quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Gone with the wind

As coisas são como são e acontecem porque têm de acontecer. Nem o Clark Gable, nem a Vivien Leigh conseguiram fugir às suas circunstâncias. O Peseiro não conseguiu fugir às suas circunstâncias sendo que a principal é ele próprio, com as suas idiossincrasias. O jogo de ontem, contra o Estoril, é o Peseiro, nem mais, nem menos. A equipa do Peseiro 1.0 era irregular, tanto jogava bem como mal, tanto ganhava e goleava como perdia com qualquer equipa de pernetas. Mas era uma equipa de ataque. O objetivo era sempre marcar pelo menos mais um do que o adversário. O resultado final foi o “quase”, que nos marcou e a ele também. 

O Peseiro 2.0 é o do passado mas mais hesitante ainda, resultante desse passado: quer atacar como no passado mas quer manter a segurança defensiva para não cometer os erros do passado. O duplo pivô é filho do passado do passado. É a tentativa de construir a quadratura do círculo: o Peseiro do passado acrescido da experiência passada do Peseiro. O resultado nem é uma coisa nem outra. O Sporting ataca pouco e mal e continua desprotegido atrás quando perde a bola. O duplo pivô resulta da falta de convicção e da hesitação sobre o modelo de jogo. Não é uma tática, é a falta dela, é um fetiche, para que ninguém diga que o Peseiro 2.0 não aprendeu com o Peseiro 1.0. 

O jogo de ontem, contra o Estoril, tornou claro, para quem não queria ver, os equívocos e as hesitações do Peseiro 2.0. Para azar, o Sporting fez um a zero muito cedo, fruto de uma boa pressão do Bas Dost e da sagacidade do Wendel na compreensão do lance e na interpretação em conformidade. A ganhar por um a zero, a equipa ficou sem guião. Era para atacar ou para defender? Era para controlar o jogo e isso era exatamente o quê? Deixar passar o tempo? O Sporting foi sempre uma equipa perdida, sem objetivos. Atacava sem convicção e, quando perdia a bola, continuava descompensada atrás. Que sentido tem jogar com o duplo pivô (sobretudo tão estático, dado que nem Petrovic nem Gudelj se chegam à frente por uma vez que seja), quando na construção de jogo são tanto jogadores que se atrapalham e quando se perde a bola não se consegue parar um contra-ataque? Existe uma terra sem dono entre o ataque e a defesa que, com tantos jogadores na intermediária, ninguém consegue ocupar. 

Se a equipa estava praticamente sem guião, com menos guião ficou com a dupla substituição aos sessenta minutos. A indicação do treinador para equipa que estava em campo foi inequívoca: este é um jogo-treino! Só num jogo-treino é que se fazem substituições aos pares porque não há limites para elas. A dupla substituição só faz sentido num jogo a sério quando se pretende mudar radicalmente o jogo e dar uma sacudidela na equipa. Ainda se percebe a substituição do Bas Dost pelo Montero, na perspetiva da gestão do esforço. O que não se percebe é a substituição do Jéfferson pelo Lumor. O Jéfferson nem sequer devia ter entrado. Entrou porque o Peseiro não consegue ver o que qualquer mortal vê há muito tempo. Não sabemos se o Lumor é bom, mas sabemos seguramente que nunca será pior do que o Jéfferson, porque pior do que o Jéfferson não há. A substituição foi para queimar o Jéfferson? Só pode ter sido, mas diz mais de quem o mete a jogar do que do próprio jogador. 

Com a lesão do Wendel e a (necessária) entrada do Bruno Fernandes, o Sporting ficou sem plano B para qualquer eventualidade. Como de costume, o Bruno Fernandes, sem o Nani em campo para parar o jogo e obrigar os colegas a organizarem-se, passou a andar a correr para trás e para a frente, até ficar com um torcicolo de tanto olhar para a bola que lhe passava por cima. E o pior aconteceu. O André Pinto teve um daqueles dias que não se deve sair de casa e, num ápice, ficámos a perder por dois a um e sem plano B que se vislumbrasse. O plano B que se arranjou foi avançar um central para ponta-de-lança e apostar no chuveirinho. Mas até nesta contingência se viu a incompetência do treinador. Avançou o central mais baixo e mais rápido e ficaram atrás os mais altos e lentos, não se ganhando uma bola de cabeça na frente e expondo a equipa a novos contra-ataques e a sofrer mais golos. 

Se o Peseiro tivesse brio profissional, viria assumir os seus erros, insuficiências e responsabilidades. Nada disso aconteceu. Procurou transformar a anormalidade em normalidade, no novo normal. Não se demitiu como devia. Mas o Peseiro há muito que não vive da profissão de treinador. Vive de créditos passados (que se desconhecem), da condescendência como são tratados pela imprensa e opinião pública certos treinadores e do ciclo contratação-despedimento-indemnização que se renova todas as épocas por razões que a razão desconhece. Não se deve voltar onde se foi feliz e ainda menos onde se foi infeliz, esta é a lição para o Peseiro. “Loucura é continuar a fazer a mesma coisa e esperar resultados diferentes” (Einstein), seria a lição para o Sousa Cintra e a Comissão de Gestão, mas (felizmente para eles), não estão na direção do Sporting para a aprender. Por agora, temos o Tiririca do filho do Manuel Fernandes: pior não fica, restando-nos esperar que novos tempos virão (ou “vão vir”, como diria o Paulo Futre).

