sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Apalpar melões

Na terça-feira jantava com amigos. Saio do trabalho ao fim da tarde e ouço o final do relato da primeira parte do Benfica contra o PAOK, enquanto me desloco até casa. Quem ouvisse pensava que o Benfica estava a jogar contra o Cascalheira de Baixo para a taça do presunto local. “O Jorge Jesus melhorou o jogo posicional”. “O Jorge Jesus é hoje melhor treinador do que era (se tal ainda é possível, digo eu)”. “O Jorge Jesus regressou para afirmar a dimensão europeia do Benfica”. Estava zero a zero ao intervalo mas a segunda parte serviria para cumprir o destino que estava escrito à partida. 

Esperando pelo jantar, beberico um Martini com os amigos e pelo canto do olho vejo num ecrã de televisão festejos de uns jogadores com camisolas às listas pretas e brancas. Recebo uma primeira mensagem de WhatsApp: “Depois do Novo Banco, só nos faltava o buraco na defesa do Benfica também”. Um pouco mais tarde recebo outra: “Vai ser preciso financiar o Cebolinha, o Pedrinho, o Darwin, o Vertonghen e o Waldschmidt pelo Mecanismo de Recuperação e Resiliência da União Europeia”. 

Regresso a casa tarde e a más horas. Não tenho sono. Não resisto à tentação de rever os comentários desportivos. É como ir ao supermercado escolher melões. Fico-me pela SIC Notícias. Ouço a conferência de imprensa final do Jorge Jesus. Queixava-se (e bem) das regras da Liga dos Campões. O objetivo era passar a fase de grupos (que seria “peanuts”) e, de eliminatória em eliminatória, chegar à final. Não fazia qualquer sentido começar da frente para trás, disputar uma competição de pernas para o ar, começando por jogar a final. A equipa ainda não estava preparada para tanto. Faltava um avançado. Imaginei que fosse o Cavani. Aparentemente não. O Benfica acabara de gastar cerca de 50 milhões de euros com o avançado do PAOK, um tal de Zivkovic (bom pé esquerdo o deste rapaz!). 

Os melões estavam maduros. O Joaquim Rita estava um belíssimo Casca de Carvalho, com o picante no ponto, malhando no Jorge Jesus. O David Borges estava mais Melão de Almeirim, mais doce, falando de injustiças. Deito-me e adormeço, não sem antes ler mais um pouco de “Uma História de Espanha”, de Artur Pérez-Reverte. Às páginas tantas, o autor interroga-se por que razão Filipe II não transferiu a capital para Lisboa, mantendo-se entrincheirado no centro da península, no seu mosteiro-residência do Escorial. Não sei se seria a sorte dos espanhóis, mas seria a dos nossos comentadores seguramente. As narrativas seriam as mesmas, mas sempre teriam um Real Madrid ou um Barcelona para as legitimar.

Milagres da casa não fazem santos

 

1)               1) Mais uma moedinha, mais uma voltinha:

Lembram-se certamente de Thierry Correia? Terá sido, no meu modesto entendimento, a transferência mais sensacional do consulado Varandas, vendido por mais de 12 milhões de euros ao Valência (tinha de ser), após meia dúzia de minutos (e alguns segundos) grandiosos a virar frangos ao serviço do Sporting.

João (Ronaldo) Félix, vendido em ajuste directo (quanto?) ao Atlético de Madrid, com contrapartidas ainda insondáveis (a vinda do mágico RDT ainda nos assalta em sonhos), apenas visíveis ao microscópio eletrónico de transmissão (MET), obra de visionários japoneses.

Fábia Silva, vendido enquanto penteava o seu famoso risco ao meio, cumprindo assim um sonho de menino (temos informação fidedigna nesse sentido) de jogar nos Wolves, uma equipa albergue de guerreiros lusitanos com tendências trânsfugas. As comissões (declaradas) afiguram-se um verdadeiro tratado de gestão internacional de activos (e passivos, já agora).

São inúmeras as deslocações de capital em forma de jogadores, quero dizer, de activos, grande parte delas praticamente desconhecidas e com vista apenas para o banco e a bancada. E assim continua.

2)               2) Menos uma moedinha, menos uma voltinha:

Mudam-se os tempos, mantêm-se as vontades. As receitas diminuem a olhos vistos: bilheteira, publicidade, merchandising, patrocinadores, as televisões a puxarem a brasa à sua sardinha, o futebol sem o glamour do público. Tudo isto põe a nu as fragilidades crónicas do nosso (e não só) futebol e da sua tão propalada indústria, que mais se assemelha a um fogo-fátuo. A metamorfose dos clubes em entrepostos (em curso) de jogadores e a sua submissão ao poder dos intermediários e dos “investidores” será cada vez mais o quotidiano de um jogo cuja bola a nossa memória já não alcança.

3)               3) Menina não paga, mas também não anda:

O Sporting continua o seu trajecto rumo à modernidade e à irrelevância. O silêncio (extremamente ruidoso) que paira em Alvalade não augura nada de bom. Começar a época com um jogo adiado (alguém percebe quais são as regras disto tudo?), numa temporada com vista para a liga dos calmeirões, necessita apenas de mais uma cereja em cima do bolo: vender o único ponta-de-lança no último minuto do último dia de mercado.

Parece que a Assembleia Geral seguirá o modelo das Assembleias Gerais Eleitorais, ou seja, terá lugar apenas a votação, sem que haja lugar a discussão prévia. O silêncio extremamente ruidoso poderá um dia desaguar (como diria Bohumil Hrabal), numa solidão demasiado ruidosa, ou ruinosa. Tentar remeter-nos ao silêncio é um erro. Fatal?

 

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Mais é mais e não menos

Anda-se a jogar um género de campeonato de jogos-treino de seleções. Nesse campeonato do Mundo e da Europa, em particular, após o jogo contra a Croácia, afirmava-se que a seleção nacional era mais do que o Cristiano Ronaldo. Contra a Suécia, ontem, tive a oportunidade de o confirmar. Vi o Cristiano Ronaldo e vi mais uns tantos: mais dez pelas minhas contas. Sim, é verdade, a seleção nacional é mais do que o Cristiano Ronaldo enquanto o Cristiano Ronaldo estiver na seleção nacional. 


[No primeiro golo, o António Tadeia concluiu que o remate do Cristiano Ronaldo não tinha sido nem especialmente bem colocado nem especialmente forte. Foi evidente o seu desfastio na marcação desse golo e do seguinte. Imagino-o a falar consigo próprio: “Vou só por a bola lá dentro e mais nada: nem com especial precisão, nem com especial força. Quando até o Félix marca um golo, isto passou a ser para qualquer um e não dá pica nenhuma!”]. 

domingo, 6 de setembro de 2020

Jogar à defeso com toda a confiança


Enquanto o novo Cavani nos faz esquecer Cavani, sem que para isso necessite de dar um chuto na bola, a sua palavra basta, assegurando que vem para fazer história; Ricardo Quaresma viaja entre o Bessa e o Castelo, com passagem pelo Algarve numa peladinha de praia. A nós, que ninguém nos ouve, parece-nos (sem grande margem para erro) que o cigano poderia contribuir com uns vinte minutos finais em alguns jogos de paredão alto, mais não fosse para chatear o Ventura.

O Porto, com fair play (financeiro?), lá vai comprando alguns jogadores enquanto aguarda umas benesses do santo Mendes. As coisas com o Valência não corriam, mas o carrocel é dinâmico: a venda de Fábio Silva ao Wolverhampton por 40 milhões de euros (diz que sim) é uma prova da irmandade do fair play financeiro da UEFA, cuja religiosidade se alicerça no santo Mendes, entre outros beatos. Ámen.

Acuña continua a dar cartas nos treinos à porta fechada. O seu recolhimento é-nos demonstrado nas redes sociais (e em algumas mais subterrâneas), demonstrando que a estratégia é absolutamente inovadora: não tarda é integrado como o Palhinha, ficando os últimos dias da época de transferências guardados para nosso divertimento e futuras mutilações.  

Amorim continua a treinar o Sporting apesar de questões de IVA, juros e outras minudências. Há quem diga que está tudo acordado desde o início. Outros afirmam, com alguma propriedade, que anda tudo a dormir desde sempre.  

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Jogar à defeso com transições rápidas


A frase de um amigo com uma atitude excepcional perante a vida: queres ver que ainda vamos ter de vender o Sporar e o Jovane no último dia de mercado. O desabafo que soa a interrogação metafísica transporta-nos para o limbo de uma realidade recente. Percebemos a sua inquietude, talvez enraizada no vislumbre de mais uma golpada estratégica com o refundir de Palhinha e Acuña a treinarem à parte, para melhor serem empacotados no paquete de sonhos de milhões. Palhinha já terá sido (mais ou menos) incorporado, enquanto Acuña aguarda a incorporação forçada, uma ilusão que encerra a estratégia no domínio das equações abstratas, algo que a arte contemporânea bem conhece.

Não veio Cavani, veio o novo Cavani. Engenhoso. Os milhões do novo Cavani, o facto de este também ser uruguaio e avançado (como aqui avançamos em primeira mão), um trabalho esforçadíssimo da estrutura benfiquista e da imprensa de sucedâneos de papel, demonstra a versatilidade engenhosa destes visionários do futebol a caminho da liga dos calmeirões. Está provado. 

