quarta-feira, 29 de junho de 2016

Laissez-faire

Já tinha partilhado anteriormente que a minha esotérica explicação para o golo de Portugal contra a Croácia assenta na teoria da mão invisível de Adam Smith, por ser um daqueles casos em que três jogadores, agindo no seu puro interesse individual acabaram por fazer o que era melhor para o coletivo.

Nani não estava numa boa posição para rematar, no entanto o que ele queria mesmo era marcar um golo. Como tal em vez de centrar mandou uma biqueirada na bola que foi parar redondinha aos pés do Ronaldo.
Este já sabemos, também age sempre no seu próprio interesse: apesar da melhor posição de Quaresma, Ronaldo não quer um lugar na história como rei das assistências e rematou à baliza. Perante a intervenção da mão bem visível do GR Croata a bola lá foi, não para o fundo das redes mas para a cabeça dum Quaresma que... simplesmente não devia estar ali.
Sendo o extremo de serviço Quaresma depois de recuperar a bola junto à linha devia ter-se mantido por lá, a dar "profundidade" ao ataque e nunca se deveria enfiar no meio dos colegas. Acontece que Quaresma queria mesmo era marcar, e disciplina táctica não é com ele; uma mão invisível empurrou-o para o lugar do ponta de lança que Santos teima em não usar.
Resultado final: uma batata lá dentro, exactamente o que era melhor para o colectivo.

Não sei se o caso é replicável. O que sei é que o Fernando Santos tem vindo a conseguir o feito notável de ter todos os seus jogadores com um desempenho no Euro abaixo do que eles conseguem nos seus clubes. Será que quando assim é podemos concluir que seria mais eficiente o Fernando Santos não fazer nada? Não sei, mas eu arriscava ver o resultado e por isso o meu desejo para amanhã é que o Fernando Santos adopte um modelo laissez-faire, que em futebol se deve traduzir num "deixa mas é os homens jogar à bola".

domingo, 26 de junho de 2016

O autocarro

Se o jogo fosse para o campeonato nacional, diríamos que a Selecção estacionou um autocarro à frente da baliza. Foi um autocarro com vários andares ou camadas, tal era a vontade de condicionar o jogo da Croácia em todos os momentos e em todos os locais do campo.

O Adrien entrou para condicionar o Modric e empurrar o jogo da Croácia para as laterais, onde se verificava um completo congestionamento face à concentração de jogadores da Selecção, que defendiam com dois laterais de cada lado. A bola não podia entrar pelo meio e, para além do Adrien andar atrás do Modric, o William Carvalho tinha a função de não deixar o Rakitic tocar na bola. Os laterais só tinham como função defender o melhor que podiam e sabiam. O João Mário e o André Gomes tinham de fechar as laterais. O Nani e o Ronaldo ficavam para uma bola que lhes chegasse aos trambolhões, tendo-se deslocado o Nani para fechar um das laterais numa fase mais adiantada do jogo. O Pepe e o Fonte eram os feios, porcos e maus, que tinham que arreganhar os dentes a qualquer avançado que pretendesse disputar uma bola na área. O Patrício ficava para os pontapés de baliza e para fazer outros chutões para frente quando lhe atrasassem a bola.

Não se pode analisar o desempenho dos jogadores sem se compreender o que lhes foi pedido. Foi-lhes pedido que condicionassem o jogo da Croácia e eliminassem os seus principais jogadores. As substituições de forma directa ou indirecta também foram determinadas por esse objectivo. Foi o que os jogadores fizeram. Não sou capaz de destacar nenhum. Todos fizeram bem o que lhes foi pedido.

O golo da Selecção nasce de um roubo de bola do Quaresma e de um excelente passe do Ronaldo para o Sanches. A partir daí, uma série de equívocos e disparates permitiu uma combinação có(s)mica que fez a bola entrar. O Sanches arranca com a bola cheio de força e velocidade e com a cabeça plena de hesitações. À conta de tanto hesitar, em vez de passar a bola em dado momento acaba por a levar até aos pés do Nani, que já estava parado e sem espaço para fazer nada. O Nani enfia uma biqueirada na bola para se ver livre dela. A bola ganha vida própria e vai ter com o Ronaldo que, em vez de a passar ao Quaresma, remata para boa defesa do guarda-redes. A bola volta a ganhar vida própria e vai ter com o Quaresma para a empurrar de cabeça para a baliza.

Tentar a partir deste lance e do resultado analisar os jogadores e a nossa Selecção é um disparate. Este lance revela, apesar de tudo, a crença dos nossos jogadores. O Sanches, o Nani, o Quaresma e o Ronaldo acreditaram que aquele podia ser o momento do jogo que tanto esperavam. De outra forma, quase aos 120 minutos, ninguém está disponível para semelhantes correrias.

Aparentemente, o Fernando Santos jogou com a sorte e ganhou. Um jogo empatado pode cair sempre para um dos lados. Pode ser através de uma trapalhada, como no nosso golo, ou através dos penalties. Admitindo que se continua a jogar para ao empate, condicionando exclusivamente o jogo do adversário, as probabilidades de se ganhar o Europeu são reduzidas. As probabilidades não são 50% para cada lado em cada jogo. Quem joga mais próximo da baliza do adversário tem mais probabilidades de ter sorte. A não ser que não se trate de uma questão de sorte mas de uma questão de fé. É que a fé também move montanhas.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Exactamente aquilo que se esperava

Como Sportinguista estou sempre pronto para que as coisas acabem por ser piores do que alguma vez se esperava. Pelo que vejo escrito neste blogue e nas caixas de comentários talvez não seja o único. Mas desta vez estava claramente enganado: o desempenho da selecção não está a ser pior do que se esperava, mas sim exactamente o que se esperava.

Comecemos pela parte mais subjetiva: as exibições. Como qualquer equipa de Fernando Santos os jogadores sofrem em campo. A todo o grande plano vemos olhares desesperados de quem não sabe muito bem o que está ali a fazer. A cada conversa entre jogadores percebemos que também nenhum sabe bem o que os outros andam ali a fazer. O resultado é um jogo conservador, individualista e sonolento. Não há surpresas neste campo.

Passemos então aos resultados. A UEFA inventou um esquema em que 2/3 dos terceiros lugares de grupos de 4 equipas passam à fase seguinte. Em futebol qualquer esquema que meta contas complicadas só pode ser feito à nossa medida, mesmo que o grupo seja o mais fácil possível. Foi isso mesmo que aconteceu.

Tentemos então perceber como nos qualificámos. Já todos sabíamos que o que faríamos no Euro dependia essencialmente de uma pessoa: Cristiano Ronaldo. Então como nos qualificámos? Se a resposta do leitor for "Cristiano Ronaldo" acertou, pois claro. No surprises.

