sexta-feira, 8 de março de 2024

Ocupação de tempos livres

Havia [e não sei se continua a haver] os campeonatos do Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres, ou INATEL, que substituiu a Fundação Nacional para Alegria no Trabalho, ou FNAT, do Estado Novo. Um jogo entre bancários, entre os do Banco Nacional Ultramarino e os do Banco Borges & Irmão, por exemplo, constituía uma oportunidade para levar os netos à bola e cavaquear com os amigos e antigos colegas de trabalho. As pessoas enquanto comunidades [auto] organizavam-se para a ocupação dos tempos livres e se relacionarem entre si. 

A transformação de tudo e mais um par de botas em entretenimento [este conceito onde tudo cabe, até a política ou a literatura] trouxe o mercado ou a economia para a relação entre as pessoas, entre pais e filhos, avós e netos, amigos ou colegas. No futebol, a UEFA e a FIFA dispõem do monopólio da organização da ocupação de tempos livres e da relação entre as pessoas [que deixam de ser pessoas para ser adeptos], às escalas europeia e mundial, respetivamente. A Liga Europa é um dos produtos desenvolvidos pela UEFA para esse efeito. Os [hipotéticos] vencedores encontram-se circunscritos e os jogos a meio da semana servem para diminuir o tédio ou a melancolia.   

O jogo [do Sporting] contra o Atalanta a meio da tarde de quarta-feira dispõe deste enquadramento. Vê-se um jogo destes quando se está na reforma e se acaba de ir buscar os netos à escola. Combina-se com os amigos da velha guarda umas bejecas e sandes de courato ou entremeada. No fim, bem, no fim ganha-se sempre, independentemente do resultado, ganha-se companhia, ganha-se alegria. 

Não estou reformado e, portanto, não vi o jogo [ou só vi os últimos dez minutos]. No final do dia, vi um resumo alargado [na televisão]. Dois ou três apontamentos ficaram na minha cabeça. A suprema humilhação de fazer engolir um golo do Paulinho ao lanche sem uma sandes a empurrar nem nada. A convicção de que, com a lesão do Adán, temos guarda-redes, isto é, temos um jogador com camisola diferente dos demais e a jogar a bola com as mãos à vontade. As hesitações são mais do que muitas; não sai à bola sempre que ela é metida por alto [num canto ou num qualquer outro centro]; a jogar com os pés constitui o principal avançado adversário. Para ser justo, também se precisa de dizer que tem reflexos e elasticidade excecionais. 

Com o empate, a eliminatória fica em aberto. Se a Liga Europa não interessa nem ao Menino Jesus, talvez mais valesse tê-la fechado, na quarta-feira ou na eliminatória anterior. Na perspetiva da ocupação de tempos livres, talvez sirva para uma excursão a Bérgamo. Há muito para ver, para visitar, assim os netos estejam para aí virados.

[Continuo a cumprir a minha missão, jogo a jogo, crónica a crónica. Não há cansaço, não há lesões, não há desculpas]   

9 comentários:

  1. Rui Monteiro
    Ainda bem que vai continuar a sua missão, crónica a crónica.
    Quando esteve ausente durante um longo tempo, foi um vazio que se criou na minha condição de sportinguista!
    Pode crer, as suas cónicas fazem parte insubstituível da minha alma leonina!
    insubstituível
    SL

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    1. Obrigado, Carlos Antunes. Vamos ver se o Sporting nos dá razões para continuar a escrever estas crónicas.
      SL
      RM

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  2. Faço minhas as palavras do Rui e Carlos acrescentando que a Liga Europa também serve de "prova do algodão" de confirmação do LOGRO, FARSA que é o futebol do colosso do futebol, pote 1 do sorteio da champions, infestado de jogadores das pampas, campeões do mundo(as paletes de comentadores que
    pululam nas tvs, simpatizantes daquele clube assim o atestam a cada segundo que passa). E que internamente está com a classificação que está porque quem joga quase sempre contra dez, com o benefício de penalties e autogolos terá normalmente essa classificação.

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    1. Meu caro,
      Em Portugal, criámos um futebol virtual. Para ter interesse, o virtual e o real têm que se parecer. Como o virtual está inventado é preciso reinventar o real para que se possa parecer com o virtual.
      SL
      RM

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  3. Futebol de encher choriços, com antipático resultado de nem um só sobrar para assar...

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    1. Ah, e também faço minhas as palavras dos de cima!

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    2. Meu caro,
      Este empate só serve para nos esfalfarmos na próxima quinta-feira. O que importa é amanhã e mais nada.
      Abraço,
      RM

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  4. Caro Rui,

    Confesso que não vi o jogo, mas já valeu a pena terem jogado para ler a sua crónica! Engolir golos do Paulinho ao lanche não é de facto tarefa fácil, mas compensa por tornar mais lúdico o passeio a Itália. Se estas ocupações de tempos livres servirem para levarem mais a sério o trabalho duro em matagais como os de Arouca, já não perdemos tudo...

    SL

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    1. Caro João,
      O jogo de domingo foi para homens de barba rija. Ainda bem que descansamos naquele jogo do INATEL europeu.
      SL

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