domingo, 20 de maio de 2018

Nem crucificado nem ressuscitado: é assim a vida de (Jorge) Jesus

Nunca se pode dizer que se bateu no fundo. Há sempre mais fundo para além do fundo e quando se olha fixamente para o abismo o abismo olha para nós. O abismo tinha os olhos fixados em nós desde o primeiro minuto. Não desviámos o olhar. Voltámos a embrulhar-nos nas táticas maradas do Jorge Jesus com passes para trás e para a frente sem grande objetividade e menor contundência.

Face ao Aves, este monstro sagrado da futebolândia nacional, todos os cuidados eram poucos. Jogámos com dois trincos: o Battaglia e o William Carvalho, com o segundo um pouco mais avançado do que o primeiro e sempre na dúvida sobre quem fica e quem vai, quem recua e quem avança. As dúvidas eram tantas que no lance do primeiro golo do Aves não estava nenhum no seu lugar. Sofrido o primeiro golo, o William Carvalho recuou, o Bruno Fernandes também e não se percebeu muito bem o que andava a fazer o Battaglia em campo. Não seria grave se não percebêssemos. O que é grave é que o Battaglia também não entendeu. No ataque, o Bas Dost ainda ficou mais isolado. A precisar de marcar um golo, resolvemos dar descanso à defesa do Aves até ao final da primeira parte.

Na segunda parte, saiu o Williiam Carvalho e entrou o Montero. Deixou de haver menos dúvidas posicionais, mas continuámos sem saber muito bem o que fazer para marcar um golo. Esperava-se um massacre mas, para além das duas vezes que o Gelson Martins acertou no Quim na primeira parte, nem uma oportunidade para amostra se criou até se levar o segundo golo. A equipa queria acordar mas não conseguia. Entretanto, o Misic tinha entrado para o lugar do Coentrão e passou jogar a extremo esquerdo, uma novidade absoluta. Rapidamente se percebeu que também não sabia muito bem o que fazer em campo, passando a andar por um lado e pelo outro, tal deve ter sido a “overdose” de orientações que o Jorge Jesus lhe deve ter dado. O Bas Dost conseguiu falhar um golo de baliza aberta que, temo bem, até o Bryan Ruiz teria marcado.

Só quando o Battaglia e o Acuña quiseram apertar o papo a um avançado do Aves é que a equipa acordou. A equipa acordou sozinha em campo, sem orientação, sem ideias e completamente desesperada. Os centrais foram para a área do adversário e passaram-se a mandar bolas atrás de bolas para a área, até que num ressalto o Montero marcou golo. O vendaval de bolas para a área intensificou-se com o Aves a resistir como podia. Não chegou. Os jogadores deram mais em dez minutos do que nos restantes oitenta. O Aves sofreu mais nesses dez minutos do que nos restantes oitenta minutos também.

Este jogo foi o espelho da época. Jogadores amarrados a táticas e mais preocupados em as cumprir do que em ganhar jogos. Quatro e cinco jogadores na construção de jogo para os quais bastam dois adversários para a condicionar. Avançados isolados na frente à espera de companhia e que a bola lhes chegue. Incapacidade para dispor de um plano b e de um plano c que permita romper o cerco que criamos a nós próprios. Manutenção do pastelão tático com trocas permanentes de posição entre os médios até nenhum deles perceber bem o que está a fazer em campo. Ausência de bolas a explorar a profundidade e de saídas de bola rápidas pelas laterais. No final, Jesus costuma acabar crucificado. Não me parece que seja o que vai acontecer. Apesar dos milhões e milhões de euros gastos, fizemos duas épocas consecutivas miseráveis. Não satisfeito, o Bruno de Carvalho arranjou-lhe o álibi perfeito.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O último a sair que feche a porta

(...)
Aproveito apenas para friamente assinalar que, esta época, o Sporting teve uma dose de coerência que em tudo se assemelha a uma política. A equipa, de forma coerente, não jogou nada. Jorge Jesus, de forma coerente, foi mantendo a sua ideia. Esta coerência apenas foi ligeiramente alterada após o jogo com o Atlético (por razões que todos sabemos: a posta do Presidente e o desgaste da equipa com lesões, castigos, cansaço). E, por fim, o Presidente (e toda a sua equipa se é que existe uma equipa) foi coerente no seu caminho para o abismo. Até ontem ainda havia a possibilidade de recuarmos. Hoje a queda livre não permite pensar sequer em milagres.

E teria bastado alguma imprevisibilidade, alguma (porque não?) incoerência, tanto na equipa como no treinador para chegarmos a outro porto. Quanto ao Presidente, não sei se já se inventou uma palavra para o sucedido. Talvez suicídio. Mas não quero ser coerente.

(posta originalmente publicada aqui)

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Para o que aconteceu ontem nunca, mas nunca mais se repita!

Ter um clube, ser de um clube não se explica. Nem sequer é razoável. Seria muito mais conveniente que não se tivesse e não se fosse. Não estaríamos permanentemente a sair da festa da comunhão do sobrinho para ver se empatámos contra o Moreirense ou se até estamos a ganhar, suportando o olhar reprovador da mulher e do resto da família. Não ficaríamos de neura toda a semana porque empatámos ou perdemos. Não faríamos papéis ridículos no café da esquina depois de um golo perante a incredulidade dos vizinhos que nos consideram pessoas normais e educadas.

Ser do Sporting é racionalmente uma inconveniência, mas não consigo deixar de ser. Sou capaz de contar a minha vida toda a partir das datas e dos factos que fazem a história do Sporting do que utilizando qualquer outra cronologia mesmo envolvendo aqueles que mais amo. Entranhou-se em mim e na minha vida de tal maneira que não consigo desfazer-me desta pertença.

Ontem, ao chegar a casa e ver as imagens na televisão, tive vergonha desta minha pertença. Daria tudo para me ver livre dela. Daria tudo para não me sentir responsável também, mas sou responsável. Não sei se sou ou pelo menos tento-me convencer que não sou, que os responsável são os outros, mas sinto-me responsável. Não consigo deixar de pensar que esta pertença irracional, por muito pouca expressão que possa ter, juntamente com a dos outros sportinguistas é que conduziu à violência e a esta desgraça.

Mete-me alguma confusão a desvalorização da violência e a relativização da desgraça. É um caso de polícia? É sim senhor, mas também deve merecer consequências no plano desportivo. Não me parece que se possa jogar a final da Taça de Portugal e continuar a pensar que tudo continua como antes. Se ganharmos, festejamos? Como se nada tivesse acontecido? Num país a sério, seria cancelada a final e não seria atribuído o título esta época. Não sendo um país a sério, se fôssemos um clube a sério, não deveríamos jogar a final da Taça de Portugal: glória ao Aves! É que disto tudo importa que não se perca a memória, para que enquanto a vergonha perdurar, e espero que perdure para sempre, o que aconteceu ontem nunca, mas nunca mais se repita.

terça-feira, 15 de maio de 2018

O fim dos irmãos metralha (II)

Primeiro, em 2 de julho de 2015 e, depois, em 22 de julho de 2017, dizia isto:

Cada vez gosto mais de filmes de pancadaria. A saga dos Mercenários é excelente. Num só filme temos o Sylvester Stallone, o Arnold Schwarzenegger, o Chuck Norris e por aí fora. Não vai ser preciso ver o terceiro filme da série. Temo-los a todos na versão portuguesa no Sporting. Num só clube contamos com o Bruno de Carvalho, o Jorge Jesus e o Octávio Machado. Só falta o Maxi Pereira para termos o elenco completo.

