quarta-feira, 17 de julho de 2019

Verbos, mas também artigos, pronomes, preposições, conjunções, adjetivos e advérbios

Devo ao hóquei em patins os primórdios da minha consciência de ser português. A identidade gera-se também por oposição, isto é, pela consciência do que não somos. Os jogos de hóquei em patins entre Portugal e Espanha dos tempos da minha infância a adolescência eram as Batalhas de Aljubarrota por outros meios (pacíficos) e, por isso, perduram na minha memória. Não são tanto os jogos, mas os relatos, frenéticos e com os gritos dos golos de Portugal nos Campeonatos do Mundo e da Europa. Lembro-me da ansiedade que me assaltava quando acordava sem saber os resultados de Portugal num Campeonato do Mundo disputado no Chile e que só passava depois de o meu pai me narrar as incidências de cada jogo ouvidas na rádio de madrugada. 

Em plena “silly season”, a RTP por uma vez resolveu oferecer-nos serviço público com a transmissão dos jogos da nossa seleção no Campeonato do Mundo. O primeiro jogo que vi foi contra a Itália, na passada quinta-feira. O jogo foi muito sofrido para os nossos. Nunca conseguimos passar para a frente do resultado e em momentos críticos, nos livres diretos e nos “penalties”, apareceu o Ângelo Girão, que começou a escrever a história também na primeira pessoa do singular. O jogo seguinte, contra a Espanha, foi um pouco melhor. Nos mesmos momentos decisivos, continuou a aparecer o Ângelo Girão e fomos servindo doses de cinismo no contra-ataque. Na final, contra a Argentina, ainda equilibrámos um pouco na primeira parte. Depois, os argentinos foram arrasadores. Fisicamente os nossos jogadores não podiam com uma gata pelo rabo e não dispúnhamos de um banco como o do adversário recheado de tantos e tão bons jogadores que permitisse a sua mais frequente rotação. Valeu o estoicismo de todo eles, a capacidade de conviver sem frustração e sem quebrar com a superioridade dos outros. E havia o Ângelo Girão. Pouco a pouco, fomos compreendendo que se estava a construir história à frente dos nossos olhos. Quando o Rafa foi bater o “penalty”, pensei para mim mesmo que seria uma injustiça se o marcasse. A vitória devia ser consumado com uma última defesa de Ângelo Girão e assim aconteceu. 

Por muitos e bons anos que qualquer um de nós viva, dificilmente assistirá de novo a algo de parecido e dificilmente o esquecerá. Fomos uns privilegiados. Diremos aos nossos filhos e aos nossos netos que vimos esta final e a melhor exibição de sempre de um guarda-redes. Diremos também que esse guarda-redes não quis ser transformado em herói porque sabia muito bem que por muitos golos hipotéticos que tivesse defendido, nada se teria ganhado se não houvesse colegas como o João Rodrigues, o Hélder Nunes, o Gonçalo Alves ou o Jorge Silva que os tivessem marcado aos adversários. Diremos que tínhamos o melhor capitão de equipa de sempre que, pela sua simplicidade e simpatia (que diferença para os heróis de papel do futebol!), nos conquistou a todos e fez da vitória deles a nossa vitória. Diremos isto e muito mais, recorrendo aos verbos exclamados do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, mas também a artigos, a pronomes, a preposições, a conjunções, a adjetivos ou a advérbios.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Quem nunca acreditou, que atire a primeira pedra!

A pré-época é a melhor fase do campeonato. É verdade que ainda não ganhámos, mas também ainda não perdemos nem empatámos. Estamos à frente e todos os sonhos são possíveis. Quem nunca acreditou num Waseige e num Missé-Missé ou num Paulo Sérgio e num Maniche, que atire a primeira pedra. Acredito no Keizer e no Camacho, no Vietto, no Neto, no Eduardo e no Rosier porque sim, porque é suposto ser assim, porque terei toda uma temporada para não acreditar. 

Vi o jogo contra o St. Gallen. Entrámos bem, marcámos dois golos e, depois, bem, depois resolvemos embaralharmo-nos com a bola e o adversário. A saída de bola para o ataque não apresenta melhorias. O Eduardo fez de Gudlej e os resultados não foram muito diferentes. Pede-se-lhe para ser mais posicional a defender e que avance depois de recuperada a bola, enquanto recua o Wendell para a receber e sair com ela naquele tricotar que irrita qualquer um. Pelas laterais, as coisas não correram melhor. O Ilori é um jogador constante e regular em qualquer das posições onde jogue, tal a constância e regularidade da tremedeira. Com ele a lateral direito, sobrou do outro lado o Abdu Conté. O rapaz parece uma força da natureza, mas também parece estar sempre a olhar para a bola enquanto corre. É verdade que a ajuda do Camacho a atacar e a defender foi quase inexistente. 

O Neto esteve sereno e não parece que seja pelo centro da defesa que este ano passaremos por dificuldades. Na primeira parte, se se excetuar a insegurança do Ilori, a defesa esteve praticamente de férias. O golo do St. Gallen resulta de um passe com a canela para um adversário do Eduardo, quando pretendia dominar a bola. No ataque, praticamente tudo se resumiu ao Bruno Fernandes e ao Raphinha, dado que o Luiz Phellype ainda está emperrado. O facto de tudo se resumir a dois jogadores não quer dizer nada, dado que o Bruno Fernandes joga por três e, assim sendo, está sempre garantida a superioridade no ataque (em número e armamento). 

Na segunda parte, com as substituições tudo se embaralhou e a confusão foi de tal ordem que não permitiu qualquer compreensão sobre o que se passava em campo e a qualidade dos jogadores. Ficaram impressões, umas mais fracas, outras mais fortes, mas não deixam de ser impressões. Depois de vermos o Ilori na primeira parte, o Thierry Correia parecia mesmo um bom lateral direito. O lateral esquerdo, o miúdo Nuno Mendes, esteve bem. O Gonzalo Plata de vez em quando acordava e quando acordava mexia com o jogo até inexoravelmente perder a bola. O Vietto teve boas movimentações, deixando o Bruno Fernandes isolado no contra-ataque, mas sem ainda compreender a dinâmica da equipa (admitindo que tal coisa exista). O Matheus Pereira voltou com os seus tiques de vedeta, sem intensidade e mais parecendo que estava numa peladinha ou num jogo de futsal com os amigos (depois digam que a culpa é dos treinadores que não dão oportunidades aos nossos melhores talentos da academia!). Quem impressionou e impressionou muito foi o Luís Maximiano. Parece um autêntico monstro das balizas. 

É difícil fazer um balanço deste jogo-treino. Os pontos fortes continuam: Mathieu, Bruno Fernandes e Raphinha. Faltam alguns dos outros pontos fortes da equipa, como o Coates e o Acuña. As aquisições são promissoras, mas não é possível afirmar desde já que se vão transformar em titulares indiscutíveis ou em substitutos de idêntico nível dos titulares. Se o Bruno Fernandes não sair, seguramente que a equipa não está mais fraca do que na época passada. No entanto, também não se consegue afirmar perentoriamente que esteja mais forte e isso não deixa de ser um ponto fraco à partida, dado o persistente diagnóstico de falta de "banco" e de alternativas Se o Bruno Fernandes sair, então, nesse caso, estamos como o Ristovski disse que ficaríamos após a vitória na final da Taça de Portugal.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

A culpa é das farmacêuticas


Lembram-se daquele jogador (central) do Sporting com nome de medicamento, o Demiral? Pois o jogador com nome de medicamento assinou pela Juventus. Dezoito milhões de Euros meus senhores, com os nossos bolsos a encaixarem (por conta do mecanismo de solidariedade, neste caso é mesmo disso que se trata) cento e oitenta mil. Uns trocos. A história é fácil de contar: o jogador com nome de medicamento foi emprestado pela comissão de gestão (era assim que se chamava?) de Sousa Cintra ao Alanyaspor da Turquia que rapidamente exerceu o direito de opção por uns míseros 3,5 milhões (já que era para ser emprestado com cláusula podíamos ter colocado uma maior ou defendermo-nos de outra forma, não acham?). O jogador com nome de medicamento, Demiral 3,5 miligramas, rapidamente passou a Demiral 9 miligramas, perdão, 9 milhões com a venda ao Sassuolo. O jogador com nome de medicamento agora Demiral 9 mg foi entretanto vendido à Juventus tornando-se o Demiral 18 mg, uma gramagem já bem forte e que se deve tomar com cuidado. E tudo isto no espaço de um ano.

Esta semana, entre umas idas e vindas à FIFA em defesa dos clubes formadores, vendemos um jogador (mais um central) da formação chamado Domingos Duarte por 3 milhões de euros ao Granada, ficando com 25% de uma futura venda (ou mais valia?). Alguns acharam os números interessantes, talvez se esquecendo dos milhões que pagamos para o Tiago Llori voltar. Os valores, diga-se, são irrisórios para o futebol de hoje, mas o que faz eco na minha cabecinha é a falta de oportunidades que estes jogadores (não) têm após alguns empréstimos.

Nem vou recordar o autocarro cheio de centrais de categoria inferior a Demiral 18 mg, ou mesmo a Domingos Duarte, que estacionaram em Alvalade para passear a sua mediocridade a expensas do clube. E foram muitos, e caros. Saliento apenas que, por vezes, algumas das soluções passam por jogadores da casa, jovens ou não, que com o tempo e algumas oportunidades poderão mostrar o seu valor. Com o Mathieu e o Coates estamos bem servidos, e tenho a certeza que os seus ensinamentos seriam importantes. Assim ficamos sem saber como seria. Não seria pior do que será. De certeza. Entretanto, consumam Demiral 18 mg com moderação, por favor.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

“Dura lex, sed lex”

A lei é dura, mas é a lei ou Deus perdoa, mas o Conselho de Disciplina (CD) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) não. Não interessa se se trata do clube da terra do João Félix ou do Secretário de Estado do Desporto. Hoje o Académico de Viseu, o clube da minha terra também, amanhã quem sabe… Se um clube tem dívidas e presta falsas declarações sobre o seu pagamento, fica suspenso das competições profissionais. 

Esta decisão também nos deixa tranquilos sobre a integridade das competições profissionais. Até hoje, nunca houve um clube com dívidas e que prestasse falsas declarações. Fico na dúvida, se o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol e a Associação Nacional de Treinadores são extremamente úteis, ameaçando denunciar os clubes ao CD da FPF na defesa dos seus trabalhadores, ou se são completamente inúteis, dada a forma como o CD da FPF assegura este zelo dos clubes no pagamento atempado dos seus compromissos. 

Esta tranquilidade ainda é maior quando se sabe que o CD da FPF tem prioridades no estabelecimento do seu perímetro de atuação. Quando existem indícios de tráfico de influências, de corrupção, de viciação de resultado ou de outras infrações menores, deixa as investigações para o Ministério Público e as decisões para os tribunais comuns. Quando existem crimes gravíssimos de falsas declarações de um qualquer Académico de Viseu ou de umas “bocas” de dirigentes, instaura processos e pune exemplarmente. Ainda bem que é assim, pois é assim que deve ser.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Entretanto...


Capa de hoje do jornal A Bola, perdão, O Benfica. A insustentável leveza de qualquer comentário revela-se absolutamente dispensável. As obras de arte são apenas para contemplar. 

segunda-feira, 8 de julho de 2019

O ovo e a galinha

Bruno de Carvalho foi apoiado pela esmagadora maioria dos sócios, tendo sido reeleito nas penúltimas eleições com noventa por cento dos votos. Não há, não pode haver maior reconhecimento pelo trabalho desenvolvido do que uma reeleição com esta expressão. Nessa altura, todos trazíamos à lapela o “Je Suis Bruno” como forma de dizer com orgulho “Je Suis Sporting”. O “anti-brunismo” era, assim, um fenómeno externo ao Sporting, servindo os próprios intentos de Bruno de Carvalho, que, eleitos os inimigos externos, se legitimava e relegitimava permanentemente (ao melhor estilo de Pinto da Costa). 

