quinta-feira, 4 de abril de 2019

Foi você que comparou o João Félix ao Bruno Fernandes?

Este era o jogo de época para o Sporting, afirmavam os jornalistas e comentadores em todo o lado. Para o Benfica era um jogo a feijões, depreendia-se desses comentários e dessas análises. Os títulos são mais do que muitos esta época e mais um menos um não fazia grande diferença. Há títulos todos os dias e em todos os jornais: a tática de Bruno Lage, a maior descoberta depois da prensa de Gutenberg, ou o menino Félix, um fenómeno que só tem paralelo num melro branco e num ovo de oitocentos gramas encontrados no Entroncamento, e milhões, muitos milhões de euros. A maioria dos portugueses sabe que não se consegue ultrapassar mil euros por mês quanto mais tantos e tantos milhões de euros em noventa minutos. 

O Keizer percebeu desde o início que não era possível ultrapassar tantos milhões de euros e preocupou-se em, pelo menos, não se deixar ultrapassar por eles, repetindo a tática que tão bons resultados tinha dado no último jogo contra o Braga. Com bola, a equipa jogou com três defesas – Coates, Mathieu e Borja -, permitindo que o meio-campo jogasse mais adiantado e sem referência na saída para o ataque e obrigando o Bruno Gaspar a atacar e a recuperar para fazer de defesa direito quando o Benfica atacava. Do lado esquerdo, o Acuña não tinha a responsabilidade de recuar da mesma forma, jogando como médio e extremo esquerdo. Com três defesas para dois avançados – Seferović e João Félix – e o meio-campo mais avançado, o Sporting pôde pressionar mais alto e sem sofrer calafrios nas transições ofensivas do adversário. Esta tática surpreendeu o Benfica nos primeiros vinte, vinte e cinco minutos, que, com os médios e defesas pressionados, não conseguia organizar o seu jogo e, em particular, os seus jogadores não dispunham nem de espaço nem de tempo para colocar a bola na frente, no Seferović, para construírem a partir daí. O Sporting carregou mas foi inconsequente, em especial quando o Gabriel enfiou uma biqueirada no calcanhar do Raphinha e nos deixou numa situação de três contra dois com a bola a ser conduzida pelo Bruno Fernandes na zona central, o que costuma ser meio golo. 

Dadas as dificuldades do Benfica em jogar, o árbitro diligentemente começou a ensarilhar o jogo. Uma falta aqui, outra acolá, um encosto que é falta para logo a seguir outro o não ser, um cartão amarelo agora e outro passado algum tempo à equipa contrária para compensar. Nos últimos minutos da primeira parte deixou-se de jogar futebol para se assistir a uma sinfonia desafinada de apitos e aos “moches” entre jogadores e o árbitro, com o Bruno Lage a assoprar ao ouvido do quarto árbitro. Para atingir o mais alto nível de disparate na escala de Mota, o árbitro resolveu mostrar um amarelo ao Gudlej num lance que nem falta foi. 

Na segunda parte, o Benfica pareceu entrar melhor, mas há Bruno Fernandes e quando há Bruno Fernandes não há mal que sempre dure. Arrancada pelo meio-campo fora até ser derrubado à entrada da área por uma entrada de carrinho por trás do Pizzi. A contragosto foi marcado o livre, embora o amarelo tenha ficado no bolso porque a falta não foi do Ristovski. Um livre daqueles na biqueira das botas do Bruno Fernandes é um “penalty”. O seu remate transformou a bola num Tomahawk que embateu na barra, com o Svilar a atirar-se para fazer que fazia alguma coisa. O Sporting ganhou moral e continuou a carregar. Sai o Bruno Gaspar e entra o Ilori, começando-se a antecipar uma defesa a três para o quarto de hora final, que se concretiza minutos depois com a saída do Borja e a entrada do Diaby. O jogo estava encanzinado e, nestas circunstâncias, só se resolve se o melhor jogador em campo o resolver. O melhor jogador em campo era o Bruno Fernandes e, portanto, só o Sporting podia ganhar aquele jogo. 

Quando se deslocava para o meio, o Bruno Fernandes estava sempre rodeado de dois ou três jogadores do Benfica. Até que, depois de uma pressão alta, a bola sobrou para o lado direito para o Bruno Fernandes que ficou com a possibilidade de jogar um contra um contra o Grimaldo. O um contra um do Bruno Fernandes transforma-se sempre num um contra zero, com o Grimaldo a procurar tapar-lhe o lado de fora, o do seu pé dominante, o direito. O Bruno Fernandes fez-lhe a vontade e passou-o por dentro, enfiando de seguida com o pé esquerdo um novo Tomahawk ao ângulo superior esquerdo da baliza, com o Svilar a atirar-se para fazer que fazia alguma coisa, sem que desta vez a trave o ajudasse. O Benfica reagiu de imediato e meteu o Taarabt, um rapaz que mal se mexia e que, depois de tocado por Bruno Lage, levantou-se e andou, enquanto o treinador continuou as suas tarefas de multiplicar os pães e os peixes, de curar leprosos e abrir estradas em macadame pelo meio dos mares. Enquanto o Taarabt organizava o jogo do Benfica, o Raphinha o Luiz Phellype e o Diaby ainda tiveram tempo para se atrapalharem mutuamente em duas jogadas, perdendo-se dois golos. 