O Pote é que foi caro. Embora eles não saibam que se encontra lá no fim do arco-íris, repleto de tesouros. Será que um dia também terá o seu momento zen de treinar à parte, entre vinhas e pomares de fruta? Não sabemos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

O sonhador e o realista

 Depois de várias semanas de pré-pré época e de umas mini-férias, a pré-época 'oficial' do Sporting decorre a bom ritmo, já com um par de jogos à porta aberta para nos permitir imaginar o que aí vem. 

Assim, já é possível comparar a imaginação do Sportinguista optimista e a do Sportinguista pessimista.

O Sportinguista optimista olha para o plantel e imagina Max, Nuno Mendes, Wendel, Pedro Gonçalves ou Jovane a fazer uma grande época, bem apoiados por Eduardo Quaresma, Bragança ou até Tiago Tomás. Quer acreditar que Porro e Feddal não são novas versões do Bolasie, Rosier, Jesé ou Eduardo e que talvez acabem por não conseguir vender o Acunã ou o Palhinha. É um sonhador.

O Sportinguista pessimista vê uma equipa com demasiados jogadores jovens, com vários jogadores que já mostraram o que não valem, orientados por um treinador inexperiente e sem qualificações para o cargo, liderados por uma direção composta por jovens aprendizes que a única vez que prepararam uma época desportiva conseguiram o pior desempenho de sempre da história do clube. Será um realista ?

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Jogar à defeso

Enquanto o Messi não é oferecido ao Boavista, ou recebe alguma proposta indecente do Benfica, divertimo-nos com o rumor (curiosamente sem eco na imprensa) da volta de Paulo Gonçalves às lides, como se este alguma vez as tivesse deixado. As missas continuam com os seus devotos fiéis, embora sem grandes resultados para alguns mais submissos.

Aqui há uns anos não foi fácil dar com o famoso Palito que andou a monte (literalmente) mais de um mês, apenas demovido pelo cansaço e pelo frenesim mediático que lhe incomodava as noites. Este ano temos o Henrique Carvalho, o fugitivo de Lamego, e Cavani, o fugitivo de Ibiza, que já se terá tentado entregar às autoridades, sem resultado, segundo o jornal A Bola, porque já não seria desejado (risos).

Entretanto, continuamos todos os dias a receber informação importantíssima sobre os excelentes métodos que JJ utiliza nos treinos e que os jogadores adoram, como se JJ cá estivesse pela primeira vez a vender gelados. Darwin Núñez, um jogador que todos conhecemos, e pelo qual o Benfica oferece quase 25 milhões (nada de especial, segundo a imprensa especializada em bitaites e cerimónias religiosas), estará muito próximo de provocar um terramoto na mente de Cavani, por ser ele o escolhido. O facto de ser Uruguaio e avançado demonstram um grande trabalho de scouting da estrutura.

As interessantes imagens do treino de Acuña em casa, na senda das de Cavani aqui há uns tempos, a correr entre vinhas, leva-nos a pensar em que ilha este desaparecerá proximamente. O afastamento da equipa e do estágio, treinando em casa ou na academia, é demostrativo da estratégia genial da direcção para vender o jogador. A posição em que esta fica nas negociações é a do apeado que acredita vencer a cavalaria em tempo de armas nucleares. Ousado, para não dizer outra coisa.

PS: após conversa com Pinto da Costa, Zaidu, a nova contratação portista, afirmou: vamos ganhar tudo. O campeonato português já está mais ou menos decidido à partida. Até o Zaidu sabe disso.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Politiquices

A modorra não tem descanso na temporada idiota. Outrora, um candidato a presidente de um partido político, terá feito uma viagem à linda Figueira da Foz para rodar o carro, acabando por ganhar o congresso. Acontece. Mais ou menos na roda destas estórias anda a imprensa desejosa: A caminho do Algarve, Ricardo Quaresma, soube que afinal iria para o Bessa. Haverá lá congresso, terá perguntado? A imprensa dizia que sim. Uma passagem por Alvalade ainda daria para umas entradas gloriosas de abre-latas, naqueles jogos de difícil habilidade contra autocarros e porta-aviões mal estacionados. Com tantas conferências e congressos, passando por encontros, não teremos por alvalade lugar para um congressista? Em actualização. 

Entretanto, Cavani terá sido visto em Ibiza. Não sabemos (ainda) se por lá haverá congresso. Um avião terá rumado àquele local formoso para indagar se haveriam bilhetes disponíveis para a festa. As notícias são promissoras. 

Não sabemos se por Ibiza andará também o João Mário, mas seria, igualmente, um bom regresso ao palácio dos congressos de Alvalade. Conto com a imprensa para divulgar esta rodagem. Até já.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Boa Economia para Tempos Difíceis

Vive-se a acalmia que antecede a tempestade. A economia encontra-se congelada pelos regimes de “lay off” e pelas moratórias de crédito. Ninguém sabe verdadeiramente o que vai acontecer depois das férias, quando regressar o Outono e se iniciar o próximo ano letivo. Só o futebol continua como dantes, como se nada estivesse a acontecer. Fiquei a saber que contratámos um rapaz do Famalicão por uns milhões de euros. Foi a revelação da época passado, ao que se diz. Deve ter sido uma revelação idêntica à de Francisco Geraldes há umas épocas e de tantos outros de quem ninguém se lembra mais. 

“Boa Economia para Tempos Difíceis”, de Abhijit Banerjee e Esther Duflo, Prémios Nobel da Economia, constituiu a minha primeira leitura de férias. Às páginas tantas, afirma-se que na Europa as sociedades são mais egualitárias do que a dos EUA, com rendimentos brutos menos desiguais, carga fiscal mais elevada e maior progressividade dos impostos. Existe uma só exceção: os atletas de alta competição. Na Major League Baseball, na NFL, na NBA e na Major League Soccer existem tetos salariais, enquanto nas competições da UEFA não. Para se ter uma ideia desta aberração, basta referir que, em 2018, o Messi recebeu o equivalente a metade do teto salarial total de qualquer equipa da NBA. 

Existem razões para o controlo salarial das principais competições desportivas profissionais nos EUA. A mais repetida, respeita ao nivelamento competitivo das equipas e, assim, à possibilidade de todas elas disporem de condições para, tarde ou cedo, ganharem as competições em que participam, tornando-as mais interessantes. Mas a principal é outra: controlo dos custos pelas empresas que dispõem das concessões. Está-se em presença de um cartel de proprietários que, ao limitar os salários dos jogadores, aumentam a rentabilidade dos seus investimentos e dos seus negócios. 

Os jogadores profissionais dos EUA têm organizado inúmeras formas de protesto para acabar com os tetos salariais. Os argumentos não faltam. No entanto, o único argumento a que nunca se recorre é que os jogadores jogariam com mais empenho e melhores resultados se os salários fossem mais elevados. Todos concordam que a vontade de ser o melhor constitui incentivo bastante. Como afirmou Vince Lombardi, treinador lendário de futebol americano e primeiro campeão da Super Bowl, “ganhar não é tudo, é a única coisa”. 

Reduzir os encargos com contratos milionários dos jogadores de futebol não teria qualquer efeito no seu (des)empenho. Em contrapartida, os clubes seriam mais rentáveis. Em Portugal, tratando-se de instituições de utilidade pública, esta maior rentabilidade permitiria que mobilizassem mais recursos para muitas das suas principais funções de sociais de apoio à prática desportiva e ao desporto em geral. A competitividade do futebol não se ressentiria e teríamos melhores atletas em muitas outras modalidades e mais títulos olímpicos em modalidades como o atletismo, o judo ou o remo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Carrocel mágico


No melhor registo esotérico, oracular da temporada idiota, temos a saga Cavani a entreter-nos os dias. Confesso que até eu (já) desejo que o homem venha, para termos algum sossego, e não seja necessária a intervenção do Presidente da República. A saga Cavani acompanha no tempo a saga Feddal. A saga Feddal é uma saga mais pequena em importância que a saga Cavani, na verdade, ninguém quer saber grande coisa da saga Feddal e, não tivesse esta se arrastado indefinidamente, não estaríamos aqui a confundir as coisas.

Já disse há algum tempo o que pensava de Feddal, ainda a saga era uma mini série de cinco episódios, com a chancela da TVI, entre outras séries mais ou menos interessantes, curiosamente, todas elas, misteriosamente públicas, revelando-se assim o magnifico trato destes assuntos por parte dos nossos dirigentes, cujo lema é: o segredo é a alma do negócio, ou chamamos o Sr. Mendes.

