Vou falar de um amigo. É difícil falar de coisas simples sem parecer piroso. Vêm-nos à memória frases batidas. O Sérgio Godinho inventou-as e a minha geração descobriu-as com as suas canções, percebendo, assim, o que sempre esteve à sua frente.
O Agostinho é um amigo, dos pouco, muito poucos que a vida me proporcionou. Conhecemo-nos em Lisboa, no Instituto Superior de Agronomia. Eu estudava agronomia e ele arquitetura paisagista. Anos depois, reencontramo-nos em Braga, onde passámos a viver. Sou padrinho da sua filha do meio, a Carolina, a melhor amiga da minha filha Ana.
Agora vemo-nos menos. Foi viver para Chaves, a sua terra natal. Encontramo-nos para um almoço ou um jantar e telefonamo-nos uma ou outra vez. Como sempre acontece com os amigos, cada reencontro é o regresso a uma conversa inacabada. Costumo enviar-lhe as minhas crónicas, mas raramente falamos sobre elas. O futebol interessa-lhe mas não muito. Há dias enviou-me um breve texto sobre essas crónicas. Não o conseguia fazer no blogue. Pediu-me para o fazer. É esse texto que vos deixo. Este texto é o texto de um amigo. Diz mais sobre a amizade do que sobre as crónicas.
Eduardo Lourenço escreveu: «A cultura não tem outra realidade que a do diálogo que os atores dela - os poetas em sentido largo - travam entre si».
Atrevo- me a proclamar que aquilo que designamos por cultura, pode ser um veículo transmissor do que contribui para dilatar o nosso espaço de vida e que concorre para poder acontecer nalgum sítio de nós, um mundo onde dantes não existia nada.
De facto, a cultura não é só o passear de uma biblioteca debaixo do braço, ela é constituída fundamentalmente por um conjunto de ferramentas e códigos que nos permitem ler e compreender o outro e o mundo que nos rodeia, compreensão essa onde os livros desempenham um papel fundamental.
Sobram os dedos das mãos para contar as vezes que fui a um estádio de futebol, embora vibre com os golos da equipa Portuguesa e com alguns do Porto.
Essencialmente, para mim, o futebol não era muito mais que o diálogo quase sempre anedótico e repetitivo, às vezes aviltante, que os seus protagonistas estabelecem entre si. Considerava-o, fundamentalmente, uma atividade mercantil muito lucrativa para alguns e manipulada em função do lucro. Que era pouco mais que a invasão do espaço radio-televisivo com horas e horas de cansativos e intermináveis enredos.
Descobri um admirável mundo novo através das crónicas do Rui Monteiro. Descobri que o futebol era alguma coisa. Que a minha visão sobre o assunto era profundamente redutora e limitada. Que no fim de contas, existe uma narrativa aglutinadora e um conteúdo lógico que explica essa coisa. Que afinal e embora sendo um jogo, a sua componente estética pode extravasar a sua dimensão terrena e que a sua componente estratégica se pode assemelhar à demonstração de um teorema. Que não podemos ficar reduzidos a ver só a parte negativa da coisa. Que é preciso aprender a ler antes de fazer juízos.
Descobri que afinal o futebol tem potencial para quase poder ter alguns dos atributos da poesia e da música. Descobri que se pode escrever sobre ele utilizando o conhecimento doutros contextos. Descobri que até faz sentido incluir na escrita sobre o futebol, informação e conhecimento de outros saberes que quase transformam esta literatura sobre o futebol numa atividade “cultural”. Descobri que se pode escrever sobre futebol como quem escreve um ensaio. Nesse sentido, posso assegurar que sou hoje menos ignorante e portanto mais culto, porque compreendo agora um bocadinho daquilo que não sabia sequer que existia.
Claro que há quem continue a pensar que o futebol não deixa de ser o “outro” futebol, só porque o Rui escreve sobre ele com uma linguagem poderosa, rica, esteticamente sedutora e apelativa. Mas, mesmo esse outro lado, também é descrito, nas suas crónicas.
Este texto serve também para celebrar um daqueles números redondos dos blogues, dos milhões de leituras e visualizações. Lembra-nos que esses milhões de pouco servem se não se tiver um amigo de carne e osso, que não se troca esse amigo por milhões, quaisquer milhões. Que me dizem?