Fernando Santos parece ter uma enorme qualidade: sorte. Muita sorte. Também aqui não houve surpresas. O emparelhamento que nos calhou para a fase do 'mata-mata' sugere que não chegar à final seria um falhanço quase tão grande como ficarmos no grupo atrás da Islândia e da Hungria. Ainda assim, sendo do Sporting, estou preparado para que as coisas corram muito pior do que se espera. Infelizmente acho que desta vez não me vou enganar.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O Ronaldo tirou-nos do buraco

A tática é a do 4x4x2, diz o Fernando Santos. Se ele o diz é porque deve ser. O que todos nós vimos contra a Hungria foi uma enorme trapalhada, com equívocos atrás de equívocos. Aliás, a trapalhada é tal que me custa criticar alguns jogadores. Muitos deles, mesmo não sendo brilhantes, estão a jogar pior do que sabem e podem. A defesa está sempre em permanente sobressalto. O meio-campo não anda nem trava ninguém. O ataque é o que sobra disto tudo e que o Nani e, especialmente, o Ronaldo vão aproveitando como podem.

O maior de todos os equívocos é o do Moutinho. Não defende, não ataca, não chega à frente, passa para o lado e para trás, isto é, não anda nem deixa andar. Mas o pior, o que releva a completa falta de noção do treinador, é continuar a vê-lo marcar cantos e livres. Irrita qualquer um. O Ronaldo às páginas tantas marcou um de forma rápida só para evitar o balão do costume para a molhada, antecedido de um olhar profundo como o de quem precisa de pensar antes de fazer e faz sempre o que pensa.

O Eliseu é mau. Todos sabíamos e, portanto, não é novidade. Dos outros tenho mais dúvidas. O André Gomes também faz que anda mas não anda. Porventura, anda na posição errada. Mas se é para andar onde anda é melhor arranjar outro que ande melhor. Este jogo era o pior para lançar o Renato Sanches. Jogo difícil, carregado de responsabilidades. Bastava falhar uma vez para se começar a enterrar. Só o vi jogar uma vez. Não tenho nenhuma opinião, nem boa, nem má. Não esteve bem, mas não foi só ele. Fez uma excelente jogada que acabou numa confusão entre o Ronaldo e o João Mário. Se a alternativa é entre ele e o Moutinho, então que jogue ele.

De repente, o Fernando Santos teve uma epifania. Ao meter o Quaresma fez deslocar o João Mário mais para o meio. O João Mário fez uma má primeira parte, mas, na segunda, até conseguiu que a equipa tivesse alguma organização. Rapidamente o Fernando Santos voltou à (a)normalidade, ao meter o Danilo e a exilá-lo novamente na ponta esquerda. Nunca mais se viu organização nenhuma.

Sem o Ronaldo tínhamos ficado por aqui. Metemo-nos dentro de um buraco três vez. Três vezes o Ronaldo nos foi de lá tirar. Primeiro, com um passe impressionante para desmarcação e remate impecável do Nani (também ajudou alguma coisa o guarda-redes adversário sofrer de ciática e de bicos de papagaio). Depois, com um golo de calcanhar, na melhor jogada do jogo, que fica para os youtube. Por fim, com uma cabeceamento que deverá passar a constar dos compêndios (também ajudou o centro tenso do Quaresmas; imagem se fosse o Moutinho centrar?!).

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A Culpa é do Ronaldo

“A Culpa é do Ronaldo” é um programa da RTP1. Vi este fim-de-semana um pouco. Não pretendo ver muito mais. Seja como for, não é pior do que os intermináveis programas com os comentadores do costume (ia dizer do regime). Dizem-se coisas mais acertadas do que nesses programas sem que as pessoas que nele participam digam o acostumado chorrilho de banalidades com ar sério e levando-se a sério. Nos tempos que correm, uma bênção portanto.

O título é excelente. Sintetiza tudo o que se possa dizer sobre a nossa Seleção. O futebol são golos. Ganha-se com golos. Não se esperam golos de quem não os marca. O Nani marcou um e, de acordo com a sua média, não marcará mais nenhum. O Quaresma só marca golos extraordinários. Contra a Estónia esgotou-os. É estatisticamente inverosímil que os volte a marcar tão cedo. O Éder ou não marca golos ou só marca golos em jogos a brincar e, em média, um por cada vinte jogos. Dos outros não se espera golo nenhum. Ninguém em seu juízo perfeito tem muita fé nos golos que o João Mário, o André Gomes, o João Moutinho, o Renato Sanches, o William Carvalho ou o Rafa vão marcar. Se no campeonato com equipas da treta vêm-se e desejam-se para os marcar, não se vê como o possam fazer em jogos a sério contra equipas a sério.

Tudo se resume ao Ronaldo. Se o Ronaldo marcar, a Seleção pode ganhar jogos e ir longe na competição. Se não marcar, não há nada a fazer. Vimos mais cedo para casa. Se viermos mais cedo para casa, “a culpa é do Ronaldo”. Não é por ser o melhor do mundo ou se considerar o melhor do mundo e não passar cavaco (e a bola, de quando em vez) aos colegas. É porque as coisas são como são.

domingo, 19 de junho de 2016

A grande ilusão

Tenho evitado escrever sobre a selecção dos possíveis seleccionáveis da equipa de futebol sénior que representa Portugal no Europeu de França. Não é fácil, atendendo às inúmeras possibilidades que o tema coloca ao dispor do nosso divertimento. Nem vale a pena assinalar o folclore forçado que assinala a partida para uma nova competição, envolto num unanimismo colado com muita saliva e à força de muito engraxamento de chuteiras. Basta olhar de fora com discernimento para perceber que tudo não passa de uma ilusão à Luís de Matos cujas vozes ficam por conta do Fernando Pereira.

Quanto ao resto, e em abono da verdade, não é fácil ganhar à selecção portuguesa, da mesma forma que não é fácil perder com a selecção portuguesa. Basta alguma organização, concentração e pernas para que vos quero, para conseguir enervar os jogadores e desmontar a estratégia portuguesa baseada no vamos assustá-los com o Ronaldo e ameaçá-los com o ai vai ele Sanches não tarda a entrar e aí é que vão ser elas.

Quando começam os jogos a bola não bate certo com a programação futeboleira televisiva nem com as elaborações dos comentadores a soldo das agências de propaganda, nem sequer com qualquer ideia que tenha hipoteticamente germinado na cabeça do Fernando Santos. Apenas as camisolas são da mesma cor, tudo o resto é feito por encomenda ou ao sabor do momento. Na dúvida passa-se ao Cristiano. O Cristiano na dúvida passa a si próprio e anda por ali a estragar talento.

Ainda ontem (dia de jogo, note-se) um dos jornais desportivos cá do burgo fazia capa com o Sr. Mendes a aconchegar o menino Cristiano, o que é bem demonstrativo da importância do senhor na causa de todos nós, e igualmente bem demonstrativo da insignificância da bola a correr à flor da relva, como diria o Gabriel Alves. No meio disto tudo faz-se uma selecção do seleccionador que (supostamente) deve seleccionar os seleccionáveis devidamente assinalados por quem de direito. Os donos disto tudo vão marcando as tendências da moda. Quem somos nós para os contestar.

