a cabecear para o golo.

O divino que se tinha anunciado através de São Patrício parecia estar mais presente do que nunca. Engano meu. Biqueirada do Uruguai para a frente, o Pepe falha o corte de cabeça, a bola sobra para os jogadores do Uruguai que em três toques deixaram o Cavani isolado do lado direito para rematar com precisão sem hipóteses de defesa, ficando o Ricardo Pereira a meio caminho de fazer qualquer coisa e a acabar a marcar o avançado com os olhos. Quando se falham cortes de cabeça e os remates vão bem colocados, Deus deixa de se interessar pelo resultado final e o Mundo segue a sua desordem natural.

Reagimos como se esperava. Metemos o Quaresma na expetativa que a defesa do Uruguai ficasse com um olho no burro e outro no cigano. Mas não estando o Carlos Queiroz ficaram com os dois olhos no cigano (desculpa Quaresma!). Não restava outra alternativa que não fosse meter um ponta-de-lança. A custo, o Fernando Santos acabou por meter o André Silva. Era pouco, como sabíamos. Só criámos alguma confusão e aparência de perigo quando metemos o Pepe na área nos últimos minutos, sem que antes o Bernardo Silva bem acompanhado pelo William Carvalho e outros que por ali andavam fizessem o favor de queimar tempo com transportes de bola sem adversários pela frente e passes e mais passes até se lembrarem de meter a bola na área.

O Mundial acabou. O Mundo todo esperava um Messi vs Ronaldo. Vão ter um Cavani vs Giroud. Em vez de um Keynes vs Hayek, ou de um Mário Soares vs Álvaro Cunhal ou de um Davy Crockett vs Buffalo Bill, vão ter um César das Neves vs Mário Centeno, um António José Seguro vs Pedro Passos Coelho ou um Fernando Pessoa vs Homem Aranha. Quem é que quer assistir a uma coisa destas? Ninguém me tira da cabeça que isto está tudo feito para a vitória dos russos. É que nem Deus se atreve a meter-se com a FIFA, o Putin e os serviços secretos russos.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

A política de Bruno de Carvalho ou a política e o Bruno de Carvalho

Há dias, o Rui Tavares na sua crónica no Público afirmava que o tempo de exposição mediática do Bruno de Carvalho no último mês antes da Assembleia Geral tinha sido de cerca de mil horas. Não há acontecimento que se assemelhe, tufão, terramoto ou guerra. É um sinal inequívoco de uma doença qualquer que nos afeta coletivamente.

Para não ficar deprimido, tendo a procurar explicações mais (i)lógicas. A agenda mediática no ano passado foi dominada pela tragédia dos incêndios. O Governo teve de ser remodelado, para dar conveniente resposta política. O Eduardo Cabrita foi nomeado Ministro da Administração Interna. Quem o conhece, sabe bem que com ele nada se passa, nada acontece. Adormece-se a si próprios e adormece-nos tão bem que a própria realidade fica adormecida. Transporta tudo e todos para a "twilight zone".

A agenda mediática do Bruno de Carvalho tem tudo a ver com esta (não) opção política. É melhor para este efeito do que o próprio Campeonato do Mundo. Involuntariamente este ano não vai haver incêndios, pelo menos mediaticamente. Se houver, não tenham dúvidas que a Proteção Civil não só nos vai avisar de qualquer risco como também da próxima conferência de imprensa ou do último “post” do Bruno de Carvalho.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Para desenjoar

[Combinações có(s)micas]
No Europeu, um golo no último minuto da Islândia colocou-nos do lado (aparentemente) certo do sorteio. No Mundial, no último minuto, o Irão marcou e a Espanha também e há quem diga que ficámos (aparentemente) do lado errado do sorteio. Prognósticos só no fim dos jogos: hoje sabemos que ficámos do lado certo no Europeu, mas ainda não sabemos se ficámos do lado errado do Mundial. Com o Santos, estas combinações có(s)micas acontecem e não são por acaso.