Por falar no sr. Mendes, embora grande parte dos eventos e espetáculos estejam condicionados pela pandemia, incluindo os circos, constatamos com agrado que o seu carrocel continua a circular livremente por várias cidades, alargando cada vez mais o seu leque de dependências desportivo/culturais, com voltas dadas em vários países. Já sabemos o seu lema: mais uma moedinha mais um voltinha, clube (lindo) não paga, mas também não anda. E há muitas formas de pagar. Até o Sporting pode dar uma voltinha que tudo se resolve.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Benfica, felicidade e moeda

Há dias ouvi uma conferência muito interessante de André Lara Resende, que concebeu o Plano Real, na Universidade de Oxford, explicando a evolução da política monetária. Após a estagflação dos anos 70, o monetarismo ou a teoria da quantitativa da moeda passou a ser hegemónica no pensamento e nas políticas económicas. A inflação seria única e exclusivamente um fenómeno monetário e as crises, inflacionárias ou deflacionárias, deviam-se à incapacidade dos bancos centrais de contrair ou expandir a base monetária. Esta teoria foi levada à prática de forma brutal por Fernando Collor de Mello para combater a hiperinflação no Brasil, procurando esterilizar a moeda através do congelamento das contas bancárias dos depositantes. A recessão não foi menos brutal e acabou no seu “impeachment” por portas travessas.

Pouco a pouco, os economistas foram compreendendo que o sistema de crédito fazia expandir a base monetária, sem que os bancos centrais a conseguissem impedir. Sem grandes explicações teóricas, a partir dos anos 90, os bancos centrais passaram a tentar controlar a inflação através da simples manipulação da taxa de juro, aquecendo ou arrefecendo a economia em função da sua evolução e do seu ciclo. Na prática, não existe nenhuma fórmula, assume-se que a inflação simplesmente não se encontra ancorada e recorre-se quase a uma simples heurística: se a inflação sobe, então a taxa de juro deve subir também e se a inflação desce, então a taxa de juro deve descer também.

Com a crise financeira internacional de 2008 e as taxas de juro nulas ou praticamente, os bancos centrais viram-se na necessidade de recorrer a políticas não convencionais, como o “Quantitative Easing”, desatando a comprar tudo o que é ações e obrigações, expandindo loucamente os seus balanços. Estas políticas estão a ser ampliadas com a atual crise decorrente da pandemia da Covid-19. A inflação continua a não se ver, apesar da expansão monetária sem precedentes. Conclui Lara Resende que, provavelmente, a inflação resulta de expetativas dos agentes económicos, tendendo a manter-se alta quando é alta e baixa quando é baixa. A inflação seria mais resiliente e determinada por contextos históricos: há períodos em que é persistentemente baixa e outros persistentemente alta.

O Benfica vive o seu “Quantitative Easing”, o seu momento “bazuca”. Nunca se viu tal expansão monetária em nenhum clube português. A ideia é excelente no atual contexto económico e financeiro. Por muito que paguem ao Jorge Jesus ou ao Cavani (nove milhões de euros por ano, é o que se vai dizendo), as suas condições para aumentar o consumo de batatas fritas e hambúrgueres são limitadas (se estivéssemos a falar do Taarabt a conversa seria outra), assim como os potenciais efeitos inflacionários. No fundo, está a seguir Millôr Fernandes, quando afirma que “O dinheiro não traz a felicidade, manda-a vir”. O Luís Filipe Vieira está a mandar vir toda a felicidade que (não) pode. A felicidade dos benfiquistas é a sua felicidade (e vice-versa) e ninguém os quer ver infelizes para o resto da vida sem ele, a presidente, naturalmente.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Toxicidade e hipocrisia

De repente, a SIC e a TVI tiveram uma epifania: os programas de comentários com adeptos são tóxicos e tem de se acabar com eles. Mais vale tarde do que nunca, mas fica-se com a impressão de que a decisão releva mais das audiências e da conveniência do que de qualquer sentido de justiça ou de moral. Até parece que esses comentadores foram às estações de televisão de livre e espontânea vontade, ali se sentando à mesa e debatendo entre si os assuntos que lhes passavam pela cabeça, não havendo responsabilidades editoriais. 

Envolto num discurso (falsamente) moralista, os responsáveis destes canais de televisão confundem consequências com causas. Estes programas são a consequência, a consequência de um futebol tóxico, na forma como se organiza e escolhe os seus responsáveis, dos clubes, à Liga e à Federação Portuguesa de Portugal. O entorno mediático decorre desta organização à qual se associa a falta de jornalistas desportivos, enquanto profissionais responsáveis pela mediação isenta e independente. O mercado é curto, a hegemonia de certos clubes é grande e ninguém quer aborrecimentos que coloquem em causa o negócio. A informação jornalística é, com frequência, uma correia de transmissão de interesses, uns mais legítimos, outros mais obscuros e inconfessáveis, e envolve “fake news” atrás de “fake news”.
 
Esta distopia reflete-se no jogo jogado. A Final da Taça de Portugal, entre o Porto e o Benfica, constitui um belíssimo exemplo. O jogo foi uma porcaria do princípio ao fim, uma coisa indescritível de mal jogado. Nunca interessou a bola nem os jogadores. O que interessou foi o árbitro, o quarto árbitro e as suas decisões. Para eles, foi um momento de glória. Um profissional da pastelaria e outro das carnes transformados nas pessoas mais importantes do país, com uns milhões dos seus concidadãos a vê-los e direito a cotovelada do Presidente da República.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Já acabou?


Voltamos à casa da partida. Planeamento, trabalho invisível, inclusive, a existência de planos de acção, tudo se esboroou por entre os dedos como areia fina da praia da Claridade (quanto não está muito vento). Tudo perdido por obra de um inexplicável acaso, de uma perseguição inabalável (sempre inimigos internos, entenda-se), de problemas oftalmológicos graves (que não permitem ver o trabalho invisível), de oscilações do mercado absolutamente imprevisíveis, da falta de palavra do Jesé que terá afirmado ser o mesmo que há uns anos jogava futebol no Madrid. Em suma, do Covid -19. O que rima funestamente com a nossa ausência de títulos-19 (campeonatos, leia-se).

Ora, vamos a factos para que se possam esgrimir argumentos e alimentar polémicas desnecessárias:

Logo a despropósito, o Sporting fica fora do pódio, pela primeira vez, desde aquela magnifica época, igualmente dotada de um planeamento genial de Godinho Lopes: estávamos então em 2012 e ficamos num razoável sétimo lugar, fora das competições europeias. Mas sem Covid, dirão alguns, sempre atentos, amigos do embaraço.

Derrotas em todos os clássicos (não, meus amigos, com o Belenenses já não conta), uma, duas, três, quatro derrotas (sem contar com a supertaça, já lá vamos). Coisa nada vulgar, ora investiguem lá, por favor, para ver quantas vezes aconteceu.

Dezassete derrotas numa época é obra. É recorde. Dos nossos. Cerca de 52% de vitórias, é obra. Está à vista. Ali pertinho do meio-meio, dos cinquenta por cento, pertinho de equipas como o Fama e o Rio-Ave, elas também parte do carrocel do Mendes.

(JÁ AGORA, QUANTOS TREINADORES COM O PERFIL DESEJADO FIZERAM PARTE DO PROJECTO?)

Eliminados da taça pelo poderoso Alverca (equipa do terceiro escalão), fizemos jus ao lema: aconteceu taça. Olhe que não, olhe que não. Não é assim tão vulgar uma equipa candidata ao título (a sério?), ser eliminada da taça por uma equipa do terceiro escalão. Ora, pesquisem lá, por favor. 

Acrescentando os cinco que levamos no corpo na final da supertaça contra o segundo classificado da liga (resultado volumoso, mas seguindo uma tradição recente de bombos da festa), o restante foi globalmente positivo. Não acham?

Adiantar o IVA ao Braga

A crónica de um jogo é sempre uma narrativa. Não deixa de ser uma reconstrução que tem como objetivo legitimar o resultado final, que encerra os factos, todos os factos. As coisas não são como são. Obedecem sempre a uma lógica que as determina e lhes dá sentido. A sorte ou o azar têm detalhe técnico [nem que seja o da famosa eficácia], não são sorte ou azar, ponto. A crónica só precisa assim do resultado final e de plausibilidade. 

Perdemos por dois a um contra o Benfica e ficámos em quarto lugar no campeonato. Estes são os resultados e, por isso, os factos, todos os factos. Como se sabe, o Sporting ferrou o cão ao Braga. Mas há ferrar o cão e ferrar o cão. Há formas de ferrar o cão que são contra os Direitos Humanos. O pagamento do IVA ou do Imposto sobre o Valor Acrescentado ao Estado é da responsabilidade do vendedor, a partir do momento que se dá o movimento económica mas não, necessariamente, o financeiro, isto é, a partir da faturação. Como se verifica, o resultado de ontem serviu para adiantar o IVA ao Braga. 

Dantes, estes assuntos eram tratados por departamentos especializados dos clubes ou por empresas de contabilidade. Como se costuma dizer, hoje o futebol é uma indústria e estes movimentos passaram a ser intermediados por profissionais muito qualificados que trabalham em empresas de gestão de carreiras. Os movimentos são sobretudo em espécie: hoje um resultado, amanhã a transferência de uma jovem promessa, depois um encontro de contas. 

Tinha visto vários jogos na Benfica TV, mas nunca tinha ouvido, os narradores e os comentadores. Imagino que as transmissões da Pyongyang TV sejam do mesmo género. Ouvir referência ao Jorge Jesus durante a transmissão constituiu o momento "Big Brother is watching you". O Benfica, enquanto clube, e os benfiquistas, enquanto adeptos, estão transformados no benfiquismo, um fanatismo, uma ideologia com bigodes. 