Afinal, o jogo não era o jogo da época para o Sporting mas para o Benfica, tal a azia que se apoderou dos seus jogadores, treinador e presidente. Os jogadores desataram a correr atrás do árbitro, o Bruno Lage informou-nos que não se divertiu nada (pudera, ninguém se diverte quando perde), o Luís Filipe Vieira veio falar das arbitragens até ao final do campeonato, afirmando ao mesmo tempo que não estava a falar delas. Os comentários finais foram para nos desqualificar. O Benfica teve mais oportunidades de golo (?) e valeu-nos Bruno Fernandes. Espero que não se importem que joguemos com ele, dado que lhe pagamos o salário ao fim do mês. O Sporting é o Sporting de Bruno Fernandes, como o Ajax era o Ajax de Johan Cruijff, o Nápoles era o Nápoles de Maradona, o Real Madrid era o Real Madrid de Cristiano Ronaldo ou o Barcelona era (e ainda é) o Barcelona de Messi. Os génios são raros por definição. Quem os tem, não os desperdiça e coloca a equipa a jogar em função deles. O que não se compreende é que sendo o João Félix um génio, como todos afirmam, o Benfica não seja o Benfica de João Félix, prescindindo dele para entrar o Jonas com o jogo e a eliminatória por resolver.

28 comentários:

  1. Então e a azia dos comentadores? Desconfio que o Pedro Henriques e o Paulo Catarro não pregaram olho.

    Os tipos da CMTV também não mas foi porque passaram a noite à procura de uma desculpa para o Rafa ter feito aquela figura. Cá para mim ainda volta a jogar mais cedo que o Ristovski.

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    1. Meu caro,

      Não tenha dúvidas. O Rafa não entrou de sola nem ficou com um alto na cabeça. Não há razão par ser castigado.

      SL

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  2. Este textozinho tem aqui pano para mangas no que a chapadas de luva branca diz respeito. É quase uma espécie de catálogo. E faz-me lembrar a cena de porradaria descrita no fado do Xico Maravilhas.
    Resumindo: como se costuma escrever, no dias de hoje, isto é, nos das redes sociais: Gosto!!
    E, já agora, obrigado Rui.
    SL

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  3. Boa análise do jogo, concordo com tudo e keiser deu uma lição de tactica ao iniciado dos rabolhos, temos e que definir melhor no último passe , e aproveitar melhor as bolas paradas, cantos e livres descaídos para os cantos, ontem tivemos oito ou nove cantos e foram muito mal marcados

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    1. Caro Carlos Almeida,

      Os problemas do Sporting estão mesmo aí: na má definição final das jogadas e no aproveitamento das bolas paradas. No primeiro caso, continuamos a cruzer bolas mais ou menos ao acaso. No segundo, o problema vem de há longos anos que nem o Jorge Jesus conseguiu resolver. São cantos atrás de cantos sem ponta de perigo sequer.

      SL

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Isto do Google+ já não é como dantes! E eu e a informática "ça fait deux"!
    Já não via um Sporting-benfica pela TV há muitos anos e este era, por isso, o "meu" jogo.
    Para falar do jogo teria de fazer um copy&paste do texto do meu caro Rui Monteiro. Pouparei quem me esteja a ler porque até fazendo cópia me arriscava a introduzir erros!
    Acho que os jogadores do benfica têm uma tendência muito grande em se atirarem para o chão à espera da intervenção do árbitro. Não afirmo nem desminto que tal esteja ligado às directivas do Sr Lage até porque, que me lembre, sempre foi assim. Quase poderia dizer a marca do relógio do Sr Lage tantas foram as vezes que o vi mas não sou de publicidades gratuitas.
    Não gostei da maneira como os comentadores da RTP (serviço público) deram largas às suas tristezas e até fiz o esforço de esperar o Jornal das 24 para ver se tinham recuperado. E tive que esperar bastante tempo. Se não soubesse já o resultado teria concluído que o benfica não ganhou. Sobre o Nuno Miguel acho que ainda vai ter de crescer muito para se equiparar (em classe) ao Mota (cortador de carnes).
    Nos meus sonhos levezinhos vi o Sérgio Conceição a submeter o Casillas a um treino intensivo para defesa de lançamentos do ponto de penalty.

