quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Leis gerais, bosão de Higgs e vitórias com o coração

Não vi o jogo de ontem, contra o Gil Vicente. Como sempre costumo dizer, não ver um jogo deixa-nos muito mais à vontade para falar sobre ele, sem as limitações da factualidade, da realidade nua e crua. Há sempre quem diga, quem pergunte: como é que se pode falar de uma realidade que se desconhece? O bosão de Higgs foi observado em 2015, mas a sua existência e características tinham sido antecipadas há muitos, muitos anos, pelo tal de Higgs. Há leis gerais que regem o universo, na física como no futebol. É necessário estar atento e compreender os padrões para dele se obterem leis gerais que nos permitam compreender o universo. 

Os jogos do Sporting seguem um padrão. Não há uma única equipa que tenha jogado bem contra nós. Ou porque se preocupam de mais connosco ou porque nós nos preocupamos de mais com eles, a verdade é que ninguém joga nada, raspas, contra nós. Não, não estou a dizer que jogamos bem; estou a dizer que asseguramos sempre que os outros jogam mal. Ontem, o Gil Vicente marcou um golo no único remate que fez à nossa baliza. Há uma componente de “karma” que obedece a qualquer coisa errada que fizemos no passado e se reflete sempre no presente. Há também a componente que obedece a uma lei geral: não permitimos oportunidades de golo ao adversário. Podemos dizer que isso não é necessariamente jogar bem. Para o Rúben Amorim também não é condição suficiente, mas é condição necessária. 

A compreensão desta lei geral permitiu-me continuar calmo e tranquilo a bebericar um brandy quando um dos meus amigos de jantar me anunciava que estávamos a perder por um a zero a dez minutos do fim. Disse-lhe para estar tranquilo que íamos ganhar. Como é que sabia? Não jogar com nenhum avançado fixo obriga os centrais a andar a correr de um lado para o outro à procura das marcações. Os centrais do nosso campeonato não têm vida para isso e, tarde ou cedo, dão o berro. Os golos do Sporting são resultado desse estoiro com direito a pirotecnia e tudo. Alguém acredita que no início do jogo a triangulação na lateral que dá o primeiro golo acontecia? Alguém acredita que no início do jogo o Sporar ganhava a bola dividida com o central depois de uma correria que dá o segundo golo? Alguém acredita que no início do jogo o jogador do Gil Vicente recebia mal a bola e não tinha pernas para a recuperar ou impedir a progressão e o central deixava fazer o que deixou ao Pedro Gonçalves no terceiro golo? 

O Rúben Amorim assegurou o que sempre assegura, que os adversários poucas ou nenhumas oportunidades conseguem. Assegurou o que também assegura sempre que necessário, que no final muda tudo como se tudo ficasse na mesma e vamos a eles como tarzões. Os jogos, aqueles que nos enchem a alma e nunca nos esquecemos, ganham-se com o coração e coração é coisa que não nos falta. O problema, o verdadeiro problema é que existe uma lei geral que nos impede de, no fim, vencer. O Sporting é a equipa do campeonato que menos faltas faz e a que tem mais cartões amarelos. Esta lei não é sequer como o bosão de Higgs, observamo-la desde sempre e ano após anos, quaisquer que sejam os presidentes, os treinadores ou os jogadores. Contra esta lei geral é que o Rúben Amorim, como antes o Paulo Bento ou o Leonardo Jardim, nada pode. 

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Para não esquecer

Há coisas que é importante dizê-las antes que passe a oportunidade e não se aproveite para aprender alguma coisa. No Sporting, Jorge Jesus foi a pior contratação de sempre. Não nos lembrávamos mas ele, ontem, recordou-nos. Numa conferência de imprensa, como treinador principal da equipa de futebol, decidiu participar na campanha eleitoral para os órgãos sociais do Benfica. Fê-lo com o apoiante mais fanático da atual direção, de forma desembestada e destratando um adepto e sócio do Benfica. Destratou-o não só como adepto e sócio mas também na qualidade de jogador e profissional de futebol, como se essa qualidade estivesse em causa (o Bernardo Silva foi, repito, foi jogador do Benfica e não, não foi jogador deste ou de qualquer outro presidente do Benfica). 

