sexta-feira, 5 de junho de 2020

Silas 10.0 num jogo escanifobético (*)

Meses à espera de Godot e sai-nos uma versão do Silas. Nada contra, barretes há muitos, mas também os há em barato ou em caro. O Silas 2.0 seria só mais um. O Silas 10.0 não é mais um, é único. Amorim tem os mesmos “powerpoints”. Tem uma ideia de jogo, um sistema tático também. Apesar de tudo, mudou alguma coisa. Entrou o Eduardo Quaresma e o Matheus Nunes e colocou o Camacho a jogar na ala direita e um lutador de sumo na ala esquerda (mais tarde vim a saber que era o Acuña; penso que entretanto lhe explicarão que só abaixo dos cem quilos se conseguem fazer certas jogadas no futebol). 

Nos primeiros minutos, pensei que o júnior fosse um rapaz alto e loiro que jogava do lado esquerdo da defesa, um tal de Mathieu, pois parecia o mais novo. Nesses minutos iniciais, a cada dois passes perdia-se a bola. Os três centrais pareciam três tristes tigres: bola para um, bola para outro, bola para o guarda-redes, com o guarda-redes a ter a responsabilidade de virar o sentido do jogo, fosse com o pé direito fosse com o esquerdo (o seu pior). Pouco a pouco, a defesa do Guimarães foi-se demostrando um buraco a jogar adiantada. Cada bola nas costas era um ai Jesus, Nossa Senhora de Fátima nos acudam! Numa dessas circunstâncias, o guarda-redes teve de sair da área para enfiar uma peitada na bola, permitindo ao Sporar tirar-lha, agradecendo a delicadeza enquanto esperava que ela se aquietasse para a empurrar para a baliza. 

Sem saber ler nem escrever, estávamos a ganhar. No entanto, continuámos como se nada fosse a trocar a bola atrás entre os centrais, os médios e o guarda-redes, porque o a ideia de jogo e o sistema tático são para cumprir. Aumentada a pressão dos jogadores adversários, os do Sporting começaram a atrasar ainda mais bolas para o Max e cada vez mais à queima e para cima da linha de baliza, enquanto este continuava a manter a responsabilidade de a fazer rodar para o lado contrário com o melhor ou o pior pé. Tantas vezes o cântaro vai à fonte até que amor com amor se paga e o Max com a delicadeza do Sporar devolveu a delicadeza do guarda-redes do Guimarães. Assim se permitiu o empate sem se abdicar da ideia de jogo e do sistema tático. Até ao final da primeira parte, o Jovane Cabral teve oportunidade de dinamitar a defesa do Guimarães e o Vietto de demonstrar que é um Postiga com sotaque. 

Na segunda parte entrámos a jogar melhor. O Camacho começou a perceber melhor o seu posicionamento e o Eduardo Quaresma desinibiu-se, apesar do Battaglia continuar a tropeçar em si mesmo e nos adversários sempre que pretendia levar a bola para o ataque. O Jovane Cabral continuava indomável (pareceu o único a não se limitar a comer “fast food” durante o confinamento) e, partindo a defesa adversária, isolou o Sporar para este com toda a sua comprovada delicadeza deitar o guarda-redes e empurrar a bola para a baliza. O bandeirinha ainda marcou falta de distanciamento social (faltava esta!), sem se dar conta que o Sporar estava com um daqueles chapéus em forma de helicóptero que as crianças de Arcos de Valdevez usam. A perder novamente, os jogadores do Guimarães foram porfiando e, como se sabe, quem porfia sempre alcança, para descanso de todas as partes envolvidas, como se viu em seguida. O Jovane Cabral descansou-nos e descansou o treinador quando, voltando a fazer das suas, expulsou um jogador adversário, permitindo que a equipa assumisse definitivamente a sua ideia de jogo e o seu sistema tático sem mais excitações ou eventuais riscos de marcar mais um golo que fosse. 

Por mim, matadas as saudades, parava-se o campeonato mais três meses e voltávamos todos aos emocionantes “briefings” diários da Graça Freitas. Não sei quem é que convenceu o António Costa desta ideia de se retomar o campeonato, embora tivesse o bom senso de perceber que isto não é coisa que se possa ver ao vivo. Mas, sem público, o futebol desnuda-se, deixa de ser competição e passa a ser jogo exclusivamente e, no jogo, nada mudou em Portugal: houve o vinte e cinco de abril de setenta e quatro, a adesão à Comunidade Económica Europeia, o fim da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, a criação da moeda única, o Euro, a ascensão da China na economia mundial, o onze de setembro e o atentado às Torres Gémeas, a crise financeira internacional e das dívidas soberanas na Europa e, finalmente, a pandemia do Covid-19 e nada se criou, nada se perdeu, nada se transformou. Cinquenta anos de acelerado tempo histórico que para o futebol português foram um único momento. Dantes dizíamos que não se conseguiam ver os jogos do campeonato nacional, agora dizemos que também não se conseguem ouvir. 

(*) Resgatei este adjetivo da recente releitura dos “Casos do Beco das Sardinheiras”, de Mário de Carvalho.

