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Lateral Esquerdo é, dos blogues que conheço, o que mais e melhor ensina sobre futebol, em particular, sobre a forma de o olhar do ponto de vista sistémico. Esse ponto de vista não é neutro. Quase sempre, valoriza mais a dimensão tática e coletiva do que o desempenho individual. O desempenho individual, aliás, só tende a ser valorizado nesse contexto mais tático e coletivo.
A meu ver, este é um olhar muito profissional. É o olhar que adoto no exercício da minha profissão também. Mas é limitativo quanto à completa apreensão dos resultados das atividades humanas, como o futebol.
Esta forma de análise, muito frequente também na minha profissão, a dos economistas, tende a confundir risco com incerteza irredutível. O risco é algo de probabilisticamente determinável. Agora, há coisas que acontecem e ponto final. A crise financeira internacional foi um desses Cisnes Negros. Também tende a desvalorizar o caráter autorrealizável das expetativas humanas. Se, individual e coletivamente, acreditarmos que economicamente as coisas vão correr mal, então, elas vão mesmo correr mal; o contrário também acontece.
Passando da economia para o futebol, há golos que acontecem por acaso. Por isso, nem sempre conseguimos explicar os resultados e classificações. Muitas vezes, confundimos essas explicações com a construção de narrativas apropriadas “a posteriori”. Há golos que só aconteceram porque os jogadores acreditaram, quase sem uma completa consciência dessa crença, que os iam marcar. Não é por acaso que os melhores jogadores, dentro – e, por vezes, fora – do campo são possuidores de uma enorme autoestima. A junção da qualidade técnica a essa autoestima, dá origem a golos e resultados completamente improváveis.
Com tudo isto quero dizer que estou sempre em desacordo com o que se afirma no Lateral Esquerdo? Não. O que privilegio é a dimensão individual do jogo. Quando vejo um jogo estou sempre à espera da obra de arte que vai imortalizar o seu autor.