Não sei se o Bernardo Silva tem ou não razão, nem me interessa. Não é essa razão que defendo. O que defendo é o seu direito a exprimi-la com liberdade sem ameaças e revelações de um qualquer funcionário de uma instituição associativa com estatuto de utilidade pública da qual ele é adepto ou sócio. Estas coisas precisam de ser bem explicadas para ver se se percebe. Admitamos que um cidadão, um deputado, um político da oposição faz uma crítica política ao atual ou de outro qualquer governo. Acharíamos normal que um Diretor-geral do Estado português nas instalações do seu serviço e do Estado português fizesse uma intervenção naquele tom e com aquele conteúdo em resposta a essa crítica? Como as coisas vão, um dia também acharemos normal que as democracias e o estado de direito democrático funcionem assim, sobretudo quando se tem uma imprensa que não cumpre a sua função e também acha tudo normal. 

A revelação de conversas diz-nos mais de quem as revela do que das conversas propriamente ditas. A calhandrice esconde sempre o contexto da conversa e esse contexto é fundamental para se compreender plenamente o que foi dito. Naquela altura, Jorge Jesus era o treinador principal da equipa do Benfica e Bernardo Silva um ex-júnior recém-chegado à equipa sénior. A assimetria de poder, pela idade e pela hierarquia, permite-nos perceber a inverosimilhança se não da conversa pelo menos do seu tom. A conversa decorreu naquele tom? Num género “quero ser titular ou vou-me embora ganhar mais dinheiro”? A conversa também revela bem as legítimas opções do Jorge Jesus. Entre o Sálvio daquele presente e o Bernardo Silva do futuro naquele momento e do atual presente, um dos melhores jogadores do mundo, preferiu o Sálvio. Estamos conversados quanto ao perfil de treinador e à sua capacidade para trabalhar com a formação dos clubes por onde passa. 

No Sporting, não foi diferente. Considerou-se sempre maior do que o clube que devia servir e era pago e bem pago para servir, como se nos estivesse a fazer um favor; e sim, também participou na campanha eleitoral. Para aqueles que criticam a atual equipa e o Rúben Amorim, relembro a equipa titular da malfadada última época: Rui Patrício, Piccini, Mathieu, Coates, Fábio Coentrão, William Carvalho, Battaglia, Bruno Fernandes, Gelson Martins, Acuña e Bas Dost; todos internacionais pelas seleções dos seus países. Uma equipa que se arrastou durante uma época, sem honra nem glória, jogando um futebol empastelado, sofrível, que desabou com estrondo no famoso jogo contra o Marítimo da última jornada, levando quase à refundação do nosso clube. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Um campo de cânhamo cercado por dois irredutíveis gauleses

Há dias vi (e ouvi) uma reportagem sobre o cânhamo, nas suas diferentes variedades e utilizações, com mais ou menos canabidiol (CBD) ou tetra-hidrocanabinol (THC). Desde a cosmética à farmacêutica ou ao têxtil, há um conjunto de indústrias que cada vez mais recorre ao cânhamo. A relação do cânhamo com o jogo de sábado contra o Santa Clara não é evidente para os menos atentos ou distraídos. Também não a compreendi de imediato. Havia um campo com ervas, muitas ervas. Podiam ser alfaces, beterrabas ou até couves-galegas ou tronchudas. O disparate do Coates, a meias com o Adán, levantou suspeitas. As alfaces, as beterrabas ou as couves não produzem aquele efeito. Quando o guarda-redes do Santa Clara saiu desembestado e se enfaixou contra o defesa central, permitindo o segundo golo do Pedro Gonçalves, a relação encontrava-se definitivamente estabelecida. 