Chega o ano de 2018 e a reunião da Assembleia Geral para aprovação dos novos estatutos. Conforme se iam desvanecendo as expetativas de se ganhar o campeonato, Bruno de Carvalho entra em permanente desvario. Os conflitos deixam de ser externos e passam a ser internos. Cria-se o “anti-brunismo” (os “sportingados”) para se efetuar uma purga e (re)legitimar uma direção que precisava de tudo menos disso. O resto é conhecido e é escusado continuar a remexer na ferida e a bater mais no ceguinho. A destituição de Bruno de Carvalho e da sua direção em Assembleia Geral não resulta de nenhum movimento “anti”, mas da pura e simples conclusão de que não dispunham de condições para continuar a exercer as funções para as quais tinham sido eleitos pelos sócios. 

Este último ano serviu para confirmar a justeza dessa decisão. Bruno de Carvalho não poupou ninguém, nem os membros da sua direção. Não existiu um único momento de dúvida, de autorreflexão, de reconhecimento de responsabilidades próprias. Foram os outros, mesmo aqueles que ele escolheu. Ninguém foi poupado, especialmente os sócios e adeptos, e a atual direção foi um bombo de festa permanente. Esse ressentimento gerou um grupo de fiéis, reduzido mas muito ativo. O Bruno de Carvalho deixou de ser um símbolo do Sporting para ser o símbolo do “Brunismo” e o “Brunismo” gerou, finalmente, o “Anti-Brunismo”. 

Os sócios reconheceram o trabalho desenvolvido pelo Bruno de Carvalho. A sua destituição não resulta dessa falta de reconhecimento, mas do reconhecimento, a partir de um certo momento, de que não dispunha de condições para continuar a presidir ao Sporting, não existindo nenhum movimento “anti-brunista”, pelo menos com expressão. A destituição de Bruno de Carvalho e a sua incapacidade para compreender as razões que a determinaram gerou o “Brunismo” e, por sua vez, o “Brunismo” gerou o “Anti-Brunismo”, que se foi radicalizando. Hoje, o Sporting, encontra-se partido em duas fações radicalizadas, embora a maioria se esteja nas tintas e queira é ver a bola. É essa radicalização que também explica a sua expulsão como sócio na última reunião da Assembleia Geral.

As instituições estão para além das pessoas que circunstancialmente as dirigem. É sempre um privilégio presidir a uma instituição como o Sporting e isso basta. Fazer um bom trabalho enquanto se preside não necessita de qualquer reconhecimento. É a obrigação de quem preside e de quem representa. O reconhecimento vem com a história. Varandas e Bruno de Carvalho são duas figuras de papel quando comparadas com Winston Churchill e Clement Attlee. Não foi por falta de reconhecimento que os britânicos votaram no segundo em detrimento do primeiro no pós-segunda guerra mundial. As circunstâncias mudaram e o votos também. É a vida!...

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Assembleia geral


Falar de memória levar-nos-ia até aos coitados dos gregos que, como toda a gente sabe, eram do Sporting. Os gregos da antiguidade clássica e outras antiguidades menos clássicas. Assim como os deuses todos e mais alguns. Já na época medieval (longa que foi e nem sempre treva), o Sporting germinava, dava cartas, crescia. A época industrial chegou-nos de comboio, ou no paquete, como diria o Eça. Nasceu o Sporting que já por aí andaria em bolandas, à espera que os ingleses ultrapassassem os mongóis nos jogos de bola. Às vezes com cabeças. As dos inimigos. Basta de inimigos dentro do Sporting.  De fações, viragens, anátemas, vendetas de aviário. Basta de lavagem de roupa suja. Somos muitos e cabemos todos. Sem isso não há gregos nem deuses que nos valham.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Finalmente alguém nos explica a tática

Ontem, ao passear na Feira do Livro de Braga, tropecei numa pechincha do Vitorino Magalhães Godinho, um dos maiores historiadores portugueses do século XX. O livro custava três euros e ainda tinha um desconto de vinte por cento. A propósito de redes institucionais e organizacionais e das suas relações com a personalidade, o autor recorre a esta metáfora que se segue. 

“Numa equipa de futebol, as condutas são ditadas pelas posições em campo e pela definição das funções de cada jogador; mas é toda a personalidade dos jogadores que está em jogo; a amizade liga uns, a antipatia separa outros, acontece o ponta esquerda sentir que o avançado centro pretende ganhar os louros da jogada, e por isso passa a bola a outro não tão bem posicionado. Uns esforçar-se-ão no relvado por amor à camisola, outro precisa de brilhar para conseguir uma transferência milionária; há quem não acate bem a autoridade do treinador. Diríamos que na equipa há dois planos: o organizacional-social, que carateriza o coletivo, e o emocional, que é próprio do jogador; mas tal diversidade serve a unidade de objetivo – ganhar o jogo”. 

Anda uma pessoa anos a anos a ouvir o José Mota, o Petit, o Pepa, o Paulo Sérgio, o Fernando Santos, o Peseiro ou o Manuel José e acaba por descobrir que um historiador pode ser melhor treinador de futebol do que os treinadores de futebol. Pelo menos, descreve melhor a psicossociologia de qualquer equipa de futebol. 


Quem pretender compreender melhor a desterritorialização dos clubes e a sua transformação em marcas globais, encontra tudo muito bem explicado em: “A Era do Eu”. Simplesmente soberbo!

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Um herói

A bola não rola e as transferências não têm muito interesse, desde que deixaram de ser regadas com uns copos numas almoçaradas em forma de entrevista n’ “A Bola”. Também não sou do tempo em que as Assembleias Gerais dos clubes e os seus Relatórios e Contas fossem tema de conversa. Quem procura matar o tédio a escrever sobre futebol vê-se e deseja-se para arranjar tema. O de hoje é um tanto melancólico, de quem envelhece mas procura estar atento a uma qualquer ação que lhe permita continuar a ter esperança e sentido para a sua vida. Enquanto lerem, perdoem-me o moralismo: é da idade. 

Nasci em Viseu e aí vivi até aos dezoito anos. O regresso uma ou outra vez para rever amigos e familiares é sempre um pouco ao estilo Cinema Paraíso. Reconheço os espaços e as caras mas nada é como dantes. Nunca, mas nunca se volta ao passado porque deixou de ser habitável. Talvez se tenha maior consciência do que é ser viseense e do que é a cidade quando se vive fora, no confronto com outras identidades e outras cidades. Mantenho a imagem de que, em Viseu, era-se o que se nascia, apesar do dinamismo social de uma emergente classe média associada ao comércio e serviços, públicos e privados, nos anos setenta e oitenta. Mas o respeitinho ainda era muito bonito e “sim, senhor doutor!”, “com certeza, senhor engenheiro!” 

Há sinais de mudança, embora seja suspeito pela amizade que me liga a um dos vereadores da câmara municipal. Compreendo as suas dificuldades em transformar Viseu numa cidade capaz de se afirmar no contexto nacional como um dos principais polos de desenvolvimento da nossa interioridade (mais socioeconómica e demográfica do que geográfica). As oportunidades escasseiam e não se pode perder nenhuma. É preciso estar permanentemente a criá-las e recriá-las, como a Feira de S. Mateus, porque elas não caem do céu, como em Lisboa ou no Porto. Compreendo, por isso, que se tenha aproveitado a oportunidade de se associar o João Félix e a sua recente notoriedade à cidade de Viseu (a associação ao Viriato é historicamente mais duvidosa, a não ser que se pretenda distinguir um doce local em forma de vê e constituído por um género de massa doce recheada de coco, que fazia parte da merenda dos mais afortunados). No entanto, os heróis não são os que prometem fazer, são os que fazem. 

O Miguel Duarte era aluno de doutoramento em matemática no Instituto Superior Técnico. Decidiu juntar-se a uma ONG para salvar vidas no Mediterrâneo. Está acusado pela justiça italiana a uma pena que pode chegar aos vinte anos de cadeia. Não o conhecia, ninguém o conhecia, à exceção dos seus familiares e amigos, que devem estar numa aflição. Como ele próprio disse: “As pessoas estavam a morrer afogadas e nós impedimos que elas morressem. Era só isso que fazíamos”. Ele (só) fez o que estava certo. Faz muita diferença fazer o que está certo. Existem heróis, heróis verdadeiros e não de papel. O Miguel Duarte é um herói, é um dos meus heróis e tenho orgulho em ser seu concidadão, porque nasci em Viseu, no mesmo país onde ele nasceu.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

No news is good news

No capitalismo faz de conta nacional, as especulações sobre a transação de um jogador podem ser promovidas pelos envolvidos no negócios na praça pública, mesmo que à mistura se encontrem empresas cotadas em bolsa, sem qualquer intervenção da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. Nada que não estejamos habituados depois de até hoje ninguém ter sido responsabilizado pelo “insider trading” na resolução do BES. 

Explicam-nos todos os dias a importância dos empresários nestes negócios e a razão para cobrarem comissões por serviços prestados aos clubes sem produzirem qualquer valor e alimentando o rentismo. Quem não conhecesse a história do futebol, até seria levado a pensar que o mercado de compra e venda de direitos desportivos foi inventado por esses empresários. Com o Acórdão Bosman, anunciava-se a liberdade dos jogadores de futebol, que deixavam de ser propriedade dos clubes de futebol. Agora, são propriedade de empresários e de fundos de investimento. Por detrás de cada transferência glamorosa de um Ronaldo, encontram-se negócios de emigração ilegal e de autêntico tráfico, enquanto os clubes se transformam em empresas e passam a ser detidos por dinheiros de “sheiks” e de outros oligarcas de diferentes nacionalidades. É o mercado, sem se procurar compreender os seus limites morais, como nos explica Michael J. Sandel. 

Acabada a alienação a propósito do João Félix, anuncia-se outra a propósito do Bruno Fernandes. Todo o santo o dia nos informam da novidade de não haver novidade nenhuma. Não é só uma contradição nos termos, não haver novidade é o normal. Daqui a aproximadamente um mês, disputamos o primeiro título da época: a supertaça. Mantendo-se o Renan Ribeiro e o Nelson, está meio-caminho andado para o conquistarmos. Mantendo-se ainda o Bruno Fernandes, o restante está praticamente percorrido. Prefiro esse título a todos os títulos dos jornais desportivos.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

O Ministério da Verdade

Para compreender as histórias e narrativas que nos rodeiam e não enlouquecer, é sempre bom regressar um e outra vez ao George Orwell e ao seu 1984. O personagem trabalha na permanente reescrita da história. Se o Ministério da Riqueza estima a produção de 145 milhões de pares de botas e só se produzem 62 milhões, é necessário reduzir a estimativa inicial para 57 milhões para que a habitual narrativa da superação dos objetivos possa continuar. Esta reescrita pressupõe uma reedição do jornal oficial, sendo retirados e destruídos os exemplares da edição inicial. Em nome da verdade, essa reescrita distancia a verdade, estando tão próximos dela os 57, os 62 ou os 145 milhões. No papel, produzem-se milhões e milhões de pares de botas apesar da população continuar descalça. 