Nos filmes, isto acaba bem. No Sporting, vamos ver. É que já nos tínhamos visto livres do Octávio Machado. Nos últimos anos tinha-se esquecido de nós e só falava sobre o Porto.

domingo, 13 de maio de 2018

“Without lap, there is no tactics' king of portuguese football”, como diria o Carvalhal

Após a vitória do Tondela na Luz, começou a conversa de que o zero a zero em Alvalade contra o Benfica chegava. O discurso do Jorge Jesus não deixava dúvidas: tínhamos mais medo de perder do que vontade de ganhar. Essa estratégia foi executada com o rigor possível de quem joga para não perder, sabendo-se, como se sabe, que quem joga assim está mais próximo de perder e mais longe de ganhar. Empatámos, mas o empate só serviria se fosse seguido por uma vitória no Marítimo.

Pelos vistos, tínhamos medo de perder, jogámos para não perder, não perdemos, empatámos, mas não sabíamos o que fazer a seguir quando se pedia a vitória. Pedia-se, hoje, a vitória. Esperava-se a reedição dos jogos contra o Porto e contra o Atlético de Madrid para, respetivamente a Taça de Portugal e a Taça UEFA, quando nenhum outro resultado que não a vitória servia. Só que esses jogos foram o engano da época. Não sabemos jogar para ganhar como nunca soubemos durante a época toda. Como de costume, esperávamos ganhar nos descontos, com o Rui Patrício a safar-nos nas situações mais aflitivas, mas a sorte não dura sempre: perdemos nos descontos com o Rui Patrício a enterrar-nos.

Repetiram-se todos os erros. Erramos e cada jogo que passa erramos melhor. Entrámos com a equipa presa por arames. Os dois laterais não apoiam o ataque e, mesmo assim, são os dois primeiros jogadores a arrebentar. O caso do Piccini é que não se compreende, definitivamente. O jogador mal se conseguia mexer. O Ristovski cumpriu sempre que entrou, especialmente a dar profundidade no flanco. Assim, o Gelson Martins foi deixado à sua sorte no lado direito, sem qualquer apoio no ataque e com a necessidade de apoiar a defender, não tendo praticamente tocado na bola na segunda parte em condições de desequilibrar.

Do lado direito estávamos conversados, mas do lado esquerdo não estávamos melhor. Jogámos com os estafados Coentrão e Acuña e quando quisemos mudar tínhamos esse poço de energia e de velocidade que é o Bryan Ruiz. O que diria o Jorge Jesus do Iuri Medeiros, ou de qualquer um dos seus outros pequenos ódios de estimação, se marcasse um livre perigoso a nosso favor diretamente pela linha de fundo? No meio, viveu-se a confusão do costume sempre que jogam o William Carvalho e o Battaglia. Quando joga sozinho, o Battaglia sai a todos e vai a todas, limpando tudo até onde a vista alcança o horizonte. Quando joga com o William Carvalho, elabora-se em cima do joelho um Tratado de Tordesilhas qualquer sem que fique claro quem faz o quê, atrapalhando-se ambos.

O jogo de ataque ficou entregue ao Bas Dost e ao Bruno Fernandes. O Jorge Jesus tem-nos transformado numa equipa de comandos ou de outro tipo de tropas especiais a quem se entrega um “kit” do Rambo e se coloca atrás da linha do inimigo, esperando que ganhe a guerra sozinho. O Bas Dost está mesmo condenado a disputar sempre a bola na área contra três ou quatro adversários sem que tenha qualquer colega por perto. Mesmo ajudada pelo Gelson Martins, uma equipa de comandos como esta pode arranjar umas escaramuças, pode desestabilizar o inimigo, pode ajudar a ganhar uma ou outra batalha, mas não ganha sozinha a guerra. Nessas circunstâncias só o Rambo e não tenho a certeza que o possa fazer no campeonato português como a mesma facilidade com que o fez no Vietname ou no Afeganistão.

Com exceção dos dois golos, que foram mais obra do acaso do que outra coisa, os primeiros setenta a setenta a cinco minutos constituíram simples prelúdio para a ponta final, onde é necessário “put all meat in the barbecue”, como diria o Carvalhal. Começámos com um ponta-de-lança para acabarmos com três. Eram tantos que nem sobrou espaço na área para lá se meter o Coates também, o autor das vitórias épicas nos últimos minutos. Não subiu para a área e mesmo assim ele e o William Carvalho não foram suficientes para travar um avançado do Marítimo que ao querer ver-se livre da bola acertou-lhe nas orelhas e permitiu ao Rui Patrício o único frango desta época.

Definitivamente, ficou demonstrado que, sem colinho, o Jorge Jesus não passa de mais um cromo, embora o cromo mais caro do futebol português. Cinco anos depois com milhões e milhões euros gastos em camiões e camiões de jogadores e no treinador mais caro de sempre continuamos na casa de partida, isto é, em terceiro lugar e mais próximos do quarto do que do primeiro lugar. Este treinador e estes jogadores são os outros, aqueles que não são do Presidente, que, assim, não tem responsabilidade nenhuma. Continua a fazer aquilo em que é melhor: falar de si próprio, deixando ao “Facebook” e ao seu pai a responsabilidade de resolver aquilo que a ele e só a ele lhe compete.

(Há razões para ter esperança. Na final da Taça de Portugal, contra o Aves, há sempre a possibilidade se ganhar por “penalties”, situação de jogo muito treinada pelo Jorge Jesus e que muitos resultados positivos nos tem proporcionado)

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Fuga da vitória


Esta semana tem sido muito interessante de seguir. O nosso rival, Benfica, queixa-se de várias coisas. Queixa-se de não poder ganhar a taça de Portugal. Queixa-se de não ter ganho a (sua) taça da liga (para eles taça Lucílio Baptista). Queixa-se de não ganhar o campeonato. Queixa-se por ter de jogar o último jogo sem saber se o carcanhol da liga dos milhões vai chegar à sua conta. Queixa-se (baixinho) de não ter ganho um jogo sequer (nem empatado) na liga dos milhões deste ano. Queixa-se de conduta violenta de elementos ligados ao Sporting, entre eles o (violento) roupeiro Paulinho, num jogo em que se queixa de não ter ganho. Esse jogo foi contra o Sporting, a quem o benfica acusa de vestir de verde e...branco. 

Entretanto, a imprensa desportiva vai vendendo todos os jogadores do Sporting. Já ficamos sem equipa B, agora corremos o risco de ficar sem equipa A. Patrício? Vendido. Ou quase. Quer sair. Mal com o presidente. William? Vendido, quer dizer, quase, quer sair. Mal com o presidente. Bas Dost? Quase vendido, quase que quer sair. Quase de mal com o presidente. Fernandes? Quase vendido. Gélson? Quase vendido, para o ano é que vai ser. Doumbia? Em fuga, quase vendido. Coates? Vendido ou quase, não tarda. Piccini? Tem pretendentes a dar com um pau. Quase vendido. Coentrão? Andou à porrada com vários elementos alegadamente ligados à estrutura de uma equipa que jogou recentemente com o Sporting. Depois andou quase à porrada com o (nosso) presidente. Isto tudo durante o jogo e ninguém viu nada. Quase devolvido. Bryan Ruiz? Quer ficar. Já se pensou algemar a um daqueles lindos postes verdes no exterior do estádio. Quase que fica, vão ver. Ideiafix JJ? Fica. A sério? Sério. E o chuta chuta também. É meia equipa. 

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Cobardia

O futebol não é para meninos, embora possa ser para meninas, como se viu este fim-de-semana com a equipa do Sporting a sagrar-se bicampeã. É para homens de barba rija, mas pressupõe lealdade e, por isso, que as armas sejam iguais. As leis do jogo servem para assegurar essa lealdade, competindo ao "fair play" dos jogadores os comportamentos éticos que são independentes, e estão para além, da regulamentação.

Durante anos, assistimos impotentes à atuação de gerações de sarrafeiros do Porto como o Fernando Couto, o Jorge Costa ou Paulinho Santos. Atuaram sempre com total impunidade. Batiam no que se mexia sem que sofressem qualquer penalização dos árbitros e sem que os adversários pudessem retorquir na mesma moeda. Sempre considerei essa atuação uma cobardia. Até que um dia o “velho” Acosta enfiou uma cotovelada no Paulinho Santos que lhe abriu um buraco na cara. O Paulino Santos percebeu na sua própria pele as consequências do seu reiterado comportamento, tendo o Acosta resgatado a honra de todos aqueles que foram agredidos época atrás de época, especialmente o João Pinto. O comportamento não foi bonito e as imagens arrepiantes.