11 comentários:

  1. MEU CARO RUI: HÁ MUITA GENTE QUE NÃO SE O QUE FORAM AS TÁTICAS ANTIGAS AS SUAS VIRTUDE E VICISSITUDES.PARA SE JOGAR COM 3 CENTRAIS,O CENTRAL O DO CENTRO TEM DE AS SEGUINTES QUALIDADES:
    SER VELOZ,PRINCIPALMENTE,DOTADO DE UM BOM SENTIDO POSICIONAL E SABER JOGAR COM A CABEÇA LEVANTADA. COMO SABE O COATES TEM MUITO POUCO DISSO. TALVEZ DAQUI A UM ANO OU DOIS QUARESMA POSSA FAZER ISSO. UM ABRAÇO

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    1. Caro Manuel Matias,

      Para mim, tem toda a razão. O central do meio tem de ser rápido e saber sair com a bola. É aquele que tem de dar a linha de fora de jogo.

      Não deve ser por acaso que se vêm poucas equipas com este sistema. Este sistema ou é muito dinâmico ou então está-se sempre em desvantagem numérica nas diferentes linhas, de defesa, de meio-campo e de ataque. Imagino que seja um sistema tático bem difícil de treinar e sobretudo de aplicar nos jogos sem falhas.

      Um abraço

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  2. Faltaram uma linhas para o Vietto caro cronista! :)

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    1. Meu caro,

      Limitei-me a compará-lo ao Postiga. Tem estilo e vai-se a ver e nada! Merecia uma descriaçã mais detalhada dos seus lances. No primeiro, depois de uma grande jogada do Joavane, em vez de atacar a bola, ficou à espera dela e chutou-a sob pressão de um defesa e para a bancada. No segundo, foi dominando a bola, foi dominando até perder o timing do remate e fazê-lo contra a pernas do defesa. Concluiu a primeira parte, com um daqueles remates arqueados para o golo da época que invariavelmente acabam por cima da baliza.

      É a inconsequência, o inconseguimento, como diria a nossa anterior Presidente da Assembleia da República, em figura de gente!

      SL

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  3. Mais do mesmo , mas agora com 14 milhões de custo . A jogar com mais um , tira-se um central e põe-se um ponta de lança , qualquer treinador do distrital faria isso . Há , é verdade ,o amorim tinha dito aos rapazes de braga que o SCP não iria ultrapassá-los ,e se isso acontecesse o amorim iria perder autoridade junto dos rapazes varandianos e trolhas .Alem disso , o amorim sabe que este SCcampo grande não pode ganhar de qualquer maneira , sem mutuo acordo e sem elegancia .....

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    1. Meu caro,

      No mínimo, esperava-se o movimento távtico que imortalizou o Jorge Jesus: colocar o Coates a ponta de lança. Foi assim que se fez ao mundo e é agora campeão e tira umas "selfies" com o Bolsonaro.

      SL

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  4. Não desgostei do jogo do Sporting e Amorim teve o mérito de colocar alguns jovens a jogar em vez de Eduardos e Cia. Para além disso, o Vitória de Guimarães é uma boa equipa. Bem sei que, pelo preço que custou, se exige, obviamente, mais de Amorim. Empatou mas o adversário directo do Sporting, o Braga, perdeu, ou seja, com jeitinho, o Sporting ainda chega ao terceiro lugar, pois Amorim vem com adereços, segundo jogo no Sporting e um jogador da equipa adversária é expulso; não foi capaz de aproveitar, para vencer,é verdade, mas, pelo menos, não perdeu.

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    1. Meu caro,

      O jogo teve as suas circunstâncias atenuantes. A primeira meia-hora foi um autêntico jogo de pré-época, não se alinhavando dois passes seguidos. Com as arrancadas do Joavane, as coisas melhoraram. Na segunda parte também melhoraram mais a partir do momento que ficámos a jogar contra dez uns não queriam e outros queriam mas não conseguiam.

      O que me preocupou foi a continuação dos três centrais com a continuação dos problemas na saída de bola para o ataque. Os defesas vão passando a bola entre si sem avançar e a recuar muitas vezes, até começarem a passar bolas à queima ao guarda-redes para cima da linha de baliza.

      O Amorim revelou coragem ao meter o Eduardo Quaresma e o Matheus Nunes, para além de manter jovens como o Max, o Camacho ou o Jovane. Vamos ver se é para continuar e se os jogadores revelam todo o seu (desejável) potencial.

      SL

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  5. Caro Rui
    Nem tudo esta perdido, Jesé, Fernando e Bolasie já não vestem a verde e branca. Quem diria!
    O panorama vai melhorar, o jogo com o Guimarães foi um ensaio e como dizem no teatro : depois dum mau ensaio vem um grande espetáculo.
    Só faltam 3 pontinhos para igualar o Braga e o Amorim especializou-se em ganhar ao Benfica e FCP.
    SL

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    1. Caro João,

      É verdade. Vimos-nos livres desses três pernetas, desses três caros pernetas. O Amorim também parece querer fazer o tira-teimas com os miúdos e não andar a passeá-los nos treinos e a dar-lhes um par de minutos de vez em quando.

      Quanto à nossa classificação, não sei se confie no Amorim ou nos treinadores das equipas adversárias. Assim, confio na ajuda do Custódio.

      SL

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