Gosto do Arsenal, como gosto do Atlético de Madrid e do Borussia Dortmund: são o Sporting do campeonato inglês, do campeonato espanhol e do campeonato alemão. Gosto um pouco mais do Arsenal por se tratar do clube do qual Nick Hornby é adepto, um dos primeiros escritores cujos livros partilhei com a minha filha Ana [de tempos a tempos, regressa a nostalgia, a choradeira, a baba e ranho do costume], livros como “Alta Fidelidade”, “Era Uma Vez Um Rapaz”, “Como Ser Bom”, “Um Grande Salto” ou “Rapariga Endiabrada”. Além destes e de outros romances, publicou livros como “Fever Pitch” [“Febre no Estádio, na tradução portuguesa], uma biografia [parcial] em que a cronologia, a linha do tempo é marcada por jogos [mais ou menos] marcantes do Arsenal. Conheço bem esta doença [a minha geração conhece-a bem], praticamente não consigo recordar uma data a não ser que a associe a um jogo ou um campeonato do Sporting. A última postada constitui uma simples homenagem à sua descrição do dia do último jogo da temporada 1988-89, contra o Liverpool, que deu o título ao Arsenal [de George Graham] 18 anos depois, uma descrição que só nós, os que sempre perdemos, os que sempre nos preparamos para perder, conseguimos compreender.
“De manhã, fui a Highbury comprar uma nova camisola da equipa, pura e simplesmente por achar que tinha de fazer qualquer coisa, e apesar de reconhecer que usar uma camisola na televisão não deva ser especialmente encorajador para a equipa, sabia que isso me faria sentir melhor. […] E à medida que o jogo se ia desenrolando e se tornou evidente que o Arsenal ia cair debatendo-se, […] até consegui perdoar-lhes por terem chegado tão perto e terem estragado tudo: eram novos e tiveram uma época fantástica, e um apoiante não pode pedir mais do que isso. […] Fiquei entusiasmado quando o Arsenal marcou um golo logo no início da segunda parte, […] mas no final o Liverpool parecia estar cada vez mais forte e a conseguir criar cada vez mais oportunidades, e, por fim, quando o relógio do canto da televisão mostrou que os 90 minutos tinham passado, preparei-me para exibir um sorriso corajoso por uma equipa corajosa. […] De repente, no último minuto do último jogo da época, o Thomas ficou sozinho e com uma boa hipótese de fazer o Arsenal ganhar o campeonato […] e aí eu achei que me estava a controlar, a tirar uma lição dos recentes lapsos de ceticismo enfurecido e a pensar, bem, pelo menos chegámos perto do fim, em vez de pensar, Michael, por favor, Michael, marca o golo, meu Deus, só espero que ele marque o golo. E a seguir ele deu uma cambalhota e eu caí redondo no chão, e toda a gente na sala saltou para cima de mim, dezoito anos, totalmente esquecidos num segundo. […] Não me lembro de mais nada que tenha cobiçado durante duas décadas, nem me lembro de mais nada que tenha desejado tanto em rapaz como em homem. Portanto, espero que sejam tolerantes para com aqueles que descrevem um momento desportivo como o seu melhor momento de sempre. Não é por falta de imaginação, nem por termos vidas tristes e estéreis; é que a vida real é mais pálida, monótona, e contém menos potencial de delírio inesperado”.
Na quarta-feira, nada disto aconteceu. Empatámos com o Arsenal, que jogou com medo de perder e, não, não se merece ganhar quando não se está disposto a perder tentando. O Arsenal descrito por Nick Hornby, o Arsenal de George Graham, não é o Arsenal do Mikel Arteta ou só o é por simples coincidência. Leio no “Expresso” desta semana que Thomas Gronnemark, especialista em lançamentos de linha lateral, depois de contratado pelo Liverpool [de Klopp] e pelo Bretnford, é, agora, consultor do Arsenal, que tem em Nicolas Jover, treinador de bolas paradas, um dos principais ídolos dos seus adeptos. O Arsenal é a equipa que marca mais golos de bola parada, levando 16 só nos pontapés de canto. Sem risco, sem imaginação, qual é a diferença entre o futebol jogado com onze jogadores de cada lado ou o futebol jogado na “playstation” com um jogador de cada lado? A idolatria do futebol do Barcelona de Pepe Guardiola deu nisto: não há espaço para o Pelé, o Maradona, o Messi ou o Cristiano Ronaldo, os heróis, os verdadeiros heróis, são os treinadores. Se isto não é um aborrecimento, uma chatice, vou ali e já venho.
[Michael Thomas jogou pelo Benfica na época 1998-99, nos tempos divertidamente inigualáveis do Vale e Azevedo. Foi descrito como dispondo de “big balls pelo seu treinador Graeme Souness, como forma de justificar ou compensar a sua falta de jeito para jogar à bola]
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