Depois do Apito Dourado e do Benfica se ter transformado no “Dono Disto Tudo”, passámos a assistir à atuação de uma geração de sarrafeiros do Benfica que se permitem comportamentos que a nenhuns outros são admitidos. Seguindo o belíssimo exemplo do Luisão, assistimos a comportamentos reiteradamente violentos do David Luís, do Maxi Pereira, do Javi Garcia ou do Renato Sanches. A nova coqueluche do varapau é o Rúben Dias. Não há jogo em que não mereça o amarelo ou a expulsão, não há lance que não dispute em falta. Tudo lhe é permitido sem que sofra quaisquer consequências. Não foi expulso uma única vez e tem o mesmo número de amarelos do Rui Patrício.

No sábado, fez duas faltas na área para “penalty” e ainda enfiou uma cotovelada gratuita no Gelson Martins para vermelho direto. Em nenhum lance foi sequer marcada falta e, portanto, não levou nenhum amarelo, quanto mais vermelho. Num jogo em que em circunstâncias normais teria enterrado a sua equipa duas vezes e sido expulso duas vezes também, admitindo-se que tal fosse possível, acaba por ser o grande herói. Porque é que ele joga assim? Porque pode, dado que de outra forma não se perceberia o descaramento do Rui Vitória ao considerar que o Benfica ainda foi prejudicado pela arbitragem. Aonde pára o Acosta? É que não me parece que o Bruno Fernandes dê conta deste recado sobretudo quando não acerta nas canelas de quem merece e por isso e só por isso também merecia ser expulso.

domingo, 6 de maio de 2018

O título já está!

Tinha prometido a uns amigos portistas que lhes havíamos de entregar o título. Tinha mais confiança no Sporting do que no Porto para se chegar a essa classificação final. O Porto fez a sua parte mas se não tivéssemos feito a nossa não chegavam lá. Foi o Sporting que decidiu o título, foi o Sporting que impediu que o Benfica fosse penta-campeão. Como diz o nosso Primeiro-Ministro, palavra dada, palavra honrada!

Há quem possa pensar que teria sido melhor ganhar ao Benfica e assegurar, desde já, o segundo lugar. Quem pensa assim pensa mal. Se ganhássemos, o Porto podia chegar ao título ganhando ao Feirense, convencendo-se, erradamente, que tinham algum mérito. O Jorge Jesus pensou nisto tudo muito bem e, feitas as contas, acertou. Mudar a equipa para voltar a colocar o Piccini e o William Carvalho a jogar, mesmo que entrapados, e o Bryan Ruiz a extremo era a melhor forma de garantir que não nos passaria pela cabeça ir para cima do Benfica, passando a estar o resto da equipa com um olho no burro e outro no cigano. Não vamos qualificar ninguém, não seria próprio, mas sempre se pode dizer que o Rafa transformou o Piccini num Schelotto e que o Samaris se chegou a isolar depois de ter atravessado o deserto do nosso meio-campo com um simples cantil de água.

Se a estupidez do treinador fosse pontuada, ao intervalo devíamos estar a enfardar umas duas ou três. Felizmente não é. Ainda nos podemos queixar de um “penalty” que o amigo Xistra deixou por assinalar, devido ao mata-leão que o Ruben Dias aplicou ao Mathieu. Esse rapaz do Benfica confunde um retângulo com um octógono e a luta livre com futebol. Não lhe bastou o Mathieu e teve de arrear também no Bas Dost e no Gelson Martins. O amigo Xistra voltou a não assinalar novo “penalty” e a não marcar livre e correspondente vermelho. Não são só os jogadores que confundem as modalidades e as geometrias.

Na segunda parte, com a saída do William Carvalho, ficámos de imediato em superioridade no meio-campo. Não se deram mais abébias aos jogadores do Benfica e procurou-se engonhar o jogo no meio-campo adversário. Engonhámos sempre bem, não se correndo qualquer risco de se marcar golo e não se atribuir o título ao Porto. O jogador mais perigoso acabou por ser o Ruben Dias. Foi perigoso para as trombas e o pescoço dos adversários, (des)construindo assim mais jogadas com perigo (de golo) do que o Gelson Martins e o Bruno Fernandes juntos.

Face ao sucesso alcançado, tenho medo que esta tática venha a ser reproduzida nos dois últimos jogos da época. O Jorge Jesus é muito apegado a táticas, sobretudo quando são bem-sucedidas, como foi hoje o caso. É muito cioso das suas ideias e embirra quando alguém não concorda com elas. É melhor não o avisarmos que contra o Marítimo e o Aves o empate não serve. É um pormenor e não deve ser um pormenor a estragar uma tática ou uma ideia.

sábado, 5 de maio de 2018

Falhar para semana

Cenário: o meu cérebro.

(Ontem tinha falado na coisa duas ou três vezes a alguns colegas. Esta noite terei sonhado com isso. Era mais ou menos assim: o Sporting ganha hoje. O Porto perde amanhã. O Braga empatava para não correr o risco de ultrapassar o Benfica. Podíamos, desta forma, falhar apenas para a semana. Falhar melhor seria impossível.)

sexta-feira, 4 de maio de 2018

l etat c est moi




Pelo que aqui tenho lido começo a achar que há bastantes adeptos de uma governação absolutista capaz de perdoar os tiques “tirânicos” do líder em nome da Obra. Já vimos disso muitas vezes ao longo da História da Humanidade e muitas atrocidades aconteceram fomentadas e permitidas por esta forma de (não) agir.
Felizmente não será este o caso agora. Trata-se apenas de aceitar a existência de um Presidente-Sol que enquanto for dando umas marretadas na "velha nobreza", distribuindo umas benesses pela burguesia e pela baixa-nobreza, promovendo obras, distribuindo muita cacetada nos adversários (internos e externos), governando os súbditos com mão de ferro e ganhando aqui e ali umas guerras, tudo estará bem.
Este “laissez-faire laissez-passer” nem sempre resultou em termos económicos, e muito menos em termos políticos, mas são os sinais do tempo e, provavelmente, se há o risco do Rui Gomes da Silva chegar ao poder no rival vizinho, o melhor mesmo é ter um presidente “musculado”. 
Provavelmente.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

A fazer de Arnaldo Matos

Não tenho feitio para ser o grande educador da classe operária. Em Portugal, conhecido e reconhecido, houve um: Arnaldo Matos. Não me ocorre competir por esse lugar histórico, mas a recente vitória no voleibol e os consequentes festejos suscitam reflexão.

O grande problema da dinastia Roquette foi o de nunca perceber que um clube não é uma empresa e o facto de se transformar numa SAD não altera o essencial, passando a ser uma empresa com características especiais. O valor de um clube ou de uma SAD depende do número de sócios e adeptos e da sua maior ou menor mobilização. Pressupõe uma relação afetiva e essa é que determina a grandeza de um clube ou de uma SAD. Se o Sporting não jogar bem ou tiver umas camisolas ou uns barretes mais foleiros não leva ninguém a mudar para o Benfica.

Esta relação afetiva necessita de ser permanente alimentada. Sem grandes resultados desportivos no futebol, por um lado, e desinvestindo nas modalidades, não construindo um pavilhão e passando os treinos para Alcochete, por outro, esta relação tendeu a esbater-se e a quebrar-se. Foi a perceção que essa relação afetiva se iria retomar que levou o Bruno de Carvalho à Presidência do Sporting. O Bruno era um dos nossos, era um adepto que queria, como qualquer outro, resgatar o clube e trazer as vitórias e os títulos de volta.