A história produz naturalmente os seus mitos, reais e, sobretudo, imaginários. Anunciou-se que foi atribuída uma ordem de mérito a um camarada do partido que, mais tarde, caíra em desgraça por razões que se desconhecem, que tanto pode ser corrupção, incompetência, popularidade ou heresia, embora a hipótese mais plausível tenha sido a necessidade da purga como mecanismo indispensável da governação. A reescrita pura e simples obriga a um trabalho insano, envolvendo reedições e destruição de edições anteriores e de arquivos. A forma mais simples de apagar a história acaba por ser a criação de um novo herói perecido em combate ao qual se exaltam a pureza e a coerência da sua vida, toda dedicada ao cumprimento do seu dever de derrotar o inimigo e perseguir os espiões e sabotadores, sendo abstémio, não fumador e celibatário. 

Na comunicação social, em geral, e na desportiva, em particular, o processo não é, hoje, muito diferente. Não sendo possível reeditar o passado e destruir as versões originais, constrói-se e reconstrói-se o presente e o futuro de forma a assegurar a sua coerência com esse passado.

Recentemente, o Benfica renovou com o Sálvio e o Jonas, prolongando os tempos de contrato e aumentando os salários diretos e indiretos (incluindo, eventuais prémios de assinatura e outros). Por uma razão ou por outra, estes jogadores pouco contam para o Bruno Lage e para a forma como pretende que jogue a sua equipa. Nada que não aconteça a todos. Muito recentemente, o Sporting dispensou o Nani e o Montero que eram dois dos principais ídolos dos adeptos. Mas no Benfica estas coisas não podem ser tão simples assim. Se assim fossem, ter-se-ia que admitir que as renovações não foram decisões adequadas. 

A reescrita da história pressupõe um sem número de personagens picarescas. A mãe do Sálvio que chora baba e ranho para que o seu filho represente o Boca Juniors e a mulher que se desnuda para despedida dos portugueses (com muita pena minha, esta afirmação é de ouvir dizer). O Sálvio afinal regressa porque quer acabar a sua carreira no Benfica, constituindo um reforço (?) como disse um comentador habitual. Noticia-se que o Jonas quer acabar a carreira porque lhe doem as costas, como se as costas não lhe doessem quando renovou o contrato e passou a ser o jogador mais bem pago. O Jonas não disse nada, mas juram-nos que está a chegar para nos comunicar essa sua decisão, preparando-se o clima emocional para a despedida dos benfiquistas. O Jonas, presciente do seu fim, liderou o balneário no apoio ao Bruno Lage e ao João Félix, abraçando o miúdo e incentivando-o a fazer mais e melhor. 

Ontem, ouvi estas histórias a um jornalista da TVI. O à vontade como as contava e o orgulho que manifestava por partilhar estas (in)confidências com os maiores da futebolândia nacional contrastam com a progressiva consciencialização do personagem do Orwell. Este totalitarismo tem efeitos. Tem efeitos nos adeptos das equipas adversários, que, por emulação, também gostavam de dispor de uma direção Big Brother que tudo controla e nunca se engana e raramente tem dúvidas. Mas os principais efeitos são nos adeptos do Benfica, como se comprova nos comentários aos nossos “post”. O ser humano é dado a histórias (com agá minúsculo), não sendo por acaso que o “marketing” recorre cada vez mais a elas para nos convencer e para nos identificarmos. As notícias como narrativas dispensam-nos de pensar pela própria cabeça e procurar outras narrativas que se contraponham à narrativa oficial. Winston, personagem do Orwell, não teve um final feliz, como terá, de uma forma ou de outra, o Jonas ou o Sálvio (ou como amanhã terão outros), porque “Big Brother was watching him”.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Defendam-se do defeso


A memória é curta, mas não de peixe. Todos os anos é a mesma coisa, com a exceção do anterior, que ainda foi pior, tornando o defeso do Sporting num penálti à PanenKa convertido na própria baliza. Ali pelo final do campeonato, acolá pela final da taça, começam os anúncios (formais, informais, quase oficiais, oficiosos) de transferências, hipotéticas, encenadas, surreais, factuais, não tarda nada factuais, assim-assim, tudo bem embrulhado para a venda de jornais e programas televisivos que funcionam como verdadeiros centros de emprego para (a)gentes do futebol. Tudo somado: bola, como diria JJ.

Ainda a festa andava na rua e já se vislumbravam vendas e compras. No final da taça, ficaria tudo definido para Bruno Fernandes, no final da liga das nações, o mais tardar, antes de ir de férias, não faltava mais nada, depois das férias, o seu destino será obviamente conhecido. Do Félix, nem tanto, a coisa estava planeada para acontecer mesmo não acontecendo, ou acontecendo à priori de ter acontecido, uma transferência envolta naquele nevoeiro tão querido a D. Sebastião. Outras transferências vão acontecendo às pinguinhas, diariamente relatadas como se de golos se tratassem, dissecadas na sua inexistência cruel.

O defeso, assim chamado por desplante, dura um terço de um campeonato, estende-se, distende-se, alarga-se, e a procissão ainda nem chegou ao adro. Os Ingleses ainda nem sequer começaram as hostilidades e ninguém sabe bem como que linhas se coserá lá para Setembro. Slimani deixou-nos assim num final de Agosto. Até lá tudo é possível. Inclusivamente o Félix ir para o Atlético de Massamá. Não há nenhum? Bom, se há um real deve existir um atlético qualquer em Massamá.  

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Ele que se adapte!

Vi jogar o João Félix quatro vezes. Em Alvalade, para o campeonato, fez um bom jogo, mas o Benfica coletivamente foi-nos superior e o que nos surpreendeu não foi este ou aquele jogador em particular. Para a Taça de Portugal, na Luz, a exibição não foi tão bem conseguida e sobrou o que o foi caracterizando durante esta época: os tiques de vedeta e a forma desleal como procurava rebolar-se pelo campo ao mais pequeno toque. Em Alvalade, na segunda mão, não esteve bem, como a restantes equipa, tendo sido substituído pelo Jonas na fase decisiva do jogo. Mais recentemente, pela seleção, chegou ser penoso vê-lo jogar contra a Suíça. Pareceu-me um bom jogador, mas com muito para aprender e desenvolver, em termos táticos e físicos. 

Quando despontou o Renato Sanches, fiquei com idêntica impressão. Muita força, muita vontade, mas também muitas faltas e muitos lapsos táticos. O rapaz rapidamente se transformou no melhor do mundo e arredores e acabou por ser convocado para a seleção e contratado pelo Bayern de Munique. Passou as últimas três épocas sem “calçar”, como se costuma dizer. 

Enquanto tomava café no Flávio, li um artigo de um jornalista de “A Bola”. Afirmava que o Bruno Fernandes dispunha de condições para ser titular em qualquer uma das equipas que, aparentemente, o pretende contratar. Quanto ao João Félix, as dúvidas adensavam-se. Não estava em causa a superior capacidade do jogador e o seu valor de 120 milhões de euros. É tudo um problema de adaptação e, em particular, de adaptação ao Simeone que prefere homens de barba rija. Na sua cabeça, há bons que se adaptam e há bons que não se adaptam. Não lhe passou pela cabeça perguntar-se se o jogador é assim tão bom como o pintaram, porque razão é que não se irá adaptar? Não é condição para se ser tão bom assim a capacidade de se adaptar? 

Os que tecerem os mais rasgados elogios ao Renato Sanches continuam a dizer que se trata de um problema de adaptação a uma equipa e a um clube idiossincráticos. Com o João Félix começam a pôr as barbas de molho. O rapaz ainda não deu um pontapé na bola pelo Atlético de Madrid e já está com eventuais problemas de adaptação. Ainda estou para ver o dia em que um destes jornalistas admita que as suas afirmações sobre um qualquer jogador tenham sido manifestamente exageradas ou, pelo menos, não dispunha de elementos que lhe permitissem afirmar o que afirmou. Nunca se trata de um problema de rigor jornalístico ou de idolatraria. É sempre a adaptação, a malfadada adaptação.

terça-feira, 18 de junho de 2019

A economia política das transferências

Sempre procurei ensinar que as empresas como qualquer outro tipo de organização não têm se não um objetivo: satisfazer as necessidades atuais e potenciais dos seus clientes ou utentes. O lucro ou os resultados não são um fim em si mesmos, são uma pré-condição da existência e uma forma de medir a consecução desse objetivo maior. Não se sobrevive a acumular resultados líquidos negativos e quanto mais e melhor se satisfazem as necessidades mais lucrativas se tornam as atividades económicas. O que importa, sempre, é a função social de uma empresa ou de uma organização, isto é, o contributo para a sociedade no seu conjunto. Evidentemente, esta definição ou este entendimento não é meu, resultando de reflexão de Peter Drucker, que, aliás, passou uma parte importante da sua vida ao estudo das instituições sem fins lucrativos. 

Não me acompanha exclusivamente Peter Drucker. Citando o insuspeito economista Papa Bento XVI, na sua encíclica “Caridade na Verdade”, o lucro não é um fim em si mesmo. O lucro tem que ser legítimo e legitimado do ponto de vista social. Isto é, o lucro é um instrumento para o desenvolvimento, assumido numa perspetiva humanista como o desenvolvimento de todos e de cada um. Desse ponto de vista, devem existir múltiplos modelos jurídicos e económicos de empresas que permitam acabar com a separação, que cada vez tem menos sentido, entre as que visam o lucro e as que o não visam. Não se está a falar de terceiro sector. Está-se a constatar uma ampla e complexa realidade, que envolve o público e o privado e que não exclui o lucro, antes o considera como instrumento para realizar finalidades humanas e sociais.

Infelizmente, o Mundo não funciona assim. A transposição do axioma da maximização do lucro das empresas da síntese neoclássica para a realidade veio legitimar todas as práticas assentes no objetivo de criação de valor para os acionistas. Não nos espanta que as empresas comprem as suas próprias ações ou distribuam dividendos generosos pelos acionistas enquanto aumenta a sua alavancagem. O objetivo deixou de ser o que devia e passou a ser uma outra coisa qualquer. Se há lucro e acionistas bem remunerados pelo capital investido, o objetivo está cumprido e os meios pouco importam. 

Um clube de futebol serve para constituir equipas e disputar campeonatos, oferecendo aos seus sócios e adeptos espetáculos desportivos. Este é o seu objetivo e o que determina a função social que o legitima. Vender e comprar jogadores é instrumental, serve o propósito de constituir melhores e mais competitivas equipas que possam proporcionar melhores espetáculos e ganhar mais títulos. Hoje, vender e comprar jogadores transformou-se num fim em si mesmo. Os jogos e os títulos só servem para os valorizar. Os valores das transferências sobem ano após ano e o recorde de um ano serve o simples propósito de sinalizar este “mercado” quanto à referência a ultrapassar no ano seguinte. Existe, cada vez mais, uma desproporção entre estes valores e as expetativas de ganhos dos clubes de futebol na realização da sua função social. Constituiu-se um esquema de Ponzi que durará enquanto a circulação de dinheiro o permitir e não se inverterem as expetativas sobre o crescimento do valor dos jogadores. 

O fetichismo da mercadoria de Karl Marx assume novos contornos. A mercadoria, enquanto entidade, despareceu e o dinheiro transformou-se na própria mercadoria. O dinheiro deixou de ser uma forma de facilitar a troca. Não existe relação entre o dinheiro, a produção de mercadoria e a realização de dinheiro, num ciclo mais ou menos virtuoso que permite a sua autorreprodução. O dinheiro gera dinheiro e tão só. 