Jogar num campo de cânhamo não parece nada fácil, sobretudo quando não está devidamente licenciado, tal o nível de THC que, aparentemente, libertava. Não sei o que é que o Rúben Amorim sabe de cânhamo e das suas aplicações, mas pareceu bem informado. Contrariando os táticos, os que falam sobre táticas e saídas de bola e assim, colocou a dupla Palhinha-Matheus Nunes no meio-campo. Foi um regalo vê-los a jogar, principalmente na primeira parte. Sitiaram os de Santa Clara e não havia forma de saírem da ilha onde eles os meteram. Nunca dois pareceram tantos, fazendo lembrar a dupla Astérix-Obélix ou Vidigal-Duscher. O Pedro Gonçalves marcou o primeiro golo e esperava-se outro a qualquer momento quando o Coates e o Adán foram envolvidos por uma nuvem de THC. A nuvem era de tal dimensão que eu mesmo fiquei tonto. 

Na segunda parte, depois de lavrado o campo de cânhamo, as coisas começaram a complicar-se. A bola ganhava vida própria e não havia quem a segurasse. Entrou o João Mário e a bola, por respeito, deixou de andar aos trambolhões como se fosse um paralelepípedo. Houve oportunidade para ver o Sporar aliviar uma bola a meio metro da baliza e a ficar transparente quando uma outra bola passou por ele sem nele embater sequer. Tudo acabou bem quando o Mathieu encarnou no Feddal e uma biqueirada para a frente levantou outra nuvem de THC, permitindo o segundo golo do Pedro Gonçalves. 

Não há muito a acrescentar. A equipa está bem e recomenda-se. O lado direito da defesa deixa-nos sempre em sobressalto. Percebe-se a importância do Neto na equipa, pela sua liderança e capacidade de mobilização de muitos jogadores jovens. Não resisto ao trocadilho: não se percebe é a razão de se chamar Neto a quem joga com colegas que têm idade para ser seus netos. Não digo que se deixe de o chamar pelo nome próprio, mas pelo menos avó Neto seria mais carinhoso e adequado. Quanto ao árbitro e aos comentadores da SporTv, nada de novo. As faltas sobre os nossos jogadores têm sempre direito a qualificativo ou explicação. A falta nunca é falta e tão-só. É falta mas sem intensão ou intenção, conforme os casos. Para nós, a regra passou a ser a seguinte: é falta mas não para livre ou “penalty”, é uma coisa em forma de assim. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

E assim acontece

De fininho, como quem não quer a coisa, lá vai à sua vida a última das grandes contratações da dupla Frederico/Viana. Não sei se Vietto deixará grandes saudades ou grandes recordações. É mais um que sai, menos um avançado disponível, embora tristonho, que fica. Está tudo planeado.

Mais interessantes são os contornos metafísicos desta venda. Parece que o Sporting recebe 8 milhões de Euros por 75% do passe, embora apenas detenha 50% do dito pelo qual pagou cerca de 7 milhões. Confesso que estas engenharias financeiras, que envolvem terceiros, neste caso o Atlético de Madrid, me fascinam. É tudo tão claro que não necessitará de qualquer explicação. Sempre se poupa em salários. E assim acontece…

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Divide et impera

O Presidente do Porto teceu algumas considerações sobre Frederico Varandas e o Sporting. Dividir para reinar, seria o objetivo, dissimulando, obviamente, a sua preocupação pelo facto de o Sporting se poder assumir como candidato, e limpando para debaixo do tapete a arbitragem do jogo, incluindo os bastidores que o corroem. Estes senhores não andam a ler livros, reescrevem-nos a seu belo prazer. Em tempo de Covid, chega a ser grotesca esta luta pérfida pelo poder. Presumo que, após o jogo com o Manchester City, a sua percepção da arbitragem (assim como a do ordeiro Conceição) tenha sofrido uma nova manifestação de sabores, algo muito próximo da azia.