Bruno de Carvalho pode ter vários defeitos, mas a falta de sagacidade não é um deles. Percebeu que a sua legitimidade estava dependente dessa relação afetiva. Construiu o Pavilhão João Rocha, apostou nas modalidades para ganhar e procurou construir uma equipa de futebol também ganhadora. Ao mesmo tempo, abriu todas as frentes externas necessárias para condicionar poderes instituídos e abrir espaço às vitórias. A relação afetiva alimenta-se de proximidade, de vitórias e do combate a inimigos, existentes e/ou convenientes.

Nos últimos tempos, o grande problema dele passou a ser ele, isto é, a sua incapacidade para estar calado sobretudo quando existem problemas internos. A reação à vitória no fim-de-semana foi esclarecedora: “Quem não conquistar vitórias, não está cá a fazer nada!”. Na negra, contra o Benfica, estivemos a um pelinho de perder. Há muito mérito dos jogadores e da equipa no seu conjunto, mas também houve sorte, muita sorte nos dois últimos pontos, quando estávamos a ficar por baixo do jogo. E se tivéssemos perdido, a proclamação seria a mesma? O Miguel Maia não estava no Sporting a fazer nada?

É nestas alturas, nas derrotas, que o Bruno de Carvalho revela o seu pior. Transforma-se no adepto mais doente. Basta dar uma vista de olhos pelas redes sociais para se perceber o que os adeptos iam dizendo da equipa e dos jogadores quendo estávamos a perder. A maior parte deles está de tal maneira intoxicada pela propaganda que acredita mesmo que os jogadores do Benfica se limitam a receber “vouchers” para comer à borla no Museu da Cerveja e que os nossos vêm todos com ordenado de administrador da GALP ou da EDP.

Quando se ganha é fácil. Quando se perde é que tudo se torna mais difícil. Por isso é que prefiro ver os dirigentes nas derrotas a vê-los nas vitórias. As vitórias são para os jogadores e para os adeptos. As derrotas é que são para aqueles que serem ser líderes. Esses esperam pouco do presente, esperam é que o futuro lhes dê razão, quando se fizer o balanço das derrotas e das vitórias e se perceber que muitas derrotas foram o início das vitórias e vice-versa.

(Este "post" é dedicado ao meu amigo Júlio Pereira, que faz hoje anos - pensei que nunca mais lá chegavas!-, tão grande como os maiores sportinguistas de sempre e um brunista crítico quando é preciso) 

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Amadores


Quando falamos com amigos de clubes (supostamente grandes) rivais, percebemos a sua indiferença (e desconhecimento) sobre as modalidades (ditas) amadoras, que de amadoras já apenas sustentam o nome. Salvo raras exceções, ou em situações muito particulares (por vezes isso acontece no futsal), ou nas denominadas “polémicas” dinamizadas pela TV, simplesmente são adeptos de uma equipa de futebol.

Ontem, no trabalho, senti perfeitamente isso na pele. Três a quatro vezes tentei uma abordagem ao jogo de voleibol (eu seguia-o através de SMS´s de um amigo), abordagem essa que, ou era recebida como se de uma disputa alienígena se tratasse, ora confundida com o pano de fundo clubístico habitual, sustentado em polémicas, tricas, e desinformação informada. Em suma: o futebol. 

Se olharmos bem, e eu lá vou tentando olhar, isso permite-nos tentar entender uma série de coisas. Nas modalidades acima referidas, existindo investimento, e agora com o pavilhão João Rocha, as nossas equipas lutam até ao fim e até ganham. O ano passado isso aconteceu no andebol e futsal; este ano já fomos campeões no voleibol (e logo no primeiro ano), estamos bem encaminhados no andebol e futsal e (surpreendentemente até) em todas as frentes no hóquei em patins. Isto relativamente a modalidades coletivas.

A pergunta que não para de ganhar forma na minha cabeça é daquelas perguntas para um milhão de euros. Independentemente do investimento (sempre discutível) na equipa de futebol, da onda verde, este ano em casa sempre acima de 40 000 espectadores, da asneirada, ou mesmo do desporto sportinguista de tiros no pé, pergunta-se: porque é que nunca conseguimos molhar a sopa? No final, com toupeiras ou ratos, com polvos azulados ou apitos, ganham sempre os mesmos. Parece que a conclusão andará próxima da biologia evolutiva. A inexistência de um polvo verde, ou roedor esverdeado, parece (dizem os cientistas) estar directamente relacionado com o assunto. Mas não há provas. Ou então, somos todos mesmo amadores.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Dia D

O dia começou pela ordem certa. Parabéns do meu banco, seguidos da Mike Davis, da Sephora, da Lion of Porches e da Caetano Retail. A Bertrand não quis faltar à festa e ofereceu-me um “voucher” de cinco euros em compras superiores a vinte e cinco euros nos próximos trinta dias. Esperava mais consideração da EDP e da NOS pelos clientes, mas os “vouchers” não são para todos e só nos ligam quando é para lhes pagar.

A família não faltou também. Primeiro a mulher, depois a filha e, por fim, a mãe, a irmã e o sobrinho. Os amigos vieram depois a conta-gotas. A meio da tarde ainda faltavam muitos, esperava eu. Esperava mais, mas esperava sobretudo a prenda que o Hugo e o Afonso me tinham prometido.

Fui dar uma volta à cidade. Retardei o regresso até mais não puder e não demonstrado que estava nervoso. Estive a aboborar numa esplanada enquanto bebericava um café e comia uma tíbia. Vi as montras todas que havia para ver. Hesitei vezes sem conta na compra de uns calções e de uma camisola às riscas para passar o tempo. O tempo não passava e não encontrava mais razões para adiar o regresso a casa.

Regressei no final do terceiro “set”. Perdemo-lo e fiquei com a sensação que íamos passar à história. Mas animada pelo jovem João Simões, a velharia não queria dar o braço a torcer, ganhando o quarto “set”. Deixei de ir espreitando o jogo e o resultado. Os nervos eram muitos e procurei ler um policial enquanto via pelo canto do olho o Velocidade Furiosa 7, filme que recomendo quando se está com elevados níveis de ansiedade. Sem me conseguir concentrar em nada, fui à Tasca do Cherba ver como paravam as modas: estava 13-13. Fui para a varanda fumar cinco cigarros seguidos.

De repente, as mensagens começaram a cair furiosamente no telemóvel. Voltei à Tasca do Cherba e regressei à sala para ver a Sporting TV. O Hugo e o Afonso tinham cumprido o prometido. Vi o último “set” enquanto respondia às mensagens. Os parabéns misturavam-se com o voleibol, de sportinguistas, benfiquistas e portistas. Não tenho dúvidas que eles ajudaram a bola a trepar a rede e a passar para o outro lado nos dois últimos serviços do americano Muagututia. Os amigos são assim, estão presentes nestes momentos em que não pudemos contar com mais ninguém para fazer o que é preciso para sermos felizes. Agradeci a todos enviando-lhes o vídeo do último ponto que saquei no Artista do Dia.

São eles e o Hugo e o Afonso. Não o disse na altura, mas digo-o agora: “O Hugo e o Afonso ganharam! O Sporting é campeão!”

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A tática de não ter tática alguma

Aos sessenta e sete minutos saiu o Coentrão e entrou o Misic para jogar no meio a oito, encostando o Bryan Ruiz à esquerda e recuando o Acuña para defesa. Cinco minutos depois, saiu o Bryan Ruiz e entrou o Montero para segundo avançado, recuando o Bruno Fernandes para jogar à frente do Battaglia e encostando o Misic ao lado direito. Aos oitenta e quatro minutos, saiu o Battaglia e entrou o Lumor para defesa esquerdo, voltando o Acuña para extremo e regressando o Misic ao meio, agora, para jogar na posição seis. Aos oitenta e oito minutos, o Bruno Fernandes marca o dois a um num charuto de fora da área.