[Google Sport Club]
“Na Luz fazem-se tantas buscas como no Google”, foi a mensagem que recebi antes de chegar a casa. Depois dos árbitros, vêm os clubes pequenos e as contratações de pernetas que passam pela Luz à velocidade correspondente. A vergonha passou a anedota, continuando a Federação Portuguesa de Futebol ou a Liga Portuguesa a não fazerem seja o for. Aproxima-se mais um campeonato em que ninguém de bom senso acredita no que se passar em campo. Estava-me a esquecer: a comunicação social continua a falar do Bruno de Carvalho e do Sporting.

[E o burro sou eu?!]
Faltando a uma reunião de quadros (?), Luís Filipe Vieira deu uma conferência de imprensa. A culpa das buscas não é do Benfica. As denúncias são do Porto; os juízes são os do Porto; a Polícia Judiciária é a do Porto. Não nasci no Porto, não vivo no Porto, mas trabalho no Porto há muitos anos e com todo o gosto. O insulto aos portistas e portuenses é uma vergonha para os benfiquistas (decentes) e devia ser repudiado pelos portugueses e seus representantes políticos (não sei se o Luís Filipe Vieira sabe mas há benfiquistas no Porto e muitos). Claro que se está em presença do discurso de um senador e não de um arruaceiro. Estava-me a esquecer outra vez: a comunicação social continua a falar do Bruno de Carvalho e do Sporting.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Um choque de civilizações onde não faltaram Aiatolá Queiroz e São Fernando

Este jogo contra o Irão envolvia uma ironia (do destino): os iranianos consideram Carlos Queiroz um herói. Só um povo com uma fortíssima camada civilizacional, como o persa, seria capaz de vislumbrar a cabeça de um génio para além do risco ao meio e do bigode (ou da falta dele quando dele nunca precisou tanto como agora). Nós, que somos uns arraçados, tê-lo-íamos visto como um “handicap”. O que nos iria ser dado assistir não seria assim a uma disputa de bola mas a um choque de civilizações (ou de uma civilização contra uma coisa por onde todos passaram e deixaram uma miscelânea que ainda hoje ninguém se entende, a não ser nas Assembleias Gerais do Sporting).

O Irão joga num 4x5x1 com grande capacidade de desdobramento ofensivo quando contra-ataca. Nós, no Europeu, jogámos num 4x5x1 também mas com desdobramento ofensivo baseado no princípio “deixa-os andar que vão acabar por cair de maduros” ou, em linguagem técnica da teoria do desporto de alta competição ensinada nas melhores universidades, “só vamos a eles quando os pudermos apanhar com as calças nas mãos”. Neste Mundial, a forma precipitada como o Cristiano Ronaldo tem marcado golos está a deitar por terra esta tática e o seu aprimoramento que dura há décadas. À partida, táticas idênticas interpretadas por dois povos com culturas diferentes e dois treinadores com a mesma escola da manha e que se distinguem pelo enformo capilar.

Entrámos bem, para variar. O trivelas estava presente e era só preciso passar-lhe a bola. A bola foi para a área uma e outra vez e uma e outra vez entre os centrais e o guarda-redes as abébias foram-se sucedendo. O João Mário falhou uma oportunidade de golo de baliza aberta, chegando dois iranianos a vias de facto. Não marcámos e, como de costume, demos o berro ao fim de vinte minutos. O Irão organizou-se afinal num 6x4, com um deles a andar atrás do William Carvalho para obrigar a bola a sair pelos centrais. Quando ganhavam a bola, corriam como se não houvesse amanhã cheios de fé no seu destino e no Raphael Guerreiro. Começava a temer-se o pior quando chegou o momento “Melhor Academia do Mundo”: o Quaresma vem à linha, deixa a bola no Adrien para a receber mais à frente e avançar com ela até enfiar uma trivela ao ângulo. Onde estejam, o Paulo Bento e o Lopetegui devem estar orgulhosos pelo trabalho (bem) feito. O monumento foi erigido para lhes agradecer e para acabar com as vuvuzelas (os iranianos podem estar avançados no seu plano nuclear como o Trump afirma, mas no chinfrim levam quase dez anos de atraso).

