sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

As crianças não choram

Um verdadeiro sportinguista, um sportinguista que se preze, sofreu a bom sofrer trágicas eliminatórias europeias. Mas as tragédias não são todas iguais, umas são mais iguais do que outras. Por exemplo, as tragédias contra o Barcelona, em 1986, ou o Real Madrid, em 1994, não são da mesma natureza das tragédias contra o Rapid de Viena, em 1995, ou o Basaksehir, ontem. Nas primeiras, à enorme desilusão associa-se o reconhecimento de bom desempenho dos jogadores e da equipa; nas segundas, nem sequer desilusão existe, existindo, isso sim, raiva, muita raiva a nascer-nos nos dentes.

Esta eliminatória, contra o Basaksehir, constitui um manual da arte de cavalgar a toda a sela do Portugal dos pequeninos, do cada um que se desenrasque, da incompetência e falta de planeamento. Depois de estarmos a ganhar por três a zero na primeira mão, resolvemos dar a bola ao adversário, recuar e meter o Doumbia, para jogarmos na retranca, tática portuguesa que consiste em colocar os mais altos e fortes em posições razoavelmente indefinidas no meio campo e na defesa, esperando que atrapalhem os adversários. Podia-se ter aprendido alguma coisa, mas, para se errar melhor, é preciso errar sempre. 

Ontem, a equipa do Sporting iniciou o jogo recheada de táticas, muitas táticas. As táticas foram tantas que ainda agora não se sabe se o Sporar jogou a ponta-de-lança e qual a posição do Bolasie no campo. Plano, estratégia de jogo é que não existia ou, então, tratou-se do habitual deixa andar, deixa o tempo correr na expetativa de que o adversário esteja disposto a fazer o mesmo. Sem objetivos, sem saberem se e quando era para atacar ou defender, os jogadores não sabiam muito bem o que fazer, não conseguindo trocar a bola entre si e sucedendo-se ressaltos, passes mal feitos e constantes perdas de bola. Como diria o O'Neill, o Sporting era uma coisa em forma de assim. 

Ao intervalo, o plano do deixa andar tinha cumprido o seu (habitual) destino. Esperavam-se mudanças, de jogadores, de atitude, de vontade, de táticas, de qualquer coisa, mas nada, voltando a paz dos cemitérios na segunda parte. Não dei o tempo por perdido, tendo continuado a ajudar o neto do dono do café onde vi o jogo a fazer os trabalhos de casa, tarefa a que me tinha dedicado após o segundo golo sofrido. Quase um quarto de hora depois, o Silas viu a luz e fez o óbvio ululante, tirando o Bolasie para meter o Plata, e o jogo mudou. Os jogadores passaram a dispor de um plano, marcar ao adversário. O Vietto levou tão a sério esse plano que marcou de cabeça, o que não deixa de ser uma contradição nos termos: Vietto, cabeçada e golo numa só frase não costuma fazer grande sentido, mesmo que se acrescente Acuña e centro. 

Por cima na eliminatória e emocionalmente, o Silas voltou a ser o Silas e voltou a mais um tática, à tática do vamos aguentar, que tão bons resultados tinha proporcionado na primeira mão, tirando o Jovane Cabral para meter o Doumbia. A partir desse momento, instalou-se o caos, ninguém mais sabia bem qual era a sua posição - no lado esquerdo passaram tantos jogadores que nem cheguei a perceber quem era suposto ocupar aquela posição -, se atacava, se defendia. Para arriscar e marcar o terceiro golo, não foi preciso a equipa do Basaksehir partir o jogo: o Sporting encarregou-se de o fazer. Antes do canto que origina esse golo, em contra-ataque – sim, perceberam bem, em contra-ataque -, os adversários ficaram em igualdade numérica com a nossa defesa e valeu São Coates. 

Antes do canto ainda, o Silas inventa mais uma tática, a tática do vamos meter mais um para a molhada, tirando o Wendell e entrando o Eduardo. Ainda há um primeiro cabeceamento a aliviar, mas a equipa não avança para pressionar a circulação da bola e obrigar a recuar os adversários e ela vai para o lado esquerdo do ataque, onde tinha ficado em desvantagem o Ristovski, para um adversário rematar pelo meio de duas dezenas de jogadores que se amontoavam na pequena área e suas imediações e à frente do Max. 

Depois deste soco no estômago, com vários jogadores estafados e três tristes trincos em campo, o prolongamento servia para selar o destino. Não se pode dizer que se tenha jogado pior do que o adversário durante esse período, mas a tremedeira, o nervoso miudinho perante qualquer ataque adversário constituía o seu prenúncio e, a um minuto do fim, mau alívio, Vietto no sítio errado, à hora errada, “penalty” e fim da crónica de uma derrota anunciada. 