Obrigou-se o Misic em cerca de vinte minutos a fazer mais posições do que o Bruno César durante uma época para se acabar por onde se devia ter começado e com um golo que se deve ao puro e simples acaso (e ao mérito individual e momento de inspiração do Bruno Fernandes). Não havia necessidade de se ganhar de goleada por dois a um, acabando com o coração nas mãos.

domingo, 29 de abril de 2018

Futebol de praia


Não é fácil passar na Praia da Rocha, aquilo é toalhas e pernas por todo o lado. Falo por experiência própria, embora há anos que lá não ponha os pés. Ainda pensei em fazer praia no estádio do Algarve, à imagem de muita malta ali da zona do Estoril ou de Olhão, mas não foi possível.

Os comentadores entraram contrafeitos e com alguma azia (por razões óbvias situadas bem a norte da Praia da Rocha, mais concretamente num resort da 2ª circular em Lisboa), e pior ficaram logo aos seis ou sete minutos, ainda os vendedores pregavam as famosas bolinhas: Bas Dost estendeu a toalha (não é a à toa que ele quer ter uma casa por cá) e Bruno Fernandes deitou-se com prazer. Ainda não chovia e a areia estava quentinha. Um golo pode aquecer a alma de um homem. Comi o resto do peixe frito com arroz de cenoura sossegado.  

Bebericava um último gole de um branco seco de trazer por casa, quando os da Praia de Rocha se decidiram fazer ao mar. Ao Petrovic, homem de raiz continental e habituado a outras paragens, ainda percebemos o desconhecimento das vicissitudes da bola na areia da praia, mas ao Coentrão das Caxinas percebe-se menos aquele desleixo intuitivo. JJ no final falou apenas de Petrovic, embora este tenha servido, e bem, muitas vezes de nadador salvador. Podíamos ir ao bar descansar a ganhar dois ou três a zero, fomos empatados. Para dar mais pica à segunda parte.

No segundo tempo o tema passou a ser Nakajima. Os comentadores tinham que se agarrar a uma qualquer liana. Os jogadores do Sporting acharam estranho a presença de lianas numa praia, ainda por cima com chuva. O Bruno Fernandes decidiu enganar os adversários falhando alguns passes, sendo imediatamente copiado por vários companheiros de equipa. Jesus decidiu intervir dizendo que a ideia de falharem os passes era dele e não do Bruno, incentivando ainda mais os jogadores nesse sentido, sendo copiado pelo treinador adversário que imediatamente ordenou que os da Praia da Rocha também falhassem passes. Depois o Bruno Fernandes simulou estar cansado e já sabemos que por todos foi copiado.

Ninguém gosta de estar na praia à chuva, vai daí, o Bruno Fernandes decidiu sair da letargia e acabar com aquilo (o JJ juraria mais tarde que por ordens e determinações tácticas suas), tirando um coelho da cartola a uns bons trinta metros. Um coelho saído de uma cartola na praia era bonito de se ver. Acho que o Coentrão abraçou o Bruno de … Carvalho. Ou se calhar o Bruno de Carvalho é que abraçou o Coentrão. Os comentadores já não comentavam. Era demais para eles.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Voleibol do Sporting: o primo e o amigo que também são meus (*)

Há uns anos, no início do semestre, recebi email de um aluno, o Tomás Albuquerque, pedindo-me para o dispensar das aulas, dado que se sobrepunham aos treinos de andebol do ABC. Percebi de imediato a importância relativa, respondendo-lhe que também preferia os treinos do ABC às minhas aulas. Não me lembro de o ver numa única aula, nem no exame ou na apresentação do trabalho final; não me recordo sequer da classificação final (verifiquei agora que obteve 14 valores). Cada vez que o vejo jogar no ABC sinto um enorme orgulho, “ele foi meu aluno”, digo para mim mesmo ou para quem esteja por perto. Há dias, uma colega, mãe do Hugo Rocha, que também joga no ABC, falou-me dele. Respondi-lhe de imediato: “conheço-o muito bem, foi meu aluno!”. Esta identificação não se explica. A única explicação possível seria a de que ao dispensá-lo das aulas, permitindo-lhe treinar mais e melhor, teria contribuído para que fosse melhor jogador de andebol, mas isso não me devia orgulhar, muito pelo contrário.

Esta época o voleibol regressou ao Sporting. Do nada, arranjámos uma equipa. Admiti que nos limitássemos a distribuir umas camisolas ao jogadores do Sporting de Espinho da época passada e a transportá-los fim-de-semana sim, fim-de-semana não, ao Pavilhão João Rocha para fazerem uns jogos. Comecei a ler notícias das contratações e fui ficando hesitantemente esperançado, eram grandes jogadores mas parecia que se estava a contruir uma clínica geriátrica e não uma equipa de voleibol capaz de disputar o título com o Benfica.

Entretanto, a Teresa, uma amiga, informou-me que o filho de uma prima, o Afonso Reis, tinha decido aceitar o convite para jogar no Sporting e, para que isso fosse possível, tinha-se matriculado na Universidade do Porto. Não me pareceu propriamente entusiasmada. Disse-lhe que qualquer uma das escolhas seria perfeita e em conjunto revelavam superior inteligência, explicando-lhe que, para mim, o meu clube é o melhor do Mundo, jogando com o Miguel Maia, tinha a melhor equipa de voleibol do Mundo e a universidade onde sou professor é a melhor do Mundo também (até por esse facto).

O Paulo, outro amigo e colega (de Espinho), com quem almoço praticamente todos os dias, informou-me que um grande amigo dele, o Hugo Ribeiro, iria jogar para o Sporting. Brincámos com a sua idade (40 anos), uma boa idade para se ter juízo, porque os joelhos não aguentam o jogo de líbero.

Fui vendo um ou outro jogo do Sporting. Nem sempre os vi. Lembro-me de ter visto o Afonso num dos últimos jogos da fase regular e de ter ficado orgulhoso pelos elogios do comentador, afirmando que era um das grandes promessas do voleibol nacional (acabou de ser convocado para a Seleção Nacional). No último fim-de-semana vi o Hugo nos dois jogos contra o Benfica. Quando acabou o primeiro, telefonei ao Paulo para lhe dizer que nunca tinha visto nada assim, um jogador que aos quarenta anos nunca dava um lance por perdido e passava o jogo todo a atirar-se para o chão como se não houvesse amanhã. Quando acabou o segundo estava exausto, jogar pela televisão cerca de três horas não é para meninos, e só tive forças para mandar um SMS a dizer: “A velhice de Espinho não dá hipóteses!”. Nunca mais me vou esquecer da bola que o Hugo sacou no último “set” que podia dar o 9-5 para o Benfica. Foi a partir dessa bola impossível que virámos o “set” e ganhámos o jogo. Daria de bom gosto muito do que fiz na vida em troca para um dia mostrar o vídeo do lance à minha filha ou a um(a) neto(a) que hei de ter.

Embora não os conhecendo, o Hugo e o Afonso passaram a ser meus. No fundo, no fundo queria que perdessem o próximo jogo contra o Benfica, ganhando a negra no Pavilhão João Rocha no dia dos meus anos, para que em êxtase com os adeptos e o orgulho melancólico dos velhos pudesse dizer: “O Hugo e o Afonso ganharam! O Sporting é campeão!”

(Fotos simpaticamente cedidas pela Teresa e pelo Paulo 
para que pudesse escrever este “post”)


(*) "Breaking news": O Hugo mandou-me uma mensagem a dizer que, se tiver de ser, não se importa de me dar a prenda no dia de anos, mas que prefere dar-ma antecipadamente este fim-de-semana. Respondo-lhe na mesma moeda: tem de ser e que seja já este fim-de-semana. Boa sorte Hugo!  

terça-feira, 24 de abril de 2018

Vizinhos e conhecidos

Houve um tempo em que acreditava na capacidade de transformação económica e social das ideias que tinha e ensinava ou aplicava no meu trabalho. Escrevi-as abundantemente. Eram boas e originais, só que as boas não eram originais e as originais não eram boas ou, pelo menos, não tinham encontrado o seu tempo. Continuo a escrevê-las por dever de ofício – é para isso que me pagam – mas a crença foi há muito.