No início da segunda parte íamos deitando tudo a perder. O Cristiano Ronaldo arrancou um par de fintas e foi abalroado dentro da área. A custo e uns tantos “frames” depois, o árbitro marcou “penalty”. Temeu-se o pior. Frio como o gelo, o Cristiano Ronaldo partiu para a bola e permitiu a defesa do guarda-redes, mantendo a possibilidade de chegarmos ao empate. Armados de vuvuzelas outra vez e liderados pelo Aiatolá Queiroz, os iranianos não mais nos deixaram as fuças e as canelas em paz. Os portugueses tremiam e o árbitro e o vídeo-árbitro ainda mais. Cada lance passou a ser disputado “frame” a “frame”. Repetição para cá, repetição para lá e sai amarelo para o Cristiano Ronaldo. Mais repetições e “penalty” arrancado a ferros, com o árbitro e o vídeo-árbitro a marcá-lo por temerem não sair dali com vida. O Fernando Santos pediu cabeça e, obediente, o Rui Patrício não desviou a bola com o olhar como devia. Finalmente o empate que tanto esperávamos.

Não tenho dúvidas que o Queiroz vai dizer que a culpa não é dele e que é necessário limpar toda a m**** da Federação Iraniana de Futebol, sem antes deixar de receber a indeminização do costume. O Fernando foi um santo e até permitiu o abraço do Aiatolá Queiroz, que não teve ainda a delicadeza de lhe agradecer a possibilidade de dar as instruções ao João Moutinho que se tinha esquecido no Mundial da África do Sul. Entretanto, a Espanha empatou e passou para primeiro do grupo. Passámos em segundo. É pena que não possamos passar em terceiro. Se passássemos e a continuar assim o título estava no papo.

(Como está o ambiente no Sporting, parece-me a contratação do Aiatolá Queiroz muito mais adequada do que a do Mihajlović. Tem jeito para animar Assembleias Gerais e não estranha pessoas que andam com lenços a tapar a cara)

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O voto

Amanhã, finalmente, realiza-se a Assembleia Geral para votação de proposta de destituição do Conselho Diretivo do Sporting.

Amanhã não se vota se gostamos ou não dos jogadores que rescindiram. Amanhã não se vota se gostamos mais dos “sportingados” ou dos “verdadeiros sportinguistas”. Amanhã não se vota se gostamos mais do “passado” ou do “presente”. Amanhã não se vota se gostamos ou não o Jaime Marta Soares. Amanhã não se vota se gostamos ou não das decisões dos tribunais. Amanhã não se vota se gostamos de uma “teoria” ou da sua contrária que procura explicar factos. Amanhã o voto não é um ato de gostar ou de não gostar, de amor ou de ódio.

Amanhã também não se vota se os cinco anos de mandato do Bruno de Carvalho foram positivos ou negativos: para isso os sócios votaram nas últimas eleições e mais recentemente em Assembleia Geral. Amanhã vota-se para que os sócios do Sporting possam decidir se consideram ou não responsável Bruno de Carvalho e o seu Conselho Diretivo pelos acontecimentos após essa Assembleia Geral que nos trouxeram até à necessidade de tomar esta decisão.

Quem votar contra, considera que é aceitável a situação que se vive e os atos ou a falta deles que a originaram, estando disponível para aceitar que tudo se possa repetir sem responsabilidade de quem dirige o clube.

Quem votar a favor, considera que não é aceitável a situação que se vive e os atos ou a falta deles que a originaram, não estando disponível para aceitar que tudo se possa repetir sem responsabilidade de quem dirige o clube.

Eu sou dos que não estou disposto a aceitar que tudo se possa repetir sem responsabilidade de quem dirige o clube, seja este o Conselho Diretivo ou outro qualquer. Não estou disposto aceitar no meu clube, no local onde trabalho, em minha casa, nas instituições que governam os portugueses. A exigência é sempre a mesma, de outra forma não estaria a respeitar o meu clube, o meu trabalho, a minha família ou a democracia e o estado de direito.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas


Bruno de Carvalho merece um juízo justo, despoluído do linchamento comunicacional a que foi sujeito nos últimos dois meses. Suficientemente justo, para se lhe reconhecer que a revogação do seu mandato não deve ser ditada, nem pelos sistemáticos insucessos desportivos da equipa de futebol 11, nem pelos históricos resultados das modalidades ditas amadoras. 