Ontem podíamos (e devíamos) ter ganho. Agora vamos ganhar à Hungria no limite do fora-de-jogo. Depois que venham as grandes selecções, aquelas que atacam e nos deixam espaços, de preferência, claro, a Inglaterra. Até os comemos, vão ver.

Nota: Grande vitória, em futsal (sem espinhas), sobre um Benfica trauliteiro quanto baste. Mais um campeonato, num grande exemplo de dedicação e glória. 


O Mendes pensa, o Santos sorna e a obra tarda a nascer

Mesmo com o tão discutido 4x4x2 havia uma série de supranumerários do meio-campo na convocatória e faltavam avançados. Hoje somos surpreendidos, ou talvez não, com a presença na equipa titular do Ronaldo, do Nani e do Quaresma. A lista dos supranumerários parece que vai engrossar. A gestão dos egos e dos estatutos assim o obriga.

Jogámos melhor mesmo assim. Com o William Carvalho, o meio-campo passou a jogar à bola. Não há nada melhor do que alguém naquela posição que saiba receber a bola, passá-la, sem ser sistematicamente para o lado e para trás, e mexer-se para assegurar linhas de passe para os colegas. A essa melhoria com bola somou-se uma melhoria também na pressão sobre os adversários e, sobretudo, na defesa, com duas grandes exibições do Ricardo Carvalho e do Raphael Guerreiro, tendo o Pepe melhorado relativamente ao jogo anterior.

No ataque continua tudo na mesma. Não há fogo nas botas. Fica-se sempre à espera que o Ronaldo decida tudo. É verdade que o Ronaldo decidiu que decide tudo. Mas também é verdade que os outros só dispõem de tiros de pólvora seca. Ninguém, no seu juízo perfeito, acredita que a Selecção possa chegar longe com golos do Moutinho, do André Gomes, do João Mário, do Quaresma, do Éder ou, mesmo, do Nani (marcou um e, de acordo com a média, neste europeu a coisa deve ficar por aqui).

Dois jogos, dois empates, no grupo mais fácil deste campeonato, de um dos candidatos ao título (segundo o Santos). Voltamos a fazer contas. Desta vez são mais complexas. Se a UEFA expulsar a Rússia, a Inglaterra, a Croácia e a Hungria por mau comportamento dos adeptos, até o empate pode chegar no último jogo. Estou com grandes esperanças nesta combinação có(s)mica.

Enfim, o Mendes pensa, o Santos sorna e, bem, a obra não há maneira de nascer. Nem sequer se sabe se é exactamente assim. Fica-se na dúvida. Não se sabe se esta é a obra ou ainda vai aparecer a verdadeira. Às tantas, como sempre, as coisas são o que parecem.

terça-feira, 14 de junho de 2016

O sono comanda a vida

Não aconteceu nada que não esperássemos. Empatámos com uma espécie de Haiti do Campeonato Europeu. Um conjunto de pescadores reuniu-se e constituiu uma equipa. A Selecção foi escolhida por catálogo sem se perceber a equipa que daí iria emergir, embrulhando-se este “pim-pam-pum” numa conversa manhosa sobre um hipotético 4x4x2 que melhor partido tiraria das qualidades dos nossos jogadores.

Não há nada como os consensos antes dos jogos. Definitivamente o Danilo era melhor, muito melhor do que o William Carvalho. Dizia-se que com ele não passava nada, que de cabeça era tudo dele. Não foi inútil. Foi pior. Foi contraproducente. O homem não é um trinco. O homem é um tronco. Parado à frente dos centrais, invariavelmente lhes cortava as linhas de passe para as laterais ou, em progressão, obrigava-os a contorná-lo.

Com o golo da Islândia, entrámos em modo de desespero. Como previa, o Plano B é o do entra o “Renato aí vai ele Sanches”. Esgotado esse efeito em pouco tempo, passou-se à fase do “é melhor meter o Quaresma, pode ser que saque uma trivela” (não percebo nada disto, mas bem me parecia que a decisão de o não substituir no jogo contra a Estónia ainda ia acabar mal, dado que o rapaz não vai para novo). Para se concluir, à boa maneira de um treinador português, mete-se um ponta-de-lança para se cumprir a táctica celebrada pelo Cajuda de “meter a carne toda no assador”. Mas é preciso meter a carne. Meter os ossos não chega.

O Fernando Santos é um António Gedeão às avessas. Com ele, o sono comanda a vida. Às vezes adormece-se o adversário para o apanhar a dormir. Outras vezes, adormecemo-nos e somos apanhados a dormir.

Prognósticos antes do jogo

O Campeonato Europeu está transformado na Copa América, com inconveniente de não podermos ouvir os comentários do Dani sobre o perfume do futebol do Haiti ou da Jamaica. É apurado um sem-número de equipas para a fase final. As probabilidades de a Selecção Nacional ficar na fase de grupo são reduzidas. Sendo assim, não se vai sair mal. Também não se vai sair bem. Como de costume, vai-se sair assim-assim e no final o Ronaldo decide se fica este treinador ou se se arranja outro.

Antes de começar a bola a rolar, as expectativas sobem. Vou ouvindo aqui e ali as análises que se vão fazendo. É tudo consensual. A convocatória parece o resultado de uma votação de um qualquer “reality show”. O Fernando Santos escolheu aqueles em que os portugueses votariam se lhes dessem oportunidade para tal. O Presidente da República e o Primeiro-Ministro abençoaram-nos e, não fosse a laicidade do Estado, até o Cardeal Patriarca faria o mesmo. Em Portugal, não há margem para a dissidência. É a história da vidinha, que cada um tem de ganhar a sua.

Teria preferido uma escolha em função de um modelo de jogo e de alternativas. Temos uma série de jogadores repetidos para o meio-campo. Em contrapartida, não temos jogadores para o ataque e os que temos sofrem de gota e de outras maleitas que a idade se vai encarregando de arranjar, para além de não aguentarem um jogo todo a não ser a arrastar-se na fase final. Face a essas dificuldades, o potencialmente imprevisto passa a previsível.

O Quaresma lesionou-se. Nada de anormal. Joga o Nani. Se se lesiona o Nani ou se arrebenta, como de costume, após meia dúzia de corridas, não se sabe quem entra. O Éder não conta ou pelo menos não conta para o tal 4x4x2 sobre o qual anda toda a gente a falar mas sem ninguém perceber muito bem de que modelo de jogo se trata (o Sporting também joga em 4x4x2 e não me parece que seja a mesma coisa). O Rafa é um supranumerário. Não sendo carne nem peixe, é uma alternativa a si próprio.