Em condições normais, acabada a época, seria necessário pensar o futuro. Nos tempos que correm, lê-se a "Visão Estratégica" de António Costa Silva. Parafraseando, o objetivo é transformar o Sporting numa potência média de “soft power”, ligando a diplomacia na Liga e na FPF, as missões de solidariedade com o Tondela, o Setúbal ou o Aves, a tecnologia do vídeo-árbitro e a necessidade de combater o antijogo, para abrir caminho à criação de plataformas colaborativas no âmbito da UEFA e da FIFA. No passado, pensaríamos que a contratação de um defesa central para emparelhar com o Coates, de um defesa direito parecido com um defesa direito e de um avançado que marcasse golos resolveria o nosso problema. Eram outros tempos, tempos de amadores.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Será que Jesus já regressou?

Ontem de manhã, enquanto tomava café, assisti a uma reportagem da CMTV a partir Aeroporto de Lisboa, da Portela ou Humberto Delgado, conforme os gostos e feitos. Uma repórter [é assim que se diz, não é?] informava-nos que Jesus estava de regresso, havendo dúvida se se encontrava ainda sobre o Oceano Atlântico ou se, entretanto, tinha atingido a costa do continente africano. 

“Será que Jesus já regressou?”; esta dúvida assolou-me de quando em vez o pensamento durante o resto do dia. 

O Sporting jogava contra o Setúbal. Vi entrar em campo os nossos jogadores acompanhados de onze separadores de autoestrada, em betão. Iniciado o jogo, ou a bola ou os nossos jogadores iam embatendo nos referidos separadores. Nem a bola nem os jogadores os ultrapassavam, embora tombassem sempre que a bola neles embatia ou os jogadores neles tropeçavam. Cada vez que tombavam, entrava a assistência rodoviária da Brisa para os voltar a pôr de pé. Ao intervalo, a equipa do Sporting dispunha de mais de 70% de tempo de posse de bola, concluindo-se, assim, que sempre que a bola saía do campo o tempo de (não) jogo contava para os separadores. 

“Será que Jesus já regressou?”; voltava-me ao pensamento enquanto esperava pela segunda parte. 

Os separadores de autoestrada voltaram e permanceram muito arrumadinhos a cumprir a sua função de separar. E assim se continuou o resto do tempo: de um lado, a baliza, do outro, a bola e os jogadores do Sporting. A bola continuou a embater nos separadores e os jogadores também. Os separadores continuaram a tombar, continuando a entrar também a assistência rodoviária da Brisa para os pôr de pé. Um ou outro separador foi ficando lascado de tanto tombo, sendo necessário substituí-lo, chegando a entrar um separador muito forte [na área da resistência dos materiais também se pode utilizar a expressão "gordo"?], um superseparador ou um separador em betão pré-esforçado, em linguagem técnica. No final, a equipa do Sporting dispôs de mais de 70% de posse de bola, contando como tempo de (não) jogo dos separadores as saídas de bola do campo. O jogo concluiu-se empatado, demonstrando-se a superior qualidade de construção dos separadores, apesar dos problemas de dimensionamento, com um centro de gravidade demasiado distante do chão, gerando problemas permanentes de estabilidade estática.  

Será que Jesus já regressou?

domingo, 19 de julho de 2020

Play it again Sam (II)


Sobre o trabalho invisível, já agora: 

Compras à patrão: Ilori (não para de nos esbofetear), Eduardo Henrique, Borja, V. Rosier e Doumbia (O Neto veio capitanear à borla);

Empréstimos bem enjorcados: Jesé, Bolasie e Fernando (risos);

Em banho-maria a ver se pega (até quando?): Phellype, Vietto (por um fio não se encontra nas compras à patrão), Camacho, Sporar (apesar de tudo) e Plata merecem a nossa paciência.

Potenciais reforços:

Antonio Adán: Quem? Deixa lá ver… um suplente profissional? Deve ser engano. Ou saldo.

Feddal: apesar do bom trabalho de alguns (recém criados) organismos de propaganda afectos à direcção (e da elogiosa opinião de Naybet que a estende a Taarabt – e ficamos conversados), na projecção da sua imagem como defesa central com um pé esquerdo único (esperemos que não seja literal), acreditamos que o seu potencial de Paulinho Santos da zaga se encaixaria melhor numa equipa em que sejam proibidas as expulsões, jogando, por exemplo, ao lado do Rúben Dias, ou como o novo cantinflas do Dragão. São mais as vezes que Feddal está lesionado ou de fora por castigo que as que joga.

Porro: se chega por empréstimo sem opção de compra é uma barriga de aluguer sem qualquer risco (bem pensado?): se jogar não fica e se não jogar não fica. Para um clube que quer ser campeão não está mal. O melhor é fumar outras coisas.

Parece que estão mais dois ou três reforços na panela de pressão das vendas e do mercado. Vamos andar na corda invisível até que rebente. É pena os putos…e o Sporting, já agora. 


sábado, 18 de julho de 2020

Play it again Sam


Catastroficamente, o ano não tem sido nada mau. Não fosse o covide tínhamos o 4º lugar garantido. Assim andamos na recta da meta a lutar pelo 3º lugar às costas dos putos. Um enfado. O planeamento foi quase perfeito, as contratações cirúrgicas, tão cirúrgicas que nunca as vimos. Dezasseis derrotas, quatro (ou cinco?) treinadores, não é nada de preocupante comparado com o trabalho desenvolvido de forma invisível, cujos resultados, de uma visibilidade inexistente, são frutos colhidos apenas ao olho nu do pensamento. O sonho mantém-se inabalável: a nova época já está em curso nesta recta final da pré-época, em verdade o seu planeamento virá da época anterior, fazendo parte de uma estratégia mais vasta pata ludibriar os nossos adversários ao mesmo tempo que se ludibria a si mesma. Ao alcance apenas de alguns eleitos. Temos fé, mas menos sócios.

Jesus vem a caminho da luz. Vieira viu a dita. Finalmente tudo faz sentido.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

O que é que é isto?!

Ontem, estive no Porto. Parecia Braga. Temperaturas elevadas, muito acima dos trinta graus. Regresso a casa por volta das 19.00h e ainda estavam trinta e quatro graus. À noite, vejo o jogo contra o Porto numa esplanada, continuando a temperatura acima dos trinta graus. O estádio estava sem público, despido, e uns tantos miúdos e outros tantos graúdos jogavam à bola. O esforço não era muito, sempre que envolvia a bola. Mas havia coreografia, muita coreografia, destacando-se Luis Díaz, jogador colombiano do Porto. O árbitro avaliava com nota artística elevada uma e outra das suas interpretações. Esperava que também fizesse o truque de magia habitual de serrar ao meio uma mulher metida num caixão, mantendo-se as perninhas a dar a dar. 

Esperava-se também que, ao intervalo, se negociasse o zero e zero e não voltasse nenhuma das equipas ou só voltasse o árbitro e o Seiva Trupe. Estranhamente, regressaram todos. O jogo continuava sem grande vontade. De repente, o Porto marcou um golo. Não compreendi. Na minha cabeça formava-se uma interrogação, uma perplexidade: “O que é que pretende o Porto assim a marcar golos?”. O Sporting estava a meter miúdos para os treinar e corriam o risco de num qualquer bambúrrio ainda levarem um golo de um ganapo da idade do meu sobrinho. E o Porto marcou outro golo. Na minha cabeça as interrogações adensavam-se: “Qual é o interesse disto, de andar a marcar golos? O que é que o Porto pretende com isto?”. 

Acabado o jogo, os jogadores do Porto desataram a festejar como se não houvesse amanhã. Não, não se compreendia. Marcam-se peladas e treinos para isto? Se fosse comigo, não jogávamos mais com eles. Depois começo a ver imagens de pessoas e pessoas nos Aliados e ao pé do estádio, na zona de Campanhã. Havia uma festa e ninguém nos disse nada? Pensando na pandemia e na necessidade de distanciamento social, finalmente compreendi: estava prevista uma manifestação pró-Bolsonaro, para contestar o Senado, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Será que não se pode fazer um “impeachment” e acabar com isto?

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Paulo Bento e Rúben Amorim e a geometria de Tex Winter e Phil Jackson

Jogávamos contra o Santa Clara que tinha enfiado quatro batatas ao Benfica de Bruno Lage, essa equipa enorme, tão grande quanto as maiores e, seguramente, demasiado grande para o futebol português, segundo Rui Santos. Uma equipa destas, com um ataque que passara como cão por vinha vindimada por galácticos como um Almeida, um Dias, um Ferro, um Grimaldo ou um Weigl, deixaria a ver navios pobres coitados como um Ristovski, um Quaresma, um Coates, um Acuña ou um Mendes. Respondemos a este desafio com uns violentos sessenta e sete por cento de posse de bola que nos valeram uns não menos violentos sessenta e sete por cento de cartões amarelos [o primeiro desses amarelos devia ter sido vermelho tal a violência do pisão na bola do Doumbia, mas ainda bem que o árbitro não interpretou assim porque não viu a bola queixar-se]. 