Inequivocamente justo, para que não se lhe atribuam culpas pelo bárbaro ataque que foi perpetrado contra a equipa de futebol e objetivamente justo, para lhe atribuir totais responsabilidades na deserção de quase metade da equipa e na destruição estúpida do trabalho de 5 anos, criando uma guerra pública irresponsável contra os jogadores, que abriu a porta ao oportunismo e ao desrespeito pelo Sporting Clube de Portugal.  

Completamente justo, para lhe atribuir exclusivas responsabilidades pela crise institucional em que o clube mergulhou, não tendo promovido a necessária clarificação e pacificação com a realização urgente de eleições. Claramente justo, para não omitir que, aberrantemente, patrocinou a criação de estruturas contrárias aos Estatutos do Sporting Clube de Portugal, como a Comissão Transitória da senhora Judas, que por sua vez queria ilegalmente realizar uma Assembleia Geral apressada e inopinada, para promover alterações estatutárias espúrias.

Totalmente justo, para não haver dúvidas que o presidente do Conselho Diretivo colocou Sportinguistas contra Sportinguistas, Sócios contra os Sócios, promovendo uma brutal fratura entre os adeptos, suportada na ideia peregrina que de um lado temos 6 Sportinguistas de uma santidade imaculada e do outro, uma corja de oportunista, golpistas e conspiradores, que vai da quase totalidade dos membros dos órgãos sociais que integraram as suas listas aos jogadores, abrangendo todos aqueles que dele discordam.

Inapelavelmente justo, para reconhecer que nos enganámos na sua capacidade em constituir uma equipa diretiva séria e competente, porque afinal, nas suas palavras, fez-se rodear de “ratos” e de “cobardes”. Genuinamente justo, para reconhecer que quem convidou o Comendador Jaime Marta Soares a integrar a Candidatura Sporting no Rumo Certo - Bruno de Carvalho, como Presidente da Mesa da Assembleia Geral, foi Bruno de Carvalho, não fomos nós.

O juízo justo de quem criou esta guerra fratricida, que nos envergonha e nos divide, que nos enfraquece e desprestigia, e da qual também Bruno de Carvalho é autofagicamente vitima ao pulverizar o reconhecimento que os Sportinguistas lhe tinham, cabe somente a cada um dos sócios. De preferência, mostrando desta vez, na forma e no resultado, que aquilo de “sermos diferentes” é mesmo verdade e que Bas Dost tinha razão, quando não confundiu a delinquência com os verdadeiros adeptos do Sporting.

Minha cabeça talvez faça as pazes assim.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Meu Deus, Nossa Senhora!

Finalmente um jogo a sério. O jogo contra a Espanha não conta. Era para perder, com honra e glória, como de costume. Empatámos. Mas, sem uma vitória hoje, esse empate de pouco ou nada servia. Sabemos bem o que nos acontece quando temos a responsabilidade de ganhar e, em particular, contra uma equipa teoricamente mais fraca. As contas são para fazer até ao último segundo e quando assim não acontece é porque a campanha nos vai correr mal.

Mal entraram os jogadores em campo, procurei os primeiros sinais de que tudo iria correr bem. Procurei perceber se o Cristiano Ronaldo estava em boa forma. As primeiras imagens desfizeram todas as dúvidas: continuavam as refeições com alimentos integrais e ricos em fibra, fruta e vegetais, bem como proteínas magras. Os outros não pareciam estar a seguir a mesma dieta, especialmente o Moutinho a quem lhe falta fibra, integral ou não, e ingerir umas litradas de bebidas isotónica que o leve a andar mais depressa. Em contrapartida os marroquinos pareciam estar com a dieta em dia.