 A Selecção devia ter mais um avançado, mais novo de preferência. Para entrar, substituindo uma das nossas velhas glórias ou para mexer com o jogo se fosse necessário. Para isso ou ia menos um dos jogadores de meio-campo repetidos ou ia menos uma central, sendo muito provável que nenhum deles aguente a competição até ao fim, contando-se com o Danilo para essa posição também. Pelos vistos, o Plano B para todas as situações é o Renato Sanches, seja para jogar em que posição for. Se resultou no Benfica também resulta na Selecção, deve ser o raciocínio dos comentadores que vou ouvindo e o que está na cabeça do Fernando Santos.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Voltar a dar ao gatilho

Há muito que não dava ao gatilho. Estava com saudades, confesso. Não havendo jogos do Sporting a motivação não é muita. Um jogo da Selecção ou da Copa América não é mesma coisa. Hoje, a muito custo, decidi ver o jogo da Selecção.

Não sei se no Campeonato da Europa também vamos jogar com a Estónia. Se assim for, então está tudo bem. Se assim não for, tenho mais dúvidas. É que todos os jogadores de Selecção pareciam bons. Até o Éder.

O jogo foi o Quaresma. Quaresma marca, Quaresma assiste, Quaresma finta, Quaresma centra, Quaresma de trivela, Quaresma de letra. Apesar de tudo e por muito que me custe tenho de valorizar o Fernando Santos. O Paulo Bento não o convocava porque nem sempre fazia o que lhe pediam, é imprevisível (ou maluco da cabeça, como se quiser), tinha a mania de querer resolver os jogos ou colocava em causa as primas-donas. Nunca se lembrou de analisar as suas qualidades futebolísticas e tão-só.

Finalmente consegui perceber a utilidade do Pedro Abrunhosa como compositor musical. A música e especialmente as suas letras dão uns hinos bestiais para a bola.

domingo, 5 de junho de 2016

O estado da corporação

O ABC ganhou o campeonato de Andebol. Parabéns ao ABC. No entanto, cheira-me que alguns dos seus adeptos ficariam satisfeitos fosse qual fosse o desfecho da final. Para a história fica o adiamento deste último jogo por suposto não envio de bilhetes para o Benfica. Ora esse (suposto) não envio de bilhetes já havia acontecido nas meias-finais com o Sporting sem direito a qualquer adiamento por linhas tortas (isto para não falarmos dos casos de arbitragem).

Se quisermos fazer a ponte para um jogo com patins e sticks verificamos que a polémica da cedência de bilhetes só teve eco quando foi o Sporting a (tentar) fazê-lo, como resposta, aliás, a uma acção anterior do Benfica, que se havia recusado a enviar bilhetes para Alvalade, passada completamente despercebida.

Esta semana ficamos a saber que a acção judicial imposta pelo Benfica a Jorge Jesus não passa de uma charada para entreter adeptos mais incautos. Grande parte da (eventual) prova foi sendo sacudida de notícias de jornais e de conversas de especialistas de café. Note-se que o resultado foi o pretendido: criar ruído suficiente para esconder a surpresa (?) pela saída do treinador para o Sporting, treinador esse, que tinha os dias contado na Luz, com via de marcha para o Dubai, ou coisa parecida. Resultando ainda na intoxicação da opinião pública, benfiquista e não só, coadjuvada por uma série de acções, judiciais e circenses, contra o Sporting.

Como é que tudo isto foi possível? Alguns asseguram a existência de um estado lampiânico. Creio que a resposta é mais simples, estando alicerçada na velha tradição corporativista portuguesa, tradição essa, que já teve, inclusive, estatuto legal em sede de código civil, por exemplo, durante o Estado Novo. Essa grande corporação que vem sendo urdida desde o tempo da velha senhora, foi ganhando novo élan durante a batalha da fruta cujo apito pariu um rato. Aparentemente apenas um rato, mas com consequências que se estendem até aos dias de hoje. Não é por acaso que o dragão anda com catarro, cuspindo fogo por outros locais que não o habitual.

Feito o caminho, as mãozinhas (tentáculos é só em Itália) chegam a todo o lado: jornais, televisão, quiosques, feiras do porco preto, e algumas juntas de freguesia, passando pela sede da FPF e da liga dos últimos. No meio disto tudo, vão passando despercebidos alguns pormenores, vouchers, passivo, falências técnicas. Está tudo bem: o aí vai ele Sanches fez mais uma exibição de encher o olho na selecção (o jornal a bola até considera mudar o seu nome para A Bola do Sanches) assegurando-nos mais uma vitória moral e, finalmente, o Slimani foi castigado, após ter sido vendido umas vinte vezes na última semana.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O paciente Inglês

Dizem os nossos especialistas no after-match que ontem foi um não teste. O jogo correu mal para todos e não se pode concluir nada. Discordo em absoluto. Para uma equipa que joga com Pepes, Brunos Alves e outros ontem foi um excelente teste: é altamente provável que aquele "cenário" se repita.

Assim sendo o teste correu mal. A ideia de jogar com metade dos atacantes fora da sua posição foi um desastre. A ideia de por um médio a central deu no golo da Inglaterra. Não percebo muito disto mas se convocamos um jogador porque passa um ano a jogar bem a médio não seria de depois por o rapaz a jogar a médio? Ou convocam-se médios só porque logo por azar os nossos amigos só têm médios no portfolio?

Dito isto tiro duas notas que acho objetivas:
- Com o Ronaldo tudo é possível; sem ele, nada feito.
- Os Ingleses não jogaram muito, mas foram pacientes e premiados pela paciência. Não costuma(va) ser assim.

domingo, 29 de maio de 2016

The day after


Um amigo meu, historiador e analista social nas horas vagas, costuma dizer que Portugal é um país em que, por mais que se diga o contrário, perante factos há sempre argumentos. Na bola isso é elevado a uma das belas-artes, não apenas pela clubite galopante que nos consome, mas sobretudo porque em cada um de nós habita um especialista, um treinador, um génio incompreendido que gosta de se ver ao espelho. Não faltando treinadores de bancada, abundam, isso sim, treinadores de café, snack-bar e até treinadores de vendind machines, espalhados por empresas, escolas, instituições públicas, hotéis e até casas de passe.  

Sucede que esses treinadores, outrora apenas génios solitários da bola à segunda-feira, são agora igualmente especialistas em comunicação, mind games, estruturas (não confundir com as de betão), jogos da mala, SADs e sociedades por cota, em suma, verdadeiros analistas debitando sapiência enriquecida nos novos cascos de carvalho da nossa humanidade: redes sociais, programas televisivos, jornais desportivos, blogues, entre outras formas que a (suposta) sociedade da informação nos fornece a grandes pazadas. Estes analistas juntam-se assim aos outros analistas que se reproduzem em grande escala pelas televisões e média em geral, vindos não se sabe bem de onde, criando a ilusão, aliás verdadeira, que qualquer um poderá lá chegar.