Nos jogos contra o Tondela e o Moreirense ficámos a conhecer a regra que permite agarrar o Coates sempre que ele pretende cabecear. Neste, ficámos a conhecer a regra que não permite que ele não se deixe agarrar. Temos assim os cantos e outras bolas paradas do ataque do Sporting transformadas no jogo da apanhada do Coates sem que o Coates possa fugir. Não compreendo o interesse de assim se jogar à apanhada se aquele que se pretende apanhar tem de ser sempre apanhado dê por onde der. Também não foi marcado mais um “penalty” a nosso favor, por falta sobre o Plata. No último jogo, contra o Moreirense, ficámos a conhecer a regra que permite dar dois “penalties” de avanço ao nosso adversário e, por isso, mais legítimo se torna só dar um, como foi o caso deste último jogo. 

Os árbitros têm-nos disponibilizado uma paleta (de combinações) de decisões que nos permite refletir sobre a perspetiva ontológica do sportinguismo. Preferimos ser roubados em dois “penalties” ou num “penalty” e num golo mal anulado? Preferimos ser roubados pelo árbitro e pelo vídeo-árbitro em conjunto ou por um só deles? A resposta a estas questões definir-nos-á sobre o ser do Sporting de todos e de cada um. Estas arbitragens têm-nos interpelado a uma reflexão sobre o nosso sentido coletivo mais profundo que, de outra forma, não se realizaria, perdida na espuma dos dias. 

O jogo, aquela coisa que envolve a bola e os jogadores, foi um aborrecimento de todo o tamanho. Salvou-se o espetacular golo do Jovane Cabral, depois de excelente movimento e melhor centro largo do Wendell ao segundo poste, e a entrada do Diogo Salomão para a equipa do Santa Clara na segunda parte. Por momentos, pensei que estava a ver a RTP Memória e vieram-me à cabeça nomes que constituem o nosso “Hall of Fame” dos anos oitenta e noventa, como Uchoa, Bukovac, Kikas, Hamilton, Bela Katzirz, Jason, Roger Wilde, Kaloga, Diallo, Fernando Cruz, Saucedo, Duílio, Forbes, McDonald, Peter Houtman, Rodolfo Rodriguez, Eskilsson, Ali Hassan, Miguel, Carlton Banze, Maside, Portela, Valtinho, Edel, Bozinowski, Guentchev, Tó-Zé, Barny, Carlos Jorge, Lemajic, Costinha, Luís Vasco, Afonso Martins, Mauro Soares, Ouattara, Skuhravy, Gil Baiano, Balajic, César Ramirez, Missé-Missé, Nenê, Didier Lang, Renato, Leão, Giménez, Ivo Damas, Kmet ou Krpan. Será que algum destes tinha lugar na nossa atual equipa? Talvez haja razões para a esperança. 

Palavra puxa palavra e uma ideia arrasta outra. “The Last Dance”, recente série da Netflix sobre carreira de Michael Jordan e dos Chicago Bulls nos anos noventa, deu-nos a conhecer Tex Winter, treinador-assistente de Phil Jackson, e o seu triângulo ofensivo. Entre 1989 e 2010, esta tática permitiu vencer onze títulos da NBA, seis pelos Chigaco Bulls e cinco pelos Los Angeles Lakers. Fascinam-me estas táticas que apelam a figuras geométricas, como, no futebol, o 4x4x2 losango do Paulo Bento ou, mais recentemente, o 5x2x3 pentágono do Rúben Amorim. O losango e o pentágono podem ser descompostos em múltiplos triângulos. 

O Paulo Bento fez milagres, dispondo da nossa formação, de um Caneira aqui e ali e de um ou outro estropiado de guerra, como o Romagnoli ou o Derley. Dispunha também do nosso Michael Jordan ou Kobe Bryant: Liedson, o insustentável levezinho. O Sporting era uma equipa chata, muito chata para qualquer adversário. Era difícil derrotá-la e vencia de goleada por um a zero, jogo após jogo. Em pleno Apito Dourado, o Paulo Bento manteve-nos a esperança durante quatro épocas. O Rúben Amorim parece pretender o mesmo: uma equipa que muito raramente se encontra descomepensada a defender e difícil de derrotar. Falta o insustentável levezinho. Por agora temos o Jovane Cabral. Repetindo: talvez haja razões para a esperança, mas será que chega?

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Acerca da pré-época do Sporting

Por via das limitações a viagens impostas pela pandemia de COVID-19, temos observado uma pré-época atípica. Ainda assim, não sei se por mérito do treinador, da gestão do futebol ou se por pura sorte, parece-me ser a mais bem planeada pré-época dos últimos anos.

Ao invés de viajar milhares de quilómetros até uma Suíça qualquer para jogar com uns nabos da 3a divisão local e receber banhos de multidão, optámos por uma versão mais barata, em que continuamos a jogar com (sobretudo) nabos, mas a pouca distância de casa e em estádios com muitas cadeiras vazias. Ao jogarmos com equipas treinadas por Pepas, Petits e afins, podemos afinar a nossa estratégia para lidar com a realidade do campeonato Português, ou seja, muita paulada, anti-jogo com fartura e autocarros de jogadores nos 30 metros em frente à sua baliza.

Sinto que esta abordagem vem permitir aos jovens estar mais preparados para o que aí vem, e perceber quais os mais velhos com os quais não vale a pena contar. Também se nota trabalho nas bolas paradas, que devem decidir uns 95% dos jogos aqui no campeonato cá do burgo.

Qual cereja no topo do bolo ainda se vai testando a resposta da equipa aos "contratempos" com as arbitragens. Quase parece a sério. Não fosse um espectador mais atento notar as 5 substituições por jogo e poderia pensar que as arbitragens eram de jogos mesmo a contar para o campeonato.

Até ao momento as coisas têm corrido bem. Depois de um empate em Guimarães, que acaba por ter a desculpa de ter sido no primeiro jogo da pré-época, foi sempre a ganhar, tendo apenas cedido um empate contra o Tiago Martins. Pelo caminho tem dado para ver muitos jogadores jovens, restando apenas saber qual deles vai ser o primeiro a ignorar as juras de amor que agora vai fazendo para trocar o Sporting por um clube qualquer do campeonato Grego ou que jogue para o meio da tabela de Espanha, França ou Inglaterra. Também se vai percebendo que existem uns quantos jogadores do Sporting que nem lugar no Belenenses de Lisboa tinham (quanto mais na SAD de Oeiras) .

Posto mais de um mês disto, estamos prontos. Vamos fechar em beleza fazendo uma festa de campeonato a um qualquer clube do Norte, e a festa de despedida do treinador de um clube de um bairro de Lisboa (ou a festa de boas vindas do treinador que não teve a devida festa de despedida - ou melhor teve uma despedida em tribunal). Faz sentido. Tanto se fala de pacificar o futebol Português, nada como alinhar nas festas dos rivais, desde que mantendo o distanciamento, claro está. E sempre com máscara, não vá alguém pensar que o Carnaval do nosso futebol é a sério.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Quim Barreiros e terceira república

Preparo-me para ver jogar o Sporting contra o Moreirense. Em Braga, às nove e um quarto da noite, estão mais de trinta graus. Procuro saber a temperatura em Moreira de Cónegos, aqui ao lado. Estão também mais de trinta graus [e não, nesta altura do dia ou da noite, não há sombra que valha aos jogadores!]. Não sei quem marca estes jogos para estas horas de segunda-feira e não para o horário tradicional de domingo ao princípio da tarde, pela fresquinha. Não deve ser ninguém que tenha lido “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”, de Orlando Ribeiro. Se é para continuar a jogar futebol durante este mês e no próximo, então os jogos deveriam ser todos marcados para a Apúlia, Ofir, Moledo, Vila Praia de Âncora ou Mindelo, aproveitando a influência atlântica e a não menos famosa nortada, desde que cada jogador esteja protegido pelo seu tapa-vento. 

Entretanto vi o jogo. 

A rapaziada estava há muito confinada e por isso [ou por outra razão qualquer, não interessa, nunca interessa] acabaria por desconfinar e iniciar-se-ia a ramboia do costume. No domingo, na habitual conferência de imprensa, o Amorim afirmou o seguinte: “Um dia perderemos, mas esse dia ainda não é na próxima semana”. Se repetida, semana após semana, esta afirmação encerra um paradoxo. Mas para se tratar de um paradoxo implica considerar desconhecido o futuro. Se assim não for, o que o Amorim nos afirmou é que simplesmente conhece os resultados antes dos jogos se realizarem [e sabia que hoje não perderíamos, mas que também não ganharíamos ou, de outra forma, está nesta altura a cortar os pulsos]. 

Mesmo na pré-época, os jogos do Sporting são verdadeiramente picarescos [ver a claque do Moreirense apinhada num género de varanda de um prédio que sobreleva o estádio foi um desses momentos picarescos]. Desde o treinador aos jogadores adversários, aos bandeirinhas, ao árbitro, ao vídeo-árbitro e aos comentadores da televisão, participam em exclusivo personagens patuscas, burlescas. Fossem realizados durante o salazarismo e o António Ferro tinha-se borrifado no Galo de Barcelos e nos ranchos folclóricos e transformado o Sporting e os seus jogos em símbolos da identidade nacional [do antigo regime, pensaria ele].