Começámos a ganhar. Cinco por cento de uma oportunidade de golo e o Cristiano Ronaldo não perdoou. Fiquei preocupado. A impaciência do Cristiano Ronaldo ainda nos ia custar cara, pensei de imediato. É preciso aprender com a história. Com o Fernando Santos não teríamos ganhado Alcácer Quibir mas também não teríamos perdido.

A minha preocupação tinha toda a razão de ser como se viu nos minutos seguintes. O lado esquerdo da nossa defesa e o nosso meio-campo mais pareciam o norte de África. No meio do sufoco, o Cristiano Ronaldo recebeu uma bola no peito e de primeira, com o pé esquerdo, isolou o Guedes. Pela cabeça do Guedes passaram todos os capítulos de um livro do Carlos Daniel. Pensou em chutar com o pé esquerdo e acabou por rematar com o direito, pensou em rematar em jeito e acabou a rematar sem jeito, pensou em fazer um chapéu e acabou a rematar a meia altura. Uma botija de gás da Galp não teria feito pior, mesmo sem a senhora simpática a carregá-la. Foi com alívio que chegámos ao intervalo a ganhar por um a zero, sem antes demonstrarmos que temos uma defesa imbatível, especialmente uma massa de ar quente estacionada na área que gera efeitos de advecção nas bolas cabeceadas pelos marroquinos.

Quando começou a segunda parte mais parecia que não tinha havido intervalo. Voltou tudo  ao mesmo, mas em pior, se tal é possível. O Guedes rematou e espirrou-lhe o taco, permitindo uma assistência do Fernando Santos para o Cristiano Ronaldo falhar. O meio-campo e o lado esquerdo operaram um verdadeiro milagre. Apesar de não existirem, ainda arranjaram maneira de se eclipsar. Os marroquinos entraram com os vinte e três jogadores e o Fernando Santos não quis equilibrar o jogo, metendo todos os que tinha no banco de uma vez. Foi valendo o Cristiano Ronaldo das balizas com as mãos, os pés e o olhar (sobretudo com o olhar), enquanto eu e o Fernando Santos continuávamos a rezar: “Consoladora de todos os aflitos, Maria Santíssima, mãe amorosíssima, contemplai piedosamente as pobres almas aflitas!”. Mas a resposta a esta súplica tardava, nem no “penalty” sobre o Cristiano Ronaldo.

Acabado do jogo, rezei uns tantos Pais-Nossos e umas tantas Avés-Marias. Sem ter a certeza sobre quem tinha operado este milagre e numa perspetiva ecuménica, fi-lo virado para Meca. Se é preciso sofrer assim na Terra para se ganhar o Reino dos Céus, que assim seja. Ámen.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Assistir a dois Campeonatos do Mundo

Temos a felicidade de assistir a dois campeonatos do Mundo ao mesmo tempo: o da melhor seleção do Mundo e do melhor jogador do Mundo. Estamos acompanhados por muito poucos: pelos argentinos, por causa do Messi, pelos brasileiros, por causa do Neymar, e pelos egípcios, por causa do Salah. Os outros só têm oportunidade de assistir a um campeonato do Mundo.

 O futebol começa a ficar parecido com o ciclismo. Quem ganha a Volta à França é o ciclista que fica em primeiro e não a equipa no seu conjunto. A vitória do primeiro é apropriada pela equipa, como se a equipa tivesse ganhado, o que nem sempre acontece. Admite-se que ninguém ganha sozinho e que o desempenho individual e coletivo estão intimamente relacionados. Sem uns bons aguadeiros ninguém ganha a Volta à França.

