Em teoria, o Tribunal de “O Jogo” pretende ser uma espécie de órgão de limpeza a seco do sistema. Nódoas, detritos ou dejectos, nada escapa à sua acção. Penalties ridículos assumidos como verdades como punhos? Penalties inequívocos transformados em meros choques entre jogadores na disputa da bola? Foras de jogo em que se deve dar o benefício à equipa que ataca ou que defende, consoante seja aquela que se pretende beneficiar? A intensidade dos contactos, às vezes, não conta para nada, pois o que interessa é se há acção faltosa, outras vezes, é decisiva para fundamentar as apreciações às decisões arbitrais? Lances faltosos idênticos, julgados, às vezes, como simples faltas, outras vezes, como acções para amarelo, ou, quando dá jeito, até para vermelho? Bolas na mão, ou mãos na bola, consoante a vontade do freguês? Tudo isto e muito mais, pois, no Tribunal de "O Jogo", a imaginação é um armazém de factos gerido em parceria pelo poeta e pelo mentiroso (Ambrose Bierce, pois claro...).
Sem surpresa, os intérpretes do Tribunal de “O Jogo” são sempre 3 ex-árbitros de futebol. Actualmente o trio é composto pelos nossos conhecidos Jorge Coroado, Paulo Paraty e Pedro Henriques. Trata-se, portanto, de três ilustres ex-árbitros designados para ajudar os actuais homens do apito a evitar que o futebol degenere e se torne num desporto imprevisível. No entanto, ao lermos as suas hilariantes análises somos levados a concluir que, em vez de órgão de limpeza a seco do sistema, esta é, afinal, a secção humorística do simpático jornal desportivo nortenho (uma espécie de “O Sistema ao Cubo”, com diversão garantida).
No recente jogo do Sporting em Paços de Ferreira, Paraty, analisando com rigor científico o lance do atraso fantasma de Rodriguez, acaba por concluir pelo acerto da decisão de Paulo Baptista, pois, diz ele, independentemente de haver ou não intenção do peruano, “o facto é que há um passe objectivo ao guarda-redes e que este joga a bola com a mão”. Pedro Henriques também tenta concluir que a acção é faltosa, mas, mais trapalhão, acaba por fazer um auto-golo com a argumentação utilizada: “Rodriguez, ao querer interceptar a bola, acaba por mudar a sua trajectória, atrasando-a na direcção da sua área, onde Rui Patrício acaba por agarrá-la. Acção passível de livre indirecto”... Paraty e Henriques têm toda a razão. O que dizem tem toda a lógica. O meu cão tem quatro patas. O teu gato tem quatro patas. Logo, o teu gato é o meu cão...
Já Jorge Coroado, normalmente, para o bem ou para o mal, o mais heterodoxo deste trio maravilha, entende que não houve atraso, pois “a bola foi jogada pela canela de Rodriguez e ressaltou para trás”. Mas judiciosamente acrescenta: “Rui Patrício segurou-a, mas devia saber, por experiência própria, que gato escaldado de água fria tem medo...”. Depreende-se, pois, da análise de Coroado que há regras no futebol português que só se aplicam aos guarda redes do Sporting e que, compreensivelmente, estes deveriam estar mais atentos a isso… Todos nós sabemos - e Pedro Proença também - que, na verdade, sempre assim foi e sempre assim será… Depois, em relação à entrada assassina de Luiz Carlos, que, contra equipas com camisolas azuis ou encarnadas, poderia ser facilmente interpretada como lance para vermelho directo (ou amarelo alaranjado, como dizem os comentadores quando acham que foi lance para cartão vermelho, mas não é de bom tom dizer isso em público), Coroado considera que o jogador pacense “fez, simplesmente, pé em riste, jogo perigoso, justificando, somente, o livre indirecto assinalado”. Pelo contrário, há duas jornadas atrás, no lance da carga (legal ou ilegal, era a dúvida) de um defensor do Beira-Mar sobre Van Wolfswinkel na sua área, Coroado mostra o seu lado humanista, preocupando-se com a integridade física do jogador... aveirense: “Van Wolfswinkel já estava desequilibrado na altura do contacto. Na queda, aterrou em cima do joelho do adversário, que podia ter-se magoado”.
Para além da comédia, há também “espaço e volume” para a ficção. Por exemplo, no terceiro penalty de Duarte Gomes contra o Guimarães, Pedro Henriques entende que “N'Diaye, com o braço levantado acima da cabeça, ocupa espaço e ganha volume, tocando deliberadamente na bola. Grande penalidade bem assinalada”… Afastado da arbitragem na sequência de um célebre Benfica - Nacional (onde cometeu a temeridade de anular bem um golo que daria a vitória aos encarnados nos últimos segundos do jogo - O Tempora! O Mores!), Pedro Henriques melhorou entretanto a sua visão e, depois de várias repetições televisivas, consegue, agora, com a preciosa ajuda do seu olho de águia, observar também que: “El Adoua, com o braço direito, de forma deliberada, intercepta a trajectória da bola”… Como dizia o grande Barão de Itarare, quem foi mordido por cobra até de minhoca tem medo…