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Tática do pentágono

“Espero que o Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, Cardeal Ângelo Becciu, e o Papa Francisco estejam atento ao jogo de hoje porque o irmão Amorim se prepara para fazer mais um milagre!”. Esta mensagem de um amigo despertou a minha curiosidade. Mas um sportinguista que se preze sabe que o jogo, qualquer jogo, vai correr mal e preocupa-se mais com os suplentes (que terão de entrar, dê por onde der) do que com os titulares. Procuro saber da lista dos suplentes e descubro que, para o ataque, temos o Joelson Fernandes e o Tiago Tomás. Espanta-me não tanto os jogadores mas o facto de ainda estarem acordados aquela hora (fiquei o jogo todo à espera de ver uma das mães entrar pelo campo a mandá-lo para cama, levando-o por uma orelha para casa). 

Há tantas táticas quantas as cabeças. Há as lineares, as que apelam a figuras geométricas e as que as combinam. A que mais me fascinou sempre foi o 4x4x2 losango do Paulo Bento (o losango constituía referência para o posicionamento dos quatro jogadores do meio-campo), por ter o precedente histórico de Aljubarrota e de D. Nuno Álvares Pereira, Santo Condestável. O Amorim é radicalmente inovador e opta pelo 5x2x3 pentágono, constituindo a figura geométrica referência para o posicionamento dos três centrais e dos dois médios. Atente-se que um losango pode ser um quadrado, bastando que os quatros ângulos sejam retos, enquanto um pentágono nunca o pode ser. Um quadrado é um polígono, um losango é um polígono e um pentágono é um polígono e, como se demonstrou, nem todos os polígonos são iguais e uns são mais iguais do que outros. 

Esta aposta pentagonal inédita dispõe de uma grande virtude: deixa o Coates no vértice mais recuado e mais próximo do guarda-redes com um enorme raio de ação e sem sobreposição com o raio de ação do Eduardo Quaresma e do Borja. Este círculo transforma-se assim num buraco negro onde os adversários vão sendo sugados e desparecendo conforme dele se aproximam. No passado, com o Mathieu, havia respeito e compreensão mútua. O Coates cortava umas bolas, abafava uns adversários mas sentia-se obrigado a deixar fugir uma ou outra peça de caça para o seu companheiro do lado. Agora, não tem dúvidas, é tudo dele até onde a vista alcança. Por isso ou porque a equipa reage bem à perda de bola e pressiona de imediato o adversário, mesmo que tenha de recorrer à falta nos locais do campo onde devem ser efetuadas, a verdade é que existe mais consistência na defesa. 

A defesa está melhor e recomenda-se (mais um boa exibição do Max que começa a comparar com vantagem com o Rui Patrício para o mesmo estrato etário), mas o ataque é o que sobra, o que resta, não constituindo uma função autónoma. O primeiro golo é o resultado de se ter recuperado a bola e tão-só, tendo a bola se encarregado de fazer o resto. A bola procurou fugir o mais que pôde mas acabou sem sorte nenhuma. Fugiu ao Ristovski, fugiu da biqueira das botas do Plata, fugiu das canelas de um defesa do Gil Vicente, voltou a fugir do Plata, fugiu de outro defesa do Gil Vicente até ser apanhada em cheio pelo pontapé do Wendell. Esta falta de autonomização do ataque é que explica o atraso de calcanhar do Plata quando se encontrava completamente isolado, autolimitando-se em função do jogo (defensivo) de equipa. 

Na segunda parte, tudo parecia diferente. O Wendell isolou-se, procurou dominar a bola com todo o cuidado e encaminhar-se para o guarda-redes sem que restassem dúvidas sobre as suas intenções: atirar-lhe a bola à ventas com quantas forças tivesse. O guarda-redes ainda se tentou desviar, mas não teve tempo e não conseguiu. Logo a seguir, o defesa direito do Gil Vicente desmarcou o Plata para este dominar a bola e a encostar para o segundo golo (tentem imaginar que em vez do Plata era o Jesé). Foi uma prenda de anos, uma prenda dos 114 anos do Sporting. Fiquei à espera que, no final do jogo, os jogadores adversários fizessem uma rodinha e nos cantassem os parabéns também. A partir daquele momento, o único motivo de interesse era ver jogar o Tiago Tomás e o Joelson Fernandes. No entanto, 0 Doumbia ainda tentou estragar tudo, demonstrando cabeça de iniciado, mas era tarde de mais. 

Desde o desconfinamento futebolístico, registámos mais três pontos do que o Porto, mais oito do que o Benfica e mais nove do que o Braga. O Vítor Oliveira diz que não chega, é pouco. O Vítor Oliveira ganhou o estatuto de senador dos pobres, dos sobe-e-desce. Subiu de divisão uma série de clubes ao longo de várias épocas e tem o seu mérito. Contrariamente ao que se diz, no início da sua carreira teve as suas oportunidades. Andou pelo Braga e pelo Guimarães, de onde saiu pichado de alcatrão e penas. Percebe-se o ressentimento: podia ter sido um Peseiro, um Rui Vitória ou um Lage em mais barato. Não havia necessidade, sinceramente!

terça-feira, 30 de junho de 2020

Déca(lage)...


Depois de Mourinho (O Verdadeiro) começaram a despontar com regularidade novos Mourinhos (normalmente falsos). O próprio Mourinho (O Verdadeiro) após algumas derrapagens surge, a espaços, como o novo Mourinho, emergindo das trevas. O mais recente entre os tais novos Mourinhos era (o tempo verbal é mesmo esse) Bruno Lage. No final da época passada o jornal A Bola considerou fazer uma edição no seu formato anterior (standard ou broadsheet), aquele formato grande que aparecia na série Duarte e Companhia, para melhor destacar o advento do novo Mourinho.

Quem conhece o mundo das Repúblicas de Coimbra sabe que cada ano vale por cem. Cada comemoração de aniversário é apelidada de centenário. No futebol português, a passagem do tempo obedece a uma calendarização muito própria, condicionada por matizes nem sempre observáveis a olho nu. Assim, no espaço de pouco meses, novos Mourinhos desgastam-se tão rapidamente que se confundem com a poeira da ausência de memória. Ao desgaste da memória, junta-se um processo de mumificação de alguns jogadores, processo esse que nos faz duvidar que estes alguma vez tenham sido profissionais de futebol.

A escala do tempo geológico, caracterizada por diferentes tipos de unidades e períodos de tempo indefinidos, divididos em muitas eras, é assim subvertida por uma rapidez de processos que permite a fossilização rápida de alguns organismos recentemente reconhecidos pela sua genialidade. É daqui que vem a tal frase do futebolês : o que é hoje verdade amanhã é mentira.

Parte significativa (a que realmente importa) do nosso futebol é decidida fora das quatro linhas. E esse futebol merece os seus estádios vazios. Entretanto, um novo Mourinho estará na forja…

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Jovane Witt Nureyev Cabral

É insólito ver jogar o Sporting num campo que mais parecia o campo de treinos do Estádio do Fontelo, em Viseu, da minha infância e adolescência. Mais insólito ainda é começar por sofrer um golo do Belenenses SAD que tinha anunciado estar em “layoff”; e o golo foi marcado nem mais nem menos do que pelo Licá, jogador que se encontra reformado há um par de anos. Não se pode pedir aos jogadores do Sporting para também estarem atentos a uma situação que se encontra na esfera de competências da Autoridade para as Condições de Trabalho. Mas a equipa recompôs-se rapidamente porque era dia de homenagear o Mathieu e o primeiro golo foi uma lembrança, uma simpatia do Coates, seu colega de sempre. 

Não se pode descrever o segundo golo no mesmo parágrafo do primeiro. Não se mistura o género humano com Manuel Germano ou a beira da estrada com a Estrada da Beira. O Jovane Cabral marca depois de um movimento que ainda hoje não foi possível levar à prática nem na patinagem artística, nem no ballet, apesar das tentativas, quer de Katarina Witt, quer de Rudolf Nureyev, no século passado. O terceiro do Jovane Cabral na marcação de uma grande penalidade acaba por ter uma história curiosa [fico na dúvida se não devia mudar de parágrafo também]. Na primeira tentativa, ainda antes do remate, o guarda-redes sai da baliza, simulando para a sua direita mas acabando por se lançar para a esquerda, e defende com a ponta dos dedos a bola entretanto rematada. Como o guarda-redes se adiantou antes do remate, o árbitro manda repetir e, à segunda, o Jovane Cabral não perdoa. A curiosidade, a surpresa não é suscitada nem pelo “penalty”, nem pelo remate, nem pelo golo: cinquenta anos de sportinguismo depois, vejo um árbitro mandar repetir um “penalty” a favor do Sporting depois de uma primeira tentativa falhada. 

Não sei se estou preparado para viver com a aplicação das regras nos nossos jogos. Deixa de ser bingo e passa a ser futebol e abre-se um admirável mundo novo, em que não somos a equipa do campeonato com mais amarelos ou o Coates deixa de saltar sem dois ou três jogadores adversários às cavalitas. Muita coisa me passou pela cabeça: jogar contra dez ou nove jogo atrás de jogo; dispor de uma dezena de minutos de desconto sempre que conveniente; ver o Acuña a vociferar e a aviar adversários sem levar cartões; ouvir os comentadores da arbitragem explicar o inexplicável; ler n “A Bola” hossanas e hossanas à visão, engenho e capacidade de gestão de qualquer presidente com bigode. 