Todos desejamos que a seleção nacional ganhe o Campeonato do Mundo e que o Cristiano Ronaldo venha a ser considerado o melhor jogador do Mundo. A segunda vitória não implica a primeira. A primeira implica a segunda, isto é, a seleção só pode ganhar se o Cristiano Ronaldo fizer de tal forma a diferença que não exista qualquer possibilidade de não ganhar a Bola de Ouro. Para não termos (des)ilusões, deve-se desejar a segunda vitória, dado que é muito mais provável que a primeira. Ao mesmo tempo, vai-se rezando-se para que a segunda vitória seja de tal forma esmagadora para se transformar em condição necessária e suficiente para a primeira.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

O melhor futebol do Mundo

Na primeira parte, Portugal jogou contra o Benfica. Ao princípio não reparei. A cor branca das camisolas enganou-me. Barreiras mais à ferente ou mais atrás conforme a equipa. Na dúvida, lançamentos de linha lateral sempre para o mesmo lado. Livres perigosos que não são. Cereja em cima do bolo: golo irregular validado pelo árbitro e pelo vídeo-árbitro.No entanto, pela primeira vez, os comentadores da RTP denunciaram a situação e vociferaram contra o árbitro e contra o Benfica. Uma novidade.

 Mas Portugal é Portugal, não é o Tondela ou o Setúbal. Não precisa que lhe emprestem jogadores do Benfica. São outras as equipas que lhe emprestam os jogadores. E Portugal também é Ronaldo e isso é tudo ou quase tudo, sobretudo quando tudo parece correr mal. O dois a um surge do puro e simples acaso concluído com um monumental frango.

Na segunda parte, entrou a Espanha e saiu o Benfica e o divino Santo(s). Notaram-se as saídas e a entrada. De repente, estávamos a perder três a dois. A um passo da goleada, entraram o João Mário e o Quaresma. A Espanha jogava ao meiinho e parecia que não queria mais. Entediaram-se e entediaram-nos com o “tiki-taka” do costume. Aparentemente, é a esta seca inventada pelo Barcelona e pelo Guardiola que se chama o melhor futebol do Mundo. O melhor futebol do Mundo não é este. O melhor futebol do Mundo joga-se com os olhos na baliza. O melhor futebol do Mundo tem um e um só nome: Cristiano Ronaldo; e foi com ele e por causa dele que Portugal obteve o resultado por que o Fernando Santos tanto ansiava: o empate.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A solução

Esta crise no Sporting fez-me recordar uma troca azeda de palavras com o presidente da instituição onde trabalhava.

Num almoço de trabalho com pessoas de fora, às páginas tantas, alguém referiu que o melhor seria substituir o povo português por outro. Para acabar com a estupidez da conversa, respondi ironicamente que a ideia não era nova e que o Brecht tinha avançado com essa solução há muito. O presidente não gostou muito que tivesse mandado o alarve aquela parte (um alarve sempre foi um alarve, mas há quem considere que um alarve pode ser importante ao mesmo tempo) e resolveu armar-se em culto e corrigir-me, dizendo que a afirmação tinha sido do Oscar Wilde (a afirmação do Wilde tem alguma similitude com a de Brecht mas o contexto e a referência ao povo são absolutamente distintas).

Não dei troco ao disparate, dado que nem um nem outro mereciam. Chegado ao trabalho, efetuei uma informação a esse presidente, explicando-lhe que a sua posição hierárquica não o habilitava a corrigir as minhas referências culturais sem nenhuma razão. Este episódio infeliz teve dois efeitos: o dito presidente passou a olhar-me de lado e nunca mais me esqueci do poema de Bertolt Brecht.

Este poema, que partilho, muito se adequa à atual situação do Sporting. Se não se pode demitir o Conselho Diretivo, então que se demitam os sportinguistas e os substituam por outros.

A solução

Após a insurreição de 17 de Junho
O secretário da União dos Escritores
Fez distribuir panfletos na Alameda Estaline
Em que se lia que, por culpa sua,
O povo perdeu a confiança do governo
E só à custa de esforços redobrados
Poderá recuperá-la. Mas não seria
Mais simples para o governo
Dissolver o povo
E eleger outro?

terça-feira, 12 de junho de 2018

Ditadores, Traidores e Desertores

Tem sido difícil escrever sobre o Sporting, seja por falta de tempo, seja por falta de vontade. Ao longo dos últimos meses temos assistido ao processo de transformação de Bruno de Carvalho de um líder quase consensual, num ditador com tiques autoritários, culto de personalidade e manifesta incapacidade de lidar com tudo e todos que não alinhem com a sua 'visão' do mundo.