Varandas, pois claro, tirou o curso de pôr-se a jeito. Sob o lema de “unir o Sporting” dividiu internamente para tentar reinar. Os factos são conhecidos, as roupagens mediáticas também. Os impérios, mesmo os de fancaria, acabam sempre por seguir o curso habitual: a queda. Mas a história não é para aqui chamada. Temos outras preocupações em mente.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

License to kill

A descoberta da pólvora por parte dos dirigentes do Sporting é de louvar. Num tempo de mísseis balísticos de longo alcance, drones teleguiados, possíveis viagens de cruzeiro a Marte, ou apenas o envio de alguns emails, Frederico Varandas reivindica uma patente que muito nos orgulharia, não fosse o seu anacronismo, ou o facto insólito e surpreendente, de muitos o andarem a reclamar há vários anos: o Sporting é um peso pluma do futebol português, uma lateralidade permitida desde que não se intrometa onde não é chamada. O paternalismo de uns, a condescendência de outros, a bonomia dos próprios, é tristemente plasmada nos resultados. 

O jogo deste fim-de-semana foi apenas mais um exemplo da nossa irrelevância. A essa dita irrelevância no contexto do mundo minado da bola em Portugal, será preciso acrescentar algumas notas importantes. Por acaso, até tivemos oportunidades suficientes para obtermos outro resultado, sofremos golos dignos de uma comédia musical (daquelas que apenas se veem de ressaca ao domingo à tarde) e, vivemos, mais uma vez, de ideias (o plural é da minha responsabilidade), sem que se vislumbre o substancial, para além do abstrato. E para isso faltam, pelo menos, mais um central a sério e um avançado móvel que se dê bem com o Amorim.

Temos jogadores: Pote (em grande) e Porro, Mendes e Matheus, Santos e Palhinha. Durante o seu longo aquecimento, João Mário acertou mais passes que o Neto durante todo o jogo. O Neto daria um bom speaker de cenários motivacionais com pronúncia do Norte, ou um bom administrativo na área da confiança e da dinâmica de grupo. Ao Sporar ainda lhe faltam (supostamente) algumas leituras sobre o mundo das ideias de Platão. À consideração de Amorim.

O resto são peanuts e muito gelo nas pernas dos jogadores do Sporting. Uma license to kill não se vende na net…pois não?

Cão é que não!

O jogo, de sábado, contra o Porto e os comentários e análises que lhe seguiram foram extraordinários. O extraordinário está fora do ordinário, do normal. Não se pode ver e analisar o que está fora do ordinário, do normal, como se se estivesse a ver o próprio ordinário, o normal. Os conhecimentos de aerodinâmica atuais que nos permitem apreciar o voo de um avião não nos permitirão compreender um ovni quando o virmos, se alguma vez o virmos. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, mesmo que ambas as coisas voem. 

Houve bola, jogadores, treinadores e árbitros e, assim, mentes menos avisadas veem um avião e analisam o seu voo como se de um avião se tratasse. Mas bola, jogadores, treinadores e árbitros também fazem um ovni; e é um ovni que devemos ver e é o seu voo que devemos analisar. O que vimos tem um passado e um contexto conhecido aos quais o sistema de justiça vai chamando nomes (“apitos”, “malas” e por aí adiante). Repeti-los (e repetir-nos) não ajuda à compreensão porque, começando por nos parecer esdrúxulos, logo já nos habituamos a eles até passarem a ser normais, nada extraordinários, portanto. 

Para se compreender o jogo de sábado e o nosso campeonato, o extraordinário, em síntese, temos que recorrer à guerra fria e à Cortina de Ferro. Nesse tempo, na Europa Oriental, os países tinham clubes do regime. Uns tinham sido criados pelo exército, outros pela polícia e outros ainda pelos serviços secretos. Os exemplos são vários. Retenho um dos mais extraordinários (lá está, fora do ordinário, do normal): o Steaua de Bucareste. A história encontra-se disponível no ciberespaço e não a vou repetir. Retenho um dos fragmentos: entre 1986 e 1989, permaneceu invicto durante 104 jogos consecutivos disputados no campeonato, série que se concluiu abruptamente após a execução do ditador Nicolae Ceausescu mas que, ainda hoje, constitui recorde europeu. 

