Ao intervalo (nos dois primeiros jogos):
terão sido dadas instruções ou sedativos?
Nota: Sedativos - substâncias que deprimem o sistema nervoso
central, reduzindo a ansiedade, a irritabilidade ou a excitação e induzindo o
relaxamento ou o sono.
Anos atrás, Rúben Amorim e o seu
braço direito Hugo Viana (com a anuência desesperada do presidente) criaram uma
ficção. Não se tratava (apenas) de uma ideia de jogo – antes uma sequência
interminável de imagens que fizeram o seu curso rumo a uma nova dramaturgia,
cujo mito (enraizado) poderia eventualmente ser resumido: “onde vai um vão
todos”. Naqueles últimos onze jogos, onze vitórias - para o campeonato - antes
da exportação de Amorim, incluindo o último jogo em Braga (Amorim com as malas
feitas) sentia-se no ar o smells like
victory – como o napalm pela manhã do Coronel Kilgore, interpretado por
Robert Duvall no filme Apocalipse Now.
O futebol faz-se (ainda se faz)
de lendas e narrativas, de mitologias que agregam um grande conjunto de pessoas
à volta de um campo de futebol (mesmo que estejam a ver o jogo em casa ou a
ouvir o relato na Tasmânia). A isso se chama mística. Amorim conseguiu unir a
malta ao ponto de estarmos todos em jogo – e ninguém ficava (muito) para trás.
Rui Borges herdou a engrenagem
com os cobradores e maquinistas mais importantes, incluindo os gestores de
apeadeiros e os que gostam apenas de ver passar comboios. Aproveitou o saber como (os ingleses chama-lhe know-how) e foi
campeão. No ano seguinte (ainda com os protagonistas quase todos, excluindo Gyökeres)
parecia que a farpela já não vestia tão bem, como o dominó errado do poema de
Pessoa (deixem passar o armanço) – conheceram-me
logo por quem não era. Bom, não foi quase logo, embora nos jogos principais
fizesse a sua diferença. A eliminação nos quartos com o Arsenal (na sequência
de uma grande liga dos calmeirões) mostrou paradoxalmente um Sporting aliviado
– alguns jogadores incharam tanto que nunca mais voltaram ao sítio, outros
esvaziaram rapidamente e só queriam que a época terminasse. O final foi
burlesco, a equipa parecia uma ex-equipa, arrastando a usa indolência como um
caracol em vacances.
Uns saíram, outros entraram (essa
análise ficará para outra oportunidade). Compete à equipa técnica
(principalmente ao treinador) costurar e juntar os pedaços até que estes se
assemelhem a uma equipa. Caso não tenha grande jeito para a ficcionar, poderá sempre optar pelo ensaio livre ou recorrer ao
teatro de revista. No limite poderá optar pelo documentário ficcionado, onde se
explicará por A mais B que tudo não passa de um embuste para endrominar os
adversários, deixando-os confusos – ao ponto de os próprios jogadores duvidarem
de si próprios e da equipa.
Ao intervalo: terão sido dadas
instruções ou sedativos? Não se sabe qual destes temer mais.
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