Infelizmente este ditador levou, quer se queira quer não, a que se criasse o ambiente propício a que vários extremismos se instalassem no clube. Num desses extremos um grupo de adeptos decidiu trair o clube, o desporto e o país, perpetrando aquilo que (de acordo com o próprio Ministério Público) foi um ato de terrorismo contra o próprio clube.

Se não bastava ao já muito famigerado povo Sportinguista ser vítima de um louco ditador e da traição dos seus mais radicais, tem agora ainda de lidar com a deserção em massa de algumas das suas figuras chave. Sinceramente ainda me custa a acreditar que profissionais como Rui Patrício, Gelson Martins ou William Carvalho se estejam a aproveitar dum momento histórico de fraqueza do clube onde estiveram vários anos, que os formou e idolatrou, para ir ganhar uns trocos extra nalgum lado. Mas é o mundo em que vivemos.

E no mundo em que vivemos só falta mesmo a entrada de um inimigo em cena para que se continue o ambiente de guerra em vez de estarmos focados no essencial: nós, Sportinguistas, em livrar-nos do ditador; todos, em garantir as condições para que os atos de violência e terrorismo nunca mais se repitam.

Its the end of the world as we know it

#zero cinismo
Permanecerei, enquanto a realidade o permita, em estado de negação. Quero ainda acreditar que até final de agosto a situação se reverta e ninguém acabe por sair. Admito que haja muitas concepções de sportinguismo. Não pretendo sobrepor a minha. Mas o meu sportinguismo é feito de ídolos. De Lopes a Manuel Fernandes, de Livramento a Moniz Pereira, de Theriaga a Carlos Lisboa. De Girão a Patrício. De Miguel Garcia a Andorinho, de Tiui a Naíde, de Yorda a Futre. De Dost a Balakov, de Ruesga a Divanei. Foi com eles que celebrei vitórias e que sofri derrotas. Porque nós, com eles, somos o Sporting. E, é por isso que para mim #zeroidolos é #zerosporting. 

#zero vivos
É muito pouco relevante discutir a justa causa das rescisões quando subitamente rescindem seis jogadores fundamentais e se admite que possam ser nove ou dez. Pela simples razão que o dano está consumado. Indemnização alguma, no futuro, evitará o dano sofrido. Dano financeiro, dano reputacional, dano desportivo, dano simbólico, dano afectivo. Não devemos esconder que estamos perante um desastre brutal, nunca visto no futebol português e apenas com paralelo nos desastres aéreos de Manchester, Torino ou Chapecoense. Só que desses desastres saíram clubes unidos, e deste suicídio presidencial não sai nada, nem ninguém.

#zero verdade
Não, não começou com uma entrevista ao DN de que nem nos lembramos. Não, um hara-kiri não é uma golpada. Não, os superiores interesses do Sporting não estão a ser defendidos. Não, os jogadores não são uns traidores. Não, não é legal a comissão transitória da Mesa da Assembleia Geral do Sporting. Não, o Presidente da Mesa da Assembleia Geral, por muito incompetente que seja, não perdeu qualquer legitimidade estatutária. Não, o Tribunal não legitimou Marta Soares. Não, a pseudo-assembleia de dia 17 não é uma Assembleia Geral. Não, a imprensa não é isenta relativamente ao Sporting, nem relativamente a Bruno de Carvalho. Não, não somos todos locos, conluiados e orquestrados.  Não, não é Bruno de Carvalho ou o caos (até porque agora são sinónimos). Não, não queremos croquetes, até porque já os comemos todos. Não, não vale tudo. Não, não é amanhã, o que queremos é eleições, já!

#zero pesadelos
Dá para acordar e ser 13 de maio e mais logo irmos ganhar ao Marítimo?

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Boas e más companhias

O futebol tem um lado negro. Melhor seria dizer que tem vários lados negros. Também tem o lado certo. Há quem afirme em que lado quer estar e as companhias que não quer ter. Quero estar na companhia da Tasca do Cherba.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

A que horas começa a guerra?