Ao intervalo, parecia que queríamos tornar este jogo ainda mais épico ao trocar o Jovane Cabral pelo Francisco Geraldes. Como adepto sportinguista, desconfi(n)ado por natureza, imaginei a transformação do milagre em tragédia, com títulos do El Pais e relatórios da Organização Mundial de Saúde a falar de “disaster recovery”. Mas, ao passarem minutos atrás de minutos sem ver ninguém a estrebuchar, moribundo, com uma das chuteiras de um jogador treinado pelo Petit atravessada na carótida, compreendi melhor o que se passou (passou-se?): negociámos um armistício que permitiu concluir o jogo-treino com o Borja, o Doumbia, o Battaglia, e o Ilori ao mesmo tempo em campo, como contrapartida a deixar o Jovane Cabral no banco. 

Temos a melhor equipa desconfinada da Europa e o melhor jogador desconfinado do Mundo. Os progressos são incríveis e vêem-se à vista desarmada em momentos de jogo tão simples como no olhar penetrante do Borja na sua habitual marcação com os olhos ou na troca de bola de pé para pé durante dois minutos dos referidos Borja, Doumbia, Battaglia e Ilori. O Amorim demonstrou que as aulas presenciais e o ensino formal mais não servem do que para destruir as competências das pessoas. Queremos continuar desconfinados mas sem início de ano letivo!

terça-feira, 23 de junho de 2020

Ato falhado

Um dos acontecimentos mais surpreendentes do futebol português registou-se no jogo do Sporting contra o Paços de Ferreira. O árbitro marca “penalty” contra o Sporting, que não existe, e mostra amarelo ao Coates, que se encontrava a uns largos metros do local onde a suposta falta se realizou, confundindo-o com o Borja. A confusão entre os dois jogadores é uma impossibilidade có(s)mica. Para além da distância, um é muito, muito alto relativamente ao demais e ao outro também; um é branco e o outro é negro; um é calvo e o outro guedelhudo; um tem barba e o outro tem a cara impecavelmente escanhoada. É quase impossível confundir dois jogadores tão distintos, um uruguaio e um colombiano, cujo único elemento em comum é a camisola. 

O acaso não explica este acontecimento, este fenómeno. Está-se em presença de um ato falhado. Havia uma intenção inconsciente, subliminar. Pode-se pensar que essa intenção seria a de mostrar o amarelo ao Coates ou a de marcar um “penalty” quaisquer que fossem as circunstâncias. Não tenho a certeza que assim seja ou que assim tenha sido. O ato falhado é outro. O árbitro marcou “penalty” sem certeza, sem completa consciência de a sua decisão estar correta, tendo tratado de encontrar um subterfúgio que a permitisse reverter, tal a evidência da troca de jogadores. Conscientemente marcou “penalty” mas inconscientemente tratou de arranjar forma de o anular.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Prontos para apresentação aos sócios!

Estamos em pré-época e a minha disponibilidade para compreender as experiências do Ferro e do seu novo treinador-adjunto é naturalmente generosa. Mais dois jogos destes e a equipa está em condições de ser apresentada aos sócios. Está na altura de nos apresentarem um francês entradote que tem um pé esquerdo que passa a bola sempre redondinha para os seus colegas; um uruguaio alto e espadaúdo que limpa de cabeça todas as bolas por alto; um puto que joga a central com alma até Almeida e um cabedal que impõe respeito e permite ganhar uma e outra vez o corpo a corpo com os adversários; um puto brasileiro no meio-campo que tem um pulmão que não acaba, está em todo o lado ao mesmo tempo e ganha bolas atrás de bolas, embora ainda um pouco faltoso; um outro puto que se parece com o que saiu para o Manchester United (Jovane Fernandes Cabral, será?). Há mais uns putos interessantes, como o lateral esquerdo e o guarda-redes, que, como os restantes, são desconhecidos de todos nós. 

Neste jogo contra o Tondela, registaram-se evoluções relativamente aos dois anteriores, contra o Guimarães e Paços de Ferreira, embora ainda continuem presentes as dificuldades mas também as virtudes do modelo de jogo adotado. A evolução esteve na pressão mais alta sobre a saída de bola do adversário e numa maior facilidade em a ganhar em terrenos mais adiantados se não à primeira pelo menos à segunda. Num ou noutro contra-ataque, a equipa também se reorganizou para defender. Na segunda parte, a defender, a equipa esteve sólida, compacta e sem dar abébias ao adversário. No ataque, ao se jogar com três centrais, privilegia-se em demasia o jogo exterior, sem movimentos interiores com a frequência desejada dos extremos e apoio dos médios, existindo uma só referência na área e inferioridade numérica no meio. O ataque parece viver da irrequietude dos putos e, em especial, da insolência do referido Jovane Fernandes Cabral (será?). As oportunidades foram poucas mas aproveitadas com enorme avidez, permitindo a vitória por dois a zero. 

A arbitragem não precisa de apresentação ou reapresentação. Houve trezentos e vinte e oito “penalties” a favor do Sporting. Em todas as situações, vimos marcar por muito menos. Um empurrão não se basta e é preciso recorrer à cinemática e à mecânica para se saber se é falta ou não, fazendo-me recordar os conceitos de torsor e de momento (o momento é a força vezes o braço ou a distância). Bola na mão ou mão na bola também depende de análises profundíssimas sobre a relação entre volumetria e movimento dos braços. Com mais ou menos ciência, não parece adequado é não penalizar a placagem do “arrière” da equipa de rugby do País de Gales ao alto e espadaúdo uruguaio. Como todos sabemos, no rugby, uma placagem sem bola origina uma penalidade e a possibilidade de, na sua conversão, se somar (mais) três pontos.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Ao longe


Ouvi dizer que o Silas Amorim vale bem um estádio Eu Sou. São portas fechadas, segredos por revelar, são coisas do mundo, só se podem ver… ao longe (como diriam os Heróis do Mar). Os jogos são patuscos, rodeados de sombras e imagens projectadas pelos nossos sonhos; das bancadas exala um odor a compadrio misturado com publicidade enganosa. O Belenenses SAD está nas suas sete quintas, habituado a rumores de catástrofes anunciadas, há muito que treina e joga à porta fechada. Os comentadores fazem gáudio da sua importância sociológica e televisiva, ruminando impressões, discutindo vitupérios, anunciando novos mundos com amanhãs cantantes. Os jogos - vamos lá ver isso - são panaceias violentas que escondem o verdadeiro jogo, onde os peões se escondem do rei e do papa, conforme a religião. Treinadores afirmam-se surpreendidos, adeptos procuram, nem sempre em vão, o melhor viaduto para arremessar as suas tristezas, outros sobem a árvores e a prédios para justificar a sua função humanitária. Os jornais voltaram à normalidade possível, dentro da impossibilidade de outra. Fazem-se capas marcantes. Outras distantes. Os festejos são efusivos. Com ou sem máscara. Tudo a céu aberto. A liga dos calmeirões aterrará em Lisboa. Estamos preparados. A aposta na formação acompanha as dívidas e as dúvidas dos mais inconformados. São coisas do mundo, só se podem ver… ao longe.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

#viettolivesmatter

O Rúben Amorim dispõe de toda a minha tolerância e boa vontade. A expetativa de voltar a ver jogar o Mattheus Oliveira é de tal forma que estou disponível para continuar a assistir ao desespero do guarda-redes, de três centrais e de dois médios para levarem uma e outra vez a bola para o ataque. A tática é a do Silas mas parece mais bem estudada e treinada, atendendo ao posicionamento mais avançado dos dois alas. 

Esta tática deixa a equipa sempre em desequilíbrio numérico atrás, ao meio e na frente, conforme a dinâmica de jogo. Hipotecam-se três defesas em vez de dois quando a equipa está a atacar. Quando não se tem a bola, deixam-se dois médios a ocupar o meio-campo e a lutar contra três ou quatro adversários. Os três da frente ou estão condenados a comportar-se como um grupo de paraquedistas ou de outra tropa especial qualquer junto à linha do inimigo ou se recuam, para receber a bola entrelinhas, correm o risco de trazer adversários com eles e assim congestionarem ainda mais o espaço da saída de bola para o ataque. Mas, tratando-se de jogos de pré-época, precisamos de tempo para se tirar conclusões definitivas antes de se arranjar mais um treinador-adjunto para o Ferro. 

A primeira parte foi um desespero. Desesperava pela substituição do Vietto quando este, só para me chatear, desmarcou primorosamente o Sporar que foi indo como se nada fosse até nada ter sido. Para me deixar na dúvida, o Vietto lesionou-se logo a seguir. O Vietto é aquele jogador tão falho de intensidade que desejamos sempre ver outro no seu lugar; desejamos até o vermos e, quando o vemos, nos lembrarmos que o Vietto tem sempre a possibilidade de tirar um coelho da cartola; quando o voltamos a ver num qualquer jogo a seguir voltamos ao mesmo e assim sucessivamente até ao fim dos tempos. A primeira parte foi isto e mais umas tantas traulitadas dos jogadores do Paços de Ferreira liderados pelo grande Pêpa, essa gente indómita sempre disposta a talhar madeira alheia. 