Escrever sobre o Sporting e sobre futebol foi a sublimação possível, porque o jeito não dava para mais. Ao escrever, vamos encontrando vizinhos e conhecidos na blogosfera sportinguistas que também têm outras preocupações parecidas com as nossas. De repente, sem nunca nos vermos parecemos pelos menos conhecidos de há muito. Foi o caso do Pedro Correia e do És a Nossa Fé. Convidou-me para escrever no Delito de Opinião. O texto está aqui e ficam os meus agradecimentos ao Pedro Correia pelo amável convite.

Este blogue é sobre futebol e esta é a exceção que confirma a regra, esperando que com este devaneio não passe para a lista dos sportingados ou lá o que é.

domingo, 22 de abril de 2018

O Natal dos hospitais

Nos jogos do Sporting pouco interessa saber quem marca, dado que é quase certo que seja o Bas Dost, mas quem primeiro se lesiona ou dá o berro. Tinha metido as fichas todas no Acuña. A entrada assassina de um defesa do Boavista transformou uma probabilidade numa certeza. Como não tinha apostado nada no Varíssimo não fiquei despontado por não ter mostrado o vermelho. Ao intervalo, os exercícios de aquecimento do Petrovic pareciam dar-me razão. Na minha cabeça, era a substituição esperada, passando como sempre o Bryan Ruiz para o lado esquerdo. Afinal a primeira baixa foi a do Mathieu. Não me lembrei que o Jorge Jesus andava a treinar o Petrovic a jogar a central.

Com o Petrovic na defesa, o Jorge Jesus, mandou baixar as tropas proibindo terminantemente o Ristovski de voltar a atacar. O Acuña e o Fábio Coentrão iam olhando um para o outro para ver quem caía primeiro na esperança de ser substituído. O Acuña caiu primeiro, mas mesmo assim obrigaram-no a voltar a entrar em campo até se confirmar o óbito pelo Delegado de Saúde. O Misic entrou para o substituir com aquela cara que põe sempre de quem gosta imenso de participar e de jogar com os outros. O Fábio Coentrão só muito depois é que soçobrou, sendo substituído pelo menos que assim-assim Lumor, tendo ficado irritado logo depois pela sua (dele) irreverência ao procurar fazer um lançamento lateral sem demorar os habituais dois minutos e trinta e quatro segundos.

Estava-me a preparar para acabar este “post” quando percebi que não tinha falado do jogo, daquele que se joga com a bola, procurando metê-la na baliza do adversário. É verdade que o Boavista não fez um remate à nossa baliza mas a nossa equipa ainda a tentou meter, metendo-a mesmo uma vez. O “penalty” foi evidente, mas o Varíssimo não viu nada, tendo-nos valido a dobra do verdadeiro vídeo-árbitro. Para a situação ser mais caricata, o Varíssimo ainda mostrou amarelo ao Bryan Ruiz na sequência do lance, dado que só meia-hora depois da manchete do jogador do Boavista e de ter visto e revisto na televisão o lance é que decidiu marcar “penalty”. Em Belém tinha sido o Bas Dost a apanhar com a fava. Hoje foi o Bryan Ruiz. Não sei por que carga de água é que só connosco as leis do jogo se aplicam desta forma que ninguém entende.

Estava-me também a esquecer que o Bruno Fernandes enfiou uma coxinha absolutamente notável a um jogador do Boavista que ficou a esbracejar, tentando agarrá-lo (sem sucesso) para manter a compostura e a dignidade que lhe são devidas. O que fez o Bruno Fernandes não se faz, é contra as Convenções de Genebra e viola grosseiramente a Declaração Universal dos Direitos Humanos. No final do jogo, assistiu-se uma conversa entre esse jogador e o Jorge Jesus, onde se discutiu eventual julgamento e correspondentes sanções. Espera-se que a Comissão de Disciplina não se encha de brios como de costume e tudo se resolva com um passou-bem bem dado.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Campeões mimados

Algo mudou e não o sei explicar. Não entrámos mal no jogo, mas aos dez minutos o Porto controlava. Jogava-se no nosso meio-campo e não nos parecia possível chegar à frente para criar perigo. O Porto trocava a bola como queria e, quando a perdia, pressionava de imediato os nossos jogadores até a recuperar. Parecia uma repetição dos filmes dos jogos contra o Porto que assistimos esta época. Só que a contundência não era a mesma e parecia que a forma como decorria o jogo era mais permitida do que conquistada. Não sei se é assim ou se, como os jogadores, também começo a acreditar no Jorge Jesus e na sua ideia de jogo ou lá o que é.

Na segunda parte, o jogo começou mais repartido. Começava a perceber-se que alguma coisa estava a mudar e algo se preparava para acontecer. A saída do Piccini e a entrada do Ristovski assinalaram definitivamente o “turnover”. Na lateral direita entrou um ciclista que nunca mais parou e que deixou a cabeça do Brahimi em água e sem possibilidades de se chegar à frente e criar perigo. Quando entrou o Montero e recuou o Bruno Fernandes, o cerco ficou definitivamente montado. O Battaglia ficou sozinho a marcar os três jogadores do meio-campo e o Coates um dos Abomináveis Homens das Neves que o Sérgio Conceição costuma colocar no ataque (foi o Soares primeiro e o Aboubakar depois).

Finalmente, os jogadores tinham ordens para atacar a toda a sela. O Ristovski fez mais uma corrida endiabrada pelo lado direito e o Marcano cortou em desespero para canto. O Bruno Fernandes marcou-o como de costume para a molhada que se concentra na zona de “penalty”, onde estavam os dois monstros do jogo de hoje: Battaglia e Coates. A bola respingou para a frente e o Marcano, em pânico, tentou cortar com o pé que estava mais à mão, enfiando uma rosca na bola que veio direitinha para o Coates fuzilar para o lado direito, contrariando as indicações do “Bardo” (de) Carvalho.

O Jorge Sousa reagiu de imediato. O Battaglia recuperou uma bola e quando se preparava para cavalgar para a área foi inventada uma falta. Logo a seguir, o Herrera entra de pé-em-riste sobre o Gelson Martins e recupera a bola sem que lhe fosse marcada falta. O Porto empurrado reagiu como pôde, estando perto de marcar num cabeceamento na sequência de um canto que foi à trave. O Jorge Jesus mandou acalmar as tropas e preparou o prolongamento.

O prolongamento continuou a ser todo do Sporting, especialmente na primeira parte. Esperava-se o golo a qualquer momento. O Gelson Martins isolado do lado direito esqueceu-se do que aprendeu com o Bas Dost no jogo contra o Belenenses e voltou a fechar os olhos e a rematar de qualquer maneira e sem direção. O Montero procurou dominar uma bola na pequena área quando o mais fácil seria rematar de primeira. O Bruno Fernandes fez uma revienga no lado direito, entortou um defesa, atrapalhou-se com ele e com a bola e acabou por fazer um passe ao Casillas. O Jorge Sousa continuava a ajudar o Porto a respirar e a queimar tempo. Foi comovente a atenção dispensada ao Maxi Pereira, permitindo que lhe fosse estancada uma ferida no couro cabeludo em pleno relvado e evitando que o Porto jogasse alguns minutos com dez. As forças foram-se esvaindo até se chegar aos “penalties”.

Nos “penalties” fomos competentes mesmo por quem menos ser esperava. Esperava-se essa competência do Bruno Fernandes, do Bryan Ruiz e do Mathieu. Quando o Coates se dirigiu para a marca de “penalty” e ajeitou a bola, o coração tremeu. Mas desde que falhou uma vez nunca mais hesitou: voltou a apontar a um canto e a disparar sem hipóteses de defesa. Faltava o enigmático e imprevisível Montero. Quando se olha para o rosto nunca se percebe se está à rasca ou confiante. Quando parte para a bola espera-se tudo: um disparate qualquer ou a frieza de um veterano. A bola entrou e as mãos desataram-me a tremer e só pararam passado duas horas para fazer este escrito.