Este jogo tinha contornos diplomáticos complexos no contexto da atual geoestratégia internacional. Pretender ganhar a eliminatória com o Ilori, o Bolasie ou Eduardo parecia exagerado e, sobretudo, desrespeitoso para com o adversário e, em particular, o Erdogan, seu adepto mais destacado. Mas talvez o que melhor explique este resultado seja esta anedota bem conhecida: “O pai leva a filha ao seu trabalho. Chegada, desata a chorar, perante a estupefação do pai e dos seus colegas. Filha, o que tens?!, pergunta-lhe o pai. Pai, onde é que estão os palhaços que dizias que trabalhavam contigo?”. No Sporting, pelo menos as crianças não têm razão para chorar.

16 comentários:

  1. Caríssimo Rui, Excelente Crónica, valha-nos isso ! Abraço SL

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    1. Meu caro Gil,

      Obrigado. As coisas estão a ficar demasiado deprimentes para se conseguir arranjar maneira de as ironizarmos e nos divertirmos com elas.

      SL

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  2. Caro Rui Monteiro,
    Desta vez é impossível não falar de Silas. Preparou muito mal o jogo, porventura terá dito aos jogadores que os turcos formavam uma equipa temível e assim os nossos jogadores entraram receosos, com excepção do Bolasie que esperava que a bola fosse ter com ele. Do outro lado, o Jovane parecia uma barata tonta e o Sporar andou quase sempre perdido, mas fica a sensação que não tinha grande culpa, nessa perdição. Não vou falar mais dos jogadores, ou dos excurcionistas a Constantinopla, como alguém já lhes chamou, pois, para mim e para muitos (creio que mais que muitos), o grande responsável, por este desastre anunciado, é o homem do leme, sim o fulano da gabardine. Infelizmente, tudo indica que vêm aí mais desastres, a caminho do record de derrotas, numa época futebolística. Disso tenho poucas dúvidas, já tenho mais dúvidas se o fulano da gabardine, vai manter o treinador estagiário e incompetente, chamado Silas, ou vai substitui-lo, para tentar manter o 4ºLugar, encontrando mais um treinador provisório ou se avança, já, para um definitivo para preparar e planear a próxima época. No entanto, com a estrutura invisível, aparentemente inamovível, qualquer treinador definitivo terá aroma de provisório. Também me assalta a dúvida se será preferível não preparar a próxima época, é que o tonto do Sousa Cintra e o inefável Peseiro, improvisaram e fizeram melhor serviço do que o fulano da gabardine que andou a planear, com grande competência, com 6 meses de antecedência, o desastre, ainda em curso. Alto, estava a esquecer-me que o grande objcetivo desta época é colocar a escumalha das claques no seu devido lugar e descalça. E como o fulano da gabardine é muito exigente com ele mesmo, vai manter-se focado nesse grande objectivo. O resto é acessório.
    As crianças poderão não chorar mas resta saber se os jovens, adultos e seniores conseguem (ou não) vestir uma gabardine de indiferença a tanta mediocridade. Mais uma dúvida.
    SL

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    1. Meu caro,

      O que choca no Sporting (e nos outros clubes também, mas nota-se menos) é o amadorismo. Num clube de orçamento de dezenas e dezenas de milhões de euros, qualquer um se dispõe a dirigi-lo e qualquer um serve para treinador da sua equipa principal de futebol. Não se vês nada disto em outra profissões ou, pelo menos, não se vê nada disto nestas proporções.

      SL

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  3. Caro Rui,
    Um sportinguista não chora nem que o árbitro (Matteo Lahoz, bem conhecido por aqui) tenha marcado uma grande penalidade que eu não vi!

    SL

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    1. Caro Aboím Serôdio,

      O "penalty" é manhoso, sobretudo quando comparados com os dois que ficaram por marcar a nosso favor na primeira mão. Também levámos um primeiro penalty na primeira mão que ninguém se lembra de o ver. Mas, bolas, temos de ter um treinador que saiba preparar os jogos e saiba fazer substituições!

      SL

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  4. Caro Rui,
    Grande texto ! Como sempre!
    Tem razão. Perante a posição recente de Erdogan sobre o acesso às fronteiras da UE, considero que o nosso SCP procurou , de forma amadora, ter uma visão diplomática do confronto na liga Europa.
    Faço uma sugestão ao exmo Erdogan (com a devida vénia): contrate Jesé , bolasie, rosier , Borja, illori, wendell, Eduardo, Doumbia.
    O Silas já chegou ao capítulo das substituições nas aulas do curso? Essa matéria é dada em que módulo?
    SL
    Paulo.