Os adeptos passaram a festejar transferências como quem festeja golos, vitórias e títulos. Continuando a armar-me em culto, o que nos diz Gilles Lipovetsky é que não são as marcas que procuram dar resposta às identidades, são as próprias pessoas que precisam das marcas para construírem as suas identidades, não as conseguindo construir por si próprias. A nossa marca, o nosso clube, somos nós, seja no que for. O nosso clube devia servir para nos identificar enquanto adepto ou sócio. Serve cada vez menos. Serve para nos dispensar de dispor de identidades em cada uma das nossas outras dimensões. Ser do Sporting, do Benfica ou do Porto, dispensa-nos de ser mais o que quer que seja. É a era do vazio.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Como um discurso do 10 de junho

Foi pena a final da Liga das Nações não se realizar no dia seguinte – 10 de junho – o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Dificilmente se arranjaria um outro evento que melhor evidenciasse a psicossociologia de povo português, admitindo que exista uma e distintiva da dos restantes povos. A portugalidade exalta-se pelo labirinto, da saudade, nas palavras de Eduardo Lourenço, ou das pernas e jogadores em todo o campo, na tática do Fernando Santos. O império ou as vitórias europeias são sempre obtidas pela forma como se procura acertar no alvo sem nunca se dar a ideia que se tem esse propósito ou, sequer, propósito algum (não confundir com despropósito). 

A Holanda até entrou em campo disposta a jogar futebol, mas a forma embaralhada como o Fernando Santos dispôs os jogadores no meio-campo rapidamente os desanimou. Uma primeira leitura da disposição dos jogadores em campo poderia levar-nos a considerar que estávamos a jogar em 4x3x3. Mas como o Guedes, embora extremo, passou mais tempo de olho no Raphael Guerreiro, também permitia vislumbrar um 4x4x2. Como o Danilo parecia mais fixo no meio, em alguns momentos parecia estar-se em presença de um 4x1x3x2. Como o Bernardo Silva recuava, também se passava para o 4x1x4x1. Se nós, portugueses, habituados como estamos a ver jogar a seleção nacional, não conseguimos compreender o que vemos e acreditamos pela fé, não é possível para os secularizados holandeses darem conta de um recado que o seu espírito não entende. 

Não se pode afirmar que o Fernando Santos não tenha uma tática, não tem é uma estratégia. A tática é a de jogar em função da necessidade de anular os pontos fortes do adversário, que tanto podem ser individuais como coletivos. Os jogadores são dispostos em campo, uns em marcações individuais, para impedir o jogo de um ou outro dos melhores da equipa contrária, outros em marcações à zona, para ocuparem um determinado espaço relevante para o adversário e darem uma ajuda à defesa, em especial aos laterais. Esta teia gera ensarilhamento de jogadores, de pernas e de ressaltos que leva à desistência de qualquer espírito analítico. 

O ataque não é uma função organizativa autónoma. É o que sobra deste ensarilhamento. Por vezes, recupera-se a bola e não se a perde em seguida. É o momento de avançar. Avançar pressupõe um pontapé para a frente ou uma corrida de alguém como se não houvesse amanhã. Cada um está entregue a si próprio e tem de se desenrascar, aquilo que o português faz melhor. O desenrascanço confunde-se com o acaso mas não é. É uma filosofia de vida que o Fernando Santos mobiliza, mobilizando em todos e cada um dos jogadores aquilo que é da sua natureza e da natureza dos portugueses. 

O desenrascanço parece improviso mas também não é. É filho do desespero, da solução de último recurso. É correr porque não se tem a quem passar. É chutar quando não se tem outro remédio. E o golo nasce da forma como o Bernardo se desfez da bola para acudir ao chamamento da mãe para lanchar e da incapacidade do Guedes de estabelecer a relação espaço-tempo de Einstein adequada ao necessário passe para o Ronaldo, vendo-se na contingência de rematar à baliza e surpreendendo o defesa e o guarda-redes. De repente, o Cillessen tinha-se transformado no Vlachodimos e estava encontrada mais uma razão para se fazer uma reportagem sobre o Benfica. 

Ganhámos e, no futebol, ganhar aos outros é tudo: o melhor é o que vence. Na vida, temos de nos vencer, na ignorância, no preconceito, na falta de responsabilidade. Derrotarmo-nos no que temos de pior é vencer. Mas não nos vencemos porque existem eles, os outros, os que não nos deixam. Enquanto isso sempre nos podemos considerar os melhores enquanto o futebol nos permitir essa ilusão.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Liga das nações do futsal


Não quero parecer bruto para não ser expulso desta crónica, mas o futsal começa a ter alguns pormenores dignos do mais fino quilate do futebol de onze, talvez porque o Sporting vai no tricampeonato e é campeão europeu. Será? O jogo de ontem foi mais uma demonstração da religiosidade que impera no desporto, onde a devoção ao senhor padre nos recorda que devemos, devotamente, rezar.  Ou enviar uns e-mails.

O Fernandinho fez toda a escola da provocação (parece que com um estágio de final de curso nas antigas Antas), Robinho para lá caminha e Miguel Ângelo já demonstrou todo o potencial do seu murro como cortesia a Cardinal (um alegado Super-Dragão) no jogo anterior. Este mundo anda louco. Ontem, Dieguinho (este inho é do Sporting), foi expulso por supostamente agredir com a respiração Robinho, após este ter-lhe acariciado o corpo com a sua benesse habitual. Dieguinho foi para a rua. Robinho ficou para melhorar o seu potencial de se atirar para a piscina após amputação de um ou de dois membros a sangue frio. Para o ano estará no City, certamente.

Logo no início do jogo percebemos que um grupo de sócios e adeptos organizados do Benfica não estava, como é normal, apenas atrás de uma das balizas, ocupando uma das laterais imediatas. Resultado? Para além dos cânticos do costume, paragens sistemáticas (bem calculadas) do jogo através do lançamento de objectos (os comentadores diziam que eram cartolinas) para a quadra. Não interessa aqui a manufactura e a qualidade dos materiais mas a interrupção constante do jogo com o beneplácito dos senhores do apito, reconhecendo-se, porém, a envergadura artística de alguns desses objectos.

Após o jogo parece que alguns adeptos não organizados do Benfica seguiram a comitiva sportinguista do Sporting até Alvalade, provavelmente para os aplaudir pela sua grande prestação neste e nos jogos anteriores. Fica aqui a nossa saudação. E seguimos todos para ver o Félix partir tudo na televisão. Como é habitual, aliás. Obrigado.

sábado, 8 de junho de 2019

Propaganda


O século XIX foi o século dos jornais. Os jornais (entre outras plataformas – é assim que se diz agora) foram, e ainda são, uma oportunidade para o manejo da opinião pública. Nada disto é novo.

A semana passada, o Liverpool marcou um golo logo no primeiro minuto de grande penalidade. Ninguém teve dúvidas relativamente à bola cortada com o braço, um lance na esquina da grande área. Uma semana antes, Herrera tinha ajeitado a bola com o braço antes de servir condignamente Soares para o primeiro golo do Porto. À exceção de alguns jogadores do Sporting, ninguém viu o lance (ver ensaio sobre a cegueira de José Saramago). Comentadores televisivos incluídos. Diz que nem o Herrera sentiu a bola no braço, num caso de dormência ainda não devidamente estudado. O facto de o lance não ser na esquina da grande área deve ter feito toda a diferença.

Em sequência da recondução de Abel no banco do Braga, Salvador teve que dar uns retoques nas suas últimas afirmações sobre uma alegada péssima recta final de campeonato, entre outras péssimas rectas mais ou menos intermédias e algumas curvas mal engendradas. A culpa, obviamente, é do Sporting.

O jornal record de 02/06/19, num cantinho da capa cujo naming há muito foi adjudicado ao Benfica, mostrava um Salvador sentado numa poltrona com a legenda “Sporting foi beneficiado todo o ano”. A capa foi-me enviada por um amigo (supostamente) do Braga. Respondi: o silêncio sobre o Benfica e o Porto é esclarecedor. Ele enviou-me o PDF do jornal. Lá dentro, de facto, a poltrona falava de outros clubes mas o destaque (da poltrona e do Jornal) era sempre dado a um Sporting levado ao colo, não se sabe bem por quem, talvez por Mustafá e Carvalho. O jornal, tanto na chamada de capa como no título interior expunha a imagem da poltrona e de Salvador, mas as referências eram sempre direcionadas para o Sporting. Interessante, mas nada de novo.

Nada de novo, numa semana em que as capas dos jornais desportivos (e não só) anunciavam que a seleção nacional iria ser Félix no jogo contra a Suíça. Com feito, tivemos alguma Félixidade e, sobretudo, muito Ronaldo. Mas o que salta à vista desarmada foi a forma estruturada como quase todos os meios de comunicação anunciaram o advento Félix e a forma como este abana a cabeleira para não tapar as borbulhas. O que se passou depois, bem, isso pouco importa e o Rui conta-nos a história tim tim por tim tim, o importante é controlar a agenda mediática, controlando assim a opinião pública, o resto se não aconteceu podia ter acontecido. Ou aconteceu mesmo, mas nós não estávamos atentos.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Um paralelogramo aos trambolhões no relvado

Ver um jogo da seleção nacional tem dois propósitos: tentar perceber o que se passa na cabeça do Fernando Santos e apreciar o Cristiano Ronaldo. Sem ser estimulante, o primeiro é especialmente divertido. O Fernando Santos como os que lhe precederam, tem o único objetivo de meter o Rossio na Betesga. Como é da praxe, convoca duas dezenas de jogadores e inicia-se o suplício de meter uns tantos a jogar sem beliscar egos ou colocar em causa os necessários equilíbrios entre clubes e potenciais valorizações dos futebolistas. 

Na defesa, quatro das cinco posições estão ocupadas por usucapião. Na lateral direita, existem quatro alternativas. O Cédric Soares defende melhor mas ataca pior. O Nelson Semedo, o João Cancelo e o Ricardo Pereira atacam melhor do que defende. Dos três, o Nelson Semedo é o que tem estado pior e, assim, não se estranhou que não defendesse nem atacasse, distinguindo-se pelo “penalty” que originou o empate. 

Os problemas começam do meio-campo para a frente. A necessidade de meter o João Félix transformou um “puzzle” de quinhentas peças que não encaixam num outro de mil que também não encaixam. O Cristiano Ronaldo tem de jogar, naturalmente. O Bernardo Silva também. É necessário meter sempre dois trincos nem que seja à martelada. Não podia deixar de fora o melhor jogador do campeonato e o único do Sporting ou seria um escândalo. Com estes jogadores não se engendra uma tática, na melhor das hipóteses faz-se um acordo de concertação social e espera-se que cada um deles fique contente. 

A tática era a do losango, foi o que nos explicaram. Um quadrado também é um losango com a particularidade dos ângulos serem todos retos. Foi com esta tática que derrotámos os espanhóis em Aljubarrota e não há razões para não recorremos a ela para bater outros exércitos. Com dois à frente e dois atrás, arranjava-se um quadrado. Mas a opção foi a de ter três atrás e um à frente. Para isso, era necessário que não estivessem em linha os três de trás e o da frente estivesse posicionado para que todos os lados fossem de igual comprimento. 

Não tivemos nada disto. Tivemos o Ruben Neves, o Bruno Fernandes e o William Carvalho cada com a sua parte do terreno, o primeiro no meio e os dois últimos dos lados direito e esquerdo, respetivamente. Cada um era responsável por essa área e fosse o que Deus quisesse. O Bernardo Silva jogava a pressionar a saída da bola dos adversários, abrindo-se uma cratera no meio e obrigando-o a andar a correr como um maluco para ocupar o espaço à frente e atrás ao mesmo tempo. O Cristiano Ronaldo e o João Félix, entretanto, comportavam-se como dois poltrões, nem condicionavam a zona central nem fechavam sequer uma linha de passe nas laterais. Com o caos instalado, cada um estava entregue a si próprio. Os mais maduros e experientes foram encontrando forma de se tornarem úteis, se não ajudando os seus colegas pelo menos estorvando os suíços. Nestas circunstâncias, chegou a ser penoso ver o João Félix. Dispondo ou não a equipa da bola, não se sabia posicionar, perdendo-se em campo. 