A segunda parte foi um desespero, mas um desespero diferente do da primeira, um desespero de outra maneira e por outros meios. Parecia que podia ser diferente quando o Jovane Cabral enfiou um balázio ao ângulo na conversão de um livre direto, fazendo o primeiro golo. Depois, o Matheus Nunes levou um amarelo ridículo e vimos entrar o Eduardo para o seu lugar (sim o Eduardo!), quando tínhamos o Mattheus Oliveira no banco. O Paços de Ferreira encheu-se de brios e tentou fazer pela vida, aproveitando os seus jogadores toda e qualquer oportunidade ou oportunidade nenhuma para se atirar para o chão. Mas o Eduardo Quaresma estava seguro, o Coates limpava tudo o que havia para limpar nas bolas aéreas e o Max tratava do resto; o Camacho transformava a bola numa rã sempre que lhe tocava; o Plata aquecia, coisa que nunca deixou de fazer desde que substituiu o Vietto; o Sporar desaparecia em combate e foi abatido ao efetivo; o Borja continuava a ser o Borja; o Acuña estava melhor, embora os cinco quilos a mais prejudiquem o seu futebol; o Francisco Geraldes prometia ler o Memorial do Convento e, se lhe pedissem muito, também o Manual de Pintura e Caligrafia ou o Levantado do Chão. Sobrava o Jovane Cabral, que continuou a demonstrar estar em melhor forma do que todos os outros juntos. 

O jogo não foi um desespero, apesar de quer a primeira, quer a segunda parte, o terem sido. Pelas duas equipas teria sido, mas um árbitro serve para isso mesmo: para transformar o desespero em farsa e a farsa em normalidade. Não viu um agarrão ao Jovane Cabral, que existiu, e viu um empurrão do Coates a um jogador do Paços de Ferreira, que não existiu. Vídeo-árbitro para a frente, vídeo-árbitro para trás, e tudo voltou ao (a)normal: fomos gamados, como se não tivéssemos sido; o Paços de Ferreira foi beneficiado, como se não tivesse sido. Tudo normal, tudo farsa, tudo desespero e vice-versa.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Silas 10.0 num jogo escanifobético (*)

Meses à espera de Godot e sai-nos uma versão do Silas. Nada contra, barretes há muitos, mas também os há em barato ou em caro. O Silas 2.0 seria só mais um. O Silas 10.0 não é mais um, é único. Amorim tem os mesmos “powerpoints”. Tem uma ideia de jogo, um sistema tático também. Apesar de tudo, mudou alguma coisa. Entrou o Eduardo Quaresma e o Matheus Nunes e colocou o Camacho a jogar na ala direita e um lutador de sumo na ala esquerda (mais tarde vim a saber que era o Acuña; penso que entretanto lhe explicarão que só abaixo dos cem quilos se conseguem fazer certas jogadas no futebol). 

Nos primeiros minutos, pensei que o júnior fosse um rapaz alto e loiro que jogava do lado esquerdo da defesa, um tal de Mathieu, pois parecia o mais novo. Nesses minutos iniciais, a cada dois passes perdia-se a bola. Os três centrais pareciam três tristes tigres: bola para um, bola para outro, bola para o guarda-redes, com o guarda-redes a ter a responsabilidade de virar o sentido do jogo, fosse com o pé direito fosse com o esquerdo (o seu pior). Pouco a pouco, a defesa do Guimarães foi-se demostrando um buraco a jogar adiantada. Cada bola nas costas era um ai Jesus, Nossa Senhora de Fátima nos acudam! Numa dessas circunstâncias, o guarda-redes teve de sair da área para enfiar uma peitada na bola, permitindo ao Sporar tirar-lha, agradecendo a delicadeza enquanto esperava que ela se aquietasse para a empurrar para a baliza. 

Sem saber ler nem escrever, estávamos a ganhar. No entanto, continuámos como se nada fosse a trocar a bola atrás entre os centrais, os médios e o guarda-redes, porque o a ideia de jogo e o sistema tático são para cumprir. Aumentada a pressão dos jogadores adversários, os do Sporting começaram a atrasar ainda mais bolas para o Max e cada vez mais à queima e para cima da linha de baliza, enquanto este continuava a manter a responsabilidade de a fazer rodar para o lado contrário com o melhor ou o pior pé. Tantas vezes o cântaro vai à fonte até que amor com amor se paga e o Max com a delicadeza do Sporar devolveu a delicadeza do guarda-redes do Guimarães. Assim se permitiu o empate sem se abdicar da ideia de jogo e do sistema tático. Até ao final da primeira parte, o Jovane Cabral teve oportunidade de dinamitar a defesa do Guimarães e o Vietto de demonstrar que é um Postiga com sotaque. 

Na segunda parte entrámos a jogar melhor. O Camacho começou a perceber melhor o seu posicionamento e o Eduardo Quaresma desinibiu-se, apesar do Battaglia continuar a tropeçar em si mesmo e nos adversários sempre que pretendia levar a bola para o ataque. O Jovane Cabral continuava indomável (pareceu o único a não se limitar a comer “fast food” durante o confinamento) e, partindo a defesa adversária, isolou o Sporar para este com toda a sua comprovada delicadeza deitar o guarda-redes e empurrar a bola para a baliza. O bandeirinha ainda marcou falta de distanciamento social (faltava esta!), sem se dar conta que o Sporar estava com um daqueles chapéus em forma de helicóptero que as crianças de Arcos de Valdevez usam. A perder novamente, os jogadores do Guimarães foram porfiando e, como se sabe, quem porfia sempre alcança, para descanso de todas as partes envolvidas, como se viu em seguida. O Jovane Cabral descansou-nos e descansou o treinador quando, voltando a fazer das suas, expulsou um jogador adversário, permitindo que a equipa assumisse definitivamente a sua ideia de jogo e o seu sistema tático sem mais excitações ou eventuais riscos de marcar mais um golo que fosse. 

Por mim, matadas as saudades, parava-se o campeonato mais três meses e voltávamos todos aos emocionantes “briefings” diários da Graça Freitas. Não sei quem é que convenceu o António Costa desta ideia de se retomar o campeonato, embora tivesse o bom senso de perceber que isto não é coisa que se possa ver ao vivo. Mas, sem público, o futebol desnuda-se, deixa de ser competição e passa a ser jogo exclusivamente e, no jogo, nada mudou em Portugal: houve o vinte e cinco de abril de setenta e quatro, a adesão à Comunidade Económica Europeia, o fim da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, a criação da moeda única, o Euro, a ascensão da China na economia mundial, o onze de setembro e o atentado às Torres Gémeas, a crise financeira internacional e das dívidas soberanas na Europa e, finalmente, a pandemia do Covid-19 e nada se criou, nada se perdeu, nada se transformou. Cinquenta anos de acelerado tempo histórico que para o futebol português foram um único momento. Dantes dizíamos que não se conseguiam ver os jogos do campeonato nacional, agora dizemos que também não se conseguem ouvir. 

(*) Resgatei este adjetivo da recente releitura dos “Casos do Beco das Sardinheiras”, de Mário de Carvalho.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

É pelas virtudes que se é melhor castigado*


A história é conhecida. O veredicto fora dado antes de qualquer julgamento. A praça pública, outrora um espaço de liberdade da cidade, é hoje um largo com esplanadas em forma de tenazes onde se depreda, à vista de todos, a vida de alguns cidadãos.

Um ex. Presidente do Sporting Clube de Portugal foi ilibado (e não foi o único) de todas as acusações que sobre si recaíam em tribunal. Por outras palavras: declarado inocente. É claro que ainda não transitou em julgado, mas atendendo à tristeza de alguns semblantes, o luto será longo e difícil de ultrapassar. Não esperava grande coisa de alguns comentadores e jornaleiros a soldo, nem dos rivais de sempre que não apreciam qualquer prova de força da nossa parte, mas acreditava que a Instituição Sporting, ou alguém em seu nome, se regozijasse com esta decisão sobre um seu ex. Presidente. Ponto. Já agora, este (o site do Sporting estava indisponível) comunicado oficial é, no mínimo, embaraçoso. E é isso que traz água no bico.

A análise da imprensa de hoje, mesmo para um observador desatento, remete-nos para a incredulidade dos ingénuos. Ou tomam-nos por imbecis. É como se não se tivesse passado nada. A matilha de pasquins do costume, sempre pronta para alinhavar um bom membro decepado expondo-o num plinto ao sol, para ser devidamente servido aos abutres, passa pelos acontecimentos como cão por vinha vindimada. O CM, sempre tão solícito em servir bons repastos, faz uma minúscula chamada de capa, anunciando, sem se rir muito, o “agressor de Bas Dost com pena suspensa”, o melhor que conseguiram para aconchegar o terror que os trespassou. O Record e A Bola dão um destaque mínimo na capa ao veredicto do tribunal, depois de terem feito, juntamente com o CM, mais de trezentas mil capas antecipando o veredicto e aspergindo a fogueira com combustível.  A imprensa dita séria, enredada num jornalismo de tarefeiros e sem qualquer capacidade para fazer investigação e reportagem, fica-se pela notícia e os lugares comuns do costume.

Como diz o Vítor Oliveira, que já não precisa disto para nada, o que vai começar agora é o futebol negócio. Eu diria recomeçar. Há muito que o jogo não interessa para nada se não vier devidamente embalado em comissões, altos patrocínios e respectivas alvíssaras.


(*Nietzsche)