Sempre disse (por aqui variadíssimas vezes) que ser sportinguista é meio caminho andado para um pacemaker. A esse (meio) caminho estamos habituados (não confundir com resignados). Falhar, falhar sempre, falhar cada vez melhor, tornou-se não apenas um hábito mas uma maneira de ser que ecoava solenemente no estádio durante a entrada da equipa, introduzindo-se sorrateiramente no nosso ADN. Diz que as modalidades, por vezes, não sentiam esse formigueiro, mas bem sabemos que a equipa de futebol principal é esse meio caminho andado de todos nós.

Ultimamente tentei tudo. Primeiro o costume: doses maciças de humor; longos passeios de ironia; massagens de boa disposição; especializei-me em introduzir novas e interessantes temáticas nas conversas com adeptos dos nossos rivais. Dei por mim cabisbaixo, incrédulo, embaraçado. Dei por mim de comando na mão, passagens aqui e ali, a mesmo ruminação de sempre, comentadores, protocandidatos, candidatos putativos, mãos estendidas, colunas verticais dobradas, jornalistas à paisana. Não aguentei, confesso. Sou um tipo sensível e com alguma réstia de dignidade (já nem digo bom gosto). Tentei dormir. Decidi escrever algo. Mas o quê?

Pode cair o carmo, a trindade e a torre dos clérigos que não é a mesma coisa. Com o Sporting as hienas encarniçam-se, convivem sorrateiramente com os leões, unem-se aos abutres. Aguardam o costume: ficarem apenas dois a repartir o bolo. Não sentem já as condescendentes pancadinhas nas costas? Os sorrisos compreensivos, paternalistas? Antecedem a estocada final.

Começo a achar que não precisamos de inimigos. Com amigos assim, fazemos bem o trabalho entre portas. Enquanto ainda tivermos portas para abrir e fechar. Quando nem o meio caminho andado chega para um pacemaker, temos que inovar. Somos bons a inovar, quase tão bons como a falhar. Deixem-nos falhar. Deixem-nos falhar cada vez melhor. Mas deixem ser os sportinguistas a decidirem o caminho. É meio caminho andado, vão ver.


quarta-feira, 6 de junho de 2018

Now you don't seem so proud


Bruno killed the radio star
Sabe, Fernando, sou de um tempo em que os jornalistas também eram ídolos. Vi os golos do Jordão na sua voz. Como ainda oiço o Jorge a gritar “eu te amo, Sporting”, na noite de Alkmaar. Digo-lhe só que tudo isto me entristece. Muito.
 

Conspirações de estúpidos
Duas fações em confronto numa guerra jurídico-intestinal. Uma das partes quer-nos convencer da legalidade de uma comissão transitória qualquer, com Elsa Judas à cabeça. A outra, quer-nos fazer crer que é isenta, com Henrique Monteiro a coordenar. Risível é o mínimo.


Les uns et le autre
Um jornalista de asperger. O filho do Neves. O jornalinho de escola. Gagueja incapaz de fazer a pergunta que lhe mandaram. O jornaleco escroque-patético. “Raphinha vai rescindir”. O espelho disto tudo. Bruno. Tudo isto enquanto se almoça uma sopa. De pé. Vitimas da fome (de bola).


Trash share
Vai disto 60 dias. Do post à providência. Pouca terra e muito share. Sinal que somos muitos. Sinal que o polvo é quem mais ordena. Com poeira, muita poeira. Sinal também que há espaço para estratégia. Que Saraivada não é estratégia alguma. Mas só espaço não chega, é preciso quem tenha a inteligência. Para urdir. Leva tempo, mas é possível.


«Então Marta Soares desviou dinheiro dos bombeiros?»
Então não foste tu quem o escolheu, Bruno?


Bruno
Já chega. Sei que andas aí. Escuta o doutor Barroso. Demite-te, porra!


A pergunta que ninguém fez
E a puta da gala? É quando?