Mas ganhámos e isso é sempre tudo ou quase tudo A história repete-se uma e outra vez. Há quem acredite em milagres e com o Fernando Santos ainda mais. Mas não há milagre nenhum. Há o melhor jogador do mundo. Ele e só ele consegue transportar a equipa para patamares competitivos e de resultados persistentemente impensáveis. Não importa o treinador nem os colegas. Talvez por isto seja o melhor jogador do mundo, como o foi Maradona no seu tempo, isto é, pela capacidade de transportar a sua seleção para uma dimensão que, de outra forma, seria impensável pela valia coletiva e individual dos restantes jogadores e pelo engenho tático do treinador. Este seu desempenho coloca-o um pouco acima do Messi na história do futebol que ambos assumem e irão assumir ainda mais. Uma coisa é ser bom jogador numa equipa de bons jogadores. Outra bem diferente é ser um bom jogador e transformar uma equipa mediana numa das mais temíveis do seu tempo.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Dias (in)felizes

Primeiro um, depois outro e assim sucessivamente, até ao Cristiano Ronaldo, diferentes jogadores de diversos clubes decidiram juntar-se ao João Félix para formar uma equipa e jogar contra a Suíça. Não sabemos se o Fernando Santos se decidiu juntar também ao João Félix para treinar a equipa ou se é treinador para juntar os outros ao João Félix e constituir uma equipa. Como se a campanha não estivesse suficientemente enjoativa, hoje informam-nos ainda que o João Félix vai atacar a Suíça. A Suíça é um país e com uma história de neutralidade política e geoestratégica. Parece-me desagradável esta atitude beligerante relativamente a quem tem por hábito não se meter em desacatos, recorrendo-se a uma arma de destruição maciça como o João Félix, que chega e sobra para destruir um país inteiro. 

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Respeitar e exigir respeito

Independentemente de outros méritos, um deverá ser reconhecido a Frederico Varandas durante o período que exerce funções de Presidente do Sporting: o sentido institucional. Ninguém viu nem ouviu o Frederico Varandas a insurgir-se desabridamente dos árbitros, da Federação ou da Liga. As (escassas) críticas foram dirigidas de forma contida e com recurso a linguagem adequada. O comportamento do Sérgio Conceição contrastou com o seu, como têm contrastado os dos mais diversos intervenientes no futebol nacional (no final da Taça de Portugal, ninguém teve dúvidas sobre o que se consideram comportamentos aceitáveis e inaceitáveis). Alguns consideram que se trata de sinal de fraqueza. Não consigo fazer essa avaliação: tanto pode ser uma sinal de fraqueza como um sinal de força. Não tenho dúvidas é que se trata de um sinal de responsabilidade e de educação. 

O que se espera é que a forma respeitosa como o Frederico Varandas, enquanto Presidente do Sporting, trata os outros seja recíproca. Ninguém é ingénuo para esperar que tudo pode e vai mudar. Os dirigentes são os de sempre e vão-se comportar como sempre. Na comunicação social, espera-se outro comportamento. Tem que se distinguir jornalismo de comentário futeboleiro. Não aprecio o segundo, mas sou capaz de entender as posições dos contendores: cada um é do seu clube e defende o seu clube, sendo essa a razão para participarem nesses programas. 

Jornalismo ou comentário especializado é coisa bem diferente. Custa-me ver na SIC um ex-árbitro que, em pleno Estádio de Alvalade, cometeu a indelicadeza de interromper o aquecimento do Rui Patrício para não se dar ao trabalho de passar por trás da baliza e, chamado à atenção, ainda se predispôs a andar à pancada com o treinador de guarda-redes. É um desrespeito pelo Sporting e sportinguistas tê-lo a comentar os nossos jogos. Os comentários e os relatos dos jogos do Sporting na SporTV também constituem uma falta de respeito, como venho analisando em sucessivas crónicas. Pela natureza pública da entidade, a situação agrava-se na RTP, sendo absolutamente desrespeitoso para o Sporting e sportinguistas o relato e os comentários da final da Taça de Portugal, repetindo-se o que tinha acontecido na final da Liga Europeia de hóquei em patins. 

Esta semana vi o programa do Rui Santos na SIC. Há anos que não o via. Nada mudou, a não ser o aparato tecnológico. Mantém-se o pseudomoralismo, continuando a considerar-se um arauto da verdade e exibindo um superioridade moral insuportável. Apelou à paz, sem explicar de que guerra se tratava, quem eram os beligerantes e não fazendo justiça ao Frederico Varandas e ao Sporting, excluindo-o e excluindo-nos desse apelo.. Enfim, um apelo sem qualquer substância. Comprou ou ofereceram-lhe uma geringonça e o homem tenta transformar a tecnologia em verdade, como se as escolhas dos lances a analisar não fossem dele e a equivalência entre juízos de facto e juízos de interpretação não fossem dele também.

Analisou o lance do Herrera no primeiro golo do Porto na final da Taça de Portugal e constatou o óbvio: houve um erro de facto. Meteu outros lances ao barulho, entre eles, o cartão amarelo mostrado ao Coates quando cortou um lançamento longo com a mão. Como recorreu à maquineta, parece que se trata de um erro de facto quando se está em presença de uma interpretação e ninguém no Mundo pode dizer com certeza onde é que a bola ia cair e a que distância e de que lado, esquerdo ou direito, do Soares, se a conseguiria dominar e as consequências de a dominar de uma forma ou de outra, se conseguiria ficar isolado e se, a mais de trinta metros da baliza e correndo com a bola, não seria intercetado pelo Mathieu correndo sem ela. Equivaleu, assim, um juízo de facto com um juízo de interpretação e assim uma mão lavou a outra. 

Não satisfeito, resolveu explicar a razão para o Sporting dispor dos jogadores a quem mais amarelos foram mostrados, tendo mais 58% e 48% do que os seus colegas do Porto e do Benfica, respetivamente. Quando se esperava que nos explicasse que os jogadores do Sporting jogam com regras diferentes dos do Porto e do Benfica, resolveu informar-nos que, nada disso, o que acontece é que têm inclinação para amarelos “escusados”. Que eram desnecessários, todos tínhamos percebido. Ainda não nos tinham explicado é que desnecessidade não resultava dos árbitros mas dos jogadores. De uma penada, os jogadores do Sporting foram tratados como rematados imbecis e, por arrasto, o Sporting, que os contratou, e os sócios e os adeptos, que os apoiam. 

Fui feliz na Lousã, onde vi a final da Taça de Portugal. Vi o jogo com sportinguistas, novos e velhos, mulheres e homens. Partilhei com eles a alegria como teria partilhado a tristeza se tivéssemos perdido. É-nos devido respeito. Não suporto a mentira, mas suporto ainda menos o “suggestio falsi”. Não somos estúpidos e não nos queiram fazer passar por estúpidos. O Frederico Varandas tem respeitado, dando-se assim ao respeito. Avaliá-lo-ei pelo respeito que tem pelos outros mas também pelo respeito que exigirá dos outros para consigo, para com o nosso clube e para connosco, adeptos e sócios, sobretudo daqueles que por deontologia profissional se têm de dar ao respeito mais do que quaisquer outros.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Nós somos o Sporting ou uma outra forma de sentir que o amor é…

(http://anortedealvalade.blogspot.com)
Fim-de-semana passado na Lousã para a festa do sexagésimo aniversário do meu amigo João. Chego a pouco mais de um quarto de hora do início do jogo. Paro o carro no centro e procuro o café com a televisão maior. Fico no Café Beirão. Peço um fino ou uma imperial, conforme a latitude, e procuro perceber o entorno. Há-os para todas as idades e todos os géneros: novos e muito novos, velhos e muito velhos, mulheres e homens, raparigas e rapazes. Mas há uma só cor: a verde. Estava em casa!

As equipas entram perfiladas em campo. O Bruno Fernandes vem acompanhado dos esperados três Reis Vagos: Bruno Gaspar, Gudelj e Diaby. A cara do árbitro não me é estranha. Associo-a a um ex-membro da Juve Leo. Mas não pode ser possível, não é possível com toda a certeza. Nunca um membro das nossas claques arbitrou qualquer jogo dos nossos e não lembraria a ninguém colocar um membro de claque a arbitrar um jogo da sua equipa. Olhando com mais atenção, verifico que se trata do árbitro que dá ralhetes aos miúdos do Sporting. Um árbitro disciplinador e isento, portanto. 

O Sporting não começa mal, passando os primeiros minutos a pressionar o Porto. O Mathieu esquece-se por momentos do principal ponto forte do Marega, o ressalto com a canela, e permite-lhe um passe para o Bruno Gaspar que é meio-golo, valendo-nos o Renan Ribeiro. Responde o Bruno Fernandes com um remate de fora da área para aquecer as mãos do guarda-redes. Entretanto, o Diaby entorta o Filipe, safando o Pepe quando o Luiz Phellype aparecia para empurrar a bola. O Diaby não desarma e vai à linha centrar atrasado para o Bruno Fernandes, de primeira, acertar nas orelhas da bola. Na sequência de um livre e de um ressalto para a entrada da área, o Raphinha parece fazer melhor mas a bola passa rente ao poste. 

Mas a pressão do Sporting não pode durar sempre e o jogo comprido do Porto permite-lhe sair sem sobressaltos para o ataque. O jogo equilibra-se e, pouco a pouco, o campo inclina-se. O fiscal de linha passou a levar muito a sério a possibilidade de deixar de assinalar foras-de-jogo e a nossa defesa teve de recuar para evitar que os avançados do Porto começassem os ataques com um metro de avanço. O Marega, acampado na área, marca um golo e foi necessário recorrer ao VAR para verificar que, depois da barraca, tinha instalado também o “barbecue” antes de rematar. Nova investida, bola a sobrar para o Herrera que a domina com o braço e centra para o Soares cabecear para o primeiro golo. Os jogadores do Porto aproveitam para fazer uma sentida homenagem ao Casilllas, à qual se associam o árbitro, o VAR e os comentadores da RTP. Foi um momento bonito, embora se recomende que uma homenagem justa como esta possa ser efetuada no Estádio do Dragão num jogo particular. A equipa do Sporting pode participar na mesma, mas quem se desloca ao estádio ou assiste pela televisão sabe que o jogo não passa de um pretexto. 

O Sporting responde de imediato iniciando-se a jogada pelo improvável Gudelj, que se desloca lateralmente com a bola a passo de caracol até ficar encurralado junto à linha e sofrer uma entrada a pé juntos do Militão. A bola sobra para o Acuña que avança, levanta a cabeça e a coloca à entrada da área onde se encontra o Bruno Fernandes para a receber e rematar, fazendo o golo do empate. Quando esperávamos o correspondente amarelo ao Militão, acabámos, afinal, por ficar à espera que o árbitro consultasse o VAR durante longos minutos como se o golo do Sporting e do Porto se equivalessem e, na dúvida, tivesse apitado coerentemente. O tempo de espera foi tão longo que os comentadores da RTP foram preparando o melhor ou o pior, conforme as perspetivas, embrulhando um fora-de-jogo posicional do Raphinha na difícil deliberação e decisão do árbitro. Fomos para o intervalo a empatar em golos, mas a perder por dois amarelos a zero. O árbitro ralhou aos jogadores do Porto e mostrou amarelos aos nossos, o que se agradece, porque não há nada de mais constrangedor e humilhante do que umas reprimendas em público e com a família e os amigos a escutá-las. 