O Zaidu devia ter sido expulso pela entrada sobre o Pedro Porro? O Zaidu devia ter sido expulso pelo “penalty” sobre o Pedro Gonçalves? O árbitro e o vídeo árbitro erraram ao não marcar “penalty”? O Corona fez falta para mais um amarelo? E o Otávio e o Uribe? Se o Rúben Amorim foi expulso, o Sérgio Conceição também o devia ser? O tempo de desconto não foi adequado? Sim, sim, sim, sim, sim, sim e sim? Não! O sim aplica-se ao ordinário, ao normal, não ao extraordinário. 

A claque do Steaua de Bucareste tinha o seguinte cântico: “Tu podes ser um cão ou tu podes ser um adepto do Steaua”. A mensagem é simples, ou és do clube do regime ou és um cão. Seria delicado informarem-nos qual o clube dos militares e qual o clube dos serviços secretos. Que não temos clube, já sabíamos. O que ainda não sabemos é de que clube devemos ser. Cão é que não!

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Coisas da seleção

Nesta semana e meia, à falta de drogas duras tivemos que nos contentar com metadona: sem campeonato, restou-nos a seleção e os jogos amigáveis da Liga das Nações. Por muito maus que sejam, um Feddal ou um Vietto sempre são melhores do que um Félix ou um Rúben Dias. Não, não se refere às qualidades futebolísticas, ou à falta delas, e ao jogo propriamente dito, mas à cor das camisolas e à importância do que se joga. Cada jogo da seleção constitui desafio intelectual. O emaranhado de pernas é de tal forma que nem o Vasco da Gama da bola consegue encontrar o caminho marítimo para onde quer que seja. Os adversários vão insistindo, insistindo até desistirem e se conformarem com o destino. O destino está escrito nas estrelas: o empate sempre que possível ou a vitória por exclusão de partes. 

Retenho alguns momentos, algumas imagens e sons. António Tadeia: “Grande passe, grande classe do João Félix! Ah, afinal era o Bruno Fernandes”. O Fernando Santos a franzir o sobrolho, preocupado, ao ver a equipa em quinze minutos ultrapassar mais vezes o meio-campo do que na final do Campeonato da Europa. Ver o Bruno Fernandes levar um pontapé na cabeça e ficar estendido no chão e o Mbappé a hesitar se enfrentava o Pepe ou não, acabando por decidir atirar a bola fora com grande “fair play”. O Pepe é como o Papa por portas travessas, consegue reconciliar as nações e construir a paz. Por falar em Papa, foi à Divina Providência que o Fernando Santos apelou a subida da defesa da França, impedindo o golo do Pepe. Imagino o Fernando Santos a dizer ao apóstolo Pepe: “Em verdade, em verdade vos digo, não marcarás na baliza do próximo”. O génio do Fernando Santos ao substituir o Cristiano Ronaldo pelo Victor Lindelöf [as melhoras para o Cristiano Ronaldo, que ganhou Covid-19 e o Jorge Mendes a respetiva comissão]. 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Aberto até de madrugada

Passei o dia a ouvir falar do Paulinho. Pensei: lá vai o nosso querido roupeiro. Não devem faltar propostas para este nosso símbolo. Fiquei triste, os símbolos não estão à venda. Mas nunca se sabe.

Tive, algures no tempo, uma chefe que ao dar indicações apontava com a mão numa direcção e olhava para a outra. A escolha, não sendo a chefe estrábica, decorria da nossa forma de perceber as prioridades. Temos uma direcção (e agora arrisco aqui o meu pescoço de atormentador) que aponta para um lado olhando para outro, ao mesmo temo que assobia. Não é fácil. Mas o colaborador (como agora se diz) tem de saber discernir prioridades e executar.

O treinador Amorim tem uma ideia. Que não seja ideiafix é o que esperamos. No Sporting importa ter um plano b e uma saída de emergência, pelo menos. O resto nós aguentamos.

Parece que o mercado continua aberto (ainda mais um pouco). Essa é a ideia fundamental dos mercados. A nós compete-nos perceber a direcção que nos interessa seguir.  

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

É a nossa hora!