O mundo, por vezes aborrecido, do futebol dentro das quatro linhas, coisa nada rara em Portugal, foi simplesmente abolido e substituído por um gigantesco after-match, encadeando-se num contínuo pre-match, onde o futebol só a espaços consegue aparecer numa rápida transição ofensiva.

No dia seguinte ao jogo é mais fácil fazer prognósticos. O mesmo sucede no final de um campeonato. Neste último que passou o Sporting fez 86 pontos, mais do que em qualquer das vezes que foi campeão. Jorge Jesus fez mais pontos do que quando foi campeão pelo nosso rival (e foram três vezes). Não chegou. Contra estes factos teremos sempre argumentos. Um deles talvez seja aquele que nos recorda a última das definições para futebol: negócio.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Um Sporting forte, mas não muito

A hipocrisia não era completa quando os nossos adversários defendiam, há uns anos atrás, um Sporting forte. É verdade que agora que têm um Sporting a disputar o título até à última jornada não o defendem assim tanto. Mas também é verdade que, de acordo com uma notícia que acabei de ler, o nível das assistências nos estádios portugueses aumentou muito na última época, com benefícios para todos os outros clubes (especialmente para o Benfica).

O Sporting trouxe nesta última época muito mais animação ao nosso tradicionalmente entediante campeonato nacional. Pelos vistos, reflete-se nas assistências. Refletindo-se nas assistências, refletir-se-á também em todas as áreas de negócio que envolvem o futebol (media, “merchandising”, etc). Ganha o Sporting e ganham todos os outros clubes, sendo que os benefícios não são iguais para todos, tendendo a ganhar mais aqueles que têm maiores massas críticas de simpatizantes, como o Porto ou o Benfica. Por incrível que possa parecer, ganham os árbitros e tudo. É uma relação “win-win” perfeita.

Quando os analistas afirmam, por um lado, que o Sporting foi a equipa com melhor futebol e, por outro, que perdeu o campeonato devido à política de comunicação do Benfica (que, na novilíngua do futebolês nacional, quer dizer tudo e mais alguma coisa, com exceção do que se passa dentro de campo com a bola e os jogadores), algo está profundamente errado. O Sporting não existe para animar campeonatos, em particular os de comunicação. Existe para ganhar campeonatos de futebol. Dentro de campo, pode-os perder por demérito próprio ou por mérito dos adversários. Não os pode perder porque perde na comunicação ou lá o que isso é.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O meu azar é maior do que o teu

Ontem, na final da Taça de Portugal, quando se chegou à decisão por penalties, vários azares e fantasmas se confrontaram. Do lado do Braga, o azar e o fantasma da época passada. Do lado do Porto, o azar que é simultaneamente um fantasma mas com corpo e alma: José Peseiro.

A questão que os penalties iriam esclarecer era qual dos azares e dos fantasmas pesaria mais. Os sportinguistas são os adeptos no Mundo mais aptos a prever o que vai acontecer quando está em consideração o paranormal. Nós conhecemos o José Peseiro. Não nos esquecemos da final da Taça UEFA. Não nos limitámos a perder quando tínhamos todas as condições para ganhar. Perdemos por três a um, tendo sofrido o terceiro golo na sequência de uma jogada em que um remate de um jogador do Sporting fez tabelar a bola nos dois postes da baliza da equipa adversária. Ainda hoje acordo com esse pesadelo.

Não tenho dúvidas que o fantasma do ano passado pairou sobre a cabeça dos jogadores do Braga. Também não tenho dúvidas sobre o que lhes disse o Paulo Fonseca. Com o indicador a apontar para o banco de suplentes do Porto e para o José Peseiro em particular, disse-lhes: “Estão a ver o que eu vejo, não estão? É ele. Não tem nada que saber. Cada remate nosso dá golo. O Marafona e os jogadores do Porto se encarregarão de fazer o resto”.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Boas Notícias

Depois de mais uma grande tarde da nossa equipa no Domingo, nada como lembrar as coisas boas com que o fim-de-semana nos brindou:
- Ganhámos 4-0 em Braga; grande atitude dos jogadores que tornaram o que parece difícil em fácil.
- Teo a marcar à ponta-de-lança: mais uns jogos assim e acho que o empresário dele conseguia convencer a rapaziada que quer comprar o Slimani a levar antes este. Vamos ver como regressa da praia (e quando...), mas se voltar a jogar assim não estamos muito mal.
- Rui Vitória deve continuar no Benfica; pena não podermos dizer o mesmo do Lopetegui, mas o ditado diz que mais vale um pássaro na mão...
- Vítor Pereira despede-se das nomeações para jogos da liga: depois da carreira de árbitro medíocre deixa a arbitragem num pântano ainda maior do que aquele que encontrou. A missão parecia quase impossível, mas conseguiu.

Venham de lá os 23 da seleção do Fernando Santos que depois de vermos a nossa equipa jogar tanto futebol já precisamos de um pouquinho de tédio.

domingo, 15 de maio de 2016

O jogo do título

O Sporting jogava para o título “Até ao Lavar dos Cestos é Vindima”. Jogou muito bem e goleou o Braga.

Começámos por ser gamados. Um defesa do Braga quis mandar um charuto na bola e acabou a mandar um charuto no Teo. O rapaz que não podia arbitrar um certo jogo porque vendida camisolas do Sporting não marcou o devido penalty. Imagina-se que a venda de camisolas do Braga renda muito mais.

Nesta fase da época, o Teo não é menino para se ficar. Grande jogada do João Mário a desmarcar o Ruiz e este a centrar de primeira para remate indefensável do Teo. Deve ter sido a este Teo que o Jorge Jesus pediu para não se assobiar.

A malta não descansou com o golo. O título estava ali à mão de semear e não se devia perder esta oportunidade. Recuperação de bola do William Carvalho, desmarcação e falta à entrada da área. O rapaz que não vende assim tão bem as camisolas do Sporting expulsa o jogador do Braga. O Bryan Ruiz marca o livre ao ralenti em grande estilo (é por estas que apetece de vez em quando entrar no campo e dar-lhe um par de chapadas). Mas o Ruiz estava em dia sim. Inventa uma jogada pela esquerda, para o Bruno César centrar tenso para a entrada de cabeça do Slimani. O Slimani encosta para o segundo poste e aumenta o valor da transferência.

O jogo acabou. O Sporting tinha ganhado o título. O campeonato do Braga é a taça. A partir daquele momento as duas equipas entediaram-nos de morte. Ficam para memória futura os dois golos do Ruiz, mais uma vez em grande estilo: o primeiro depois de fintar o defesa com o pé esquerdo e rematar com o direito, sem antes fazer a maldade de atirar o guarda-redes ao chão para o lado contrário; o segundo na sequência de uma tabela (improvável) de cabeça com o Schelotto seguida de um remate em vólei com o pé esquerdo. Marcasse ele o fácil da mesma forma que o difícil e hoje a conversa teria sido outra.