Com o decorrer do jogo, o campo transformou-se numa pastagem. Os do Porto, com mais cabedal e força nas canetas, adaptaram-se melhor. O “pack” avançado progredia em “rucks” sucessivos que muito dificilmente o Mathieu e o Coates conseguiam parar. Com introdução da bola de um lado ou do outro, as “touches” e as “melés” eram dominadas por eles. O árbitro também adotou as regras do “rugby”, tendo acabado os noventa minutos sem um único amarelo para a equipa adversária. A nossa sorte foi os do Porto levarem tão a sério esta modalidade que nem por um momento admitiram a possibilidade de ganhar o jogo enfiando a bola na baliza. O Marcel Keizer ainda tentou mudar o jogo. Para permitir que o Acuña esticasse o jogo na esquerda, ensaiou a defesa a três, com a entrada do Ilori e a saída do Bruno Gaspar. Esta tática permite que o Gudelj jogue mais à frente e, com ele, o meio campo no seu conjunto também se adiante. No entanto, sem o Borja e, sobretudo, o Ristovski a equipa não se reequilibra tão bem quando perde a bola, não permitindo que o Raphinha e o Acuña se adiantem tanto. Continuando o meio campo sem dar conta do recado, meteu o Bas Dost e tirou o Diaby para procurar jogar mais comprido e dispor de outro matulão para defender as bolas paradas do Porto. Sobrevivemos na segunda parte, apesar dos comentadores da RTP nos irem fazendo o funeral, sentindo que estava num “pub” em Glasgow a ver jogar o Celtic contra o Porto. 

Na transição para o prolongamento, pedi mais uma cerveja e percebi que lhes tinha perdido a conta. O jogo reinicia-se e os do Sporting ganham nova alma. O Acuña avança e, ao ver o trapalhão do Felipe à entrada da área, faz-lhe tabelar a bola na coxa para a desviar de forma a permitir a entrada silenciosa do Bas Dost ao segundo poste que a mete na baliza. Infelizmente, o Sérgio Conceição percebe que talvez não seja má ideia deixar o Brahimi organizar o jogo. O cerco aperta-se. O coração é quem mais ordena e o coração do Mathieu e do Coates parecem do tamanho do mundo. O Wendell soçobra como antes tinha soçobrado o Gudelj. Entra o Jéfferson para jogar a médio à frente do Doumbia. Ninguém consegue estar sentado no Café Beirão. Venho uma e outra vez cá fora respirar e fumar mais um cigarro. Veterano destas andanças, sei que estes jogos nunca acabam com normalidade. Desejava e não desejava o golo do Porto. Não o desejava por razões óbvias. Desejava-o para acabar com aquele sofrimento, porque sabia o que acabaria por acontecer, com a frustração de termos estado a um pelinho da vitória. 

Os “penalties” iniciam-se connosco na mó de baixo, emocionalmente e no resultado, quando o Bas Dost falha o primeiro. Estamos prestes a ser engolidos pelo fundo do poço onde nos metemos, mas o Bruno Fernandes, de raiva, mantém-nos suspensos. O Pepe tenta repetir o mesmo remate por alto do Danilo e acerta na barra. O Mathieu marca com a frieza habitual e reinicia-se o “turnover” emocional. Não há sportinguista que não acredite que o Renan Ribeiro não defenda pelo menos uma. Mas os do Porto encontram-se mais bem preparados do que na final da Taça da Liga. Quando o Coates avança para a marcação do último “penalty”, esboça-se um sorriso irónico de resignação na cara dos sportinguistas que se veem na transmissão televisiva. Mas o Coates não repete a bojarda do costume e coloca com precisão e técnica a bola no lado esquerdo do guarda-redes, que entretanto se lança para o lado contrário. Passa-se definitivamente ao mata-mata. O jogador do Porto avança rapidamente e ao aproximar-se da bola tenta desacelerar para olhar uma última vez para o Renan Ribeiro que mantém a sua dança e só a desfaz quando o remate sai para o seu lado mais forte (finalmente!), estirando-se para defender com a ponta dos dedos. Acreditei no Luiz Phellype como se nunca tivesse feito outra coisa na vida que não fosse vê-lo a marcar “penalties” e ele comportou-se como um veterano dos grandes momentos. 

Retenho imagens parcelares e confusas do que se passou a seguir. Não sei se foi das cervejas ou da alegria. A empregada desatou a dançar com uma criança. Um velhote, com ar muito doente, levanta-se de um salto. Abraço o meu colega do lado e com ele e os restantes sportinguistas do Café Beirão cantamos “O mundo sabe que”. Ouvem-se foguetes e carros a apitar. Recebo e mando mensagens. A minha irmã diz-me que o meu sobrinho viu pela primeira vez o Sporting ganhar (espero que tenha vestido a camisola que lhe ofereci). Há uma e uma só razão para haver este ou aquele jogador, este ou aquele treinador, este ou aquele presidente: nós, os da Lousã, os do Jamor, os de qualquer canto do país ou do mundo. Nós somos o Sporting! Isto ou, como diria o Miguel Esteves Cardoso, “O Amor é Fodido”.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A justiça do campeão: estatísticas e recordes

Na passada sexta-feira, uma súbita insónia prostrou-me à frente da televisão a ver a repetição do “Aposta Tripla”, programa de debate sobre futebol na SporTv que não via há muito tempo. O formato não é muito diferente dos de outros canais que enxameiam a programação todo o santo dia, não escapando o horário nobre. As diferenças encontram-se sobretudo nos perfis dos intervenientes, mais moderados e sem falarem em simultâneo e aos gritos. O moderador é simpático e civilizado. Os representantes do Porto e do Benfica são os mais aguerridos, apesar de tentarem passar a imagem de adeptos que independentemente de torceram pelo seu clube apreciam em primeiro lugar o futebol jogado. O representante do Sporting constitui o paradigma deste tipo de programas: está sempre disposto a adotar o politicamente correto como se se sentisse envergonhado por demonstrar qualquer sinal de clubite e falta de “fair play”. O ramalhete fecha-se com um comentador e ex-jogador de futebol do Benfica e do Porto que procura afirmar-se pelo seu conhecimento e independência. 

O representante do Sporting é irrelevante. Serve o propósito de desviar o debate mais aceso entre os outros dois adeptos, legitimando uma posição ou a outra, conforme as situações, ou efetuando uma bissetriz entre elas. A agenda do Sporting praticamente não está presente ou tem pouca expressão. Defendeu uma opinião filosoficamente muito interessante. Um erro do árbitro nunca influencia o resultado porque o erro gera relações de causa e efeito não lineares. Referindo-se à famosa mão do Ronny, afirmou que, contrariamente à convicção dos sportinguistas, não se pode concluir que este golo tenha determinado o resultado final do campeonato, dado que nunca se sabe o que se iria passar sem esse acontecimento mesmo nesse jogo. Epistemologicamente, não posso estar mais de acordo. A sucessão de acontecimentos não resulta de relações lineares de causa e efeito, não se sabendo com rigor se uma dada causa produz de imediato um determinado efeito, estabelecendo-se, isso sim, um conjunto de relações causais praticamente inextricável que só o recurso à teoria do caos poderá ajudar a discernir e explicar. Assim, pode-se afirmar que a mão do Ronny determinou o resultado do jogo e do campeonato da mesma forma que determinou a eleição do Trump nos Estado Unidos da América, faltando concluir que podemos ser beneficiados por nos prejudicarem. Numa abordagem mais terra a terra, no que respeita ao futebol português, estou de acordo com ele também mas outra forma: se não houvesse a mão do Ronny haveria uma outra mão qualquer (nos nossos bolsos). 

O adepto do Benfica nunca fala de arbitragens até falar. A um Rio Ave x Benfica opõe um Porto x Portimonense. O adepto do Porto não desarma e a cada Boavista x Porto opõe um Feirense x Benfica. No fundo o que nos transmitem é que nenhum destes clubes tem razões de queixa e são ambos beneficiados em termos absolutos e, sobretudo, relativos (em relação à restante concorrência). O do Porto tem bastante mais piada, dado que o do Benfica se leva muito a sério e tem um sentido de (auto)ironia idêntico ao do Muro de Berlim. O comentador também procura dirimir o conflito latente entre os dois contendores, explicando-nos que os três grandes são sempre beneficiados, confundindo benefício absoluto e benefício relativo e metendo o Sporting ao barulho para desviar as atenções. Admite-se que a sua experiência vivida no Benfica e no Porto lhe permita afirmar o que afirma. Não se compreende é a extrapolação para o Sporting, realidade que não viveu, a não ser na base do ditado “não há duas sem três”. Uma conversa com o Rui Jorge ou uma leitura mais atenta dos cartões amarelos e vermelhos talvez o ajudasse a compreender melhor a relação não linear também entre a grandeza dos clubes e a arbitragem. 

O mais espantoso no debate que assisti foi o recurso às estatísticas para explicar a excelência do campeonato do Benfica. As estatísticas podem ser relevantes se os acontecimentos forem aleatórios, existindo uma convergência para a média. Ora, no futebol português, os acontecimentos são tudo menos aleatórios, existindo uma predisposição, consciente ou inconsciente, não interessa, para determinar os resultados. Os efeitos são cumulativos e tendem a gerar ilusão que se está em presença de fenómenos de “cauda longa”, isto é, de acontecimentos com elevado grau de improbabilidade. Trata-se de uma ilusão e não é necessária nenhuma teoria da conspiração para a explicar. De repente, treinadores como o Rui Vitória, o Sérgio Conceição e o Bruno Lage pulverizam todos os recordes do José Mourinho nas épocas em que, simultaneamente, venceu a Taça UEFA e a Taça dos Campeões, isto é, com equipas que não chegam aos calcanhares de nenhuma destas do Porto. Treinadores assim-assim com equipas assim-assim são melhores do que aquele que foi considerado várias vezes o Melhor Treinador do Mundo, treinando, nestas duas épocas, alguns dos melhores jogadores do mundo nas suas posições e que constituíam a estrutura da seleção nacional vice-campeã europeia. 

O Bruno Lage fez cinquenta e cinco pontos em cinquenta e sete possíveis. Na primeira volta, quando o Porto foi a Alvalade, o Sérgio Conceição ia com dezoito vitórias consecutivas. Na época de 2015/2016, o Rui Vitória ganhou os últimos treze jogos e nos últimos vinte e um somou sessenta pontos em sessenta e três possíveis. Não se está em presença fenómenos e de acontecimentos improváveis, o que se está é em presença de uma regularidade estatística nas últimas épocas. No final, ganha o campeonato quem soma mais pontos nos dois únicos jogos que interessam: os jogos entre o Porto e o Benfica. O campeonato não passa de uma eliminatória com duas mãos, servindo os restantes jogos para encher chouriços. Desse ponto de vista, o Benfica foi um justo campeão. 

Como afirmei diversas vezes, aqui e aqui, após a revelação dos emails, não se devia ter disputado o campeonato. Dispondo dois clubes do conhecimento do seu conteúdo, por motivos  diferentes, encontravam-se-se, assim, em condições privilegiadas face aos demais. Nada aconteceu e a justiça transmitiu sinais equívocos. Para um leigo, o sinal que foi dado é que o acesso ilegal a informação em segredo de justiça é menos grave do que o acesso ilegal a informação de particulares. Não sendo por este lado que se espera qualquer mudança, a única solução para colocar os clubes em igualdade de condições é democratizar o acesso aos emails. Talvez nessa altura se possa a voltar a falar em feitos e recordes.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Play it again Sam

Sobre a passagem da manada de elefantes no Dragão, sábado passado, como entretenimento de final de campeonato, já nos disse praticamente tudo o nosso capitão Rui Monteiro. Aos caídos, diz que alguns jogadores do Sporting lá conseguiram chegar aos balneários sem que o VAR ou um dos árbitros os expulsasse por conduta violenta contra o espaço cognitivo que acompanha o túnel de acesso aos desejados duches. Mas, como todos sabemos, há sempre um pré-match que salga e apimenta os momentos seguintes. É quase tão importante como o post-match, e ambos são muito mais importantes que o jogo em si. Toda a gente sabe disso.