    SL e parabéns ao Sporting (e ao Rui Monteiro)

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    1. Meu caro,

      Impressionaram-me muito os comentários da RTP1, especialmente do Tadeia. Admito que considere que o Sporting estivesse a jogar pouco. O que não parece honesto intelectualmente é que não dissesse ao mesmo tempo que o Benfica não estivesse a jogar rigorosamente nada.

      SL

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  6. Crónica brilhante... como quase todas nesre blog ;)

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  7. Sr.Rui Monteiro,
    Excelente como sempre. Ainda um dia gostaria de o ver aqui a abordar a comunicação oficial do nosso SCP, é que ontem levamos 5-0

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    1. Obrigado Nuno Casaca. Um dia destes falaremos da comunicação ou da falta dela.

      SL

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  8. É tão bom ser sportinguista. Ele é o andebol,o hoquei,o volei, o futsal ...e finalmente o futebol (depois da valente mocada que nos deixou a todos azerzoados), ele é o não deixar cair o clube.
    É tão bom ser sportinguista.

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    1. Meu caro,

      Há muitas e boas razões para se ser do Sporting. Quando nos esquecemos delas, basta um jogo com o Benfica para nos lembrarmos.

      SL

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  9. L'insoutenable légèreté do génio de Rui Monteiro. Que a voz não te esmoreça...

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  10. Caro Rui,


    Como sempre, empalidecemos perante a sua capacidade de relatar o que aconteceu.

    Gostava de conseguir escrever uma coisa destas, vou continuar a insistir.

    Um banho de Sportinguismo.

    Um abraço,
    Picareta Oceano

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    1. Meu caro,

      Obrigado pela referência. Não sei se não escreve tão bem ou melhor, mas sei que percebe bem mais de futebol do que eu.

      Um abraço

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  11. "Afinal, o jogo não era o jogo da época para o Sporting mas para o Benfica, tal a azia que se apoderou dos seus jogadores, treinador e presidente." Sem tirar nem pôr. E os adeptos até à hora de almoço na 5ªf andavam mais ou menos conformados, mas depois começou a der distribuida a cartilha e foi um descambar de ódio, até afirmavam que o BG cuspira no Rafa. Enfim, mal habituados e mau perdedores como sempre.

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    1. Caro Francis,

      Estes jogos têm o extra de os adversários estarem convencidos que o ganharam ainda antes de o jogar. Quando perdem, não sabem como o explicar. Todas as histórias, verdadeiras ou falsas, servem.

      SL

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  12. Realmente foi este jogo que vi muito bem "desenhado" pelo Rui Monteiro. Não tenho mais nada a dizer.
    Tenho...não pude ir a Alvalade, vi o jogo na RTP sem som. Ao lado da minha casa há um café onde o pessoal vai ver o jogo, maioritariamente benfiquista. Na quarta feira a maioria era Sportinguista e quando do golo o café quase veio abaixo. A minha companheira que não segue futebol vem da cozinha a correr e atira : golo do Benfica?

    João Balaia

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    1. Caro João,

      Costumo ver os jogos no café da esquina. Faço um enorme esforço de autocontenção. Na quarta-feira, como o jogo deu na RTP, pude largar o “hooligan” que há em mim. Tenho a certeza que não houve ninguém no prédio que não tivesse ficado a saber quando foi o golo do Sporting!

      Um abraço

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  13. João Félix / Bruno Fernandes
    Comparação só na cabeça do LFV, dono do aviário. Bruno tem uma carreira com alguns anos em Itália, capitão da seleção dos sub 21, jogador feito.
    João Félix ainda agora começou, tem pinta e pode ir longe mas estas comparações com Bruno Fernandes e ate com Cristiano Ronaldo(?) são prejudiciais.
    Fernando Santos embarcou na propaganda "ABorlesca" e vá de convocar o miúdo. Gelson que brilha no Mónaco tem mais currículo, ate Rafael Leão.
    O Engenheiro ou deixa de ver essa Imprensa ou vai, como dizem os brasileiros, "entrar pelo cano". A sorte não dura sempre e a Senhora de Fátima tem outras preocupações.

    Ps: desejo toda a felicidade do Mundo ao João, meu conterraneo, filho de professores muito simpaticos.

    João Balaia

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    1. Caro João,

      A comparação não favorece o João Félix. Não se pode comparar um projeto de jogador com um jogador feito e que joga ao mais alto nível há alguns anos. Quem acaba por pagar é o jogador, relativamente ao qual são criadas expetativas que não tem condições de cumprir no curto prazo. A propaganda é no que dá: mais um jogador talentoso, como o Renato Sanches, a quem o futuro poderá não sorrir por não lhe darem tempo para se afirmar.

      Um abraço

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