No futebol nada é definitivo. Não se ganha sempre e não se perde sempre. A vitória é sempre o prenúncio da derrota e a derrota é sempre o prenúncio da vitória. Quanto mais tardar a vitória mais feliz será. Para o ano há mais: malas, camisolas, sms, bitaites à segunda-feira e, uma vez por outra, futebol com bola e jogadores.

Ser sportinguista é meio caminho andado para um pacemaker

Acaba hoje. Em que rua se esconde a surpresa? Não se sabe. Sabe-se apenas que a possibilidade de nascer uma árvore na sala de jantar é remota, mas não impossível. Pere Calders imortalizou esse nascimento num conto. Toda a gente sabe que quem conta um conto acrescenta um ponto. Precisamos de três. Depois se verá.

(publicado originalmente no Anjo Inútil). 

sábado, 14 de maio de 2016

Ainda é possível, mas...


...Tudo tem que correr tão irritantemente perfeito na realidade como só parece possível na irrealidade do virtual…
 Eu ainda "acardito", um pouco menos, mas "acardito".

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Take 34: nomeação dos árbitros para a última jornada do campeonato

Cenário
A sala tem uma mesa oval ao meio, pousada sobre uma carpete vermelha. Três homens façanhudos conversam. Cada um tem um copo quase vazio à sua frente. Veem-se umas quantas minis, cascas de amendoim e uns papéis.

Diálogo
Homem 1: O que me dizem deste?
Homem 2: Esse não se sabe o que é. E o outro?
Homem 3: O outro é. Se é, pode ser.
Homem 1: Não sei se é. Talvez possa não ser. Aqueloutro é que não é. Não o sendo, será outra coisa, se é que me faço entender.
Homem 3: Talvez o que não se sabe o que é. Pode ser ou pode não ser. Se é, não é outra coisa. Se é outra coisa, então não é.
Homem 1: Em que ficamos?...Deve ser este?...
Homens 2 e 3 (em coro): Este qual?
Homem 1: Este, o primeiro, ora bolas!
Homem 2: Mas esse não se sabe o que é. Aqueloutro é e não é. Não pode ser. O outro é que é.
Homem 3: Seja!
Entra na sala uma senhora de avental transportando uma bandeja com um copo de whisky e duas minis.
Senhora de avental: Este é para quem? (levantando o copo de whisky)

domingo, 8 de maio de 2016

Não fechas bem da mala, pois não?

Andei toda a semana em bolandas com o trabalho. Quando não se ouve falar de futebol, este acaba por deixar de existir e a vida segue o seu curso natural. Mas não por muito tempo. Comecei a sentir os sintomas de ressaca na última quinta-feira. O problema é que, quando voltamos, corremos o risco do jogo ter mudado de nome. Neste caso, havia mudado de nome para “jogo da mala”. Pedi esclarecimentos, mas o meu anacronismo de (apenas) uma semana ou duas não foi compreendido.

Tive que estudar todo o processo. Quanto mais estudava, mais o tempo voltava atrás com histórias do arco-da-velha. Parecia que nunca tinha existido futebol, ou melhor, o futebol era apenas um jogo pequenino dentro de outro jogo que por sua vez encaixava noutro, e assim sucessivamente, uma autêntica matriosca de jogatanas em que o jogo propriamente dito é o boneco mais pequeno. Liguei a televisão: o Dani sorria enquanto o Diamantino falava de malas, dinheiro, conspirações, diz que disse e no meu tempo. O Dani continuava a sorrir. No seu tempo, o Dani tinha sido um grande jogador fora das quatro linhas, com passagens de sucesso em passerelles e festas. Talvez por isso tenha sido contratado para comentador. Não satisfeito mudei de canal. Um dos experts presentes afirmava que, após o apito dourado, as coisas tinham acalmado (leia-se dividido irmanamente por dois), e só agora tinham voltado as velhas questões das malas e afins. Percebi que o problema tinha um nome: Sporting.

Após mais um dia de apurado estudo sobre a questão da mala e demais incentivos, corri apavorado para ver o jogo do Sporting com o Setúbal. Mal cheguei fiquei logo descansado: eram onze jogadores para cada lado, uma bola, e na dúvida apita-se contra o Sporting. Ainda não me tinha sentado e já o Adrien levava um daqueles amarelos que o árbitro traz dos balneários em envelope lacrado com destinatário definido. Não tarda o Slimani vai também receber uma carta registada com aviso de recepção, pensei. E não me enganaria se Jesus não estivesse em todo o lado. Com o penalti sobre o Slimani não assinalado, fiquei com a certeza que há coisas que dificilmente vão mudar. Sucede que o Sporting está a jogar muito futebol, daquele jogado com bola e tudo. E isso incomoda muita gente. Ainda bem.

Uma última palavra para o Ruiz. Aquele seu primeiro golo, na sequência de uma jogada de laboratório, mostra-nos que o homem é vocacionado (apenas) para a marcação de golos de difícil execução. Em caso de dúvida o melhor é complicar a jogada ao ponto do golo se afigurar de difícil ou mesmo impossível execução, e só depois passar a bola ao Ruiz, ou em último caso, ao Teo. Com Teo tudo é possível, desde que devidamente enquadrado no caos imprevisível do seu jogo. E o futebol também é isso.  

sábado, 7 de maio de 2016

Até ao fim

Não sei o que se pode dizer deste jogo. Foram cinco golos mas podiam ter sido dez. Foram oportunidades atrás de oportunidades. Um massacre do princípio ao fim. O Patrício não fez uma defesa.

O adversário mais difícil ainda foi o árbitro. Durou enquanto pode. Fez o que pode. Ninguém lhe pode pedir mais. Colocou o Adrien fora do jogo contra o Braga. Não assinalou uma falta. Utilizou o amarelo para administrativamente o impedir de jogar o último jogo do campeonato. Viu o que ninguém viu no lance do amarelo ao Adrien, mas não viu o que toda a gente viu no penalty que não marcou a favor do Sporting, por tentativa de um defesa arrancar a pele do Slimani e que acabou numa projecção que deveria dar origem ao respectivo “Ippon”.

Depois do primeiro golo o árbitro não tinha muito mais a fazer. Havia sempre a possibilidade de administrativamente impedir também o Slimani de jogar o último jogo. Num lance em que o Slmani escorrega e derruba um adversário ainda foi lá ameaçar, para grande entusiasmo dos comentadores. O Jorge Jesus administrativamente tirou-o do jogo para evitar males maiores.

A defesa esteve intratável. O Coates e o Ruben Semedo funcionam como duas lâminas gémeas. Um corta e o outro apara. No final, a bola sai sempre redondinha para o ataque, com o William de Carvalho a dar-lhe o destino adequado. Os laterais subiram com a propósito. O Schelotto cansa-se e cansa-nos de tanto andar para a frente e para trás.