Toda, menos o Keizer: nada disso está (apenas) relacionado com o conhecimento das idiossincrasias do futebol português, embora estando; nem sequer com o festival de papas de sarrabulho de Amares, embora a sua ausência tenha sido notada; nem sequer com o desconhecimento da língua de Camilo, embora desse jeito perceber aquilo que os outros para aí dizem e escrevem. O meu sobrinho pequeno (também) sabia que o segundo jogo com o Porto (a final) era mais importante que o primeiro. Sabia, mas não o disse. Nem em conversas familiares o rapaz se descosia. O foco, seja lá isso o que for, era o próximo jogo. Keizer sabia que o jogo da final era (e é) o mais importante e disse-o. Não precisava nem tinha que o fazer. Ainda por cima anunciando mudanças e entrando depois em campo com Acuña, mister lesões Mathieu e Bruno Fernandes. Tudo malta perfeitamente substituível no jogo da final.

Keizer, se lesse na língua de Camilo, tinha percebido que durante a semana o presidente do clube rival se tinha desdobrado em entrevistas, editoriais, anunciando o apocalipse (supostamente) causado pelos árbitros ao seu clube, bem secundado na estratégia pelo seu cão de fila da propaganda. O campeonato estava perdido, eles bem o sabiam. E nós sabíamos – o meu sobrinho sabia-o bem – que o jogo do fim-de-semana seria uma demonstração de força (no sentido tamanqueiro e trauliteiro do termo) do nosso rival. De intimidação, pois claro. O árbitro também o sabia, como se viu. O VAR também. O Paulinho Santos sabe-o há muito anos e tem uma tese de mestrado sobre o assunto. Ao entrar com o Fernandes, o Acuña e o mister lesões Mathieu, Keizer demonstrou que não o sabia. E também demonstrou que não tem ninguém que lho diga. Por isso será melhor aprender rapidamente a língua de Camilo e começar a frequentar a tasquice mundana. Assim continuará a dar cartas na estratégia e na táctica, sem nunca se esquivar a uma boa sueca. Estamos a referir-nos ao jogo de cartas, bem entendido

Quando uma manada de elefantes entra em campo

O jogo contra o Porto tinha dois objetivos que na prática constituíam um só: assegurar que um ou outro dos (poucos mas) bons jogadores do Sporting não estivesse na final da Taça de Portugal, no Jamor, aproveitando os do Porto, ainda, para descarregar a frustração da perda do campeonato nas canelas dos adversários ou em qualquer outro elemento anatómico que estivesse à mão (ou ao pé, melhor dizendo) de semear. O Sporting aparentemente também tinha o mesmo objetivo, assim se compreendendo a razão para o Mathieu, o Acuña e o Bruno Fernandes integrarem a equipa titular. 

Os do Porto iniciaram o jogo com o propósito de molhar a sopa no seu alvo principal, o Bruno Fernandes, esperando qualquer coisa, designadamente uma resposta em conformidade que o levasse à expulsão. O objetivo estava bem definido, mas o Bruno Gaspar trocou-lhes as voltas ao atrasar inopinadamente uma bola para o Borja se embrulhar com o Corona e acabar expulso depois de mais uma rábula onde o VAR representou o papel de árbitro interpretando o lance e as relações de causa e efeito do que viu e esquecendo-se de fazer outras interpretações diferentes do árbitro quando viu o que viu, como as entradas sem bola do Filipe e do Militão. O Sporting tem poucos bons jogadores, como se referiu, muitos assim-assim e alguns, consensualmente, maus. Assim, expulsado um assim-assim, para uns, ou mau, para outros, reduziu-se a possibilidade de expulsão de um dos bons. Por isso ou porque com mais um sentiram a responsabilidade de fazer mais alguma coisa, os jogadores do Porto passaram a olhar mais para a nossa baliza, embora mantendo um olho no burro ou no cigano, não sei bem como é que aplica este aforismo neste contexto. A primeira parte concluiu-se sem que se tivesse jogado praticamente à bola: o Felipe acertou mais vezes no Bruno Fernandes do que na dita e o Marega também não conseguiu acertar na dita e, muito menos, com a dita na baliza e fez-se ao “penalty” e à expulsão do Mathieu com uma coreografia que nem nos anos oitenta e noventa se aceitava. 

Ao intervalo, terão explicado ao Bruno Fernandes que o melhor era encostar-se à esquerda e deixar pura e simplesmente de participar no jogo e nunca, mas mesmo nunca, se lembrar de atacar, colocando-se a jeito. Os do Porto atrapalharam-se com este triste e vil apagamento do seu alvo principal e ficaram sem objetivo. Umas castanhas aqui, umas biqueiradas ali, umas correrias inconsequentes acolá e nada mais. Estava-se num marasmo tão, mas tão grande que um mau, o Diaby, um bom, o Acuña, e um assim-assim, o Luiz Phellype, tiveram tempo, mas tanto tempo para se relembrarem onde ficava a baliza da equipa adversária que acabaram por marcar um golo. Raivoso, o Sérgio Conceição fez entrar o Aboubakar carregado de apontamentos. O homem, atrapalhado, em vez de montar a habitual roda com os colegas à frente da claque e, enquanto um dos seus membros despia a camisola, realizar um “brainstorming”, decidiu ler as cábulas enquanto corria. Não é um processo que se recomende e, assim, não se estranhou que tenha esbarrado no Renan Ribeiro quando estava isolado e se esperava que marcasse. 

À falta de melhor, os jogadores do Porto fartaram-se de ganhar cantos e tanto cantos marcaram que os nossos, exaustos e vagamente entediados, entraram em modo “levem lá a taça (em minúsculas, entenda-se)”, deixando de saltar às bolas e de fazer subir a linha defensiva. O Danilo empatou e logo a seguir o Herrera fez o dois a um, saudando as claques com um coração e evitando ter de se lhes dirigir no final do jogo para pedir desculpa de qualquer coisinha. Fiquei com dúvidas quanto à sua posição e com mais dúvidas fiquei quando a SporTv desatou a passar repetições e repetições de todos os ângulos menos daquele que permitia esclarecer essas dúvidas, chegando a passar umas repetições de trás da baliza cuja coisa mais relevante que permitiam vislumbrar era o novo “bleached blonde hair” do Herrera. 

Parecia que tudo estava resolvido a bem para ambas as partes, mas não estava. Os do Porto voltaram à casa de partida e continuaram à viva força a querer expulsar um dos (poucos) bons jogadores do Sporting. À falta do Bruno Fernandes, que tinha sido substituído, desviaram as suas atenções para outro alvo: o Acuña, o argentino das bolas grandes, como afirma a sua mulher e nós não temos condições de desmentir. Quando o Acuña dominou a bola junto ao banco do Porto, local ideal para se encenar uma ópera-bufa como a que se iria assistir, o Corona e o Herrena fizeram-lhe uma emboscada e desataram a bater-lhe de todas as formas e feitios, enquanto, subitamente, se vê entrar em campo uma manada de elefantes comandada pelo Sérgio Conceição. Vendo o seu colega em ligeira desvantagem em número e armamento, os nossos reorganizaram-se e fizeram uma investida que rompeu a inexpugnável Linha Maginot, enquanto o Acuña, fora do campo, se mantinha tranquilo a explicar a dois elefantes os ensinamentos do Mahatma Gandhi e os princípios do Satyagraha para evitar que engrossassem a manada. O VAR, que tinha visto uma mão do Borja que, quem sabe, talvez pudesse impedir a adequada progressão do seu adversário e assim, quem sabe, isolar-se, não viu nem o Sérgio Conceição nem a manada de elefantes entrar em campo. Não viu ele e também não viu o árbitro, o quarto árbitro e os dois fiscais de linha. Ainda bem que estas assimétricas patologias oftálmicas não afetam a polícia que se dispôs de imediato a acabar com a rebaldaria. O árbitro expulsou o Corona e mostrou amarelo ao Acuña, por considerar, admite-se, que uma revolução mesmo por meios não violentos não deixa de ser uma revolução e uma forma de perturbar mentes mais simples e dadas aos instintos da sua natureza. 

Mas, no fim, o que importa é o resultado e o resultado foi lisonjeiro para nós. Ficámos sem um jogador para a final da Taça de Portugal e o Porto também. Não merecíamos este resultado e o Porto muito menos, que tanto porfiou para conseguir mais e melhor enquanto nós só passámos a jogar como uma verdadeira equipa quando tivemos de enfrentar uma manada de elefantes. Depois de levar uma bofetada do Sérgio Conceição, o Renan Ribeiro caiu, mas, como reza a lenda, por cada leão que cair, outro se levantará!

sexta-feira, 17 de maio de 2019

O custo de oportunidade de falar do que se não conhece

Tive a oportunidade de escrever este “post” sobre as rescisões dos jogadores do Sporting e os acordos que o Sousa Cintra tinha vindo a desenvolver. Recorri aos famosos conceitos do “Dilema do Prisioneiro” e do “Equilíbrio Nash” para explicar que a procura do interesse próprio de cada uma das partes tanto poderia levar a um acordo ou a acordo nenhum, ganhando todos ou perdendo todos respetivamente. Os dados que apresentei para explicitar a estratégia de cada uma das partes que participava neste jogo eram simbólicos e, portanto, fictícios. Os acordos foram sendo feitos e o que pareceu evidente era que os acordos eram sempre melhores do que as alternativas, isto é, os não acordos. 

Entretanto, chegou-se ao mais recente acordo com o Gelson Martins. Existe um consenso: é um mau acordo para o Sporting. Quem assim afirma esquece-se de nos explicar qual seria, então, a melhor alternativa. A única alternativa conhecida é o não acordo e a decisão judicial. A decisão judicial tem um grau de imprevisibilidade relevante e mais imprevisível ainda são as consequências dessa decisão. Mesmo que exista absoluta convicção sobre os méritos da posição do Sporting, ninguém consegue antecipar as consequências. 

Ninguém sabe se as consequências recairão completamente sobre o jogador e, sendo assim, como é que será determinada a indemnização e, mais do que isso, se o jogador disporá de condições para a pagar (a simples insolvência pessoal determina a possibilidade do Sporting não se ver ressarcido de nada). Ninguém sabe se as consequências recairão também e em que grau sobre o Atlético de Madrid e as diversas formas que este clube teria de prorrogar o não pagamento de qualquer indemnização, obrigando a um outro acordo para o Sporting receber o que quer que seja, abdicando agora de um acordo para ter de chegar a outro mesmo que viesse a ganhar o processo judicial. Neste como noutros casos semelhantes, o tempo corre sempre contra quem espera ser indemnizado, dificilmente sendo ressarcido dos danos causados e sobretudo na dimensão dos danos causados no passado reportados ao momento presente com taxa de atualização razoável. 