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    1. Caro Paulo,

      O Erdogan não é para brincadeiras. As coisas estão como estão depois da vitória da equipa dele, imagine depois da derrota!

      Os "powerpoints" que deram ao Silas no curso de treinador ainda não chegam a esta parte da matéria. Ainda por cima, ele falta muito às aulas.

      SL

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  5. Saltando por cima da táctica e da (falta de) qualidade de jogo,
    num qualquer outro mundo, ou o penalty da 1ª mão não tinha acontecido, ou a nossa bola à trave em cima do fim do jogo tinha entrado, ou o golo aos 90+2 não tinha entrado, ou o penalty no fim do prolongamento não tinha acontecido.
    Em qualquer mundo normal, pelo menos um destes 4 eventos não tinha ocorrido. Pelo menos um deles, quiçá mais que um.
    Mas neste mundo com o Sporting as coisas não são normais. Todas as tragédias Sportinguistas englobam uma série de eventos improvavéis que contrariam qualquer analista de estatísticas treinado. O Sporting é o paradoxo, é o ponto fora do gráfico, é o lugar onde os deuses brincam com o Homem para magoar, é o absurdo a correr atrás de si próprio. É o lugar onde todo o inverosímel se manifesta, é a prova que nada no mundo é impossível porque há um lugar onde todo o inverosímel se manifesta. É a luz do mundo para provar que tudo é possível. É isso, somos a luz do mundo.

    "Qualquer destino, por mais longo e complicado que seja, vale apenas por um único momento: aquele em que o homem compreende de uma vez por todas quem é.”
    -- Jorge Luis Borges.

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    1. Meu caro,

      Excelente comentário! Há uma dimensão trágica na nossa existência como sportinguistas. Não é um problema de azar ou de probabilidades que têm vida própria, é um problema de existência, da nossa existência trágica.

      SL

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  6. Caro Rui Monteiro,
    Se o Sporting contratar Ruben Amorim, pagando milhões, a Salvador, como a CS está, constantemente a noticiar, as crianças do Sporting também vão chorar. Eu, que, há muito, que não sou criança, não vou chorar mas vou ficar muito irritado com o fulano da gabardina.
    SL

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    1. Mesmo que corra bem, é um acto de gestão tresloucado, que só revela a pouca consideração que estes dirigentes têm com o clube, os sócios e os adeptos. Mas temo que não tenha como correr bem. Não tanto pelo treinador, mas por tudo o que está à volta dele.

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    2. Meu caros,

      Há coisas que não se compreende, sobretudo porque ninguém se dá ao cuidado também de as explicar. O Rúben Amorim é o melhor treinador do Mundo? Há qualquer coisa que não se saiba sobre ele que o classifique como tal?

      Sem mais, trata-se de um ato desesperado de quem pretende sobreviver a todo o custo. É uma loucura. Ainda por cima, com este clima, não auguro grande futuro ao Rúben Amorim mesmo que se trate do melhor do Mundo.

      SL

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    3. Caro Rui Monteiro

      Escreveu, há pouco:"trata-se de um ato desesperado de quem pretende sobreviver a todo o custo." Que Varandas e Cia querem sobreviver a todo o custo não há dúvidas mas o que eu não entendo é como é que esta "jogada" os vai ajudar. O "ainda não treinador Amorim" até pode ter jeito para o "métier", não sabemos, não há como comprovar, mas assumindo que é esse o caso, Amorim não vai conseguir fazer omeletes sem ovos e para além disso, no Sporting, vai enfrentar as arbitragens habilidosas, contra ele, algo a que não está habituado. Varandas está a desencadear tempestades e a sua famosa gabardina vai ser insuficente para o imopedir de ficar encharcado, ou mesmo afogado, passe o dramatismo. Eu já não sei o que dizer acerca de Varandas, mas acreditando que ele é uma pessoa séria, só posso concluir que é um débil mental.
      SL

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    4. Meu caro,

      Tem toda a razão. Esta contratação vai-se virar contra ele e enterrá-lo ainda mais.

      A única explicação só pode resultar de alguma teoria da conspiração. O Varandas não tem noção e alguém sabendo disso, a mão por trás do arbusto, conduz-lo a este disparate que ajuda a enterrar o Sporting de vez. Um Mendes qualquer pode estar interessado em acabar com o Sporting. Também dá ideia que era preciso dar dinheiro ao Braga, porque andava necessitado por alguma razão, e esta foi a melhor maneira que se arranjou.

      SL

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