O Bryan Ruiz talvez tenha feito o melhor jogo da época. Marcou dois golos e esteve em mais outros dois. No primeiro do Gelson, o passe foi meio golo. O Slimani parecia o Ruiz. Fundamental no primeiro e no terceiro golo. No terceiro golo, com o toque de calcanhar em movimento, a isolar o Adrien, até parecia o Zidane. O Gelson teve a frieza dos veteranos no primeiro golo. O Teo, bem, quanto ao Teo, enfim, o Teo marcou um golo e atrapalhou-se com a bola, os adversários e os colegas um par de vezes. Assustou-se quando se viu isolado por um passe do Chuta-chuta. O susto foi tão grande que se deixou ultrapassar pelo defesa para lhe poder atirar a bola às pernas e assim evitar que todos víssemos que, naquela situação, não sabia muito bem o que fazer.

Ganhámos dentro de campo. Não aproveitámos para comprar nenhuma jovem promessa ao Setúbal. Quanto à mala, a existir, só se for a que o Setúbal vai utilizar para levar as cinco batatas para casa. Ainda agora acabaram os jogos em Alvalade e já estamos com saudades. Este campeonato vai-se disputar até ao fim. É impressionante como todos continuamos a acreditar que ainda é possível.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Phishing for Phools

Ando a ler “Phishing for Phools” (na edição portuguesa da Actual Editora, “À Pesca de Tolos”) de Akerlof & Shiller. Os autores procuram explicar-nos que o mercado se não for derivadamente regulado mais não faz do que nos oferecer o que verdadeiramente não desejamos, manipulando-nos através da exploração das nossas fragilidades. Mais do que uma instituição que incentiva a produção e consumo de bens e serviços necessários, constitui um contexto de interação económica e social privilegiado para a prática da pesca de tolos. O atual momento futebolístico presta-se a essa pesca de tolos.

Existe uma campanha de condicionamento do Sporting. Nada de especial. Normal até, tendo em consideração os tempos mediáticos em que vivemos: em que o que parece é e o que é nem sempre é o que parece. Aparentemente, essa campanha não visa diretamente o Sporting ou os sportingusitas. No subtexto, pretende afirmar que não é nada com o Sporting ou com os sportinguistas, mas exclusivamente com o seu Presidente. Pretende dizer-nos que se o Presidente fosse outro nada disso ocorreria e que tudo o que vai saindo na comunicação social é uma simples reação a posições do Presidente.

Esta narrativa, como agora se diz, é inteligente. Divide para reinar. Há os sportinguistas e os adeptos do Presidente. Uns e outros só coincidem em parte. Nem todos os sportinguistas gostam do Bruno de Carvalho. Está criada uma oportunidade para a pesca de tolos.

Esta campanha só existe porque estamos a disputar ombro a ombro com o Benfica a vitória no campeonato. Se assim não fosse, dissesse o que dissesse o Presidente e ninguém se daria ao trabalho de lhe responder. Qualquer que fosse o presidente, nas atuais circunstâncias teríamos a campanha que temos. Não há ilusões quanto aos propósitos. A campanha dirige-se a nós, sportinguistas, e visa criar dificuldades adicionais na conquista do título. Estamos habituados a ser pescados de uma forma ou de outra. Não queremos é ser pescados como tolos.

domingo, 1 de maio de 2016

Direcção assistida

As vivências do after-match são riquíssimas. Ontem na SIC Notícias, Joaquim Rita afirmou que, depois da derrota com o Sporting, o Porto ficava a 15 pontos do campeão. Já sabíamos que o coração do Sr. Joaquim Rita só tinha uma cor (vermelho e branco), mas assim ficamos a conhecer os seus dotes de leitor de sinas futeboleiras. Isso, ou ele está na posse de informação (supostamente) em segredo de justiça da bola, cuja leitura está apenas ao alcance de uns quantos eleitos. 

Mais adequada terá sido a sentença de Vítor Baía hoje no jornal Record. Segundo este (mais um leitor de sinas futeboleiras), o Porto está no bom caminho. Ao menos isso. Que se mantenha então o Peseiro e os bons resultados… 

sábado, 30 de abril de 2016

Portugal ainda pode vir abaixo!

Ontem, Portugal teve para vir abaixo. Só a intervenção do nosso Draghi da bola evitou o pior. Hoje era o dia em que os mercados iam finalmente estabilizar. A intervenção foi planeada com todo rigor. Era necessário fazer tudo, mas mesmo tudo para que o país não viesse abaixo. Tudo se fez e nem assim.

Cheguei ao Tribuna e estávamos a levar com uma bola ao poste e com o Patrício a agarrá-la depois da carambola que lhe sucedeu. Temi o pior. Nada disso aconteceu. O meio-campo pegou no jogo e não mais deixou os rapazes do Porto tocarem na chicha, mesmo sendo o Danilo muito melhor do que o William Carvalho, como hoje se verificou.

Num determinado momento, o William Carvalho varia o jogo para a direita, o João Mário recebe a bola no peito com dificuldade e, de imediato, mete uma cueca no defesa esquerda e vai pela área fora até a meter a redondinha para o pé direito do Slimani a empurrar para a baliza. Logo a seguir, o Schelotto faz de João Mário para o Slimani fazer de Slimani outra vez. Tudo bem feito, mas o Cassillas defende de cócoras.

Pressentia-se o descalabro. Os mercados estavam a afundar-se. Era necessária uma intervenção forte e decidida para os estabilizar. O lance começa numa falta não assinalada sobre o Schelotto, continua num salto para a piscina do Brahimi e acaba num penalty inventado. Freitas Lobo diligentemente apressou-se a explicar-nos não o que viu mas o que poderá ter visto o árbitro: uma eventual pressão do joelho do Coates na coxa do Brahimi. No reino da ficção anatómica, o esternocleidomastóideo do Vasco Santana é mais credível.

O Sporting treme. O Jorge Jesus grita com a defesa. Parece que vai tudo empatado para o intervalo. É então que aparecem os suspeitos do costume. O Bryan Ruiz encontra um espaço que só existe na cabeça dele para fazer um centro e o Slimani marca um penalty de cabeça.

A segunda parte traz-nos mais do mesmo. Intervenções no mercado para não o deixar afundar. As duas únicas oportunidades de golo do Porto nascem de dois livres inexistentes. Do outro lado, nada se passava. Uma ou outra falta e amarelos nem por isso. Até que um jogador do Porto entra a matar sobre o Slimani, o árbitro, sempre muito atento ao jogo, dá a lei da vantagem para não mostrar amarelo, quando os jogadores do Sporting estão em desvantagem numérica. Azar o dele. O João Mário inventa um passe no tempo e para o espaço certos e o Chuta-chuta chuta assim-assim, para o Casillas fazer o resto. O jogo acaba para os adeptos do Porto. Acaba pouco minutos a seguir, com o árbitro a apitar para o final, evitando a expulsão de um jogador do Porto.