Quando o Jorge Jesus falou do “joguinho” do fim-de-semana passada do Porto não quis desvalorizar o adversário e o resultado contra o Benfica. O que quis dizer ao Sérgio Conceição é que se preparasse para um jogo a sério, contra uma equipa a sério, num estádio a sério com adeptos e claques a sério. Num país a sério e num campeonato sério estas seriam as duas únicas equipas a disputar o título. São as melhores a léguas de distância de todas as outras. Os campeões, os verdadeiros campeões veem-se nestes jogos em que as equipas se olham nos olhos e ganha quem tem mais coração. Hoje fomos campeões.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Manter amarrado e amordaçado o nosso Assurancetourix do Facebook

“O que hoje é verdade amanhã é mentira e vice-versa”. Esta frase de Pimenta Machado, ex-Presidente do Vitória de Guimarães, está para o futebol português como o “cogito, ergo sum” de Descartes para a filosofia. O Rui Vitória passou de um azougado piloto de Ferraris para um acagaçado incapaz de conduzir uma caranguejola. O Jorge Jesus passou de um egomaníaco para um líder da sua equipa e principal defensor dos seus jogadores. A pressão passou de um lado da segunda circular para o outro em menos de um fósforo.

A participação do Sporting e do Benfica na Liga dos Campeões é crítica. O “derby” dos “derbies” deverá decidir essa participação. Sem ela vem a crise e a instabilidade. É obrigatório ganhar esse “derby”, nem que seja preciso morrer em campo. Ninguém perdoará aos jogadores e ao Jorge Jesus outro resultado. Até lá, é preciso ganhar os dois jogos que faltam e, como se tem visto, isso não é nada fácil; isso e manter amarrado e amordaçado o nosso Assurancetourix do Facebook, dispensando-se também a continuação do desfile da brigada do reumático do costume pelas televisões.

(Fotografia encontrada aqui)

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Um jogo do Var(alho) na SporTv

Entrámos a dormir. Foi assim que nos encontraram os jogadores do Belenenses na primeira vez que atacaram. O Rui Patrício acordou sobressaltado mas ainda a tempo de fazer a primeira defesa. A bola fez um balão e a falta de jeito de um jogador do Belenenses só lhe permitiu enfiar uma carecada que o Coates limpou com facilidade. Entretanto, o Rui Patrício tinha procurado recuperar a bola, tendo dado um encontrão no avançado depois da (dita) carecada. O Rui Pedro Rocha da SporTV viu tudo, inclusivamente uma chapada, e exultou quando o vídeo-árbitro e o árbitro lhe deram razão.

Não sei se pelo golo, pelo árbitro, pelo vídeo-árbitro ou pelo histérico Rui Pedro Rocha, acordámos. O Bryan Ruiz se não estava acordado, acordou quando ganhou um segundo ressalto com a cara, permitindo ao Bruno Fernandes um passe extraordinário de trinta metros que isolou o Bas Dost para marcar um “penalty” em corrida, uma das suas especialidades. Completamente desperto, o Bryan Ruiz marcou rapidamente uma falta, passando-a para o inevitável Bruno Fernandes que fez o mesmo que tinha feito no golo anterior, permitindo ao Gelson Martins fazer o mesmo que o Bas Dost, depois de ter visto como se fazia. Em dez minutos, fizemos a remontada que não tínhamos conseguido contra o Atlético de Madrid durante o jogo todo. A acabar a primeira parte, o Ristovski fez tabelar a bola no cocuruto da cabeça de um defesa do Belenenses para isolar o Acuña que, com o pé que tinha mais à mão, rematou à meia volta para fazer o terceiro golo. O Rui Pedro Rocha voltou a ver tudo e ficou imensamente frustrado por o árbitro e o vídeo-árbitro não lhe terem dado razão desta vez, lamentando-se o resto do jogo como um disco riscado.

Entrámos na segunda parte para controlar o ritmo de jogo, como se costuma dizer em linguagem técnica quando se pretende adormecer o adversário. Como sempre nos acontece, não o adormecemos e acabámos por nos adormecermos. O lateral esquerdo do Belenenses encontrou literalmente a dormir o Ristovski e o Coates, permitindo-lhe entrar na área à vontade e passar a bola para um seu colega fuzilar o Rui Patrício. O jogo estava em aberto, dizia o Rui Pedro Rocha. A nossa defesa fez-lhe a vontade e não se limitou a abrir-se, resolvendo escancarar-se numa biqueirada para as suas costas pela enésima vez, acabando o Acuña por fazer “penalty”. O Rui Pedro Rocha viu tudo e voltou a exultar quando o árbitro e o vídeo-árbitro lhe deram razão. O jogador do Belenenses foi marcá-lo com cara de quem ia para o cadafalso, mas acabou em desespero por conseguir bater o Rui Patrício.

O jogo voltava ao princípio e no princípio era o verbo (apitar). Na sequência de um canto, o Yebda tentou com o cotovelo arrancar os queixos do Bas Dost. Só após o comentador ter sido conclusivo na análise do lance, o Rui Pedro Rocha a contragosto acabou por ver também e não exultou quando o árbitro e o vídeo-árbitro lhe deram razão. O Bruno Paixão não deixou que o Bas Dost marcasse o “penalty” depois de receber assistência médica. É verdade que o Jonas não joga há dois jogos, mas parece excesso de zelo. O Bruno Fernandes aproveitou para molhar a sopa com a paradinha do costume. Logo a seguir, o Bas Dost foi agarrado na área na sequência de outro canto e o Rui Pedro Rocha não viu grande coisa e o árbitro e o vídeo-árbitro também não. Ainda marcámos o quinto golo, mas o Rui Pedro Rocha viu o fora-de-jogo e exultou mais uma vez quando não só lhe deram razão o árbitro e o vídeo-árbitro como o bandeirinha. Entretanto, o Jorge Jesus resolveu meter trancas-à-porta com a entrada do Lumor e do Petrovic, sofrendo-se a bom sofrer até ao último minuto.

Acabado o jogo, o Rui Pedro Rocha continuou desolado por o árbitro e o vídeo-árbitro não lhe terem dado razão no terceiro golo do Sporting. Depois de termos visto durante o jogo trezentas e quatro vezes a repetição do lance desse golo, voltámos a vê-lo, sem que uma palavra ou imagem lembrasse o quarto “penalty” que ficou por assinalar. O vídeo-árbitro ajuda os árbitros, mas o Rui Pedro Rocha ajuda mais, situação que merece reflexão pelos entendidos destas coisas. Espera-se que o Bruno de Carvalho aproveite o Facebook, o WhatsApp ou o Twiter para o mandar para o Var(alho), poupando-nos e aos jogadores desta vez.

domingo, 15 de abril de 2018

Varalho

(estou a escrever no intervalo para não atrapalhar depois)

Varalho é um termo que inventei hoje. 
É uma interjeição futebolística de grande utilidade e fácil de utilizar, por exemplo «este árbitro é um grande varalho!» ou, mais nortenha, «ide para o varalho». 
Julgo ser importante aumentar o nosso léxico e actualizá-lo face às novas tecnologias. 
Bom resto de jogo...meus varalhos! (desculpem, não resisti)

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Joguei com eles noventa minutos

Ajudei o Coates a meter o Diego Costa no bolso. Estive em todo o lado com o Battaglia, engolindo o meio-campo. Acelerei vezes sem conta com o Ristovski, esperando receber a bola embalado quando o jogo virasse de flanco. Mantive nervos de aços é pés de veludo com o Petrovic. Vim dentro, fui para fora, recuei para ajudar o Ristovski, estiquei o jogo com o Gelson Martins. Disse ao ouvido do André Pinto para nada recear que este era o jogo dele. Fechei a sete-chaves o lado esquerdo e subi, subi sempre pelo flanco com o Acuña. Ajudei o Bruno Fernandes a ver onde estavam as oportunidades. Fiz a mancha uma e outra vez aos pés do Griezman com o Rui Patrício. Estiquei-me todo com o Montero para meter a bola dentro da baliza. Saí do campo por momentos para gritar com o Jorge Jesus para o Coates avançar. Voltei para dentro para tentar ajudar o Doumbia a dominar a última bola que ressaltou na área.