Numa economia de mercado o preço é justo ou injusto em função do seu custo de oportunidade, a melhor alternativa em idêntica situação de risco. O Mundo como o conhecemos não é uma parábola onde no final ganham sempre os bons e os justos. A realidade, o nosso dia-a-dia e o das instituições, dispensa bravatas e títulos de jornais. Como diz o Woody Allen, a realidade por mais dura que possa ser ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife. Os erros não se corrigem, nem se desculpam, evitam-se simplesmente. É verdade que o envolvimento de intermediários e o pagamento de comissões sobre serviços que se desconhecem constitui o lado obscuro do futebol. Há muito tempo que a absurda circulação de dinheiro sem explicação nestas transações deveria levar as instituições que nos representam a tomar medidas. Mas essa, embora mais interessante, é outra discussão. 

Nada disto impede que a Direção do Sporting dê devidas explicações a todas as partes interessadas deste negócio, especialmente aos sócios. Também é verdade é que se as desse com o necessário detalhe se estaria a fragilizar do ponto de vista da sua posição de mercado e correria o risco de ser criticada como foi quando se procedeu à divulgação da auditoria. Existe é uma verdade: o custo de oportunidade de falar do que se desconhece é falar do que se conhece, pedir as necessárias explicações do que se desconhece ou estar calado. É mais fácil ajuizar esta decisão do que ajuizar a decisão do acordo.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Protocolo de estádio


Parece que vão (tentar) tirar os títulos ao Joe Berardo. Depois daquela grandiosa exibição na comissão parlamentar (como se chama?), comissão de inquérito à recapitalização e gestão da CGD, Berardo provou-nos que o futebol, mesmo na sua versão toupeiras e padres, ou fruta da época, mesmo na sua versão televisiva (CMTV incluída), tem ainda muito que andar para chegar aos robustos calcanhares do comendador Joe. Fiquem descansados os adeptos de ambos os desportos, no final as coisas só correm mal para quem tem de pagar bilhete.

O campeonato está a acabar e vai ser em grande, conforme o protocolo estabelecido. Aliás, o protocolo estabelecido está tão bem feito que ainda este fim-de-semana disso tivemos uma prova (como se disso fosse preciso). Quando na semana anterior se falava por aí na possibilidade do Sporting ainda chegar ao 2º lugar pensei para comigo: acabou-se a série de vitórias. Não sou bruxo, nem de Fafe, mas dou uns toques em prestidigitação direcionada.  

Após a vitória e eliminação do Benfica da taça, como andávamos suficientemente longe para chegar ao título, foi-nos permitida a graça de um bom futebol, sem situações inoportunas, imprevistas, sem percalços de maior. Bem vistas as coisas, lutávamos, quando muito, com o Braga para o terceiro lugar. Braga que, posteriormente, foi devidamente presenteado com as bengaladas da praxe, para saber o seu lugar no respectivo protocolo. 

Sobre o jogo com o Tondela já o Rui disse tudo. Contribuímos com a nossa dose cavalar de falhanços para aperfeiçoarmos o nosso lema de falhar cada vez melhor. Mas fica-nos a sensação de que não poderia ser de outra forma. Há um protocolo a respeitar.


(Nota: Campeões Europeus! - uma posta de pescada para breve)

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Distopias da futebolândia nacional

No sábado, era dia de festa. Despedíamo-nos de Alvalade esta época, depois de manipulações várias, beneficiando o Benfica e prejudicando o Porto pelo caminho, com o tão desejado título Abel&Salvador: o terceiro lugar. Os fins sempre justificaram os meios. Ano após ano, não sendo possível ganhar o campeonato nacional, queremos ser os melhores da Europa, seguindo o exemplo do Liverpool e do Tottenham. Um dia longínquo, seremos os melhores da Europa e de Portugal também. Uma coisa de cada vez, por ordem crescente de importância relativa. O Bruno Fernandes pretende seguir o caminho inverso, procurando ser campeão nacional antes de ser campeão europeu. Gostos ou falta de gosto, melhor dizendo. 

Como nos tinha avisado o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), as equipas que jogassem no Vale do Tejo iriam sofrer as consequências de anticiclone das Ilhas Britânicas. As altas pressões atmosféricas trazem massas de ar quente e, estas, alucinações. Assim, ao lado da equipa do Tondela e do árbitro, entrou em campo a equipa do Setúbal, embora os jogadores fossem os do Sporting. Nada contra o Setúbal nem os jogos do Setúbal, mas se é para ver jogar o Setúbal contra o Tondela o melhor é o jogo realizar-se no Bonfim e com os jogadores do Setúbal. 

Os comentadores da SporTv ou não perceberam ou fizeram-se desentendidos e continuaram a ver jogar o Sporting. Viram a agressão do Ristovski, o protesto do Bas Dost, o fiscal de linha a demorar a marcar fora-de-jogo a um jogador do Sporting. Não viram foi jogar o Tondela ou confundiram os seus jogadores com os do Liverpool e o seu treinador com o Jürgen Klopp quando afirmaram que se trata de uma equipa com muito critério na saída para o contra-ataque ou que impediam o adversário de ter tempo de posse de bola como habitualmente. Não viram que as imagens não permitiam que se visse de forma clara e evidente razões para a expulsão do Ristovsky, não viram a ridícula simulação de falta que levou ao protesto do Bas Dost, não viram uma joelhada na cabeça do Bruno Fernandes, não viram nova falta do mesmo jogador sobre o Acuña para segundo amarelo, não viram as sucessivas entradas por trás (ou interpretaram-nas como brilhantes manobras táticas para impedir que os jogadores do Sporting se virassem). Viram o Sporting, não viram o Tondela, viram o que o árbitro viu e não se via e não viram o que o árbitro não viu e se via. Podia tratar-se de um espetáculo da “World Wrestling Entertainment” (WWE), mas não. Tudo parece obedecer à necessidade de uma narrativa oficial que permita, no fim, afirmar-se que a bola é redonda, embora se tenha recorrido à tática do quadrado para a fazer rebolar da forma mais conveniente possível. 

Quando a equipa do Tondela empatou, os comentários de dois benfiquistas que estavam no café constituíram uma epifania. Enquanto um rejubilava o outro dizia-lhe: “Ainda vamos arranjar maneira de fazer descer o Chaves!”. Afinal talvez não estivesse a ver jogar o Setúbal e o jogo mais não fosse do que a primeira mão da liguilha que se disputa entre o Tondela e o Chaves e cujo desfecho se encontra aprazado para a próxima jornada. Finalmente também compreendi o comunicado do Braga após o jogo contra o Benfica, culpando o Sporting e o mesmíssimo árbitro pelas faltas não assinaladas do Ruben Dias, do João Félix e do Florentino: os jogadores eram do Benfica mas a equipa era a do Sporting, como no sábado era a do Chaves ou a do Setúbal, vá-se lá saber. 

O “El País” deste sábado publicou uma reportagem sobre as sucessivas taxas naturais negativas dos portugueses nos últimos dez anos e a tendência de agravamento decorrente do envelhecimento da população. O título não podia ser mais sugestivo: “Os portugueses se extinguirão este século?”. É um título que dá que pensar, sobretudo aos sportinguistas. Será que ainda vamos a tempo de ganhar por mais uma vez que seja o campeonato nacional?

terça-feira, 7 de maio de 2019

Um oito à Bordalo Pinheiro

Um encontro de agrónomos que se realiza ano após ano há cerca de vinte anos calhou neste fim-de-semana. Quando se iniciaram estes encontros, muitos de nós ainda não tinham filhos. Ao fim destes anos, temos filhos mas é como se não tivéssemos: não estão para nos aturar e ainda bem (para eles, diga-se). Combinar encontros e jogos de futebol no mesmo fim-de-semana não é para todos, sobretudo se se joga ao domingo, exatamente quando se está de regresso a casa. Implica adequada logística e todo um sem número de concessões que coloque as mulheres em dívida moral. 

O encontro foi nas Caldas da Rainha e, por isso, não regressámos sem uma ida à loja da fábrica Bordalo Pinheiro. Analisámos com detalhe e atenção a importância que se reveste uma fruteira em forma de couve penca na decoração da sala de jantar ou de um canídeo em porcelana à frente da casa com a respetiva placa “Cuidado com o Cão”, para que os vizinhos tenham medo (de o partir, claro está). O meu amigo Luís representou tão bem que fiquei na dúvida se a folha de couve não lhe era destinada. Estávamos em plena A8 quando o jogo contra o Belenenses se iniciou. Com o aproximar do final da primeira parte, o Luís, a medo, começou a dizer que estávamos a ficar sem combustível. Vimos toda a segunda parte na estação de serviços de Vagos, pois deu-se o caso de o jogo ali estar a ser transmitido, coisa que nunca imaginámos e muito menos planeámos, juntando-se o útil ao agradável. 

Aparentemente, a equipa do Sporting estava a adaptar-se ao relvado simplesmente, treinando para a final da Taça de Portugal. O Belenenses, com menos um jogador, comportava-se como um clube grande, recordando-me um ex-Presidente que afirmava que um clube grande, como o Belenenses, deve ser grande até a dever. Os jogadores em vez de despejarem a bola para a frente ou saírem com ela pelas laterais, inventavam um “tiki-taka” pelo meio que, à primeira pressão, acabava tudo em pânico. Num desses pânicos o Bruno Fernandes acertou nas pernas do guarda-redes e notou-se que estava a ficar cada vez mais irritado consigo mesmo. Como os jogadores do Sporting pareciam que estavam num jogo-treino, não se estranhou o golo do Belenenses. Foram à frente uma primeira vez e o Renan Ribeiro defendeu. À segunda, depois do Mathieu fazer um passe assim-assim para o Borja também efetuar uma receção assim-assim e ajeitar a bola para um jogador do Belenenses que vinha embalado, marcaram numa recarga do Licá, o velho Licá, o ex-internacional Licá. 

O jogo prometia. Mas o Gudelj de meia-distância fez embater a bola no lombo de um adversário e entortou o guarda-redes todo, fazendo o três a um e mantendo uma postura de quem faz remates daqueles várias vezes ao dia. A seguir, um defesa do Belenenses e o Luiz Phellype procuraram explicar ao João Félix as circunstâncias que permitem a um avançado rebolar-se no chão depois de levar uma trancada sem parecer maricas. O Bruno Fernandes fez a paradinha do costume e bateu o recorde do Mundo e da Europa também, mas continuava-se a notar a irritação. Lançado em profundidade pelo Raphinha, o Luiz Phellype torneou o guarda-redes e passou a bola ao Bruno Fernandes para fazer mais um golo, que não ficou muito mais alegre atendendo à facilidade, apesar de ter batido o recorde do recorde que tinha batido. Entrou o Bas Dost e os jogadores do Belenenses fizeram o favor de perder mais uma bola no meio para o Bruno Fernandes o isolar e marcar mais um golo à segunda. O Acuña foi à linha e centrou para o segundo poste, onde apareceu o Bruno Fernandes a rematar de primeira e a marcar mais um, batendo o recorde que tinha batido duas vezes e ficando com melhor cara. Até o Diaby participou num golo, atrapalhando-se com um defesa e deixando a bola para o Bas Dost simular e o Doumbia rematar e fazer o resultado final. 

Percebia-se que se estava perante uma situação de emergência. Desconhecia-se era que o árbitro fizesse parte de uma equipa do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), só assim se compreendendo a razão para acabar o jogo logo ali e não dar o devido tempo de descontos. Com mais quatro ou cinco minutos, havia tempo de sobra para marcar mais um ou dois golos. Havia tempo e mais do que tempo para o Bruno Fernandes voltar a molhar a sopa. Concluído um “encore” pedimos outro e mais outro, procurando assim matar as saudades que dele vamos ter. Cada jogo jogado é menos um por jogar até ao final de época e temos saudades, muitas saudades, pois dificilmente o voltaremos a ver com a nossa camisola.