Há momentos mágicos. São raros, muito raros. Depois de receção atabalhoada de um defesa do Portimonense, o Nuno Mendes rouba-lhe a bola e passa-o por dentro, passa a bola por um lado e vai buscá-la pelo outro ao defesa seguinte, desequilibra-se, parece que se vai estatelar, recupera e enfia-lhe um toque de calcanhar que deixa o terceiro defesa com um torcicolo e encosta-a para a baliza com o seu pior pé, deixando o guarda-redes de cócoras. Depois de ver isto, se um adepto do Sporting ainda continuar a falar que o Matheus qualquer coisa, o Coates não sei o quê, ou o Vietto não sei que mais, então não sabe o que vê e não merece ver o que viu com a camisola do seu clube. 

O Rúben Amorim disse o que tinha a dizer nas conferências de imprensa, quer depois do jogo com o Lask Linz, quer na que antecedeu este do Portimonense. Imaginem se fosse o Jorge Jesus, o Peseiro ou o Silas? Temos treinador e uma equipa, repito, uma equipa. Percebe-se a mobilização dos jogadores nos momentos que antecedem o jogo, nos festejos dos golos, na forma como apoiam o colega depois de um carrinho desesperado ou de um desarme. A única dúvida é se estamos com a equipa e com eles ou não. Não, não há cá Varandas, nem Vianas ou salvadores da pátria. O Sporting somos nós e mais ninguém. Esta é uma coisa que temos de resolver connosco mesmos. 

O jogo de ontem foi mais um belo exemplo do que nos espera. Marcámos o primeiro, o segundo e preparava-se uma cabazada. Não aconteceu por nenhuma mudança tática. Não aconteceu pelas razões do costume. Passou a valer tudo: cotoveladas, entradas por trás, faltas atrás de faltas, agarrões. Amarelos? Nem vê-los! Do outro lado, qualquer toque, qualquer encosto, falta. Foi assim que o Portimonense equilibrou o jogo e o seu treinador ainda tem a distinta lata de falar em perdas de tempo. Vamos deixar que batam impunemente nos nossos, no Nuno Mendes, no Tiago Tomás, no Matheus Nunes, no Pedro Gonçalves, no Porro, no Nuno Santos, no Vietto? A resposta é nossa e vamo-nos deixar de tretas: somos do Sporting ou não somos, apoiamos e protegemos os nossos ou preferimos o cinismo nas redes sociais.

sábado, 3 de outubro de 2020

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Sem rir

Não sei como é que hei de escrever isto sem me rir. Mal comecei e quase não resisti quando percebi que, com o novo acordo ortográfico, deixam-se de ligar-se com hífen as formas verbais monossilábicas do presente do indicativo do verbo “haver” à preposição “de”. 

O jogo de ontem faz parte da nossa galeria de jogos contra equipas austríacas. Temos o quadro do Casino Salzburg. Um belíssimo três a zero. Na altura, o Costinha sujeitou-se a diversos exames oftalmológicos, suspeitando-se que fosse vesgo, mas acabou-se por culpar o Bobby Robson. Temos o quadro do Rapid de Viena. Um belíssimo quatro a zero. Na altura, culpou-se o Dani porque se queria vir embora mais cedo por coisas de discotecas, miúdas e assim, porque o Carlos Queiroz nunca teve culpa de nada. Ontem, colocámos o quadro do Lask Linz. Um não menos belo quatro a um. A diferença, a única diferença é que ainda não sabemos de quem foi a culpa para colocar como autor. 

Este fim-de-semana, o meu sobrinho contou-me uma história extraordinária. No primeiro dia de escola, uma faneca senta-se na carteira ao lado de um robalo. Conversa puxa conversa, até que a faneca pergunta ao robalo: “O que é que faz o teu pai?”. “Nada”, responde o robalo. Parece que esta história não tem qualquer relação com o jogo de ontem, mas tem, acreditem que tem. É que me imagino numa carteira com o Varandas e a perguntar-lhe: “O que é que me tens a dizer sobre o jogo de ontem?” Sim, imaginam a resposta, fácil, fácil.