Vão-se viver tempos interessantes. Portugal, afinal, ainda pode vir abaixo. Vão ser necessárias novas intervenções para estabilizar os mercados. Vai continuar a valer tudo. Hoje, como diria o Gabriel Alves, ganhou a força da técnica à técnica da força. Amanhã não se sabe. Só se sabe que a força tem muita força e tudo há-de fazer para ganhar à força.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Onde estavas no 25 de abril?

[Onde estava no 25 de abril] 
Passei o fim-de-semana em Évora, com amigos dos tempos de Agronomia. Vi o jogo contra o União da Madeira numa tasca manhosa. Passei pelas brasas. Deve ter sido do calor do Alentejo ou dos vinhos da Quinta da Ervideira. Do jogo não deve ter sido seguramente.

[O Feiticeiro de Oz] 
O Teo enfeitiça qualquer guarda-redes. A imprevisibilidade é tanta que a expetativa do imprevisível torna o previsível em imprevisível. No primeiro golo, o guarda-redes do União da Madeira quando viu que a bola ia para a cabeça do Teo deve ter pensado que qualquer coisa de estranho iria acontecer. Nunca lhe ocorreu que tudo acabaria num cabeceamento chocho à figura. Foi um frango para quem não acredita em poderes paranormais. Nós, que conhecemos o Teo, sabemos que esses poderes existem e causam estragos.

[A Teoria Geral do Autocarro] 
O União da Madeira plantou o autocarro e ficou agarrado à tática durante o jogo todo. A tática tem uma epistemologia, uma metafísica. Inicia-se o jogo a jogar para o zero a zero. Se se sofre um golo, continua tudo da mesma, dado que um acaso pode sempre dar origem ao golo do empate. Se se sofre o segundo, continua tudo na mesma, dado que é sempre possível num acaso qualquer marcar um golo e, como dizem os entendidos em comentários televisivos, reentrar na disputa do jogo. Se se sofrer o terceiro, então é que tudo tem de ficar na mesma para se evitar a goleada.

[De pequenino…] 
Descobrimos esta semana que um portista é um benfiquista desde pequenino. Desde que não liguem o sistema de rega se ganharmos o jogo, não vejo nenhum inconveniente. Podemos dizer agora o que disseram de nós nos últimos anos: o campeonato português precisa de um Porto forte e competitivo.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

O mundo ao contrário

Não sou muito dado a antevisões de jogos, mas desta vez não resisto à tentação de vir aqui deixar nota de como as coisas estão diferentes. 

Em primeiro lugar, não sei bem quantas vezes fomos jogar ao Estádio do Dragão à frente do Porto (nem sei se alguma). Definitivamente não me recordo de ir lá jogar com tantos pontos de avanço.

Também não me recordo das eleições no Porto serem um assunto. Não me ocorre sequer um 'opositor' que se tenha batido com Pinto da Costa. Também aqui o mundo anda diferente, nem foi precisa oposição para roubar a Pinto da Costa votos que davam para envergonhar as bancadas parlamentares de Bloco, PP e PCP. Deve ser bom sinal, eu ainda me lembro do tempo em que eu próprio era 'oposição' do Presidente do FC Porto. Agora sou seu apoiante.

Mas nada disto muda a antevisão do Porto-Sporting. Por muitas voltas que queiramos dar, é muito mais provável o Porto limpar o Sporting que, por exemplo, um Guimarães congelar o estádio da Luz. É bom ter isto em mente, os reis das falsas expectativas ficam no outro lado da estrada. Agora, não quer dizer que não seja notável que vamos entrar naquele Estádio de cabeça levantada pelo futebol que jogamos, com o apuramento direto para a liga dos campeões no bolso e a sonhar com o título. O 2º é o primeiro dos últimos, e felizmente longe vão os tempos em que se comemorava esse 'feito' em Alvalade ao som do hino da champions. Ainda assim, por muito que nos queiram convencer que antigamente é que era bom, num jogo que muito provavelmente será de "cabeçudos" vai haver umas cabeças bem maiores que as outras. E isso este ano já não muda, quaisquer que sejam os resultados do fim-de-semana. Façamos votos para que a estatística tropece e possamos sair do Dragão em primeiro. Se não acontecer, sairemos seguramente melhor do que eles.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

De que cor é o mundo?

João Pinto, ex. jogador do Porto, disse em tempos que o seu coração só tinha uma cor, era …azul e branco. Temos assistido a um fenómeno curioso nos últimos tempos. Vários adeptos do tal clube que o coração só tem uma cor andam a saltar pocinhas. Manuel Serrão, admitiu, recentemente, que já foi sócio do Benfica (já não é?). Uma série de comentários e artigos de Sousa Tavares tiveram o seu corolário esta semana com uma verdadeira pérola (no jornal A bola): sosseguem, benfiquistas, o FC Porto vai travar o Sporting. Portistas anónimos no café e na rua vão nervosamente partilhando este sentimento em que o seu coração só tem uma cor: azul, branco e…vermelho. O vermelho do tal inimigo figadal. Mas porque será?

Resposta: o Sporting estava (supostamente) morto, enterrado, arredado destas andanças. Obviamente que as notícias da sua morte eram manifestamente exageradas, parafraseando Mark Twain. Mas andaram lá perto. Pinto da Costa havia-o anunciado, condescendente, no tempo de Godinho Lopes, afirmando que o Sporting fazia falta ao futebol português. Disse-o sem se rir. E nós percebemos o buraco em que nos encontrávamos.

A estrutura bicéfala (Benfica e Porto) do futebol português seria uma realidade (supostamente) incontornável, assente na repartição do poder, de títulos, prestigio e dinheiro. Muito dinheiro. O da champions sempre garantido, patrocínios, receitas variadas. Para utilizar uma expressão cara ao presidente Bruno de carvalho, não haveria espaço para mais nenhuma nádega. Quando muito, haveria espaço para um furúnculo, uma fístula, hemorróidas, ou algo parecido. Mas sempre como um elemento estranho àquele corpo. Um elemento doloroso. Algo que se deveria então erradicar.

Sucede que o Sporting se aguentou. Numa primeira fase graças à sua história e fundamentalmente aos seus adeptos e sócios (os patrocínios não caem do céu). Entretanto (nos últimos três anos), o Porto ficará, pela segunda vez, atrás do Sporting, tendo que jogar a pré-eliminatória da champions e ainda sem nenhum título no futebol. É demais. Agora imagem um Sporting campeão. Conseguem? Do outro lado da segunda circular, o impensável: o treinador campeão aceita treinar o antigo moribundo. Uma equipa com orçamento mais baixo e muito menos dinheiro investido no mercado. E ser campeão? Como diria o Pere Calders: mas agora nascem árvores na sala de jantar? Não pode ser. O mundo só tem uma cor: é azul, vermelho e branco.

Queriam, não queriam?