16 comentários:

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    1. Obrigado. Espero que não seja ironia pela extensão sobre uma personagem que não merece tantas palavras.

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  2. Claques 1- Varandas 0!
    O P0 lixou-se porque é benfiquista!
    Aconteceu o mesmo no Porto com o Paulo Fonseca.

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    1. Meu caro,

      Acho que é mais simples: Peseiro 0 - Sporting 0. O homem é um zero e as equipas que ele treina são zero. O resto são teorias da conspiração que pouco interessam. Jogasse a equipa melhor e não havia teoria nenhuma.

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  3. Então só perdeu por 1 e foi despedido? Depois do Dortmund em Alverca e Arsenal e Juventus do Casino Estoril em Alvalade.
    Nem ele percebe...
    Segundo o Brás tem um déficit positivo ainda...

    Isto não se devia dizer, mas foi a melhor derrota da época na minha perspectiva.

    Que a estrelinha do Peseiro nos proteja nos Açores e o novo treinador ponha a equipa a jogar futebol rapidamente.

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    1. Meu caro,

      O Brás é que disse tudo: o Peseiro tem um défice positivo. É único no mundo.

      SL

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  4. A questão começa logo com o nível a que foi colocada a fasquia: "Temos equipa e vamos lutar pelo titulo". Conversa para "papalvos" não para mim. "Linear caro Watson": Nós não vamos ganhar nada, nem com Peseiro nem com qualquer outro, porque não temos plantel para isso. E desde o principio que se deveria ter dito que iríamos entrar numa época de reorganização e de estabilização onde ganhar alguma coisa seria excepcionalmente muito positivo. Como afirmei inúmeras vezes Peseiro não era o meu treinador, como Cintra não seria o meu director responsável na transição.
    Agora surpreende-me que, mais que a qualidade do jogo que se produz, não se analise a qualidade do plantel que se formou (também com alguma responsabilidade do Peseiro, sobretudo nas dispensas de jogadores da casa) o qual, à excepção de 5 ou 6 jogadores de 1º plano, é de mediana ou mediocre qualidade. Por exemplo: Aquela 2ª equipa do Sporting, em plantel não é superior em qualidade à 1ª equipa do Estoril, ainda por cima mais rodada e competitiva (ocupa um dos primeiros lugares da 2ª Liga e estas equipas de topo da 2ª Liga tem valor equivalente às das últimas 4 ou 5 da 1ª Liga). E sobre isso Peseiro nada podia fazer. Mas concordo em absoluto com a utilização desta 2ª equipa do plantel para a Taça Lucílio Baptista. Eles não prestam mas estão lá para jogar, o que só pode acontecer nesta prova e nas eliminatórias da Taça mais acessíveis.
    Não tendo defendido a contratação de Peseiro, e ter sido apoiante de Varandas, parece-me extemporâneo o despedimento sobretudo sem uma forte alternativa na mão. E quem paga são sempre os adeptos e os associados...

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    1. Caro Vítor Cruz,

      Estava à vista de todos que a equipa com o Peseiro não evolui nem evoluirá. A possibilidade de se fazer uma época miserável com ele era elevada, com o consequente desgaste da direção e do ânimo dos adeptos.

      À primeira vista, para o Presidente, a solução mais cómoda seria mantê-lo. Agora, se ele percebeu que o Peseiro não sabe sequer treinar como se deve, é melhor intervir agora do que mais tarde, quando tudo estivesse perdido e se perdesse uma época sem sequer se criarem bases para a próxima. Para quem conhece o meio, é mais simples do que parece verificar se os jogadores acreditam minimamente no treinador ou não. É que se não acreditam não há nada a fazer.

      Não sou favorável aos despedimentos a meio da época. Só fui favorável a dois: este e o do Paulo Sérgio. Com o Paulo Sérgio era muito evidente também a impotência e a incompetência. Nestes casos, independentemente da solução, mandá-los embora é bom em si mesmo.

      SL

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  5. Ficou claro que Varandas foi influenciado por meia duzia de cromos com retalhos brancos na mão(não percebi se eram lenços ou cortes de papel higiénico). Como diria Lenin : Que fazer?
    Varandas não tinha nenhum treinador em carteira, o Sporting vai fazer 2 jogos importantes com o adjunto do adjunto.
    O titulo da Liga que ja era uma miragem....... findou.
    Quem há muitos anos segue o Sporting já viu este filme rasca demasiadas vezes.
    SL

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