Soou o apito final do árbitro. Caí para o lado, exausto e com a sensação que Mundo tinha acabado e que não tinha feito tudo para o salvar. A boca ainda me sabia a sangue. Olhei em volta, todos se levantavam para fazer o “haka viking” com os adeptos. De repente fiquei baralhado, não sabia se estava dentro ou fora de campo. Parecia estar fora, mas era capaz de jurar que estive dentro durante noventa minutos.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Revista à portuguesa


Toda a gente sabe que a cultura europeia tem uma origem greco-latina, a cujo berço, a Grécia, somos todos devedores. Recentemente, o presidente de um clube grego (PAOK de Salónica) interrompeu um jogo (no seu estádio) armado de fusca, ameaçando a equipa de arbitragem, clamando por justiça. Na capital, Atenas, mais concretamente no Pireu, mora o eterno campeão Olimpiakos. O seu presidente, descontente com os resultados da equipa (terceiro a nove pontos do AEK), decidiu multar o plantel em 400.000 Euros, enviando-o de férias antecipadas. A equipa jogará o resto da temporada com os putos. Ali perto, na sede do Panathinaikos, optou-se por uma solução menos original: os jogadores encontram-se de greve por (supostamente) não receberem quaisquer honorários desde Outubro de 2017. Poderíamos continuar com outros bons exemplos de gestão futeboleira, na Itália, por exemplo, ou na Roménia, ou até na Bulgária, mas aqui já estaríamos (embora não totalmente) a afastarmo-nos da matriz greco-latina
.
São laços invisíveis os que nos unem a estes (e outros países), embora no nosso caso, a matriz dos (supostamente) brandos costumes, nos obrigue a um certo jogo de cintura, de aparências, de conluios, sacos com cores e outras criatividades (não apenas as contabilísticas). Não basta (nem interessa) ser mas parecer a mulher de César. Assim sendo, não percebendo (nem desculpando) a desmesura e o despropósito de certos comportamentos (e atitudes) do presidente do Sporting, também não percebo a indignação e o clamor de alguns (falsos) moralistas, sem memória recente e passada. As equipas de Hóquei e Andebol foram igualmente “atacadas” e, não só lideram os respectivos campeonatos, como não reagiram como coitadinhos ou vítimas. E, mais importante, pouco se falou do assunto. 

Mas existem coisas que nem eu, com a minha vaga ideia do que se passa (vejam só), consigo entender. Desde logo, nunca consegui perceber como se lidera (qualquer coisa) com farpas nas redes sociais. Não existem sítios adequados em Alvalade para dar umas farpas? Pois, construam-se alguns, como se fez (e bem com o pavilhão). Para quê agendar assembleias gerais (no início do ano) e plebiscitos logo a seguir? Ainda por cima com a equipa nos primeiros lugares e o processo e-toupeira (já para não falar dos emails) na berra. Qual terá sido a intenção: desviar atenções da crise do Benfica? Semear a discórdia em vésperas de jogos importantes (na altura ainda íamos ao Porto, por exemplo)? Pois olhem que parece isso mesmo
.
Posteriormente, numa altura em que a equipa (e o clube) precisa(va) de se concentrar nas competições que restam, após uma derrota do Porto com o Belenenses (que logo ficou esquecida), após um jogo (fraco) com o Atlético de Madrid (equipa que foi empatar a seguir com o Real Madrid e está 4 pontos à sua frente), com investigações e processos ao rival do lado, qual será afinal a intenção de tudo isto? Haverá alguma? Temo que, desta vez, a estratégia não seja possível de descortinar nem nos nossos devaneios mais irónicos.

Enquanto os nossos adversários se deliciam com esta revista à portuguesa, alguns dos roedores habituais já começaram a abandonar o navio, ou a mudar de embarcação. Nada de novo. Cheira-me que em vez de a caminho de um pacemaker caminhámos para uma cova. E bem funda. Não há palco como este, pois não?

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Tão grandes que somos os maiores

Hoje, no trabalho, tive duas conversas muito interessantes com um portista e com um benfiquista.

O portista queixava-se do “penalty” inventado a favor do Benfica e do jogador que tinha efetuado a (suposta) falta, aparentemente ainda tem os salários pagos pelo Benfica apesar de ser jogador do Setúbal. Queixava-se deste roubo, mas queixava-se sobretudo de ninguém falar dele e do clássico do próximo fim-de-semana. Disse-lhe que quando o tema é o Sporting não há espaço para mais nenhum clube. Os “media” só noticiam o que é importante e se não noticiam é por que não é importante. Também me espantava como é que sempre nos quiseram ganhar fora das quatro linhas, para acabarem a queixar-se de ganharmos o campeonato que se joga fora das quatro linhas e que é o campeonato preferido dos portugueses.

O benfiquista procurou compreender o meu estado de espírito recorrendo à sua experiência. Disse-me que também sofreram com as vigarices do Vale e Azevedo, o alegado alcoolismo do Jorge de Brito e do Manuel Vilarinho e a capela da mulher do Manuel Damásio. Só depois de passarem por estas agruras é que, finalmente, tinham alguém a fazer um bom trabalho. Disse-lhe que não era trabalho, era trabalhinho. O trabalhinho até já tinha dado tantos nomes de código à Polícia Judiciária como os que recorreu o George Smiley em toda a sua vida (para quem não leu, recomenda-se “A Toupeira” de John le Carré). No Sporting não esperamos que a justiça condene (ou não) o trabalhinho, bastam uns “posts” mal-amanhados no Facebook e são postos a andar.

A teoria do caos e a vitória contra o Paços de Ferreira

Há fenómenos difíceis de explicar e por isso é que são fenómenos, pelo menos num primeiro momento. Por exemplo, é difícil compreender como é que um simples bater de asas de uma borboleta no Japão pode originar um tufão nos Estado Unidos. Mas até o caos tem uma teoria que o explica, transformando-o em algo que se pode entender, desde que se conheça o início e o fim de tudo. No início foi o Facebook; no fim a vitória por dois a a zero contra o Paços de Ferreira. Sabendo isto, a sucessão de acontecimentos obedece a uma ordem, a uma teoria, que não determina o caos mas que o explica.

O Coates não se desconcentrou e o Mathieu também não. O Coentrão não jogou para não levar amarelo. O Bas Dost jogou mas não fez falta nenhuma, embora se não tivesse aparecido no primeiro golo tivéssemos sentido a sua falta. O Gelson não entortou o corpo e nem sequer rematou, com medo de rematar para a direita. O Bryan Ruiz só rematou uma vez e fuzilou de imediato para a esquerda. Nos minutos finais, apesar de estarmos a jogar contra dez e contra um guarda-redes improvisado, não atacámos para o Montero não falhar nenhum golo de baliza aberta. Mancomunado com outros jogadores e os adeptos, o Rui Patrício bloqueou todos os remates e cruzamentos do Paços de Ferreira, manipulando a equipa no seu conjunto. Por uma vez, o Jorge Jesus não falou só dele e defendeu igualmente os seus jogadores.

Assobios? O mais possível. Meninos mimados? Sempre que necessário? Insultos? Insultos é que não. É necessário voltar de imediato ao Facebook. Só com nova teoria do caos somos capazes de passar a eliminatória contra o Atlético de Madrid na próxima quinta-feira e não há tempo a perder se pretendermos que os acontecimentos se sucedam de forma adequada a esse resultado.